(Santana)

Acordei com a cabeça pesada e com uma leve ardência no meu estômago. Uma que estava ficando familiarizada. Tinha consulta marcada, e sabia mais ou menos o que esperar: fazer endoscopia, levar injeção na veia, perder a memória por uns 15 minutos por conta da medicação, e perder quase um dia inteiro grogue. Tinha feito isso uma vez, em Lima, com um médico amigo de papi. O resultado foi gastrite leve na ocasião e eu passei 20 dias tomando remédio e uma gororoba de suco verde no café da manhã.

O dia já tinha clareado. Ficaram raras as vezes que conseguia dormir noites inteiras por causa dos trabalhos da Columbia e da Rock'n'Pano. Sorte que o semestre estava no fim. Seria um alívio ficar praticamente três meses empenhada apenas na minha pequena empresa. Levantei, escovei os dentes e fui arrastando o meu chinelo até a cozinha. Rachel e Quinn estavam de pé. Minha irmã tinha uma série para gravar. Parece que as coisas andavam bem no set.

"Bom dia, Santy." Rachel abriu um sorriso, desses que ela dava depois de uma boa trepada com a Quinn. Como aquilo era repugnante. "Já preparei o seu café da manhã." Apontou para o copo com uma coisa verde dentro e gelatina com frutas. Eu gostava de gelatina, mas não no café da manhã. E aquela coisa verde...

"O que diabos é isso?"

"Suco de couve com um pouquinho de leite só para quebrar um pouco o amargo e dar um gosto bom."

"Esquece... cadê meu café?"

"Nada de café, Santana! Se você estiver mesmo com uma gastrite, a cafeína vai ferir ainda mais o seu estômago. Couve faz bem e ajuda a curar. E depois, isso é receita da abuela."

Abuela era a doutora da medicina alternativa. Ela e papi viviam discutindo sobre eficácia de chás e outras coisas naturais. Papai é que adorava as receitas e concordava com muitas delas. Os dois se davam muito bem. As receitas de abuela incluíam suco de limão com bicarbonato para difícil digestão, chá de olho de goiabeira para cortar diarréia, ameixa preta para prisão de ventre, couve e purê de batata para gastrite, chá de maracujá para insônia, boldo para cortar ressaca, um shot de tequila para aliviar dor de garganta. A primeira vez que tomei um shot de tequila foi sob supervisão de abuela quando era criança. Eu e Rachel cansamos de tomar chá de erva cidreira para ver se a gente ficava mais calminha quando passávamos o dia na casa dela.

"No voy a tomar esa bazofia!"

"Si usted no bebe, me quedo de pie todo el dia y no voy a dejar trabajar".

"Me dá essa droga!" Admito, o suco de couve não era ruim.

"Se as duas me dão licença, acho que vou pegar o meu caminho." Quinn disse assim que terminou o café dela.

"Você vai gravar hoje?" Perguntei.

"Sim... vou aproveitar que segunda é o dia mais tranquilo no estúdio, e vou sair mais cedo para gravar o doc."

"Legal."

"Você não acha legal?" Ela desdenhou.

"Não acho. O tema deste doc. é clichê."

"Santana! Acho que é um pouco cedo para embates, correto?" Rachel se meteu.

"Se me dão licença..." Quinn deu um beijo nos lábios da minha irmã, pegou a mochila dela e saiu.

Estava morrendo de vontade de tomar o restinho do café da garrafa. O sexto sentido da minha irmã funcionou mais uma vez e ela derramou o precioso líquido negro na pia. Quase chorei.

"Não trapaceie quando chegar na Columbia." Ela me deu um beijo no rosto e me entregou minha mochila.

"Isso, me expulsa de casa!"

"Tenha um bom dia." Sorriu como a atendente de telemarketing da propaganda da TV.

Tive a oportunidade de abrir meu computador para checar minha empresa no intervalo do primeiro para a segunda aula. Haviam 27 novos pedidos na lojinha on-line. Cada unidade custava 10 dólares mais impostos. O frete mais barato saía de graça para residentes de Nova York. Tinha passado três mil dólares em vendas, menos os 5% que tinha de pagar a Quinn, Mercedes e Johnny. Não era mal para uma empresa nascente, estava perto de conseguir pagar o custo de produção da primeira remessa de panos, mas estava longe de recuperar o investimento inicial. Precisava fazer alguma coisa. Tinha de estudar outras formas de fazer o produto chegar até as pessoas. Precisava de um projeto de marketing melhor, e já tinha reservado matrícula em duas matérias do assunto no próximo semestre em Columbia. Mas não poderia esperar às aulas para me movimentar.

Abri o e-mail da Rock'n'Pano. Alguns Spams, e-mails de clientes com críticas, sugestões e elogios. Eu listava os mais freqüentes e relevantes. Respondia a todos eles. Por enquanto, conseguia fazer isso sozinha. Havia o telefone de um empresário querendo conversar. Bom sinal. Tudo que precisava era conseguir vendas para pessoas jurídicas. O nome dele era Robson Silva. Nome de brasileiro, pelo visto. O telefone era da Flórida.

"Gostaria de falar com o senhor Silva." Disse ao telefone.

"É ele!"

"Bom dia senhor Silva. Meu nome é Santana Berry-Lopez, sou proprietária da Rock'n'Pano. Recebi um e-mail do senhor querendo conversar comigo".

"Oh sim, senhora Berry-Lopez. Eu vi o seu site e achei os seus produtos muito bonitos. Tenho uma loja aqui em Miami e queria saber se poderíamos conversar sobre uma encomenda..."

"Claro! Eu posso te passar toda a tabela de vendas para pessoas jurídicas. Mesmo que o senhor não concorde com alguns dos planos sugeridos, tenho certeza que podemos negociar uma forma que possa ficar interessante para nós dois..."

Já disse que adorava os brasileiros? Andrew era filho de um, e agora Robson Silva apareceu de súbito na minha caixa de mensagens. Talvez as nuvens negras estejam começando a se dissipar. Comemorei.

"Posso saber que sorriso é esse no seu rosto?" Andrew me surpreendeu. Agarrei o rosto do meu namorado e o puxei para um beijo na boca bem dado.

"As coisas vão dar certo... eu sinto isso!" Outro beijo.

"Sua felicidade é a minha felicidade." Ele disse em português. Não entendia direito o idioma apesar das similaridades. Essa frase eu reconheci e não me pareceu correta.

"Não seria 'mi casa es su casa?'"

"Meras adaptações, espoleta."

"Nerd."

Voltei para o computador. Abri meus e-mails pessoais. Tinha um e-mail da Brittany, o que fez meu coração bater depressa. Ela teve o bebê e eu não pude estar lá com ela, por ela. Robert Santana Belford nasceu no dia 11 de março. Tudo que pude fazer foi mandar flores e conversar com ela ao telefone. Infelizmente nos falamos pouco desde então. Sabia o suficiente: Brittany vivia junto com Jim numa casa própria (dele), e pareciam felizes. Abri o e-mail. Era uma foto dela com o garoto. Robert era negro, mais claro que o pai, não dava ainda para dizer muita coisa, mas os olhos deles eram puxados para cima como os da mãe. O garoto tinha feições bonitas. Brittany estava um pouco mais cheia, porém igualmente adorável.

"Oh, sua melhor amiga mandou foto. Que linda." Andrew espiou a tela do meu computador. "Esse é o filho dela?"

"É sim." Sorri e saí da mensagem.

"Não vai responder?"

"Depois." Não queria explicar a Andrew o quanto aquilo me deixava feliz e triste ao mesmo tempo.

Passei o olho em mais algumas mensagens. Havia uma de Mercedes perguntando como iam os negócios, outra de Shelby, algumas dos meus colegas da Columbia. Havia também um e-mail do advogado do senhor Weiz. Havia uma mensagem curta escrita no corpo do texto sobre entrar em contato em breve e um arquivo em anexo. Era um scan de um documento antigo. Uma nota promissória assinada por bubbee de 21 anos atrás. O que isso queria dizer?

"Problemas?" Andrew franziu a testa.

"Talvez. Preciso correr para casa resolver algumas coisas." Fechei meu computador e fui arrumando minhas coisas na mochila.

"Espere." Andrew segurou meu braço. Estava preocupado. "O que aconteceu?"

"Coisas de família."

"Quer que eu vá contigo?"

"Não precisa." Passei a mão no rosto dele. "Eu te ligo."

De jeito algum assistiria as demais classes do dia. Não teria cabeça para tal. Fui para casa e comecei a fazer cálculos, consultar sites jurídicos pelo meu celular e me inteirar. Coisas como os juros sobre o valor da nota promissória. Ela ainda era válida? Era falsa? Assim que cheguei em casa e me encontrei sozinha, peguei o telefone.

"Alô?"

"Alô, bubbee. É Santana."

"Oi Santana. Quer que eu chame o seu avô?"

"Não bubbee, eu queria mesmo era falar com a senhora".

"Aconteceu alguma coisa? Rachel está bem?"

"Rachel está ótima. Está gravando um seriado da HBO. Definitivamente ela deixou de ser uma loser."

"Oh, isso é muito bom... do que você quer conversar?"

"Bubbee eu recebi uma nota promissória assinada pela senhora. Trata-se de um empréstimo no valor de 20 mil dólares que a senhora pediu a Caleb Weiz há 21 anos. Não sei o que isso quer dizer, mas vindo de quem vem, é um aviso. Eu preciso saber com o que eu estou lidando. Por que o advogado de Weiz me mandaria isso?"

"..."

"Bubbee, por favor! É a minha segurança e de Rachel que pode estar em jogo".

"Caleb não machucaria vocês duas!"

"Talvez não... pelo menos não fisicamente... mas é evidente que ele não mede esforços para nos chantagear. Se ele não me machucaria, ainda restam papi, Shelby, Quinn... meus amigos... a senhora e zaide. Eu. Preciso. Saber! O que é essa nota promissória de 20 mil dólares? Por que a senhora pediu esse dinheiro emprestado?"

"Foi por sua causa... e de Rachel..."

"Como? A gente nem tinha nascido ainda! Quer dizer, pela data Shelby estava grávida..." Suspirei. Algo me dizia que isso tinha a ver comigo e com Rachel. "Shelby estava grávida." Repeti, dessa vez afirmando. "Isso tem a ver conosco, não é? Com o nosso nascimento. O que houve?"

"Hiram e Juan já tinham gasto todas as economias com a inseminação e pelo pagamento de Shelby. Os valores acertados eram para uma criança apenas, mas dois óvulos foram fecundados. Quando soube disso nos primeiros exames de imagem, Shelby cobrou um novo valor para ceder as duas crianças, ou ela levaria uma consigo... aquela que foi concebida naturalmente."

"Bubbee... você sabia que papi e Shelby..."

"Foi quando todos nós soubemos, Santana. Seu pai e Shelby tiveram um caso. Toda química que ela tomou, permitiu que ela engravidasse em épocas diferentes. Mas a inseminação só foi feita uma única vez, por isso não fazia sentido que um embrião fosse duas semanas mais velho que o outro. Hiram ficou furioso, e a acusou de ter dormido com um namorado qualquer, rompendo o contrato que pedia abstinência por parte dela durante um certo período. Foi quando Juan confessou que ele e Shelby dormiram juntos."

"O que papai fez?"

"Ele se separou do seu pai por uma semana. Foi um período que meu Hiram sofreu muito... Depois, os dois conversaram, e entraram em um acordo. Shelby, claro, ficou magoada. Ela procurou um advogado, desses de chave de cadeia, para chantagear Hiram e Juan. Esse advogado achou uma brecha no contrato, que falava apenas de uma criança, não de duas, e pediu mais dinheiro. Hiram e Juan não tinham como conseguir mais dinheiro, sequer tinham mais como pegar outro empréstimo no banco. A família de Juan já tinha feito a parte dela para ajudar e, naquela época, como sabe, Hiram e seu avô não se falavam. Então eu pedi esse dinheiro a Caleb. Dessa forma, vocês não seriam separadas."

Respirei fundo e fiz o melhor para não xingar a minha mãe até a quinta geração, mesmo sabendo que eu me incluía na linha sucessória. Eu sabia da história torta da minha família, dos esqueletos no armário. Sabia perfeitamente porque Shelby pediu grana extra: para se vingar porque papi escolheu papai. Penso que deve ter sido a decisão de uma mulher amargurada do tipo: ok, já que você não vai ficar comigo, então preciso de uma compensação extra. Não era que minha mãe tivesse intenção de ficar com uma de nós... Que ódio! E pensar que o nome dela agora constava na minha certidão de nascimento: mãe: Shelby Ann Corcoran. Antes, nosso documento constava como "mãe desconhecida".

Procurei me acalmar. Eu já sabia os percalços entre Shelby e papi. Agora precisava descobrir mais detalhes desse acordo em específico.

"Santana?"

"Estou bem, bubbee. Só com muita raiva da minha mãe neste momento".

"Não fique. Shelby era só uma menina muito jovem, com muitos sonhos. Quando Hiram me contou, eu achei uma loucura eles contratarem uma garota como ela, mas disse que Juan tinha caído nas graças de Shelby, que ela era perfeita e geraria filhos lindos. Ele tinha razão nesse ponto".

"Caiu mesmo nas graças dela... os dois estão de casamento marcado!"

Às vezes era um saco papi ser bissexual. As coisas seriam mais simples se ele fosse simplesmente gay, como papai. Mesmo casado com um homem naquela época, a outra cabeça dele ficou durinha por uma mulher. Pode parecer inacreditável eu sentir raiva porque o eu pai transou com a minha mãe, mas sim, eu sentia. Sabe o que é mais contraditório? Demorou, mas agora estava genuinamente feliz por meus pais terem se encontrado e ficado juntos após a morte de papai.

"Bubbee..." Voltei a me concentrar no assunto que interessava: a nota promissória. "Essa dívida de 20 mil dólares foi quitada?"

"Não... Caleb disse para que não me preocupasse com isso, que era uma forma de ele ajudar Hiram. Só assinei a nota promissória como fim de registro de contabilidade. Você acha que Caleb pode cobrar?"

"Dificilmente. Notas promissórias são prescritas depois de cinco anos. Esse documento não preocupa, mas sim o que ele representa. O que quero saber, bubbee, é se existem dívidas ativas suas com o senhor Weiz? Você sabe se zaide possui alguma? Porque se a senhora ou zaide tiverem, e ele decidir protestar na justiça, tenho medo do que possa acontecer."

"..."

"Bubbee, por favor, eu preciso saber se essa promissora é só para forçar os podres da nossa família, ou se isso significa alguma coisa além."

"Santana... eu..."

"A senhora o quê, bubbee?"

"Quando o seu avô precisa... às vezes... ele prefere recorrer a Caleb do que pagar os juros altíssimos do banco. Eu não tenho certeza quais são os termos, mas até onde seu avô me diz, ele paga essas dívidas. Fora isso, não consigo pensar em mais nada. Caleb me emprestou 20 mil e deu o dinheiro que pagou a faculdade do seu pai. Foi isso. Você acha... Caleb não faria isso... ele não é tão perverso e baixo."

"Mas ele mandou o recado para mim!"

"Eu... eu... eu vou conversar com Caleb... ele costuma me ouvir..."

"Bubbee..."

"Sim, Santana?"

"Deixa... eu volto a ligar..."

Precisava falar com alguém, de um conselho sábio. Uma pessoa que pudesse analisar tudo do lado de fora, e poder dar uma opinião bem estruturada. Mas quem? Quinn não era indicada, apesar de ela apoiar nossas decisões. Mike e Johnny? Eles não falavam a língua. Bubbee não sabe o que fazer ou dizer, zaide não pode nem sonhar com isso, papi não sabia que essa história chegou a esse ponto, até porque se soubesse, já teria vindo a Nova York colocar uma bala entre os olhos de Weiz. Por essa mesmíssima razão não falo com Shelby ou com qualquer um dos Lopez. Foi quando me lembrei do professor Harris. Ele tornou-se o meu mentor dentro de Columbia. Quando não era aluna, eu era monitora das classes dele. Sem falar que ele seria o meu mais provável orientador. O professor Harris e eu tínhamos as nossas desavenças, e eu o achava muito chato e metódico, mas a gente aprendeu a se tolerar e a se respeitar. Peguei o telefone e rezei para que ele não tivesse viajado.

"Alô?"

"Professor Harris?"

"Sim?"

"Professor, aqui é Santana. Eu estou com um problema e queria saber se o senhor poderia me receber para uma conversa".

"Problemas acadêmicos?"

"Não senhor, pessoais. Mas eu não tenho com quem conversar sobre esse assunto em específico. Garanto ao senhor que não são problemas desses de jovens... é um bastante sério!"

"Neste caso, passe aqui em minha casa às cinco da tarde. Hoje estou apenas de manhã na universidade".

"Obrigada professor. Estarei lá."

Passei a mão no rosto. Estava tensa. Precisava arrumar alguma coisa para me distrair até lá. Qualquer coisa. Era quase meio dia, e não tinha fome. Rachel iria reclamar se soubesse que não me alimentei. Comecei a trabalhar em pequenas coisas da Rock'n'Pano, comi uma banana, tomei um suco de laranja. Não tinha fome, mas o meu estômago doía. Tomei um banho e me arrumei. Calça jeans e blusa de manga comprida. Nada sexy. Peguei meu carro e fui ao encontro.

Professor Harris morava em Dyker Heights, no Brooklyn, numa dessas casas de dois andares com cerca viva na frente em rua de classe média. Estive na casa dele durante uma ocasião, quando ele chamou alguns alunos para uma confraternização de fim de ano. O trânsito não estava de todo ruim, e a minha viagem demorou menos que previa. Estacionei e bati à porta. O professor Harris me recebeu bem e logo me chamou para tomar um chá com biscoitos. Senhora Harris estava em casa. Ela era uma senhora muito digna e educada. Logo que nos serviu o lanche, nos deixou à vontade para conversar. Então respirei fundo e contei toda a história. Terminei por chorar em cima da mesa, o tipo do vexame emocional que eu queria evitar.

"É uma baita história, Santana." Ele disse depois que a senhora Harris me serviu um copo de água com açúcar para me ajudar a acalmar.

"Eu não entendo isso, professor! Não entendo porque Weiz tem essa urgência!"

"Você sabe por que a máfia é um negócio familiar?" Balancei a cabeça negativamente. "Porque assim as disputas são minimizadas com a instituição de um herdeiro. Quando não é de sangue, é um aprendiz treinado desde pequeno ou para ser uma ferramenta ou para assumir o legado. O mundo dos negócios não é diferente. Weiz é um conhecido executivo não só de Nova York, mas do país. Todos sabem da fama dele de negociador determinado, duro, agressivo. Mas também não é segredo que a saúde de Weiz anda frágil. Isso gera especulação para onde vai um patrimônio estimado em 4,5 bilhão. Posso imaginar a pressão que ele deve estar sofrendo de acionistas, de outros executivos, até do governo".

"Se ele me apresentar como herdeira... e minha irmã..."

"Calmaria... mas só se uma de vocês estiver envolvida com os negócios."

"Essa promissória? Eu tenho medo que ela ainda possa ser usada de alguma forma. Tem esses empréstimos do meu avô que eu não tenho conhecimento. E se Weiz puder tomar tudo do meu avô na surdina?"

"Santana, eu sou um economista, não um médium. Não prevejo o futuro. Minhas análises são baseadas em estudos, em movimentação de mercado. Às vezes esses conhecimentos podem ser aplicados para a vida. Às vezes não. Digo que é um risco. Quem pode apostar se Weiz vai realmente acionar essa arma? Cabe a você pagar para ver. Por outro lado... nem todo mundo tem poder para realmente fazer a diferença, entende? Não estou dizendo que você deva se submeter à vontade de Weiz, mas uma vez que você esteja no comando, vai ter em mãos a oportunidade de fazer a diferença. Em poder de construir algo bom. Já pensou por esse lado?"

"Não... eu não havia pensado por esse ângulo".

"Pois deveria! Eu não sou o cara que vai dizer o que você deve ou não deve fazer. Sou apenas o seu professor, e como tal, aproveito para te dar mais uma lição: saiba analisar todas as possibilidades e caminhe para aquela que julgar melhor dentro dos objetivos que deseja. Te conheço tempo suficiente para entender que você não deseja o poder. Mas você quer vitórias e afirmação. Muitas vezes é preciso ter contato com o poder para conseguir vitórias que possam trazer benefícios ao coletivo e, ao mesmo tempo, proporcionem sua afirmação. Para essas coisas, é preciso muita coragem também".

"Entendi"

Professor Harris foi a minha luz no fim do túnel. Assimilei as palavras dele e agradeci por ter me recebido e também à hospitalidade da senhora Harris. Era meio da noite quando cheguei em casa. Tínhamos visitas. Estranhei por causa da raridade em que isso acontecia, tirando as presenças de Mike e Johnny. Rachel convidou dois colegas de elenco para jantar. Rom Tyler era um sujeito não muito alto, de olhos claros, cabelos escuros meio encaracolados estilo professor Schue. Era bonito. Lembro de tê-lo visto numa participação especial na série Live Action de fãs sobre Star Wars que fez sucesso na internet. Já Amanda Springfield era só uma loira aguada e sem-sal. Rachel nos apresentou, mas eu não estava muito para conversa. Queria Rom e Amanda fora da minha casa, porque assim eu poderia conversar à sério com minha irmã. Olhei para Quinn. Ela tinha aquele sorriso forçado no rosto. Também não estava gostando da conversinha e das piadinhas internas dos atores. Foi quando me retirei para o meu quarto.

Trabalhei um pouco na Rock'n'Pano. Vi que as encomendas tinham um número estável. Robson Silva respondeu às propostas. Escolheu uma encomenda com 30 unidades. Foi menos do que eu esperava, mas era um começo. Vendia os panos a 7 dólares para pessoas jurídicas, mais impostos, que era algo muito próximo ao custo de produção. Confirmei o pedido e enviaria a encomenda assim que o pagamento fosse efetuado. Com as vendas do dia, alcancei os custos de produção. Agora precisava caminhar para recuperar o investimento inicial, mas isso só aconteceria de verdade em até seis meses. Se não conseguisse rever o dinheiro nesse período, era um forte indicativo que o melhor era fechar as portas.

"Você poderia ser menos antipática com os convidados!" Rachel invadiu o meu quarto com os braços cruzados e fazendo cara petulante. Não estava com paciência.

"Nós vamos cancelar o documento." Disse na lata para cortar o papo.

"O quê?" Quinn também invadiu o meu território. "O que aconteceu para você mudar de opinião?"

"Uma nota promissória e algumas reflexões."

"Se importa em explicar?" Rachel ainda estava com os braços cruzados.

Suspirei fundo. Estava cansada, passava da meia noite e eu só queria tomar uma chuveirada e dormir. Mas isso era uma decisão séria, por isso contei toda a história do que se passou no meu dia. Quando terminei, estava encostada na cabeceira da minha cama com Rachel deitada ao meu lado e Quinn sentada na poltrona que eu gostava de ficar enquanto mexia no computador no meu quarto, fazendo meus trabalhos acadêmicos ou não.

"Precisa fazer contrapartidas." Disse Quinn. "Tipo, a promissória pela anulação do documento. Aí você destrói essa atrocidade de uma vez por todas".

"Pensei em algo mais. Não sei se vai dar certo, daí a necessidade de um advogado para nos acompanhar. Penso também em fazê-lo assinar qualquer documento em que eu possa ter algumas garantias. Preciso terminar a minha faculdade, quero ter um prazo para me preocupar apenas com o meu pequeno negócio e quero deixar zaide fora disso".

"Não gosto disso Santy. Não gosto dessa história."

"Amanhã mesmo procuro um advogado, ok? Agora me conte. Quem eram aquelas duas peças?"

...

(Rachel)

Estava tão animada com as gravações. Quando o nosso diretor começou a nos mostrar como ele queria que gravássemos a cena de ensaio no palco, apesar de difícil e exigir muito do físico (ainda bem que vou à academia quase todos os dias e quando não, faço yoga em casa), foi gratificante fazer algo distinto de um musical. Teatro dramático, principalmente os clássicos de William Shakespeare, exigia muito mais preparo. A cena tinha duas dificuldades: num momento tínhamos de como os personagens, e noutro, com nossos personagens atuando. Luis era o mais exigido, porque todos estavam com os papeis estudados na série, menos ele. Era um ator de cinema que não tinha o treinamento apropriado. Taylor Moore, o nosso diretor do episódio, tinha experiência com teatro e queria que a gente fizesse uma tomada como se estivéssemos mesmo ensaiando à sério. Luis foi fantástico. Ele era um ator jovem e muito bem preparado, diferente do personagem. Eu tinha Kath em mãos, mas existia certo bloqueio quando precisava encarnar também Ofélia.

Nem sempre conseguia o balanço ideal, e os takes avançavam. Minha frustração era grande, até que May me puxou para um canto. Confiava nele. Era o ator mais gabaritado e experiente entre nós, formado Royal Academy of Dramatic Art e era considerado um ator shakespeariano.

"Rachel, Ofélia é um personagem trágico." May disse. "O noivo diz que ela deveria ir a um convento! Ela é tomada pela amargura e depois por uma aparente loucura. Ela comete suicídio. Pense nisso, pense como seria trágico ser privada do seu amor!"

"Mas e Kath?"

"Olha, querida, isso é uma armadilha. Não pense nela. Pense em Ofélia. A proposta da cena é deixar Jack constrangido, certo? Ele fica constrangido porque todos fazem o melhor, menos ele. Logo, faça o melhor e deixe as complicações de Jack para Luis. Elas não são suas."

"Ok."

Pedi um copo de água e respirei fundo. Era apenas uma passagem de Hamlet e quem deveria reagir primeiro à má performance de Jack era Grace Hemon, a Helen. Repetimos a cena e eu podia sentir os meus colegas um pouco irritados com os meus erros. Procurei bloquear os olhares de reprovação. Will mandou que recomeçar a cena do início, eu segui os conselhos de May. Pode não ter sido o ideal, mas foi o suficiente para o take.

"Corta! Fechou!" Will gritou e o elenco deu suspiros de alívio.

"Intervalo de dez minutos." Meg a assistente gritou com uma prancheta em mãos. "May e Passon fazem o próximo take. Berry, Segal, Tyler e Springfield na espera. O resto está dispensado por hoje. Não se esqueçam de pegar o cronograma das filmagens amanhã. Vamos estar em locação."

A organização da produção do seriado era primorosa. Toda semana recebíamos em nossa caixa de mensagens um cronograma da semana com os dias que deveríamos ir para gravar, os horários aproximados e as locações. Mas havia imprevistos, por isso esse cronograma era reajustado de tempos em tempos. Às vezes com modificações significativas, outras vezes ele permanecia o mesmo. Às vezes éramos escalados apenas para ensaios se a cena envolvesse movimentos coreografados mais complexos. Como, por exemplo, a cena da briga na casa de Helen, que teve marcações precisas num espaço mínimo para elenco e produção. Se não fosse muito organizado e ensaiado, não sairia.

Fui para a saleta de espera junto com meus colegas. Cada um esperava de um jeito diferente. Luis era o mais fechado e mexia no celular o tempo todo, Amanda e Rom brincavam e interagiam mais com os demais do elenco e com a equipe técnica. Eu às vezes conversava com os demais, às vezes ficava quieta no meu canto para estudar mais um pouco da cena. Isso variava com a circunstância. May e Will eram os mais velhos e estavam sempre descontraídos com todos. George O'Nell, que fazia o diretor inseguro e deslumbrado da companhia, era um dos sujeitos mais cativantes que conheci. Jane Bright, a nossa vilã da temporada, era a atriz de maior expressão e era de lua: nos dias em que estava de bem com a vida, era encantadora. Grace se julgava a estrela e por vezes arrastava o namorado para o trailer. Havia também o pessoal do elenco secundário e convidados que gostavam muito de conversar e trocar experiências. Dependendo de quem fosse o convidado, a gente tirava fotos e tietava.

Não era dia de set cheio. Apenas parte do elenco principal e alguns do elenco secundário que tinham cenas. Segundo o cronograma da semana, eu teria um dia de folga. Minha personagem teria poucas cenas no episódio e a equipe de Slings And Arrows não adotava a política de filmar dois episódios de uma vez. Terminava um, começava o outro. Isso era importante para o elenco porque facilitava nosso entendimento e progressão nos personagens.

"Que dia!" Amanda sentou-se na cadeira ao lado da minha. "Ainda bem que a gente só tem mais uma cena antes de ir para casa."

"Verdade. E amanhã é a minha folga."

"Sortuda. Amanhã eu venho aqui para gravar uma cena apenas com Rom."

"Por um acaso isso é ruim?" Ele se fingiu de ofendido. "Esteja agradecida, mulher por contracenar com este maravilhoso pedaço de carne." Começamos a rir por causa da gesticulação ridícula de Rom.

"Eu cheguei a ver "Across The Universe". Te falei?" Amanda ignorou o nosso colega. "Achei incrível. Que voz você tem, garota!"

"Obrigada. Fazer essa peça foi bem divertido." Pelo menos na maior parte do tempo. O ambiente só ficou tenso de verdade nos dois últimos meses.

"Tenho vontade de fazer Broadway." Rom não parava quieto e agora se alongava. "Fiz a adaptação de O Apanhador no Campo de Centeio em L.A e só. O resto foi só trabalho de câmera. Deve ser legal fazer teatro aqui em Nova York."

"É essencial." Luis entrou na conversa. Ele que também era outro ator da Broadway. "É outro universo, pode ter certeza. Há diferenças até entre as turmas do drama e dos musicais por aqui. Mas acho que todo mundo deveria passar pelos palcos alguma vez. É prova de fogo."

"Diferenças entre turmas?" Amanda perguntou.

"Nada demais. É que as produções dos musicais costumam ser maiores e mais caras, ocupam os principais teatros e chamam mais atenção e mídia. Por isso o pessoal que faz drama fica com ciúmes." Mostrei a língua para Luis.

"Uma pena que você não ganhou o Tony." Rom me alisou. "Tenho certeza que aquele prêmio ficaria muito bem em você, Berry."

"Cuidado, Rachel. Esse cara aí é o maior pegador." Luis alardeou e Rom gargalhou. "Ele adora relacionamentos com as atrizes que contracena".

"Mesmo?" Amanda franziu a testa e cutucou Rom enquanto eu senti meu rosto corar. "Porque nossos amigos em comum disseram o mesmo de você." E foi a vez de Luis ficar sem jeito.

"Então? Pub depois do expediente?" Rom sugeriu. "Estou afim de um bom whisky 12 anos".

"Não vai dar!" Refutei. "Tenho péssimas experiências com bares e trabalho. Não é uma boa combinação." Dizia isso por causa dos tempos de ATU em que Nick e Steve bebiam todas e ficavam inconvenientes. Heather fez o mesmo caminho depois.

"Então que tal um jantar?" Todos concordaram, menos eu.

"Fica para a próxima!"

"Está preocupada com quem? Cê não mora sozinha?" Acenei negativo para Rom.

"Não, seu tapado. Rachel mora com a irmã dela." Dessa vez acenei positivo, agora para Amanda. "Aliás, bem que você poderia nos convidar para um jantar na sua casa. Você e Luis são os residentes daqui. Sejam mais hospitaleiros, pessoal!"

"Claro." Luis disse entediado. "Primeiro as damas. Rachel?"

"Se quiserem..." Fiquei receosa. Eles não sabiam de Quinn, e convidar amigos de elenco para ir à minha casa significava necessariamente terem conhecimento da minha namorada. Eu tinha de escondê-la da mídia e do público. Talvez não fosse justo ter de escondê-la também os meus colegas de trabalho, muito menos fingir que ela é só uma amiga na nossa própria casa. Não seria correto e, sinceramente, essas limitações atrapalhavam minha socialização com meus colegas de Slings And Arrows. Então olhei para os meus colegas de elenco mais próximos e desabafei. "A gente pode jantar lá em casa hoje, mas primeiro tenho de avisar minha namorada."

"Você tem namorada, mulher?" Rom franziu a testa. Senti meu rosto ruborizar e temi a rejeição deles. "Que pena, Berry. Eu estava planejando entrar em suas calças. Vou ter que mirar em outra pessoa agora." E começou a rir. "Mas diz o seguinte: sua namorada é gostosa? Você poderia me convidar para assistir..."

"Rom!" Amanda bateu nele por mim e eles começaram a rir. "Tenha um pouco mais de respeito."

"Ah, então vamos jantar na casa da Rachel, ela apresenta a namorada gostosa e está fechado." Rom sentenciou.

"Vocês não se importam... que eu tenha uma namorada?" Estava admirada. "Quer dizer, eu vim do teatro que é um ambiente mais liberal e essa é a minha primeira experiência na TV."

"Berry, isso é Hollywood, apesar de estarmos em Nova York." Rom falou sério. "Ninguém é 100% e todo mundo experimenta alguma vez."

"Mesmo Rom?" Luis provocou.

"Quem nunca violou um traseiro cabeludo que atire a primeira pedra."

"Você violou traseiros cabeludos, meu caro. Eu não." Luis colocou os óculos e me encarou. "Fico feliz por ser honesta conosco, Rach. Não tem mesmo que se envergonhar de nada. Ninguém aqui vai espalhar, como é do nosso código da Broadway, certo?" Sorri. Os atores da Broadway tinham mesmo um pacto informal de não falar nada do que acontece nos bastidores ou da vida pessoal do outro. "Mas não vou poder ir ao jantar porque tenho um encontro."

Liguei para Quinn avisando que levaria alguns colegas de trabalho para jantar. Depois de gravarmos a última cena do dia, Rom e Amanda me acompanharam no táxi até Astoria. Quando Quinn atendeu a porta, pude ver algumas sombras de insegurança no olhar dela. Podia entender porque eu também estava um pouco nervosa. Então dei um leve beijo nos lábios da minha namorada e logo a apresentei aos meus colegas. Reparei que com esse gesto, eu a deixei mais relaxada. Sei que ela ficou chateada porque eu a apresentei como minha "melhor amiga" durante as festas pós-Tony. E Quinn era uma pessoa orgulhosa.

Ela estava preparando um Strogonoff de frango e uma salada de folhas picadas com morangos e molho à escolha. Eu tinha uma coleção de diferentes tipos na geladeira. Pelo menos esse era o tipo do prato rápido de se fazer e que costumava agradar. Enquanto o jantar não era servido, abri uma garrafa de vinho para os convidados.

"O que você faz, Quinn?" Percebi que Amanda estava tentando ser gentil ao trazer minha namorada ainda pouco à vontade para a conversa.

"Sou estudante de Cinematografia na NYU."

"Quinn vai ser uma cineasta maravilhosa. Ela fez um curta-metragem muito bom chamado "A Song For Robert Rodriguez". É só procurar no Youtube... tem muitos acessos, inclusive. Esse filme venceu o júri popular do festival da NYU. E agora ela será a diretora de fotografia de um documentário que vai ser produzido sobre o Bob Dylan!"

"Na verdade..." Ela disse sem jeito. "É sobre a cena folk de Nova York. Mas Dylan também está no vídeo".

"Interessante!" Rom disse. "Documentaristas são os idealistas do ofício. E os maiores pedintes também".

"Ok, acho que o strogonoff está pronto." Quinn disse de repente. "Vamos comer?"

Assim que nos servimos, Santana chegou com cara de poucos amigos. Procurei integrá-la na conversa, mas ao contrário de Quinn, ela não estava nem mesmo se esforçando a ser agradável. Deu três cortes em Rom e insinuou que Amanda precisasse de uma cirurgia plástica. E tão logo terminou a refeição, se retirou da mesa e foi para o quarto. Precisei contornar a grosseria justificando que a minha irmã estava sob muito estresse por conta na nova empresa que ela tinha aberto, e até aproveitei para fazer propaganda.

"Vou trabalhar com o diretor Richard Godoy depois de gravar a série." Rom disse já um pouco afetado pelo vinho.

"Aquele que adora garotinhas de 12 anos?" Amanda questionou.

"Richard Godoy é pedófilo?" Quase engasguei. Richard Godoy era um cineasta respeitado e premiado com um Sundance e no Festival de Veneza.

"Não sabe?" Amanda disse séria. "Dizem que ele costuma praticar turismo sexual em certos países. Meninas novinhas de 12 anos são as preferidas. Diretor fantástico, sem dúvida, mas tem esse podre. Aliás, vários poderosos de Hollywood. Muitos deles pegam adolescentes e fazem orgias."

"E ninguém fala nada?" Quinn ficou indignada.

"O dinheiro compre o silêncio, Quinn." Rom explicou.

"Mas se você tivesse provas irrefutáveis, como vídeos e fotos? O HD desses caras deve estar cheio de podridão a espera de uma denuncia." Minha namorada pressionou.

"Se fosse eu, é provável que entregaria anonimamente para a polícia e deixava isso nas mãos deles. A indignação só pode aparecer depois do escândalo em nosso meio, Quinn, senão você corre o risco de se queimar e aí é fim de carreira."

Assim a noite continuou. Depois da panela raspada e de duas garrafas de vinho, Rom e Amanda se despediram. Confesso que estava cansada, mas ainda tinha fôlego para dar uma bronca em Santana. Concordo que Rom foi um cretino narcisista algumas vezes, mas isso não justifica o fato de ela ter levantado a mesa fazendo terremoto e se retirado sem nem ao menos dizer boa noite. Isso sem falar na constante cara amarrada.

"Você poderia ser menos antipática com os convidados!" Entrei no quarto dela já deixando claro que estava descontente com aquele comportamento arredio.

"Nós vamos cancelar o documento." Santana disse subitamente. Mal desgrudou os olhos do computador.

"O quê?" Quinn estava logo atrás de mim. "O que aconteceu para você mudar de opinião?"

"Uma nota promissória e algumas reflexões" O tom de voz de Santana era petulante e dizia nas entrelinhas: "vocês são idiotas". Mas o assunto era sério.

"Se importa em explicar?"

E ela explicou. Com mais detalhes que eu gostaria. Foi um impacto saber que Shelby cobrou mais dinheiro do meu pai e papai para não separar eu e Santana no nascimento. Quer dizer, sempre soube que minha mãe podia ser maquiavélica e manipulativa quando bem entendesse. A maior entre as bitches. Mesmo assim, doeu muito saber dessa história. A parte boa foi saber que ao menos Santana procurou alguém capacitado para pedir conselhos. Foi bom vê-la mais tranqüila e ciente do que tinha de fazer. Quando desejamos boa noite, passava de uma da madrugada. Eu estava oficialmente morta.

"Obrigada." Beijei Quinn. "Você foi fundamental hoje".

"Não pense que foi fácil." A voz dela era de alerta. "Seus amigos não são exatamente pessoas fáceis de se ter empatia imediata."

"Aquelas são pessoas com quem vou conviver diariamente nos próximos meses entre as gravações e o trabalho promocional. Tenho que me dar bem com eles".

"Você talvez, mas eu não gostaria que a companhia deles se tornasse freqüente".

"Quinn, já é madrugada e eu não vou discutir isso contigo." Entrei no banheiro e fechei a porta.

Deixei a água escorrer pelo meu corpo. Precisava relaxar. Coloquei minhas roupas de dormir e deitei-me. Quinn estava fingindo que dormia, eu a conhecia bem o suficiente para saber. Dei um beijo no rosto dela e me virei para o lado. Amanhã a gente conversaria com mais calma. O vinho, a madrugada e o dia cheio não nos ajudariam a ter qualquer conversa produtiva.

...

15 de maio de 2015

(Quinn)

Não vi Rachel se levantar. Quando acordei, ela já havia saído para gravar. Deixou o suco de couve de Santana pronto em cima da mesa, um recado para mim na geladeira para que eu não me esquecesse que hoje era dia de pagar o cartão de crédito, e que me amava. Eu não tinha documentário a fazer, nem estúdio e nem freela. O último que fiz foi de fotografar os formandos jogando softball no Central Park com uniformes e tudo mais. Idéia deles, mas que achei legal. O resultado ficou muito bom e recebi o que era devido. Não me preocupava com o dinheiro que recebia da Rock'n'Pano, porque destino dele era ficar aqui em casa de qualquer forma. Que sentido tinha esse dinheiro sair do bolso de Santana, ir para o meu para pagar nossas próprias contas? Ao menos Santana tinha condições de participar mais. Mês passado pagou a conta do celular (dela) e a internet. Já foi alguma coisa.

Eu precisava ir a NYU, mas não o primeiro horário de classe, o que me permitiria não ter pressa pela manhã. Minha vida profissional e acadêmica estava corrida, difícil. Boa coisa que o ambiente doméstico estava calmo, tirando os problemas das meninas com Weiz. De qualquer forma, as coisas pareciam encaminhadas. Santana contatou um advogado, e havia uma reunião marcada para discutir e oficializar os termos. Ela realmente assumiria a Weiz Co. em algum momento. Caleb Weiz ganhou a queda de braço. Sinceramente esperava por isso. Quando uma universitária ganharia de um empresário determinado e calejado?

"Bom dia, Q." Santana resmungou assim que viu o copo de suco de couve para a gastrite. "Caramba, ela não desiste!"

Admito que essa mania quase obsessiva de Rachel querer cuidar da gente era adorável. No dia que precisei fazer três obturações, Rachel me fez trocar minha escova de dente, comprou a pasta indicada pelo dentista, mesmo que ela custasse o dobro do preço da que usávamos, e ficou controlando o listerine por um mês. Quando o líquido estacionava, ela brigava comigo. Eu odiava listerine! Por outro lado, ela tinha razão. Prevenção era fundamental. Desembolsamos quase mil dólares pelo tratamento, porque o meu plano de saúde não cobre tratamento dentário: era um bem inferior ao das meninas, mas pelo menos cobria serviços de emergência do hospital e me permitia ter descontos em exames médicos.

"Beba logo, Lopez 1. Se não te cura, pelo menos mal não vai fazer." Eu experimentei um pouco do suco uma vez. Não era ruim.

Santana virou o copo e tomou o líquido de uma vez. Tinha a impressão de que aquilo saturava e tirava a fome, a julgar que ela passou a comer menos no café da manhã.

"O que vai fazer hoje?" Santana encostou-se no balcão da cozinha enquanto comia meia banda de mamão junto comigo. A fruta custava os olhos da cara, mas era um pequeno luxo que a gente gostava de ter de vez enquanto. O fato de Rachel ser vegetariana nos forçava a ter mais diversidade de frutas e legumes em casa.

"Só NYU, mas devo ir ao banco depois."

"Contas?" Acenei. "Por que você não resolve pela internet?"

"A gente não consegue sacar dinheiro pela internet."

"Bingo!"

"Sabe que a lavanderia da semana é sua, correto?" As roupas transbordavam no cesto. Santana sempre deixava tudo para última hora quando era a semana dela de cuidar da casa.

"Faço isso hoje, fiquei tranqüila, lavo tudo depois de voltar de Columbia."

"Não vai sair depois?"

"Acho que não. Talvez Andrew venha para cá para a gente ver algum vídeo." Então ela soltou uma risadinha que me deixou intrigada. "Não é nada. É que me lembrei da sua cara com os colegas de Rachel".

"Nossa! Nem me fale." Passei a mão nos cabelos. Os colegas de elenco de Rachel eram malas metidos a engraçadinhos.

"Não é? Eu enfiaria a cabeça daquele Rom na privada e daria descarga em dois tempos. Que cretino!"

"E as notas que Amanda deu para os atores que ela já tinha dormido? Que classe!" Resmunguei.

"Costumava fazer isso na escola. Lembra?"

"Eu acreditava! Aliás, todo mundo da escola acreditava que você tinha dormido com a metade da população masculina de McKinley High. Não imagina a minha cara de choque quando Rachel me disse que você tinha mais fama do que cama".

"Os garotos não desmentiam os boatos. Também não fazia a menor questão. A fama me beneficiava."

"Por que você permitia isso em primeiro lugar?"

"Pela popularidade. E para não deixar Britt levar a fama sozinha. Ela era quem havia dormido com a metade interessante da população masculina e algumas cheerios de Mckinley High! Mas você conhece a Britt: sempre gostou de uma boa trepada! Principalmente durante nosso ano de sophomore. Para ela não ficar mal falada sozinha, eu comecei a dizer para todo mundo que tinha transado com metade da escola e que Britt só fazia isso por causa da minha má influência. Daí eu virei a bitch, a satanás... quando na verdade os únicos caras que eu fui para cama da escola foram Puck, aquele idiota que me tirou meu v-card e Finn."

"Britt perdeu a virgindade contigo, não foi? Eu me lembro quando vocês duas mudaram o comportamento uma com a outra. Beijinhos pelos corredores após o treino da tarde e tudo mais. Aliás, desculpe por ter te ameaçado naquele dia."

"Isso é que eu chamo de desculpas tardias." Santana sorriu. "Eu tenho o v-card da Britt, de Finn e de Paul. Não me orgulho de ter o V-card de Finn. Rachel ficou arrasada quando soube, e a gente passou uma semana sem se falar dentro de casa até que papi nos trancou no menor banheiro da casa e só nos soltaria quando resolvêssemos nossas diferenças. Foi uma conversa e tanto." Ela franziu a testa. "Por outro lado, dormir com Finn foi um baita favor que fiz para aquela anã. E para você, por tabela." Verdade. Imagino que se Rachel tivesse perdido a virgindade para Finn, as coisas poderiam ter sido muito mais complicadas para mim.

"Eu tenho o v-card só de uma pessoa."

"Essa é fácil: Rachel." Acenei positivo. "Eu jurava que você tivesse o v-card de Sam."

"Ele não era mais virgem, mas também não tinha muita experiência. Foi bem morninho. Mas foi importante ter ido para a cama com ele. Foi quando eu descobri que definitivamente não conseguia me conectar com o corpo masculino."

"E aquela história que você ficou com uma mulher que te ensinou os caminhos?"

"Foi no dia que ajudei com a mudança de Claudia."

"Claudia?"

"Às vezes eu trabalhava de babá para o filho dela. A noite, quando ela voltava, tinha o costume de me oferecer um lanche e a gente conversava... enfim, nesse dia em especial, eu a ajudei com a mudança, ela me pagou, me ofereceu um lanche, nós conversamos. Ela sacou que eu não era hétero e perguntou se eu já tinha beijado uma mulher... foi quando rolou."

"Foi bom?"

"Foi excelente! O melhor de tudo foi que, depois de ter transado com Claudia, eu tive coragem de admitir para mim mesma que eu sou gay. Acho que foi a partir daí que tive coragem para lutar pela Rachel."

"Você sempre gostou da minha irmã, não é? Quer dizer, eu sempre desconfiei que debaixo daquela hostilidade houvesse paixão reprimida. Bom... tecnicamente, Brittany descobriu isso primeiro."

"Deus me livre se meu pai soubesse que era amiga da filha dos Berry-Lopez: aqueles dois amaldiçoados!" Exagerei no tom para deixar claro que estava sendo irônica com os preconceitos do meu pai. "Um dia eu falei com Frannie que queria ser amiga de Rachel, que até que gostava dela. Naquela época ainda era algo platônico, entende? Desejava a amizade. Mas ela me fez jogar um slushie em sua irmã no dia seguinte."

"Rachel chorou o dia todo e eu quis seriamente te bater. Mas me contentei em esvaziar o pneu do carro da sua irmã." Disso eu não sabia. Só lembro que Frannie ficou louca da vida quando viu que tinha de trocar o pneu e não viu nenhum dos servos dela por perto. "Quer dizer, eu sei que Rachel não é uma pessoa fácil de lidar, principalmente quando ela empina o nariz e dá um ataque de diva, mas ainda assim ela é a minha irmã caçula."

"Você e seus 29 minutos de diferença..." Revirei os olhos.

"Mata uma curiosidade, Fabray. Quando você transou com Puck, foi por que sentia alguma coisa por ele, ou foi só para tentar afastar pensamentos gays?"

"Quando eu fui com Puck, em parte foi para fazer o que minha irmã tinha me instruído: que deveria perder a virgindade logo. Em parte porque eu tinha curiosidade, um comichão, entende?" Santana acenou talvez porque entendesse essa parte. "E também porque aquele dia foi frustrante, quase depressivo. Eu tinha visto Rachel se apresentar linda ao lado de Finn naquele ensaio do coral no auditório que a gente espionou pela primeira vez. Depois flagrei cheerios me chamando de gorda e me senti a última das mulheres. Meus pais tinham saído para uma festa, eu fiquei bêbada, liguei para Puck e me ofereci porque pensei que se desse para ele, tudo poderia melhorar. Não foi grande coisa, doeu, e ainda fiquei grávida."

"Puck nunca usava camisinha, se você não pressionasse. Era eu quem carregava preservativo... sempre." Então me encarou. "E com Sam? Você não sentiu... nada?"

"Sentia conexão alguma. Nem podia dizer que era algo físico, porque não sentia tesão e nem nada por ele. Quando transamos, era como se eu fosse uma boneca inflável que fingia orgasmo. Imagina estar com o cara mais bonito da escola e nada! O pior dia foi quando fizemos anal no aniversário dele."

"Ele te pediu para fazer anal como presente de aniversário?"

"Foi exatamente isso. Doeu feito o cão. Foi pra nunca mais."

"Caramba... eu nunca fiz anal."

"Com ninguém? Nem com Puck?"

"Com ninguém."

"Bom pra você. Essa foi a minha pior experiência."

"Para te ser sincera, eu achava que você faria sexo vestida em lençóis com buraquinhos nas partes." Ela terminou o café e relaxou na cadeira.

"Eu adoraria ter sido uma golden star." Fui catedrática. "Mulher é macia, beija melhor, cheira melhor, tem gosto bom, e tem os seios... as pernas... vagina quentinha e apertada... ainda mais Rachel, que é bem flexível e tem uma língua espetacular."

"Para de falar dela! Informações demais, Fabray! Não preciso saber dessas coisas e esse assunto morre por aqui."

"Como você não soubesse do que estou falando! Você só esteve com pelo menos duas garotas, até onde sei."

"Verdade. Mas a partir do momento que você dá informações a respeito da minha irmã, o assunto morre. Eu não preciso saber!"

Eu só podia rir do comportamento de Santana. Então comecei a lavar as louças do café da manhã antes de sair de casa. Era mais um dia de normalidade na minha vida. Rachel deixou uma mensagem de texto no fim da manhã quando estava em sala na NYU. Quis saber se estava tudo bem, e para lembrar uma série de pequenas tarefas e favores que ela gostaria que eu fizesse. Era adorável e irritante ao mesmo tempo essa preocupação de Rachel em se certificar que a gente estivesse ciente da agenda do dia.

Almocei com Santiago. Ele contou como eram as coisas na Bad Thing. Trabalhava como assistente de arte e em outras tarefas semelhantes. Disse que aquele era um lugar para se aprender porque o ritmo era intenso. A Bad Things tocava vários projetos ao mesmo tempo, tanto publicidade quanto de dramaturgia. Santiago podia reclamar do salário baixo em proporção ao ritmo de trabalho. Ele era estagiário e ganhava 700 dólares (e eu louca por uma oportunidade por lá), mas gostava do trampo.

"Está uma loucura a minha vida, Fabray. Por isso que a gente não se vê mais. Aliás, eu mal tenho energia para a minha namorada. Olha que tragédia."

"Tenho certeza que ela entende." Sorri.

"E você? Como vai a vida no estúdio daqui e as coisas no doc?"

"Normais. Gravar o doc é uma delícia. Ganho pouco, mas o trabalho me mostrou que a minha vocação é fazer cinema, fazer a direção de fotografia. Adoro isso. Ganhei 900 dólares até agora. A produtora repassa o dinheiro no fim da semana de acordo com as horas trabalhadas. Ganho mais com os freelas. Mesmo assim está ótimo. Até agora deu para conciliar tudo."

"Pense pelo lado positivo: você ganhou mais trabalhando menos."

O mal de Santiago é que ele tinha visão muito materialista e mercadológica das coisas. O salário era importante, mas tinha de pesar coisas além do dinheiro. O documentário não era uma fonte de renda maravilhosa. Por outro lado, gozava de um ótimo clima de trabalho, fazia o que gostava, o ritmo era cadenciado e eu teria no meu currículo o crédito de direção de fotografia em uma produção profissional. A gente se despediu porque ele tinha de sair correndo para a Bad Things, enquanto eu tinha de ir ao banco.

Meu telefone tocou e estranhei quando vi o nome de Monica.

"Monica?"

"Oi Quinn." A voz dela parecia animada pelo telefone.

"Aconteceu alguma coisa? Mudanças na agenda de filmagens?"

"Ué? Eu só posso te ligar quando é algo relacionado com o trabalho?"

"Claro que não. Desculpe." Meu rosto corou.

"As meninas vão sair para dançar hoje." As meninas que ela se referia eram as que participavam das filmagens como assistentes e talvez as amigas dela. "Arrumamos convites para a Girls Girls Girls. Não gostaria de vir com a gente?" A Girls Girls Girls era uma famosa boate lésbica no Brooklin. Tinha fama de atrair todos os tipos de sapatão e andrógenas de NYC. Também diziam ser um lugar bom para solteiras à caça. Não era a minha e nem a de Rachel.

"Obrigada, mas tenho outros planos."

"Vamos lá, Quinn. Viva um pouco! Você é mais nova que eu, mas age como uma quarentona republicana." Eu era republicana. "Precisa se soltar mais enquanto pode. Leve sua garota."

"Minha namorada está ocupada hoje e eu não vou sair sem ela."

"Você iria se ela fosse?" Tentou me testar.

"Lembra que eu te falei que não gosto muito desses locais."

"Locais gays ou locais de dança?"

"Gays!" Me senti a maior das homofóbicas. Para não dizer que minha reluta era sem razão, uma vez, Rachel, Santana e eu fomos a um bar gay no Village indicado por Roger, meu antigo chefe, e não gostamos da experiência. Até mesmo Santana ficou retraída com a quantidade de garotas não atraentes que tentaram algo com ela. Rachel e eu só não fomos incomodadas porque éramos um casal. Mesmo assim, nunca me senti tão escandalosamente olhada. Talvez porque não fosse o bar que oferecia ambiente adequado para nós. Talvez fosse uma questão de pesquisar um lugar mais em sintonia com nosso perfil.

"Isso é uma pena. Principalmente vindo de uma lésbica assumida. Mesmo uma femme muitíssimo atraente como você tem lugar neste bar. Não há lobos maus por lá, Quinn. Só Chapeuzinhos Vermelhos levadas que buscam um pouco de diversão em paz."

"Olha, você entendeu errado." Fiquei constrangida, mas senti que toda tentativa de consertar tornaria as coisas piores. "Eu só gostaria de ficar em casa hoje, ok? Talvez num outro dia e num outro lugar..."

"Tudo bem, Quinn. Vou deixar você vencer este round. No próximo, você não me escapa." O tom dela era de paquera, embora estivesse me acostumando com esse jeito da Monica.

Era envaidecedor saber que tinha uma fã. Mas eu procurava não pensar muito nisso. Não podia perder o controle de um relacionamento tão bom que tinha com Rachel para pensar na tietagem de uma colega de trabalho.