(Quinn)
Abri e fechei os olhos repetidas vezes. Mal acordei, e a ressaca não tardou em tomar conta dos meus sentidos. Passei a mão no rosto. Olhei para baixo, para o meu abdômen. Por Cristo, até um leve movimento dos olhos me deixava tonta. Uma cabeça estava fazendo do meu corpo travesseiro. Rachel. Ela estava só de calcinha e sutiã. Eu estava vestida. Completamente vestida, aliás. Bom, não seria a primeira vez. E a luz... cadê os óculos escuros quando se precisa deles? Passei a mão nos meus cabelos e joguei o meu braço para o lado. Minha mão se chocou em alguma coisa... alguém. Meu coração disparou e fiquei com medo de olhar para o lado. Por Cristo. O que eu fiz? Contei até 10 e criei coragem de virar meu rosto. Santana. Meu coração saiu pela boca quase que literalmente. Santana estava dormindo de camiseta e calcinha.
"Ai meu pai, por favor não! Permita que não tenha acontecido nada demais!" Confesso que até fantasiava em fazer uma ménage com Rachel e outra gostosinha qualquer. Mas Santana nunca chegou perto dessas fantasias. Não, nunca, jamais! Seria perturbador!
Meu estômago começou a revirar por causa do álcool e desse amanhecer traumático. Sem gentileza, tirei Rachel de cima de mim, e saí apressada para fora daquela cama Queen size. Mas na corrida para o banheiro eu me esborrachei no chão. Tropecei em alguém. Mercedes. O que Mercedes estava fazendo ali? Ela também estava em poucas roupas. Não havia tempo para especular. Eu precisava correr para o banheiro. Mal cheguei ao sanitário e despejei o conteúdo do meu estômago. Uma, duas, três vezes. Quando terminei, olhei para o ambiente. O banheiro era grande e bonito. Tinha uma banheira e dentro dela estava... Kurt... sem camisa. Parecia morto. Dei descarga e fiquei ali sentada tentando me situar. Ponto um: nós estávamos em um hotel. Um pequeno e muito charmoso que ficava nas proximidades de Cleveland à beira do lago Erie. Ponto dois: nós chegamos nele no dia anterior. Ponto três: era o casamento dos pais de Rachel e Santana. Ponto quatro: fizemos a despedida de solteiro de Shelby na noite anterior. Por Cristo, que ela não estivesse também espatifada no chão do quarto do hotel. Isso seria demais para agüentar. Eu me esforcei para me levantar e lavar o meu rosto.
"Oi Quinn!" A voz veio por trás de mim e estava... alta como um inferno. Olhei em direção a dona. Brittany. Ela estava com um saco cheio de gelo em mãos.
"Britt! Você não parece que bebeu..." Meu cérebro não estava funcionando direito.
"Claro que não. Estou amamentando, esqueceu?"
"Oh! É verdade." Não tinha muita memória do que aconteceu na despedida de solteiro. Não dava para dizer. Voltei a minha atenção para o saco de gelo. "Pra que isso?"
"É para colocar no tornozelo de Santana. Ela vai precisar. Oh, a propósito, parabéns!"
"Como assim?" Quando Brittany ameaçou explicar, ouvi o grito... da própria Santana.
"POR DIOS, ME DUELE!"
Brittany correu para o quarto e eu fui atrás. Rachel estava despertando. Mercedes também. Brittany colocou o gelo no tornozelo de Santana, que se contorcia de dor. Rachel estava confusa, olhando para a própria nudez parcial e toda a situação. Mercedes se levantou com dificuldade e logo correu para o banheiro. Provavelmente também vomitaria. Kurt também devia estar despertando àquela altura. Se não, talvez estivesse mesmo morto.
"San, temos que ir para o hospital! Seu tornozelo está bem inchado".
"O que aconteceu?" Rachel estava preocupada, e aparentava também não ter memórias da noite passada.
"Ela virou o pé. Mas estava tão bêbada que nem sentiu".
"ME SIENTO AHORAAAAA!"
"Santana, meu bem, seja educada uma vez na vida e abaixa o volume!" Kurt finalmente acordou, com aquela postura típica com dois dedos na têmpora e um braço atravessado, sustentando o outro.
"Em que quarto estamos?" Mercedes perguntou com cara baleada.
"No quarto de Kurt." Brittany respondeu. Bom, ela parecia ser a única a saber de tudo.
"Oh... isso é... estranho!" Kurt estava mesmo grogue.
Miranda Lopez e as tias das meninas apareceram na porta do quarto querendo saber da gritaria. Quando viram Santana, trataram de ajudar. Bom, elas estavam em boa forma, além de Brittany. Tinham condições de socorrer melhor do que o resto de nós. A avó materna das meninas também apareceu. Ficou quase que encolhida na entrada do quarto, espiando a movimentação. Era uma figura estranha essa senhora que mal era lembrada, mas tinha todo direito de estar ali como mãe da noiva. Escoraram Santana e a levaram para o hospital falando um monte de coisas em espanhol. Tinha certa dificuldade em entender esse idioma apesar do meu esforço para aprender. Achava extremamente sexy quando Rachel fazia amor comigo falando em espanhol. Olhei para minha lady... ela estava sem-graça em ser flagrada pela avó e pelas as tias nessas circunstâncias, só de calcinha e sutiã. E não era do tipo de algodão do dia a dia: era lingerie sexy, de renda, usada quando se tinha segundas intenções.
"Ok... alguém me explica o que aconteceu por aqui?" Mercedes se jogou na cama depois que Santana foi carregada para fora do quarto.
"A última coisa que eu me lembro foi da gente chegando ao hotel, não me pergunte como." Rachel respondeu. "E acho que a gente brincou de jogo da verdade... não tenho certeza... por deus..." Foi a vez de ela sair correndo para o banheiro só de calcinha e sutiã. Lentamente, me dirigi ao banheiro. Não sentia segurança nos meus passos e a luz me incomodava. Encontrei Rachel debruçada no sanitário.
"Eu quero morrer." Ela disse baixinho, chorosa. Dei a descarga e a ajudei a se levantar. Ela lavou rapidamente a boca, e saímos do banheiro com ela escorada em mim. Mercedes e Kurt foram os únicos que permaneceram no quarto, mas eu não estava interessada em parar para uma conversa.
"Vamos para o nosso quarto..." Conduzi Rachel porta afora sem ao menos dizer tchau aos amigos.
Ela aceitou meu gesto de prontidão e segurou a minha mão para ajudar a se sustentar. Foi quando o meu coração disparou. O anel. O anel de noivado que eu estava planejando dar a Rachel numa noite romântica no dia do meu aniversário. Aquele anel estava no dedo de Rachel. Acelerei o passo porque minha mulher estava semi-nua, e porque não queria que ninguém visse que estava quase em pânico. O nosso quarto era o 210... sim, 210. A porta era de cartão. Procurei no bolso da minha jaqueta. Um alívio encontrá-lo intacto. Mas antes que tivesse a chance de passar o cartão, Rachel girou a maçaneta. A porta estava aberta. O nosso quarto estava com quase tudo no lugar, exceto a minha mala remexida. Eu tinha leve impressão que eu mesma fui responsável por aquilo. Rachel olhou para a mão e analisou o anel. Parei de respirar por um segundo e lutei para não surtar.
"Você me pediu em casamento?" Rachel parecia se controlar.
"Eu tinha outros planos para fazer o pedido..." Disse baixinho. Queria morrer. "Não foi minha intenção fazer o pedido à beira de um coma alcoólico. Meu desejo era me lembrar de cada momento quando fizesse o pedido."
"Noivado... eu não me lembro bem... do pedido... minha mente está confusa, mas acho plausível dizer que você foi espontânea." Ela deu uma risadinha e isso me deixou aliviada.
"Mas então? Rachel Barbra Berry-Lopez?" Ajoelhei-me diante dela. "Você aceita casar comigo?"
"O quê? Sem discursos bonitos?" O jeito brincalhão com que ela respondeu me trouxe alívio. Ela dizer sim bêbada era fácil, mas dizer sim sobrea, mesmo com ressaca, era outra história.
"É maldade você pedir palavras bonitas para alguém que está com uma baita ressaca!" Ela então me beijou nos lábios. Beijo mixuruca, mas nossos hálitos estavam podres.
"Dizem que a melhor forma de celebrar um noivado é provocando alguns terremotos... em cima da cama... depois que você escovar os dentes..." Ela sussurrou no meu ouvido, fazendo minha pele se arrepiar. "Minha resposta é sim. Seria louca de não desposar o amor da minha vida." Sorri, mas a minha cabeça girava tanto que o romantismo foi embora com a descarga. Recuperá-lo levaria tempo.
"Rachel, você sabe que eu não costumo desperdiçar qualquer oportunidade de fazer amor contigo, mas eu estou nojenta, precisando urgentemente de fazer a minha higiene pessoal... e você também. Sem contar que não acho que um orgasmo vá ajudar nessa ressaca infernal." Então beijei a mão dela. "Que tal essa proposta: a gente faz a nossa higiene juntas, mãos bobas são totalmente permitidas, tomamos umas aspirinas, pedimos uma refeição no quarto e relaxamos um pouco até termos condições de celebrar propriamente?"
"Hummm... parece ótimo!"
E assim fizemos. Comemoramos nosso noivado num quarto de hotel na véspera do casamento dos pais de Rachel tomando uma sopa de legumes e assistindo reprises de "House" (Rachel era fã) no Netflix, deitadas na cama em confortáveis pijamas. Foi bem diferente do que tinha planejado e imaginado. Eu iria levar Rachel para assistir "O Rei Leão" na Broadway, depois jantaria com ela no Tropical Sensation para depois, num passeio romântico pelo Central Park, eu pediria a mão dela. Mas eu a propus bêbada, aparentemente durante um jogo da verdade e com outros três bêbados e talvez Brittany, como testemunhas. Nunca estive tão feliz. Quando o episódio terminou, Rachel dormia. Fechei os olhos e adormeci também.
Acordei horas depois. Passava das cinco da tarde e levei um susto por ter dormido por quase seis horas. Pelo menos a cabeça estava melhor.
"Boa tarde." Rachel beijou a minha testa.
"Dormi demais?" Procurei levantar, mas era má idéia fazer rápido. Rolei de lado devagar e tomei mais uma aspirina. O porre foi épico. "Acordou faz tempo?"
"Um pouco. Só não tive coragem de me levantar. Fiquei pensando no meu anel."
"Oh." Ergui uma sobrancelha. Fiquei preocupada. E se ela mudasse de idéia?
"Precisamos planejar uma cerimônia perfeita do nosso casamento. Mas estou preocupada com o tempo. Meu semestre está todo ocupado com a nova peça. Não poderemos marcar nossa cerimônia para agora... e terá de ser necessariamente em Nova York, porque eu não quero casar em Ohio. Não faria sentido."
Josh era um cretino de marca maior, mas fazia um excelente trabalho como agente de Rachel. Ele arrumou uma audição para Rachel e ela conseguiu o papel de protagonista num novo musica off-Broadway baseado em David Bowie. Não tinha muitos detalhes a respeito do projeto, e Rachel ainda não havia assinado o contrato, mas ela deveria participar de todo o processo de ensaios e ficaria numa temporada de três meses no papel. Se a peça der certo, a atriz substituta, ou mesmo outra assume pelo resto da temporada. Rachel não sabe se poderá fazer a peça por mais tempo por causa do seriado, que pode ser renovado para uma segunda temporada.
"Nossa cerimônia será perfeita até mesmo se a gente sair do cartório direto para uma sorveteria."
"Sorveteria?" Ela resmungou. "Prefiro cafeteria."
"Pode ser." Eu me aconcheguei a ela. "Pensa em alguma data?"
"Penso em estações. Gosto do inverno, da neve branca..."
Ficou em silêncio. Eu também procurei não falar tão logo. Era bom imaginar o cenário, embora o inverno não fosse minha estação favorita.
"Queria ficar eternamente aqui..." Disse aconchegando Rachel contra o meu corpo. Estávamos tão em paz. Eu poderia passar toda a minha vida abraçada a minha noiva que nunca me cansaria.
"Temos o jantar com os noivos..." Rachel suspirou.
"Será que vão notar se a gente não for?"
"Quinn... eu sou a filha da noiva... e do noivo. Lógico que vão. Além disso, minha mãe mandou uma mensagem de texto reclamando de Santana..."
"Obviamente..."
"E recomendando para que a gente não se atrase para o jantar."
"Isso me leva a outra pergunta: devemos fazer o anúncio?"
"Não sei... hoje e amanhã são dias que os meus pais deveriam ter toda a atenção para si. Que tal fazermos o seguinte: eu vou usar o meu maravilhoso anel de noivado e vou circular normalmente. Se alguém perguntar, não vou negar. Daí a gente vê o que acontece. O que acha?"
"Para mim está perfeito".
Devagar saímos da cama e começamos a nos arrumar para enfrentar outras pessoas. Rachel e eu caminhamos de mãos dadas até o restaurante preparado exclusivamente para a família e amigos. Muitos já estavam circulando por lá. Miranda estava com Robert no colo, e Brittany estava ali perto corujando o filho e mantendo distância razoável de Santana, sentada numa cadeira com o pé em cima de outra. Brittany não parecia feliz. Nem Santana, para dizer a verdade.
"O médico disse que ela rompeu os ligamentos do tornozelo, mas que precisa de um exame melhor para ver se foi total ou parcialmente." Brittany carinhou a cabeça de Santana. "Pobre San, vai ter que andar de muletas por algum tempo".
"Vou ter que fazer uma artroscopia... papi entrou em contato com um colega dele de Nova York... então, já viu... não vou escapar."
O jantar de confraternização estava cheio. Beth corria para cima e para baixo junto com outras duas crianças da idade dela. Minha filha estava cada vez mais bonita e esperta. Era admirável a energia que ela tinha. Uma parte da nossa turma do Novas Direções também foi convidada, porém eles atenderiam apenas à cerimônia no dia seguinte. Os outros não compareceram e eu podia entender. Os anos se passaram e contatos foram perdidos. Mercedes, por exemplo, só não perdeu mais o contato por causa da Rock'n'Pano e porque estava de casamento marcado com Júlio, primo de Rachel e Santana. Kurt e Finn foram convidados junto com Carole e Burt. Karofsky namorava Kurt. Era só fazer as contas. Mas gostei de rever Kurt. Pouco tinha contato com Puck, e a nossa ligação se resumia a Beth. Mesmo assim, ele foi convidado. Não falava com Finn, até porque nos tornamos rivais. Mike chegou pela tarde, e trouxe Johnny consigo. Depois de tanto tempo, Santana finalmente convidou o namorado para participar de um evento da família, mas ele precisou recusar porque tinha de apresentar um trabalho num congresso importante para o currículo acadêmico dele. O professor Schue era amigo de Shelby, e a senhora Pillsbury foi muito importante para as meninas quando Hiram morreu.
"Quinn Fabray!" Mike se aproximou com duas taças em mãos. Me ofereceu uma delas, e eu aceitei de prontidão. "Kurt mencionou algo sobre você ter oferecido um certo anel para a sua garota. É verdade?"
"Ele se lembra disso?"
"Aparentemente."
"E o que você pensa a respeito?"
"Quer realmente a minha opinião?" Mike me encarou com seriedade.
"Apreciaria!"
Ele foi andando em direção ao final do salão, para um lugar mais discreto. Colocando distância dos demais que circulavam na festa.
"Que você e Rachel vão terminar juntas, disso eu não duvido. O que me preocupa, Quinn, é saber se essa é a hora certa. Quer dizer, você só tem 20 anos..."
"Faço 21 mês que vem, Mike!" A opinião dele, embora pudesse entender a lógica, não desceu muito bem. Ele era meu melhor amigo e eu esperava uma postura equivalente.
"Você entendeu, Quinn. Qual a necessidade de formalizar um casamento quando vocês já vivem juntas há tanto tempo? Qual é a pressa?"
"Mas se eu vou passar a minha vida com ela, por que não casar logo? Ou você tem alguma outra razão para não aprovar esse passo?"
"Eu só quero o seu bem, Quinn." Mike deu uma golada no champanhe. "Que você e Rachel sejam muito felizes."
Mike virou as costas e foi em direção a Johnny. O que eu sabia, e o que não foi dito em nosso diálogo, era que ele gostava de mim e não podia me ter. Que saco para ele, e não podia fazer absolutamente nada. Se ele sentia ciúmes, problema dele! Decidi ignorar Mike pelo resto da noite.
...
(Santana)
Eu não sei o que doía mais: se era a minha cabeça ou o meu pé. Não conseguia mexer a minha perna inteira, aliás. Tudo latejava. Acho que só mesmo a vodca para anestesiar tudo. Se tomar outro porre significava parar a dor, cadê o meu álcool? Tia Rosa e tia Maria me enfiaram uma saia horrível antes de me colocarem no carro. Acho que a saia era da minha tia Rosa, a julgar pelo manequim: era mais próximo do meu, e ela nunca foi a melhor fashionista. Não era que tia Maria fosse gorda: mas ela era a mais cheinha da família e tinha quadris generosos. Algumas pessoas me acompanhavam: abuela e minha outra avó, mãe de Shelby. Qual era o nome dela mesmo? Linda Corcoran. Nunca a via ou ouvia notícias dela... Brittany pediu para abuela ficar de olho em Robby. Disse que ele tinha uma mamadeira pronta na bolsa térmica e tudo mais. Abuela sabia das coisas. O garoto ficaria bem. Então ela se enfiou no banco traseiro do carro junto comigo e continuou a aplicar o gelo. Aos poucos o gelo fazia efeito, pelo menos eu me acalmei a caminho do hospital.
"Vea lo que da de beber?" Lá vinha o sermão da tia Maria. "Usted debe aprender a no ser exageraciones. Esto no es cristiana, Santana!"
"Soy judia, tía." Quando tia Maria queria ser chata, ela era imbatível, por deus. Não aliviava nem quando a gente estava de ressaca e com o pé avariado.
"Las chicas estaban divirtiendo. Y fue la despedida de soltero de la madre de las niñas. Qué ha hecho! Ni siquiera Ana?" Tia Rosa me chamava assim. Ela era a única da família que me chamava de "Ana". Só sei que acenei positivo. Tia Rosa sempre me resgatava das chatices e carolices da tia Maria.
Brittany olhou para mim com aquela expressão de que não entendia o que se passava. Só mesmo ela para me faze rir diante de tudo com um gesto tão banal. Era sempre assim quando ela me acompanhava nas festas dos Lopez ou na casa de abuela quando éramos pequenas. Aquele mundo em espanhol, e Brittany arregalava os olhos, achando que estava em outro mundo ou país. Balancei a cabeça para ela "deixar para lá".
Chegamos ao hospital e logo providenciaram uma cadeira de rodas. Mesmo assim, demorou quase meia hora para que eu fosse atendida. Foi quando tia Maria ameaçou fazer um escândalo na recepção. Bom, apesar da dor, ainda era filha de um médico cirurgião geral, e sabia como funcionava a emergência de um hospital: era feita uma triagem na recepção e, a não ser que você tivesse uma fratura exposta, a equipe ortopédica entendia que se podia esperar. Claro que uma louca latina escandalosa com um celular em mãos que ameaça chamar a imprensa muda certas coisas de figura, especialmente em um hospital privado.
"Vê se isso é humano deixar as pessoas passando mal na fila." Ela ainda esbravejou depois que um funcionário administrativo prometeu agilizar. "Quem estiver tendo um ataque cardíaco que corra para outro lugar!"
"Maria!" Tia Rosa a conteve. "Fique aqui com Santana e Brittany que eu vou me informar melhor."
Tia Rosa voltou com um médico ortopedista. Ela sempre tinha um jeitinho especial para lidar com as pessoas e voltar uma situação a favor. O médico mandou fazer um raio x. Eu não quebrei osso algum, mas a minha dor continuava aguda, ele me encaminhou para a fazer uma tomografia, do qual nos fez esperar por mais meia hora por uma vaga no aparelho.
"Isso é um absurdo!" Tia Maria estava nada feliz. "Não entendo essa medicina que só é interessada em arrancar o nosso dinheiro."
"Pelo menos o meu plano de saúde cobre... até eu fazer 21 pelo menos!"
"O quê?" Tia Rosa estranhou. "Será que o meu irmão vai ter coragem de cortar toda verba? Já não era sem tempo! Estava na hora de ele parar de choramingar por sua causa e da sua irmã, e tomar uma atitude."
"Tia Rosa, achei que você estivesse do eu lado!"
"Te amo Ana, mas você tem a sua própria empresa e sua irmã é uma atriz que vai estrelar seriado da HBO. Além disso, o meu irmão tem uma nova filha para cuidar."
"Daniela vive até hoje na casa dos meus tios, e a senhora não fala mal dela!"
"O que tem demais da sua prima morar conosco?" Tia Maria ficou ofendida. "Nossa casa é onde ela deve estar!"
"Daniela está noiva há uns cinco anos..." Resmunguei baixinho.
Minha prima tomava conta da cervejaria, e fazia sentido ela continuar "morando" com os meus tios, pois assim estaria perto do trabalho. Mas não era mais exatamente com eles, verdade seja dita. Daniela morava numa casa própria. Era uma residência menor, dessas compactas e funcionais, construída atrás da casa deles, na fazenda, formando uma espécie de condomínio. Tecnicamente, Daniela tornou-se vizinha dos pais, na casa em que ela morava com o noivo (só assim para tia Maria aceitar a situação). Mas eu gostava de provoca-la dizendo que ela ainda morava com os pais, como se ela ainda ocupasse o velho quarto de infância.
"Sua família é mesmo divertida, San!" Brittany abriu um sorriso e deu tapinhas em minhas costas.
Automaticamente o meu humor melhorou: era o efeito que essa mulher causava em mim. Fui atendida e fiz o exame. Ficamos mais meia hora a espera do laudo, e o médico finalmente deu o veredito: rompi os ligamentos do tornozelo, mas não deu para ter certeza se o dano foi parcial ou se eu os rompi por completo. A diferença entre um caso e outro, seria o tempo de recuperação. Isso queria dizer que meu pé seria imobilizado, e que eu sairia do hospital com uma recomendação médica para a realização de uma artroscopia – algo que provavelmente faria em Nova York. E depois da cirurgia, passaria por meses dolorosos de fisioterapia. Eu sabia mais ou menos a rotina, porque eu quebrei alguns ossos quando pequena. Desloquei dois dedos da mão direta e quebrei o dedão do pé esquerdo e o braço esquerdo.
Na última vez foi total culpa de Rachel. Eu estava fazendo uma velha chata da vizinhança pagar por ter nos dado pasta de dentes no dia das bruxas. Então peguei dois rolos de papel higiênico e fui esculhambar com aquele jardim horrivelmente bem cuidado. Rachel foi comigo, claro, porque ela quem vigiava minhas costas quando eu estava em ação. Mas o filho da bruxa nos flagrou no ato. Rachel ficou paralisada na hora e eu tive de puxá-la para sairmos alucinadas em nossas bicicletas enquanto o sujeito corria atrás da gente atirando com uma espingarda usando aquelas balas de borracha que arde como o inferno se pega na gente. Como eu sei? Outra pequena aventura com Rachel com participação especial de Russell Fabray – o pai de Quinn fez o papel de atirador.
Mas na ocasião do dia das bruxas, nós pedalamos desesperadas até muito depois do filho da velha deixar de correr atrás da gente. A rua que antecede a nossa casa era uma pequena ladeira. Estávamos ainda pedalando rápido quando Rachel descontrolou um pouco a direção e jogou a bicicleta dela contra a minha. Ela ainda conseguiu frear, mas eu caí feio no gramado, de sair rolando e tudo mais. Fiquei com o corpo ralado e ainda tenho uma cicatriz no joelho, que se esfolou no processo. O moço, dono da casa onde caí, nos conhecia e ligou para papi e papai. Além de suportar o gesso ainda fiquei de castigo, e meus pais me fizeram ir à casa da velha pedir desculpas. Rachel e eu tínhamos 10 anos.
"Tudo bem?" Brittany me tirou do mundo dos sonhos.
"Está sim..." Respondi enquanto uma enfermeira apareceu com o kit injeção para espetar meu braço e aplicar os medicamentos antiinflamatórios e para dor. Não tinha problemas com agulhas, mas Britt ficava impressionada com essas coisas: ela odiava injeções. "Por que você não vai fazer companhia a tia Maria?"
"Ela não gosta muito de mim!"
"Você poderia me fazer um favor então. Estou com vontade de ler aquela revista que eu gosto. Compra uma para mim?"
"Claro! Isso eu posso fazer".
Assim que Brittany saiu, permiti que a enfermeira fizesse o seu trabalho. Nesse meio tempo, Brittany voltou com a minha revista, satisfeita por ter ajudado. Antes de voltar para o hotel, tia Maria passou numa farmácia e comprou meus medicamentos, minhas muletas e um imobilizador para o meu tornozelo recomendado pelo médico. As muletas custavam caro, mas ela não se preocupou, porque ela cobraria cada centavo para o meu pai. Disse ainda que quando terminasse de usá-las que deveria doá-las para uma dessas instituições que a igreja dela apoiava. Não me oporia em doar as muletas quando não precisasse mais dela.
Shelby levou um susto quando me viu chegando ao hotel de muletas e bota imobilizadora nos pés. Depois, ela teve uma reação engraçada que eu não sabia exatamente se ela queria me abraçar ou gritar comigo.
"Filha..." Optou por beijar a minha cabeça. Eu não estava muito receptiva com os carinhos dela. O festejo do casamento foi a primeira oportunidade que tivemos de conversar civilizadamente depois da briga homérica por telefone por causa da grana extra que ela exigiu quando soube que teria gêmeas. "O que aconteceu?"
"Quando voltamos para cá, Santana virou o pé." Britt respondeu por mim.
"O médico disse que ela rompeu os ligamentos..." Tia Maria completou. "Isso é o que acontece quando se bebe até cair".
"Como assim 'bebe até cair'?" Eu sabia que Shelby ia parar nesse detalhe. "A única que deveria ter ficado em coma alcoólico era eu! A senhorita não fez 21 anos ainda e bebeu até cair? Santana?"
"Não seja hipócrita, Shelby! Em nosso primeiro encontro você pediu root beers para mim num bar!"
"Eram root beers sem álcool!"
"E a senhora bebia na minha idade..."
Shelby jogou outro olhar assassino. Não tenho culpa que ela contou muitas das merdas que ela fez com a intenção de se aproximar de mim e Rachel. Ela contou que o primeiro ano pós-gravidez foi particularmente ruim porque quase se transformou numa junkie em Nova York: bebeu e fumou muita maconha! Mas para amenizar a culpa, justificou a fase como um período em que ficou confusa com o arrependimento por ter aberto mão de nós quando ela poderia ter exigido alguns direitos.
"Eu ainda sou a sua mãe, estou aqui agora e você não vai discutir isso comigo. Você precisa ir para o seu quarto colocar esse pé para cima."
"Prefiro almoçar. Estou morrendo de fome."
"Eu mando servir no seu quarto... talharim a bolonhesa, certo?"
Brittany me deu um beijo no rosto e correu para se encontrar com Robby. Acredito que era hora de amamentá-lo. Ela era uma boa mãe. Cuidava do garoto com muito método e cuidado. Shelby quis dar uma de mãe preocupada e me acompanhou. Perguntou sobre todas as recomendações do médico, ficou assustada com a possibilidade de eu ter de fazer uma cirurgia.
"Não acredito que foi tão irresponsável, Santana! E logo no dia do meu casamento! Você deveria entrar linda e maravilhosa ao lado da sua irmã... não mancando e de muletas."
"Mãe, justamente porque hoje é o ensaio do jantar do seu casamento, será que dá para aliviar o sermão? Estou um pouco tonta, meu pé está inoperante e daqui a pouco ainda vou ter que lidar com o sermão de papi. Some tudo isso com o fato de Brittany estar bem ao alcance das minhas mãos e eu não poder fazer nada."
"Brittany está praticamente casada, filha, e você tem namorado." Ela passou os dedos nos meus cabelos. "Andrew é um sujeito que te faz bem, que te ajuda. Deveria pensar nele com mais respeito e carinho."
"Eu penso... Ah, por que a vida é tão complicada?"
"A gente é que faz dela assim."
"Eu achava que Brittany e eu seríamos para sempre. Mas parece que estamos cada vez mais distantes."
"Discordo." Shelby me encarou nos olhos. Achava curiosos os olhos verdes com o miolo castanho. Eram tão bonitos. Uma pena que eu não herdei a cor dos olhos dela. Os meus olhos são castanhos escuros, como de todos os Lopez. "Podemos ser o para sempre para muitas pessoas, San. Não que dizer que isso se refira necessariamente a um relacionamento amoroso. Amizades podem ser para sempre. Nunca pensou nisso?"
"Não era isso que tinha em mente."
"Eu sei. Mas, às vezes, amizade é tudo que podemos ter."
Ouvimos batidas na porta. Beth entrou e pulou na cama. Ficou curiosa com as muletas e com a bota que imobilizava meu pé. Almoçamos nós três ali e conversamos amenidades. Papi chegou ao hotel da despedida de solteiro em Vegas. Entrou no meu quarto ciente de tudo que tinha acontecido e não parecia feliz comigo. Ele, pelo menos, se segurou e não bronqueou. Meio mundo já tinha feito isso por ele. Engraçado é que Rachel bebeu tanto quanto eu, e não era repreendida. Quando os três saíram, não fiquei muito tempo sozinha.
Logo Britt apareceu. Desta vez com Robby no colo e alguns brinquedinhos na mão. Além da inevitável frauda de pano pendurada nos ombros. Ela deitou o moleque no meio da cama e depois se deitou, deixando que nós duas formássemos uma barreira protetora.
"Estou curiosa, Britt. O que aconteceu ontem?"
"Até onde você se lembra?"
"De a gente ter feito Shelby ficar bêbada como um gambá. Depois eu caí nos shots de tequila. Tomei um monte. Dos go-go boys... de dançar contigo... Mercedes querendo uma lap dance de um go-go boy, mas a gente acabou pagando para Kurt. Não lembro exatamente de quando a gente voltou para o hotel..."
"Sua mãe foi embora primeiro. Saiu amparrada pelas amigas dela. Eu, você, Rachel, Kurt, Quinn e Mercedes fomos embora espremidos num táxi só. Daí, Kurt sugeriu para que a gente continuasse a festa no quarto dele, e vocês pegaram todas as bebidas alcoólicas disponíveis nos frigobares. Você torceu o pé tentando subir as escadarias do hotel. Eu te ajudei a levantar e te coloquei em cima da cama do Kurt, de onde você não saiu mais. Em vez de bebidas, Quinn mostrou um anel de noivado para Rachel, lindo por sinal, e todos nós comemoramos".
"Quinn o quê?"
"Pediu Rachel em casamento e ela aceitou. Você disse um desaforo e ganhou um tapa no braço da sua irmã." Brittany disse como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. "Kurt foi ao banheiro e não voltou mais. A gente começou a brincar de jogo da verdade, e logo na primeira rodada você desafiou Mercedes a fazer um streap tease. Ela disse que faria se você tirasse as calças. Só que você não estava conseguindo nem se mexer direito, então a própria Mercedes tirou as suas calças, assim, de uma vez. No processo, ela tropeçou, caiu no chão e por ali ficou. Rachel de empolgou e disse que substituiria Mercedes, e que faria o show dedicado a Quinn. Ela começou a dançar em cima da cama. Você disse que se recusaria a olhar aquilo, se virou de lado e dormiu. Rachel tirou a blusa, e caiu por cima de Quinn quando tirou a saia. Elas ficaram rindo um pouco até que caíram no sono. Depois que eu me certifiquei que ninguém tinha morrido, fui para o meu quarto ver como estava o meu filho. A mãe da Shelby ficou tomando conta de Robby. Os dois dormiam quando cheguei."
"Bom... isso foi... patético! Não acredito que eu bebi a ponto de nem sentir uma lesão dessas... E Rachel? Sério?"
"Eu estava de olho. Não ia deixar nada de ruim acontecer a você e aos outros".
"Costumava ser o contrário." Olhei para Brittany. "Eu é que cuidava de você".
"Eu cresci, San." Alisou a barriguinha do filho dela. "Eu preciso cuidar agora. Não ser cuidada." Acenei e forcei um sorriso quando o que queria mesmo era chorar.
"Como estão as coisas entre você e Jim?"
"Jim é um cara legal. É atencioso comigo e é um bom pai, desses que trocam fraudas e faz Robby dormir em cima do peito dele no sofá. É adorável."
"Mas você o ama mais do que me ama?"
"O meu amor por você nunca diminuiu... acho... acho que ele só ficou um pouco diferente."
"Você não me deseja mais?" Me sentia uma garotinha acuada.
"Santana, no dia que eu parar de te desejar, será o fim do mundo. Você sempre será a garota que me faz salivar de tão linda e sexy. Uma parte de mim sempre será sua, não importa o que aconteça".
"Então?"
"Você tem as suas responsabilidades e prioridades, e eu tenho as minhas. Tenho Robert para cuidar e estou com o pai dele. Por enquanto, isso é o melhor que eu tenho para dar ao meu filho: uma família normal. Estou recuperando a minha força para trabalhar, e logo vou começar a dar aulas de dança para crianças no estúdio do Jim. Eu não posso ser mais impulsiva como era antes, San. Eu te amo tanto... mas eu tenho que pensar não só no que é bom para mim, mas também no que é bom para o meu filho. Além disso, Jim só tem me dado apoio e suporte durante todo esse tempo."
"Você não se cansa em me rejeitar?" Disse com um pouco de desapontamento e de raiva.
Cruzei os meus braços e virei o meu rosto para outro lado. Então senti Brittany se mexendo na cama e, em seguida, um peso sobre o meu corpo. Ela me deu um beijo na boca que me fez derreter. Meu coração disparou como há muito tempo não acontecia. Brittany tinha esse efeito perturbador em mim.
"Isso quer dizer..." Disse abrindo meus olhos ainda inundada com a sensação do beijo.
"Que eu te amo San, e sempre te amarei. Você é a minha melhor amiga, e é exatamente isso que eu gostaria para o nosso relacionamento neste exato momento."
"Eu me mudaria para Los Angeles por você." Limpei uma lágrima que teimou em sair dos meus olhos.
"Eu te mandaria de volta para Nova York, porque é onde você pertence: com Rachel, com seus amigos, estudando na faculdade de pessoas espertas iguais a você."
"Não me sinto muito espeta agora."
"Então deixe que eu seja a esperta aqui, San: nossas vidas agora não se encaixam. Não do jeito que você deseja. Mas saiba que eu sempre vou estar a disposição sempre que você precisar conversar."
Ela me deu um último beijo antes de pegar Robby e sair do meu quarto. Quando me vi sozinha, chorei feito uma criança desamparada e coloquei um travesseiro no meu rosto para ninguém me ouvir.
Fiquei deitada com o rosto de cara para o travesseiro até que meu celular começar sinalizar inúmeras mensagens de texto: todas eram dos meus pais me pedindo para não me atrasar para o jantar. Sem mais o que fazer, levantei-me da cama, joguei água fria no rosto e me arrumei. Quando saí do meu quarto, o jantar já acontecia. Brittany conversava com minhas tias como se nada tivesse acontecido. Assim que me viu, correu para me fazer sentar numa cadeira. Eu não queria os cuidados dela, mas também não queria manda-la para longe de mim, por mais contraditório que isso fosse.
Rachel chegou para o jantar acompanhada de Quinn. Lembrei-me do que Brittany disse e reparei nas mãos da minha irmã. Vi o anel discreto, porém cintilante em sua mão direita. Bem que eu gostaria de ter confrontado minha irmã, será que ela não via que noivado àquela altura da vida dela era uma loucura? A gente estava em meio a uma batalha com Weiz, ela estava com projetos engatilhados, Quinn ainda lutava para se firmar na vida. Ainda faria isso tudo sob a responsabilidade de um casamento? Em que planeta a minha irmã vivia? Em que planeta Quinn vivia? As duas já não viviam e dormiam juntas? Casar para quê nessa altura da vida?
Mas aquele era o casamento dos meus pais, e eu não arruinaria o momento deles brigando com Rachel e Quinn. Além disso, era difícil confrontar alguém que circulava como se fosse a rainha da festa, ao passo que eu estava presa à cadeira, indisposta demais a andar de muletas por aí. Sorte dela.
...
27 de junho de 2015
(Rachel)
Uma pessoa que diz que não gosta de festas de casamentos só pode ser muito ranzinza, e que não tem um romance na vida. Eu adorava festas de casamentos. Quanto mais grandiosas, melhor. Eu gostava de tudo: da cerimônia (sempre chorava), do corte do bolo, dos discursos, dos brindes, da despedida dos noivos – quando eles não saiam à francesa. Tudo era tão brilhante e bonito. E a festa de casamento dos meus pais estava ainda mais especial depois que Quinn me propôs. Eu me lembro vagamente de ela ter feito isso bêbada, mas até mesmo o reforço do pedido em meio a uma ressaca terrível foi perfeito. Será que eu sou tão incorrigivelmente romântica assim? Eu não consegui parar de olhar para a minha mão, e ver aquela beleza brilhando no meu dedo. Quinn me algemou a ela e eu não poderia estar mais feliz.
No meu dia feliz, foi uma satisfação ver que quase todo mundo ali também estava. Minha família estava reunida: os Lopez sempre faziam as festas mais animadas. Tio Pedro estava esgotando o vasto repertório de piadas enquanto tia Maria o olhava atravessado para que ele calasse à boca. Santana se machucou, mas ela e Brittany pareciam ter conversado e se entendido. Andrew conseguiu aparecer para a cerimônia e ser apresentado para a família. Acho que ele estava em um congresso para apresentar um trabalho, e conseguiu pegar um trem para Cleveland à tempo. Foi adorável a cena em que Santana e ele se encontraram. Como sempre, ela o chamou de nerd, e ela a chamou de espoleta. Eu adorava esses apelidos entre os dois.
Jim, o tal marido de Brittany, também chegou para a cerimônia. Foi a primeira vez que o vi. Era um homem enorme, mais alto, forte e mais harmoniosamente encorpado que Finn. Tinha de admitir que era um negro muito bonito e que tinha presença. Os dois formavam um adorável retrato de família feliz. Mercedes estava feliz com o meu primo Júlio. Mike estava comportado ao lado de Johnny – bati uma aposta com Quinn para saber quanto tempo Mike levaria para pegar uma mulher. Tia Rosa e tio Tony pareciam mais distantes. Kurt e Karofsky faziam o casal mais esquisito da festa. E tinha os meus pais. Quem diria que Shelby Corcoran e Juan Lopez acabariam juntos e felizes para sempre depois de tudo que se passou?
Muita gente chegou apenas no dia da cerimônia de casamento. Bubbee e zaide foram alguns. Eles foram à cerimônia em respeito a nós, mas eu sei que, no fundo, bubbee detestava Shelby. Também vi muitos colegas de trabalho do meu pai e de Shelby. O irmão da minha mãe também só chegou no dia da cerimônia, o que foi bom porque evitou alguns estresses e constrangimentos. Thomas Corcoran era um pé no saco. Adorei ver aquele red neck preconceituoso em meio a tantos latinos. A irmã branca e americana dele estava se casando com um latino de pele escura depois de ter tido filhas com ele e com o falecido marido gay. Sentia vontade de rir da cara de Thomas.
Antes da cerimônia, eu passei no quarto da minha mãe. Ela estava deslumbrante e chique. Ela sabiamente optou por não usar um vestido de noiva convencional. Escolheu um lindo, cor caramelo, desenhado por um estilista de Columbus. Os vestidos das damas também foram os melhores que vi desde o casamento dos pais de Finn e Kurt. Minha mãe convocou eu, Santana, Beth e duas amigas dela para sermos as damas. Tio Pedro foi o padrinho de meu pai, que estava maravilhoso e também muito nervoso. Formalmente, era a primeira vez que ele casava na vida, já que o casamento dele com papai nunca teve valor legal. Meu pai estava envelhecendo muito bem. Tinha aspecto jovem para os 50 anos. Estava em boa forma física e juro que o grisalho dos cabelos só o deixava mais charmoso. Entrou de braços dados com uma orgulhosa abuela, que também estava linda. Ela era uma senhorinha especial para mim.
A entrada que antecedeu a noiva foi meio estranha porque Beth saiu correndo jogando pétalas de rosas nas pessoas em vez de no chão, eu entrei em seguida, procurando Quinn entre os presentes, e Santana veio ao meu lado, de muleta, por último vieram as amigas da minha mãe. Shelby entrou acompanhada por zaide, o que achei uma justa homenagem e consideração. A cerimônia foi cristã, celebrada por um padre amigo de abuela. Fiquei pensando em quando chegar a vez do meu casamento com Quinn. Teríamos de planejar bem como poderíamos conciliar tradições cristãs e judaicas na cerimônia.
Na hora dos votos, meu pai aprontou uma surpresa. Fez um sinal para o trio de piano, baixo acústico e bateria que fazia uma trilha jazzística na cerimônia. Então pegou o microfone.
"Escrevi alguns textos com a ajuda do Pedro. Todos eles eram uma porcaria, diga-se de passagem. Eu não sou um sujeito bom de discursos e minhas filhas reclamam que sou pragmático demais. Bom, eu sou um médico, não um poeta. Então pensei em roubar algumas palavras. Eu não sou um cantor muito bom. Não chego aos pés da minha noiva maravilhosa ou das minhas filhas. Saibam de antemão que arruinarei um clássico, e que talvez isso seja muito brega, mas, Shelby, é o que eu sinto."
A banda começou a tocar e meu pai fez um aviso antes de começar a letra.
"Aos presentes, sejam generosos. A gente só ensaiou uma vez."
E começou a cantar ainda sob eco das risadas.
"Love me or leave me and let me be lonely/ you won't believe me but i love you only i'd rather be lonley than happy with somebody else."
Juro que soltei um gritinho e levei as minhas mãos ao rosto. "Love Me or Leave Me" era um clássico. Meu pai adorava Nina Simone, e essa música era o máximo. Melhor ainda que meu pai não a estragou. Ele estava no tom e no ritmo corretos. Até dançava do jeito tímido e charmoso. Meu pai era lindo.
"You might find the night time the right time for kissing/ Night time is my time for Just reminiscing/ regretting of forgetting with somebody else. There'll be no one unless that someone is you/ i intended to be independently blue. I want your love, don't wanna borrow/ have it today to give back tomorrow/ your love is my love/ there's no love for nobody else."
A banda começou o solo do piano e eu não resisti. Juntei-me ao meu pai numa jam inesperada. Os presentes poderiam até pensar que tínhamos combinado, mas não. Eu é que me intrometi. Cantei os versos seguintes abraçada ao meu pai.
"Say, love me or leave me and let me be lonely/ you won't believe me but I love you only/ i'd rather be lonley than happy with somebody else"
Quinn e eu trocamos olhares.
"You might find the night time the right time for kissing/ Night time is my time for Just reminiscing/ regretting instead of forgetting with somebody else"
Então meu pai e eu começamos a cantar juntos. Eu fiz a segunda voz.
"There'll be no one unless that someone is you/ I intended to be independently blue"
Meu pai terminou sozinho.
"Say i want your love, don't wanna borrow/ have it today to give back tomorrow Your love is my love/ my love is your love/ There's no love for nobody else."
Os presentes ovacionaram o show espontâneo. Minha mão pulou nos braços do meu pai e os dois trocaram um beijo incrível na frente do altar com direito a rodopio e tudo mais. Eu também quis correr em direção a Quinn e beijá-la como meu pai estava fazendo com a minha mãe. Mas me contive. As atenções deveriam estar nos meus pais.
Shelby limpou as lágrimas e pegou o microfone para os votos.
"Por favor, padre. Me declare logo casada com este homem porque eu preciso ter um momento com ele."
Gargalhadas. Eles trocaram as alianças. O padre proferiu a frase mais esperada. O noivo beijou a noiva mais uma vez sob muitos aplausos.
Enquanto nos dirigimos para o salão onde estava organizada a festa, com a pista de dança montada (a banda estava a espera para quando meus pais chegassem para abrir o espaço). Sentamos nos lugares dos quais fomos designados e, numa mesa para até oito pessoas, a nossa ficou reservada para mim, Quinn, Santana, Julio, Mercedes, Daniela e o eterno noivo dela. Lugares marcados eram apenas uma formalidade inicial porque, no decorrer da festa, sentar na mesa e na cadeira com o seu nome deixava de ser uma necessidade.
Começaram a servir a refeição e as bebidas circularam. Pouco depois de uma hora em que as pessoas estavam comendo e bebendo, o vocalista da banda pegou o microfone e anunciou.
"Senhoras e senhores, tenho o prazer de apresentar os recém-casados Juan Lopez e Shelby Corcoran-Lopez."
Meus pais chegaram direto para a pista para a primeira música, que no caso deles foi "Ain't No Mountain High Enough", de Marvin Gaye e Tammi Terrell. Shelby contratou a melhor banda com um repertório grande de clássicos da Broadway. Perfeição. Eu e Santana fizemos uma homenagem aos nossos pais. Nós duas cantamos, acompanhadas da banda o clássico "Wouldn't it be Nice", dos Beach Boys. Eu adorava a parte da música que dizia: "Maybe if we think and wish and hope and pray/ It might come true/ Baby then there wouldn't be single thing we couldn't do/ we could be married/ and then we'd be happy/ wouldn't it be nice". Não cantava um dueto com a minha irmã havia tanto tempo, que até tinha me esquecido como Santana e eu fazíamos uma boa parceria na música. Nossas vozes harmonizavam bem.
"É um anel muito bonito esse." Finn veio conversar comigo em uma das mesas enquanto professor Schue cantava e casais dançavam. Ainda era estranho ficar ao lado dele depois de tanto tempo sem contato, apesar da nossa história. Ele foi um capítulo importante da minha vida: nunca vai deixar de ser o meu primeiro amor.
"Obrigada".
"Quinn é uma mulher de sorte por ter você".
"Nós duas somos." Sorri e olhei mais uma vez para o meu anel.
"Fiquei surpreso quando soube que você e Quinn estavam firmes apesar de Satan ao lado".
"Você já falou com ela, pelo visto".
"E como sempre, Santana me insultou e me chamou de penetra."
"Minha irmã sempre foi... peculiar nos julgamentos que faz. Mas me fale de você. Como estão indo as coisas? Ainda administrando a oficina do seu padrasto?"
"Burt e eu somos sócios. Ele anda ocupado com o cargo no conselho da cidade, por isso eu lido com as papeladas do escritório e com os clientes. Temos um bom lucro no fim do mês".
"Bom, os negócios estão bem... E como está a outra parte? A do coração? Ninguém especial?"
"Tive algumas meninas. Ninguém que fizesse um impacto tão forte quanto Rachel Berry-Lopez".
"Finn..."
"Eu sei o meu lugar, Rach. Você está se tornando uma grande estrela, como sempre soube que seria. Quinn é a pessoa que ficou ao seu lado o tempo inteiro. Ela te adora e isso é óbvio só no jeito que te olha. O que vocês têm é de causar inveja."
"Quinn é o amor da minha vida. O que eu e você tivemos foi muito importante, e parte de mim vai te amar para sempre. Mas ela é a minha número um, end game. Eu espero que um dia você encontre alguém que possa ser a sua vida também. Você merece, Finn!"
Professor Schue terminou a apresentação dele e abriu o microfone em definitivo. Daí foi uma verdadeira festa para o antigo coral. Mercedes cantou Aretha Franklin e Tina Turner. Kurt cantou Lisa Minelli e nós três cantamos muitos sucessos da Broadway. Santana e Johnny cantaram "One Way or Another", da Blondie. Ele era mais um sujeito entusiasmado no microfone do que cantor. Mas foi legal. Johnny e Santana tinham química quando estavam juntos, por mais bizarra que a idéia parecesse. Santana também cantou "Caramel", da Suzanne Vega, num dos momentos mais sensuais da festa, mesmo que ela estivesse de muleta e uma bota imobilizadora horrível no pé. Finn cantou "Miss You", dos Stones, e eu fiquei sem jeito com a possibilidade de, talvez, ele estar cantando isso para mim.
"Olá." Quinn subiu ao palco pela primeira vez depois de toda a confusão que nós aprontamos com a banda. "Eu não tive tempo de fazer algo elaborado. Na verdade, Johnny e eu ficamos ali no canto ensaiando rapidinho enquanto alguns integrantes do nosso velho coral se empurravam nesse palco. Eu tive um amigo chamado Puck. Uma vez, ele me disse que se inspirava em artistas judeus para cantar as meninas." Ouvi risadinhas partindo das pessoas do velho coral. Acho que eles lembraram de alguns episódios. "Eu acho essa idéia extraordinária, sobretudo quando estou perdidamente apaixonada por uma judia que está sentada logo ali ao lado da outra judia de tornozelo avariado." Apontou em minha direção. "Rachel Berry-Lopez, essa é pra você"
Johnny começou a tocar a guitarra, algo que eu nem sabia que ele fazia, e logo a voz dos dois começaram a se harmonizar.
"I thought Love was only true in fairy tales/ meant for someone else but not for me/ oh, Love was to get me/ that's the way it seems/ disappointment haunted all my dreams/ then i saw her face/ now i'm a believer/ not a trace/ of doubt in my mind/ i'm in Love/ i'm a believer/ i couldn't leave her if i tried".
Definitivamente Neil Diamond agora era um dos meus favoritos. Quando eles terminaram, eu não resisti. Subi ao palco e beijei Quinn na frente de todo mundo.
"Família e amigos..." Peguei o microfone. "Eu serei a esposa desta mulher maravilhosa aqui ao lado!" E mostrei o meu anel. Foi um impacto. Por outro lado, anúncios sem impacto não faziam meu estilo.
