09 de julho de 2015 – 21

(Rachel)

"Rachel!" Santana me gritou pela enésima vez só na parte da manhã. "Traz o cabo do computador! Tá em cima da minha poltrona"

Eu respirei fundo e contei até 20. Santana estava me tirando do sério com essa carência repentina. Ela saiu do hospital há dois dias depois de uma cirurgia para reconstituir os ligamentos tib... tíbio... alguma coisa assim mais as palavras anterior e posterior. Eu não pude deixar as gravações quando ela operou (ficou menos de 24 horas internada), mas para Santana isso foi um ultraje. O fim do mundo. Só por causa disso, ela estava me castigando. Fiz ela esperar um pouco. Calmamente terminei de me arrumar, fui ao quarto dela, peguei a droga do cabo do computador, segui até a sala onde Santana trabalhava na Rock'n'Pano, estudava e assistia ao Discovery em cima do sofá. Tudo de uma vez só. Eu não sei como ela conseguia. A mesa de centro fora do lugar tinha uma bandeja com suco, água, biscoitos de dois tipos e pedacinhos de queijo gouda. Não que ela não pudesse sair dali. O tornozelo estava engessado, as muletas estavam em perfeito alcance e ela podia se movimentar pela casa como bem entendesse. A única recomendação era que ela não ficasse muito tempo com a perna para baixo porque poderia ser doloroso depois. Quanto mais descanso, menos dor ela sentiria. Joguei os cabos em cima dela.

"Qual é o seu problema?" Ela reclamou como se tivesse toda razão do mundo.

"Neste momento: a sua infantilidade e preguiça".

"Como os inválidos sofrem nesta sociedade desumana..." Santana queria testar todos os limites da minha paciência.

"O seu namorado deve chegar daqui a pouco para passar o dia contigo. Faça um esforço e pelo menos vá atender a porta".

"Você é uma pessoa muito ruim!" Cruzou os braços se fazendo de vítima.

"É você é um pé no saco, Santana Berry-Lopez. Não é à toa que Quinn saiu correndo daqui".

"Sua noiva é uma loira despeitada, egoísta e pouco caridosa. Mas, pelo menos, ela ficou no hospital comigo... e Mike e Johnny e Andrew!"

"Pela enésima vez, eu não pude sair das gravações!" Então tive uma idéia. Subi na escadinha de três degraus que a gente usava para alcançar as partes mais altas da estante e fui direto ao disco raro do Clash. Santana levou meses para encontrar a droga no vinil e pagou 300 dólares por ele. Aliás, eu paguei.

"Rachel..." Ela arregalou os olhos. "Olha o que você vai fazer com esse disco."

"Digamos que ele esteja... confiscado até você começar a demonstrar um pouco mais de respeito".

"Você não faria essa maldade."

"Experimenta... neste momento você está de muleta, com gesso e é incapaz de me alcançar".

"Eu posso te bater com a minha muleta."

"Eu faço escudo do seu disco."

"Eu te odeio!" Ela disse de braços cruzados, revirando os olhos. Eu só podia sorrir.

"Fique bem sua malcriada. Qualquer coisa, ligue." Dei um beijo no rosto da minha irmã e saí para trabalhar. Deixei o disco do Clash em cima da mesinha da sala.

Eu ia gravar, o último episódio do seriado. Fecharia a minha agenda em uma semana. Depois teríamos de fazer o trabalho de divulgação, que ainda não estava com calendário fechado. Sabia que May, Rom, Grace e Jane fariam o grosso das entrevistas em Los Angeles. Luis Segal, Amanda, Will e eu atenderíamos a imprensa de Nova York. O resto do elenco ficaria à disposição para ajudar nas entrevistas por internet e telefone. Quando a série fosse estrear em outubro, já estava agendada a minha ida para Los Angeles para a festa de lançamento. Era um evento onde aconteceria uma coletiva com o elenco principal e, no outro dia, haveria uma festa promocional com patrocinadores e imprensa. Basicamente, eu teria que me vestir muito bem com um modelo de estilista, fazer cabelo e maquiagem e sorrir para todos os flashs.

Nesse meio tempo, em agosto, eu viajaria para Vancouver onde ficaria duas semanas filmando a minha participação no filme "As Viúvas de Eastwick". Fiz a audição e ganhei o papel de uma das netas de Cher. Era um papel pequeno que consegui fechar junto com Josh e com a produtora. Receberia 5 mil dólares (sendo que 2 mil cairiam integralmente no bolso de Josh), mais passagens e hospedagem. Aceitei pela oportunidade de trabalhar com três grandes atrizes do filme original. Pelo resto do ano, ensaiaria o musical off-Broadway "What Would David Bowie Do" para estrear em janeiro. Ficaria três meses em cartaz na peça e renovaria o contrato de forma trimestral porque assim estaria livre caso surgisse algo muito bom. Slings and Arrows poderia ser renovada para uma segunda temporada, e por isso precisei fazer um contrato flexível.

No intervalo entre uma coisa e outra, tinha a minha vida pessoal e um casamento a planejar. Precisava resolver alguns embates. O primeiro é que o meu casamento teria de ser realizado em segredo. Embora os meus colegas de elenco soubessem que eu morava junto com minha namorada e Santana, essa parte da minha vida teria de ser a mais reservada possível. Caso acontecesse um furo – como alguém começar a questionar a presença de Quinn – já estava mais ou menos acertado eu me declarar bissexual e, logo em seguida, emendaria um romance promocional provavelmente com um ator gay que também não pode sair do armário. Bissexuais são sexies, segundo Nina. São permitidas e até bem-vindas no cinema. Lésbicas declaradas eram problemáticas, não as pessoas, mas para conseguirem bons papeis.

Quinn e eu conversamos com muita seriedade sobre o assunto. Concordamos em manter tudo em segredo até certo ponto. Os vinte anos é uma época crucial na carreira de qualquer atriz em Hollywood. Era preciso "acontecer" até os 30 anos, caso contrário, vá para a televisão e fique por lá, ou tente a categoria: atores feios e talentosos. Nós deixaríamos ver o que rolava nesse tempo. Se até os meus 25 anos eu não estiver ascendendo em uma carreira cinematográfica, então a gente revelaria nosso relacionamento para a mídia.

Ajustes seriam feitos no processo. No mais, em dezembro eu e Quinn estaríamos a caminho do altar em nossa cerimônia discreta só para família e alguns amigos. Ainda não marcamos a data precisa, mas dezembro é a época mágica em Nova York e eu tenho certeza que isso só vai trazer coisas boas para a nossa união. Não queria esperar anos e anos, como a minha prima Daniela. Para mim, noivado tinha de ser um período rápido, de preparação e de ajustes para o grande passo.

Mas enquanto nada disso acontecia, o que tinha de fazer era cuidar das minhas tarefas mais imediatas: gravar e, nos intervalos, planejar a festa surpresa de Quinn na melhor tradição americana: pessoas que completavam 21 anos tinham de tomar um porre. Ela já tinha comprado nossos ingressos para ver "O Rei Leão", então nós iríamos ao teatro, como o planejamento normal, comeríamos no restaurante, mas em vez de passeio romântico eu deveria a levar ao bar de música ao vivo onde nossos amigos estariam nos esperando. Não era coisa para muita gente, mas tinha os colegas mais próximos de Quinn da NYU, o pessoal do documentário, e Roger. Eu relutei para convidá-lo, mas esse cretino foi muito importante para a carreira da minha noiva.

"Berry!" Boris Yves chamou a minha atenção assim que cheguei ao set. Taylor Moore e May dirigiram quatro episódios cada, enquanto Katshovisk se encarregou do piloto e Boris fazia o último. "Está atrasada. Maquiagem e cabelo agora!"

"Sim, senhor!" Corri para o camarim onde as meninas estavam se vestindo.

Era dia de gravar a encenação de Hamlet. Nós encenaríamos um ato inteiro de verdade, na presença de uma platéia de verdade. Desde cedo havia fila para as pessoas comuns pudessem entrar e assistir. Eu estava atrasada. As meninas do cabelo trabalharam com rapidez, a maquiagem foi ainda mais rápida, e mal virei do lado e o meu vestido já estava pendurado na porta. Troquei de roupa ali mesmo e corri para o palco. Enquanto as pessoas estavam ocupando os lugares sob a orientação da produção, Tom reuniu todo o elenco no centro do palco para as últimas instruções. Primeiro nós encenaríamos o ato como no teatro. Depois faríamos as tomadas.

Respirei fundo. Luis era o único ator em palco iniciado no teatro dramático. Os outros, como May e George, não participariam da cena no placo. Eu era uma atriz de musicais. Não poderíamos fazer feio. Fomos para a coxia e eu respirei fundo. Fiz a minha prece e meu ritual antes de entrar pela primeira vez. O diretor queria fazer a sequência sem cortes, e nós ensaiamos muito. Um rápido alongamento no pescoço, dedos estalados e três pulinhos. Um assopro e ação. Não era mais Rachel Berry-Lopez. Naquele momento era a trágica Ofélia. Esqueci de tudo, que aquilo era só um programa de televisão e não importa que o ato encenado fosse de apenas 20 minutos. O palco era o lugar mais sagrado para um ator e todos sabiam disso, até mesmo quem nunca fez teatro. Pisar nele exigia merecimento e respeito. Então eu era a louca Ofélia e Luis era o príncipe Hamlet. Fizemos nosso melhor e quando a fala final do ato foi dita por Luis, os aplausos espontâneos. A platéia se levantou e o êxtase tomou conta. Era impossível explicar com palavra o efeito que os aplausos calorosos causavam em um ator. Era como uma droga, o álcool, o tabaco. Você recebia aquela dose de emoção e ela tomava conta do seu corpo como um arrepio bom. Os atores de palco se juntaram no centro e nos curvamos para agradecer.

Quando saímos de cena, tanto Lincoln quando Boris vieram nos cumprimentar satisfeitos com o resultado. Rom me deu um beijo firme na boca ainda afetado pela adrenalina e eu não me importei. Sequer percebi a presença da imprensa que foi convidada a acompanhar as gravações do dia como forma de divulgação do seriado. Pode não ter sido o melhor Hamlet, mas serviu para o propósito e ainda aproveitou para tirar um pouco dessa saudade que sentia em atuar para uma platéia presente e calorosa.

"Intervalo de 20 minutos." Gritou Boris.

Era o tempo que a platéia sairia do teatro e levaria consigo um kit promocional do seriado que tinha o logotipo nosso na frente e o logo da HBO atrás com informações do dia de estréia e o horário. Tinha também uma caneta, um folheto com informações gerais e um joguinho de origami que você montava um cubo com fotos do elenco. Era bem bonitinho, tanto que peguei alguns para presentear algumas pessoas: meu pai, Mike, Johnny, abuela e zaide. Também guardei outros três lá para casa, mesmo que depois daria confusão na hora de colocar as camisetas para lavar. Ninguém saberia qual era de quem em algumas semanas. Santana usaria a camiseta como pijama, e Quinn gostava de ficar em casa vestida quase como uma mendiga com camisetas de propaganda de tudo que era tipo e calças de moletom. Eu sempre guardava para usar caso houvesse necessidades profissionais.

"Rachel!" Um repórter se aproximou. "Você e Rom começaram o relacionamento durante as gravações?"

"Eu não tenho nada com Rom!" Respondi de forma displicente. "Ele é um dos meus melhores amigos."

"Como é o seu relacionamento entre os colegas de elenco?"

"O melhor possível. May é um grande maestro para os atores mais jovens. Eu não tive o prazer de contracenar com George em muitas cenas, mas ele é adorável e extremamente profissional, e Jane é uma pessoa de grande gentileza e humildade." Os três formavam a grande tríade do elenco principal e eram os mais experientes. "Às vezes me pego surpresa com a paciência que eles têm com as brincadeiras que nós aprontamos no set".

"Quem são os mais bagunceiros?"

"Rom, Luis e Amanda são maquiavélicos. Estão sempre fazendo brincadeiras e pegadinhas. Principalmente Rom."

"O que participar de uma série produzida por Carton Katshovisk e Boris Yves representa para você?"

"Carton é um diretor fantástico com uma carreira extraordinária. É uma honra sem igual ter a oportunidade de aprender com ele. Eu só tive a ganhar, com toda certeza. Boris é uma das pessoas mais profissionais e gentis com um ator..."

"Rachel!" Uma das assistentes chamou minha atenção. "Retocar a maquiagem para entrar!"

Pedi licença para o repórter e fui cuidar dos meus negócios. O dia foi cansativo, pois adiantamos inclusive algumas cenas para depois ter um dia mais folgado. Mal tive tempo para organizar melhor o aniversário de Quinn e só esperava que Santana, Mike e Johnny tivessem feito a parte deles. Voltei para casa próximo da meia noite. Flagrei Quinn ainda acordada em nosso quarto vendo alguns vídeos no computador.

"Oi minha lady." Ela tirou o fone de ouvido assim que me viu entrar. "Como foi o dia?"

"Estou morta." Me joguei na cama. "Mas o dia foi incrível..." E comecei a contar os principais acontecimentos. Quinn fez o mesmo e quando me dei conta, já passava da meia noite. Então eu rolei para o lado e dei um beijo caprichado em minha noiva. "Feliz aniversário Quinn!"

"O quanto você está cansada?" Ela me disse sugestivamente.

"Muito... mas prometo que amanhã eu vou te recompensar por sua paciência e compreenssão".

"Eu te amo, Rach." Ela me deu um gostoso beijo de boa noite como a última tentativa de me seduzir. Não adiantou.

"Eu te amo mais..." Virei de lado e dormi.

...

(Santana)

"Atividade Paranormal é a pior franquia de filmes que eu já vi!" Fui bem enfática em minha reclamação. "Pior do que toda a saga Crepúsculo e isso é algo extraordinário. Aliás, é pior do que os filmes da bruxa de Blair. Pior que Wrong Turn."

Por incrível que pareça, não discutia cinema com Quinn. Era Andrew, além do casal de amigos da Columbia Dave e Lily que vieram me visitar. Vimos O Hobbit (Blue Ray que comprei em homenagem a minha irmã) e começamos a discutir sobre franquias. Eu era fã das clássicas como Poderoso Chefão, Indiana Jones, Batman. Gostava até de Avatar. Dave, que estudava com Andrew, era fanático por franquias de terror e da Pixar, o que me levava a crer que ele era a pessoa mais inteligente do grupo.

"Que exagero. Eu gosto da idéia o primeiro foi inovador." Dave argumentou.

"Eu gosto de Crepúsculo." Os três olharam pasmos para Lily. Ela se sentiu retraída. "Foi a saga da minha adolescência. Da sua não?"

"Não." Respondi. "Eu fui da geração dos livros do Harry Potter e de Gossip Girl. Bella Swan era uma idiota com pouco amor próprio que achava tudo bem se o carinha a matasse. Saga estúpida! É um tremendo retrocesso de valores e conquistas femininas."

"Bom... Jogos Vorazes tem protagonista forte."

"Ledo engano Lily. Katniss era uma sobrevivente badass. Fato. Mas em nenhum momento ela fez uma reflexão consistente sobre política ou direitos. Ela simplesmente reage às certas circunstâncias dentro de um estado fascista em vez de agir com convicção. Entende a diferença? Se for pensar bem, ela passou a metade da trilogia preocupada com Peeta. Não leve a mal, Jogos Vorazes é infinitamente superior a Crepúsculo. Mas se a autora se propôs a escrever uma metáfora política para adolescentes, ela poderia ter feito melhor."

"Harry Potter por um acaso provoca alguma coisa?" Dave desdenhou mais para defender a namorada.

"Mas Harry Potter é mais messiânico e o foco político e de transformações é sutil. É uma batalha entre o mundo caduco de Voldemort contra o mundo novo de Harry Potter. Se for pensar politicamente, Harry Potter é quase uma metáfora entre conservadores versus liberais. Ou a ultra-direita contra a esquerda moderada. É diferente."

"Alguém quer mais uma cerveja?" Andrew mudou de assunto.

"Santana, por que você precisa criticar tudo?" Dave reclamou.

"Porque eu sou adorável desse jeito!" Andrew voltou da cozinha com mais duas latinhas e se inclinou para me beijar antes de nos servir.

"Pode ter certeza que você é adorável."

"Bom..." Dave olhou para o relógio e levantou-se do sofá. Acho que essa é a saideira.

Dave e Lily se despediram logo depois que o copo esvaziou. Conheci Dave no último semestre em Columbia por causa de Andrew. Ele é muito mais amigo do meu namorado do que meu. Conheci Lily por tabela. Ainda era possível estabelecer uma boa conversa com Dave, mas a namorada dele era meio cabeça de vento. Ela era freshman em CUNY e também era cheerio. Eu, mais do que ninguém poderia falar de cheerios por ter sido uma. Nem todas são gostosas bitch burras. Nunca fui uma, ou Quinn, no que diz respeito a QI, pelo menos. Lily, no entanto, era um clichê ambulante: loira, rostinho angelical, corpo perfeito, ficava calada na maior parte da conversa, mas ria quando o namorado fazia piadas, mesmo das sem-graças. Claro, estudava Moda, mas disse que o curso não era como imaginava. Moda era um universo muito mais complexo do que analisar roupas de celebridades em revistas adolescentes.

Pelo menos eles me distraíram numa tarde que poderia ser solitária em frente ao meu computador em cima da Rock'n'Pano. Rachel estava terminando de gravar a peça, mas tinha outros trabalhos agendados. Quinn também estava na reta final do documentário e de férias na NYU. Não tinha idéia do que ela faria após. Também não me preocupava porque ela era a mestre em se virar.

"Será que Quinn e Rachel vão voltar para casa logo?" Andrew falou sugestivamente agora que estávamos às sós. "A gente poderia ir para o seu quarto..."

"Não hoje! Transar com pé engessado não é algo sexy. Preciso primeiro me acostumar com a idéia."

"Às vezes eu sinto que você está me evitando... principalmente depois que você voltou do casamento dos seus pais. Foi porque eu só consegui chegar para a cerimônia?"

"Só por que eu não quis transar contigo quando estava morrendo de dor por causa desse pé?" De repente o mau humor tomou conta de mim.

"Talvez porque você não demonstrou nenhum entusiasmo ao me ver desde o casamento, como se eu estivesse sendo um entrave. Só queria saber o que está acontecendo."

"Você está me atacando por que agora? Por que eu disse 'não'?" Revidei com outra pergunta. Era sempre a melhor estratégia.

Mas Andrew era um sujeito inteligente. Eu não conseguiria manter a estratégia de sair pela tangente por muito tempo. A verdade é que a minha cabeça ainda estava em Brittany e na primeira grande rejeição pós-parto. O não dela não desceu bem e também porque ela estava diferente durante as ligações.

"Olá crianças." Quinn chegou na melhor hora possível. "Trouxe o jantar." Ela reparou na quantidade de latinhas em cima da mesa de centro. "Vocês passaram o dia bebendo tudo isso? Santana, você não pode! Está tomando uma série de medicamentos que não podem ser misturados..."

"EU NÃO BEBI!" Gritei para interrompê-la. Deu certo. "Andrew é testemunha." Daí o olhar de julgamento pesou em cima do meu namorado. "Um casal de amigos veio me visitar e trouxeram cervejas. Todos beberam, menos eu."

"Oh!" O rosto dela corou. "Desculpe San."

"Por nada."

"Comprei comida mexicana. Trouxe burritos preferidos de cada um. O seu de frango, o meu de carne, o de berinjela de Rachel... eu não sei qual o seu favorito, Andrew, então trouxe um de carne com queijo porque eu sei que você come essas coisas."

"Está ótimo, Quinn. Obrigado." Meu namorado agradeceu.

"Perfeito!"

Eu estava com fome. Andrew nem tanto porque bebeu pouco menos da metade das latinhas de cerveja que estavam sobre a mesinha de centro. Mesmo assim comeu o burrito durante um jantar de clima estranho. Depois ele ajudou limpar a sala (leia-se jogar fora as latinhas e passar um pano na mesinha) antes de ir embora. Quinn me ajudou a prender a sacola plástica para não molhar o gesso e nem entrar água na perna durante o banho. Passei vinte minutos debaixo do chuveiro e quando abri a porta a flagrei terminando de arrumar a sala. Revirei os olhos e fiz companhia a ela.

"Andrew é um sujeito muito legal." Quinn falou ao acaso e eu encarei isso com estranhamento. Não havia nada melhor a dizer? "Andrew, sabe? Ele é um sujeito legal." Ela repetiu e pensei que havia algo errado aí.

"Sim, ele é! Uma pena, mas vou terminar com ele em breve." Disparei e ela deu um salto.

"Em breve quando?"

"Não sei... em breve." Desconversei.

"Por causa da Brittany?"

"Não. Brittany não me quer... É que você começou a falar dele como se fosse fazer uma observação bombástica do tipo: ele é legal, mas eu o vi com outra garota ali na esquina. Ou que tal: ele é legal, tão legal que você não merece estar com ele. Ou talvez essa: ele é legal, mas está envolvido em atividades terroristas."

"Não precisa ser cínica." Ela resmungou.

"Qual seria o 'mas' que você usaria?"

"Mas os dois não parecem felizes no relacionamento. Se bem que você pensar e terminar com ele como agenda um compromisso responde muita coisa. Posso saber o que há de tão errado, além do fato de você ainda estar babando pela Brittany?"

"Babando? É assim que você classifica a minha história com ela?"

"Neste exato momento, San, é exatamente assim como eu classifico o seu status de relacionamento com ela." Quinn começou a arrumar a sala enquanto eu estava basicamente enterrada na cadeira. "Brittany está morando com o pai do filho dela. Não só morando, mas vivendo como mulher dele! Então, neste momento, Santana Berry-Lopez, você é carta fora do baralho com fantasias juvenis."

"Obrigada pela sinceridade." Disse o mais seca possível. O pior é que, embora eu odeie Quinn por dizer a verdade na minha cara, tinha que agradecer pela honestidade. Era algo que eu admirava em Quinn: ela aprendeu a não se meter na minha vida, mas quando a gente parava para conversar, éramos honestas uma com a outra. "Sabe qual é o meu problema com Andrew?"

"O quê?"

"Ele se tornou o meu melhor amigo, e eu perdi completamente o meu interesse por ele, sexualmente falando. Quer dizer, tudo sempre rolou de forma confortável entre nós e ele até que se esforça... mas é que de uns tempos para cá, transar com Andrew é quase como transar com o meu irmão. Então fico num empasse: eu o quero perto de mim, mas tenho certeza que se eu não terminar do jeito certo, vou perder o meu melhor amigo. Não é que eu esteja agendando terminar com ele... eu estou calculando. Mas não sei se vou conseguir resolver essa equação."

"Que droga."

"E quanto a você e minha irmã? Andaram conversando alguma coisa sobre data e lugar onde morar?"

"A gente pensa em se casar até meados do próximo ano. Acho que vamos alugar um novo apartamento em Manhattan... ainda estamos discutindo."

"Acho que eu vou começar a sondar um dormitório."

"Ou talvez você fique conosco nos primeiros meses."

"O quê?"

"Até que a gente consiga encontrar um bom espaço, o que não é fácil, vamos ficar por aqui em Astoria. Vai ser benéfico para nós rachar as despesas contigo agora que você começou a pagar algumas coisas daqui de casa outra vez. A gente tem que economizar grana no início do casamento."

"Sério?"

"Claro! É uma situação em que todos ganham".

"Se é assim..." Estendi a minha mão para cumprimentar Quinn como se estivéssemos fechando um negócio.

"Santana. Você é canhota enquanto o resto do mundo é destro!" Troquei de mão e finalmente nos cumprimentamos. Negócio fechado.

...

10 de julho de 2015

(Quinn)

Fui acordada com uma série de beijinhos no meu pescoço. Era bom voltar a existir no mundo com aquela sensação boa e com um arrepio gostoso na espinha. Trouxe o rosto de Rachel para junto ao meu e recebi um delicioso beijo na boca. Deixei que Rachel tomasse a iniciativa e ver o que ela tinha em mente. Senti as mãos dela escapulirem por debaixo da minha blusa e irem em direção aos meus seios numa torturante lentidão. Depois de massageá-los um pouco, Rachel se levantou ainda em cima da cama ficou de joelhos com meu corpo entre as pernas delas e fez um estranho streap tease com a camisola. Ela conseguia me seduzir mesmo se tivesse embrulhada em papelão. Juro. Levantou-se para tirar a calcinha, mas não me permitiu tocá-la. Eu ainda estava por baixo apreciando o show. Voltou a ficar de joelhos e me beijou novamente antes da minha camiseta ser descartada. A boca dela começou a dar atenção ao meu corpo, dos seios ao sul. E eu só admirando aquela vista maravilhosa dos cabelos dela esparramados junto ao meu corpo. Quando ela chegou a minha calcinha, mordeu-a e a tirou com os dentes. Eu quase tive um orgasmo só em vê-la fazer isso. Então ela começou uma tortuosa e lenta subida massageando e beijando minhas pernas.

"Rach..." Estava úmida e desesperada para ser tocada. Ela me encarou e sorriu. Não ia ceder aos meus apelos.

Senti ela chegando lá, já beijando a minha virilha, eu abri as pernas em espera para sentir aquela boca e língua no lugar em que precisava. Mas Rachel levantou a cabeça, sorriu e me deu um beijo na boca antes de rolar para o lado e sentar-se na beira da cama.

"Rach!" Sussurrei desesperada e frustrada. Ela sorriu malandra e abriu a gaveta do criado mudo do lado em que ela costumava dormir. Pegou um frasco. Parecia um óleo.

"Massagem." Derramou um pouco do óleo frio no meu ventre. "Vi noutro dia que esse tipo de massagem ajuda com o orgasmo." Começou a trabalhar as mãos e eu revirava os olhos em prazer.

"Você viu?"

"Em vídeos educacionais na internet."

"Você assistindo pornô? Você, Rachel Berry-Lopez, que diz que assistir pornô é vulgar e nojento?"

"Eu disse que eram vídeos educacionais, Quinn Fabray. Não vídeos pornôs vulgares e repugnantes. Agora se você quiser discutir a espeito e parar a massagem..."

"Não! Por favor! Meus lábios estão selados."

"Comprei o óleo e esperei um momento especial para experimentar."

"Hummmmm." Seja lá onde é que ela tenha lido sobre essas técnicas, minha mulher aprendeu direitinho. A perfeição como era típico dela.

As mãos delas deslizavam fácil sobre meu corpo, nos seios, pelo ventre, pelas minhas coxas, até nos braços. Quando ela finalmente começou a massagear o meu sexo, quase explodi. Eu estava pulsando feito louca. Trabalhava no meu clitóris com as duas mãos e a sensação era mesmo inacreditável. Tive um orgasmo. Rachel não parou. Ainda havia coisas a fazer na tal massagem. Depois ela começou a trabalhar na minha vagina.

"Oh deus." Procurei abrir mais as minhas pernas. Queria dar a ela todo o acesso possível. Minha respiração estava ofegante. Era difícil me controlar com Rachel trabalhando as mãos e os dedos daquela forma.

"Tente relaxar mais, Quinn, está apertada aqui." A voz dela era gentil, mas o que ela queria? Do jeito que estava trabalhando na minha vagina, eu só poderia estar assim. Então tive meu segundo orgasmo e ela não parou. Se era isso que as pessoas chamavam de múltiplos orgasmos, eu queria mais!

Era impressionante como intensas ondas de prazer passavam por todo meu corpo. Rachel já me deu milhares de orgasmos, eu diria, mas até então nenhum como aqueles. Bendita massagem. Ela continuou trabalhando na minha vagina, os dedos faziam movimentos que não eram usuais em nossa rotina até então. Senti o terceiro orgasmo vindo. Terceiro não, múltiplos, e explodi.

Acho que tive um pequeno desmaio ou algo assim, porque o mundo parece que parou. Rachel não estava mais com as mãos em mim. Ela me olhava de forma engraçada, como se algo extraordinário tivesse acontecido.

"Você ejaculou!" Rachel estava chocada.

Olhei para "baixo" e vi que algo diferente havia acontecido. O nosso lençol estava mais molhado com um líquido ligeiramente mais viscoso que a urina. Mas não era urina. Foi a primeira vez. Nem sabia que era capaz de fazer algo assim. Tinha lido a respeito na internet, nem todas as mulheres são capazes de fazê-lo, e mesmo entre as que podiam, não se garantia que sempre aconteceria. Nunca aconteceu com Rachel e achava que eu também não pertencia ao grupo estatístico, se é que ele existe. De repente fiquei com vergonha e cobri o rosto.

"Desculpe." Minha voz saiu abafada.

"Por quê?"

"Porque... porque... deve ter sido nojento..."

"Quinn." Ela tirou a mão do meu rosto. Eu a encarei e ela tinha aquela expressão de consolo. "Isso significa que eu fiz tudo de um jeito muito certo. Orgulhe-se de mim!" E lá estava o sorriso largo de Rachel Berry-Lopez. Só faltou colocar a mão na cintura com a coluna reta e inclinar a cabeça ligeiramente para o lado.

"Mas..." Silenciei quando Rachel lambeu um dedo. Aquilo era muito sensual.

"Quer provar?" Ela colocou o dedo médio na minha boca. Tinha o gosto os meus fluidos misturados com o óleo. O resultado não era ruim. Rachel deitou-se sobre mim e disse ao meu ouvido. "Feliz aniversário, minha deusa grega." E nos beijamos.

"Como eu sou a aniversariante, eu gostaria de te pedir um suco." Rachel ergueu as sobrancelhas. "Preciso que você se reposicione mais para cima porque estou com preguiça de me mexer."

Infelizmente eu não consegui retribuir da mesma forma. Ao menos Rachel não saiu da cama sem um orgasmo. Com relutância, nos levantamos, colocamos nossos roupões e tomamos uma chuveirada rápida antes de ficarmos prontas para o mundo. Coloquei a minha usual roupa de trabalho: vestido e botas (estava quente em Nova York naquela época do ano) e fui matar o meu leão do dia. As filmagens do documentário estavam terminando e, de acordo com o cronograma, aquele seria o penúltimo dia de gravações. Lewis Gore gostou muito da condução do meu trabalho e disse que me indicaria para colegas. De qualquer forma, precisava engatilhar outro trabalho e planejava uma segunda peregrinação de currículos. Tinha um casamento em curso e precisava fazer dinheiro.

Saí do meu quarto e me deparei com uma surpresa: Rachel havia também encomendado um café da manhã completo e ela segurava um buquê lindo de rosas vermelhas. Fiquei emocionada. Raramente eu recebia rosas.

"A abelha rainha das bitches é uma baita manteiga!" Santana saiu do quarto dela já provocando e, em seguida, me deu um abraço meio atrapalhado por causa das muletas. "Eu comprei uma lembrança para você... chegou ontem pelo correio e eu não tive tempo de embrulhar... bom, eu fiquei com preguiça de embrulhar!" Me entregou uma sacola.

Santana sabia agradar quando queria. Mal acreditei quando vi o Box da coleção Clint Eastwood com 35 filmes. Era simplesmente perfeito.

"Maravilha, Santana." Rachel reclamou. "Agora é que os meus musicais não terão mais vez".

"Projeto de Barbra, eu passei a minha vida inteira vendo musicais idiotas por sua culpa. Aquela Maria de West Side Story, que você tanto se identifica, é uma imbecil e me dá enjôo. A Barbra? Eu não suporto mais olhar para aquela vesga. Então dá uma folga. Ao menos Clint é mais emocionante!"

"Cuidado, ou eu troco os seus analgésicos por pílulas de farinha".

"Eu tenho muletas, prego. Não custa nada dá uma muletada na sua cabeça".

Essas eram as Berry-Lopez que eu sinceramente amava: sempre discutindo de forma infantil por nada. Fizemos nossa refeição em paz. Tinha todos os meus favoritos: torta de maçã, suco de amora, torradas com manteiga e orégano, queijo cheddar e... presunto? Não acredito. Terei mesmo presunto! Só mesmo no meu aniversário para elas abrirem exceção com a regra de "porco não entra".

"Teatro às sete?" Perguntei a Rachel antes que ela saísse de casa.

"Estarei aqui por volta das seis para a gente poder ir juntas." Me deu um beijo rápido antes de correr para o trabalho.

"Quem vem ficar aqui contigo hoje?"

"Eu não preciso de babá caso não saiba, Fabray!" Santana resmungou e depois falou baixinho. "Mike deve passar uma parte do dia aqui... talvez Johnny."

"Boa garota. Tente não colocar fogo na casa, ok?" Uma das medicações de Santana a deixava chapada por um tempo. Daí a nossa preocupação em não deixá-la sozinha. Pelo menos não na semana que ela teria de passar tomando esse remédio em específico.

Peguei um táxi e fui até a West 4th Street em Greenwich Village, ponto de encontro da equipe. Era uma ocasião especial porque ninguém menos que o fotógrafo Grant Hunstein seria entrevistado na rua onde ele fotografou vários dos cantores folks de Nova York, inclusive Dylan. Era considerado um dos mais importantes da história. Admirava o senhor Hunstein pela coleção de close-ups e retratos que ele fotografou de pessoas importantes como Miles Davis. Sim, eu era uma fã e estava ansiosa pelo encontro.

"Bom dia aniversariante maravilhosa." Monica foi a primeira a me receber, com um beijo molhado no rosto cedido com certo contragosto. Limpei tão logo ela virou as costas. Não sei o que tinha feito para ela achar que tinha caminho livre para tentar me seduzir. Sabia desde o início que eu era uma mulher comprometida, mas ela parecia ignorar. Eu procurava dar foras educados. Não sabia até quando relevaria.

"Bom dia, Monica. Bom dia a todos. Alan ainda não chegou?"

"Ele foi buscar pessoalmente Hunstein. Devem estar chegando." Respondeu Nate, que era o câmera.

Enquanto isso, nós montamos os equipamentos e eu comecei o meu trabalho. Tinha de indicar o melhor lugar para filmar e aproveitar a luz de forma que ela ficasse o mais próximo possível do padrão estabelecido. Alan havia dito que queria fazer a entrevista em movimento, então precisava estabelecer o sentido que eles deveriam caminhar com o ângulo mais favorável. Quando nosso diretor e o senhor Hunstein chegaram de táxi, aplaudimos o velho mestre. Uma reverência justa ao senhor de carreira brilhante. Eu não resisti e beijei-lhe a mão.

"Uma pena que eu não seja uns quinze anos mais jovem, menina." Ele abriu um sorriso e tocou o meu rosto. "Você não me escaparia." Fiquei vermelha, mas não tão honrada assim. Era o tipo de assédio que me dava vontade de mandar o sujeito para aquele lugar, por mais brilhante que ele seja naquilo que faz.

Alan começou a fazer a entrevista e a equipe se movimentou para que tudo pudesse valer logo no primeiro tiro. Hunstein era um dos últimos entrevistados e ele estava emocionado pela lembrança da obra. Até esqueci do assédio inicial, e fiquei maravilhada e até me descuidei da minha função em um momento só em escutar as lembranças vivas que aquele velho senhor vivenciou. Monica era uma grudenta, mas trabalhava muito bem. A equipe tinha água, lanches, todas as licenças necessárias em mãos, van que servia de ponto de descanso móvel. Tudo correto.

No início da tarde nos permitimos um momento tiete para pegar autógrafo e tirar fotos com o lendário fotógrafo. Mas o meu maior presente foi quando ele me deu o cartão do escritório dele e disse que eu deveria mandar meu currículo para lá. Ele me confidenciou que achou algumas pessoas da equipe um pouco amadoras, mas que ficou impressionado com o meu profissionalismo. Então disse que eu deveria entrar em contato e mostrar meu portfólio ,porque ele conhecia pessoas e poderia me apresentar algumas delas. Nem precisava dizer duas vezes. A primeira coisa que faria quando chegasse em casa era organizar uma cópia.

A equipe se despediu feliz por ter a grana da semana em mãos. Saí com 300 dólares em mãos e peguei um táxi. Encontrei Santana chapada em cima do sofá, rindo feito uma idiota dos passos de Mike.

"Quinnie... Mike virou um polvo!" Sim, aquela era a meia hora de efeito alucinógeno do remédio.

"Bem que você avisou..." Mike me cumprimentou com um abraço e um beijo no rosto. "Feliz aniversário Quinn." Foi até à estante e pegou um embrulho. "Não repare."

O pacote tinha o tamanho de uma caixa de sapatos. Quando vi, era um sapato. Exatamente o que tinha visto semanas atrás e comentei com Rachel que achei maravilhoso, mas não comprei porque meu dinheiro já estava comprometido demais.

"Um presente com dedo de Rachel..." Sorri e o abracei novamente.

"Eu liguei porque não sabia o que comprar. Então ela me deu todas as coordenadas com uma riqueza de detalhes impressionante." Lógico que sim, ou não seria Rachel.

"Já almoçaram?"

"Não tive a chance... Santana está assim há uns vinte minutos." Ela agora estava rindo das próprias mãos. "Preparei um molho de frango para fazer tortillas. Só estava esperando você chegar."

"Daqui a pouco ela apaga e dorme uns 15 minutinhos. Aí acorda como a velha Santana de ressaca, e a gente almoça. Pode ser?"

Dito e feito. Com Santana fora do ar, Mike e eu arrumamos a mesa e aproveitamos para conversar com mais qualidade. Disse que Johnny estava para deixar o apartamento do Harlem e pediu para ficar alguns dias no apartamento de Mike até conseguir alugar outro próprio. Ao que parece, Johnny foi pego de surpresa pelo senhorio, que vendeu o imóvel, e o novo dono deu um prazo uma semana para ele se mudar. Ele aceitou, pois era incapaz de deixar um amigo como aquele desamparado. A mudança provisória aconteceria no fim de semana. No mais, Mike disse que pensava seriamente em ir para Los Angeles. Questão de oportunidade. Ele não estava tão satisfeito com o teatro ou de ser ator de propagandas. Mike fez um filme B de ação, e gostou muito da experiência. Queria seguia a carreira, por isso estava em negociação com outra agência de atores com base em L.A e atrás de um empresário com bom nome.

"Talvez você encontre a mulher da sua vida em Los Angeles." Tentei ser positiva. Lembrava da confissão dele quando achava que estava adormecida por causa da bebedeira. Desde então procurei agir naturalmente com ele, mas era difícil olhar para um grande amigo e saber que ele te desejava em silêncio. Imagino que ouvir que Rachel e eu nos casaríamos não deve ter sido fácil.

"Quinn, um homem não deveria pensar em se casar até completar 30 anos. Eu vou fazer 22, portanto, mais oito anos para provar todas as mulheres que puder."

"Ah sim, a regra dos 30..."

"Verdade! Tem muitas belezas a serem descobertas nesta cidade".

"Claro..."

"E agora que você vai sair do mercado em definitivo, melhor ainda." Havia certo rancor debaixo do tom brincalhão.

"Quem vê você falando assim até pensa que eu sou uma jogadora!"

"Desculpe. É trauma. É que eu já perdi algumas presas só porque você estava ao meu lado. Isso é muito injusto".

Santana acordou do cochilo. Como sempre, ficava com mau-humor. Esquentamos o molho preparado por Mike e comemos as tortillas. Estavam perfeitas. Mike não tinha perdido a mão na cozinha. Ele foi embora depois de me ajudar a arrumar tudo, enquanto Santana trabalhava na Rock'n'Pano. Fiquei agradecida por ter o momento com o meu melhor amigo.

"Precisamos de uma nova coleção, Quinn." Santana trabalhava habilmente no computador. Digitava tão rápido que por vezes me pegava rindo desta bobeira. "Você é a campeã de vendas e, precisamos renovar as estampas a cada três meses".

"Não dá para conservar pelo menos algumas estampas?"

"Eu vou continuar a produzir a mais vendável até um certo ponto. Mas eu preciso de uma coleção nova. Isso é vital para manter o interesse."

"Vou pensar nisso... e aquela idéia das camisetas?"

"Vou colocar em teste depois desta nova coleção, mas só vou ter condições de investir pra valer no início do ano que vem. Introduzir novos produtos não é tão simples quando se tem orçamento apertado. Eu não tenho a margem financeira ideal. Depois, agora que as barreiras impostas pelo senhor Weiz caíram é que vou ter uma noção real do meu negócio".

"O advogado já formalizou tudo?"

"Ainda faltam alguns detalhes, mas não acredito que alguma coisa vá sair do acordo estabelecido".

Santana não conseguiu fazer valer todos os itens que queria exigir, mas chegou a algo próximo. Senhor Weiz tinha planos para se mudar para a França. Ele tinha uma grande propriedade, e um escritório da empresa em Paris. Havia outro escritório em Londres, caso fosse necessário. Mas Nova York? Os planos dele eram deixar tudo nas mãos de Santana com o tempo. Ela começaria como uma funcionária de um departamento qualquer, mas com destino certo à presidência. Ou era isso ou Weiz poderia reclamar uma dívida de quase 100 milhões que arruinaria Joel Berry. Esse foi o argumento final para que Santana admitisse a derrota.

"Quando que você começa a trabalhar?"

"Em setembro. Trabalho de quatro horas para não atrapalhar a Columbia."

"E quando ele se mudará para França mesmo?"

"Se nada der errado, ano que vem depois do inverno. Bom, ele quer passar o resto dos dias dele torrando no sol do Mediterrâneo enquanto trepa com mulheres 50 anos mais jovens."

"É o que 4 bilhões de dólares podem comprar." Eu citei o que Santana vivia repetindo, mas a minha cunhada apenas deu um sorrizinho de canto de rosto.

"Quinn, esse é o valor só da empresa dele. Não do patrimônio particular dele, entende?"

"Mas a empresa não e dele?"

"A maior parte dela é do senhor Weiz. As outras partes são de acionistas e sócios. Eles têm direito a tudo que diz respeito ao patrimônio da empresa. Há separação do que pertence à empesa e o que é patrimônio particular do senhor Weiz. Ele nunca disse o que tinha exatamente de patrimônio particular, mas até onde sei, ele tem vários imóveis aqui em Nova York, e pelo mundo, além de investimentos em outros negócios. É possível dizer que o senhor Weiz por si só vale tanto quanto a empresa que ele comanda."

"Sério?" Engoli seco. "E você e Rachel são herdeiras disso tudo?"

"Não necessariamente."

"Por quê? Você e Rachel não assinaram aquele documento que reconhecia as duas como as únicas herdeiras dele?"

"É verdade, mas ele pode ter outros planos deixados em testamento. Por exemplo, se ele tivesse um papagaio que amasse, poderia deixar tudo para o animal, e o resto do mundo que se exploda. O documento que assinamos é uma garantia que ninguém mais, como um sobrinho distante e desconhecido que aparecer de surpresa, pode reclamar a herança, caso ela não seja direcionada em testamento."

"Achava que isso só fosse possível em filmes irritantes."

"Se você fizesse uma pesquisa rápida sobre testamentos, veria muita coisa bizarra."

"Então, você e Rachel são virtualmente bilionárias."

"Não. Nós somos potenciais herdeiras de um patrimônio bilionário. Mas daí a ser bilionária é outra história. Nesse exato momento, Fabray..." Santana fez uma breve consulta no celular e me mostrou o saldo do banco: 179 dólares. "Meu saldo não faz inveja nem a um sem-teto."

"Essa é a grana da Rock'n'Pano?"

"Não. Eu abri uma conta em separado, de pessoa jurídica, para a Rock'n'Pano. Não se pode misturar as coisas, senão vai se ferrar."

"Por quê? Não ficaria mais fácil manejar uma conta bancária só, já que você é a dona do negócio?"

"Não. O que é da Rock'n'Pano é da Rock'n'Pano. O que é meu, é meu. Por exemplo, se eu não separar as coisas e comprar uma casa, e falir, adeus casa. Ela seria tomada automaticamente pela justiça para pagar as dívidas. Por outro lado, com os registros separados, se eu falir, posso negociar a casa da forma como achar melhor. Eu ainda perderia tudo, caso o patrimônio da empresa não cobrisse, mas seria nos meus termos."

"Isso soa complicado."

"É um pouco... mas é pra isso que eu estudo."

Rachel chegou mais cedo do trabalho. Aparentemente o sacrifício de ontem deu certo. Nós tomamos um banho e nos arrumamos para nossa saída especial. Primeiro veríamos "O Rei Leão", que é o filme de animação favorito de Rachel e nunca tivemos a oportunidade de conferir a versão teatral. Rachel ficou encantada. Ela era grande admiradora da diretora Julie Taymor e desejava um dia poder trabalhar com ela no teatro. Do pessoal da peça eu só conhecia pessoalmente Donald Holder, o engenheiro de iluminação. Havia trabalhado em uma das peças que fiz assistência de produção quando era funcionária da R&J. Ele tinha um grande talento em inovar com pouca coisa, mas não era exatamente uma pessoa fácil de lidar. Pelo menos o trabalho de iluminação era fantástico.

"A coreografia é fantástica. É uma das melhores que tem na Broadway hoje em dia." Rachel disse segurando em meu braço quando estávamos à caminho do restaurante.

"É..." Olhei para o rosto de Rachel que ergueu uma das sobrancelhas como quem me alertasse para ter cuidado com as minhas críticas. "... muito empolgante." Na verdade, eu não achava nenhuma oitava maravilha do mundo, mas eu não ia querer desencadear uma discussão com Rachel no dia do meu aniversário.

No Havana Central Times Square (não era o restaurante que queria inicialmente, mas Rachel insistiu em um lugar mais próximo ao teatro), ela pediu uma salada vegetariana com tempero cubano que custava o olho da cara e eu, querendo valorizar um pouco mais o meu dinheiro, fui de pernil assado. Rachel que lidasse com isso depois. Para beber: vinho tinto. Pelo menos aproveitamos bem o ambiente romântico do restaurante.

"Acho que está na hora de te dar o meu presente de aniversário." Rachel sorriu. Quando ela fazia isso, parecia que o mundo parava, por Cristo, como ela era adorável.

Ela retirou uma caixinha da bolsa e a abriu na minha frente. Era um anel semelhante ao que eu dei a ela de noivado.

"Eu achei que não estava certo só eu ter um anel. Nós duas merecemos isso. E como já conversamos, nossa relação é de parceria, de cumplicidade, de apoio mútuo e, principalmente, de amor. Seguindo este princípio, Quinn Fabray, aceite este anel de noivado, assim, não apenas eu serei a sua mulher, como você também será a minha." Eu não sei o quão grande estava o meu sorriso, só sei que lágrimas começaram a correr do meu rosto enquanto ela colocava a joia no meu dedo e em seguida beijou a minha mão. Era o que eu havia sonhado fazer por ela, mas também estava nas nuvens por Rachel ter feito isso por mim.

Comemos nossas refeições em paz. E o pernil... talvez tenha sido pelo gesto de Rachel e todas as coisas boas que aconteceram ao longo do dia, mas aquela refeição foi uma das melhores que desfrutei em minha vida. Era o meu melhor aniversário. Depois do restaurante, Rachel me colocou num táxi e disse que havia uma segunda parte da surpresa. Logo desconfiei do que se tratava tão logo Rachel começou a mandar mensagens de textos. Paramos em frente a um pequeno pub mais reservado com música ao vivo. Sorri para mim mesma e balancei a cabeça. Rachel não poderia ter sido mais óbvia. Quando entramos, um grupo grande de pessoas começou a aplaudir e a cantar parabéns. Mike apareceu no meio de todos segurando um bolo com o desenho de uma algema. Nada como o simbolismo.

Comecei a cumprimentar um a um. Toda a equipe do documentário estava lá. Inclusive Monica. Também estavam Santiago e outros três amigos próximos da faculdade, Santana e suas muletas, Johnny, respectivos namorados e namoradas e, para minha surpresa, Roger. Não imaginaria que Rachel pudesse chamá-lo, mas pelo visto, ela superou a mágoa da demissão. Eu nem vi o bolo sendo cortado. Só sei que Rachel pegou um pedaço com as mãos e enfiou na minha boca no melhor estilo noiva. Vi que Santana estava mais retraída, sentada na mesa com o pé para cima tomando um refrigerante. Ela não poderia beber tomando toda aquela medicação forte. Depois, Rachel subiu ao tablado que servia para apresentações ocasionais de bandas ou para noite de karaokê e pegou o microfone.

"Amigos e demais presentes. Aquela loira que mais parece uma deusa grega ali completa 21 anos hoje. E como a tradição manda, por favor coloque nas mãos dela um Dry Manhattan agora." Mike fez o favor de colocar o drink em minhas mãos e o pessoal só sossegou quando eu bebi tudo de uma vez. Satisfeita, Rachel voltou a falar. "Agora, uma música em homenagem a minha garota".

Nem acreditei quando a banda começou a tocar as guitarras de forma distorcidas para depois conciliá-las em um toque pesado, quase punk, porém mais melódico. Então Rachel começou uma dança provocante. "So messed up i want you here/ in my room i want you here/ now we're gonna be face-to-face/ and i'll lay right down in my favorite place/ and now i wanna be your dog/ now i wanna be your dog/ now i wanna be your dog/ well c'mon".

Essa era uma das músicas que Santana dizia ser "chamada para foda". Eu não gostava dos Stoogers, mas a performance de Rachel me deixou em chamas. Oh sim, eu faria Rachel ser a minha cachorrinha direitinho. Estava tão hipnotizada que levei um susto tremendo quando Johnny pegou um saco de gelo e colocou na minha cabeça.

"Que droga é essa!" Reclamei.

"É pra você se esfriar um pouco, senão você vai arrancar as roupas da tua mulher na frente de todo mundo. Não que eu me importaria em assistir".

Ele tinha razão. Eu estava tão vidrada em Rachel que poderia fazer sexo com ela em cima daquele palco pequenino e nem me daria conta da multidão em volta. A festa continuou noite adentro, onde eu basicamente dancei com Rachel a maior parte do tempo. Santana foi embora cedo. Realmente devia ser um saco ficar ali sem poder dançar e se divertir do jeito que ela gostaria. Ninguém mais arredou o pé dali até a madrugada tomar conta, e na medida em que os copos iam sendo esvaziados, mais pessoas se arriscavam ao microfone. Ninguém com o mesmo sucesso da minha mulher. Eu não estava bebendo muito. Queria estar bem o suficiente para chegar em casa e dar a Rachel uma lição de não me provocar daquela forma.

"Você não disse que a sua namoradinha, Rachel, era atriz da Broadway Rachel Berry." Monica me surpreendeu num momento em que estava pegando mais uma bebida no bar. Ela me parecia um pouco bêbada, mas todos nós estávamos já alterados em algum estágio.

"Você a conhece?"

"Eu vi 'Across The Universe' umas duas vezes... Ela sempre foi a minha favorita. Ela canta muito."

"É... Rachel é uma pessoa única." Procurei desconversar. Monica era uma dessas pessoas que me deixava pouco à vontade nesses últimos dias. No início, o jeito que ela flertava costumava ser envaidecedor. Agora, era só irritante. "Quer que eu te apresente?"

"Claro..."

"Rachel gosta de conhecer fãs."

"Vocês formam um casal bonito. Por outro lado..." Monica se aproximou invadindo o meu espaço pessoal. "Ela é tão pequena... e você parece ser tão... faminta... sedenta por carne. Deve ser difícil para ela segurar esse fogo sozinha."

"Você não sabe de nada." Eu não queria confusão no meu aniversário e a afastei de mim, mas ela insistia.

"Feliz da mulher que for a sua cachorrinha. Eu posso fazer coisas contigo e te fazer querer mais. Eu deixaria você fazer coisas comigo que não teria coragem de fazer com ela. Rachel nem precisa saber." Se aproximou com mais agressividade, mas eu a empurrei sem gentileza. Monica estava indo longe demais.

"Você está bêbada."

"Eu tô mesmo!" Ela gargalhou. "Não quer dizer que eu esteja falando uma mentira."

"Fique longe de mim!"

Voltei para o grupo de amigos em que estava Rachel. Ela tinha bebido o suficiente e ria de bobeiras do Johnny. Agradeci por não terem notado o momento de tensão no balcão do bar. Monica me observava de longe, com se fosse uma predadora, e aquilo me incomodava. Então me inclinei de forma sugestiva para Rachel e falei com voz sedutora ao pé do ouvido dela.

"Que tal a gente finalizar a nossa festa em casa?" Rachel sorriu fácil. Eu peguei nossas coisas e saímos do bar. A festa continuaria em outro lugar. Longe de Monica.