16 de julho de 2015 – Rom e Monica

(Santana)

Os moleques da escola sempre atormentaram Rachel. Eu sei que ela reclamava porque eu nunca fiz nada para impedir. Nunca comentei com ela, mas tive de negociar, fazer muitas chantagens e, por vezes, ceder para manter as coisas aceitáveis. Porque, nos bastidores, eu ouvia planos muito piores contra ela, do que jogar slushies e colocar apelidos. Ainda assim, fazia vistas grossas às pequenas agressões por achar que poderiam ser benéficas de certa maneira. Deixaria Rachel durona, a ensinaria a não abaixar a cabeça para ninguém. De fato, ela nunca abaixou. Eu é que abaixava em inúmeras ocasiões, especialmente diante dos adultos. Mas uma coisa podia dizer: nunca ninguém encostou o dedo para agredir Rachel, e fui diretamente responsável por isso.

Bom... eu saía no braço quando me provocavam pra valer. Quinn, por exemplo: a gente já puxou cabelos e deu unhadas uma na outra em algumas ocasiões. Na primeira vez foi justamente por causa de Rachel. Estávamos no primeiro ano de high school não muitos dias depois que Rachel sofreu o primeiro ataque de slushies. Estava no vestiário e ouvi uma conversa entre Quinn e Frannie. Alguma coisa sobre ser importante que Quinn batesse na minha irmã na saída da escola. Sequer havia um motivo aparente para tal. Eu não esperei o fim do dia. Peguei Quinn pelo pescoço de surpresa e a joguei no chão embaixo da arquibancada para ninguém nos ver. E dei uma lição nela, com direito a olho roxo.

Depois soube que aquilo foi uma ordem de Frannie para fazer a irmãzinha dela se curar da onda gay. Só uma mente retrógrada como a dos Fabray para pensar que pancadaria cura alguém, ou mesmo que sexualidade fosse algo para ser curado: cada um tem a sua, certo? Bando de babacas.

Todas essas lembranças vieram a minha mente três segundos depois que eu ouvi o bate-boca que acontecia no quarto de Rachel e Quinn. Oras, aquele apartamento tinha bom isolamento acústico, inclusive interno. Se eu estava escutando a briga do meu quarto, era porque as coisas estavam feias, e elas estavam gritando. A adrenalina subiu no meu corpo e eu reagi quando ouvi Rachel gritando "Me Larga". Larguei as muletas para lá, invadi o quarto delas, e fui logo empurrando Quinn. Ela caiu em cima da cama e eu me posicionei entre as duas, tinha de proteger a minha irmã. Não sabia o que se passava ou porque, mas aquela não era uma briga comum entre as duas.

Antes que eu questionasse, Quinn reagiu, voou para cima de mim de maneira desproporcional. Eu a empurrei para afastá-la da minha irmã, mas Quinn reagiu como se quisesse me ferir de verdade. Eu me desequilibrei e bati minhas costas violentamente contra a porta do closet, que era dessas frágeis de correr. A porta quebrou e eu me vi entre os estilhaços. Meu pé imobilizado não me ajudava, um dos remédios me deixavam lenta. Eu nunca perdi uma briga no braço para Fabray. Aquele era um caso extraordinário. Ela subiu em cima de mim, prendeu o meu braço esquerdo no processo. Eu sou canhota, e não tenho a mesma força e coordenação no meu braço direito.

"Não se meta!" Ela disse antes de eu sentir a mão dela colidindo contra o meu rosto, que queimou de imediato.

Procurei me mexer, me libertar, me defender. Não ia deixar ela me estapear assim.

"Sai de cima dela!" Escutei a voz de alguém. Rachel.

Minha irmã a empurrou. Quinn caiu de lado, com o corpo contra a parede. Então ela se levantou, encarou Rachel e eu fiquei desesperada achando que ela fosse agredir minha irmã. Pensei que ela fosse para cima quando deu dois passos avante. Rachel se encolheu, esperando o tapa, mas Quinn passou direto. Calçou um chinelo e pegou a bolsa. Saiu de casa sem dizer uma palavra.

"Santy?" Rachel disse com a voz pequena, chorosa.

Podia ver que ela tremia, mesmo assim me ajudou me levantar. Eu não consegui de imediato. Senti forte dor aguda no meu tornozelo e nas minhas costas.

"Espera!" Tentava conter meu gemido de dor para não preocupá-la. Não foi possível. "Acho que me machuquei de novo." Disse sem fôlego.

"Ah meu deus, você está sangrando!" Rachel disse em pânico.

Não pense que ela se descontrolava quando via sangue. Muito pelo contrário: ela era filha de Juan Lopez. Sempre levou os treinamentos de primeiros socorros muito mais à sério do que eu. O pânico dela durou dois segundo. Ela tirou as mãos de mim, se endireitou, respirou, e voltou a atenção dela para mim. Devagar, Rachel me ajudou primeiro a me sentar. Então me examinou rapidamente.

"Não se assuste, mas você tem um estilhaço de madeira fincado nas suas costas."

"Oh..." Era por isso que estava ardendo. "É superficial? Dá para tirar?"

"Não dá para ver, Santy. Você consegue mexer a sua perna?"

"Mexer, eu mexo, mas tá doendo pra caramba."

" É melhor chamar uma ambulância. Eu não vou arriscar te levar para no hospital de carro."

"Eu não preciso de 911, Ray."

"Mas precisa de hospital."

"Eu consigo ir para o carro. Sem 911."

"Ok, vamos tentar fazer isso devagar."

Rachel se posicionou de forma que eu pudesse usá-la para me levantar. Passei meu braço no ombro dela para me apoiar, e firmei a força na perna boa. Ela me conduziu até a cama. Sentei na beirada e procurei respirar fundo. Vi sangue na roupa de Rachel e me assustei. Sabia que era meu, mas não imaginei que fosse tanto assim.

"Tem certeza que ela não te machucou?" Apontei para a camiseta.

Rachel correu até o nosso banheiro e voltou com a nossa maletinha de primeiros socorros e medicamentos.

"O sangue é totalmente seu."

"Oh..." Abri e fechei os olhos. "Acho que eu vou ficar enjoada."

Rachel correu e pegou um balde. Eu vomitei assim que ela me entregou o recipiente.

"Você está com a saúde debilitada por causa da cirurgia e de todos os remédios. Ainda apronta mais essa?"

"Vocês estavam berrando. Eu achava que ela ia te bater.

Rachel ficou em silêncio. Talvez até mesmo ela tivesse dúvidas. Ela mexeu no estilhaço um pouco.

"Não está fundo, por isso que você está sangrando muito. Com certeza você vai levar alguns pontos... Mas eu não vou me arriscar a tirá-lo, Santy. Posso deixar ferpas, que depois podem infeccionar."

"Tira isso de mim, depois o médico limpa."

"Sem chance."

Eu pude reparar no pulso da minha irmã quando ela colocou o próprio cabelo atrás da orelha. Estava muito vermelho, até parecia já roxear. Aquilo me deu uma raiva. Era a prova concreta que Quinn estava mesmo agredindo a minha irmã.

"Ray... seu pulso."

"Não foi nada."

"Isso é agressão... ai." Meu corpo inteiro estava latejando.

"Não era da sua conta".

"Claro que era! Você é minha irmã! E eu só queria afastá-la. Qual a desculpa dela para querer arrebentar a minha cara?"

Rachel parou um pouco e tocou no meu rosto com delicadeza. Pela força que Quinn usou para me bater, acho que teria um hematoma.

"O que aconteceu, afinal?" Perguntei.

"Um site publicou uma foto de bastidor do Rom me beijando na boca." Analisou meu pé. "Eu vou pegar a sua muleta."

"Era photoshop?" Rachel me olhou com cara de interrogação. "A foto, Ray, era montagem dessas de fãs obcecados com casais imaginários?"

"Não, é uma foto bem real. Eu me lembro de quando foi tirada. Nunca pensei que seria publicada." Disse séria enquanto pegava um casaco no closet com a porta espatifada. Correu até o meu quarto e mostrou que pegou a minha carteira com documentos e as muletas. Colocou a carteira na bolsa.

"Que história é essa do Rom te beijar? Ai deus..." Quanto mais sangue esfriava, mais dor eu sentia.

"Foi no dia que gravamos a cena de Hamlet." Rachel me seguia atentamente até a porta de casa. "No final, a gente saiu extasiado do palco e o elenco começou a se cumprimentar. Eu lembro que Rom me deu um beijo na boca. Foi só algo que aconteceu no calor do momento e não significou absolutamente nada." Lágrimas já escorriam no rosto da minha irmã. "Tinha uns fotógrafos e uma jornalista da revista TV Guide... eu nunca imaginei... Quinn entendeu tudo errado..."

Ela secou as lágrimas e eu queria abraçá-la para consolar. Só não conseguiria fazer isso fisicamente naquele momento devido ao meu próprio estado. Então elevador chegou.

"Não foi culpa minha, Santy." Ela sussurrou assim que entramos no veículo.

"Eu sei que não, Ray."

Descemos até a garagem para pegar o nosso carro, e fomos direto para o hospital mais próximo. Acredito que passamos umas três horas ou mais por lá entre o atendimento, a realização de alguns exames, como raio-x, os curativos. A madeira estava fincada superficialmente, mas como Rachel previu, foi preciso fazer um trabalho de limpeza por causa das ferpas. Recebi o curativo, e tive o direito de receber medicação na veia. Aparentemente, minha cirurgia não foi afetada, mas o gesso foi substituído, porque o velho rachou com o impacto.

Seria uma nova tortura passar a noite com o pé gelado devido ao gesso recente sem poder fazer muito a respeito. Quinn Fabray, eu te odeio. Depois do hospital, sugeri pedir um sanduíche em casa. Até pensei em andar pela cidade, mas aquilo estava fora de questão para mim. Rachel pensou ser uma boa ideia, apesar de eu ter certeza que ela mal tocaria na comida. Quando estacionamos na garagem, minha irmã atendeu o celular.

"Oi Mike... Foi bom você ligar, preciso de um favor... Se Quinn te procurar, diga pra ela falar comigo urgente... não... olha, só me faça esse favor... ok... obrigada."

"O que Mike queria?" Perguntei.

"Eu não o deixei falar muito."

"Percebi."

"Espero que ela já esteja em casa."

"Olha, ela vai fazer o que sempre faz quando vocês brigam feio: vai andar pelas ruas, vai tomar uma ou comer bacon, e depois vai voltar para casa."

"Assim espero! E você poderá pedir desculpas."

"Por que eu pediria desculpas para alguém que me agrediu?"

"Você se meteu onde não era chamada!"

"Pro inferno, Rachel! Pro inferno!"

Entramos em casa com silencio mortal. Rachel se fechou no quarto dela e eu fui para o meu. Não estava sentindo dor por causa dos medicamentos, mas minha disposição estava no saco. Deitei na minha cama e procurei me acalmar depois dos eventos da tarde. Era início da noite e não havia o menor sinal de Quinn. Por mais raiva que eu estivesse sentindo, estava preocupada. Depois fiquei curiosa sobre a notícia. Peguei o meu computador e digitei "Rom Tyler" no Google. Selecionei "notícias" e procurei os resultados mais recentes. "Rom Tyler e Rachel Berry incendeiam nos bastidores de nova série". Manchete com seis artigos relacionados, o que significa seis sites de fofoca falando a mesma coisa. Abri o link e veio a foto dele beijando Rachel fechada num close. Havia pessoas sorridentes ao fundo, Rachel estava com roupas da peça, mas não tinha como saber a ocasião.

A nova série da HBO 'Slings and Arrows' ainda nem estreou, mas é possível dizer que os bastidores são quentíssimos, principalmente para Rom Tyler ('Lost Treasures'). O jovem ator de 25 anos começou a viver um romance quase secreto com a colega de elenco Rachel Berry (20). Os dois foram fotografados aos beijos durante os últimos dias de gravação da série. Embora a atriz tenha negado qualquer envolvimento com Tyler, o próprio não tarda em ceder elogios. "Rachel é um doce de pessoa. Ela é extremamente profissional na hora de gravar, mas depois dá uma risada dessas contagiantes e todos ficam bem. É um prazer enorme trabalhar com alguém tão jovem e tão talentoso. Rachel é mesmo uma inspiração". De acordo com fontes da produção, os colegas de elenco aprovam o relacionamento entre os dois. "Rom começou as gravações muito agitado e ansioso. Depois que se aproximou de Rachel ficou mais concentrado. Essa relação fez muito bem a ele", disse um dos funcionários da produção. Rachel Berry fará a grande estréia dela na televisão em 'Slings and Arrows'. A atriz começou a carreira em peças da Broadway e, neste ano, recebeu a primeira indicação ao Tony de atriz coadjuvante em musicais por 'Across the Universe'. Rom Tyler é mais conhecido pelo papel de Sam Madison, da série 'Almanaque', e por ter vivido um romance conturbado com a cantora Liv Watson, vocalista da banda californiana Space Riders.

Não era à toa que Quinn tenha ficado tão possessa. O texto tinha mais qualidade e detalhes do que as notas baratas de fofocas desses tabloides que circulam pela cidade. Tinha também uma foto em ótima definição dos dois se beijando com um monte de gente ao redor. Em nenhum momento é afirmado nem por Rom e nem pela suposta fonte que os dois estão mesmo de caso. Tudo que é possível afirmar é que se tra6ta de dois bons colegas, e que a proximidade trouxe benefícios. Mas o conjunto, e as entrelinhas, dá a entender que existe um namoro em processo. A foto, os elogios, tudo favorece essa interpretação. Rachel bateu a minha porta e depois entrou com cautela. Tinha uma bandeja em mãos com um lanche.

"Posso entrar?"

"Pode." Me ajeitei para dar mais espaço na minha cama. Ela colocou a bandeja ao meu lado e se sentou. "Desculpe... eu pensei melhor e... acho que a briga estava um pouco quente... e você não estava lá no quarto..."

"Ok!" Olhei a garrafinha de suco de laranja e o waffles com cream cheese que eu gostava. Ela não era de fazer essas coisas, mas se preparou era porque queria pedir desculpas. Estava com fome mesmo... "Você viu a fofoca?"

"Não. Quinn me mostrou a foto e começou a pedir satisfações. Não tive ânimo ou coragem de ler."

"Nina deveria ter te avisado." Bronqueei. "Era obrigação dela."

"Não vou tirar conclusões agora, ou hoje."

"O texto afirma absolutamente nada, mas é uma redação crível. Mais do que daqueles tabloides da Broadway que diziam que você estava de caso com Lucas. Lembra?" Rachel esticou o olho para a tela do meu computador e ficou silenciosamente lendo o texto enquanto eu aproveitava o lanche.

"Rom e eu nos aproximamos no set, é verdade. Quinn sabia disso e nós três até saímos para jantar algumas vezes." Ela franziu a testa. "Mas daí para se ter um relacionamento dessa natureza é outra história. O texto só especula, e não afirma nada."

"Eu sei, Ray. Quinn é que não raciocina direito quando tem ataques de ciúmes".

"O que é uma relação sem uma grande briga, não é mesmo?" Rachel disse forçando um sorriso, mas já com os olhos umedecidos.

"Brigas são normais. Vocês duas discutem às vezes. Mas o que aconteceu hoje não foi legal Ray. Existem limites que não podem ser ultrapassados." Procurei falar com cuidado. "Diz a verdade. Não foi apenas o seu pulso que ela segurou com força." Rachel balançou a cabeça e começou a chorar.

"Não." Deu um tempo para manter a conversa. "Ela pode ter exagerado na força quando me empurrou contra a parede."

Peguei delicadamente o pulso de Rachel e vi que estava roxo. Não escandalosamente roxo, mas era sinal de que uma força exagerada existiu. Meu sangue ferveu, mas eu não ia fazer nada por enquanto. Rachel estava com vergonha e eu não ia acentuar isso.

"Quinn precisa de tratamento psiquiátrico." Disse ainda procurando me conter.

"Está dizendo que Quinn tem algum problema ou algo assim?"

"Estou dizendo que Quinn passou dos limites ao te agredir fisicamente. Isso significa alguma coisa."

"Quinn não é uma descontrolada que vai cometer feminicídio, Santy."

"Talvez não chegue a tanto, mas você está disposta a pagar para ver? Todo mundo tem ciúmes, mas o de Quinn chega a um grau perigoso. Nossa vida aqui é muito estressante, e sempre ouço dizer que relacionamentos com atores são complicados. Não deve ser fácil para ela, ou para você, ter de esconder o que vocês têm, por exemplo. Não acha que ela precisaria de ajuda para entender isso?"

"Eu... eu preciso pensar melhor a respeito".

"Você sabe que eu só quero o seu bem, certo?" Rachel acenou positivo e tentou engolir o choro. Coloquei a bandeja em cima do criado mudo e dei espaço para que ela se deitasse ao meu lado. Assim adormecemos.

...

(Quinn)

Minha manhã foi a mais normal possível. Parte da equipe do documentário se reuniu para receber o último cheque de pagamento, e para se despedir depois de um trabalho que foi prazeroso. Claro que houve discussões e desentendimentos no processo, mas nada que comprometesse o andamento das atividades. Eu voltaria a trabalhar com todos sem o menor problema, inclusive com Monica. Apesar do assédio (fora do expediente, é bom esclarecer), ela era uma excelente profissional. Não era à toa que pegava um trabalho atrás do outro. Passei no banco, e depositei meu dinheiro antes de ir para casa. Rachel estava no consulado canadense para pegar o visto de trabalho. Um cidadão americano não precisava ter visto para entrar no Canadá, mas se fazia necessário um de trabalho para filmar por lá. Rachel ficaria só por duas semanas, mas como o visto valeria por cinco anos, era compensador enfrentar a burocracia. Ela tinha uma janela nas gravações, que terminariam no fim de semana. Então teríamos um breve período de folga só para nós duas.

Voltei para nossa casa. Santana tinha feito comida expressa (leia-se de microondas) enquanto resmungava alguma coisa sobre Andrew não ter feito o que ela havia pedido. Aparentemente ele estava dando um gelo nela. Rachel não demorou a chegar, e nós três comemos uma nenhum pouco saudável macarronada instantânea com molho cheio de sódio. Santana se voluntariou a arrumar a cozinha enquanto Rachel e eu nos recolhemos para o quarto. Ela ficou em cima da cama lendo o roteiro das Viúvas de Eastwick. Eu fui dormir. Planejava um dia de preguiça.

Dormi apenas meia horinha. Rachel estava ao meu lado, deitada de bruços e com os pés dela em nossa cabeceira, como tinha mania de fazer quando lia um livro ou uma revista na cama. Parecia concentrada na leitura, passando marca-texto e fazendo observações. Não sei se estava analisando o filme como um todo, ou se fazia pontuações a respeito da própria personagem que ela interpretaria. Sei que Rachel tinha poucas cenas e 21 linhas de fala no filme inteiro. Poderia ser menos, dependendo do corte final.

Fui ao meu computador e o levei até a cama. Sentei com as costas encostada na cabeceira e abri meus e-mails. Tinha nada além de propagandas e poucas mensagens de colegas da faculdade. Chequei as redes sociais e me deparei com uma foto postada no Facebook: era Rachel e Rom se beijando em meio a várias pessoas. Havia um link que acompanhava a imagem. Meu corpo inteiro gelou. Fiquei curiosa e cliquei. Abriu a página de um site chamado Hollywood Life. Minha visão embaçou quando apareceu a foto de Rachel beijando Rom Tyler reapareceu acompanhada de um texto. A princípio eu achei que fosse uma montagem, depois tentei racionalizar sobre a coisa do romance promocional, ou talvez fosse uma cena. Mas Rachel e Rom não estavam envolvidos nesse tipo de coisa. Ela teria me contado, certo? Minha mente começou a rodar e eu não conseguia encontrar explicação, não conseguia raciocinar.

"Quinn?" Rachel percebeu a minha agonia.

"Você e Rom?"

"O quê?" Ela sentou na cama e me olhou assustada.

"Desde quando você e Rom ficam de beijinhos pelo set?"

"Desculpe Quinn, mas eu não sei do que você está falando."

"Tô falando disso!" Mostrei a foto no computador. "Me diz que isso é uma montagem, ou é uma cena que vocês gravaram!"

"Não é. Sinto muito, Quinn. Mas também não é nada demais".

"Como assim? Agora colegas de trabalho saem se beijando como se isso fosse nada demais? Desculpe Rachel, mas das experiências que tive em sets eu não via isso... deve ser uma novidade." Minha voz foi crescendo a partir do momento em que fui ficando mais irônica.

"Eu acho que lembro... eu tinha acabado de fazer a cena do palco... estavam todos muito excitados e Rom me deu esse beijo... mas eu mal me dei conta disso na hora."

"Mesmo? Então se você trepar com alguém depois que do palco também não vai notar por causa da emoção do momento?"

"Isso é injusto!"

"Injusto?" Já não controlava mais o volume da minha voz. "Você confessa que beijou um cara e faz pouco caso! Acha que eu sou otária?

"Acho. Neste caso você está sendo injusta e uma idiota. Como pode pensar que eu te trairia deliberadamente?"

"Então você me trairia?"

"Não coloque palavras na minha boca! Você sabe que não!" Estava difícil respirar. Parecia que a cada resposta de Rachel, tudo piorava. Eu segurei no pulso dela. Ela tentou se libertar, mas eu não a soltei e segurei mais firme e determinada. Rachel saiu da cama, mas eu a acompanhei.

"Você transou com ele?"

"Eu me recuso a responder esse tipo de coisa. Eu vou casar contigo, droga!"

"Responde!"

"ME LARGA!"

"Não enquanto você não me responder!"

"VOCÊ ESTÁ FORA DE CONTROLE!"

"EU QUERO UMA RESPOSTA."

"ME LARGA!"

Eu a larguei a empurrando contra a parede.

"VOCÊ É LOUCA." Rachel continuou a gritar.

"CALA A BOCA!" Eu voltei a segurá-la.

Não vi a porta sendo aberta. Mas senti Santana agarrando a minha camiseta e me jogando contra a cama. Eu nunca bateria em Rachel por mais irada que estivesse. Por outro lado, Santana não era Rachel. Santana era a pessoa que não tinha medo em mostrar o peso da mão dela contra o meu rosto. Não dessa vez. Eu peguei um impulso, agarrei Santana e a joguei contra a parede mais próxima. Era a porta do closet. O impacto fez com que aquela fórmica e compensados vagabundos se espatifassem. Santana caiu feio para dentro do nosso pequeno closet, mas eu não me importava. Havia uma fúria dentro de mim que precisava ser alimentada com violência. Se eu nunca bateria em Rachel, Santana era outra história.

"Não se meta!" Disse antes da minha mão colidir no rosto. Bati o mais forte que pude.

Sabia que ela ia procurar reagir, então eu prendi o braço esquerdo dela na minha perna e assim garanti que ela ia levar a surra que merecia levar por ser uma intrometida. Santana estava em posição desfavorável, mesmo assim não se entregava. Mexia de um lado para outro, procurava se defender. Cada vez que ela dificultava, mais eu queria bater.

"Sai de cima dela!" Alguém me empurrou. Rachel.

Ela me empurrou tão forte que colidi com as costas contra a parede. Quis descontar. Mas vi o rosto assustada dela. Rachel estava com medo... de mim. Por mais que estivesse com raiva, eu não conseguia encarar aquele olhar. Levantei-me vi que Rachel fechou os olhos no processo como se esperasse a pancada. Ela realmente estava com medo de mim e não sei porque aquilo me deixava ainda mais louca da vida. Passei por ela, peguei a minha bolsa e um par de chinelos. Precisava dar o fora dali.

Não peguei o elevador. Desci seis lances de escadas em tempo recorde. Cheguei à calçada ainda me sentindo um animal enjaulado, confuso. A imagem de Rachel beijando Rom não saia da minha cabeça. Logo com o galãzinho que tinha fama de dormir com as atrizes que contracenava. E se aquele não foi um beijo casual? E se aquilo fosse algum tipo de rotina? E se ela o desejasse? Estava insegura e com raiva. Queria descontar, queria fazer Rachel sofrer da mesma forma que eu estava sofrendo. Não queria o medo dela. Queria o pagamento na mesma moeda.

Eu não estava pensando direito. Não estava mesmo. Eu precisava raciocinar, acalmar as coisas. Resolvi andar pelo bairro. Lágrimas saiam livres dos meus olhos, via que as pessoas reparavam. Dane-se as pessoas. A imagem da fotografia não saia da minha cabeça. Não era encenação. Foi um beijo de verdade que Rachel "nem sentiu". Quanta hipocrisia!

Havia um bar três quarteirões depois do meu prédio. Era um diner e bar conhecido por ser frequentado por prostitutas que não estavam "no horário de serviço". Era comum ver algumas delas, em suas roupas vulgares, comendo alguma coisa antes ou depois do expediente. Não raro eram acompanhadas dos cafetões. Ninguém de boa família entrava naquele bar, mas eu não estava nem aí. Precisava esfriar a cabeça. Fui até o balcão e pedi um shot duplo de tequila. Sabia que estava chamando atenção. Tinha uma mulher loira que me encarava, não no sentido de me paquerar. Acho que ela estava numa fase que não se impressionaria com mais ninguém. Talvez estivesse apenas curiosa pelo rosto novo que apareceu ali de repente para beber.

Pedi uma segunda dose. Virei o copo. Limpei as lágrimas. A imagem da fotografia continuava impressa na minha mente. Pedi o terceiro shot duplo de tequila.

"Dia difícil, colega?" A prostituta loira sentou-se ao meu lado. Eu pedi a quarta dose e respondi sem a encarar.

"Dia difícil. Mas não sou a sua colega."

"Por que está aqui?"

"Tequila barata." Apontei para a tabela de preço.

"Quer que eu faça o seu dia melhorar?"

Olhei pela primeira vez para a prostituta. Ela não tinha uma aparência ruim, e parecia estar levemente chapada. No que ela poderia fazer o meu dia melhorar? Numa rapidinha num hotel nojento por 30 dólares? Eu preferia comprar duas garrafas de tequila com esse dinheiro. Além disso, porque eu pagaria uma prostituta barata, se eu poderia ter sexo de graça, se eu quisesse, com gente bem mais interessante? Eu poderia ter sexo com Monica, por exemplo, caso que quisesse.

Foi quando a ideia veio a minha cabeça. Se Rachel se achava no direito de interagir com colegas de trabalho com beijos na boca, por que eu não poderia? Deixei o dinheiro no balcão e sai do bar.

Peguei um táxi e pedi para o motorista seguir para a Atlantic Ave em Bedford. Era uma dessas avenidas divididas pela linha do trem e, por isso mesmo, os imóveis tendiam a ser mais baratos. Era lá que morava Monica. Nunca fui à casa dela, mas tinha o endereço no meu celular. Procurei pelo prédio. Era um tão feio quanto ao primeiro em que morei quando cheguei à cidade. Apertei o interfone.

"Monica? Aqui é Quinn."

Ouvi o clique da portaria e entrei. Subi os três lances de escadas sem pensar direito no que estava fazendo a caminho do apartamento de alguém que estava louca para trepar comigo, não importava como. Monica me aguardava na porta. Eu me aproximei devagar.

"O que deu na sua cabeça para você aparecer de surpresa?" Monica sorriu para mim.

"Você viu a notícia?"

"Qual notícia?"

"Não dê uma de desentendida!"

"Você vai precisar ser mais específica, Fabray. Eu leio muitas notícias."

"Sobre Rachel... tendo um caso com um colega de elenco?"

"É por isso que está aqui com esse bafo?" Monica me deixou entrar no apartamento dela e apontou para o sofá. Eu me sentei e abaixei a cabeça. "Quer um café?"

"Eu quero o que você tiver para beber."

"Hum."

Ela acenou. Foi até um armário na cozinha americana daquele quarto/sala com jeito de ser velho, mas era arrumado e limpo. Monica tirou uma garrafa de vodca, depois foi até a geladeira e pegou uma lata de sprite. Serviu dois copos, e me ofereceu um deles.

"Eu tenho um conhaque, mas algo me diz que eu não deveria gastá-lo contigo, Fabray."

"Essa gororoba está ótima." Tomei um gole. Monica me acompanhou.

"Então a sua garota beijou outra pessoa? Outro ator?" Acenei, e Monica fez cara de desdém. "Desculpe te dizer, mas isso é mais comum que imagina. Atores gostam de ficar com outros atores, ou no máximo com diretores. Se não é isso, é um pop star. Não leve a mal. Nós estamos no segundo escalão da produção cinematográfica, Fabray, e atores vivem em clichês."

"Eu nunca imaginei que Rachel pudesse me trair dessa maneira."

"Nunca diga nunca."

"O que eu fiz de errado?"

Monica me olhou com pena. A pessoa que sempre me olhou com desejo, dessa vez estava com pena. Como era embaraçoso!

"Merdas desse tipo acontecem, especialmente na nossa idade. O mundo está cheio de pessoas interessantes. Você é boa profissiona garota mais bonita que eu conheço. Mas isso não é garantia para coisa alguma. Você só tem 21 anos. Tudo é instável na nossa idade."

"Eu namoro Rachel há três anos. Nossa relação era tudo, menos instável."

"Você fala como se três anos fosse uma vida inteira. Meus pais foram casados por 20 anos, e tiveram três filhos. Isso é uma vida."

"Não diminua a minha relação."

"Só estou colocando um pouco de perspectiva, Fabray." Ela serviu mais um copo da gororoba de vodca. "Talvez Rachel tenha resolvido experimentar algo novo exatamente por isso. Porque precisava de ar fresco."

Terminei o meu segundo copo de vodca com sprite e encarei Monica.

"Você acha que eu sou atraente o suficiente?"

"Sabe que sim. Você é linda."

"Como posso saber que você está me dizendo isso só porque está afim de ficar comigo?"

"Não seja pretensiosa, Fabray. Não é porque eu te acho bonita e seja curiosa quanto suas habilidades, que significa que eu quero ter algum tipo de relacionamento contigo. Eu gosto demais da minha liberdade, para querer me prender a alguém agora."

"Então por que me assediou?"

"Porque eu estava te zoando. Porque é divertido. Porque eu sou assim. Não é preciso levar tudo muito à sério, Fabray. Não é porque alguém te paquera na rua, que vá querer levar alguma coisa adiante. Vê se cresce. Acorda pra vida."

"Mas você me quer?"

Eu me aproximei de Monica e a beijei. Ela só levou dois segundos para responder. Quando rompemos o beijo, eu a encarei.

"Você me faria esquecer por dois segundos? Por favor?"

Monica me beijou novamente, dessa vez, se aproximando mais, tocando o meu corpo. Eu a toquei nos seios, a apertei, e ela mordiscou levemente meus lábios antes de romper o beijo. Tirou a camiseta e me encarou, como se me desafiasse a tirar a minha e a continuar. Eu tirei a minha blusa, meu sutiã, e ela me beijou já massageando meus seios. Eu não estava ali para delicadezas ou romances. Eu não estava ali para fazer amor. Eu estava ferida, confusa, meio bêbada e com tesão. Tirei o sutiã dela, chupei-lhe os seios. Levantei do sofá por um instante, tirei a minha calça juntamente com a minha calcinha e fiquei diante dela.

"Você pode me fazer sentir bem?"

"Sem nenhum romantismo antes?"

"Eu só gostaria de me sentir bem hoje."

Monica ajoelhou-se diante de mim e me chupou. Eu não demorei a ter o meu primeiro orgasmo.

Quando me dei conta, estávamos as duas deitadas na cama dela. Monica tinha seios fartos, dos quais tirei grande vantagem. Fiz sexo pouco elegante e sujo, como jamais teria coragem de fazer com Rachel. Monica era apenas uma qualquer que estava louca por uma transa com a garota que ela devia fantasiar enquanto se masturbava. E para mim, ela era apenas carne. Fodi Monica como quis: fiz ela ficar de joelhos, de quatro, cavalguei o rosto dela, e a estoquei com três dedos rápido e forte. Por fim, eu apaguei.

...

Quando acordei, era cinco da manhã. Estava sóbria e com ressaca. Monica dormia ao meu lado, e pude reparar que o quarto dela estava uma total bagunça. Não sabia dizer se tive alguma culpa nisso ou se era simplesmente daquele jeito. O que sei é que catei as minhas roupas e saí daquele apartamento passando mal não apenas pelo excesso de bebida, como enjoada e enojada pelo que tinha feito.

Eu queria morrer.

...

17 de julho de 2015

(Rachel)

Amanheci com um braço atravessado na minha cintura e um corpo atrás do meu. Por um momento voltei a fechar os olhos e rezei para que fosse Quinn, que tudo que aconteceu ontem foi só um pesadelo e que agora, com o novo dia, tudo estaria como antes. Contudo, o braço era mais forte, moreno, os dedos mais finos e alongados. Santana. Estava no quarto dela, no meio daquele caos que ela se recusa arrumar por livre e espontânea vontade. A única coisa em ordem que existe ali é a gaveta de documentos da escrivaninha. O resto? Se não dou a minha faxina semanal, ia ter roupa empilhada até o teto. Por outro lado, amanhecer na cama de Santana naquele quarto bagunçado era reconfortante diante das circunstâncias ruins. Por pior que estivessem as coisas, sempre teria a minha irmã para me amparar. Levantei-me e a dorminhoca nem se deu conta. Virou para o lado e continuou o sono.

Olhei o relógio no celular: eram cinco e meia da manhã. Raramente acordava tão cedo. Imaginei que Quinn estivesse finalmente em casa, dormindo em nosso quarto. Imaginei que seria uma boa oportunidade para conversarmos depois da pior briga que tivemos. Mas quando entrei no meu quarto, meu coração disparou em preocupação, medo e desgosto. Quinn não estava em casa. Entrei em pânico imaginando mil e uma coisas ruins que pudesse ter acontecido. Procurei meu celular e o único recado que tinha era de Nina dizendo que precisava falar comigo o mais breve possível. Eu estava me lixando para minha assessora naquele momento e ela iria esperar.

O que me interessava era eu Quinn não estava em casa. O meu quarto estava exatamente como havia deixado: com a porta do closet arrebentada, sangue seco da minha irmã aqui e acolá, meu roteiro e canetas no chão, a cama bagunçada. E nada de Quinn. Nem sequer evidências de que ela havia passado e saído de casa sem que percebêssemos: todas as roupas dela estavam no lugar. O que me impedia de entrar completamente em pânico eram as palavras pragmáticas o meu pai sobre a chegada de más notícias: elas vêm rápido e quando menos se espera. Estava quase em pânico, mas não iria chorar.

Entrei novamente no quarto da minha irmã. Peguei a bandeja em cima do criado mudo e levei até a cozinha. Cuidaria da limpeza depois. Procurei não pensar em Quinn ou em todo pesadelo do dia anterior e resolvi fazer o café da manhã e minha movimentação pela casa acordou minha irmã. Santana também deve ter dormido mal porque ela nunca acordava a essa hora por vontade própria. Observei Santana arrastando o pé com aquele gesso até o banheiro. Ouvi o barulho da descarga e da pia enquanto continuava a fazer comida matinal às seis da manhã.

"Bom dia." Ela disse.

"Cadê as suas muletas?"

Santana suspirou. Deu meia-volta, foi ao quarto e depois voltou andando com o par de muletas.

"Como está o tornozelo?"

"Dolorido. Queria mesmo era me livrar dessa coisa." Apontou para o gesso.

"Sinto informar, mas você vai ficar com essa bota branca até o final do mês. Muletas pelos próximos três meses..."

"Eu ouvi o médico, nanica." Santana olhou para mim séria depois da cortada que me deu. "Conseguiu dormir?"

"Sua cama não é ruim".

"Bom... existem vantagens nas dimensões reduzidas".

"Esse tipo de argumento funciona com uma paquera, Santana. Comigo, soa um tanto quanto incestuoso!" Ela deu uma gargalhada. Uma tão frouxa que me fez sorrir também por dois segundos.

"Nossa relação sempre teve uma pitada de incesto".

"Verdade".

"Quinn deu sinal de vida?"

Nossa conversa parou quando ouvimos batidas na porta. Meu coração começou a pulsar mais forte. Quando atendi, vi uma Quinn em péssimo estado. Tinha olheiras, cabelo bagunçado, cheiro forte e parecia estar de ressaca.

"Posso entrar?" A voz dela era tão pequena que o meu coração se quebrou.

Dei passagem para que ela entrasse na própria casa e sentou-se no sofá, como se fosse uma visita em um ambiente desconfortável.

"Vou para o meu quarto." Santana pegou as muletas, mas não antes de parar em frente de Quinn. "Seja uma boa menina, ou eu vou usar as minhas muletas dessa vez... na sua cara".

Sentei na outra ponta do sofá e não conseguia parar de olhar aquela figura que vagamente lembrava a minha noiva. Estava visivelmente exausta, com uma óbvia dor nas costas. Do jeito que apertava os olhos, definitivamente estava de ressaca. Parecia que ela bebeu todas e dormiu numa vala. Tudo que eu queria era abraçá-la e dizer que as coisas ficariam bem. Mas Santana tocou num ponto importante: existiam coisas erradas e que não poderia relevar mais. Fechar os olhos e ignorar não seria a atitude correta. Ficamos em silêncio. Eu não queria começar. Achei que isso deveria ser papel dela.

"Eu sei que passei dos limites ontem." Quinn não tinha coragem de me encarar. "E vou entender se você não me perdoar".

"Eu posso te perdoar. Mas acho que a gente deveria discutir alguns pontos. O seu ciúme ontem passou o limite do aceitável. O seu descontrole diante de uma fofoca de site foi assustador."

"Concordo!"

"Santana sugeriu que talvez você pudesse procurar formas de ajuda. Conversar com um terapeuta, talvez?"

"Estou aberta a opções".

"Sei que a minha profissão não é fácil, Quinn. Tento me imaginar na posição inversa. Se você fosse atriz e eu não... como será que eu reagiria te ver beijar outra pessoa? Não é mesmo uma cena agradável, mas eu realmente me esforçaria porque eu te amo tanto, que só desejaria o que fosse melhor para você e também para a sua carreira. Esse é só um ponto. Existem vários outros..."

"E como você se sentiria se eu ficasse com outra pessoa?"

Aquela frase saiu da boca de Quinn e explodiu na minha cabeça e no meu coração. Fiquei sem reação a princípio, mas depois tentei racionalizar. Bom, talvez ela só estivesse sendo hipotética, afinal, era sobre o que estávamos conversando, certo?

"Acho... acho que eu ia querer saber por que você ficou com essa pessoa, em primeiro ligar." Minhas mãos não paravam de tremer. "Ia querer saber se você fez isso por não me amara mais ou..." Droga de lágrimas que teimavam escorrer no meu rosto. "Você fez isso, Quinn? Você esteve com outra pessoa?" Não queria ouvir a resposta, mas não tinha alternativa.

"O nome dela é Monica. É provável que você a tenha visto na minha festa de aniversário. Monica trabalhou comigo no documentário, e ela me assediava com pequenas atitudes, palavras, toques. Eu sempre a ignorei, juro por Cristo que está no céu! Nunca quis absolutamente nada com ela. Mas então eu vi a notícia do Facebook. Tive a ideia de procura-la, e aconteceu o que aconteceu. Quando eu saí daqui ontem, eu tinha um objetivo: encher a cara."

"Obviamente você encheu a cara." Comentei com certo desgosto.

"Eu tomei alguns shots de tequila... depois eu peguei um táxi e fui ao apartamento de Monica. A gente conversou, tomamos vodca, e depois... Rachel... eu sinto muito!" Quinn começou a chorar copiosamente da minha frente e eu não tinha certeza se o meu cérebro estava processando.

"Quinn? O que você fez?" Senti minhas próprias lágrimas caírem no meu rosto. "Vocês transaram?" Minha voz estava cheia de mágoa.

"Aconteceu."

Meu mundo caiu.

"Aconteceu?" Procurava me controlar para não gritar, explodir.

"Acho melhor te poupar dos detalhes... mas saiba que eu me arrependi em seguida, Rach." Ela voltou-se para mim e se ajoelhou. "Foi um descontrole, meu. E agora eu quero morrer por te magoar dessa forma. Por favor, me perdoa!"

Fiquei em silêncio. Não conseguiria falar absolutamente nada. Tudo que eu conseguia fazer era chorar.