17 de julho de 2015 – Vãos

(Rachel)

"O nome dela é Monica. É provável que você a tenha visto na minha festa de aniversário. Monica trabalhou comigo no documentário, e ela me assediava com pequenas atitudes, palavras, toques. Eu sempre a ignorei, juro por Cristo que está no céu! Nunca quis absolutamente nada com ela. Mas então eu vi a notícia compartilhada no Facebook e aconteceu o que aconteceu. Quando eu saí daqui ontem, eu tinha dois objetivos: encher a cara e fazer uma besteira sem pensar."

"Obviamente você cumpriu a sua meta." Comentei com desgosto.

"Eu fui naquele bar das putas e tomei a tequila mais barata que já desceu na minha garganta... depois eu tive um impulso e fui a casa da Monica. Chegando lá, nós conversamos um pouco e bebemos... Rachel... eu sinto muito!" Quinn começou a chorar copiosamente da minha frente e eu não tinha certeza se o meu cérebro estava processando.

"Quinn? O que você fez?" Senti minhas próprias lágrimas caírem no meu rosto. "Vocês transaram?" Minha voz estava cheia de mágoa.

"Aconteceu. Eu estava com raiva, meio bêbada... eu estava com raiva... depois eu só queria me sentir bem, depois do que aconteceu."

"Aconteceu?" Procurava me controlar para não gritar, explodir.

"Acho melhor te poupar dos detalhes... mas saiba que eu me arrependi em seguida, Rach." Ela voltou-se para mim e se ajoelhou. "Foi um descontrole, meu. E agora eu quero morrer por te magoar dessa forma. Por favor, me perdoa!"

Fiquei em silêncio. Não conseguiria falar absolutamente nada. Tudo que eu conseguia fazer era chorar. Não conseguia acreditar em nada do que estava acontecendo. Não entendia como um beijo à toa se transformou em motivo de traição, que soava como retaliação. Foi a primeira vez? E se ela já esteve com outras mulheres em meio ao nosso relacionamento?

Eu me lembro da dor que senti quando soube que Santana e Finn transaram uma única vez, mesmo num período em que a gente tinha terminado. Doeu muito. Doeu porque os dois esconderam isso de mim por meses, doeu porque o coral sabia e ficou rindo pelas minhas costas, doeu porque foi a minha irmã com o meu então namorado. Mas a dor que eu sentia diante da confissão de Quinn era dez vezes pior. Eu amo essa mulher, eu tenho uma vida com ela... eu aceitei casar com ela... e Quinn teve coragem de ir para a cama com uma vagabunda qualquer. Era como se eu não valesse nada.

Quando menos percebi, Quinn estava ajoelhada na minha frente, próxima. Ela tentou segurar a minha mão, mas eu me levantei do sofá como num reflexo como se ela tivesse uma praga contagiosa. Raiva começou a pulsar dentro do meu peito.

"Não se atreva a me tocar, Quinn Fabray."

"Rach..."

"Não me chame de Rach!" Falei baixo. Então encarei Quinn. Lágrimas corriam livres em meu rosto. Eu a amava mais que tudo, mas ela ultrapassou uma linha que eu não conseguiria perdoar. Foi como se ela tivesse assassinado uma parte de mim. Eu mal conseguia olhar para ela. A minha raiva começou a se misturar com nojo. "Você sabe onde estão as malas. Pegue uma e saia daqui."

"Rachel..."

"Eu disse: SAI DAQUI!"

Quinn perdeu o equilíbrio e caiu para trás com o meu grito. Bateu as costas na mesa de centro.

"Rachel... por favor. E se eu voltar amanhã..." O choro de Quinn também era solto.

"SAI. DA. MINHA. CASA!" Berrei com toda força que tinha.

"É melhor você sair desta sala, Ray." Uma terceira pessoa estava ali na sala: minha irmã. Ela parecia anormalmente calma. Aproximou-se lentamente com as muletas e o pé engessado que não podia sonhar em tocar ao chão por três meses. Eu não me mexi. Estava num debate interno entre matar Quinn ou sair correndo. "Ray!" Ela disse mais enfática. "Deixa que eu cuido dela. Vai para o meu quarto e esmurre o travesseiro, grite da sacada, quebre a porta do meu guarda-roupa, mas sai daqui."

Dei uma última olhada em Quinn. Eu a amava, mas naquele momento eu a odiava, a desprezava. Santana tinha razão: tinha de sair dali e esmurrar alguma coisa. Segui para o quarto da minha irmã e bati a porta com força. A porta não merecia, claro. Então atirei-me em cima da cama ainda desarrumada da minha irmã e chorei livremente.

...

(Santana)

Claro que a privacidade que me dispus a dar a Quinn e Rachel era relativa. Fiquei atenta e escutei boa parte da conversa. Confesso que, por pouco, não saí correndo para quebrar a minha muleta na cabeça daquela bitch tão logo ouvi a confissão. Vaca! Precisei me segurar e respirar fundo. Tinha de me controlar por Rachel. Ela ia precisar de mim. Fiquei em alerta, até que a ouvi berrar. Decidi que precisava entrar em ação, mas não como tinha feito no dia anterior. Tinha de ser mais racional, equilibrada. Alguém tinha de ser naquela casa. A cena deplorável no quarto da minha irmã me ensinou que se todo mundo fica de cabeça quente sem nenhum racional por perto, significava caos com resultados negativos. Dito e feito.

"É melhor você sair desta sala, Ray." Me fiz presente na sala. Rachel olhou para mim com jeito de que não me queria ver ali, que não era da minha conta. Aproximei-me lentamente com a muleta e foi bom perceber que a atenção dela estava em mim. "Ray!" Disse mais enfática. "Deixa que eu cuido dela. Vai para o meu quarto e esmurre o travesseiro, grite da sacada, quebre a porta do meu guarda-roupa, mas sai daqui."

Ela relutou. Estava num debate interno ali. Por fim, e ainda bem, saiu pisando duro para o meu quarto e fechou a porta de um jeito que pensei que todos os quadros da casa fossem cair com a onda de choque do impacto. Lidaria com Rachel em breve. Quinn estava em frangalhos e chorava copiosamente. Não sabia o que pensar ou agir de imediato. Fiquei ali parada observando uma pessoa desmoronar. Tinha raiva pelo que fez, mas também pena. Sim, tinha todas as reservas do mundo em relação a Quinn, mas até mesmo para mim era triste ver um casal que se amava tanto, viver aquele tipo de drama. Tudo porque, de um lado, a minha irmã se deixou levar pelas pequenas intimidades trocadas no set de filmagens, e não tinha ainda cacoete para se antecipar à imprensa. Por outro lado, Quinn tinha um problema com o ciúmes e com possessividade que era real.

Caminhei até a cozinha. Deixei uma muleta encostada para poder abrir a geladeira. Peguei a jarra de água gelada que era providencial naquela época do ano em Nova York. Tinha de fazer algum malabarismo para pegar o objeto, fechar a geladeira e colocá-lo na bancada. Aos poucos, conseguia pegar o jeito em me virar sozinha com duas muletas e um pé engessado. Peguei o copo e tentei transportar o objeto sem deixar derramar água pela casa. Era uma tarefa mais difícil do que aparentava. Consegui com dificuldade com perda mínima de conteúdo. Cheguei até Quinn que estava sentada em cima do tapete da sala de estar com a testa entre os joelhos dobrados.

"Por favor, não me faça me abaixar com essa muleta e este copo na mão." Disse com voz baixa e calma. Como não vi reação da traidora, suspirei. Deixei o copo em cima da mesinha e me sentei no sofá, peguei novamente o copo e o coloquei na frente de Quinn. "Beba... vai te acalmar." Ela ergueu a cabeça. Estava com os olhos estufados.

"Não quero!" A voz de Quinn era hesitante e embaçada pelo choro. "Ela vai sair uma hora e a gente vai conversar."

"Tudo bem... como quiser, mas enquanto você espera, beba a água porque ela vai te fazer bem." Falei mais firme.

Quinn aceitou. Bebeu todo o conteúdo. Era difícil vivenciar uma situação como aquela. Apesar de tudo, conhecia Quinn desde criança, mesmo que não falasse com ela. Nós ficamos amigas de certa maneira. Talvez um relacionamento não convencional, mas ela era uma das poucas pessoas que eu poderia conversar e receber uma opinião honesta. Quinn era uma ouvinte. Comecei a passar meus dedos entre os cabelos dela. Era estranho querer consolar um pouco a mulher que traiu a minha irmã há menos de 24 horas.

"Por que está sendo legal comigo?"

"Ia adiantar alguma coisa se eu viesse aqui querendo te dar uma muletada na cabeça?"

"Talvez fosse mais você!" Passou a blusa no rosto para se enxugar.

"Embora você realmente mereça, eu não quero brigar. Isso não teria serventia alguma diante das circunstâncias. Quer que eu ligue para Mike vir te buscar?"

"Eu não vou embora. Aqui é minha casa também, e eu estou cansada de ser expulsa da minha própria casa!" Quinn rosnou. Era pequenos momentos assim que ela deixava transparecer certos traumas antigos. "Rachel vai se acalmar e vai me ouvir."

"Ok! É justo. Enquanto isso, porque você não vai para o seu quarto, pegue algumas roupas e toma um banho? Você está fedendo!"

Quinn me encarou com raiva, mas depois acenou positivo. Água era um santo remédio. Pelo menos para mim. Na falta de uma piscina, eu tomava banhos demorados. Quinze minutos deixando a água cair no meu corpo. Era o que me ajudava a pensar melhor. Talvez isso ajudasse Quinn. Peguei o copo vazio e voltei à cozinha. Apenas deixei o objeto usado na pia e peguei minha outra muleta.

Caminhei até o meu quarto e encontrei a minha irmã estirada na minha cama de bruços. Ela não parecia chorar o volume de água de antes. Sentei-me na beira da cama com as costas para a cabeceira. Puxei meu pé engessado para cima da cama, processo que me causava dor depois de ter me arrebentado durante a briga. Comecei a fazer carinho nos cabelos da minha irmã, que ainda não se mexia. Por vezes massageava os ombros também, que estavam rígidos como uma rocha. Aos poucos, Rachel saiu da posição de bruços até rolar para o lado e deitar a cabeça no meu colo. Ainda ficou em silêncio e podia-se perceber que ela estava se esforçando para não começar a chorar forte novamente.

"Ela já foi?" Perguntou com a voz fraca, como se fosse uma criancinha.

"Não."

"Eu quero que ela vá embora." A raiva voltou a predominar na voz de Rachel. "Não vou sair daqui enquanto ela não for embora."

"Por que você não dome um pouco e conversa com Quinn mais tarde e com mais calma? Posso fazer um chá para ajudar se quiser."

"Eu a quero fora daqui!"

"Ok... tudo bem... você vai dizer isso diretamente para ela... de novo... mas só depois de dormir um pouco e esfriar a cabeça. Você vai se arrepender amargamente se tomar qualquer atitude desta natureza no calor da raiva. Sem raciocinar pelo menos por um segundo."

"Fica aqui comigo?" Rachel parecia uma garotinha desamparada.

"Claro."

Era ruim me ajeitar na cama com Rachel toda chorosa e grudenta. Eu mal escorreguei para me deitar e ela já estava se acomodando contra o meu corpo. Passou o braço sob o abdômen, encostou a cabeça no ombro e fechou os olhos. Não tinha muito como me mexer naquele momento. Não tinha sono, não estava cansada realmente. Minha irmã adormeceu, mas eu fiquei remoendo os acontecimentos do dia em minha mente até me cansar. Até que eu também cochilei. Rachel acordou umas duas horas depois com os olhos muito inchados do choro.

"Por que o seu quarto não é uma suíte?" Ela resmungou e eu ergui franzi a testa.

"Não sei se você reparou, mas só há uma suíte neste apartamento, e ela é sua." Se ela quisesse outra suíte, talvez não tivesse sido boa ideia ter deixado Quinn escolher o apartamento. Mas eu não poderia fazer esse tipo de comentário, para não colocar fogo em uma situação que já estava horrorosa.

"Quero usar o banheiro."

"O banheiro fica de frente para o meu quarto. São apenas quatro passos de uma porta a outra."

"E se ela estiver ainda na sala?"

"Não olhe para o lado."

"O problema é que eu preciso olhar. Preciso dizer uma última coisa..."

"Ray, pense muito bem o que vai dizer a ela. Não acho que vá querer desistir de um relacionamento assim sem conversar."

"Sem conversar?" Rachel falou baixo. "Não fui eu que saí daqui após uma briga e transei com a primeira puta da esquina."

"Entendi essa parte e você está coberta de razão, Ray. Mas cuidado como vai falar."

"Ela me traiu a menos de 24 horas, Santy!" Rachel levantou a voz, e era tudo que eu não queria. "Tenho um par de chifres na testa por culpa dela. Isso é imperdoável."

Eu não era a pessoa mais indicada a responder sobre o que era ou não perdoável. Logo eu que tive um relacionamento aberto com Puck e com Brittany na época de McKinley High. Eu trairia Andrew com Brittany num piscar de olhos se ela me quisesse. Tenho pensamentos impróprios com Johnny. Quem sou eu para julgar neste departamento? Posso julgar a agressividade e o ciúme de Quinn, mas o fato de ela ter traído? Eu não tinha essa moral, por mais que fosse team-Rachel até o fim do mundo.

Sei que Quinn fez uma estupidez colossal, mas eu não conseguia ficar com a raiva dela como supostamente deveria. A agressão física dela quando segurou o pulso de Rachel me incomodou muito mais do que a traição sexual, ou de quando ela me agrediu. Diferente de Rachel, eu não terminaria com ninguém por causa de uma escorregada casual, sobretudo depois de uma baita briga. Acho que só não perdoaria se existisse um relacionamento paralelo feito nas minhas costas: aí seria demais para aguentar.

Rachel fechou a cara e saiu do quarto. Que deus a protegesse. Era tudo que poderia fazer.

...

(Quinn)

Santana me encarou com ar piedoso. Tanto que eu não sabia se ficava com muita raiva, porque ela foi diretamente responsável pela confusão, ou se ficava agradecida por não ter a minha cabeça rachada por uma muleta. Se Santana não tivesse invadido o quarto, talvez Rachel e eu tivéssemos uma chance de nos entender. Talvez eu não saísse de casa com tanta fúria no peito e procurasse Monica para descontar. Mas eu não estava em condições de bater boca com ela.

"Por que está sendo legal comigo?" Perguntei e a minha voz saiu um fiapo.

"Ia adiantar alguma coisa se eu viesse aqui querendo te dar uma muletada na cabeça?"

"Talvez fosse mais você!" Passei a blusa no rosto para me enxugar.

"Embora você realmente mereça, eu não quero brigar. Isso não teria serventia alguma diante dessas circunstâncias. Quer que eu ligue para Mike vir te buscar?"

"Eu não vou embora. Aqui é minha casa também, e eu estou cansada de ser expulsa da minha própria casa!" Fiquei indignada com a insinuação. "Rachel vai se acalmar e vai me ouvir."

"Ok! É justo. Enquanto isso, porque você não vai para o seu quarto, pegue algumas roupas e toma um banho? Você está fedendo!"

Acho que ela tinha razão: eu devia estar fedendo a álcool, suor e sexo. Santana entrou no quarto dela e eu tive dificuldades para me levantar dali do sofá. Foi duro entrar no meu próprio quarto e assistir mentalmente às cenas do dia anterior. Rachel parecia que não entrou mais ali pelo resto do dia. A cama estava do mesmo jeito, a porta do closet ainda estava quebrada com todos os estilhaços no chão. Havia um pouco de sangue seco no chão e em cima da cama. Fiquei em pânico por não me lembrar da origem do sangue. E se fosse de Rachel? Mas ela não parecia fisicamente machucada. Santana, por outro lado, tinha um curativo no ombro. Talvez fosse dela. Entrei no closet. De certa, forma foi um alívio ver que Rachel não queimou ou jogou minhas roupas pela janela. As pessoas achavam que isso era mito, mas vi isso acontecer mais de uma vez.

Peguei uma calça, calcinha limpa, camiseta. Meu roupão ainda estava pendurado no poste de roupas que tínhamos no quarto. Fui para o banheiro. Deixei a água cair livremente no meu corpo por alguns bons minutos antes de me preocupar com a chamada perfumaria. Queria ter a capacidade de bloquear imagens em minha mente, só que os slides teimavam em passar. A foto do beijo, Rachel se justificando e com expressão de medo, a minha raiva, Monica, Monica nua de joelhos, Monica sorrindo como um demônio enquanto eu lhe dava um orgasmo. Era como se tivesse um pesadelo com os olhos abertos.

"O que eu fiz?" Chorei baixinho e dei um murro na parede. Um tão forte que esfolou a pele. Ao menos a dor tirou as imagens da minha mente.

Vesti minha roupa, e quando saí do meu quarto, procurei escutar o que se passava no quarto de Santana. Estava tudo muito quieto. O que me restava era esperar para conversar com Rachel mais uma vez sem choro, e com a cabeça fria. Sentei-me no sofá e esperei. Não sei precisar quanto tempo depois, mas dei um salto quando ouvi a porta do quarto de Santana se abrir. Minha Rachel passou do quarto para o banheiro sem dizer uma palavra. E eu ali morrendo de ansiedade. Os minutos que Rachel passou no banheiro foram uma eternidade. Ela saiu de lá com os cabelos escovados, o rosto inchado do choro, mas limpo, e veio até mim com uma expressão ilegível. Sem dizer uma palavra, parou na minha frente e me encarou.

"Eu quero que você faça as malas. Está tudo acabado entre nós." Ela me entregou o anel de noivado.

"Rachel! Não!" Quis brigar, quis começar a chorar de novo. Quis ir até ela e sacudi-la para tirar essa idéia absurda da cabeça. Eu me levantei do sofá para ir até ela, mas Rachel levantou os braços num gesto de advertência para que eu mantivesse distância.

"Não apenas você me agrediu fisicamente, como também me traiu da forma mais baixa e vil, independente de ter se arrependido ou não. Tudo que sei é que eu mal consigo olhar para a sua cara, e não vou suportar conviver contigo por agora. Se você não tiver a dignidade para arrumar as suas coisas e ir embora até o início da noite, então vou eu."

Ela disse firme, sem vacilar. Então percebi que poderia esbravejar, brigar e apelar, que ela não reconsideraria tão cedo.

"É isso que você quer?" Tentei me controlar o melhor que podia. "Que eu vá embora daqui?"

"Não é que você ficaria sem teto, Quinn." Ela disse em tom amargo. "A fulaninha pode te receber, não é mesmo? Garanto que ela ficaria feliz em dividir a cama dela contigo por mais algum tempo."

"Quer que eu me jogue nos braços dela?"

"Faça o que bem entender, Quinn. Eu vou para o quarto da minha irmã e vou ficar lá dentro até o fim da tarde. Se você ainda estiver aqui, então eu vou até o meu quarto, arrumo a minha mala, e vou procurar um lugar para ficar. Deixo o apartamento todinho para você e para Santana. Você decide."

Rachel fez o prometido e entrou novamente no quarto de Santana. Eu relutei em sair da sala. Senti vontade em fazer uma pequena disputa. Era besteira, no entanto. Voltei ao meu quarto e coloquei algumas roupas minhas numa mochila. Coisa pouca para ficar uns três ou quatro dias fora de casa. Talvez isso fosse o suficiente para Rachel pensar melhor e me perdoar.

Saí do apartamento e desci no elevador passando o olho pelos meus contatos no celular. Parei no nome de Monica. Fiquei tentada a ligar só de raiva. Ela me ofereceria uma cama quente e sexo fácil por uma noite ou duas. Mas de que isso me adiantaria? O que isso iria acrescentar à minha vida? Apenas pioraria minha situação com Rachel. Não queria Monica, queria Rachel. Sempre quis Rachel. Apaguei o contato de Monica no meu celular e liguei para Mike.

...

18 de julho de 2015

(Santana)

Acordei mais cedo que o normal, o que era irritante por estar de férias. Ou quase. Estava exausta por causa dos eventos do dia anterior. Levantei com o corpo levemente dormente nos braços por segurar Rachel a noite inteira. Procurei não perturbar a minha irmã e pelo visto deu certo. O carpete ajudava a amortecer o som do "toc-toc" da muleta enquanto ia até o guarda-roupa. Ainda tinha alguma dificuldade para colocar calças. Não me importava tanto com as muletas, mas o gesso era cruel. Vesti o moletom, uma camiseta do Nirvana e desci do prédio.

"Bom dia Santana." Cruzei com a síndica do prédio na portaria.

"Dia." Respondi seca. A síndica era uma moça eficiente na administração do condomínio, mas era uma fofoqueira de mão cheia.

"Quinn viajou? Eu a vi pegando um táxi ontem carregando uma mochila."

O nosso edifício tinha bom isolamento acústico entre os apartamentos, mas ainda assim escutávamos barulhos como furadeira, o arrastar de móveis pesados, um martelo na parede. Provavelmente alguém escutou a breve gritaria e o barulho da porta quebrando há dois dias e deve ter comentado. Não ia facilitar as fofocas.

"Ela precisou viajar às pressas para resolver problemas particulares."

"Entendo. E o pé? Como está?"

"Na mesma. Bom, se me dá licença, eu vou ali comprar o café da manhã."

"Quer ajuda?"

"Não, obrigada. Não vou comprar muita coisa."

"Ok. Dê lembranças à sua irmã."

Graças a deus ela não insistiu mais. Desci um quarteirão em direção a delicatessen Gill, inaugurada no início do ano. Comprei um saco de pão integral enriquecido com grãos, como Rachel gostava. Depois passei no Café da esquina e comprei dois capuchinos. Rachel não ia implicar se tomasse café por um mísero dia. Quando voltei, encontrei minha irmã saindo do meu banheiro.

"Trouxe o nosso café." Forcei um sorriso. Rachel apenas acenou.

Em silêncio, foi até o quarto dela. Quinn foi embora e fez questão de deixar vestígios. O closet revirado no lado dela. Meia pelo chão. Rachel odiava encontrar meias usadas no chão do apartamento. Quinn não fazia isso. Era quase tão organizada quanto Rachel, por isso as duas eram tão harmoniosas na divisão do espaço – exceto pelas roupas de pendurar. Eu era a mestre em deixar meias pela casa. Ficavam dias no mesmo lugar se deixasse até serem recolhidas para a lavagem das roupas ou na hora da faxina semanal. Sabia que Quinn tinha deixado meias pelo chão de propósito, para forçar Rachel a recolher as coisas dela e, de repente, sentir saudades e se arrepender. Ela podia ser maquiavélica daquela forma, mesmo quando estava terrivelmente magoada. Quando inspecionei a casa ontem, reparei que a maior parte das roupas ficou, como se o plano era passar poucos dias fora de casa. Rachel quis jogar tudo pela janela. Eu é que não deixei. Não por Quinn, mas pelo barraco: odiaria virar assunto do mês para a vizinhança.

Arrumei a mesa como manda o figurino. Coloquei o pão recém comprado num prato, geléia, nossos cafés, pratos, talheres, gelatina, frutas, granola. Só não fiz panqueca.

"Estou sem fome." Rachel resmungou assim que saiu do quarto com roupas frescas.

"Coma pelo menos uma fatia do pão." Insisti. "Se você não comer as refeições ao menos um pouco, sua saúde será prejudicada, e você vai acabar com uma gastrite com a minha. O que acha?"

"Ok..."

Não conversamos. Eu devorei a comida enquanto Rachel apenas beliscava o pão e bebericava o café. Sequer reclamou que eu também tomava uma xícara: mal sinal.

"Preciso resolver algumas coisas agora pela manhã na Columbia e para a Rock'n'Pano. Nada sério, mas é que um empresário pediu algumas unidades do produto para avaliação, e eu preciso também ir à UPS despachar o pacote. Volto antes do almoço. Vai ficar bem sozinha?"

"Talvez eu vá malhar um pouco."

"Perfeito!"

Limpei a boca e corri para resolver pequenas pendências na Columbia. Coisas como lista de espera em cercas matérias, resultado de processos de notas, homologações. Liguei para Andrew me ajudar. Como ia ao campus de táxi, ele poderia me esperar. Era estranho. A Universidade ficava na área nobre da cidade que era considerada uma das capitais do mundo. Ainda assim, Columbia estava com movimento modesto. Melhor para alguém que estava de muletas como eu. Encontrei Andrew no local combinado, a gente se beijou apesar do nosso período de turbulência na relação. Pedi para Andrew ir à UPS despachar o pacote enquanto eu resolvia os problemas na secretaria. Ele tinha duas pernas boas, podia caminhar mais.

Fiquei no prédio da administração da faculdade de Economia a fim de resolver problemas de matrículas de duas matérias, e aproveitei para saber se já tinham homologado o processo de uma das notas que entrei com processo. Havia entrado com recurso para reavaliação. Ganhei um A- numa prova, o que lhe daria um A de nota final, mas o professor havia ignorado certos pontos da questão dissertativa que elevariam a nota da prova e, por conseqüência, a nota final. A gente discutiu na frente da classe e o professor não deu o braço a torcer, então entrei com processo de reavaliação acadêmica enquanto o professor, como contra-ataque, entrou com um processo de avaliação disciplinar.

Fui julgada por isso, e ganhei uma advertência com multa, dessas que ficavam registradas no histórico acadêmico. Se o professor fosse muito influente junto à banca, ele ainda poderia impor serviços comunitários no campus. Coisas como participar do sopão semanal em que os alunos servem a comunidade pobre e sem-teto. Acharam que eu não era delinqüente e prepotente o suficiente para ter de aprender lições de humildade. Também não me importaria em fazer trabalhos comunitários.

"Aqui está o histórico escolar." A moça da secretaria me entregou com cara de entediada. Todo o resto do campus entraria de férias até o fim de semana. Ela deveria se alegrar.

Fiquei feliz ao saber que a nota aumentada já havia sido homologada. Não estava conseguindo ver pela internet por causa de algum defeito no sistema ou algo parecido. Depois de resolver burocracias, esperei ainda 15 minutos pelo retorno do meu namorado.

"Como você vai me recompensar pelo serviço, senhorita Berry-Lopez?" Andrew me beijou de leve antes de me ajudar a se levantar do banco no hall do prédio.

"Cinema?" Não queria levá-lo em casa por causa do estado de guerra.

"Na sua casa?" Suspirei e ele não encarou muito bem o meu gesto. "Por quê? Vai querer que eu deixe de ir à sua casa?" Bronqueou.

"Não é nada disso, nerd. É que aconteceram algumas coisas. Quinn e Rachel brigaram feio, e Quinn saiu de casa. Na verdade, ela foi expulsa. Enfim. Não é o melhor momento de namorar lá em casa."

"Nem de deixar a sua irmã sozinha, não acha?" Ele tinha um ponto.

"Então a gente vai lá em casa, e assiste um musical de 50 anos junto com a minha irmã para ela se sentir melhor. O que acha?"

"É um ótimo programa."

Odiava a sensatez de Andrew.

"Nunca imaginei ver Quinn e Rachel separadas..." Ele me ajudou a descer as escadas. A rampa de acessibilidade ficava do outro lado e estava com preguiça de dar a volta.

"Eu nunca imaginei ver Quinn em nossas vidas..." Andrew não entendeu. Percebendo a confusão dele, elaborei melhor. "Quinn sequer era amiga da minha irmã antes das duas começarem a namorar. Engraçado, isso faz alguns anos, coisa que começou ainda em Lima, mas sempre me pego surpresa ao pensar sobre o assunto. Quinn e Rachel? É muito esquisito. Eu achava que a minha irmã ia morrer ao lado do cretino do Finn Hudson, que era o cara por quem ela se arrastava pela escola. Finn era capitão do time de futebol, uma espécie de herói da escola, desses que podia fazer as maiores cachorradas que nunca estaria errado. Mas era também um cara sem talento, sabe? Que só estava na posição de herói da escola porque era o queridinho dos professores. Rachel e Finn, namoraram uns dois anos, entre idas e vindas. Para a minha surpresa, minha irmã trocou aquele panaca de dois neurônios por Quinn."

"Achei que Rachel só gostasse de garotas."

"Ela é como eu. Bissexual. Quinn é lésbica. Eu não me surpreenderia se Rachel passasse a sair de novo com caras. Da mesma maneira que eu não me surpreenderia se Quinn se tornasse uma womanizer."

"O bom da vida é que ela causa surpresas. Tudo que você pensa ser definitivo, não passa de ilusão na verdade. Eu pensava que ia casar com uma vizinha que era a minha melhor amiga. A gente passou a infância grudados, e juramos que nos casaríamos algum dia."

"E o que aconteceu?"

"O de sempre. Veio a high school. Ela se transformou na gostosinha do colégio, enquanto eu permaneci sendo o mesmo nerd que lia quadrinhos da Marvel. Em nosso primeiro ano, um cara popular do time de basquete a tirou de mim."

"Ela ficou grávida? Casou com ele?"

"Nada tão clichê subúrbio. Só a vida aconteceu. Ele ganhou uma bolsa para jogar no Kansas, e ela foi para o Oregon pra estudar literatura, e provavelmente será professora de high school quando se formar. Acho que ela tem outro namorado por lá, não tenho certeza. A gente não se fala faz um bom tempo."

Verdade. Nem sempre os maiores amores da juventude são predestinados a ficar juntos. Veja eu e Brittany. Achava que nosso destino era casar e ter três filhos: um biológico meu gerado por ela, um biológico dela gerado por mim, e um filho adotivo. Era o plano perfeito. Mas a vida nos separava mais e mais.

Andrew e eu pegamos um táxi de volta para casa, porque estava calor e eu não estava a fim de entrar no forno do metrô, em especial quando o sistema de ar condicionado dos vagões dava problema. Era melhor pegar um amarelinho, mesmo pagando mais caro. Chegamos em casa próximo de meio dia, e a cena que nos deparamos foi uma das mais surreais. Rachel dançava, pulando e agitando os cabelos com uma garrafa de vodca em mãos. A música estava tão alta que não sei como os vizinhos não reclamaram ainda. Ou talvez eles tenham reclamado, e minha irmã os mandou tomar naquele lugar.

"Você ficou doida?" Primeiro eu abaixei o som.

"Como você é estraga prazer!" Me desdenhou. Estava completamente bêbada. "Oi Andrew. Veio trepar com a minha irmã? Porque eu acho que você deveria aproveitar ao máximo antes que Brittany resolva estalar os dedos, e Santana saia correndo igual cachorrinha no cio. Você sabe que o amor da vida da minha irmã se chama Brittany?"

Eu gelei por um segundo quando Rachel falou de Brittany para Andrew. Era óbvio que ele sabia que Britt foi a minha ex-alguma coisa, seja lá como se chama o que tivemos ao longo dos anos, por isso mesmo não precisava ser lembrado.

"Me dá a garrafa!" Tirei da mão dela

"De jeito nenhum." Rachel avançou sobre mim querendo recuperar a vodca. Eu teria me desequilibrado e caído no chão se não fosse pelo meu namorado. Ele me amparou e ficou atento.

"Eu. Quero. A. Garrafa." Rachel rosnou e tentou avançar de novo, mas Andrew a agarrou pela cintura.

"Problema. É. Seu." Aproveitei que a fera estava presa nos braços de Andrew, e esvaziei o que restava da garrafa na pia da cozinha. Fiz isso com dó, porque aquela era uma vodca muito boa.

"Não!" Rachel protestou ainda da sala. "Eu te deixo beber quando você está deprimida. Por que você não me deixa beber também?"

"Caso não tenha percebido, você já passou do estado aceitável de embriaguez. Além disso, eu sou a errada da família, lembra?" Voltei a encarar a minha irmã, mas fui surpreendida com uma gargalhada irônica.

"Você? A errada? Por favor! Logo a queridinha da família! A adorável rebelde!"

"Ray... por favor!"

"O quê? Vai negar que não seja? Você? Santana Berry-Lopez? Aquela que pode tocar fogo no mundo que ainda assim todos vão amar?"

"Rachel!" Coloquei mais advertência na voz.

"Estou mentindo? Você é a filha favorita. A líder de torcida da escola que todos temiam, a gênio em matemática, a mais bonita e sexy. Você é a garota da Columbia que faz duas faculdades. A herdeira de milhões de dólares. Não é isso que todos falam? E eu? Rachel Berry-Lopez? A desengonçada, a nariguda, a sem-sal. A atriz que chateia a todos com a cantoria sem-graça. Eu sou a sua sombra na nossa família! Sempre fui."

"Não é verdade." Tentei me aproximar, mas Rachel reagiu inquieta nos braços de Andrew e eu precisei manter distância. "Você é a estrela da família." Procurei amenizar. "Sempre teve esse talento único, e sempre soube o que fazer com ele. Você sempre foi forte e determinada, Ray, não eu. Então, por favor, para um pouco." Eu queria colocar um pouco de racionalidade naquele cérebro alcoolizado, mas tudo que ganhei foi uma risada irônica.

"Você, Santy... sempre foi a mais admirada por todos sem nem precisar se esforçar. Zaide só tem olhos para você. Senhor Weiz fez toda a sujeira porque ele te queria ao lado dele. Porque você aparentemente é a reencarnação do filho morto dele. Não foi isso que ele insinuou? Mamãe? Você nem fala com ela por espontânea vontade, ainda assim ela só tem olhos para você. Porque você é a filha com o cara que ela sempre amou, enquanto eu sou o fruto do esperma do outro cara! Papai só tinha olhos para você: para a filha aventureira que gostava de fazer jardinagem com ele. E meu pai prefere você, porque, claro, é a filha biológica dele. E Beth. E abuela. E até mesmo eu! Eu sempre odiei a mim mesma porque você sempre foi a minha pessoa favorita em todo o universo! Mas eu não sou a favorita de ninguém! Todo o meu trabalho duro é obscurecido com um simples gesto seu! Todo o meu talento é apagado no momento em que você faz um insulto engraçadinho!"

"Não estou entendendo esse ataque!"

"Sabe Andrew, eu vou te contar uma historinha. Na escola eu namorava o cara dos meus sonhos. Finn podia escolher qualquer garota, ele ficou com Quinn Fabray, por deus do céu! Eu, a patinho feio, precisei lutar com todas as minhas forças para conquista-lo. Mas bastou Santana levantar as saias para ele se esquecer de mim. Sabe por que ela fez isso? Porque era uma vadia sem coração. Trepava com Brittany, com Puck, podia ter qualquer pessoa com duas pernas daquela cidade, e decidiu trepar também com Finn só para esfregar isso na minha cara. Ela deixava que eu sofresse bullying na escola, porque se divertia com o meu sofrimento. Porque sempre gostou de me ver no chão. Essa é a sua namorada. Vou te dar uma advertência: fique de olho nela, porque no mínimo ela vai querer trepar com Quinn para me matar de vez."

"Rachel, cala a boca!" Gritei.

"Sabe por que eu gostei tanto de inverter a hierarquia?" Rachel levantou o dedo, apontando para mim. Estava com raiva, mas eu também estava e me segurava para não avançar em Rachel e enfiar no tapa alguma sanidade naquela merda de cabeça. "Porque pela primeira vez na minha vida você ficou abaixo de mim! Você ficou aqui ó... na palma da minha mão. Dependendo de mim até para comer, como nunca tinha acontecido antes. Pela primeira vez eu era a protagonista e você a coadjuvante. E sabe o que mais? Eu nunca fiquei tão feliz em toda a minha vida!"

"Agora chega!" Andrew pegou minha irmã e a jogou por cima dos ombros dele. Atitude que ele fez um segundo antes de eu começar a estapear algum senso dentro da cabeça dela. "É melhor você se acalmar antes que diga mais alguma coisa que vá se arrepender depois."

Andrew carregou Rachel até o meu banheiro, a colocou dentro do box do chuveiro com roupa e tudo mais e ligou a água fria. Acompanhei atônita a atitude do meu namorado. Rachel se debatia para sair debaixo do chuveiro, mas ele a segurou até ela se acalmar. Eu estava em choque. Bêbados eram sinceros, e eu jamais imaginei que Rachel guardava todo esse rancor sobre mim. Verdade que sempre mantive uma posição dominadora sobre ela desde criança, mas nunca em sã consciência imaginei que isso tivesse a afetado tanto. Rachel sempre foi a minha irmãzinha e minha parceira, afinal. Eu a amo tanto! Acho que eu nunca parei para prestar atenção sobre como ela realmente se sentia.

"É melhor você pegar umas roupas limpas para a sua irmã..." Andrew sentou-se a beira da banheira. Rachel estava ensopada, ofegante e começou a chorar.

Fui até ao quarto dela o mais rápido que dava conta. Peguei uma roupa qualquer e voltei ao banheiro.

"Acho que posso assumir daqui..." Disse ao meu namorado, que acenou e saiu do banheiro.

Passei as mãos no rosto de uma chorosa Rachel antes de desligar a água fria. Ela estava razoavelmente colaborativa. Deixou que eu tirasse a roupa dela, que a secasse e que colocasse roupas novas. Enxuguei o cabelo dela o melhor que pude e a conduzi para o meu quarto, porque o dela ainda estava a mesma zona. Suspirei frustrada, e até um pouco envergonhada. Rachel passou por aquele desconforto comigo bêbada mais vezes que gostaria de admitir. Agora retribuiu de volta uma pequena amostra do quanto isso é horrível. Ofereci um copo grande de água antes que ela caísse no sono. Estava quente em Nova York, por isso as janelas do meu quarto estavam totalmente abertas. Ao menos ventilava.

Andrew fez o almoço, enquanto procurei arrumar o que dava conta. Ele não era um cara habilidoso na cozinha, mas sabia fazer macarrão. Foi o nosso banquete.

"Desculpe pelo que você presenciou aqui." Preparei a mesa para almoçarmos.

"Ao menos você sabe que ela te ama de verdade, apesar de tudo."

"É estranho. Eu nunca me comparei com minha irmã, mas ela sempre arruma uma forma de se comparar comigo. Eu não entendo, Andy, ela é única, inteligente, amorosa e extremamente talentosa. Rachel não precisa disso. Tudo que ela disse sobre preferências... é um erro. Ela é amada por todos, é a favorita de abuela... Meus pais nunca tiveram favoritas. Da mesma forma que eu gostava de fazer jardinagem com papai, Rachel e ele podiam conversar por horas e horas sobre musicais e sobre as divas. Era só uma questão de ponto de vista, sabe?"

"Mas é verdade que você deixou que ela sofresse bullying?"

"Sim. Infelizmente, isso é verdade."

"Santana..."

"Não é que eu queira arrumar uma desculpa, mas, na real, Rachel e eu sofremos bullying desde crianças por causa da nossa família. Tinha alguns garotos que pegavam no nosso pé por causa disso. Mas a gente aprendeu a lidar. Quando entramos em McKinley High, eu estava numa missão de me tornar popular junto com Brittany, porque eu achava que assim estaria protegendo minha melhor amiga. Mas a verdade é que eu estava perdidamente apaixonada por Brittany, a ponto de ignorar a minha irmã. Não completamente... mas eu a negligenciei muito."

"E você ainda está?"

"O quê?"

"Perdidamente apaixonada por Brittany?"

"Eu nunca vou deixar de amar Brittany." Se ele queria uma resposta, eu seria absolutamente sincera.

"Oh..."

"Mas Brittany está fora da minha vida, e você está aqui."

Voltamos ao silêncio. Terminamos nosso almoço, limpamos a cozinha, e Andrew decidiu ir embora.

"Obrigada pelo apoio." Disse à porta e dei um beijo recompensador.

"Qualquer coisa, me liga."

O beijei mais uma vez antes de ele ir embora em definitivo. Então fui fazer faxina no quarto da minha irmã. Primeiro troquei lençóis e colcha. Depois varri os estilhaços. Abri as janelas para deixar que o vento diluísse a energia ruim que ficou. Tinha um cesto de roupas para lavar, então separei algumas para colocar à máquina. Tinha mania de primeiro lavar sempre as peças brancas e claras.

Foi quando Rachel apareceu na sala reclamando de dor de cabeça. Nos olhamos, e senti que havia algo pesado entre nós. Não sabia se queria discutir a relação naquele instante. Ela foi tomar água com algumas aspirinas, enquanto continuei o trabalho de fazer os montinhos de roupas. Rachel ficou me observando, enquanto coloquei a primeira leva na máquina.

"Desculpa." Ela quebrou o gelo. "Eu não quis dizer tudo aquilo."

"Acho que você guardou essas coisas por tempo demais." Procurei não confrontar.

"O que disse não é o que penso realmente."

"Mesmo?" Fui irônica. Por mais que sentisse culpada, tinha essa mania de nunca querer perder uma briga para Rachel.

"Eu te amo, Santy."

"Disso eu nunca duvidei."

"Eu sempre te admirei."

"Olha Rachel, entendi o bravato. Eu posso não ter sido uma irmã exemplar, ok? Eu sei o que fiz. Sei que te magoei inúmeras vezes. Mas não é justo você jogar essa frustração na imagem que você acha que os outros fazem de mim, e que você faz de si mesma. Você sempre foi amada por mim, pelos nossos pais e por nossa família, e nunca duvide disso!"

Ficamos em silêncio. Por tanto tempo, que levei um susto quando o sininho de alarme da máquina soou para "dizer" que o processo de lavagem terminou. Coloquei o monte lavado dentro da secadora com algumas folhas de amaciante e depois joguei o segundo monte de roupa suja para dentro da máquina de lavar.

"Não entendo Ray." Rompi o silêncio. "Ontem você estava muito triste, mas não apelou para bebida alguma. Hoje foi isso. O que deu em você? Está certo que você se permite ter alguns pilequinhos de vez em quando em festas, mas nunca te vi tão ruim como hoje. Por que resolveu afogar as mágoas assim?"

"Porque até ontem, tudo não passava de uma briga por ciúmes. Hoje a ficha caiu: Quinn me traiu com outra mulher e saiu de casa."

"Você mandou que ela saísse..."

"Eu sei... isso não faz doer menos."

"Tudo vai melhorar, ok?"

"Não pode prometer essas coisas."

"O tempo pode."

...

19 de julho de 2015

(Quinn)

Tinha uma mancha grande de baba no meu travesseiro. Achei ridículo. Não pela baba, porque eu era humana, e isso às vezes acontecia. O problema era a situação como um todo. Minha cama passou a ser um sofá. Meu quarto era uma sala que dividia com um dos meus amigos. Homem tem cheiro forte, de chulé e de outras coisas. Por mais que o apartamento de Mike fosse grande na medida para uma pessoa só morar, o cheiro de testosterona conseguia tomar conta. Ponto dois: eu estava ali porque a minha noiva me expulsou de casa. O pior é que não podia reclamar porque a causa foi justa. Eu a traí da forma mais precipitada e vil que poderia pensar. Se arrependimento matasse... Ponto três: havia lenços de papel espalhados ao meu redor. Chorei o dia inteiro e o meu rosto devia estar enorme de inchado. Eu realmente era a pessoa mais patética do mundo.

"Bom dia, Quinn." Mike beijou minha cabeça e foi à cozinha. Talvez ele fizesse as panquecas. Eu também queria comida. Comeria um boi e depois dois quilos de chocolate, e três litros de sorvete.

Johnny fazia exercícios na barra fixada na porta do quarto de Mike. Os dois estavam sem camisa e comecei a me perguntar por que os homens tinham essa mania. Definitivamente não era por causa do calor que fazia em Nova York. Arrastei-me até o banheiro. Era sempre bom ir primeiro antes dos meninos antes que eles resolvessem despejar o esperma acumulado no vaso ou na banheira. Lavei o rosto e me olhei no espelho. Eu estava um lixo.

"Espero que hoje você aceite a oferta de tomar ar fresco." Johnny disse assim que saí do banheiro. "Mais um dia no sofá e você pode até morrer."

"Não enche!" Disse irritada.

Os dois homens saíram e me deixar enterrada na melancolia e na televisão. Eu não estava prestando atenção no programa. Queria mesmo era escutar alguma coisa enquanto ficava sozinha chorando as mágoas e bolando mil e um planos para ganhar Rachel de volta. Mas se a mente estava ativa, o corpo estava um caco. Eu mal mexia as pernas. Não tinha força, tamanha era a minha tristeza.

Será que Rachel estava triste como eu? Será que ela estava no sofá morrendo de vontade de comer um saquinho de cheetos? Não. Rachel não era patética como eu. Conheço minha noiva. Ela era um ser superior.

...

(Rachel)

Cheguei ao set de filmagens da série sob olhares pesados. Havia uma boa razão para tal: eu tinha que trabalhar ontem e faltei sem dar a menor satisfação. Meu celular registrou inúmeras ligações, e tinha certeza que todos estavam furiosos porque a minha falta significava atraso nas filmagens. E atraso significava mais dinheiro gasto.

"Rachel!" Boris não parecia feliz. "No meu trailer!"

Segui o diretor e produtor como uma menininha que sabia que ia levar um castigo por conta de uma má atitude. O trailer de Boris era o melhor que tinha entrado. Tinha sofá, chuveiro, cama. Ele poderia descansar com conforto disponível nos intervalos das gravações. Eu não. Dividia o meu trailer com Amanda, mas nem tive a chance de passar por lá. Boris mandou eu me sentar no sofá, enquanto ele próprio sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.

"Rachel, estamos num meio difícil e estressante. Às vezes atores comentem erros ou adquirem alguns hábitos que..."

"Eu estava bêbada!" O interrompi. "Você quer saber por que não vim, não avisei e não atendi o celular. A resposta é porque eu estava bêbada feito um gambá, a tal ponto que não conseguiria dar dois passos em linha reta. Eu briguei com minha noiva, ela transou com outra mulher, e jogou isso na minha cara. Então, eu a expulsei de casa. Não tinha a menor condição ontem de vir aqui trabalhar, por mais profissional que eu seja, e o senhor sabe que eu sou. Foi isso. Peço desculpas por minha atitude e por ter prejudicado a equipe. Mas eu estou aqui agora, e vou dar o melhor de mim em cada cena."

Deixei-o boquiaberto. Não era minha intenção. Só disse a verdade.

"Eu sinto muito, Rachel."

"Tudo bem. Só gostaria que não comentasse com o resto da equipe. Pelo menos, não para o pessoal do estúdio, pode ser?"

"Claro. Mas isso não quer dizer que você não vai sair daqui sem uma advertência. Você terá um desconto no seu salário!"

"É justo, senhor."

"Vamos ao trabalho?" Acenei e saímos do trailer.

Dei uma olhada na agenda. A minha em particular estava lotada. A minha falta custaria caro no sentido do acúmulo do volume de cenas. E aquele seria, teoricamente, o último dia de gravação. Sentei na cadeira de maquiagem. Fizeram meu cabelo, passaram o pó, o batom, a sombra, e vesti a roupa de Kath. Sentei na minha cadeira e dei uma rápida lida no roteiro para me lembrar. Foi quando vi Rom chegando nas locações com jaqueta, camiseta básica branca e ar de James Dean. De repente, o meu sangue começou a borbulhar ao ver a imagem da despreocupação. Como numa febre, saí correndo em direção ao rapaz e acertei um soco certeiro e bem dado naquele rostinho bonito. Rom foi a nocaute. Mas eu não estava satisfeita. Subi em cima dele e continuei a socá-lo.

"Seu idiota, narcisista, desgraçado. Você estragou a minha vida!"

Precisou de um sujeito forte para me agarrar e me tirar de cima de Rom. Algumas pessoas da produção me arrastaram para o meu trailer. Ficaram surpresos como uma menina como eu podia ser capaz de tamanha valentia para cima de um homem forte. Tomei um copo de água com açúcar, a maquiagem foi retocada e eu gravei. Passei o resto do dia numa espécie de piloto automático, em que Rom manteve distância segura de mim. Por sorte, só tínhamos uma cena, e era com outras pessoas do elenco envolvidas. Ao longo do dia, ouvi fofocas e teorias da razão por ter atacado Rom. Teve gente que acreditava que eu estava grávida dele.

Horas depois, já no meio da noite quando gravei a última cena da minha participação na primeira temporada de Slings and Arrows, Rom teve coragem de se aproximar.

"Posso me sentar ao seu lado?" Perguntou ainda mantendo certa distância. Evitei olhar para ele. "Estou às escuras aqui Rach. Você me ataca e me soca sem eu ter a chance de falar bom-dia primeiro. Não mereço saber o que aconteceu?" Sim, ele merecia.

"Aquela estúpida matéria sobre a gente ser um casal, e aquela estúpida foto de você me beijando aconteceram." O rancor era evidente na minha voz.

"Rachel... essas matérias de fofocas infundadas são publicadas todo santo dia. Isso representa o quê? Uns 80% do que sai nesse jornalismo de celebridades? São mentiras! Você sabe como as pessoas concluem as coisas mais bizarras baseadas num simples abraço. Para essa gente, não existem amigos no nosso mundo, só potenciais interesses amorosos entre... toda combinação possível. Entendo que você tenha ficado chateada, mas é algo com que nós atores precisamos conviver."

"Quinn e eu terminamos numa confusão provocada por essa estúpida foto" Sentia a raiva pulsar no meu peito. "Não me venha dizer que preciso conviver com essa merda."

Rom abaixou a cabeça e ficou em silêncio.

...

20 de julho de 2015

(Quinn)

Nem me despedi dos meninos que saíram para ganhar o pão. Estava se lixando para o pão. Tudo que queria era Rachel, a nossa cama e a nossa casa. Nesta ordem. Não tomava banho há dias. Não comia direito. Não escovava os dentes. Só ficava enterrada naquele sofá velho de frente para a televisão. Ainda por cima tive vontade de jogar o eletrodoméstico pela janela quando vi Grey's Anatomy, um dos seriados preferidos de Rachel. Percebi o quanto a vida naquele instante não podia ser mais patética, por isso decidi tomar uma providência. Porque não há nada tão ruim que não possa ficar pior.

Decidi sair do apartamento pela primeira vez em dias e comprei uma caixinha de cerveja na primeira lojinha que vi. Voltei para o apartamento de Mike e fiquei tomando cerveja enquanto olhava o movimento das ruas pela janela. Comecei a me sentir melhor. Peguei outra garrafa e bebi. Cerveja tinha gosto ruim mais podia ser benéfico. Senti até vontade de ir ao banheiro fazer xixi. Até isso virou raridade nos dias anteriores.

Na sexta garrafa, liguei o rádio. Estava tocando "Big Pimpin" de Jay-Z. Aumentei o volume e comecei a cantar junto. Quase berrei nos versos: "Me give my heart to a woman /Not for nothin' never happen'/ I'll be forever mackin'/ Heart cold as assassins, I got no passion/ I got no patience and I hate waitin'/ Hoe get your ass in/ And let's RI-I-I-I-I-IDE/ Check 'em out now RI-I-I-I-I-IDE/ Yeah/ And let's RI-I-I-I-I-IDE/ Check em out now RI-I-I-I-I-IDE/ Yeah"

"Sabe Rachel!" Falei sozinha. "Se eu tivesse em casa agora eu ia te puxar pelos cabelos ia te colocar de quatro e introduzir o meu pequeno amiginho bem naquele lugar em que você ainda é virgem só para você aprender! Eu ia fuder tanto o seu traseiro que você nem ia conseguir sentar no outro dia. Sabia?"

A garrafa esvaziou. Fiquei irritada por não ter mais e nem eu tinha mais dinheiro na carteira. Procurei nos armários para ver se encontrava mais alguma coisa. Minha pesquisa foi recompensada quando vi uma garrafa de whisky aberta, mas ainda cheia. Era um 12 anos que Johnny bebia ocasionalmente para celebrar algumas das pequenas conquistas dele ou simplesmente pelo prazer de ter o líquido descendo a garganta. Podia não parecer, mas Johnny era um bom apreciador de whiskys. Ele dizia que aprendeu a degustar com o pai dele. Sinal de que aquele whisky deveria ser bom. Então que ele fosse colocado para dentro. Abri a tampa da garrafa e mandei ver. Estilo cowboy.

...

(Johnny)

Relacionamentos são uma merda. Uma grande merda. Eu, por exemplo, nunca tive sorte com nenhum. Olha que eu nunca fui o tipo do cara que olha para as mulheres como se fosse um pedaço de carne, como vaginas ambulantes a espera de uma penetração. Sim, eu convivo com muitos caras assim, mas eu, particularmente, sou um cara de relacionamentos. A ironia é que eles nunca deram certo para mim.

Então eu perco completamente a esperança no romantismo quando vejo o que aconteceu com um dos relacionamentos que considerava mais legais: o de Rachel e Quinn. Então, da noite para o dia, vejo Mike sair correndo de casa sem me dizer uma palavra, o que não era tão estranho, porque a casa é dele e eu sou o cara que dorme no colchonete na sala que ele gentilmente me cedeu até que eu consiga alugar um novo lugar. E não era de graça, diga-se de passagem, porque eu me propus pagar cem doletas para cada semana naquele chão, além de oferecer os meus serviços domésticos como lavar e passar. Mike nunca me deu satisfações, então tudo bem que ele tivesse saído correndo de casa. Mas uma hora depois ele voltou com Quinn a tiracolo: Rachel tinha a expulsado de casa e toda a minha crença no amor quase foi para o espaço.

Eu me importava com aquelas garotas. Pra caramba! Admirava Quinn por ser uma batalhadora, assim como eu: a gente se virava: cada um na sua área. Rachel era um doce, um talento, uma pessoa incrível. Santana era... cara, eu não tinha palavras para descrever Santana. Tudo que sabia era que amava essa garota praticamente desde o dia 1. Essas gêmeas tortas me salvaram... esses jovens me salvaram.

Por isso que, ao chegar no apartamento do Mike e me deparar com Quinn passada pela bebedeira no sofá, fiquei perturbado mais do que poderia admitir. Ela estava deitada no sofá com uma das minhas garrafas de whisky vazias no chão. O cheiro do apartamento estava horrível: Quinn não apenas vomitou no carpete como mijou nas calças, bem no sofá. Infelizmente eu conhecia bem aquele cenário. Eu mesmo já me vi no lugar da Quinn algumas vezes. O que sabia, por mais que estivesse desapontado, era que não poderia nem julgá-la e nem deixa-la ali, exposta ao constrangimento.

Foi por isso que a peguei no colo e a levei para o banheiro. Queria ter uma forma melhor de fazer isso sem soar como abuso, mas não teve jeito. Também precisava aproveitar que Mike ainda estava fora de casa. Então eu comecei a despir Quinn o mais rápido que pude. Tinha de lavar aquelas roupas e tirar dela a inhaca do mijo, do vômito e dos dias que ela estava sem tomar banho. Não vou negar: Quinn era uma jovem mulher maravilhosa, que tinha um corpo muito bonito, pele branquinha, macia, seios bonitos. Mas eu precisei respirar fundo e focar no meu objetivo ali e tomar todo cuidado para não desrespeitá-la.

Coloquei-a na banheira e liguei o chuveiro. Quinn acordou, mas estava ainda completamente desorientada. Falou coisas desconexas e começou a chorar. Eu não iria tocá-la mais do que já foi necessário, por isso deixei a água do chuveiro fazer o trabalho dela.

Desliguei o chuveiro depois de alguns minutos, peguei uma toalha, e a enrolei no corpo de Quinn. Então a peguei no colo e a levei até a cama de Mike. Tive um breve debate interno entre vesti-la ou apenas cobri-la com um lençol. A questão é que Quinn tinha mais nada limpo, então eu peguei uma camiseta e uma calça de moletom do Mike. Eu a vesti e a cobri com um lençol. Enquanto isso, juntei todas as roupas sujas e as coloquei num saco. Como eu sabia lidar com vômitos e urinas, fui ao mercado mais próximo e comprei um litro de eliminador de odor para canil. Acredite se quiser, mas era o produto mais eficiente do que os normais para casa.

Comecei a limpar o apartamento e foi nesse tempo que Mike chegou.

"Cadê Quinn?" Essa era sempre a primeira pergunta de Mike. Ele nunca começava com um: olá Johnny, como está? Quinn era a prioridade do cara e eu sabia a razão. Não que ele tivesse me contado alguma coisa, mas é que estava na cara que Mike amava Quinn. Que sorte a dele: amar logo uma linda lésbica. Era foda gostar sabendo que jamais teria uma chance porque o seu equipamento estava errado.

"Está chapada no seu quarto. Ela bebeu tanto, que mijou no sofá."

Mike não quis saber e praticamente correu para o quarto. Voltou no minuto seguinte com jeito de que iria me bater.

"Diga que ela tomou banho sozinha!" Ele disse entre os dentes.

"Não. Eu dei um banho nela... ou a tentativa de um, pelo menos..."

"Seu filho de uma puta!" Mike veio para cima de mim querendo arrancar sangue da minha cara.

"Ei cara!" Procurei me defender o melhor que deu. "Eu não fiz nada com ela! Eu juro que não abusei dela!"

"Não... você só deu um banho nela! Seu canalha!" E continuou a querer me bater.

"Eu não toquei na Quinn! Não dessa forma, ok? Eu não toquei nela, não toquei nas partes íntimas dela, eu não abusei do estado dela. Essa guria é como se fosse uma irmã pra mim, e eu jamais faria nada, absolutamente nada para a constrange-la! Ou mulher alguma, cara! Eu não sou um estuprador!" Desviei de um golpe de Mike, que não estava raciocinando. "Você queria que eu fizesse o quê? Que a deixasse mijada e cagada bem no seu sofá?"

Mike só parou quando eu acertei um soco bem no queixo, bem no ponto que podia derrubar qualquer cara. Foi o que aconteceu. Mike caiu por cima do balde e espalhou a água com o produto diluído pelo carpete. Então eu me aproximei.

"Eu não abusei da Quinn. Eu só fiz o que era preciso ser feito."

"Promete pelos seus pais?"

"Prometo!" Estendi a mão para ajuda-lo a se levantar. "Quinn está com um baita problema, cara. Ela vai precisar de um fígado muito forte para sair dessa."

"E de nós."

"Eu estou aqui para o que der e vier."

Mike olhou para a bagunça da sala e suspirou.

"Acho que a gente vai ter que fazer uma boa faxina, não é?"

"É sim."

"Estamos juntos então?"

"Claro."

Mike pegou as duas almofadas do sofá e tirou o tecido, jogando tudo na direção do monte de roupa suja que eu havia feito. Ele ia cuidar da lavanderia e eu, bom, eu tia ter de secar aquele carpete e tirar o cheiro de urina e vômito. Ainda bem que Mike tinha um secador.

...

21 de julho de 2015

(Quinn)

A noite era uma criança na cidade que nunca dormia. Ergui o copo e brindei pela enésima vez junto com dezenas ilustres completos desconhecidos que estavam presentes no bar. Quer dizer, não era um bar qualquer. Ele era famoso por ser freqüentado por universitários. A maioria da NYU. Acho que eu conhecia vagamente um dos caras que estavam por lá. Não lembro bem. O que interessa é que todos estavam se divertindo muito. Peguei a minha dose de tequila e coloquei para dentro. Desceu maravilhosamente bem.

Como fui parar ali? Culpa de Mike. Ele me deixou trancada naquele apartamento sem dinheiro e sem bebidas. Johnny achou um absurdo, mas não que tivesse direito de opinião. Ele próprio precisava do teto enquanto corria atrás de um novo apartamento. Eu ainda tinha meu cartão de crédito, e decidi dar uma de menina rebelada contra papai. Vesti a roupa mais razoável que estava limpa, desci pela escada de incêndio e andei pela cidade até encontrar um bar que me agradasse. Santiago havia me chamado várias vezes para beber ali, mas eu sempre recusava. Tudo para ser uma namorada exemplar e responsável só para no final ver o meu amor em sites de fofocas com os lábios grudados no colega galã. E aquilo sequer era uma cena! Era um beijo real! Quer saber? Perdi tempo demais sendo responsável numa época que tinha toda a compreensão para não ser. Eu sou uma universitária, afinal!

Mike estava certo quando dizia que ninguém deveria se casar antes dos 30. Santiago estava certo quando dizia que faculdade era época para se aprontar todas. Eu era uma louca, isso sim. Entrei no bar e comecei a tirar o atraso. Depois nem precisei pagar mais pelo meu consumo, havia vários otários dispostos a fazer isso para mim enquanto eu poderia dançar com todas as meninas. Uma ruiva foi mais insistente. Ela me beijou no meio da pista do bar e todos aplaudiram. Estávamos dando um show. Até que ela me chamou para ir ao banheiro para uma rapidinha. O que eu tinha a perder? Tudo que fiz foi desabotoar a minha calça já que nem calcinha eu vestia. Ela me penetrou e eu a penetrei. Cinco minutos e estava de volta ao bar como se nada tivesse acontecido. Ela me propôs sair dali e ir para a casa dela, mas eu a dispensei: a rapidinha foi ótima, mas eu tinha outras meninas para pegar.

"Nobres colegas." Um cara subiu em cima de uma das cadeiras com um copo de cerveja em mãos.

"O que há, irmão?" Era a resposta padrão entre nós, alunos NYU e ela foi dita em coro.

"Aquela televisão está passando clipes de rap e similares. Que é uma forma de expressão cultural entendida como uma das mais sensuais da cultura moderna do nosso grandioso país."

"Deus salve a América!" Outra resposta em coro. Aquilo era muito engraçado e eu gargalhava em meio à interação.

"Então proponho um jogo. Para brindarmos essa brilhante manifestação cultural, proponho que todo tome um shot toda vez que o rapper dizer ass na música ou quando o clipe mostrar cenas de uma bundinha em forma roçando na frente de um pau... beberemos em saudação."

Definitivamente eu estava no jogo.

...

(Santana)

Estava numa noite ótima de sono quando o meu celular começou a tocar. Minha vontade era jogar o aparelho pela porta de acesso da varanda, mas quando olhei as horas, 3h47 da madrugada, fiquei preocupada. Ligações àquela hora ou eram emergências ou tragédias. Fiquei apreensiva.

"O que é?"

"Você é Satan?" Era a voz de um homem no telefone.

"O quê? Se isso é um trote..."

"Não desligue. Meu nome é Ian e trabalho no Jordan's House, um bar que fica próximo ao campus da NYU. Você por um acaso conhece Lucy Quinn Fabray?"

"O que aconteceu com ela?" Fiquei em alerta.

"Ela é um dos garotos que estão em estado de miséria aqui no bar, e eu não sei para onde devo despachá-la no táxi. Então procurei uns contatos de família no celular dela. Gostei do seu apelido."

Menos mal que o barman ligou para mim. Pior seria se tivesse falado com Rachel. Minha irmã surtaria mais do que eu estava.

"Certo... Você vai fazer o seguinte: coloque ela num táxi e a despache para 426 W45th St. Anote a placa e mande para mim por mensagem. Se ela não chegar inteira em até meia hora neste endereço, eu juro que vou fazer um inferno no seu traseiro. Não me chamam de Satan à toa."

"Ok, senhora, obrigado."

"Obrigada você, amigo. Obrigada pela consideração. Mas faça ela chegar inteira que depois a gente pensa até numa compensação financeira, okay?"

Desliguei o telefone querendo matar Quinn. Mas só podia torcer para que Mike fizesse isso por mim. Imediatamente liguei para o celular de Mike.

"Santana?"

"Seu irresponsável, onde você está?"

"Na rua procurando Quinn. Ela fugiu de casa!"

"Acabei de receber um telefonema de um barman. Quinn está em coma alcoólico e o cara vai despachá-la no táxi para a sua casa."

"Johnny ficou em caso de qualquer eventualidade. Vou colocá-lo em alerta."

"Fala para ele receber a porcaria do táxi e me ligar tão logo o corpo de Quinn entrar em casa."

Perdi o sono. Meu coração palpitava, e eu praticamente me arrastei até a cozinha para beber um copo de água. Evitei acender as luzes porque a porta do quarto da minha irmã estava entreaberta e aquela era a primeira noite que ela dormia sozinha desde quando Quinn foi expulsa de casa. Foi um alívio voltar a ter uma cama inteira só para mim, mas de um jeito ou de outro, o casal teimava em não me deixar em paz. Espiei pela porta e Rachel estava em sono profundo. Que continuasse assim. Voltei ao meu quarto ainda à espera de um telefonema. Fiquei no escuro para não testar a minha sorte com Rachel. O telefone tocou não sei precisar quanto tempo depois, mas não esperei muito.

"Oi San!" A voz de Johnny transmitia puro cansaço e algum alívio.

"Ela está bem? Está ferida... sem sinais de abusos ou coisa parecida?" Estava quase surtando em preocupação.

"Quinn está de volta ao velho sofá no mais perfeito coma alcoólico, mas em um pedaço só."

"Graças ao bom deus!" Respirei aliviada. "Johnny... que isso não chegue aos ouvidos de Rachel, ok?"

"Pode deixar, minha linda. Bom resto de noite."

"Você também!"

Procurei fechar os olhos, mas estava difícil. Esse rompimento entre Quinn e Rachel estava literalmente me matando.