22 de julho de 2015 – Vá para Lima
"Precisamos estabelecer algumas regras aqui!"
Só não revirei os olhos por doía. Minha ressaca havia atingido proporções colossais, e um pequeno gesto como esse apenas ia piorar. Mike nos reuniu assim que acordei e fiquei mais ou menos disposta lá pelo meio da tarde. Johnny, coitado, nem foi trabalhar. Ele era o mais pobre entre nós, e que ter dias de salário descontados faziam enorme diferença. Ainda assim, ele aceitou à convocação suprema de Michael Chang, o ator. Começava a odiar atores.
"Nada de bebidas dentro desta casa até as coisas voltarem à normalidade!" Decretou. Só faltou bater literalmente o martelo.
"Sei que o meu voto não vale nada porque sou apenas um inquilino que só está de passagem, mas eu não concordo." Jonnhy falou com a usual calma, porém com uma seriedade que não lhe era muito característica. Por isso mesmo, chamou a atenção de Mike. "Cara, verdade que esse apartamento é seu e você faz dele o que quiser, mas olha só porque você está decretando esse tipo de coisa? Estão aqui nesta sala três pessoas maiores de 21 anos, criadas e vacinadas. Não somos crianças. Cada um é responsável pelos próprios atos e vontades. Posso chegar para um amigo meu e dar um toque caso ache que uma certa atitude dele não esteja certa. Se acho que isso pode te prejudicar, eu tenho a obrigação de ser honesto. Mas a verdade é que eu não sou pai de ninguém. E nem vocês são os meus pais. Sem mencionar que existe uma coisa chamada bom-senso." Ainda ponderando a voz, continuou encarando Mike. "Proibir bebida dentro de casa não resolve o problema da Quinn. Trancá-la em um apartamento muito menos... aliás, foi uma das atitudes mais estúpidas que vi você tomar em todo esse tempo, Bro. E você Quinn..." Foi a minha vez de sentir o peso do semblante de Johnny. "Eu te adoro e entendo a sua dor. Sou solidário. Mas encher a cara não vai fazer Rachel te perdoar, e nem vai fazer as coisas ficarem melhores. Digo mais: você deu sorte porque o barman foi um sujeito camarada demais em ligar para as pessoas pedindo um endereço. Você deu sorte que o taxista era um sujeito decente que não te estuprou no meio do caminho. E posso te garantir que seria muito fácil um sujeito desses encostar o carro numa rua qualquer e fazer miséria contigo, e te jogar numa vala qualquer."
"Eu não queria causar problemas a vocês..." Sussurrei cabisbaixa.
"Relaxa, ok? Eu não vou dizer o que você deve ou não fazer, Quinn. Não quero que você se sinta mal. Não vou deixar de gostar de você caso decida detonar outra garrafa minha de whisky daqui a meia hora. Mas o meu recado está dado. Aí é contigo."
Mike ficou com tanta raiva do discurso do Johnny que eu achava que nosso amigo se tornaria um sem-teto em dois tempos. Mas tudo que ele fez foi bater na própria perna e entrar para o quarto. Senti ainda mais culpada por causar problemas entre eles dois. Johnny entrou no banheiro com roupas em mãos e saiu de lá mais ou menos arrumado.
"Diz pro Mike que eu vou chegar tarde."
"Mulher?"
"Quem dera. Tem esse amigo do Brooklin que está procurando alguém para rachar o aluguel com ele. Eu vou lá conversar, tomar uma cerveja e ver o que rola."
"Boa sorte."
"Valeu, Quinn."
Johnny me deu um beijo na testa e saiu. Eu me vi sozinha naquela sala que estava começando a odiar. Peguei o meu celular e conferi mensagens e ligações. Tinha algumas da minha mãe e de colegas. Havia uma de Alex, talvez para falar de algum trabalho novo, mas sinceramente não estava disposta a fazer coisa alguma. Queria responder ninguém. A pessoa que mais queria receber uma mensagem ou um telefone havia me esquecido. Mas eu não me esqueci dela. Cliquei no nome de Rachel e deixei a mensagem pela enésima vez.
"Sinto muito. Por favor, me perdoa. Eu te amo" – Quinn
Depois cliquei novamente em outro nome: Satan.
"Oi." Sorri ao escutar a voz encorpada e meio rouca.
"Oi!" Houve um breve e estranho silêncio.
"O que manda?"
"Como as coisas estão aí?"
"Na rotina." Santana parecia animadinha demais.
"Ela está aí ao seu lado, né?"
"Você pode apostar."
"Estão fazendo alguma coisa? Parece que estão na rua."
"Nada demais, eu e minha irmã vamos pegar um cinema daqui a pouco."
"Ela está bem?"
"Levando a vida."
"Pode elaborar melhor a resposta?"
"Neste exato momento, acho que não vai ser possível. Por que não me liga mais tarde? A gente pode combinar melhor esse negócio."
"Ok..." Fiquei frustrada. "Eu só queria que você soubesse que eu sinto muito, San. Não posso voltar ao passado e consertar as minhas burradas, mas saiba que se ela me perdoar, te juro que vou procurar fazer tudo ao meu alcance para deixar tudo melhor, para que ela não se machuque de novo. E sinto tanto..." Comecei a chorar. Estava cansada de chorar, mas não conseguia evitar.
"Ok, Iza. Bom saber que você está de volta. A gente se fala depois. Tchau."
Ficou um sentimento horrível de vazio quando o telefone desligou. Chorei mais forte. Achava que a minha vida, naquele instante, era um desperdício. Sai do apartamento e andei até o mercado. Comprei uma garrafa de vodca e voltei para casa. Talvez a bebida não resolva, mas eu precisava dela.
...
(Rachel)
Eu não queria sair de casa, mas Santana insistiu que deveria me distrair. Ela estava fazendo o possível para me ajudar: passou a fazer o café da manhã, limpava a casa, conversava as mais inimagináveis potocas e até assistia musicais comigo. Santana Berry-Lopez assistiu uma maratona envolvendo West Side Story, Funny Girl e Rent! Dá para imaginar? Ela até comentou que a atriz que fazia papel de lésbica fatal se parecia com nossa mãe: era verdade: Idina Menzel era uma deusa da Broadway! A única coisa que ela se recusava era discutir sobre o dia em que fiquei bêbada e despejei certas frustrações que procurava trancar lá no fundo. Anteontem ela me levou ao teatro off-off-Broadway junto com Andrew para ver uma peça sem-graça. Ontem andamos pelo Central Park e vimos o que tinha por lá de atividades de verão. Hoje foi o cinema.
Estávamos na fila para entrar quando o telefone dela tocou. Ela me empurrou a pipoca para conseguir pegar a bolsa e ficou tensa, apesar de falar casualmente. Santana podia ser uma boa mentirosa para um monte de gente, menos para mim. Eu conhecia as posturas corporais da minha irmã como ninguém.
"Quinn deixou mais um recado..." Disparei assim que ela desligou. Santana arregalou os olhos como se tivesse levado um susto. "Disse o mesmo de sempre." Usei o meu treinamento para manter a minha voz casual.
"Por que você não liga para ela? Pelo menos pergunta se ela está bem." Santana parecia um pouco engasgada, isso me levou a crer que talvez fosse Quinn ao telefone.
"Não agora..."
"Ok."
"Então Izabella está em Manhattan?" Estava preparando o pulo do gato. A fila do cinema começou a andar. "Ela não tinha perdido a bolsa e trancado a faculdade?"
"Pois é..." Santana usava longas pausas quando queria ganhar tempo para inventar uma história qualquer. "Ela veio resolver algumas pendências e me chamou para sair nesse meio tempo."
"Você vai?"
"O quê?"
"Sair com ela?" Pressionei. "Ela não é uma das suas grandes amigas da faculdade? Não foi uma transa ocasional sua? Você deveria aproveitar a oportunidade para encontrá-la."
"A gente tem que arrumar nossas coisas para viajar a Lima."
"Nós vamos viajar na sexta e isso não te impediria de sair amanhã ou mesmo hoje, correto?"
"Ray... o que você quer?" Pronto, a venci.
"Foi ela quem te ligou, não foi?" Me referia a Quinn e Santana apenas acenou. "Vocês têm se falado?" Novamente ela balançou a cabeça, só que em negativa. Acreditava nela. "O que ela queria?"
"Saber de você, claro." Disse com alguma rispidez.
"Ok." Procurei manter as minhas emoções em cheque. "Não precisa mentir para mim, Santy. Da próxima vez que ela ligar para perguntar ao meu respeito, apenas diga. Não é que você esteja proibida de falar com ela, muito embora eu apreciaria se você ficasse 100% do meu lado." Começamos a andar para entrar para a sessão.
"A questão não é essa, e eu estou 100% do seu lado."
"Qual é a questão?"
"Você não quer falar sobre Quinn. Tudo bem, você tem todo direito e motivos. Só que eu não consigo sentir raiva dela."
"Nem eu sinto raiva dela. Mas isso não é suficiente para eu querer voltar a falar com ela tão logo."
"Entendo. A ferida ainda está aberta." Santana disse enquanto eu a ajudei a andar de lado na fileira até nossas poltronas. Quando nos sentamos, ela voltou a falar. "Eu odeio esse gesso."
"Boa coisa que você vai tirá-lo semana que vem."
"É..."
As luzes se apagaram e o trailer começou.
...
24 de julho de 2015
(Rachel)
Não havia nada de especial acontecendo em Lima. Nada de festas de aniversários ou eventos comemorativos de qualquer natureza. Eu só queria aproveitar a semana que não tinha agenda para sair um pouco de Nova York e curtir o colo dos pais por alguns dias antes de embarcar para o Canadá para fazer o filme. Santana foi junto comigo porque não gostava de desperdiçar as oportunidades que tinha para rever a família: sem mencionar que ela tinha dificuldades para se virar sozinha com as temporárias limitações físicas.
Quanto mais distante e mais tempo passava fora de casa, mais Santana se sentia apegada aos nossos velhos pais. Eu sentia muita falta de abuela. Minha irmã também não queria me deixar sozinha na estrada. Não confiava em mim ao volante de um carro, porque dizia que eu era uma motorista desatenta. Era mentira, eu era uma motorista atenta. O problema era somente porque Santana não confiava em mim. Ela não podia fazer nada, contudo. Nosso carro era automático e ela arrebentou o pé direito. Ou seja, Santana não poderia dirigir de qualquer forma.
Ainda no fim da madrugada, eu desci e coloquei nossas bagagens no carro. Nossas malas estavam praticamente iguais em peso e tamanho. O plano era passar cinco dias descansando em Ohio. Mal esperava para chegar em casa e cair com a cabeça no travesseiro. Minha irmã certamente lamentaria olhar para a piscina e não poder entrar. Ainda mais porque era verão. Nossos pais tinham voltado da Nova Zelândia da viagem de lua-de-mel. Minha mãe ainda estava em férias e disponível. Meu pai já tinha voltado ao trabalho no hospital, e a velha rotina entre os expedientes regulares e os plantões, então os dias ficariam basicamente entre as mulheres da família.
Pegamos a estrada antes das sete horas. Meu estilo de direção era diferente ao da minha irmã. Santana era uma boa motorista, mas tinha o pé pesado no acelerador. Eu tinha ritmo controlado, prudente e atento.
"Vamos fazer a viagem em nove horas." Ela reclamou pela enésima vez e a gente mal tinha saído de NYC.
"Eu dirijo e você fica responsável pela música. Não foi o combinado? Acontece que eu estou cumprindo a minha função com toda eficiência e você ainda está de braços cruzados."
Santana disse que preparou um playlist de músicas de estrada, ou como assim ela julgava. A maioria das canções era antigas porque dizia que os artistas atuais não sabiam mais fazer uma boa música com melodia para relaxar enquanto se dirige. Santana gostava de pouca coisa do pop atual: Maroon 5, Ed Sheeran, Drake, Kendrick Lamar... mas detestava o que ela chamava de Disney's brats. Santana também descobria coisas obscuras para mim, como um grupo que se chamava Little Joy, que foi um projeto do baterista dos Strokes.
"One too many goals/ that measure out your worth/ to seek your weight in gold/ Sat by the ivory sill/ the further out you look/ the furtherout you'll be"
A música do tal Little Joy parecia uma coisa californiana dos 1960 cantada por um sujeito com sotaque que tinha voz preguiçosa. Não era ruim, mas também não era nada memorável.
Ainda ouvimos a melancolia urbana do Stornoway, Yo La Tengo, Wilco e os brasileiros Bossacucanova, que Andrew mostrou certa vez e Santana gostou muito. Ela não entendia as palavras. O português tenha similaridades com o espanhol, ainda assim o idioma soava alienígena e, ao mesmo tempo, extremamente melódico. Selecionou Elis Regina. Outra dica de Andrew. Ouvimos o toque suave do piano quase inaudível por causa do ruído do carro na estrada e a voz começou firme e seca:
"Ontem de manhã quando acordei/ Olhei a vida e me espantei/ eu tenho mais de 20 anos/ eu tenho mais de mil perguntas sem respostas/ estou ligada num futuro blue/ os meus pais nas minhas costas/ as raízes na marquise/ eu tenho mais de vinte muros/ o sangue jorra pelos furos pelas veias de um jornal/ eu não te quero/ eu te quero mal."
"Será que essa cantora vem fazer show em Nova York algum dia?" perguntei. "Gostei da voz dela. Tem jeito dessas cantoras que se apresentam nos clubes de jazz lá do Village."
"Só ser no Village do céu, porque essa cantora já morreu faz décadas!" Santana sorriu da minha ignorância.
"Bom... você é a especialista em divas internacionais. Não eu!"
"Andrew escuta essas músicas por causa do pai dele, que é brasileiro. Ele comprou para mim esse disco de coletâneas de cantoras brasileiras que é bem legal. Tem até aquela da Bebel Gilberto que você gosta."
"É preciso dizer que te amo/ Te ganhar ou perder sem engano." Cantarolei com um fortíssimo sotaque.
"Andrew morreria de rir do seu sotaque! Até eu que saco nada de português vejo que isso daí tem nada a ver com a língua deles."
"Ele também não deve ser uma maravilha..."
"Ele disse que das cantoras americanas que tentam cantar em português, a melhor é Esperanza Spalding. Eu não tenho como opinar... mas gosto dela."
"Só pelo fato de ter impedido que Justin Bieber levasse o prêmio naquele ano..."
"Questão de bom senso de quem vota, né Ray. A qualidade do trabalho dela nem se compara. Lembra daquele show que a gente foi no Central Park?"
"Aquele que você acertou um balão de água nas costas da Sarah Michelle Gellar e saiu correndo pra não apanhar dos seguranças?"
"Eu errei o alvo... enfim... aquele mesmo com a Spalding, a Norah Jones e a Suzanne Vega."
"Bom show..." Gargalhei ao me lembrar da cara de pânico de Santana quando viu que confundiu a atriz com um desafeto da Columbia. Ficou com medo da eterna Buffy vir para cima dela como uma autêntica... Buffy. Meia hora depois, Santana voltou e assistiu ao restante dos shows.
As horas que passamos na estrada foram agradáveis e ajudaram a fazer o tempo passar mais depressa até Lima. Assim que chegamos na casa de nossos pais, fomos recebidas por minha mãe. Ela me abraçou primeiro, forte. E de repente minhas pernas amoleceram. Comecei a tremer e a chorar nos braços dela. Era uma reação que não esperava. Talvez tenha segurado demais minhas emoções nos últimos dias, que não percebi que estava à beira de um colapso... de outro colapso.
"Vai ficar tudo bem, minha menina." Minha mãe sussurrava no meu ouvido. "Vai ficar tudo bem."
Era muito bom ter um colo, ter a casa dos pais para ficar quieta num canto sem ser julgada ou questionada. Tomei um banho demorado, vesti roupas velhas, e lá estava minha mãe me esperando com uma latinha de sorvete na sala de televisão. Meu pai estava fora de casa, no hospital, encarando um plantão de 36 horas. Santana estava fazendo um bom trabalho distraindo Beth. Eu não teria paciência de lidar com alguém que parecia mais ser a versão de cinco anos de Quinn Fabray. Acomodei-me contra o corpo da minha mãe enquanto assistíamos uma novela boba. Sorvete ajudava a curar. Calor de mãe também.
...
25 de julho de 2015
(Quinn)
"Eu não agüento mais beber!" Massageei minhas têmporas. Não era só a ressaca. Meu xixi estava estranho, o número dois também, minha pele parecia verde, meus cabelos começaram a cair e acho que tinha uma gastrite igual a de Santana, tamanha era a ardência no meu estômago. Eu estava mal.
"Então pára!" Mike esbravejou. "Esse seu empenho em afogar as mágoas já está ficando ridículo."
Não tinha nem coragem e nem moral para sequer resmungar da agressividade do meu amigo. Com muito custo, levantei-me do sofá e caminhei até ao celular que havia esquecido no carregador. Tirei o aparelho da eletricidade e comecei a ler as mensagens deixadas. Havia uma de Santana avisando que as duas estavam em Lima e que eu deveria aproveitar essa oportunidade para ir em casa e pegar roupas novas. Não havia maiores explicações, mas eu podia imaginar que Rachel iria procurar o apoio dos Lopez nessas ocasiões. O que deveria ser? Talvez eles fizessem uma conferência em espanhol e decidam contratar um cabrón para me dar uma lição por quebrar o coração da pequena princesa.
"Preparei torradas de pão de forma e fiz chá." Mike ofereceu. "É melhor comer um pouco. Não lembro mais do dia em que você colocou alguma coisa nessa barriga que não fosse álcool."
Aceitei as torradas, mas dispensei o chá. Queria água gelada. A boca estava seca e estava com um hálito deplorável. A cabeça começou a girar mais rápido e precisei correr ao banheiro antes mesmo de conseguir mastigar o pão. Não bebi naquele dia, mas achei que ia morrer de tanto passar mal por causa da desidratação.
...
26 de julho de 2015
(Rachel)
Meu coração ficou minúsculo quando vi abuela com dificuldades de fazer os biscoitos que fazia num segundo outrora. Dizia que os dedos doíam. Os anos estavam passando cada vez mais depressa para a abuela. Ela ainda estava ativa como sempre e, claro, tinha as dificuldades naturais da idade. Meu pai disse que um colega dele diagnosticou abuela com uma doença degenerativa. Ela precisava ser acompanhada por um batalhão de especialistas para acompanhar o progresso da doença que, no fim, a deixaria presa numa cama. Ruim era convencê-la em fazer mil tratamentos ao mesmo tempo, na tentativa quase desesperada de dar a ela mais tempo. Mas eu podia entender que essa rotina entre casa e clínicas devia ser exaustiva. Minha infância foi marcada por dias e mais dias na creche do hospital, esperando meu pai terminar o turno, ou papai nos buscar.
Não tinha falado direito com abuela durante o casamento dos meus pais, mas ali, percebi que ela estava mesmo com ar cansado, andava mais devagar do que me lembrava, reclamava mais de dores, algo que ela pouco fazia. De igual, só mesmo o sorriso enorme e a alegria em nos ver. Santana, como sempre, foi a primeira a abraçar e beijá-la a ponto de fazer abuela reclamar. Não se importou e ainda deu uma mordidinha no ombro. Ganhou um tapa nos braços por causa da pequena traquinagem. Eu estava mais emotiva. Abracei abuela com delicadeza e lutei para não chorar também com ela por tudo: por Quinn, pela fragilidade da saúde da minha avó, até pela morte daquele cachorro pulguento.
Daniela, minha prima, também estava por lá naquela tarde. Ela administrava as fábricas de cerveja artesanal de tio Pedro, o que era algo que finalmente fez com que ela e Santana se aproximassem. Enquanto as duas ficaram na sala batendo papo de empresárias, abuela me convocou para ajudar nos biscoitos porque ela já não conseguia sovar como pede a receita. E sovar bem era o segredo.
"Su padre dice que hará se debut em la televisión." Comentou orgulhosa. "Mi nieta es realmente un artista!"
"Usted tiene que esperar meses para ver." Sorri . "Trajo um kit para usted. Tienes camiseta y unas pocas cosas."
"Voy a vestir La camiseta y decir con orgullo que mi nieta trabaja em el programa."
"Ia masa ya está em el punto?"
Abuela checou a textura e depois experimentou. Então acenou positivo. Já estava na hora de enrolar e moldar os biscoitos. Nós duas sentamos à mesa toda suja de farinha de trigo e começamos a segunda etapa do trabalho. Eu tinha um ritmo mais rápido e concentrado, abuela não podia mais competir em eficiência com aquela juventude. Fez os bolinhos mais devagar, mas sempre de forma constante. Enquanto enrolava quatro, ela preparava dois e colocava na forma de assar.
"Cómo está tu corazón?" Encarei minha avó e franzi a testa. Aquela anciã não estava na melhor forma física, mas a mente e a capacidade de ver a alma das pessoas continuavam intactas.
"Angustiado."
"Tus ojos me dicen que. Algo anda mal con su noiva?"
"Quinn y yo nos separamos." Levantei-me e coloquei as primeiras bandejas no forno. Havia mais duas a preparar.
"Qué lástima!" Disse com sinceridade. "Eras tan armoniosa. Qué pasó?"
"Ella me há traicionado. Quiero decir, luchamos porque Quinn creia que yo La estava engañando y hecho um lío. Yo lo saqué de La casa."
"No retorno?"
Encarei minha avó. Não era uma pergunta casual, embora fosse esperada. Sabia que havia algo mais naquela mente que não se satisfaria com uma resposta simples. E pensando bem, não tinha sequer uma para dar. Não havia retorno? Pensei comigo mesma. Apesar de toda a raiva do mundo, tinha a sensação de que nada fosse definitivo.
"Él habló com Ella después?"
"No." Confessei envergonhada.
"Usted debe. Um gran amor no puede morir de forma gratuita."
"Quinn se perdió."
"Todos cometemos errores. Y si nos equivocamos, ni siquiera merecen una segunda oportunidad para hacerlo bien?"
"Alguna vez há dado uma segunda oportunidad a su marido?"
"Mi querida Rachel, su abuelo nunca perdió por segunda vez." E sorriu de um jeito que pude presumir várias coisas.
"Eu a amo, abuelita, pero me duele demasiado." Disse com convicção.
"No hay dolor que el tiempo no resuelve, querida. Tenga paciencia."
...
29 de julho de 2015
(Santana)
Parecia uma espécie de convenção Corcoran-Berry-Lopez em pleno Breadstix. Minha mãe disse que estava com preguiça de fazer comida e nos levou para almoçar fora. Nós duas pedimos o mesmo filé acebolado enquanto Rachel ficou no pratinho vegetariano de sempre. Beth fez confusão com o macarrão com queijo, que era uma comidinha simples do cardápio oferecido para as crianças. Beth estava no direito dela. Meninas daquela idade ainda faziam bagunça com a comida, certo? Entre uma garfada e outra, eram servidos os saudosos pãezinhos que não comia fazia um tempão. Continuavam deliciosos.
Para ser sincera, até mesmo eu precisava dessa folga na agenda, esse retorno à Lima para um respiro. Não porque as coisas em Nova York estivessem complicadas: eu ia bem na faculdade, meu namoro ia no compasso previsto, a minha empresa não era um hit, mas também não e dava prejuízo, sem falar que mantinha meus amigos ocupados. Também tinha o problema de Weiz que parecia estar pacificado desde que Rachel e eu assinamos um acordo com ele.
Estar em Lima foi um momento feliz e familiar. Ninguém mais falava de coral ou de McKinley High. Eu nem sabia mais se o Novas Direções existiam, nem sabia se me importava: high school era uma questão superada, muito distante de mim. Fiquei surpresa em ter a primeira conversa amigável e civilizada com a minha prima Daniela desde que me entendo por gente. Tínhamos muito mais em comum, além do parentesco, que poderíamos imaginar. Foi perturbador e empolgante ao mesmo tempo. Daniela assumiu tão bem os negócios da família, que o tio Pedro está pensando em se aposentar.
Daniela é mais velha que eu e Rachel três anos, e essa diferença de idade não ajudou para que a gente fosse mais próxima na infância e na adolescência. Minha irmã e eu sempre fomos as pirralhas na perspectiva de Daniela, sem mencionar que ela sempre foi uma garota muito fresca, cheia de não me toque. Mas agora que éramos adultas, essa diferença de idade não importava mais, e a gente finalmente conseguiu sentar para conversar de uma maneira amigável. Daniela assumiu a fábrica de cerveja e a administração da vinícola por vocação e de maneira natural.
Por mais que odeie a parte do plantio em si, Daniela é uma entusiasta pela produção, sabe degustar cerveja e vinho como ninguém da família. Ela se formou recentemente em Agronegócios pela Universidade de Kentucky, e está empregando bem os conhecimentos. Diz que ela e o tio Pedro vão expandir em breve tanto a fábrica de cerveja quanto a vinícola, e parece que a compra da fazenda vizinha do meu tio está acertada. Quem diria, Daniela ainda me passou algumas dicas e contatos, sem falar que vamos estudar uma forma de um negócio ajudar o outro.
O que sei é que, surpreendentemente conversar com Daniela foi muito mais produtivo do que aguentar o choro de Rachel. Ainda bem que Shelby assumiu a posição de mãe e deu colo para minha irmã, só para variar. Quem sabe assim Rachel pare de me acusar por supostamente ser a favorita do mundo, ao passo que ela é o cocô do bandido. Ah, sim, estávamos ali em volta do único assunto que pairou: o relacionamento da minha irmã.
"Eu não acho que tenha algo mais a conversar com Quinn." Rachel disse pela enésima vez em Lima. Desta vez à mesa do restaurante. "Nós terminamos, rompemos com o noivado."
"Mas você confessou a abuela que a amava." Disse para provocar do que forçar uma reflexão.
"Ninguém está dizendo que vocês devam voltar, querida." Shelby procurou modelar a voz, mas por mais que ela tentasse, não conseguia perder certo ar bitch que ela cultivou muito bem ao longo dos anos. "Mas é fundamental que possam sentar novamente e conversar a respeito. Puladas de cerca acontecem e, por mais que doam e exijam muito trabalho depois, não precisam determinar o fim de uma relação."
"Eu nunca neguei que amo Quinn, mas não sei se estou preparada para vê-la tão cedo. Ela me machucou da pior maneira possível."
"Mas enquanto você não conversar com ela civilizadamente e resolver essas pendências, nunca vai ficar em paz." Shelby argumentou. "Se você não a quiser mais, tem que terminar direito. Ela não foi uma namoradinha de duas semanas que você se sente confortável em terminar a relação por telefone. Você viveu com ela, ficou noiva. É diferente."
"Sem falar que isso pode comprometer a sua performance no filme." Falei por maldade e fiz um tremendo esforço para não rir apesar do olhar de repreensão de Shelby.
"Terrorista!" Ela me acusou e recebi um leve chute na canela da minha própria mãe.
"Sei que ainda é muito recente, Rachel. Vocês se separaram quando? Faz uns dez dias, certo?" Rachel acenou. "Realmente é pouco tempo para o tamanho do crime. Mas é preciso considerar algumas coisas. Primeiro é o tempo de relacionamento que vocês têm. Três anos não são três dias ou três meses, querida. Vocês moram há todo este tempo sob o mesmo teto. Quinn representou muitas coisas na sua vida, e acho que vocês merecem, até por toda essa história em comum, ter um momento para sentar e conversar sem gritarias ou choros. Como duas adultas. Se achar que deve perdoá-la, faça isso independente da opinião dos outros. Agora se achar que essa história deverá ser encerrada, estará tudo bem. A sua irmã estará ao seu lado e, se precisar de mim, pegarei o primeiro avião."
"Mãe." Ela suspirou. "Posso te fazer uma pergunta?"
"Manda!"
"A senhora já esteve na mesma situação que eu?"
Shelby olhou para mim e eu olhei de volta para ela quase em pânico. Eu decidi ocultar os detalhes mais sórdidos que envolveu a nossa gestação de Rachel. Eu não queria magoá-la. Também não contei a verdadeira razão que levou Shelby a exigir mais dinheiro para não nos separar depois que papi escolheu ficar casado com papai. Rachel sabe que papi e Shelby flertaram naquela época, mas não que os dois efetivamente transaram e, ainda por cima, geraram uma filha. Rachel não sabe que eu sou um pouco mais velha do que os 29 minutos de diferença no nosso parto.
Eu nasci primeiro porque era duas semanas mais velha, e o parto da minha irmã teve de ser induzido, porque ela ainda não estava pronta. Daí os 29 minutos de diferença. Papi disse que Shelby tomou hormônios para amadurecer nossos pulmões mais rápido, porque era previsto que algo assim aconteceria. Mesmo assim, Rachel passou um mês na incubadora, ao passo que eu só passei uma semana. Ela ficaria arrasada se soubesse dos pormenores, sobretudo naquela circunstância. Procurei enviar uma mensagem telepática para a minha mãe não contar toda verdade, pelo menos, não sobre esse episódio em específico.
"De formas diferentes, sim." Shelby começou a explicar com alguma cautela. "O meu primeiro namorado me traiu com uma colega próxima. Eu tinha 15 anos e achei que o mundo fosse acabar. Não o perdoei, mas acho que relacionamentos nessa idade não são os melhores exemplos. Já em Nova York, veio Peter. Ele me traiu inúmeras vezes e eu o perdoei algumas vezes, pelos menos das que soube. A primeira vez foi a pior. A última, nem tanto. No fim, nossa relação se tornou aberta e, depois, não fez mais sentido. Eu também tive relações com alguns homens comprometidos, mas nunca me tornei propriamente uma amante. Também nunca me envolvi emocionalmente com nenhum deles, exceto uma vez. Na última vez que estive nessa posição, tecnicamente não foi uma traição, mas a pior de todas: foi quando soube que o seu pai começou a namorar aquela massagista no período em que estávamos separados. Olha... foi um golpe duro que só não me quebrou por completo porque precisava cuidar de Beth. Seu pai e eu precisamos sentar e conversar muito depois disso."
"Ao menos essa história teve final feliz." Observei.
"Foi duro. Aliás, devo a minha felicidade hoje a você, Santana. Se não tivesse ido naquele dia lá em casa para me provocar e me instigar a lutar pelo seu pai, era provável que ainda estaria amargando uma vida de mãe solteira. Talvez nem estivesse mais em Ohio."
"De nada, mãe." Abocanhei um pãozinho. "Depois eu mando a lista de presente do que quero ganhar de natal."
"A senhorita não é judia?"
"Mas eu tenho nada contra em ganhar presentes de natal."
"Qual foi a ocasião que a senhora se envolveu emocionalmente com um homem comprometido?" Rachel perguntou e eu gelei.
Achei que a conversa tinha encerrado, e que poderíamos pagar a conta e simplesmente ir para casa. Mas não! Minha irmã teve de ficar com essa pergunta na cabeça! Olhei para Shelby, que estava com os olhos fechados e balançava levemente a cabeça.
"Não é algo que eu gostaria de discutir em pleno restaurante."
"Eu sou adulta, mãe. Posso entender essas coisas."
"Rachel, isso é algo que prefiro guardar para mim mesma, mas posso dizer uma coisa: quando eu não fui a escolhida, eu quis morrer. Eu me apaixonei por aquele homem, nós fizemos amor, e depois ele terminou tudo comigo. O pior de tudo é que esse homem fez a escolha certa: ele escolheu a família em vez da aventura duvidosa que, naquele momento, poderia ter um péssimo final, dada era a diferença que havia em nossas vidas e objetivos. Eu precisei de muito tempo para entender isso. E até entender, eu sofri bastante! Hoje, eu, Shelby Corcoran-Lopez, sei que ele tomaria a mesma decisão que tomou naquela época. Sabe que mais? Eu dou razão a ele."
"Você está falando do meu pai?" Rachel perguntou. Diante do silêncio da minha mãe, ela insistiu. "Eu não sou idiota, mãe. Posso ser a última a saber de algumas coisas, mas eu não sou idiota. Não é difícil conectar os pontos dessa história. Você e meu pai tiveram um caso?"
"Sim." Shelby respondeu.
"Quando?"
"Em Cleveland. Durante o nosso acordo."
Rachel me encarou.
"Você sabia?"
"Sim." Respondi. O que ia adiantar negar?
"Desde quando você sabe?"
"Desde Barcelona."
"E nesse tempo todo, você nunca quis me contar por que..."
Rachel balançou a cabeça, e desviou o olhar de nós duas. Fixou-se em Beth por alguns minutos. Nossa irmãzinha não estava entendendo nada do que se passava, de porque a tensão estava palpável à mesa. Era o bom de ser criança nessas horas. Beth estava mais preocupada em comer o macarrão e tomar o suco, além de tentar chamar atenção para si.
"Papai perdoou o meu pai... não é difícil imaginar que Santana e eu tenhamos exercido um papel importante nisso." Rachel fez uma breve pausa e tomou o suco. Vi que ela estava tentando racionalizar a situação. "Agora eu também entendo porque papai te detestava tanto, ao passo que o meu pai sempre te defendia de alguma forma... vocês realmente se merecem..."
Pronto, agora Rachel ficou ainda mais irritada. Não posso culpa-la porque eu também reagi de forma semelhante quando soube.
"Rachel, se você acha que eu estou arrependida por ter me envolvido com Juan naquela época, eu te digo que não. Eu me arrependi de muitas outras coisas, mas não de ter ficado com ele." Shelby olhou para mim, e eu sabia exatamente a razão de ela dizer isso com toda segurança. Eu era a razão. "Mas eu era a outra, eu era imatura, incerta, com sonhos grandes e sem os pés no chão. Hoje eu entendo muito bem porque Juan ficou com Hiram. Ele escolheu certo. Sei que meu caso com Juan impactou no casamento deles. Mas eu também sei que eles foram felizes juntos, apesar dessa trinca no cristal."
"Está vendo?" Rachel disse irônica. "Talvez Quinn e Monica estejam destinadas a ficarem juntas, como você e meu pai. Por que me incomodar em conversar com ela?"
" Porque mesmo que você não queira mais nada com Quinn, a história entre vocês duas merece um desfecho melhor." Eu respondi, já que Rachel poderia ser bélica com qualquer coisa que minha mãe dissesse.
"Você não deu essa atenção aos seus ex-namorados." Rachel rebateu.
"Porque a única pessoa que eu realmente amei foi Brittany. Do restante, o único que mereceria esse tipo de atenção seria Andrew. Se eu terminar com ele amanhã, eu vou ter uma conversa limpa. Porque, apesar de tudo, eu gostaria de ter Andrew na minha vida."
"Eu não sei se quero Quinn na minha vida."
"Tudo bem, Ray. Mas para isso você precisa fazer um corte limpo."
Rachel resmungou. Ela não falou mais comigo, muito menos com Shelby, pelo resto do dia. Era compreensível: não apenas ela foi bombardeada com uma parte pouco elegante da história dos nossos pais, como estava com a cabeça em ebulição por conta de Quinn Fabray.
...
31 de julho de 2015
(Quinn)
Carregar caixas não era fácil quando se estava com uma ressaca. Estava feliz por Johnny. Ele arrumou uma quitinete para alugar em Union City, em Nova Jersey. O lugar era muito feio, pobre e um pouco perigoso, se me permite dizer. Union City tinha ruas estreitas e uma aparência caipira, mas os aluguéis eram de fato a metade do preço de qualquer similar na cada vez mais exorbitante Nova York. Ele arrumou um carro com um amigo dele (o que não faltava a Johnny eram amigos e conhecidos), e fizemos um trabalho de parceria na mudança. Foram três viagens com as caixas, até que subimos com a última ao segundo andar do pequeno prédio cor de salmão. Mais brega impossível. O apartamento era praticamente um quarto de tamanho razoável com um banheiro pequeno, sem banheira, e a cozinha nada mais era do que uma pia um armário em cima e um frigobar num canto.
"Ao menos eu tenho o meu micro-ondas, e não vou passar fome." Johnny disse enquanto testava o frigobar. "Olha só: tem espaço para colocar umas garrafas de cerveja e um pedaço de queijo."
"Você poderia ter aceitado a oferta daquele seu amigo e ficado no Brooklin."
"Aqui eu economizo dinheiro. O gasto com transporte é o mesmo, mas a economia com aluguel vai ser de 500 dólares. Vai valer à pena sim. Eu tenho uma cama, um banheiro, um canto para ficar sossegado. É tudo que preciso."
"Fico feliz... Johnny..."
"Sim?"
"Obrigada por tudo. Obrigada por ter cuidado de mim sem querer me colocar uma coleira, como Mike quis."
"Amigos cuidam uns dos outros, e você é adulta."
"Você já passou por isso, não é?"
"Por razões diferentes, mas sim, eu fui um bêbado chapado e quase mendigo por um bom tempo."
"Como você superou isso?"
"Basicamente, eu quis ser ajudado. A partir desse momento, eu procurei ajudar a mim mesmo. Acho que ficar na lama é uma experiência válida quando você consegue tirar lições disso. E o maior proveito que se pode tirar, no meu entendimento, é nunca mais querer ficar atolado de novo."
"Certo..."
"Bom... vou te deixar na casa do Mike."
Johnny não quis subir no apartamento de Mike. Prometeu que voltaria amanhã para limpar a sujeira que fizemos na mudança, mas que tinha que devolver o carro para o amigo. Eu fiquei naquele espaço que sinceramente me incomodava. Não era o meu espaço, não era o meu apartamento. Tinha saudades da minha cama, do meu banheiro, do meu sofá, da minha cozinha e, principalmente, da minha Rachel.
Quis beber mais uma vez de raiva por estar sendo privada por tudo isso. Em vez disso, atendi ao telefone. Era Lewis Gore.
"Fabray! Por onde andou? Faz dias que estou à sua caça."
"Eu tive alguns problemas particulares."
"Está tudo bem agora?"
"Está sim. Pode falar."
"Que bom. Seguinte: eu tenho um trabalho ótimo para você. Um colega meu precisa de um bom diretor de fotografia para um curta que ele vai lançar no festival de Tribeca. O dinheiro é o padrão. Está afim?"
Eu não tinha nenhum trabalho em vista mesmo.
"Claro. Você pode passar o contato dele numa mensagem de texto? Estou sem caneta e papel para anotar."
"Posso sim. Legal que vocês vão conversar. O cara é bom, Fabray. Acho que você vai gostar de trabalhar com ele."
Desliguei o telefone sentindo preguiça de falar com o tal sujeito, mas tinha de levar em consideração que a minha poupança era muito limitada e eu corria risco de ficar como Johnny: sozinha numa quitinete em Nova Jersey. Era melhor ir atrás do dinheiro e deixar de beber um pouco. O meu celular vibrou e fiquei impressionada com a eficiência de Lewis em mandar o contato tão rápido. Abri a mensagem.
"Chegamos. Ray quer conversar, mas não diga que avisei" – Satan
Meu coração disparou.
...
1º de agosto de 2015
(Quinn)
Não era nem oito horas da manhã quando a música do meu celular que não ouvia há dias disparou. Estava acordada e saí tropeçando nos móveis de Mike para alcançar meu aparelho.
"Rachel!" Atendi quase sem fôlego.
"Bom dia, Quinn. Gostaria de saber se você está disponível para uma conversa na hora do almoço?"
"Claro! Quer que eu vá aí?"
"Não. Lembra do Jojo's, aquele restaurante perto da Lexington, Upper East Site?"
"Sim, claro, você adorou esse restaurante..."
"Encontro contigo lá ao meio dia precisamente."
O que eu deveria fazer até lá? Estava tão ansiosa com o encontro que não conseguia pensar em virtualmente coisa alguma. Rachel marcou comigo num lugar público, mas com certo significado, pois comemos ali duas ou três vezes. Ela dizia que quando ficasse rica, gostaria de comprar um apartamento naquela região, porque era a melhor e mais bonita de Nova York. Eu brincava e dizia que nosso destino seria o Bronx. Procurei comeu um pedaço de pão e tomar um pouco de leite para não parecer tão doente devido ao abuso de álcool nos últimos dias. E tinha que tomar banho.
Oh, banho... estava fedida, minhas roupas estavam fedidas. Eu não tinha como ir à minha casa pegar algo limpo, então desci do apartamento de Mike com um cartão de crédito à beira do limite para comprar uma roupa qualquer. O diabo é que a 9th naquela região tinha mais restaurantes do que qualquer coisa. Vai ver que foi por isso que Mike escolheu morar ali perto. Fiquei à porta da primeira lojinha de roupa que encontrei, uma que nem era muito boa, e esperei abrir. Uma menina asiática que destrancou as portas.
"Está funcionando?" Eu parecia uma mendiga com aquelas roupas fedorentas. A menina fez uma cara de nojo e acenou com relutância. "Ótimo!"
Comprei uma blusa plana vermelha, uma calça legging preta, e um par de chinelos, porque até mesmo o sapato que levei estava em condição de miséria. Só não comprei calcinhas porque a loja não vendia. Teria que ir sem. Literalmente corri de volta ao apartamento de Mike e tomei um banho, como não fiz em dias. Lavei os cabelos, esfreguei minha pele, passei sabonete, limpei as unhas. Passei um dos perfumes de Mike e catei todos os trocadinhos que encontrei para pegar o ônibus. Ainda me enrolei um pouco porque confundi a quadra que ficava o restaurante, ainda assim consegui estar lá cinco minutos mais cedo.
Rachel já estava lá.
Minha noiva estava linda num vestido azul que eu adorava. O cabelo estava bem escovado, o rosto com maquiagem leve, e tinha aquele ar de jovem dama que eu amava.
"Rachel." Disse quase sem fôlego quando a vi à mesa. "Você está linda!"
"Quinn!" Ela não se levantou ou permitiu que eu a tocasse. "Você está..." Parecia querer encontrar as palavras exatas enquanto sentei-me à mesa junto a ela. "Diferente?"
"Digamos que não levei muitas roupas quando você me tirou de casa e eu não fui exatamente à lavanderia nesses dias. Precisei improvisar."
"Mesmo?" Ela queria não se fazer de impressionada. "E o que você estava fazendo para ficar com essa aparência pouco saudável? Emagreceu a olhos vistos, sabia?"
"Eu fiquei completamente perdida sem você, Rach."
"Soube que Mike te hospedou neste tempo. Deve ter sido exaustivo para ele ter você e Johnny num apartamento de apenas um quarto."
"A gente deu um jeito." Procurei desconversar. "Como está Santana? Ela retirou o gesso?"
"Sim, retirou o gesso em Lima. Nós passamos alguns dias na casa os nossos pais. Agora ela está usando uma daquelas botas de imobilização, mas que ela pode tirar a noite, ou quando for tomar banho."
"Isso é ótimo." Não tinha certeza se podia dizer que sabia que elas estavam por lá. "Ela deve estar feliz por ter se livrado daquele peso."
"Mas ela vai precisar usar muletas por mais algum tempo."
O garçom veio nos atender e deixou os menus. Pedimos bebidas. Rachel, um suco de laranja natural. Eu, uma coca-cola com gelo. Tudo parecia bom naquele raio de restaurante, mas estava quebrada financeiramente. Rachel lia tudo com a concentração de sempre. Ela tinha o hábito de morder o lábio inferior enquanto escolhia e eu achava isso adorável.
"Lembro que esses aspargos quentes e o ravioli de ricota eram perfeitos."
Perfeitos e caros. Eu tinha certeza que sairia dali quebrada porque teria de pagar o meu almoço e o de Rachel.
"Não estou com tanta fome." Desconversei.
"Pode escolher um prato que eu pago o nosso almoço." Ela disse sem nem ao menos olhar para mim.
"Rachel..."
"Quinn, eu convivi contigo por três anos e não seriam alguns dias que me fariam esquecer certos cacoetes e códigos." Então me encarou. "Sem fome, no livro Fabray, significa, sem dinheiro. Portanto, eu pago."
Foi uma humilhação, mas eu engoli.
"O hambúrguer orgânico parece ótimo." Disse e Rachel acenou.
Fizemos os pedidos quando o garçom trouxe as bebidas. Eu queria introduzir o assunto que interessava, só não sabia como. Rachel estava armada durante todo o encontro e fazia um belo trabalho em esconder todas as falhas do muro. O que me restava era esperar.
"E o filme?" Disse. "Você viaja nessa semana que entra, correto?"
"Na quinta-feira."
"Ansiosa?"
"Um pouco." Foi quando ela olhou para mim ela segunda vez no dia. "É quando eu preciso de você." Meu coração disparou. Eu era toda atenção naquele instante. "Quando eu viajar na quinta-feira, quero que você volte para casa. Santana tem que fazer fisioterapia todos os dias por um bom tempo, e a gente sabe que ela negligencia a saúde dela como ninguém. Preciso de você lá para acompanhá-la na fisioterapia, fazê-la tomar todos os remédios e certificar de que ela se alimente direito durante a minha ausência."
"Você quer que eu volte para casa para ser babá da sua irmã?" Fiquei indignada.
"Sinceramente, eu não estou preparada para tomar qualquer decisão que envolva o nosso relacionamento, Quinn. Não ainda. Eu não estou preparada sequer para viver sob o mesmo teto que você, e deus sabe o quanto é difícil estar aqui neste restaurante contigo. Eu vou passar duas semanas fora no Canadá. Enquanto isso, preciso de você lá em casa junto com Santana. Ela precisa dessa ajuda. Faça isso pela amizade que formamos ao longo desses anos. Quando eu voltar, daí nós conversamos sobre nós. Será que posso contar contigo?"
"Claro!" Não tinha outra saída, pelo visto. Ou eu concordava, ou Rachel poderia pedir para que eu saísse da vida dela para sempre. Isso seria o pior dos cenários para mim. Querendo ou não, Santana era a minha melhor chance de recuperar alguns pontos com Rachel e, quem sabe, ela poderia me perdoar.
"Ótimo. O meu voo é pela manhã. Eu irei sozinha ao aeroporto. No mais, você pode voltar para casa provisoriamente neste tempo e nestas condições."
Rachel acenou e recebeu o prato que pediu. O dela parecia bem melhor do que o meu. Bom, não posso negar que eu estava com fome. Estava faminta, tanto que a carne desceu garganta adentro e quase pude sentir ela caindo no meu estômago, de tão vazio. Comemos em silêncio porque toda tentativa minha para puxar algum assunto, Rachel me ignorava, olhava de lado. Doeu muito vê-la tão desconfortável na minha presença.
Ao final do almoço, Rachel pediu a conta. Ela nem deixou eu olhar a soma, e mostrou o cartão do banco para a atendente, e deu uma nota de dez dólares com gorjeta. Dois anos atrás, a gente se matava por uma nota de dez dólares. Quem te viu, quem te vê.
"Rachel..." Eu a chamei antes de ir embora. Ela me encarou com uma cara de desprezo, que me deixou desconcertada. Era como se a tivesse perdido, e comecei a sentir um aperto horrível no peito. "Te vejo na quinta?"
"Você é quem sabe. Eu tenho os meus horários. Aparentemente, você deixou de ter os seus."
Aquilo soou como um tapa no meu rosto. Confesso que eu merecia, mesmo assim, doía muito.
