06 de agosto de 2015 – Fins
(Quinn)
Eu traí duas vezes na minha vida. Na primeira, fiquei grávida, e na segunda, magoei profundamente a mulher que mais amava no mundo. Foi um período de inferno e depressão em que me afundei por dias e dias na bebedeira. Sequer ouvia Mike, e não estava em condições de entender o chamado de responsabilidade de Johnny. No auge da minha raiva chamei Rachel de hipócrita, porque ela tinha feito a mesma coisa com Finn quando os dois terminaram. Se ela perdoou Finn na época, porque não podia mostrar um pouco de benevolência e fazer o mesmo comigo? Ah sim: "porque o que tínhamos não se comparava". O problema é que ela estava certa: não se comparava e não éramos mais adolescentes.
Depois do encontro que tive com Rachel no restaurante, parei um pouco para pensar pela primeira vez desde a confusão. Definitivamente não achava certo ver atores se beijando por aí nos bastidores. Atuar é uma profissão como outra qualquer, com formação acadêmica, representatividade, salários e contratos. Portanto, o que aconteceu entre ela e Rom não se justifica. Os dois são profissionais que estavam no ambiente de trabalho, e isso não deveria ser tratado com desdém, como algo corriqueiro.
Tenho sim ciúmes de Rachel, e essa indiferença dela com as liberdades entre colegas me levou a ter uma atitude extremada e impensada. Eu me arrependo imensamente de ter a machucado fisicamente, mesmo não tendo intensão. Eu a segurei forte no pulso, eu a empurrei contra a parede, e eu bati como uma descontrolada numa Santana que, pensando bem, estava em plena desvantagem. Eu cruzei um limite que não deveria. Mas eu não estava errada em confrontar Rachel. Eu errei sim, na intensidade da minha reação.
A traição veio pelo impulso, pela bebedeira e pela raiva. Eu sabia que estava errada, e mesmo assim procurei Monica. Eu não a queria, pelo contrário, mas ela era a única pessoa que eu conhecia que poderia me dar o que eu queria sem muitas explicações. Ou era a Monica ou era a prostituta do bar. A escolha me pareceu óbvia. Arrependo amargamente por ter apertado àquele interfone no Brooklin, para começar. Arrependo mais ainda por querer ser honesta e ter contado tudo para Rachel. Por mais cafajeste que soe, deveria ter ficado calada e saído como vítima. Mas a gente não tem uma máquina do tempo à disposição e não é possível reparar o passado, só em aprender com ele.
Depois do meu encontro com Rachel, passei a semana inteira procurando emprego. Precisava retomar a minha vida após o baque. Tinha de fazer isso por Rachel, mas, principalmente, por mim. Consegui nada de concreto, com entrevistas e isso não pagava aluguel. Tinha o dinheiro que entraria da Rock'n'Pano, que era muito pouco, e dos estúdios da NYU, com o provável desconto por eu não ter aparecido para trabalhar (em minha defesa, não há nada o que fazer lá no período de férias).
Perdi três oportunidades de freelas durante o meu período de embriaguez diária, mas talvez eu pudesse recuperar um deles, que era registrar a inauguração de uma exposição de telas de uma grã-fina numa galeria em Long Island. Fiz um preço baixíssimo, e a moça estava fazendo doce porque não respondi na época certa. Ela ia topar. Ninguém cobraria menos de 500 dólares como eu.
Quando chegou a quinta-feira, tomei café da manhã com Mike e comprei flores para ele com forma de agradecimento por ter me tolerado. Minha esperança era de nunca mais precisar dormir no sofá do apartamento dele. Então peguei o metrô e fui para a minha casa. Finalmente.
"Bom dia, Quinn." Rachel atendeu a porta e permitiu que eu entrasse. A postura dela era formal, distante, mas eu entendi.
"Oi!" Santana estava no sofá da sala de olho no computador. Mal desgrudou o olho da tela. "Faz um bom tempo, Fabray. Como passou esses dias?"
"Passando." Ainda procurava voltar a me sentir à vontade.
"Meu táxi chega em meia hora, por isso não vamos perder tempo." Rachel evitava olhar para mim. "Preparei uma lista de recomendações e tarefas que fixei na geladeira." Apontou para a cozinha e realmente lá estava uma lista grudada na geladeira. "Suas roupas e seus equipamentos estão onde os deixou, então não se preocupe com isso. Minha irmã também disse que não se importa em você dormir aqui em casa, mas eu me importo em você dormir na minha cama."
"Rachel!" Esbravejei. "Não tem sentido eu passar todo esse tempo dormindo no sofá!"
"Falo sério, Quinn. Você quer voltar a dormir aqui?" Apontou para o chão da sala. "Comece me respeitando à distância. Eu não quero voltar e sentir o seu cheiro na minha cama. Mas voltando às suas responsabilidades, a fisioterapia de Santana é todos os dias da semana das 8h às 9h no Coler Goldwater Hospital. Eu a levo de carro todos os dias e não se deixe iludir com os apelos dela, não a deixe dirigir e muito menos firmar o pé no chão."
"Ok." Isso não parecia tão ruim. Dirigir para Santana, esperar por uma hora, e estaria liberada para os meus próprios negócios.
"Talvez você precise me levar para alguns lugares, mas eu aviso com antecedência." Santana disse.
"Por favor, não a deixe se esquecer de tomar os remédios." Rachel retomou a palavra. "Todos os horários estão marcados na geladeira assim como a dieta recomendada. Ah, e amanhã deve chegar a encomenda com a água de coco."
"Água de coco?" Estranhei. Desde quando se consumia água de coco naquela casa?
"Abuela disse que é bom para refrescar o estômago, meu pai disse que é ótimo para repor sais minerais para quem faz exercícios físicos, e Santana ainda descobriu na internet que isso é bom para ressaca. Faça a soma." Por um momento achei que Rachel relaxou na minha presença e fiquei incrivelmente feliz com essa bobagem.
Eu sentia muita falta dessas pequenas coisas da família Lopez. Era ótimo estar de volta, embora ainda não como gostaria.
"Mais alguma coisa? Algo que precise que eu faça?" Dei um passo para mais perto dela.
"Não!" Ela voltou a ficar com a postura rígida e deu dois passos para trás. "Assim que chegar ao hotel, ligo para deixar os telefones e o número do meu quarto, para caso vocês não consigam falar comigo pelo celular. Vou procurar entrar em contato para saber como estão as coisas."
Ouvimos uma buzina lá em baixo. Rachel olhou pela janela.
"É o meu táxi."
Voltou-se para a irmã e a abraçou. Santana sequer se levantou. Também, ela não podia. Quando chegou a minha vez, simplesmente não houve contato e nem sequer troca de olhares. Rachel não me deixou ajudar com a mala. Apenas acenou para mim, sem direito a um sorriso pequeno que fosse e foi embora. Eu ainda fiquei sem saber o que fazer dentro da minha própria casa. Santana estava ali na sala trabalhando no computador e permanecia indiferente. Ela tinha esse poder quando as coisas estavam bem em casa, imagine comigo e a irmã dela rompidas temporariamente? Tinha medo até de entrar no meu próprio quarto.
"Vou facilitar as coisas para você, Fabray." Santana suspirou e levantou-se do sofá. "Você pode dormir no quarto. Essa ideia da Rachel em querer te fazer dormir no sofá é só para te torturar. Não tem lógica nenhuma. Tirando a ida à fisioterapia, eu não preciso de babá, portanto, não se prenda a mim pelo resto do dia." Pegou as muletas e foi em direção porta afora. "Daqui a pouco eu volto."
"Vai aonde?"
"Comprar um chiclete."
Bateu a porta de casa, e eu relaxei mais e sentei-me no sofá. Tudo ainda estava no lugar: os livros, os discos, a televisão. Nem mesmo os quadros com fotografias minhas foram retirados. Fechei os olhos e agradeci por este alívio. Levantei-me e decidi começar a me mexer. Tinha pratos a lavar na pia, uma mochila de roupas sujas nas minhas costas, tinha ainda de procurar emprego e atender aos freelas que surgissem. A minha vida recomeçava.
...
08 de agosto de 2015
(Santana)
"Boa noite, Santana." Vi a imagem do senhor Weiz aparecer na tela do meu computador.
Queria morrer toda vez que o via. Eu queria morrer em dobro toda vez que ele me dizia que o que eu falava ou como agia lembrava Michael. Weiz já nem era mais subliminar quando tocava no assunto. Eu queria morrer em triplo toda vez que eu me lembrava que assinei um contrato vendendo a minha alma para o diabo. Eu vendi a minha alma para proteger zaide, e para impedir que toda aquela merda fosse jogada contra o ventilador.
"Como vão as coisas aí em Cabo Verde?" Perguntei por perguntar. Weiz sempre esperava um pouco de atenção da minha parte.
"Boas como sempre, sabe como sou: gosto de ficar longe das tormentas desta época do ano." Senhor Weiz estava de férias, curtia uma praia antes de voltar a Nova York para iniciar o período de transição. Não para mim. Ele deixaria sim a presidência em algum momento do próximo ano, mas o novo CEO deveria ser o atual vice-presidente, que era um administrador nato: um cara conservador, que arriscava pouco, cuja prioridade era segurar a onda para manter as coisas funcionando como mandava o figurino. Esse era o cara da transição, que ocuparia o cargo até que eu ficasse pronta.
Eu vou estagiar no departamento de projetos, que é um dos mais estratégicos de uma empresa. O objetivo, segundo o velho, era que eu fizesse o caminho mais curto lá dentro, até que me capacitasse para assumir a presidência do império que ele construiu.
Setembro estava perto e o frio na barriga começava a ficar intenso. Só em pensar que eu teria de acumular os trabalhos em Columbia, na minha pequena empresa e o estágio na Weiz. Era muita coisa e não tinha certeza como lidaria com tudo. Com certeza a Rock'n'Pano dançaria no plano das prioridades apesar de ser o meu bebê. Logo agora que estava começando a pagar o investimento inicial. Pensei em talvez fazer uma proposta de administração compartilhada, que basicamente significava pagar alguém para tomar conta.
"Gostaria de saber se as coisas estão bem aí na sua casa?" Imaginava exatamente a razão. Na confusão com Rachel, viagem a Lima e com as coisas com a Rock'n'Pano, deixei de entregar um último documento ao advogado do senhor Weiz dentro do prazo prometido para oficializar as nossas algemas. Foi um atraso de três dias, droga.
"Dentro do possível. Eu estive na casa dos meus pais em Lima dias atrás, gozando das minhas férias particulares. Rachel teve alguns problemas particulares e ela se esqueceu de assinar o documento. Mas ela deve voltar do Canadá em duas semanas e prometo sanar todas as pendências. Apenas tenha um pouco de paciência. Não é que vá usar esse tempo para contra-atacar com bolinhas de gude."
Ele começou a rir à tela do computador. Eu não achava graça alguma.
"Você é mesmo espirituosa, Santana. Isso é ótimo para o mundo empresarial. Mas saiba dosar."
"O senhor não me ligou para passar sermões e conselhos, correto?"
"Não. Por incrível que pareça, a primeira razão por ligar foi para saber se estava tudo bem aí na sua casa. Com você e sua irmã. Se as coisas caminham bem no seu pequeno negócio."
"Agradeço a preocupação, senhor Weiz. Rachel e eu estamos bem, apesar dos pequenos contratempo, e os negócios com a Rock'n'Pano caminham sem maiores problemas."
"Ok. Devo chegar em Nova York na próxima semana. Uma pena que você esteja com o pé ruim, senão agendaria uma partida de golfe. Como não será possível, espero te ver num jantar. Nada de assuntos sérios, prometo."
"Até lá, então."
Desliguei o skype e suspirei com certo alívio. Senhor Weiz ao menos não se portou como o diabo desta vez. Deve ser um progresso. Estava calor em Nova York e eu estava louca para tomar um sorvete ou qualquer coisa parecida. O problema é que lá fora estava um inferno e o meu quarto tinha ar condicionado e vento. Que tempo ridículo fazia aquele ano. Culpa da droga do aquecimento global. Ouvi batidas à minha porta.
"O que foi?" Abri a porta irritada. Custava Quinn ficar na dela, assistir a algum filme estúpido e me deixar em paz?
"Sua irmã me deixou uma lista de tarefas. Cuidar de você infelizmente é um dos ítens".
"Não te disse que não preciso de uma babá?"
"Olha, fiz uma torta de legumes. Está quentinha no forno. Juro que segui todos os passos da receita, e não deixei queimar dessa vez. Eu vou comer agora e se você quiser se juntar a mim, ótimo. Mas se você não quiser, tudo bem. Só te peço um favor: que você se mantenha viva por duas semanas. Só duas. Assim sua irmã vai chegar e te encontrar viva. Rachel vai ficar satisfeita comigo, e assim a gente vai poder reconciliar mais rápido. O que acha?"
"Você está mesmo desesperada." Quinn estava um doce comigo desde que Rachel viajou. Verdade que não foi há muito tempo, ainda assim, era divertido testemunhar o tamanho da falsidade. "Mas não acha que hoje está quente demais para a gente comer torta de legumes?"
"Eu não sei o que faz bem para gastrite e que seja frio..." Ela olhou bem para o meu rosto. "você deve evitar sorvete. Está na lista de Rachel. Principalmente cerveja. Se quiser, a gente espera a torta esfriar e come com a água de coco que está na geladeira. O que acha?" Essa era a coisa mais absurda e, ao mesmo tempo, mais hilária que ouvi no dia.
Jantamos juntas, e a torta não estava mal. Não conversamos muito porque, sinceramente, nem eu estava tão à vontade assim com a presença dela. Ainda havia certo ranço em relação a Quinn por tudo que aconteceu. Por outro lado, pior seria ficar sozinha. Andrew estava fora da cidade, eu não via Mike e Johnny há um bom tempo. Estava mais que na hora de voltar a vê-los, mas não naquela noite em que meus ânimos não eram dos melhores.
"Tem planos para hoje?" Perguntei enquanto ela recolhia os pratos para lavar.
"Ia assistir um filme tomando uma coca-cola bem gelada. Você?" Ela falou coca-cola com ênfase só porque eu não posso tomar refrigerante.
"Qual filme?"
"About Time."
"Filme inglês de mulherzinha com um nerd como protagonista."
"Posso fazer pipoca extra se quiser e um pouco de suco de melão batido no gelo."
"Bom, isso seria muito trabalho, Quinn... mas eu não estou nem aí e aceito." Ela balançou a cabeça e sorriu. Foi até a geladeira e pegou o melão para bater no liquidificador. Aceitei porque não tinha nada melhor a fazer. Não é que eu fosse assistir filme abraçadinha ou que iríamos pintar nossas unhas juntas.
"San?" De repente ela parou no tempo e soou séria.
"O que foi?"
"Você acha que tenho chances de Rachel me perdoar?"
A pergunta não me pegou de surpresa porque esperava que em um momento ela a soltaria. Mesmo prevendo, não tinha elaborado uma resposta ou feito uma reflexão apropriada.
"Rachel nunca foi santa e ainda por cima é uma péssima moralista. Ela traiu Finn uma vez com uma garota em Londres e tentou transar com Puck uma vez depois que descobriu que eu tinha transado com Finn. Putz, ela ficou aos beijos contigo pelos cantos enquanto ainda estava com Finn Hudson. Então, que moral ela tem, certo? Exceto que ela nunca teve uma relação sólida e séria com ninguém além de você. Foi você, Quinn Fabray, quem tirou a virgindade dela! Vocês começaram a namorar praticamente já morando juntas. Então essa sua pulada de cerca, seja em que circunstância for, a feriu mortalmente. Rachel nunca amou ninguém antes como ela te ama, nem mesmo Finn Hudson. É possível que ela te perdoe, eventualmente, mas vai levar um tempo. Se você realmente a ama, vai ter de ser paciente."
Quinn acenou e ligou o liquidificador. Pouco mais de dez minutos depois, a cozinha estava arrumada e ela sentou-se no sofá com distância razoável. O filme começou.
...
12 de agosto de 2015
(Santana)
"Então? O que achou? Santana?"
Estava no mundo da lua por um instante. Às vezes era confortável ficar por lá. Johnny estava em casa mostrando os novos trabalhos que ele havia feito para uma nova coleção da Rock'n'Pano. Ele era o artista que menos vendia estampas, mas era o mais entusiasmado, sobretudo agora que estava começando a amadurecer a idéia de vender camisetas. Mas primeiro faria em forma de edição limitada com estampas distintas. Não queria correr o risco de afundar os panos de prato, que estavam começando a ter uma boa saída. Por isso que preferia introduzir um segundo produto com cautela.
"Essas duas estampas aqui podem servir para as camisetas." Eram figuras tribais indígenas inspirados em ornamentos apaches. Tinham algum apelo e podiam agradar. As outras seis eram tribais de flores muito delicados. Mas só ia pegar quatro.
"Gosto das florais em camisetas. Essas apaches podem ser dos panos".
"Sim, mas as camisetas ainda estão em caráter experimental e as florais configuram uma coleção nova".
"Esse lance mais artístico atrai, saca? E tem mais apelo feminino".
"Preciso do público masculino também." Disse em tom pragmático. "O ideal é algo unissex."
"Você é osso duro!"
Eu adorava Johnny. Ele era bonito, gente boa, e eu estava completamente atraída por aqueles olhinhos verdes. Só que negócios são negócios. Tinha um planejamento a seguir. Nem mesmo a cara de buldogue abandonado me faria mudar de idéia.
"Muito bem. Pago 100 dólares por cada estampa mais os 5% das vendas."
"Você é má!"
"O dinheiro está pouco?"
"Deixa o dinheiro de lado, San. Eu não ligo para isso. Tô dizendo que você é má porque nem liga para a sensibilidade do artista".
"Quem disse?" Me senti ofendida.
"Eu digo!" Ele pegou uma das estampas florais e encostou o papel na minha camiseta numa posição de lado. "Não vê? Essas flores precisam estar ao lado do coração. Olha como elas ficam lindas perto de alguém ainda mais bonito, como você, que as valorizam e dão sentido a elas." Isso era sério? Johnny falando que eu era bonita assim tão próximo era um convite para perder o controle. Algo que estava muito perto de acontecer.
"Satan!" Quinn chegou em casa e quebrou o nosso clima. Foi um alívio para ser sincera. "Ei, Johnny! Não sabia que você vinha aqui hoje."
"Santana não tem sensibilidade artística." Reclamou mais uma vez. "Você prefere essa estampa numa camiseta ou num pano de prato?" Mostrou o papel para Quinn. Ela se aproximou e deu uma olhada nos demais trabalhos que estavam espalhados pela mesa.
"Vestiria essas daqui." Apontou para as tribais apaches. "São mais originais".
Não agüentei e comecei a rir. Johnny estava com a cara no chão, coitado. Não tinha mais o que fazer, então, derrotado, fechou o negócio comigo. Agora só precisava negociar com Mercedes e checar o trabalho de um jovem designer que Kurt indicou. Ele dizia que o tal cara era espetacular e só precisava de uma chance para despontar. Ainda não sabia se ia abrir espaço para mais um artista. Não queria gente estranha por enquanto. De qualquer forma, iria receber o amigo do Kurt como consideração.
"Vamos beber para fechar o negócio?" Johnny sugeriu. "Minha amiga Janet vai tocar no Rockwood Music Hall hoje à noite".
O Rockwood era uma casa noturna famosa do Village por ser reduto de artistas folk e de jazz. Por noite, um monte de gente agendava performances de uma hora e ficava se revezando nos palcos. O primeiro palco era para os desconhecidos em busca do sol e o segundo já se apresentavam gente com um pouco mais de calibre. Muitos intelectuais, aspirantes a artistas e contestadores em geral passavam por ali. Era o tipo do lugar que era a cara de Quinn e de Rachel. Eu ainda preferia pubs mais barulhentos e pés-sujos. Tinham mais autenticidade e espírito. Se era para falar de artistas, acho que a vulgaridade desses pubs tinha a sua beleza.
"Por mim, tudo bem." Quinn balançou os ombros. "Preciso mesmo sair um pouco".
"Só se depois a gente sair para dançar".
"Santana, você está de muletas e fazendo fisioterapia".
Quinn fazia questão de me lembrar das misérias da vida. Estava livre do gesso, o que era ótimo, mas o meu tornozelo ainda tinha de passar por um doloroso processo de reabilitação em forma de uma hora diária na fisioterapia, mais os exercícios que o fisioterapeuta mandava fazer ao longo do dia. E como tudo ainda era recente, ainda não podia nem pensar em firmar o meu pé no chão, apesar do bom meu bom progresso. Palavras do fisioterapeuta, não minhas. Mesmo assim, ele teimava em não me deixar dirigir até o fim da segunda semana, quando ele iria "pensar no caso".
"Ok, vamos à terra da filosofia barata. Pelo menos lá serve um bom vinho e podemos dividir algumas garrafas."
"Uma taça no máximo, ok? Eu bebi a minha cota de álcool do ano." Quinn contorceu um pouco o rosto. Ainda difícil visualizar aquela moralista no modo de vida dos desajustados, boêmios e viciados.
Combinamos de nos encontrar no Rockwood mais tarde. Nesse tempo, liguei para Andrew e o convidei. Nós estávamos um pouco distanciados, e achei que essa fosse uma boa oportunidade para que pudéssemos ter conversa mais amena, com amigos ao redor. Tomei um banho prolongado e me arrumei. Mesmo sem o gesso ainda tinha meus momentos atrapalhados para me vestir por não poder forçar meu pé ainda. Até podia colocar o pé no chão, desde que não colocasse meu peso sobre ele, o que era quase impossível. Segundo o fisioterapeuta, eu teria de recuperar toda a parte muscular primeiro antes de voltar a andar normalmente. Enquanto isso, colocar uma calça jeans era uma acrobacia.
Quinn e eu fomos de táxi até o Rockwood porque seria um saco encontrar estacionamento por lá, e chegamos meia hora depois do combinado. Era charmoso chegar tarde nesse tipo de encontro. Andrew estava do lado de fora me esperando com um rosto fechado. Eu o beijei na boca quando nos encontramos, e as feições dele não mudaram. Johnny apareceu por lá acompanhado de Mike, a presa da vez de Mike, e mais um casal. Eram pessoas agradáveis, mais velhas. Dave era vendedor de seguros e Anna era professora de matemática de high school. Os dois eram amigos próximos de Janet, a cantora que se apresentaria. A acompanhante de Mike se chamava Drell, era uma atriz/ginasta/bailarina que trabalhava no Cirque Du Soleil. Mike vai rodar um filme de ação onde ele vai fazer um cadete do FBI que era um ex-trapezista. Antes precisava se preparar para o papel e acabou chegando em Drell. Figura simpática!
Janet subiu ao palco e começou um repertório de canções próprias ao violão, acompanhada de um baixista e um percussionista. Não era o meu tipo de música. Eu não sabia se Quinn estava gostando mais do show ou da garrafa de vinho. Talvez dos dois, sei lá. Contanto que ela não me desse problema para voltar para casa, estaríamos bem. Não podia carregar bêbados. Johnny brincava e estava muito à vontade. Ele passava a mão pelos meus cabelos e falava coisas engraçadas. Andrew não parecia estar animado nem com a música e nem com a companhia. Chegou a um ponto que precisava conversar, ou ele iria estourar.
"Podemos ir lá fora?" Falei no ouvido dele por causa do som.
Andrew concordou, então resolvemos sair da casa noturna. As noites de Nova York eram relativamente amenas e confortáveis em comparação ao calor do dia. Eu estava apenas com uma blusa fina de manga comprida, e me sentia bem vestida. Andrew não. Estava com um casaco e alguém precisava estar doente para vestir aquilo àquela época. Ou muito fora do ambiente. Ele estava insatisfeito com alguma coisa. Comigo? Provável.
"Aconteceu alguma coisa?" Perguntei. "Sua cabeça parece estar em outro lugar".
"O que está rolando entre você e Johnny?"
"O quê?"
"Vocês dois andam mais sorridentes do que o normal, estão sempre arrumando desculpas para encostar um no outro... isso é irritante, Santana."
"Desculpe, Andy. Johnny e eu... somos amigos há anos e..."
"Ele foi o primeiro amigo que você fez na cidade? É essa história que você contou dezenas de vezes que ia usar para justificar?"
"Johnny é como um irmão..."
"Você tem uma irmã que é muito mais próxima que a maioria do relacionamento entre irmãos que conheço. Mesmo assim, você não se comporta desse jeito com Rachel. Então não vem com essas desculpas. Você gosta dele, e isso tem nada a ver com amor fraternal. Apenas admita que está na dele, e facilite as coisas."
Andrew me encarou de um jeito... pela primeira vez na vida foi tão intimidador, que eu fraquejei e o meu olhar se desviou para o chão. O pior é que ele estava certo. Mesmo que eu não estivesse preparada para me envolver de forma tão emocional com ninguém por enquanto, Andrew estava certo.
"O problema, Andy, é que eu te adoro. Você é um dos meus melhores amigos, e eu odiaria que você ficasse longe."
"Mas não é assim que eu te quero, San. Quer dizer, eu sempre soube que você não me amava do jeito que eu te amo. Essa sua fixação por Brittany... sempre achei que estava tudo bem, porque ela está do outro lado do país. Mas Johnny? Ele está perto demais. Isso é mais do que eu conseguiria tolerar. Eu não quero ser um desses caras que tenta segurar a garota a qualquer preço. Se você quiser ficar comigo, tem que ser porque me quer realmente. Não porque eu sou a terceira ou quarta opção na sua lista de amores! Não porque eu sou um dos seus melhores amigos."
Olhei para o chão da calçada. Estava difícil encarar Andrew naquele momento. Ele estava completamente coberto de razão. Ele era um cara decente, amável, sensato. Eu realmente gostava muito dele. Mas eu gostava muito mais como amigo do que como namorado. Não era justo com ele.
"É por isso que preciso deixar você ir." Estava com um nó na garganta e me segurava para não chorar. "Não por causa do Johnny, porque nem eu sei bem o que se passa entre nós dois. A gente precisa terminar, porque você merece muito mais do que posso oferecer. Eu estava sendo egoísta e injusta com nós dois. Desculpe!"
"Então estamos resolvidos." Acenei positivo e ele esboçou um pequeno sorriso. "Nunca pensei que terminar o namoro contigo fosse ser tão civilizado. Você é sempre tão abrasiva." Nós dois rimos, sem-jeito, nervosos. A verdade é que eu não conseguia mais conter as lágrimas no meu rosto. Nem mesmo Andrew. "Não que esteja levando tudo numa boa. Para falar a verdade, está difícil segurar..."
O surpreendi com um beijo, desses de deixar as muletas caírem no processo. Era a nossa despedida como namorados, e eu tinha de agradecer Andrew por ter me ensinado tantas coisas positivas, e por estar comigo em momentos importantes. Precisava agradecê-lo por ter ficado ao meu lado por mais de um ano, mesmo quando eu não era a pessoa mais fácil para se ter por perto. Poderíamos ter dado certo se eu o amasse como ele merecia. Mas eu amava Brittany. E na ausência dela, ainda tinha essa atração maluca por Johnny. Minha cabeça estava cheia o suficiente.
"Obrigada... por tudo." Eu disse quando rompemos o beijo.
"Acho melhor você voltar para os seus amigos." Ele se abaixou e pegou minhas muletas caídas, num gesto de gentileza e grandeza.
"Certo!" Limpei as lágrimas.
"Dê um abraço em Rachel por mim."
"Não fale como se fosse sumir da minha vida. Posso ter perdido o namorado, mas seria uma tragédia se eu perdesse o meu melhor amigo."
"Eu vou sumir da sua vida, San. Pelo menos por algumas semanas... eu preciso de um tempo."
"Promete que vai voltar? A estar na minha vida, digo."
"Eventualmente... não sei por quanto tempo posso ficar sem conversar com minha espoleta."
"Seria uma tragédia se eu não pudesse mais falar com o meu nerd."
Andrew sorriu triste. Ele chorava, e eu também. Ele passou a mão nos olhos para enxugar as lágrimas e virou as costas. Fiquei observando o meu, agora, ex-namorado, se afastar. Com ele foi concluído mais uma parte da minha vida. Demorei um pouco fora do bar, porque deu uma vontade maluca de chorar e chorar, e não queria que os meus amigos me vissem daquele jeito. Uma mulher perguntou se estava bem, e até me ofereceu um lenço. Agradeci a gentileza.
"San?" Johnny veio me procurar, e se assustou ao me ver chorando amparada por uma completa desconhecida. "San, o que houve?"
"Andrew e eu terminamos."
"Ele disse alguma coisa pra você?" Senti a raiva crescer na voz de Johnny.
"Não, muito pelo contrário." Respirava fundo para tentar me controlar. "Você poderia chamar Quinn? Não estou mais em clima de farra."
Ele acenou e voltou para dentro. Saiu de lá com Quinn com cara de preocupada. Sabia que ela tinha bebido, mas não pareia estar de pileque. Talvez os dias seguidos de coma alcoólico tenham maturado o fígado. Pegamos um táxi e voltamos para casa. Quinn passou a mão pelos meus ombros e foi a primeira vez em semanas que tive um gesto de conforto por parte dela. Foi bom. Eu não amava Andrew. Gostava muito, mas nunca o amei. Mesmo assim, terminar um namoro de tanto tempo e cumplicidade doeu muito. Bem mais que poderia imaginar.
...
13 de agosto de 2015
(Quinn)
Entre as reações de quebra de relacionamento, a de Santana foi menos traumática do que a minha. Tudo que ela fez quando chegamos em casa foi chorar no meu ombro e depois dormiu. Eu arrumei o meu saco de dormir na sala (sim, respeitei religiosamente o desejo de Rachel), e caí no sono depressa.
Santana me acordou para o café da manhã e ela pouco lembrava a mulher que parecia que o mundo caiu quando Brittany anunciou a gravidez, por exemplo. Não estava feliz, assobiando para os passarinhos, mas também não tinha o ar maníaco-depressivo que demonstrou em outras ocasiões. Diante de mim, estava uma Santana séria, com o ar levemente triste, olhos um pouco inchados de chorar, mas pronta para encarar a vida. Fiquei impressionada, embora aquele cenário não fosse uma surpresa.
"Estamos em cima da hora para a fisioterapia." Ela lembrou.
"Vai dar tempo." Época de férias sempre dava tempo em Nova York.
Engolimos a refeição e descemos para a garagem do edifício. Cada morador tinha direito a uma vaga. Quem tinha carro, pegava a sua, quem não tinha, alugava a vaga quando havia a oportunidade.
"San, sobre o carro..."
"Pode pegar emprestado. Mas ai de você se ele voltar com um arranhão que seja."
"Obrigada."
Eu tinha uma entrevista de emprego de meio período em uma imobiliária para fotografar imóveis. Era serviço para ganhar 900 dólares por mês. Tinha de fazer o tratamento da foto, a edição e jogar na internet. Nada que não soubesse. Também não era nada que gostasse de fazer. Mas tinha de ganhar dinheiro. Havia também um curta-metragem a fazer em que teria a oportunidade de trabalhar mais uma vez como diretora de fotografia, mas o tempo de produção era pequeno demais, tanto que valeria muito mais pela experiência e prazer em fazer cinema do que retorno financeiro.
Chegamos ao hospital e estabelecemos a nossa rotina de sempre: Santana seguiu para a sala de exercícios e eu fiquei na recepção distraída com um livro que levava dentro da bolsa. O eleito da vez foi "Labirinto", de Kate Mosse. A história não era tão boa assim, mas pelo menos o livro era grosso e dava para preencher o tempo nas muitas sessões de fisioterapia.
"Senhorita Fabray?" Fechei o livro quando escutei o meu nome ser chamado. Era o fisioterapeuta acompanhado por Santana. Ela não parecia muito feliz, mas ele tinha um sorrisinho maroto nos lábios. "É um prazer revê-la." Nos cumprimentamos.
"Igualmente."
"Só queria reforçar diante de uma testemunha de que eu não a estou liberando para dirigir ainda." Santana fez careta para o moço e só não cruzou os braços porque estava de muletas. "Embora o progresso esteja melhor que o esperado, e o carro seja automático, ainda não seria prudente. É melhor esperar mais uma semana para que a musculatura esteja mais firme para que ela já possa sustentar essa tensão e fazer melhor a coordenação do movimento."
"Correto, doutor." Acenei e engoli o riso. Eu queria o carro emprestado e não ia correr o risco de Santana me negar em represália porque sabia que ela faria isso. "Vamos?"
No estacionamento, o meu celular toca. Reconheci o número e cheguei ao limite. Enquanto Santana se ajeitava no banco do passageiro, bloqueei e não escondi a minha irritação.
"O que foi?" Ela perguntou enquanto jogava a muleta no banco de trás. "Quem te ligou?"
"Monica." Disse simplesmente. "Esse é o terceiro número que ela insiste em falar comigo que eu tenho de bloquear." Passei a mão no rosto e confessei. "Ela me liga quase todos os dias. Isso me deixa maluca."
"Bom, você transou com ela, e nunca mais conversou com ela. Foi bem canalha da sua parte. O que esperava?" Odiava ter de engolir à seco esse tipo de julgamento.
"Ela é uma psicótica maquiavélica que passou semanas tentando me seduzir!" Esbravejei.
"E que claramente conseguiu."
"Não em forma de sedução exatamente..."
"Ok... eu te dou esse crédito, mas Quinn, sério, se essa menina está obsessiva, não é o caso de procurar a polícia e entrar com processo?"
"Acho que não precisa chegar a tanto. Processo? Não!" A ideia de falar com advogados me dava arrepios.
"Bom, você é que sabe. Contanto que essa merda que você fez não prejudique ainda mais a minha irmã..."
Santana estava com tiradas desconcertantes nos últimos dias. Ou seria porque a minha moral estava ainda baixa? Provavelmente esta opção. Tinha de tomar uma atitude, mas não sabia qual e ainda por cima tinha medo. Eu, Quinn Fabray, não sabia o que fazer.
...
20 de agosto de 2015
(Quinn)
Controle Fabray. Parecia que esse era o meu mantra dos últimos dias. A cada vez que eu recebia uma mensagem de texto de Monica, ficava mais e mais difícil manter minha calma. A minha vontade era de ir onde quer que ela esteja e fazer um estrago no rosto daquela doida psicótica. Se arrependimento matasse... Procurei respirar fundo. Estava no prédio da NYU homologando o último semestre de aulas que teria pela frente. O próximo me dedicaria apenas ao meu projeto final e aos meus exames. Tinha de estar com a mente limpa, disposta, mas não. Tinha que me livrar de Monica, reconquistar Rachel e me casar com ela, suportar um tedioso emprego numa mobiliária, procurar meus freelas e arrumar tempo para fazer o curta-metragem.
Eu queria fazer tudo muito bem. Assim como Rachel Berry-Lopez, tinha o meu desejo de perfeição. Mas diferente dela, a minha satisfação era mais pessoal do que busca pelo reconhecimento, pelo estrelato. Por exemplo, eu queria o meu diploma. Era importante para mim, como conquista pessoal e também para mostrar à minha família que tinha conseguido sair de Lima, ter uma formação e vencer sem precisar de um centavo do bolso deles. Sim, o meu orgulho falava alto dessa maneira.
Meu celular vibrou novamente. Número desconhecido.
"Eu não vou parar enquanto a gente não conversar. Me liga. M"— Número desconhecido
Que vontade de morrer. Rachel chegaria no fim de semana e seria um tormento ter a praga da Monica no meu pé até lá. A última coisa que eu queria era recebê-la com a mente tumultuada de pensamentos em terceiros. Precisava e queria concentrar na reconstrução da nossa relação, em provar que ela poderia confiar em mim como antes. Mas uma coisa era certa: teria de lidar primeiro com Monica. Liguei para o tal número desconhecido.
"Quinn!" Monica respondeu ao telefone. "Fico feliz que você finalmente resolveu atender. Precisamos conversar."
"Sem enrolar. Diz onde e quando você quer conversar".
"Que tal hoje à noite lá em casa?"
"Impossível e eu não vou pisar os pés na sua casa".
"Isso foi rude".
"Se quiser me ver, me encontre em uma hora em Washington Square Park. Estarei te esperando logo em frente ao arco".
"Tão impessoal assim?"
"Quanto mais impessoal, melhor. É pegar ou largar".
"Estarei lá!"
Não esperava que fosse resolver tudo em uma conversa. Não era ingênua. Monica tinha um sério problema. Diria que era até patológico. Eu tive o azar de estar à mira dela. Resolvi a minha homologação e fui andando lentamente até o ponto de encontro. No meio do caminho, encontrei Santiago e Sheryl, que era uma colega minha da NYU.
"Você parece ansiosa, Quinn." Sheryl observou. Não era surpresa: sensibilidade feminina.
"Tenho que resolver zilhões de problemas antes de Rachel chegar de viagem." Não menti.
"Quer dizer que os dias de liberdade chegaram ao fim!" Santiago e suas observações machistas. Não foi por menos que recebeu uma cotovelada discreta em nossa amiga, ainda assim não se fez de rogado. "Veja pelo lado bom, Fabray. Você vai poder tirar o atraso." E como eu gostaria que isso fosse verdade. Santiago era um excelente amigo, mas para o trabalho, a labuta. Eu não era louca em contar para ele meus problemas pessoais, a não ser que estivesse desesperada para falar com alguém. Qualquer um. Por outo lado, Santiago sempre reservava uma boa conversa. Fiquei distraída com ele e Sheryl.
Olhei para o relógio. Levei um susto quando percebi que precisava acelerar o passo. A merda de se estar numa faculdade de campus urbano é que estávamos submetidos a todos os humores do resto da cidade. Não era como Columbia, que era uma universidade que tinha um campus mais formal e reservado. Nova York resolveu estar fácil naquele dia. Significava que Monica estaria o horário. Ela sempre estava no horário. Essa era algumas especificidades que faziam dela uma boa produtora. Por isso não foi surpresa quando cheguei um pouco atrasada e a vi me esperando impaciente. Recobrei a minha postura, empinei o nariz e me aprontei para o primeiro round.
"Está atrasada!" Monica era terrivelmente pontual. Ao passo que isso era uma qualidade desejável no meio cinematográfico, me pareceu irritante naquele momento.
"Eu tenho pouco tempo." Olhei no relógio para enfatizar então a encarei com a minha melhor postura bitch. "Portanto serei breve e clara. Ok, eu fui até a sua casa, sequei a sua garrafa de vodca e te fodi a noite inteira, para depois sumir da sua casa na manhã seguinte. Pode me processar! Eu sou uma cretina, egoísta, idiota. Mas, por favor, para de me ligar!"
"Isso mostra o quanto você é madura para lidar com esse tipo de problema. E você ainda queria se casar? Coitada da Rachel!"
"Não meta Rachel nessa história."
"Ela deve estar feliz por ter desviado da bala."
"Olha aqui, Monica, eu vim aqui conversar numa boa, apesar de você ter me perseguido o tempo inteiro. Se você tem alguma coisa realmente importante a me dizer, apenas desembucha."
"Eu queria te devolver isso!" Ela pegou um plástico dentro da bolsa dela e atirou contra mim. "Você esqueceu a sua calcinha na minha casa! E o seu anel de noivado."
Por um momento, fiquei com tanta vergonha que eu não consegui mais encarar Monica. Esquecer a minha calcinha na casa dela? Pior do que isso, o anel que Rachel me deu? Acho que estava tão angustiada quando praticamente fugi da casa dela na manhã seguinte que nem reparei que faltavam peças. Pior, nem reparei que faltava o objeto mais importante. Onde é que eu estava com a cabeça, por Cristo?
"Não pense que o que você fez fosse algo inédito para mim, Fabray. Eu já tive relações melhores que terminaram no raiar do dia. Não é grande coisa. O que você fez... você foi apenas mais uma, e você sequer foi tão extraordinária assim. A diferença é que eu realmente me importei contigo e fiquei preocupada. Não porque o seu relacionamento poderia ir descarga abaixo, mas porque você é emocionalmente frágil, e poderia fazer merda atrás de merda em vez de ficar na sua e seguir em frente, como a maioria costuma fazer."
"Eu não sou frágil!"
"Não... você é uma idiota."
"Falou a garota que passou semanas se atirando em mim como uma vagabunda oferecida!"
Monica se aproximou de um jeito que achei que fosse querer me agredir. E talvez fosse realmente essa intenção a julgar o modo que ela freou no meio do caminho, olhou para os lados e se conteve. Percebi que nossa discursão estava um pouco alta e havia alguns pares de olhos em nossa direção.
"Olha..." Eu disse com o volume de voz mais baixo e com mais cautela. "Obrigada por devolver a minha calcinha e o meu anel, Monica. Mas eu não preciso da sua preocupação, das suas mensagens, nem de você na minha vida. Assim como eu tenho certeza que você não precisa de mim. O que aconteceu foi um engano de alguém que estava de cabeça quente. Isso foi tudo que você representa para mim: um mero engano. Não gosto de você, não suporto olhar para a sua cara. E se você não parar de me ligar, de me mandar mensagens, é melhor aguardar o contato do meu advogado. Fui clara?" Monica tentava manter a postura, mas era visível o nervosismo. Ou ela ia sair chorando, ou ia realmente me dar um tapa.
"Você precisa de ajuda. Essa foi a narrativa que você criou na sua cabeça para sair como vítima?" Ela sorriu irônica. "Olha aqui, desculpe se eu quis te devolver o seu anel, em vez de ganhar um dinheiro fácil com ele no penhor. Desculpe se me preocupei contigo. Desculpe se quis ser sua amiga. Eu sou uma idiota, reconheço. Pelo menos não sou uma sociopata. Adeus, Fabray."
Ela virou as costas para mim e foi embora. Eu precisei de algum tempo para recompor a minha postura, e saí como se fosse a velha Quinn Fabray que comandava a escola. Olhei para o anel de noivado e o coloquei no meu bolso. Porra! No fundo, eu passei a dever um favor para Monica.
...
22 de agosto de 2015
(Quinn)
Meu coração palpitava. Rachel chegaria do Canadá e eu não poderia estar mais ansiosa. Levantei cedo para arrumar a casa. Dobrei o meu saco de dormir no armário da frente, guardei a manta os travesseiros, aspirei, varri, tirei poeira, lavei o banheiro, deixei a cozinha um brinco. Tudo sob olhar arregalado de Santana. Ela ficou boquiaberta o tempo inteiro com a minha disposição de deixar aquela casa um brinco para receber a minha Rachel. Que fique bem claro: amava ter a minha casa arrumada e limpa. Era algo naturalmente meu. Mas aquela era uma ocasião especial. Como toque final, desci até a floricultura mais próxima e comprei rosas vermelhas.
Rachel não quis que a buscássemos no aeroporto. Santana tanto atormentou o fisioterapeuta, que foi liberada para dirigir por pouco tempo em curtas distâncias. Ela queria ir ao aeroporto que era tudo menos isso, mas Rachel vetou. Disse que seria uma imprudência e sequer considerou a alternativa: eu dirigir. Não tinha outro remédio a não ser esperá-la em casa. Depois de arrumar tudo, tomei um banho, me arrumei para ela e esperei.
Rachel estava atrasada. Comecei a ficar impaciente. Não conseguia prestar atenção nem na CNN e nem no storyboard de um projeto de Santiago que recebi por e-mail. Ele estava louco para fazer um curta-metragem, e depois tentar entrar em festivais por aí afora. Em determinado momento todo cineasta precisa fazer isso para fazer o nome e estava inclinada a entrar na parceria. Mas naquele exato momento, não tinha cabeça.
"A mala extraviou." Santana disse assim que desligou o celular e eu tive dificuldade de me situar. "É por isso que ela está demorando." Repetiu "A mala extraviou!" Depois começou a rir, o que me deixou confusa. "A mala dela sempre extravia."
Levou mais duas agoniantes horas até ela chegar em casa. Quando finalmente abriu a porta, Rachel apenas com a mala de mão, ar cansado, cabelo um pouco bagunçado, roupas meio amassadas. Nada sexy e, ao mesmo tempo, super sexy, se é que fazia sentido. Ela primeiro abraçou e beijou a irmã, e a olhou de cima embaixo com se conferisse se todas as peças estavam no lugar.
"Oi Quinn." Foram as primeiras palavras que ela direcionou a mim em dias, porque basicamente só falava ao telefone com Santana. "Bom te ver."
Então ela me abraçou. Foi rápido, mas imagine o que isso representou para uma pessoa que há mais de um mês não tinha a chance nem de fazer um simples gesto como esse na pessoa que amava? Foi uma eternidade, dessas que fez a minha pele arrepiar ao mero contato com a pele dela. As partes que se tocaram incendiaram-se como fogo. Então, no segundo seguinte, quase que literalmente, ela se separou e eu fiquei ainda com a sensação pulsando no corpo. Exagero? Talvez. Mas aconteceu.
"Conseguiu resolver o problema do extravio?" Perguntei ainda sem a naturalidade devida. Sentia como se fosse uma hóspede e que estava prestes a ir embora. Era horrível essa sensação dentro da minha própria casa.
"Dizem que a mala vai chegar aqui em até 48 horas. É só aguardar." Rachel também estava pouco à vontade comigo e comecei a ficar preocupada. "Bom, vou tomar um banho... e Quinn, será que depois a gente poderia conversar?"
Acenei. Minhas mãos suavam frio.
