(Rachel)
Eu fiz um dueto com Cher. Eu, Rachel Berry-Lopez, cantei junto com Cher. Nós tínhamos feito uma boa cena. A minha personagem era a neta mais velha de Cher e era extremamente carola e cristã. Ela não admitia o comportamento libertino da avó e a recriminava. Mas é justo essa neta que herda o talento sobrenatural do bem em oposição aos filhos caçulas das três bruxas que são herdeiros do mal. Tinha duas boas cenas. Uma que a neta discute com a avó e manda ela agir mais condizente com a idade que tem. E uma segunda quando as duas fazem as pazes e a avó promete ajudar a neta a lidar com a herança mística. Havia outras pequenas cenas também para compor a trama, mas a minha grande participação se resumiu a esses dois momentos. Não me incomodava em ter um plot secundário na trama. Estava feliz por fazer a minha estréia no cinema ao lado de três atrizes que admirava demais.
Cheguei ao set de filmagens em Vancouver muito chateada, mas logo fui envolvida com aquele clima de acampamento de férias. A equipe estava reunida fazia umas semanas e foi ótimo encontrar tudo já montado e organizado. Michelle Pfeiffer era muito profissional e reservada. Ela conversava muito com o elenco principal e diretor. Só tive a oportunidade de cumprimentá-la rapidamente. Susan Sarandon era a mais sorridente e simpática. Contei a ela que fiz o papel de Janet Weiss na amadora adaptação de Rock Horror Show feita pelo professor Schue e a senhora Pillsbury. Ela adorou saber e quis saber detalhes. Então se lembrou de algumas músicas e nós cantarolamos rapidamente. Foi ótimo.
Eu só contracenava com as três numa única cena. Seria no final do filme. Curioso é que essa foi a primeira cena que gravei. Michelle Pfeiffer precisou se ausentar. Ficou três dias no set enquanto estive presente para gravar justo o tal final e foi todo o contato que tive com ela.
Neste meio tempo, conversei muito com Cher. Tivemos logo essa identificação por sermos também atrizes de musicais e, por que não, divas. A primeira cena que fizemos foi a das pazes. O diretor Steve Antin disse que deixaria a cena mais forte para depois porque quanto mais contato tivesse com ela até lá, melhor. Então gravei a minha cena com ela, várias pequenas junto com o elenco, uma que eu relutava em ter qualquer relacionamento com o neto new-hippie da personagem da Susan Sarandon (mas no final eles terminam de mãos dadas). E veio a cena da briga. Nós ensaiamos apenas duas vezes. Quando foi para valer, lembrei de todas as vezes que briguei com minha família. Era algo parecido. Quando o diretor disse ação, canalizei a minha experiência de anos de vida e fizemos uma grande cena. Dois takes. Blanche Bennett, a diretora de elenco, ficou impressionada com a minha performance.
"Você é mesmo boa, garotinha." A diretora de elenco me congratulou enquanto eu ainda estava sentindo os ecos da cena. "Você tinha ido bem na audição, mas confesso que não esperava uma atuação tão sólida."
"Obrigada." Abri e fechei as mãos. "Só preciso de um minuto para sair do personagem."
"Não se envolta tanto."
"É um problema que os atores formados no teatro têm. A gente incorpora um personagem e precisa fazer todo um ritual para sair dele depois."
"Ah sim, eu conheço o método."
O dia correu sem maiores emoções. Cinema é a arte da espera e da repetição, muito mais do que a televisão. Na prática, um personagem coadjuvante como o meu trabalha muito pouco, grava-se em menos dias, e seria natural que metade das cenas que gravei ao longo dos dias fossem cortadas na edição final. Quando o elenco foi dispensado, e nós voltamos ao hotel, Blanche se aproximou.
"Você teve um desempenho surpreendente, Rachel. É um prazer encontrar bom material em atrizes jovens como você. Fico feliz por ter te achado."
"Obrigada! Isso significa muito para mim".
"No que pensou quando fez a cena?" Fiquei sem saber o que responder na hora. "Em algum acontecimento real? É uma boa técnica, mas não se pode confiar inteiramente nisso. Há momentos que ela falha".
"Quando fiz o curso na NYU, um dos meus professores disse a mesma coisa".
"Oh, você se formou?"
"Não. Eu tranquei o curso depois que completei um semestre. Ou eu fazia bem a faculdade de artes cênicas ou eu fazia bem a minha peça da Broadway por mais estranho que possa parecer".
Conversamos versamos mais e quando menos percebi falava de coisas da minha vida e estava falando do meu relacionamento com Quinn de forma figurativa. Troquei o meu interesse romântico de gênero, inclusive, porque me lembrei das palavras da minha assessora e do meu agente em evitar dar qualquer pista sobre o meu relacionamento homossexual. Blanche era uma mulher experiente e não demorou a decifrar todas as minhas metáforas triviais e ainda juvenis.
"Então você ia se casar com esse namorado." Ela disse enquanto tomava água no bar do hotel. "Não acha que é muito jovem? Você tem quantos anos? 18?"
"Na verdade, tenho quase 21, mas nós moramos juntos há três anos. Desde o dia que pisei os pés em Nova York. Parece um avanço natural dentro do nosso relacionamento."
"Hum."
"Não me julgue." Disse um pouco aborrecida.
"Sabe, Rachel, algumas pessoas aqui do estúdio dizem que a minha biografia seria digna de ser publicada num livro. Eu fui uma garota impulsiva. Você desafiou o seu pai aos 17 para ir morar em Nova York com a sua irmã super-cérebro, pelo que entendi, e o namorado fotógrafo. Bom, eu larguei tudo aos 16 e fui para Los Angeles apenas com a benção da minha mãe na bagagem. Foi lá que conheci e me casei com meu primeiro marido aos 18. Ele era muito mais velho que eu... Ficamos dez anos juntos, sendo oito anos foram de casamento no papel passado, tive meu primeiro filho aos 21. Tudo aconteceu muito cedo na minha vida, mas garota, eu vivi. Hoje não penso que há necessidade de se casar a não ser que realmente se queira. Eu casei com Ronny, mas não com o cara que considero o grande amor da minha vida. O importante é amar o seu homem pelo que é, e não pelo que ele pode te prover. Mas ressalto que experiência é importante. Relacionamentos são importantes, pelo menos para mim. Mas digo que é preciso pensar um pouco em si mesma. É preciso escorregar sozinha às vezes."
"O problema é que eu não sei mais se estamos tão juntas assim. Nós brigamos. Feio." Procurei evitar detalhes como: Quinn me traiu com uma mulher cujo nome sequer consigo lembrar, mas enfim, é isso. "Eu viajei brigada e estou evitando telefonar para casa. Basicamente falo apenas com a minha irmã. Qui... meu namorado me feriu muito."
"Brigas são resolvidas, baby. Questão de querer."
"Eu acho que sim."
"Ou talvez precise tirar um tempo para você mesma."
"Como se estou atolada de trabalhos a fazer?"
"Você não precisa necessariamente viajar para isso."
"Pode ser." Terminei a minha taça de vinho e resmunguei.
"Rachel?"
"Sim?"
"Você sabia que o meu filho assumiu ser gay aos 17?"
"Não sabia..."
"Por causa do meu filho, adquiri vasta experiência em entender certos sinais, certo? Alguns dos amigos dele não me enganavam, teve até dois ou três que pediram o meu conselho."
"O quê?"
"Você vacila toda vez que diz 'namorado' e troca de gêneros algumas vezes."
"Oh!" Fiquei com o rosto vermelho de vergonha.
"Entendo que são orientações dos agentes e dos assessores." Apenas acenei com o rosto enterrado em minhas mãos. "Hollywood é uma bitch. Mas não se preocupe, baby, isso fica entre nós."
Nossa conversa saiu do âmbito pessoal e foi parar naturalmente na música. Blanche me contou sobre os filmes que tinha feito e de como seria interessante manter contato para futuras oportunidades.
Blanche me disse algumas coisas valiosas em base a própria experiência. Ela teve uma vida de amores intensos. Disse que alguns foram mais importantes que outros, mas cada um teve sua cota de valor para o bem ou para o mal. Às vezes pensava nisso e me comparava a Santana. Minha irmã já teve experiências curtas e longas com algumas pessoas. Enquanto tudo que fiz foi beijar alguns garotos na escola, e beijar uma menina durante as férias em Londres. A minha experiência sexual se resumia a Quinn. Será que eu não estava me precipitando em casar justo com a pessoa que tem o meu v-card? Eu era muito nova para decidir uma coisa dessas e a insegurança era inevitável. Na noite anterior do meu embarque de volta a Nova York, fiz uma lista para colocar em ordem tudo que pensava e sentia.
Quinn:
— prós: eu a amo, é uma ótima amante, cuidadosa comigo, me faz feliz, batalhadora, sabe fazer torradas francesas, cheira bem (ou costuma cheirar bem), linda, está relacionada com o mesmo meio que eu, inteligente, prestativa até certo ponto, não fuma, minha família a aceita, gosta de viajar, é razoavelmente sociável, temos um bom diálogo, é uma boa companhia, não se importa em assistir musicais comigo, tem voz bonita e doce (embora destreinada e fraca).
— contras: ciumenta, perde a razão quando está de cabeça quente, machista, orgulhosa, dominadora, bitch, às vezes é maquiavélica, manipuladora, republicana, seu repertório culinário é limitadíssimo, às vezes perde a moderação, às vezes é indiferente, odeia os filmes da Julie Andrews, come carne de porco mesmo sabendo que sou judia e vegetariana, tem pouca empatia com outras pessoas, me traiu.
Questões:
— como posso ter certeza que ela é o amor da minha vida se eu nunca estive com mais ninguém?
— será que eu quero ter uma experiência de vida sem Quinn por perto?
— será que eu sou realmente jovem demais para assumir um compromisso tão sério?
— e se eu a perdoasse só pra ela quebrar o meu coração mais uma vez?
E a mais difícil das questões?
— o que eu realmente queria?
Tive insônia.
Quando peguei o avião de volta a Nova York, estava determinada em resolver meus problemas com Quinn, e acertar os ponteiros da nossa relação. Antes tive de resolver uma série de problemas não previstos. Minha mala foi extraviada. Meus documentos e meu celular estavam na minha bolsa de mão. Mas o que me deixou chateada foi que o meu computador, minha máquina fotográfica e os presentes que comprei estavam lá dentro. E como é que pode que a companhia fosse tão displicente? Eu sou cuidadosa suficiente de colocar todas as identificações necessárias nas minhas bagagens, inclusive o número do voo que ela deveria embarcar. Esse tipo de incompetência me deixava, primeiro, decepcionada e, segundo, irada. O pior é que eu era a azarada da família. De todas as viagens internacionais que fiz, e foram muitas mesmo, só as minhas malas eram extraviadas. Uma vez aconteceu na volta do Chile e noutra vez aconteceu na ida para o Caribe. Foi horrível. Fiquei dois dias usando as roupas de Santana, até que papai desistiu de esperar a companhia aérea tomar alguma providência e saímos para comprar roupas novas.
Minha casa estava em ordem. Tinha até flores frescas. Dava até gosto. E se estava nessa organização sinal de que Quinn cuidou de tudo. Ela estava mesmo se esforçando. Abracei primeiro a minha irmã. Santana parecia em ordem: aparência sadia, usava muletas, acho que ela não se abalou tanto assim com o fim do namoro com Andrew, o que não me surpreende. E veio Quinn. Tomei a iniciativa de dar um breve abraço. Ainda me sentia estranha, acanhada, mas o desejo e a química ainda estavam lá: era algo que era impossível negar.
"Conseguiu resolver o problema do extravio?" Quinn parecia ansiosa. Compreensível porque eu também estava. Precisávamos conversar.
"Dizem que a mala vai chegar aqui em até 48 horas. É aguardar. Bom, vou tomar um banho... e Quinn, será que depois a gente poderia conversar?"
Entrei em meu quarto arrumadíssimo. Santana disse que Quinn dormiu todas as noites na sala. Eu nem falei tão sério assim sobre ela não poder dormir na minha cama, mas fiquei feliz e surpresa por ela ter respeitado isso. Vi que o marceneiro veio arrumar a porta do closet. Ficou melhor do que era antes. Fiz a minha higiene. Quando coloquei roupas informais e voltei para a nossa sala, encontrei a mesa toda arrumada. Quinn me esperava para comer, Santana não.
"Santana deu uma saída." Quinn informou sem graça.
"O que? Por quê?" Pergunta idiota. Óbvio que a minha irmã achou qualquer desculpa para sair daquele apartamento para nos dar espaço. Ela realmente não gostava de se sentir confinada ao quarto.
"Ela não disse."
Encarei Quinn e todas as perguntas apareceram sem respostas em minha mente. Então fiz algo impulsivo. Dei dois passos à frente, passei a mão por trás do pescoço dela e a beijei. Sei que cada um relaciona uma sensação de prazer a uma imagem figurativa diferente. A minha era de um terremoto. Nunca senti um em toda a minha vida, mas penso que o meu prazer só pode ser comparado a poderosa energia liberada pelo atrito a ponto de fazer a terra tremer. Os lábios de Quinn nos meus eram como terremotos. Meu desejo estava lá, meu amor estava lá. Meu corpo sentia essa necessidade de se entregar para Quinn. Meu coração ainda era dela. Mas eu estava ferida. Não era um corte simples na pele em que um antisséptico e um band aid resolvia o problema. Era uma ferida profunda, feia, na carne, que precisava de pontos e repouso.
"Você não sabe o quanto senti a sua falta." Quinn tinha lágrimas nos olhos e um sorriso lindo no rosto.
"Eu também." A beijei de forma breve, porém não menos íntima. "Mas acho que precisamos resolver primeiro algumas coisas em nosso relacionamento antes de decidir como vamos prosseguir. São coisas sérias e precisamos de soluções Quinn. Ficar juntas nesse momento não é uma boa opção."
"Rachel!" Ela sussurrou desesperada. "Não! A última coisa que preciso é de um tempo em nossa relação. Nós já demos esse tempo! Ficamos praticamente um mês separadas e foi como viver no inferno. Eu não preciso desse tempo."
"Escuta..." Eu me afastei dela, pois se ficasse mais próxima, não conseguiria seguir o raciocínio. "Precisamos ser realistas aqui, Quinn. Não será uma noite de amor que vá apagar os problemas que enfrentávamos em nossa relação. E não falo apenas da sua traição. Digo da nossa relação como um todo. E se a gente não conseguir trabalhar essas questões, vamos embarcar num casamento condenado."
"Bom..." A voz dela estava trêmula e isso partia o meu coração. "Então o que sugere?"
"Eu não sei..." Estava sendo sincera: eu me sentia perdida e confusa. Pela primeira vez em minha vida, não tinha um plano para seguir. "Eu realmente não sei." Agora estava impressionada comigo mesma porque minhas mãos estavam tremendo. "Tudo que sei, Quinn, é que eu te amo profundamente. Acho que se fosse só a traição, seria menos complicado. Mas a nossa separação me forçou a ver coisas sobre nosso relacionamento e entendi que o problema não é apenas este."
"Como assim?"
"Você mais compete comigo do que é minha parceira, para começar."
"Rachel, eu não sei onde você tirou essa conclusão, mas eu não estabeleço nenhum tipo de competição contigo."
"Mas você faz. Pode não perceber, mas faz. Você compete comigo pela chefia da casa, odeia o fato que eu ganhe mais e adora que a última palavra seja a sua."
"Verdade que eu não gosto que você pague as coisas por mim. Isso é o mínimo. Nós estabelecemos um padrão de vida razoável aqui em Nova York e eu tenho que me esforçar para mantê-lo."
"Por que isso é tão importante?" Quinn ficou muda e eu esperava por isso. "E isso é apenas um exemplo. Ainda tem o seu ciúme, que você precisa trabalhar urgentemente o seu machismo, ter controle sobre o seu temperamento explosivo, e tem uma lista inteira que a gente ainda nem discutiu."
"Você tem uma lista?" De repente a postura dela estava armada e Quinn pouco lembrava a criatura fragilizada de alguns minutos antes. "Porque eu gostaria imensamente de chegar essa sua lista para poder rebatê-la com a mesma calma e tempo que você teve para elaborá-la. Descarregar um monte em cima de mim de supetão não me parece justo, Rachel Berry-Lopez." Ela cruzou os braços e ficou intimidadora. "Reconheço que tenho minhas falhas de caráter. Mas você também as tem e não estou aqui interessada em jogar cada uma delas na sua cara."
"Mas deveria. Esta é a oportunidade. Manda ver." Arrisquei.
"A sua mania de perfeição me mata, para começar!" Ela disparou. Eu procurei manter a minha calma. "Você vai além do mero perfeccionismo profissional. Você tenta ir à forma literal da palavra até que se trata dos defeitos e dos dramas. E quando você está no modo perfeccionista, esquece que estamos ao seu redor e nos força a aguentar seus resmungos e obsessões. Desculpe a palavra, mas você fica insuportável! Santana pelo menos não está nem aí, e facilmente te manda à merda, mas se eu fizer a mesma coisa, o mundo cai! Também não é fácil atender aos padrões que você considera ideais. É insano. É irreal. Há momentos que simplesmente não consigo atender à sua utopia de vida nova iorquina."
"O quê?" Fiquei ofendida. Era perfeccionista no meu trabalho, mas não carregava isso para a minha vida. Tinha planos sim e me dedicava para realizá-los, mas o que Quinn dizia era uma inverdade. "Eu nunca exigi perfeição de você, Quinn Fabray. Sempre estive feliz demais por ter você ao meu lado. Afinal, nossa, Quinn Fabray me amava!" Balancei as mãos para acentuar o tom de desdém.
"Ah, então agora eu sou uma namorada prêmio? Uma pena que este prêmio aqui não te serve quando se trata da carreira, hum? Você não tem que escondê-lo? Porque a sua assessora e o seu agente disseram que uma atriz iniciante não poderia assumir um relacionamento gay enquanto tão jovem se quisesse fazer carreira em Hollywood. Apesar de haver uma pancada de artistas interessantes saindo do armário e conservando suas carreiras porque sabem que é muito melhor continuar a trabalhar sem ser obrigado a fazer teatro 24 horas por dia!"
"Sempre me considerei premiada, sortuda, agraciada, abençoada e todos os adjetivos afins por ter você ao meu lado..." Olhei para baixo e de repente um defeito na madeira da mesa ficou interessante a ponto de eu raspar a unha sobre ele obsessivamente. "Obviamente isso não é o bastante para você. Porque se fosse, você não estaria me cobrando isso!"
A porta da frente foi aberta e voltei a minha atenção para lá. Santana "manobrou" as muletas e trancou a porta com uma sacola plástica pendurada entre os dentes. Ela tinha ficado muito boa em se virar com os indesejados assessórios. Colocou a sacola na bancada da cozinha ao lado do fogão e pendurou as chaves dela no suporte de parede que ficava também na cozinha.
"Está armando a maior chuva..." Comentou casualmente. "Achei que estariam no quarto a essa altura dos acontecimentos." Disse em meio ao silêncio fúnebre. Como não respondemos, ela pegou novamente a sacola plástica e foi em direção ao quarto. "Estarei no meu quarto com fones no meu ouvido. Apareçam se precisarem de mim porque eu vou ouvir música realmente alta. Mas torço que não precise disso."
Ouvi mais uma batida e parecia que a oportunidade de ter desenvolvido melhor a discussão passou. Não por culpa da minha irmã, claro. O tempo de chegada impróprio não foi proposital.
"Gostaria de deixar uma coisa clara." Quinn recomeçou com a voz branda. "Seja como for, eu não acho que esses problemas sejam maiores do que aquilo que temos de bom."
"Mas se a gente ignorá-los, eles podem crescer e acabar conosco."
"Sinceramente, Rachel, não acho que dar algum tempo vá resolver. Se você está disposta a prosseguir ao meu lado, vamos ter que trabalhar juntas. Porque eu acho ridículo ter sair daqui passar um mês separada de você para depois reconstruir um namoro do zero, sendo que isso é impossível. Não depois de tudo que já fizemos."
"Eu não sugeri isso."
"Nas entrelinhas, é o que significa dar um tempo." Quinn ironicamente fez aspas com os dedos e arregalou os olhos.
"Talvez possamos tentar outras formas de trabalhar problemas. Talvez se a gente morasse em casas separadas, você não teria essa necessidade de se sacrificar para pagar um aluguel que ficou caro para a sua realidade. Talvez você parasse com essa mania de querer mandar em tudo. Coisa que eu odeio em você. Talvez você possa viver melhor, Quinn. Algo que não conseguiu até agora por estar sempre atolada em trabalhos que não te satisfaz. Você só tem 21 e eu estou quase lá. A gente não precisa correr tanto."
"Espera aí? Você continuaria o namoro se a gente não morasse mais juntas? Isso não me parece sensato. É como se fizéssemos o caminho inverso de um relacionamento. Soa ridículo e eu não vejo qual é o ponto. Sobretudo porque casar jovem nunca foi problema para nós. Então o que mudou?"
"Tudo mudou quando você deliberadamente saiu correndo daqui para transar com outra mulher!" Disparei e não me arrependi por desabafar. "Eu poderia passar por cima de todos os seus defeitos, mas tudo mudou quando você simplesmente resolveu me trair para voltar no outro dia com pose de arrependida! Até aprecio a sua honestidade, Quinn, mas você transou com outra mulher num ato vil de vingança por algo que sequer era verdade!"
"Como não era verdade? Você beijou aquele ridículo!"
"Rom me beijou. Foi isso, Quinn! Ele me beijou e eu não correspondi! Não foi grande coisa! Desculpa se havia fotógrafos por perto. Se for assim, acho que você precisa fazer uma lista de mulheres para transar a cada vez que um colega coloca a língua na minha boca para gravar uma cena!"
Quinn voltou a encostar-se na cadeira e cruzou os braços. Respirou fundo.
"Eu te traí de cabeça quente, porque achei que você o fez primeiro com Rom. Eu estava tão ferida que só pensava em te fazer pagar na mesma moeda."
"Isso mostra que o seu problema não é só o ciúme." Falei séria, sem vacilar. "É evidente que também não confia em mim e ainda por cima é vingativa."
"Eu confio em você! Eu não confio é nos outros!"
"Só da boca pra fora!" Levantei-me e comecei a andar pela sala. "O mais ridículo é que eu te amo feito uma idiota e uma parte de mim está aqui puxando a minha orelha, mandando eu me esquecer de tudo, te perdoar e pular direto para a parte em que a gente faz as pazes lá no quarto. Mas a outra parte diz que isso seria apenas jogar a sujeira para debaixo do tapete."
"Olha Rachel." Quinn se levantou e caminhou em minha direção. Segurou minhas mãos. "O fato é que seja lá o que decidirmos, os nossos problemas não serão resolvidos neste exato momento. Então porque você apenas não descansa da viagem e desse dia atribulado? É óbvio que não estamos em condições de decidir ou arrumar soluções aqui e agora."
Quinn podia ser a rainha da manipulação quando desejava. Sentia que se desse a abertura que ela desejava, ela tentaria contornar até que tudo voltasse a favorecê-la. Descanso significava vitória dela nessas circunstâncias. E vitória para ela seria me levar para cama, me proporcionar uma porção de orgasmos e depois me fazer esquecer essas discussões com pequenos gestos. Significaria que ela poderia voltar para casa em definitivo e seguir a nossa vidinha sem alterações, tentando deliberadamente ignorar todos os nossos problemas até o momento em que eles começarem a gritar alto outra vez. Eu poderia fazer isso. Poderia perdoá-la, recebê-la de braços e pernas abertas. Quantas mulheres não fazem isso? Quantas mulheres não suportam coisas piores só para ter os seus parceiros ao seu lado? Elas não são melhores ou piores do que eu.
Os olhos cor de avelã de Quinn tinham poder de hipnose. Juro. Eu inclinei minha cabeça e fechei os olhos. Não levou dois segundos para sentir os lábios dela nos meus. Ela aproximou o corpo contra o meu de um jeito que me deixava mole. Como era linda. Como era sensual mesmo depois de uma discussão. Existia o break up sex certo? Talvez a gente pudesse fazer isso: uma noite e depois pronto. Só uma noite... o toque de Quinn era tão bom e eu sabia como ela poderia me fazer esquecer. Então um trovão me trouxe de volta do mundo dos sonhos. Esquecer era vantagem para Quinn. Esquecer era vantagem para Quinn. Esquecer era vantagem para Quinn... comecei a repetir essa frase como um mantra. A questão era que, por mais tentador que fosse me perder nos braços dela, tudo estava errado.
"Sinto muito." Minha voz saiu fraca enquanto ela beijava meu pescoço.
"Hum?"
"Sinto muito." Repeti mais alto e isso fez com que ela parasse as carícias.
"Por quê?" Quinn me encarou como se não estivesse entendendo nada. Como se ela tivesse feito o último ponto do jogo, mas o juiz anulou a jogada por causa de uma irregularidade.
"Porque o nosso namoro termina aqui." Afastei-me de Quinn.
"Rachel! Não!"
"Essa é a melhor coisa que eu posso fazer para nós duas neste exato momento. Eu não posso ficar contigo sabendo de tudo que está errado, sabendo que você esteve com outra mulher da forma como você fez. Essa ferida está aberta, Quinn. Se eu continuar contigo neste exato momento, a ferida não vai fechar, ela vai apodrecer e não vamos sobreviver. No final, só vai restar o ódio."
"Não seja uma drama queen. Não agora, Rachel!"
Eu respirei fundo e olhei para os olhos da minha agora ex-namorada.
"Eu vou te dar espaço. Vou ficar no quarto de Santana enquanto você pega as suas coisas. Sei que Mike não vai se importar em te hospedar por mais alguns dias."
"Rachel..."
"Acabou, Quinn, e você precisa ir embora."
