(Quinn)
"Essa é a última caixa, finalmente." Um amigo de Santiago resmungou e alongou as costas.
Coisa boa em se trabalhar para uma imobiliária: estava por dentro dos preços dos imóveis e das boas oportunidades. Convenci Santiago a morar comigo. Não foi difícil. Ele estava querendo sair do dormitório da NYU há algum tempo. Tudo bem que a gente foi para um lugar longe e complicado de Manhattan: Washington Heights. Pelo menos era um apartamento pequeno de dois quartos na 184th, que ficava perto de uma estação do metrô. Mas eram 800 dólares divididos por duas pessoas. Com o meu salário na imobiliária e o estágio de Santiago na Bad Things, a gente conseguia pagar a conta.
Consegui agilizar o contrato e, por isso, não me demorei muito como hóspede de Mike. Santiago não precisou assinar nada, então não houve problema para ele sair do dormitório. Meu novo lar era num prédio antigo de cinco andares com elevador. Morava no terceiro. Os quartos eram de tamanho razoável, a cozinha era americana com armários velhos, mas conservados, assim como a geladeira e o fogão, e não havia outra mobília. O banheiro era antigo e simples, sem armários, teria de jogar um litro de água sanitária concentrada e esfregar para ver se saia metade dos amarelados. Cabia uma cama de casal nos quartos, mas não sobrava muito espaço para outras mobílias. Os armários também eram pequenos. Havia aquecedores somente nos quartos, que estavam funcionando, mas não tinha ar-condicionado. Ou seja, não congelaríamos no inverno, mas morreríamos de calor no verão.
Santiago trouxe praticamente tudo que tinha. Eu não. Tínhamos basicamente nossas roupas, sacos de dormir e nossos equipamentos. Ele tinha uma poltrona dessas do papai, uma estante de meio metro que colocaria no quarto dele, microondas, e uma pequena televisão de 20 polegadas. Ele tinha os livros. Dezenas e dezenas de livros que poderiam servir para decoração, peso de porta e como amparo. Não que fossem publicações inúteis: Santiago se especializava em direção de arte e por isso ele costumava pesquisar tudo que podia sobre ambientes de interior, sobre história de veículos, técnicas de desenho, máquinas e tudo que possa ser útil a uma boa concepção cenográfica. Faltava a Santiago ter a oportunidade de efetivamente trabalhar dentro daquilo que ele tinha talento: ele era bom demais para ficar no departamento de publicidade da Bad Things.
Poderia pegar coisas no agora apartamento de Santana e Rachel, como a mesa que eu comprei sozinha e o liquidificador, as roupas de cama e coisas assim. Mas era ridículo pedir partilha de móveis, e nem sabia onde poderia enfiar alguns deles em nosso apartamento. Não combinava e não cabia. No entanto, passaria depois para pegar os meus livros, filmes e discos que ficaram na estante. Rachel disse que não haveria problema algum em resgatá-los. Bastaria avisar o dia. Também faria um chá de panela sem ser de casamento no fim de semana. Isso costumava acontecer antes da mudança, mas as coisas em Nova York entre amigos solteiros e duros eram diferentes.
Foi um baque quando Rachel decidiu terminar tudo em definitivo. Eu temia a possibilidade, mas sinceramente não esperava que pudesse realmente acontecer. Claro que não aceitei porque aquelas palavras não entraram na minha cabeça. Comecei a chorar a implorar e num ato de desespero, a acusá-la entre outras coisas de hipócrita. Santana, claro, se meteu quando ouviu a discussão, mas não foi preciso quebrar a muleta na minha cabeça. Apesar do meu desespero, Rachel não derramou uma gota de lágrima na minha frente. Ficou ali parada, durona.
Precisei de um tempo para me acalmar, assim como na primeira vez em que fui expulsa. Mas daquela vez foi mil vezes pior, porque era o fim do relacionamento com a mulher que eu mais amava no mundo. Eu queria morrer. Santana ligou para um táxi me buscar e eu saí de lá para o apartamento de Mike debaixo de uma chuva torrencial. Só não passei a semana seguinte em completo coma alcoólico porque tinha de trabalhar. Mesmo assim, fui todos os dias de ressaca para fotografar os apartamentos para a imobiliária. Até que Mike me deu um ultimato para ir embora do apartamento dele e, de quebra, disse que autodestruição era a pior estratégia se quisesse um dia tentar reconquistar a minha Rachel. Ele tinha razão.
Procurei Johnny para dividir apartamento comigo, mas ele gosta é de viver sozinho, ao que parece. Santiago foi uma presa mais fácil, além disso, é o meu melhor amigo dentro da NYU. Agora morávamos literalmente na periferia de Manhattan, cuja metade das lojas pertencia a latinos, as pessoas falavam espanhol nas ruas, além haver ambulantes, e do meu vizinho do andar de baixo ser um traficante. Mas não, o prédio não era um cortiço ou um prostíbulo. Era bem decente. Podia até ver o meu pai dizendo: parabéns Quinn, eu sabia que acabaria assim. Mas era só um round da minha vida.
"Cerveja?" Santiago ofereceu aos rapazes que nos ajudaram na mudança. Amigos dele, não meus. Eles eram desses caras que olhavam para Santiago com cumplicidade de macho, como se o parabenizasse pela companheira de quarto fêmea. Deu vontade de rosnar para eles. Lógico que aceitaram a cerveja comprada com o meu dinheiro.
"Apartamento maneiro. Como arranjou?" Um dos caras perguntou.
"Quinn arrumou." Santiago olhou pela janela. "Ela faz um trampo para uma imobiliária."
"Não bebe?" O outro perguntou para mim.
"Isso não é da sua conta." Disse com um falso sorriso e os dentes cerrados. Estava cansada e impaciente.
"Opa!" Ele levantou as mãos. "Que bicho te mordeu?"
"Pessoal." Santiago ponderou antes que eu respondesse e sussurrou ao mesmo tempo em que fez um gesto sugerindo que estivesse de TPM.
Eles foram embora cinco minutos depois, e eu ouvi do meu quarto um deles dizer "cuidado que a vagina dessa aí é dentada". A minha vagina era mesmo dentada para qualquer homem que desse em cima de mim. Muitos dos caras na NYU não respeitavam lésbicas, especialmente as mais femininas. Achavam que era questão de "experimentar o pênis" para se converter. Não sabia se ficava com raiva ou com pena pela ignorância desses idiotas. Eu sabia que esse amigo do Santiago era um desses caras que achavam que lésbicas eram lenda urbana, coisa de mulher que nunca experimentou sexo com um homem ou que não teve uma boa experiência. Ele veio com a história da vagina dentada depois que eu lhe dei um fora monumental na NYU. Sabia que Santiago podia agir como um cretino na companhia desses caras, mas no geral, ele costumava me defender.
Tínhamos nada em casa. Nada mesmo, a não ser as nossas bagagens e os pouco móveis que trouxemos. Era estranho não ter mais Santana se preocupando em abastecer a geladeira e o resto da despensa. Ela sempre administrou o dinheiro e essa parte lá em casa e posso contar nos dedos às vezes em que entrei num mercado para fazer as compras da semana. E quando fiz, foi um desastre porque esquecia coisas fundamentais, como rolo de papel higiênico: a falta dele era sentida sempre naquela pior hora. Antes de Nova York havia a minha mãe. Agora havia eu e Santiago. Duas pessoas que moravam fora da casa dos pais há anos, e ainda assim com pouca experiência em administração doméstica. Acho que Santiago nunca usou um fogão na vida.
"Eu nunca usei um fogão na vida." Ele disse casualmente. Eu olhei para ele e disparei a rir. "O que foi?"
"Era exatamente o que estava pensando!"
Ele sorriu e pegou duas garrafinhas de cervejas da caixinha de seis que eu comprei no caminho da mudança. Ofereceu uma para mim e aceitei, porque não havia estranhos com jeito de tarados por perto. Também não gostava de cerveja, mas a primeira noite na nova casa merecia um gole.
"Sabe como é dormitório, né?"
"Na verdade não." Tomei um gole. O gosto do malte nunca descia bem. "Desde que cheguei a Nova York, dividi apartamentos com amigos e Rachel. Então, não sei, apesar de ter apelado algumas vezes para o refeitório do nosso prédio da NYU para economizar dinheiro."
"Digamos que eu sou rato de refeitório, e a minha experiência culinária se resuma ao microondas."
"Bom, não sou uma boa cozinheira, mas ninguém nunca morreu com o que fiz. Rachel gosta das minhas torradas francesas. Posso ficar com essa tarefa desde que você lave o banheiro e faça a lavanderia."
"Cada um cuida do seu quarto?"
"Cada um cuida do seu quarto!" Afirmei. "Você lava os pratos e eu organizo as coisas na cozinha e na sala. Ah, e você coloca o lixo para fora. Eu acho que vou ter que fazer o mercado para não correr o risco de só ter pipoca de micro-ondas, macarrão instantâneo e lasanha congelada em nossa despensa."
"Temos de cuidar de algumas outras regras também, Fabray. Por exemplo: noite de poker e de garotas. Como faremos?"
"Noite de garotas?" Ergui uma sobrancelha. "Você faz noites de poker?"
"Na verdade... não. Mas podemos criar essa tradição. Nós cineastas criativos podemos jogar poker, beber, fumar alguns charutos, discutir alguns roteiros e depois descer para o strip club e tentar pegar algumas meninas. O que acha?"
"Fazer uma noite de poker de vez em quando pode ser divertido. Mas nada de noite de garotas, ok? Posso ser gay, Tiago, mas nunca se esqueça que sou uma garota também. Há várias coisas do universo masculino que não me atraem de forma alguma... a não ser que eu esteja bêbada."
"Falou uma lady que compartilha comigo a admiração por um bom par de peitos e uma vagina apertada."
"Errado. Uma lady que compartilha contigo a admiração pela anatomia do corpo feminino. Melhor assim?" Ele disparou a rir.
"Você é uma fresca Fabray."
"Você é um grosso."
"Ok. Quais são as regras quanto às garotas?" Pensei um pouco a respeito.
"Sem orgias, isso aqui não é uma fraternidade. E sem putas."
"Releve as putas. Elas são honestas e trabalhadoras."
"Sério, Tiago. Esse aqui é o nosso novo lar, e acho que devemos fazer dele um ambiente de boa convivência, com boa energia. Se você for a algum bar e conquistar uma garota bonita, não faço restrições. Até porque duvido que uma garota de Midtown, por exemplo, venha dormir com alguém na periferia de Manhattan. Namoradas têm passe livre. Orgias e putas, não! Festas precisam ser negociadas antes, apesar de esse apartamento ser muito pequeno. A gente pode fazer uma noite de poker uma vez ou outra com amigos em comuns. Não com os caras babacas que você chamou para ajudar com a mudança."
"E tardes de futebol?"
"Eu não vou impedir você de assistir ao futebol com um ou dois amigos, mas sério Tiago, use o bom senso. Você mora com uma garota aqui. Gay, mas ainda uma garota que usa vestidos e gosta de ir ao salão fazer as unhas. Ah sim, e que tem TPM. Portanto, vamos maneirar esse entusiasmo cheio de testosterona."
Ele parou para pensar. Jogou o olho para cima e mordeu os lábios inferiores.
"E o que diz respeito ao Bro Code?" Joguei o braço para cima e comecei a rir. Santiago era um cara que poderia ser brilhante quando não pensava com a cabeça debaixo. "É sério, Quinn. Precisamos estabelecer o Bro Code entre nós. Aliás, essa é uma questão importantíssima."
"Você assistiu How I Met Your Mother demais."
"Agora que está solteira, precisamos conversar a respeito. Quando formos sair, temos estar sob regência da ética do bro code."
"Por quê?"
"Porque até as mulheres héteros da cidade escolhem você." Comecei a gargalhar.
"Bom, senhor Santiago Follett. Se você cortasse o cabelo para começar, teria uma chance contra mim." Santiago era um moreno de cabelo encaracolado potencialmente bonito, se tão estivesse num tamanho grande e constantemente emaranhado dentro de um boné. "Mas não se preocupe. Não estou à caça."
"Por que não?"
"Porque eu quero Rachel de volta. Ainda não sei como ou o que fazer, mas não vou gastar a minha energia com garotas que não valem à pena."
"Bom, Fabray. Não foi você que ficou com aquela garota da psicologia num bar?"
"Ela era da psicologia?" Franzi a testa. Realmente não sabia muita coisa a respeito da garota na qual eu tive uma rapidinha no banheiro do bar. A gente se esbarrou no campus uma única vez depois do caso, e foi um aceno constrangido da minha parte. Eu nem sei qual era o nome dela. "Eu estava bêbada e Rachel tinha me expulsado de casa. Também eu mal me lembro do que se passou... porque trazer isso agora?"
"Só para te lembrar que você está oficialmente solteira e totalmente livre para ter rapidinhas com todas as garotas bonitas que quiser. Isso não quer dizer que você tenha de desistir da Rachel. Você só terá alguma companhia enquanto isso."
"Essa é a sua lógica?"
"O que há de errado nessa lógica?"
O pior é que não havia nada de errado na lógica de Santigo. Eu realmente estava livre para flertar com quem quisesse, que Rachel não poderia falar uma vírgula a respeito. O problema é que não tinha a menor vontade de sair por aí tentando pegar garotas. Talvez eu não me oporia se acontecesse algo casual enquanto estivesse separada de Rachel, mas não que eu fosse procurar por isso.
"Sabe, Quinn, você algumas vezes me acusou ser incapaz de segurar uma namorada por muito tempo, mas eu sou um sujeito de 21 anos e não estou preocupado com isso não. Acho que quando a mulher certa chegar, as coisas vão rolar de forma natural e eu vou saber. Longe de mim desmerecer Rachel ou duvidar do seu amor por ela, mas acho que você fica muito em cima dela, e fecha os olhos para o mundo. Vai que a mulher não é ela, afinal? Vai que você descobre outra menina que possa te fazer mais feliz?"
"Eu acredito nos desígnios de deus, Tiago. Se existir outra mulher que não Rachel, então ele vai me mostrar um sinal ou vai arrumar uma forma de colocar essa pessoa no meu caminho, e não há nada que poderei fazer para impedir. Mas se não houver, se Rachel for mesmo àquela destinada a mim, então decidi não brincar com fogo." Terminei a minha cerveja já quente e encostei-me à parede no lado oposto em que estava Santiago. "Rachel... me magoou muito. Tudo bem que eu perdi a cabeça e cometi o maior dos erros, mas como você reagiria diante de uma foto da sua namorada beijando o galã e ela confirma na sua cara que além daquilo ser real, não fazia parte de uma cena ou de um ensaio. Que foi um beijo 'casual' feito no 'calor da emoção'? Qual é Tiago? Nós somos da produção. Estamos no meio. Não existe isso de que atores vivem num mundo paralelo ao nosso."
"Você vai querer remoer isso de novo?" Ele franziu a testa e ficou brincando com a garrafa entre os dedos. "Já disse que estou contigo, Fabray. Só que o meu apoio ou minha condenação não vai fazer a menor diferença."
"Eu sei." Suspirei.
"Ainda são quatro da tarde. Está com fome?"
"Morrendo!" Levantei-me do chão. "O pior é que temos nada!" Ri em descrença. "Mas tem um mercadinho aqui perto."
"A gente pode comprar macarrão instantâneo, comida de microondas e alguns pratos descartáveis."
"E papel higiênico, e sabonete e uma água sanitária para lavar o banheiro."
"Nem estava me lembrando disso." Santiago abriu um sorriso. "Viu como vamos fazer uma boa dupla? Eu sou o diretor de arte, e você é a diretoria de fotografia. Eu dirijo e você produz. O roteirista a gente contrata."
"Besta." Disse o abraçando.
"Vai dar certo. Vai dar tudo certo, Fabray. Você vai ver."
...
17 de setembro de 2015
(Rachel)
Eu oficialmente odiava o apartamento de Astoria. Não o apartamento em si, mas o que ele representava. Quinn o achou, Quinn se apaixonou por ele, Quinn cuidou das papeladas do aluguel, Quinn pensou na maior parte da decoração, Quinn comprou a maldita mesa de quatro lugares. Quinn... Quinn... Quinn... Eu queria dar o fora daquele apartamento que cheirava a minha ex-namorada.
Por isso decidi mergulhar de cabeça no trabalho: ia malhar de manhazinha, depois ia malhar atuação com o coach designado a auxiliar os autores da peça. Depois chegava em casa e ficava entretida nas redes sociais e em outros sites. Depois Santana chegava da faculdade e a gente podia conversar um pouco sobre qualquer coisa. Tudo isso ajudava, mas a verdade é que o ambiente continuava a me sufocar.
A cereja em cima do bolo da minha angústia pessoal veio com um telefonema do senhor Weiz para Santana. Ele queria se encontrar não apenas com a minha irmã, como seria o costume, mas comigo também. O que possivelmente ele gostaria de dizer para mim?
Depois de malhar e navegar um pouco na rede, tomei um banho para tal encontro, e peguei um táxi. O ponto de encontro para o almoço era o Luke's Lobster, um restaurante popular especialista em frutos do mar. Não era luxuoso, mas se não fizesse reserva anteriormente era preciso encarar uma fila de espera dependendo do horário. A escolha foi feita porque aparentemente o senhor Weiz era fã da comida de lá. Por mim, tudo bem. Cheguei ao local e fiquei surpresa com a pontualidade de Santana neste caso: ela foi para a faculdade pela manhã e sairia de lá direto para o encontro. Minha irmã já se encontrava sentada em uma das mesas com o senhor Weiz, e advogado, senhor White. Toda vez que esse advogado estava presente era porque nada de bom aconteceria.
"Boa tarde." Abri o meu sorriso Broadway e sentei-me ao lado da minha irmã. "Senhor Weiz e senhor White..."
"Bom dia, senhorita Berry-Lopez." Senhor White levantou-se e fez as vezes de cavalheiro, puxando a cadeira para mim..
"É um prazer em revê-los." O que era uma grande mentira, Não havia prazer naquilo.
"Está ótima, pequena Rachel." Senhor Weiz começou, como sempre, muito cheio de si. "Sua irmã estava aqui dizendo que você está trabalhando nos ensaios de uma peça produzida por David Bowie, é verdade?"
"Sim. É uma peça muito interessante que é praticamente uma metáfora da carreira dele, e eu sou a principal atriz."
"Deve ser muito interessante. Não se esqueça de avisar para que eu faça as minhas reservas para assistir. Você é uma excelente atriz, Rachel. Gostei muito de te assistir na peça anterior."
"Obrigada! É muito gentil da sua parte, senhor Weiz."
Parecia que o senhor Weiz não conseguia sustentar uma conversa comigo por muito tempo. Logo voltou-se para a minha irmã e começaram a falar da empresa e dos negócios. Senhor Weiz estava dando umas dicas sobre que tipo de pessoa Santana deve contratar para ajuda-la a administrar a Rock'n'Pano agora que ela estará muito ocupada para isso. Por mais que Santana diga que ela se sente escravizada pela armação de Weiz, ao menos faz algo que gosta. Menos mal. Sempre ficava perdida em meio a wall street, bolsas de valores da Europa, negociações entre empresas que eu não entendia o objetivo.
"Mas é claro que estou me desligando deste mundo dos negócios aos poucos." Senhor Weiz comentou com o advogado e para a minha irmã, ao passo que eu sequer participava da conversa. "Quando chegar a minha propriedade em Nice, tudo que vou querer saber é em com viver como um autêntico aposentado no Mediterrâneo."
"Nova York nunca mais? Tão radical?" Santana perguntou e eu torcia para que a resposta dele fosse afirmativa.
"Ainda planejo duas ou três visitas por ano. Tenho amigos aqui, tenho os negócios, além de vocês duas, que são a minha família." Santana e eu acenamos. Eu de forma teatral. Minha irmã talvez fosse mais sincera, embora não conseguisse esconder certo incômodo. "Ainda há muito que administrar, não falo apenas sobre a Weiz Co. mas tenho funcionários que cuidam apenas da administração dos meus bens imobiliários, e preciso ficar de olho nessas coisas também."
"Eu não sabia..." Sequer imaginava que gente como ele tinha pessoas que lidavam só com isso. Minha irmã não parecia surpresa.
"É por isso que estamos aqui. Eu gostaria de mostrar um dos meus imóveis à vocês. Ele fica aqui perto, e podemos ir andando até lá."
Weiz pediu a conta do restaurante e pagou tudo. Nós o acompanhamos até a rua ao lado, da 79th com a 1ª avenida. Entramos em um prédio residencial de muitos andares, e de alto padrão. O foyer do edifício era decorado todo em pedra, havia um porteiro tomando conta do lugar, e algo me dizia que deveria ter outros funcionários em outros turnos para fazer o serviço. Senhor Weiz acenou para o funcionário e nos apresentou rapidamente, como as netas dele. Eu ainda me arrepiava quando ouvia aquilo, mas Santana aparentemente não ligava mais.
Havia três elevadores: um de serviço, um social, e um exclusivo que ia da garagem e do térreo até os três últimos andares do prédio, onde aparentemente moravam três ricaços. O terceiro elevador era acionado com chave desses tais ilustres moradores. Nós pegamos o elevador social e subimos até o nono andar. Havia apenas dois apartamentos naquele andar. Considerando o tamanho do prédio e a entrada única, deveriam ser dois apartamentos bem grandes. E eram.
Senhor Weiz abriu a porta e nos mandou entrar. Havia um foyer que dava acesso a três lugares: havia o arco à frente com ligação a uma sala enorme, do lado esquerdo uma porta que dava acesso a cozinha e a área de serviço. A outra, à direita dava acesso as duas suítes do apartamento. Ainda depois da cozinha. Começamos pelas suítes. Ambas eram muito espaçosas, mas havia uma principal, que se diferenciava por causa do closet, que era quase do tamanho da minha sala atual. O banheiro também era grande, com direito ao box do chuveiro separado da banheira. A construção era todo em pedra clara. Lindo. Parecia reformado recentemente. Aliás, o apartamento como um todo estava novo em folha. A suíte ao lado era basicamente do mesmo tamanho, exceto pelo closet e o banheiro um pouco menores. Achei interessante o isolamento das suítes em relação aos demais cômodos do apartamento. O projeto deixava muito claro que aquela era uma área privativa.
Voltamos ao foyer e verificamos a sala grande, com janelas que eram anti-ruído e reforçadas. Também tinha uma boa varanda. A luminosidade era fantástica. A sala tinha uma porta, mais bonita e estilosa que dava acesso à cozinha (também era possível entrar por ela pelo foyer na porta que dava aceso também a área de serviço). Gostava de cozinhas totalmente separadas da sala. Aquela era espaçosa suficiente para poder circular e fazer um banquete. Havia um balcão para se sentar e fazer as refeições por ali mesmo. Os armários eram todos novos a cor era cinza com branco. Outra coisa que reparei era que a cozinha estava completa: geladeira, fogão novíssimos. O chão era cerâmica cinza, e a área de serviço tinha o mesmo piso, diferente do resto da sala e dos quartos cujo piso era em madeira: havia máquina de lavar e secadora também novíssimas e ainda um varal de teto. Voltamos para a sala e havia no anto oposto às suítes um outro quarto menor e um lavabo social.
Cada morador tinha direito a um espaço em contêiner que ficava no subsolo junto à garagem para fazer de depósito. Aliás, prédio com garagem era uma raridade de se achar em Manhattan. O apartamento era simplesmente divino, sobretudo por ser localizado numa área nobre da cidade. Devia custar uma fortuna o aluguel dele.
"Esse apartamento é espetacular, senhor Weiz." Santana comentou.
"Como vê, ele foi completamente reformado nesses dias, porque eu o queria entregar novo como folha a vocês." Senhor Weiz disparou e eu arregalei os olhos.
"O quê?" Santana e eu dissemos ao mesmo tempo.
"Chega dessa história de vocês pagarem aluguel. Provaram que sabem se virar sozinhas, que vão à luta. Então é hora de um pouco de descanso. É por isso que eu pedi para que o senhor White estivesse aqui, porque quero deixar a papelada pronta para transferência do imóvel para as duas, com direito a mudança imediata. Isso aqui é de vocês. Se quiserem, podem dormir aqui já a partir de hoje." Senhor Weiz pegou duas cópias de chaves do apartamento e entregou para mim e Santana. "É seu. Façam bom uso."
"Senhor Weiz..." Estava sem palavras. "Eu não sei se posso aceitar..."
"Rachel, esse é um bem que eu estou deixando a vocês duas em vida. Como não podem aceitar por algo que já te pertence?"
"Não me parece certo." Contestei.
"Se você não quiser o apartamento, pode vendê-lo, porque, da minha parte, toda documentação de transferência desse imóvel para o nome de vocês já está encaminhada, falando apenas a assinatura das duas." Ele encarou a minha irmã, que parecia deslumbrada com o lugar. "Santana... qual a sua posição?"
"Eu não tenho nenhum problema em assinar o contrato."
Confesso que eu me assustei com a decisão da minha irmã. Obviamente que o apartamento era um sonho, e eu estava mesmo com vontade de me mudar de Astoria. Mas era Weiz quem estava fornecendo isso para nós. Weiz! O homem que fez uma zona com a nossa família, que fez de tudo para enlaçar minha irmã.
"Santana, eu posso conversar em particular contigo?" E voltei o meu olhar para o senhor Weiz e para o advogado. "Só vai levar dois minutos."
Weiz apenas gesticulou, algo, como não se importasse. Eu peguei a mão de Santana e a conduzi para uma das suítes, então fechei a porta.
"Você ficou louca? Aceitar um apartamento desse?" Eu gritei sussurrando. "Por quê?"
"Porque eu cansei de dar murro em ponta de faca, Ray. Eu perdi todas as batalhas para aquele homem. Então qual é o ponto em não aceitar o apartamento, quando eu já aceitei todo o resto?"
"Mas Santy..."
"Ray. Eu vou aceitar o apartamento, eu vou morar nele e pronto. Se você não quiser, pode ficar em Astoria. Só acho que não será nada mal morar em um lugar que tenha o meu nome como proprietária. Além disso, a gente lutou pra caramba, a gente chegou a contar comida na despensa para durar os dias exatos até conseguir ir ao supermercado novamente. A gente rala pra caramba até hoje. Porra, eu mereço um lugar assim, e você também."
"Você está mesmo determinada?"
"Isso aqui é uma compensação que Weiz está nos dando agora por toda merda que ele nos fez passar. Eu aceito."
Santana pegou a bengala e caminhou ainda com alguma dificuldade até a sala. Eu fiquei um minuto olhando para aquele espaço enorme do que seria a suíte principal. Aquele lugar era muito legal, e Santana tinha um ponto. Por que não? Quando voltei para a sala, vi Santana apertando a mão de Weiz, que sorriu satisfeito quando cheguei.
"Santana acabou de me dizer que ela vai poder usar a bicicleta se morar aqui."
"Não apenas isso, como vou poder entrar em forma mais uma vez." Santana brincou.
"Claro, assim que você não precisar usar mais a bengala." Adverti. Era preciso frear os ímpetos da minha irmã.
"Sua irmã já seu a resposta dela, Rachel. Qual é a sua?" Weiz pressionou.
"Eu aceito."
O senhor White nos mostrou as escrituras e documentos de transferências. Santana deu uma lida rápida nos contratos e assinou. Eu fiz em seguida porque ela me conduziu, e só podia pedir a deus que não estivéssemos fazendo uma burrada. Senhor Weiz e o advogado se despediram e nos deixaram sozinhas em nossa nova casa: uma que eu sempre sonhei em ter em Manhattan! Todo aborrecimento teve uma compensação: fiquei em êxtase.
"Isso é incrível... e lindo. Você pode ir para Columbia de bicicleta quando o médico te liberar? Eu posso ir ao teatro de bicicleta, se brincar!" Encarei Santana ainda em choque. "Não acredito que isso aqui é nosso..."
"Sim, precisamos encerrar o contrato com o nosso senhorio e pagar uma multa contratual, mas podemos nos mudar para cá ainda hoje, se quisermos. Nossas chaves estão aqui." Santana balançou as cópias de um conjunto com cinco chaves: uma da portaria, uma do depósito na qual tínhamos direito, uma da portinhola do correio, uma da porta principal. As chaves internas ao apartamento e o controle para abrir a garagem estavam em uma caixa na área de serviço.
"Quanto tempo para resolver essa burocracia em Astoria?"
"Dá para fazer isso ainda nesta semana se quiser. Vai ser corrido, mas é possível. Claro que nossos móveis vão parecer deslocados aqui, mas acho que com uma força tarefa vai dar para trazê-los. A gente pode chamar Johnny e Mike. Andrew pode ajudar e alguns outros colegas meus da Columbia."
"Eu não quero aqueles móveis. Daquele apartamento, eu não quero nem a cama. Eu deixaria tudo lá e compraria móveis novos aos poucos."
"Podemos procurar no google maps a loja de móveis e de colchões mais próxima. Assim, nós podemos comprar nossas camas e já organizar a nossa mudança a partis de amanhã. O que acha?"
"Perfeito!" Abracei Santana. "Vamos fazer isso mesmo?"
"Chega de aluguel, Ray! E você não escondia que estava odiando continuar naquele apartamento."
Sorrimos e nos abraçamos de novo. Como crianças, começamos a correr e pular pela nossa nova sala gigante. Quer dizer, eu pulava e corria ao redor da minha irmã, que ainda não podia fazer isso. Até que Santana parou por um instante.
"Temos de resolver uma questão crucial antes." Ela fechou a mão. "Papel, pedra, tesoura para decidir quem fica com o quarto com o closet maior."
Soltei uma gargalhada que nem sabia que estava segurando. Fechei a mão. Um, dois três e pedra e papel. Ganhei e saí comemorando. Santana franziu a testa.
"Melhor de três."
Balancei a cabeça. Típico de Santana não admitir derrota para mim. Fomos disputar mais uma vez. Um dois três e tesoura e pedra. Ganhei mais uma vez.
"O meu quarto tem uma vista melhor, e aposto que ele é mais silencioso." Ela procurou desdenhar. "Quem precisa de um closet daquele tamanho?"
"Pense pelo lado bom: mesmo com a suíte menor, o seu closet é maior do que o quarto do nosso primeiro apartamento." Poderei.
"Verdade."
Caminhamos mais uma vez pelo nosso apartamento. Nosso. Legítimo. Próprio.
"O que vamos fazer com aquele quarto extra?" Perguntei.
"Acho que a gente pode fazer um escritório, uma sala de estudo, uma biblioteca, um quarto de hóspedes, ou tudo isso junto."
"Já pensou num estúdio de gravação?"
"Talvez... a gente pensa em alguma coisa depois, ok? Acho que neste momento a gente deveria comprar os colchões e depois uma garrafa de vinho, comprar alguns queijos e comidinhas, e inaugurar isso daqui. Só nós duas."
"Acho que essa é uma excelente ideia. Santy, você pode finalmente ter a sua cama grande para ocupar aquele espação. E eu vou ter uma cama sem o cheiro dela."
"Ok... você quer conversar sobre Quinn agora?"
"Não!"
"Ótimo, porque eu também não estou afim de ouvir seus lamentos."
"O que eu quero neste exato momento é tomar um vinho no chão dessa sala enorme, comprar camas e começar nossa mudança amanhã mesmo! Juro para você que essa será a última noite que vou passar naquele apartamento. Eu só vou trazer as minhas roupas. O resto que ela não quiser levar, a gente vende e pode dividir o dinheiro."
"Ok, parece justo."
"Então... vinho?"
"Só se for agora!"
Descemos do apartamento, conversamos com o porteiro para nos apresentar como as novas moradoras e fizemos compras: duas camas king size, roupas de cama, uma garrafa de vinho, biscoitos e queijos. A entrega das compras grandes aconteceria só no dia seguinte, o que para mim estava perfeito. Eu iria voltar para o antigo apartamento, fazer minhas malas, e amanhã depois do workshop, eu iria ir para a minha nova casa e arrumaria o que fosse possível enquanto esperava a entrega das duas camas. Santana cuidaria da burocracia para encerrar o contrato do aluguel, e ligaria para Quinn pegar o que quisesse lá dentro. Desde o nosso rompimento que eu não falava com ela ou a via. Para dizer a verdade, eu gostaria de evita-la o máximo que fosse possível.
No final da tarde, lá estava Santana e eu fazendo a nossa comemoração: bebemos em homenagem a nossa nova casa. Minha irmã bebeu muito pouco porque ela ainda estava com o estômago fragilizado, e eu não permitiria que ela fosse além de uma taça.
Quando chegamos em Astoria, estava feliz em poder sair dali. Simplesmente feliz. Fui direto para o meu quarto, tirei minha mala do closet e tratei de arrumá-la. Queria levar absolutamente nada daquela casa: só queria fechar o apartamento e entregar as chaves para o senhorio. Empacotei o máximo que pude até deixar muito pouco para se buscar. Eu encheria o nosso carro com minhas malas e minhas coisas, e seria assim.
No final da noite, olhei para a minha cama e me senti desconfortável. Fui então para o quarto da minha irmã e comecei a fazer as malas dela também mesmo a revelia.
"Ray... não precisa dessa pressa."
"Preciso. Amanhã cedo eu te deixo na Columbia e vou ao nosso apartamento começar a arrumar nossas coisas. Eu não quero mais voltar aqui, Santy. Quero um novo começo. Eu preciso de um novo começo."
Minha irmã me encarou, então foi até mim e me abraçou de um jeito tão confortável que eu não me aguentei e comecei a chorar. Eu dormi no quarto dela, e foi um dos sonos mais relaxantes que tive dos últimos tempos.
...
19 de setembro de 2015
(Santana)
"Poderíamos fechar o negócio num belo jantar. O que acha?"
Bob Crower, dono da Top Sweet, uma cadeia de lojas de gifts em Nova York e Nova Jersey, sorriu como um bastardo pegador. Era um sujeito careca que usava barba e jurava que era sexy. Mas que, de qualquer forma, era um bastardo com dinheiro naquela cidade. Estava na cola deste sujeito há algum tempo para tentar vender a minha coleção da Rock'n'Pano nas lojas dele. Eram 17 pontos, três apenas em Manhattan, que não poderia ignorar. Fechar negócio com esse cara significaria pagar todo o investimento inicial da minha pequena empresa e fazê-la zerar finalmente. O problema era que ele queria me comer em troca.
"Ou poderíamos fechar o negócio aqui." Procurei usar o meu charme, passei a ponta dos meus dedos bem de leve sobre a mão dele, daquele jeito que tinha certeza que ele estava com uma ereção a caminho. "Meu advogado vai encaminhar o contrato ao seu escritório logo na segunda-feira e então poderemos celebrar a parceria já concretizada num belo jantar. Ouvi dizer que o La Carne em Murray Hill é espetacular."
"Tão jovem e com tão bom gosto. Aceito."
Sorri e pisquei. La Carne que eu estava me referindo era um restaurante comum onde se comia bife na chapa. Andrew me levou lá algumas vezes, porque um primo dele estava na cidade e era assistente de cozinha daquele lugar. Ao menos a comida era mesmo gostosa. O nome do restaurante enganava. Mais ainda conforme se pronunciava e eu fiz questão de deixá-lo parecer como se fosse o melhor do mundo. Crower era do tipo falso sofisticado. Vestia-se com terno, mesmo quando a ocasião pedia apenas uma camisa social. Imagino que ele deve ser um desses caras que começou debaixo até montar o próprio pequeno império vendendo bugigangas.
"Agora que estamos conversados." Ele continuou. "Fale um pouco mais de você. Tudo que sei é que você é uma linda jovem que montou uma empresa com panos de prato artísticos em sociedade com o avô que é dono dos tecidos Haenel, é isso?"
"É."
"Haenel? O que significa?"
"É o sobrenome original da família do meu avô. Eles são judeus e quando vieram para a América trocaram o sobrenome para Berry porque achavam que seriam melhor aceitos. Quando meu avô montou as fábricas, quis colocar o nome fantasia de tecidos Haenel, como uma homenagem."
"Interessante." Ele terminou de tomar o vinho. "E você? É de Ohio também?" Acenei.
"Nasci em Cleveland, fui criada numa cidade pequena chamada Lima e vim à Nova York para estudar."
"Columbia, certo?" Acenei mais uma vez. "E o Lopez?"
"Bom... está na cara que a outra metade da minha família é latina."
"Você não é de se abrir muito, não é Berry-Lopez?" Soltou um sorriso tentando mais uma vez me seduzir com jeito de homem mais velho e seguro. "Algo a esconder?"
"Quem me dera!" Gargalhei. "É só que a minha história não tem nada demais. Venho de uma família multirracial, hablo español, tenho uma irmã gêmea não-idêntica, tive uma infância e adolescência de subúrbio classe média. O que há de interessante nisso?"
Obviamente que não ia dizer a um estranho qualquer que fui criada por dois pais, que a minha mãe biológica depois se casou com um deles, que tenho quatro avôs: dois que não conheci e um que amo de paixão e outro com síndrome de Don Corleone. Definitivamente nada a se falar a um estranho. Crower pagou a conta do restaurante e tínhamos um acerto sobre distribuir meus produtos nas lojas dele em condição de exclusividade. Isso queria dizer que não poderia mais negociar com mais nenhuma loja em cidade que ele tivesse uma filial para vender meus panos de prato. Isso não contava, claro, com as vendas diretas pelo site da minha pequena empresa. Era um bom negócio e me daria certa tranqüilidade nos seis meses de contrato acertados. Significava que eu teria um parâmetro de produção e para onde escoá-la. Rachel reclamava que eu não tirava os olhos do computador nos meus momentos de folga. Mas era para isso que trabalhava tanto: para poder me encontrar com esses caras e fechar negócios.
Saí do restaurante feliz pela bela conquista para a Rock'n'Pano. Crower teve a delicadeza de me acompanhar até ao táxi carregando uma sombrinha. Ainda precisava usar bengala porque não podia colocar muito peso no tornozelo, mas podia andar ao menos. Nos despedidos com um aperto de mãos e mais um reforço de que na semana que entrava os contratos estariam assinados. Claro que não ia para a cama com esse cara, mas teria de manter contato e promover alguns encontros. Era assim no mundo dos negócios.
A chuva não estava forte, o que era bom, porque aquela cidade se transformava num inferno em meio às tempestades. Achava estranho que o meu endereço agora era Manhattan, e não mais Astoria. Não precisava mais atravessar pontes, e tudo passou a ficar estranhamente mais próximo. Rachel e eu já estávamos morando no novo apartamento, mas ainda tínhamos de desocupar por completo o apartamento de Astoria, e ações ainda estavam por serem feitas, como, por exemplo, os nossos antigos móveis. Entrei em contato com Quinn, que ficou abalada com a notícia, mas ela concordou em vender os móveis e dividir o dinheiro. Disse, porém, que ficaria com a cama dela já que Rachel comprou uma nova. Sei que Rachel ficou de passar por lá pela manhã para terminar de empacotar alguns de nossos pertences, como livros e coleção de filmes.
Quando o táxi parou em frente ao meu novo endereço depois de uma corrida excepcionalmente rápida, suspirei. Tudo ainda era estranho. Cumprimentei o porteiro e peguei o elevador para o nono andar. Aquele era um prédio interessante. Até o sétimo andar havia quatro apartamentos por andar. Bons e caros apartamentos de dois quartos. A partir do oitavo andar até o 15° havia dois apartamentos por andar, onde moravam famílias mais abastardas. Do 16° andar até o 18°, além da cobertura, havia um apartamento por andar e esses tinham um elevador de acesso exclusivo. Sabia que Julianne Moore era a residente da cobertura duplex que valia 12 milhões de dólares, e ela ocupava as melhores vagas da garagem.
Se o meu apartamento já era algo gigante, não queria nem pensar nos maiores: deveriam ser algo fora da realidade: a começar pela varanda!
"Você deve ser a senhorita Berry-Lopez!" Uma senhora me abordou na entrada da minha casa. "Desculpe, estava apertando a campainha, mas não havia ninguém em casa, aparentemente. Meu nome é Carol Pratt, residente do 1002 e eu sou a administradora desse edifício."
"Prazer em conhece-la senhora Pratt. Meu nome é Santana Berry-Lopez." Cumprimentei a inesperada visita. "A senhora não foi atendida? Achei que minha irmã estivesse em casa..."
"Não se preocupe, eu deveria ter avisado. Bom, como administradora deste edifício, costumo visitar os novos moradores para dar boas-vindas e falar um pouco sobre nossas regras. Confesso que a mudança de você e sua irmã me pegou de surpresa."
"Pegou a mim de surpresa também..." Abri a porta de casa. "Minha casa ainda está vazia de móveis, mas posso lhe oferecer um copo de água, ou uma cerveja..."
"Um copo d'água está ótimo senhorita Berry-Lopez."
"Por favor, me chame de Santana."
Deixei a minha bolsa no armário de entrada e fiquei sem-graça ao mostrar para aquela senhora um apartamento completamente nu. Havia, porém, duas cadeiras na cozinha, que foi para onde conduzi aquela senhora. Eu ofereci a ela a água e me servi também de outro copo.
"Esse apartamento está desocupado há mais de um ano." Ela comentou. "Quando ele sofreu uma reforma que durou dois meses, pensei que o senhor Weiz havia o vendido ou alugado. Mas não vi nenhum anunciou e nem uma notificação de aluguel."
"Foi tudo muito repentino mesmo. O senhor Weiz... ele é..." Nossa, como era difícil dizer a palavra. "Ele é... meu avô. Ele passou esse apartamento para nós há dois dias! Foi uma surpresa para nós também."
"Acredito que só tenha visto o seu avô em duas ocasiões, e antes de vocês o apartamento estava alugado... de qualquer forma, fico grata que você e sua irmã vão fazer parte da nossa comunidade... gente jovem!" Ela fez uma cara engraçada, como se tivesse má experiência com 'gente jovem'. "Eu sei que vocês têm muita energia e esse espaço é enorme para duas pessoas, mas espero que possam cumprir algumas regras, como a lei do silêncio após a meia-noite e o respeito às nossas instalações, às vagas na garagem, principalmente. Eu trouxe para vocês esse folder com todas as nossas regras..."
A senhora Pratt parou de falar assim que ouvimos a porta abrir.
"Santy, está em casa?" Era minha irmã.
"Aqui na cozinha!"
Rachel apareceu na cozinha e a senhora Pratt levantou-se imediatamente.
"Rachel, essa é a senhora Carol Pratt, que administra o edifício. Ela veio nos dar as boas-vindas e explicar as regras."
"Oh, senhora Pratt, prazer em conhece-la." Minha irmã colocou as sacolas que ela carregava no chão e cumprimentou a visita. "Eu sou Rachel Berry-Lopez. Desculpe o jeito, mas é que estava no nosso antigo apartamento em Astoria... ainda há coisas que precisamos trazer para cá."
"Tudo bem, querida. Precisa de ajuda? Sua irmã usa bengala e não parece estar em condições..."
"Não foi nada!" Forcei um sorriso. "Eu rompi os ligamentos do tornozelo e estou em fase final de recuperação. É só isso... estou bem."
"Não é tão simples..." Rachel me interrompeu. "Agradeço a sua disposição, senhora Pratt, mas não é tanta coisa assim e posso fazer isso sozinha."
"Parece que as duas tem muito trabalho a fazer por aqui."
"Temos mesmo!" Rachel tomou o resto da minha água. "Mas vamos decorar aos poucos. Eu estou ensaiando uma peça na Broadway, e minha irmã estuda na Columbia. Nosso tempo anda meio curto, mas espero que até ao final do próximo mês a gente tenha pelo menos um novo jogo de sofá para receber as visitas de forma mais adequada."
"Oh, você é atriz?"
"Sim. Eu sou atriz, e a senhora vai poder me ver na telinha a partir de outubro na série nova da HBO, Slings and Arrows."
"Isso é impressionante, senhorita Berry-Lopez."
"Me chame de Rachel, por favor."
"Ok, bom, como estava dizendo para a sua irmã, eu tenho aqui um folder explicando todas as nossas regras, taxas de manutenção e com meus contatos para tirar qualquer dúvida. Nós temos uma comunidade muito colaborativa e tranquila..."
"Oh, nós também somos bem tranquilas, senhora Pratt. Posso garantir que Santana e eu seremos boas vizinhas."
"Assim espero, agora se me dão licença... preciso ir."
Rachel acompanhou a administradora até a porta enquanto eu dei uma olhada no folder. Era tão bonito que fiquei pensando na grana que ela gastou para fazer as cópias. Não havia nada de extraordinário nas regras, mas apostava que ainda assim havia gente capaz de quebrar recomendações simples. Reparei que Rachel desceu mais uma vez e foi o tempo do meu celular tocar. Era zaide.
"Zaide!"
"Liguei para saber se ocorreu tudo bem no encontro com o investidor."
"Ele mordeu a isca. Contrato na mesa dele na segunda."
"Isso!" Ele gritou pelo telefone e eu não pude deixar de sorrir. A Rock'n'Pano era só uma despesa a mais para zaide, mas ele fazia por mim, porque queria me ver feliz e estimulada com algo que fosse só meu. "Ninguém é capaz de resistir ao charme da minha pequena gênio."
"Nem tanto, zaide. Nem tanto! Como está bubbee?"
"Conhece sua avó. Está resmungando porque hoje é dia da minha noite de poker com os velhos."
"Bubbee está preocupada porque o senhor não pode beber e nem fumar, coisa que ignora nessas ocasiões."
"Ela resmunga porque acha que vemos revistas de mulher pelada nesses encontros. Ora, eu sou velho demais para essas molecagens." Era impossível não rir. Zaide era um fofo, mas eu sabia que era mentira porque ele não era tão sonso assim.
"Zaide, o senhor nunca confessaria isso para mim e nunca me diria o que se passa de verdade nessas noites de poker."
"Você e Rachel são as minhas garotinhas e essas noites de poker são encontros de homens velhos que reclamam muito."
"Ok, zaide. Aproveite a saída com os amigos e não cometa excessos."
Foi bom zaide ter me ligado. Estava com saudades dele.
Rachel retornou com mais sacolas em mãos e deixou tudo na cozinha. Como era esperado, ela trouxe basicamente a nossa despensa, que estavam na geladeira, e coisas da cozinha.
"Não deu para fazer ainda uma limpeza no apartamento, mas trouxe basicamente tudo, inclusive o resto das suas coisas. Está tudo dentro do carro."
"E as coisas da Quinn?"
"Depois ela que marque uma hora para buscar o que quiser, e tem que ser breve porque eu estou louca para esvaziar o apartamento, limpar e entregar a chave."
Tinha o tal chá de panela que Quinn teve a ousadia de me convidar, e eu teria igual atrevimento em comparecer. Pelo que entendi, não havia muita coisa no apartamento que ela passou a dividir com o amigo dela, então ela planejou um encontro em que os conhecidos e mais próximos tivessem de comprar coisas básicas como pratos. Pelo menos era isso que tinha na lista de opções que ela fez. Rachel não sabia do chá de panela porque eu não avisei de propósito. Ela pensava que eu iria a uma festa de alguém da faculdade.
Tomei um banho morno e demorado. Era bom ter a minha própria suíte. Era diferente e bom. Podia andar pelada do banheiro para o meu quarto sem o risco de constranger ninguém. Vesti uma roupa casual, dei um beijo no rosto da minha irmã, que estava empenhada em arrumar a cozinha, e peguei as chaves do carro.
Quinn morava agora em Washington Heights. Dava vontade de rir. A primeira vez que falei com Quinn ainda na Junior High, a gente se confrontou e eu disse para tomar cuidado porque morava em Lima Heights, o que era mentira, mas isso sempre me deixava com ar ameaçador. Veja só quem morava na periferia agora. E de verdade. Claro que eu queria ver essa.
Antes, passei no Kmart em Chelsea para ver coisas necessárias numa casa e que não estavam na lista e que eu tinha certeza que ela não tinha. Por exemplo: faca de cozinha, tábua de legumes e carne, tesoura, caixa de ferramenta, filtro de água simples (desses que parecem uma jarra), xícara, jarra de suco. Dei uma volta na loja e comprei o filtro de água que estava num preço bom, a faca de cozinha e a lixeira (essa estava na lista).
Quinn limpava e organizava uma casa muito bem, mas era incapaz de abrir a porta da despensa e fazer uma relação das coisas que faltavam ou estavam para faltar. Ela só dava conta que era preciso comprar o detergente ou o sabão em pó quando acabavam de vez. Sinceramente, gostaria de ser uma mosca para saber como ela estava se virando com um sujeito que tinha tudo para também ser um igual tapado.
O endereço não foi difícil de achar. Fiz a baliza na frente do prédio e peguei apenas um pouco de chuva para tirar as compras do carro. Boa coisa que o prédio tinha elevador, porque seria um saco subir escadas do jeito que manda o fisioterapeuta. Bati à campainha do apartamento e um estranho atendeu. Estranhei. Olhei além da porta e fiquei tranqüila ao ver Johnny.
"Ei!" Acenei e ele veio logo me atender.
"San!" Ouvi duas vozes. Uma animada outra difícil de ler. A animada era Johnny, que estava no meu campo visual. A difícil de ler era de Quinn. Abracei primeiro Johnny antes de me voltar à anfitriã.
"Olá." Havia tensão entre nós, o que não me surpreendia. A última vez que a vi foi quando ela e Mike apareceram lá em casa cinco dias depois do rompimento para pegar o resto das roupas.
"Presentes para a casa..." Entreguei a sacola com as coisas em embrulhos e dei uma olhada ao redor. Não havia muita gente. Alguns caras e algumas garotas. Imaginei que fossem pessoas da NYU fora do nosso pequeno círculo de amizade. Eu só conhecia mais ou menos dois rapazes que participaram do filme que Quinn fez no ano passado.
"Obrigada. Não pensei que viria." Quinn parecia ainda se ajustar com a minha presença.
"Você mandou o convite para o meu e-mail, então decidi ver como as coisas estavam. Nada mal, Fabray. O lugar não parece mal."
"O apartamento é bom sim, apesar de pequeno. E o aluguel é mais barato por ficar nessa região."
"Legal..." Parecia que o assunto morria com facilidade entre nós, coisa que não acontecia antes. "Bom... comprei coisas fora da lista. Filtro de água e tábua. Imaginei que não tinha uma."
"Eu comprei uma tábua, mas essas coisas nunca são demais. Obrigada. Realmente não tenho filtro de água."
"Eu... eu fico feliz em saber que está inteira. Rachel vai gostar de saber."
"Como ela está?" Os olhos dela brilharam.
"Está bem. Está focada no trabalho. Ela vai viajar para L.A amanhã. Coisa rápida para divulgar a série." Olhei mais uma vez ao meu redor para ver se tínhamos um pouco de privacidade. "Aliás, você precisa passar no apartamento de Astoria para buscar sua cama e o que mais quiser. Pode ficar com a televisão, inclusive: nós vamos comprar uma nova. Rachel quer esvaziar o lugar e entregar as chaves."
"Para ser sincera, não estou com nenhum ânimo para isso, San. Eu amava aquele apartamento. Nem acredito que vocês realmente se mudaram."
"Foi bem de repente."
"Você disse na mensagem."
"Rachel insiste que você fique com o dinheiro dos móveis."
"A metade é o justo."
"Então, quando você vai buscar a sua cama? Eu posso te ajudar com o dinheiro do transporte. E tem muitos dos seus livros por lá ainda..."
"San, se não se importa, não queria discutir isso agora."
"Ok, é justo... bom... Mike vem?" Na condição de melhor amigo de Quinn, quando as duas se separaram, ele ficou do lado dela. Acredito que é verdade que além dos bens casais também faziam a partilha de amigos.
"Ele está fora para gravar um filme."
"Ah, sim. Lembrei. No Novo México, certo?"
"É..." Ela olhou para o chão. "Bom... fique à vontade. Há cerveja na geladeira e petiscos sobre o balcão do armário. Não é difícil de achar." Ela procurou dar um toque de humor.
"Obrigada."
Cumprimentei Santiago, o outro anfitrião, antes de colar em Johnny. Meu amigo sempre foi muito mais descolado que eu e logo arrumava assunto entre aquele bando de estudantes de cinema da NYU e afins. Logo chegou mais um cara com uma caixa de som e um computador. Então a festa deixou de ser um encontro de pessoas falando abobrinha com alguma cerveja, para adquirir ares de uma festa propriamente dita em um espaço ridículo. O lado bom é que não tinha como ter mais gente. Quinn parecia muita à vontade. Em poucas ocasiões a vi entre colegas, muito menos em uma festa. Parecia uma garota normal bebendo casualmente enquanto dançava como uma nerd e, às vezes, esticava mal disfarçadamente os olhos para os peitos de outra garota. Não podia julgar: ela estava solteira agora.
"Vamos dançar?" Johnny estendeu a mão dele.
"Não dá ainda." Lamentei sentada a um banco de plástico. "Não dá para eu me livrar disso ainda." Apontei para a minha bengala.
"A gente pode tentar uma nova dança com três pernas. O que acha?"
"Interessante, mas não."
"Bom, então você pode ser a porta-bandeira e eu o mestre-sala. Então tenho que dançar ao seu redor." E começou a dançar como se fosse um cara surtado de uma tribo qualquer.
"Dork." Lutei para me manter séria. "Mega dork."
"Vai pegar mal a gente ter vindo aqui e nem ao menos ter tentado se divertir." Ele se entregou e se agachou ao meu lado, apoiando o braço no meu colo.
"Tribo errada, Johhny."
"Também está fora de lugar, hum?" Acenei. "Que tal dar o fora daqui?"
"Posso ser franca? Eu quero minha casa, meu pijama e ver filmes velhos na Netflix."
"Quer companhia?"
Johnny disse sério, direto nos meus olhos. Senti um arrepio na minha espinha e, de repente, fiquei nervosa, como se fosse uma adolescente temerosa. De quê, eu não sabia exatamente.
"Não." Foi o que saiu pela minha boca, mesmo que no íntimo queria dizer sim. Ele ficou sem-jeito e acenou.
"Bom, eu vou te levar até ao carro, mesmo assim, e quero que você me ligue quando chegar em casa. Seu pé ainda não está confiável, e esse asfalto molhado pode ser perigoso."
"Sim senhor." Levantei-me do banquinho.
Primeiro me despedi de Santiago. Depois de Quinn, que estava alta, mas ainda longe de completamente embriagada, o que me deixava aliviada. Ainda me preocupava com ela. Johnny me acompanhou todo percurso até o meu carro. Deu um beijo no meu rosto e ficou na calçada esperando eu manobrar e ir embora. Tudo para a minha segurança, claro. Depois não sei o que ele fez: se voltou para festa ou se dali mesmo foi embora para o buraco em Nova Jersey que ele alugou. Só sei que assim que parei no primeiro semáforo, gritei dentro do carro:
"Eu sou burra!"
...
22 de setembro de 2015
(Rachel)
Ainda não era o tapete vermelho de Slings and Arrows, a HBO promoveu em Los Angeles uma festa para anunciar a programação das séries confirmadas para a temporada. No primeiro semestre a grande estreia seria de Slings and Arrows, além de outra de cunho independente. Nossa premiere aconteceria apenas em outubro em Nova York, com direito a uma festa no Classic Stage Company, onde gravamos todas as cenas no teatro. Nem todos os atores iriam à essa festa e algumas das grandes estrelas podem faltar por estarem à trabalho ou por outras razões. No caso do nosso elenco, Will Passon e Jane Bright disseram de antemão que não teriam condições de comparecer ao evento e às coletivas.
Não importa onde uma série era produzida, ou mesmo um filme: a parte promocional tinha necessariamente que passar em Los Angeles, simplesmente porque era onde estavam concentrados estúdios, onde produtoras grandes tinham pelo menos escritórios, era onde Hollywood acontecia. Game of Thrones, por exemplo, era gravado em parte na Islândia, mas onde estava o elenco na hora de promover a temporada? Los Angeles, e em algumas capitais pelo mundo. O plano estratégico de divulgação de Slings and Arrows havia saído e ninguém teria de fazer turnê mundial. Nosso plano se concentrava em Los Angeles e Nova York.
Desde que cheguei a Los Angeles acompanhada de Josh e Nina que não parei de trabalhar. No que as pessoas enxergam glamour e diversão nos sites da internet, eu vejo puro trabalho. Sim, fazia parte sorrir, posar para fotos, dizer bobagens para os repórteres de qualquer coisa, porque na hora eles se identificam, mas você não consegue assimilar bem. Isso era trabalho de Nina. Na sexta aconteceu a coletiva de imprensa da série, e foi o momento que pude rever meus colegas do elenco principal desde o fim das gravações.
Amanda estava ótima. Tinha um novo corte de cabelo mais curto e repicado. Ficou lindo no rosto dela. Ela ia fazer um papel menor num filme e estava empolgada. Amanda aparecia com certa constância nos sites de celebridades por estar de rolo com Nathan Chass que era o rockstar da moda. Luis deu uma pausa nas filmagens de um filme independente no qual produz para passar esses dias na labuta da HBO. Ainda era o Luis: sério, intelectual, mas com algum espírito gozador por trás. Acredito que a cena de eu voando no pescoço de Rom ainda estava fresco na memória de todos porque o clima pesou quando ele chegou para a coletiva e fizeram de tudo para que não tivéssemos contato. O meu par na série era Luis, e naturalmente fomos colocados juntos na coletiva. Foi o dia inteiro trabalhando para atender a imprensa e aos patrocinadores na série.
Sábado, no dia do tapete vermelho, segui o itinerário: dia no hotel, exercício leve na academia, cabelo maquiagem, vestido e saída para o tapete vermelho. Havia a atenção em cima das maiores estrelas e astros, além dos mais bonitos. Havia o trabalho daqueles que precisavam ser apresentados. Eu pertencia ao segundo grupo. Apesar de conhecida no meio da Broadway, Hollywood era outra história. Ironicamente, a fofoca do meu caso com Rom foi o meu debut nos sites de celebridades. Foi um horror quando os jornalistas desses sites começaram a perguntar se estávamos juntos, porque eu estava só e ele também apareceu sem companhia.
"Rom e eu somos amigos." Repeti inúmeras vezes com um sorriso congelado no rosto.
Procurei interagir com outros atores e conhecer pessoas, mas a gente sempre acaba ficando mais atrelado às pessoas que conhece. No meu caso: ao elenco da série. No meio da noite, quando as câmeras já não trabalhavam tanto e as pessoas estavam cansadas, Rom finalmente se aproximou.
"Estava com saudades, Rach."
"Não posso dizer o mesmo." Menti porque de todo elenco, Rom era o que mais tinha fácil proximidade e entendimento. Ele acenou sem-graça.
"Ainda chateada com a fofoca."
"A fofoca que culminou no fim do meu relacionamento." Disparei e do jeito que ele ficou ferido, vi que estava sendo injusta. Rom teve parcela de culpa, mas não era também justo descontar nele todas as coisas que já vinham erradas entre Quinn e eu. "Desculpe... não é tão fácil assim me desligar de um relacionamento de três intensos anos."
"Olha, Rachel, eu realmente sinto muito por tudo que aconteceu entre você e Quinn e isso tudo me deixa mal. Queria poder reparar o mal que cometi de algum jeito e se você dissesse que embarcar para Nova York agora só para ficar de joelhos diante dela para pedir perdão adiantaria, olha, eu faria com o maior prazer."
Sorri e olhei para o rosto de Rom pela primeira vez depois de muito tempo. O mesmo rosto bonito, o jeito de galã, mas havia sinceridade do bom amigo que ele sempre mostrou ser durante as gravações.
"O que vai fazer amanhã?" Perguntei.
"Nada na agenda."
"Eu vou embarcar para Nova York só na segunda. Quer almoçar? Você sugere o restaurante já que mora aqui."
"Não!" Ele ergueu o dedo num gesto charmoso. "Se é para almoçar, então que seja na minha casa. Você me chamou para jantar na sua casa em Nova York. Agora é a minha vez de ser um bom anfitrião."
"Mas isso te daria trabalho..."
"É o mínimo que posso fazer. Além disso, estaríamos mais seguros e longe de olhares na minha casa do que num restaurante." Era verdade. "Se quiser, posso chamar outras pessoas... Amanda talvez."
"Não, almoço entre nós está ótimo. Acho que precisamos mesmo conversar."
Saí da festa era início da madrugada. Nina me acompanhou, mas não Josh. Sei que ele tinha mais uma lista de outros clientes por quem trabalhar e aquela era uma boa oportunidade para tentar migrar mais algumas pessoas da Broadway para Hollywood.
Por isso ali estava dentro de um táxi a caminho de uma casa próxima do litoral em Santa Monica. Rom morava numa casa térrea com porão em Ocean Park. Era uma área linda, ensolarada, a grama da casa dele era verde, bem cuidada, havia uma árvore de médio porte à frente, mas que não tampava a visão do imóvel. A primeira impressão foi a melhor possível.
"Bom dia, senhorita Berry." Rom já me esperava do lado de fora e correu para abrir a porta do carro. "O palácio é seu e a conta é minha." Tirou a carteira do bolso de trás e pagou o taxista.
"Que lugar maravilhoso!" Disse antes de entrar. "Lembra até o bairro que os meus pais moram em Lima, exceto que não tem esse cheirinho no mar, esse sol e é em Ohio." Rom sorriu.
"Vem, Rach, vamos entrar."
A casa era decorada estilo a de um garotão que gostava de surfar e de coisas do estilo. As paredes eram brancas, tinha uma prancha na parede, quadros com palmeiras e o mar, móveis rústicos cor de palha e almofadas azuis. Tudo muito leve e de bom gosto dentro do motivo decorativo. Foi uma surpresa para mim. A visão que Rom me passou em Nova York foi de um predador de mulheres. Um engraçado que eu adorava conversar, mas com quem jamais me envolveria. O Rom em ambiente doméstico parecia até outra pessoa. Ele vestia camiseta básica branca, bermuda e chinelo de dedo. É o máximo que se pode ficar à vontade dentro de um limite respeitável não-íntimo. E eu em cores escuras nova-iorquinas.
"Sua casa é linda." Observei enquanto ele me mostrava os cômodos.
"Estou na lida desde moleque, Rach. Trabalhei para ter algo assim e não preciso de mais que isso não."
A casa tinha ainda uma sala mais reservada que apresentava alguma bagunça, uma boa cozinha unida a uma sala de jantar, dois quartos, sendo que um deles Rom mantém mais para o irmão dele do que para hóspedes.
"Dean é... complicado." Ficou sem-graça. "Não que ele se meta com coisas ruins, mas ele é bipolar e precisa tomar remédio controlado. Às vezes perde o emprego e fica sem o dinheiro do aluguel, às vezes perde a namorada e fica sem um sofá. Eu só não o deixo morar de vez aqui comigo porque aí seria ter uma responsabilidade, e um problema que não dá para assumir. Mas ele sabe que o espaço está disponível por alguns dias mês sim, mês não." Começou a rir em descrença. "Pelo menos ele cuida direito da casa quando estou fora."
"Irmãos! Dão um trabalho danado, mas a gente não os abandona." Dei tapinhas nas costas dele. "Dean é mais moço ou mais velho que você?"
"Dois anos mais velho. Tenho ainda uma irmã caçula que faz faculdade em San Diego."
Continuamos o tour pela casa até que paramos pela cozinha: uma de verdade com espaço próprio. Não dessas de apartamento. Rom começou a tirar os ingredientes para o nosso almoço da geladeira e do armário. Organizou tudo em cima do balcão e eu me propus a ajudar.
"Não é que eu cozinhe." Ele disse sem-jeito. "Tem uma moça que trabalha para mim que vem aqui e deixa tudo organizado, no jeito. Comida complexa eu não sei fazer, mas receitas simples eu tiro de letra."
"E qual o cardápio de hoje?"
"Sei que você não come carne." Acenei. "Mas come leite e ovos?" Acenei novamente. "Tem uma tortinha que fica muito boa e é rápida." Começou a manejar os ingredientes. "Geralmente eu como carne orgânica quando estou aqui, mas é um saco ter que viajar sempre para trabalhar porque a gente tem que fazer concessões o tempo inteiro. A comida de Nova York é boa e variada, mas puxa, é dinheiro demais que se gasta lá. Não sei como você suporta. Quer dizer, como pode uma cidade beira-mar que não tem cheiro de mar? Que não tem sol, praia?"
"É estranho te ver no seu ambiente." Franzi a testa. "Mas acho que tudo é questão de costume. Você é daqui. Eu sou do centro-oeste americano onde a gente não tem exatamente essa luminosidade ou o cheiro de mar. Na verdade, tem muita chuva e vento e às vezes tornados. Nova York vira uma espécie de Meca, muito mais que Los Angeles. Aliás, sempre foi uma para mim desde criança. Então quando cheguei lá, simplesmente pertencia àquele espaço. Foi natural."
Ele dividiu as tarefas do almoço. Eu fiquei encarregada de preparar a massa da torta, que já estava preparada na geladeira. Só tive o trabalho de abri-la e acomodá-la na forma. Enquanto isso, Rom preparava o recheio com legumes refogados e uma série de temperos numa panela. O segredo era refogar e mexer tudo com uma colher de pau. Às vezes pegava um pouco daquelas verduras já todas picadinhas pela tal moça e me dava para experimentar. Estava bom. Depois colocou tudo na forma, acomodou algumas azeitonas e colocamos a tampa da massa para levar ao forno.
Rom serviu vinho branco e arrumou a me a para nós dois enquanto esperávamos a massa assar. Sentamos à sala meio bagunçada (realmente não me importei com isso) e conversamos.
"Por que você me beijou naquele dia?" Questionei.
"Você fez uma cena fantástica, Rach. Foi a primeira vez que vi aquele tipo de gravação para a televisão, eu estava animado com aquilo porque para mim era uma novidade. Não vou mentir, gosto de você, Rachel, e se dependesse de mim, teria um relacionamento contigo num estalar de dedos. Mas não fiz pensando nisso naquele dia, juro por deus. Te beijei porque te achei fantástica, e reagi ao momento. Não pensei em imprensa, nos outros colegas, ou em relacionamentos ou em fofocas. Nada disso. Fiz o que fiz no calor da emoção."
"Eu não te impedi..." Admiti com um pouco de culpa.
"Olha, Rachel, estou sendo muito franco aqui. Eu sei que sou um cara com fama de pegador e eu realmente gosto do jogo, gosto do sexo. Mas eu tenho limites. É difícil me ver num relacionamento pela simples razão de que quando estou em um, eu invisto nele. Então não vai ser para qualquer uma que vou fazer isso."
"Fico lisonjeada em saber que não estou na lista de mulheres de uma noite só, e espero sinceramente que esse almoço não seja um jogo, Rom, porque eu vim aqui com a maior boa vontade, e não gostaria de me decepcionar contigo. Gosto de você e gostaria de te ter no meu círculo de amizades para o resto da vida."
"Não estou jogando aqui, Rach. Eu não jogaria contigo. O beijo... olha, eu não lamento pelo beijo em si. Te beijaria um milhão de vezes mais. Lamento sim os problemas que ele causou. Lamento o seu rompimento com Quinn. Lamento de verdade isso, porque eu fui testemunha do quando você amava aquela garota."
"Obrigada." Nessa conversa toda percebi que mal tinha tocado na minha taça de vinho. Passei a maior parte do tempo brincando com o líquido. Rom também mal tocou na bebida dele.
"O que vai fazer agora de volta a Nova York?" Ele perguntou para romper o silêncio que havia se estabelecido. "Quais são os planos?"
"Broadway. Tenho uma peça a ensaiar. As primeiras leituras já aconteceram, fizemos workshop com um coach, e acredito que será incrível. Vou entrar em estúdio mês que vem para gravar as canções da peça para vender o iTunes e faço a temporada de janeiro, fevereiro e março. Não sei se vou fazer mais. Vai depender da série e também quero dar abertura a outras oportunidades."
"Quero estar lá na estreia. Na primeira fila."
"Ah, querido, leve o guarda-chuva. Atores de musicais salivam muito."
"Ok, terceira fila, com direito a buquê de flores depois no camarim."
"Feito." Rimos.
"Você não deveria se furtar disso, sabia?"
"O quê?"
"Sorrir."
A campainha do timer do forno tocou dizendo que o almoço estava pronto.
