(Santana)
"Oh, quando você disse que viria cedo, eu esperava algo menos cedo." Reclamei assim que atendi à porta para Quinn, e abri passagem para que ela pudesse entrar.
Estávamos no apartamento de Astória finalizando toda a mudança. Da minha parte e de Rachel, não tínhamos mais o que fazer ali, mas ainda tínhamos a responsabilidade de entregar o imóvel limpo. Restavam apenas coisas de Quinn. Tudo que ela precisava era decidir o que fazer: se iria levá-las consigo, ou se o destino seria a lata de lixo.
"São quase nove horas. E você está sem muletas!" Ela entrou com algumas caixas de papelão dobradas debaixo do braço e as colocou encostadas no balcão que divide a cozinha com a sala. Impressionante como conseguia manter a postura bitch mesmo estando por baixo. "Isso aqui está depressivo sem os móveis."
"Trouxe café da manhã." Mostrei a comida em cima do balcão. "Se vamos terminar de empacotar suas coisas e fazer a faxina para entregar as chaves, precisamos estar bem alimentadas."
Quinn olhou com certo desejo para as maçãs, o saco de brioche, e o pote de geléia, além do litro de achocolatado e a garrafa térmica com café. Era tão óbvio que ela estava com fome. Quer dizer: eu não conhecia Santiago tão bem assim, mas o pouco que sabia, era que ele era um sujeito bem relapso. Quinn podia ser a dama da organização e da limpeza, mas era uma anta nas questões mais simples de administração de uma casa. Eu poderia atenuar e dizer que essa foi uma tarefa que sempre desempenhei: orçamento, controle de contas, listas de supermercado. Mas ela deveria sem minimamente competente para fazer tais tarefas. Só que não era. Não me surpreenderia se na casa dela não tivesse um saco de pão industrializado, pelo menos.
"Ainda não tomei café da manhã." Eu disse me esforçando para não rir com a cara de fome que ela fez. "Se quiser me acompanhar, esteja à vontade."
"Ok." Ela disse sem cerimônia. Pegou os descartáveis que trouxe e serviu-se com toda formalidade que era capaz, como se ainda fosse a habitual aristocrática Quinn Fabray. Mas esse tempo de convivência me fez perceber certos detalhes que outras pessoas ignorariam, como o fato de ela comer a maçã. Sim, maçã, com interessante entusiasmo.
"Há quanto tempo você não toma um café da manhã decente?"
"Todos os dias, para a sua informação. No entanto, as minhas atuais condições financeiras e de Santiago fazem com e a gente reduza as coisas ao básico."
"Que seria?"
"Ao café... e alguns biscoitos." Ela franziu a testa. "Nem todo mundo tem salário de atriz, recebe ajuda de custo dos pais ou tem um avô secreto bilionário. Mas estou muito bem, se quer saber. Santiago e eu ainda estamos em fase de ajustes."
"Entendo."
"Cadê Rachel?" Outra tentativa miserável de Quinn parecer casual. Aposto que era a primeira coisa que queria perguntar tão logo entrou e não viu minha irmã.
"No caso de achar que a minha irmã se recusou em vir ajudar para não te ver, você não está com essa moral toda. Ela foi ao mercadinho de produtos orgânicos que descobriu na Steinway Street para fazer algumas compras lá para casa. Daqui a pouco ela deve chegar para inspecionar a limpeza."
"Como estão as coisas na Rock'n'Pano?" Ela perguntou noutra tentativa de parecer casual. "Reparei que você depositou pouco mais de 100 dólares na minha conta. Os negócios melhoraram?"
"Vendi mais no mês passado e as coisas ficarão ainda melhores neste que entra. Fechei um bom negócio, vou conseguir pagar todas as pendências com zaide em relação à empresa e, quem sabe, começar a caminhar com minhas próprias pernas."
"É bom ouvir isso. Estou orgulhosa, San, de verdade."
"Eu vou mandar o relatório de vendas para você, Johnny e Mercedes assim que fechá-lo." Gostava de deixar as coisas às claras, e estava mesmo fechando o relatório para depois ninguém me acusar de estar retendo dinheiro que não é devido. "E você? Como estão as coisas no mundo do cinema?"
"Aquele curta vai sair. Vai dar para conciliar com NYU e imobiliária porque são poucos dias de filmagens. Santiago tem um projeto para rodar em festivais. É um bom roteiro, de verdade, mas estamos sem dinheiro por enquanto para realizá-lo. Fora isso, é a mesma luta de sempre. Santiago disse que vai surgir uma nova seleção de estágio na Bad Things. Tomara que o lobby dele lá dentro dê certo."
"Vocês vão conseguir o dinheiro no tempo certo." Quinn acenou e sorriu rapidamente. Por mais que eu confiasse menos ainda nela, e achasse com toda sinceridade que ela merecia passar pelas atuais provações, eu não queria vê-la na miséria. Longe disso.
Quinn fez a gentileza de ajudar para guardar a comida e colocar os descartáveis no saquinho de lixo adequado. Depois olhou para a pilha de coisas dela que estavam colocadas no canto da sala. Precisava fazer uma seleção rápida e rasteira antes de levarmos tudo que estava ali dentro que não constava no contrato para fora do apartamento e, possivelmente, para o tonel de lixo. Enquanto isso, eu precisava varrer os cômodos e limpar o meu antigo guarda-roupa e lavar o banheiro. Decidi começar pelo banheiro, enquanto Quinn embalava as coisas dela.
Terminamos o trabalho num instante, e eu suspirei para o sábado que prometia ser lento e tedioso. Tinha basicamente trabalhos a fazer para a Columbia, a roupa da semana para lavar e talvez um encontro num bar com colegas no meio da noite. A presença de Quinn até que era bem-vinda por ser uma boa distração para aquela manhã.
"Quer ajuda?" Perguntei quando Quinn começou a tentar embalar a televisão que ela levaria para o apartamento dela.
"Está tudo bem. Santiago vai pirar quando ver o tamanho dessa televisão. A nossa atual é praticamente um monitor de computador."
"Ele vem te buscar, então?"
"Vem sim. Ele tem esse amigo que empresta o carro quando ele precisa. Daqui a pouco ele vai pintar por aqui."
"Tomara que ele venha cedo para ajudar a limpar a parte de cima dos armários da cozinha."
Quinn sorriu e recomeçou a embalar a televisão da forma que ela achava mais conveniente para não estragar o aparelho. Enquanto isso eu criava coragem para limpar o guarda-roupa. Resolvi colocar uma música discreta no meu celular, algo baixinho para não incomodar, só para ajudar com o trabalho. Neste meio tempo, Rachel chegou com cara de poucos amigos. Colocou as chaves do nosso carro no balcão e mal olhou para Quinn. E pensar que era a primeira vez que as duas se viam desde o rompimento pra valer do namoro.
"Olá Rachel." A voz de Quinn era melosa, cheia de esperança.
"Quinn..." Minha irmã respondeu de forma mais seca do que o deserto do Saara. "Santana, e avisei que não era para você fazer esse tipo de limpeza? E se você escorregar e se machucar de novo? Quer mesmo ficar mais três meses com gesso, muletas e bengalas?"
"Não torra o meu saco, Rachel, e vá fazer a sua parte."
Rachel resmungou, pegou o material de limpeza e foi trabalhar no antigo quarto dela. A parte mais interessante desse mutirão de limpeza para entregar o apartamento foi ver o reencontro das duas. Rachel estava tão tensa que podia ver ao longe as têmporas dela saltando, porque ela tinha mania de apertar os dentes quando ficava muito tensa, como se fosse um bruxismo. Quinn era ansiedade pura. Ela não sabia se continuava a trabalhar as coisas dela ou se tentava se aproximar da minha irmã e, possivelmente, ter algum tipo de contato.
Eu? Se o microondas ainda estivesse no apartamento, eu juro que compraria pipoca, estouraria e ficaria apenas assistindo. A reação das duas era melhor do que ver as comédias românticas estreladas por Meg Ryan na década de 1990. Até porque parecia que o universo tinha dificuldades em produzir bons filmes do gênero nos últimos anos. Não sei se era falta de imaginação, ou se falta de carisma no elenco envolvido. Havia uma boa história a acompanhar dentro da minha própria casa.
"Você já terminou de selecionar o que você vai legar e o que vai para o lixo?" Rachel fez a voz controlada e formal. "A única coisa que falta é aspirar o carpete."
"Só falta fechar essa caixa." Quinn ergueu a infame sobrancelha e naquela altura eu estava me segurando para não gargalhar. Tenho certeza que não era fácil para a minha irmã rever a ex-noiva, mas aquele controle exagerado era ridículo.
"Santana me informou que esteve num chá de panela de sua casa nova com Santiago." Rachel disse enquanto terminava de varrer o quarto.
"Ganhamos muitas coisas, acredito que valeu à pena fazer a festa. San nos deu filtro de água. Depois entendi que era fundamental."
"Encanamento velho?" Rachel perguntou e ela acenou. Eu sabia disso. Mais da metade dos edifícios em Nova York tem esse problema apesar da água que abastece a cidade ser de ótima qualidade.
"E a sua casa nova?" Quinn perguntou. Ela poderia ter conversado sobre isso comigo, mas parecia estar guardando assunto para falar com Rachel. Tive que revirar os olhos.
"É ótima. Estou muito feliz lá." Minha irmã respondeu direta e seca.
"Não vai fazer nenhum chá de panela ou um open house?"
"Sinceramente, Quinn, nem eu e nem a minha irmã estamos interessadas em fazer festas em nossa nova casa. Não por agora, pelo menos, e não precisamos fazer chá de panela algum. Na verdade, nós temos tudo que precisamos."
"Menos um jogo de sofá!" Eu brinquei, e Quinn ergueu a sobrancelha mais uma vez. Minha irmã apenas resmungou. "É que Rachel e eu não chegamos a um acordo sobre a decoração da sala. Então, basicamente, só os nossos quartos e a cozinha estão mobiliados lá em casa."
O celular de Rachel tocou. Ficamos prestando atenção, em especial porque o corpo tenso de repente relaxou.
"Oi." Disse como se estive em modo de paquera. "Dia livre. Trabalhei a semana inteira em ensaios exaustivos de dança para ter um merecido descanso... claro..." E foi andando em direção ao quarto. "Hoje?" Gargalhou. "Vou ter que pensar no caso..." Fechou a porta.
Quinn de repente ficou ofegante. Ela foi em minha direção e ficou gesticulando como se quisesse achar as palavras.
"Ela está saindo com alguém?" Sussurrou gritando.
"Olha, eu não tenho que dar satisfações..."
"Santana!" Ela gesticulava como se abanasse ela própria.
"Não que eu saiba." Disse sussurrando. "O mais correto que posso dizer é que ela gostou do elenco da peça do Bowie. Talvez possa ser alguém de lá. Talvez seja Sean Lewis, com quem ela voltou a contracenar. Minha irmã está realmente animada e é tudo que sei. Depois, tenho a minha vida para tocar e não escuto cada detalhe das histórias quilométricas que ela conta."
"Tá, eu sei que você não presta atenção, mas tenta lembrar..." Quinn estava quase surtando e eu acharia hilário caso não fosse pressionada. "Será que não teve ninguém que ela possa ter mencionado com mais empolgação?"
"Fora o Rom?"
Foi como se eu tivesse jogado um balde de água fria em Quinn. Ela congelou, literalmente.
"Rom? Rom Tyler?"
"Eles são amigos, e se falam com frequência." Fiquei na defensiva. Não disse pra provocar. Só disse a verdade: Rachel e Rom passaram a se falar bastante desde que ela foi lançar a série em Los Angeles. Minha irmã me contou apenas coisas por alto, mas que sei é que os dois superaram o episódio do beijo.
"Depois de tudo que aconteceu, eles ainda são amigos?"
Não houve mais tempo para questionamentos. Rachel saiu do quarto, e Quinn ficou num estado de contenção de raiva. Voltou a reunir as caixas dela num canto para facilitar a retirada dos objetos e a limpeza da sala. Eu achei melhor não ficar muito perto. Era melhor ficar quieta e tentar me distrair olhando a internet enquanto elas terminavam os afazeres.
"Bengala, Santy!" Rachel advertiu quando me viu atravessar a sala.
"Vou me sentar aqui nesse canto..."
"Eu passo o aspirador." Rachel mal esperou Quinn tirar as coisas dela e começou a aspirar, como se a vida dela dependesse disso. Era um cenário familiar e doméstico, apesar do clima estranho entre as duas.
"Então Rachel... como vão as coisas na peça?" Quinn tentou puxar um pouco mais de conversa.
"Vão ótimas. O cronograma está em dia e o elenco é o mais profissional com que já trabalhei na Broadway até agora."
"Algum colega em especial?" Ela tentou ser casual. Tentou, mas quem conhecia um pouco de Quinn Fabray, sabia que ela falhou miseravelmente.
"Não que seja da sua conta, Quinn."
"Ouch!" Tentei ser discreta, mas a minha interjeição saiu mais alta do que queria. De repente tinha dois pares de olhos em mim, o que me fez fingir estar lendo algo muito importante na tela do meu celular.
"Você pareceu animada no telefonema agora a pouco. Por um acaso era Rom?"
"Rom?" Rachel levantou a voz. "Por que seria o Rom?" Então senti um par de olho em particular bem pesado sobre mim. Procurei não encarar a minha irmã. Sabia que ela estava me chamando de fofoqueira por telepatia. Gêmeas tinham disso.
"Soube que você ainda é amiguinha dele, apesar de tudo."
"Sim, nós somos amigos. E de novo, isso não é absolutamente da sua conta. Se eu quiser dormir com Rom, ter um relacionamento com ele, não será da sua conta! Aliás, nós nos damos também, que pode ser isso aconteça." Ui, essa foi para ferir. Até eu fiquei boquiaberta.
"É que fiquei surpresa por você ainda ser próxima com o cara que causou a nossa separação. Mas..." Quinn levantou os braços como se estivesse se rendendo. "Cada um com a sua consciência. Eu pelo menos posso dizer que deito a minha cabeça no travesseiro e durmo bem todas as noites."
"Mesmo?" Rachel ficou em estado bélico. "Isso com ou sem coma alcoólico? Aliás, você se esquece muito rápido que, entre nós duas, quem foi para cama com outra pessoa foi você. Aliás, como está a fulana com que você trepou. Ainda aquecendo os seus lençóis?"
"Meninas!" Apelei antes que as coisas ficassem feias. "Chega, ok!" Disse enfática e dei um tempo para as duas respirarem. "Quinn, você não veio aqui para isso."
"Eu sei. Eu sei. Só vou juntar essas coisas aqui. Mais cinco minutos e..." Gesticulou a saída. "Santiago deve estar chegando mesmo."
Quinn fechou e lacrou a última caixa de qualquer jeito. O trabalho cuidadoso inicial foi para o espaço no primeiro sinal de ciúme. Talvez não devesse mesmo ter mencionado Rom. Culpa da minha irmã que disse que se entendeu com ele e mais: a premiere de Slings and Arrows aconteceria na semana que entrava, e era óbvio que ele e Rachel fariam algo juntos pela cidade.
"Santiago parece que esqueceu de te buscar. Quer carona?" Ofereci mesmo sob o olhar feio de Rachel. A caixa parecia horrivelmente pesadas.
"Não, obrigada."
"Não vai ser problema. Posso deixar a minha irmã em casa e depois te deixo no apartamento. A gente só vai entregar as chaves amanhã mesmo!" Insisti.
"Se quiser, eu posso pagar o seu táxi se o seu amiguinho não aparecer." Rachel disse e o tom foi para ferir.
"Bom Rachel." A voz desta vez saiu controlada, como se a HBIC tivesse voltado à vida. "Você pode até mandar fazer esse serviço por mim, mas se for, que seja bem feito, pois não quero que você fique com algumas das minhas coisas como suvenires. Não gostaria que você usasse meus livros para impressionar amiguinhos dizendo que leu algo que jamais abriu."
"Você. É. Nojenta."
A briga não foi adiante porque o celular de Quinn disparou. Era Santiago ao telefone, avisando que estava em frente ao prédio. Como disse, não sei muita coisa a respeito de Santiago, mas ele teve um timing perfeito dessa vez, que fez com que a discussão acabasse. Quinn pediu para que ele subisse, e em dois minutos ali estava o amigo dela sorrindo sem jeito para nós. Indicou as caixas que ela levaria e a que estava cheia de bagulhos com destino ao primeiro tonel de lixo que vissem pela frente. Santiago começou a trabalhar e nós também. Apesar dos protestos da minha irmã, eu me ofereci a ajudar. Peguei um saco plástico que Quinn havia separado para levar enquanto ela pegou uma caixa mais leve para poder ir embora de uma vez.
"Precisa aprender a se controlar se a quiser de volta." Disse bronqueada enquanto o elevador descia, aproveitando que estava só eu e Quinn. "Ficar nesse cabo de guerra não vai ajudar."
"Você torceria por mim?"
"Sinceramente?" Quinn acenou, e a porta do elevador se abriu. Nós caminhamos lentamente até a saída o edifício. "Eu torço pela felicidade da minha irmã e, por mais incrível que isso possa parecer, pela sua também, juntas ou separadas. O que for melhor. Rachel ainda te ama muito. Mas pelo que vi agora, acho que o melhor é vocês ficarem separadas por mais algum tempo. Minha irmã não está pronta para te perdoar, e você parece que não aprendeu lição nesse rompimento."
"Agradeço por torcer pelo meu bem-estar, San, mas não posso concordar contigo quando a ficar separada de Rachel. Isso... isso dói demais. Você pensa que não, mas eu me arrependo de muitas coisas que fiz. Me arrependo de por ter te agredido e te machucado. Por ter machucado Rachel. Eu me arrependo por ter dormido com Monica. Eu me arrependo por ter perdido tanto tempo enchendo a cara em vez de trabalhar na minha reconciliação. Agora eu não sei como é que eu vou conseguir fazê-la me perdoar e voltar comigo."
"Então faça a coisa certa, Fabray."
"O quê? Dar espaço? Tempo? Não estou fazendo isso?"
"Isso e espere o momento certo. Não force a barra como agora. Não quando coloca para fora tudo que ela mais odeia sobre você. Aliás, você precisa urgentemente se controlar. Ajudaria se domasse o homem das cavernas que existe dentro você. Para a sua informação, Capitão Cavebray, o tacape saiu de moda há milênios."
Ela ainda estava zangada. Podia sentir. Colocamos as últimas caixas no carro que Santiago arrumou, nos abraçamos e depois os dois foram embora. Quando subi de volta para casa, encontrei minha irmã me esperando à porta com a minha bengala em mãos. Eu não conseguia me esquecer das muletas. A bengala era outro assunto. Simplesmente não conseguia fazer uso adequado daquele pedaço de madeira. Sabia que era errado porque ainda não podia forçar o tornozelo e eu tinha seguido à risca o tratamento até ali para desandar tudo no final. Era duro.
"Não fala nada." Peguei a bengala.
"Ela foi mesmo embora?"
"Foi."
"E deixou essa caixa de lixo para a gente se livrar?" Resmungou.
"Pense no simbolismo."
"Que simbolismo? O desleixo dela?"
"Deixa pra lá, Ray. Vamos fechar a droga desse apartamento e encerrar esse capítulo uma vez por todas."
...
07 de outubro de 2015
(Rachel)
Estava nervosa. Ser a atriz principal da peça "What Would Bowie Do" me dava algum poder de barganha, mas o pessoal da companhia Cosmic Stage tinha nada a ver com o meu contrato com a HBO e, portanto, com os meus compromissos profissionais com a série. O melhor que poderia fazer, era me desdobrar e tentar conciliar os ensaios da peça com a época promocional do seriado da melhor forma possível.
Precisava ensaiar os números de dança e canto antes de encarar o palco propriamente dito para fazer as marcações. WWBD era um musical off-Broadway com características dramáticas e classificação indicativa de 16 anos. Havia nudez parcial na peça. No meu caso, uma cena não-explícita de sexo em que eu ficava de topless. Era algo ousado em minha iniciante carreira nos palcos. Era uma peça sobre descobrimento juvenil em que a personagem que tem uma doença e se vê obrigada a sair de casa e viajar no mundo figurativos das maravilhas em busca da própria cura. É uma linda metáfora sobre as dores do crescimento. O texto foi co-escrito por David Bowie e Lena Snider e o elenco tem oito atores em posições de destaque, além de figurantes e alguns dançarinos. As músicas eram quase todas originais e exclusivas para a peça, exceto "Changes" e "Life on Mars", no qual a peça foi inspirada.
"Rachel." Jules Martin, a coreógrafa, gritou. "Está dispersa hoje e atrasando tudo. Ou entra no passo ou precisa que Kat mostre a você o que é ter disposição para comer esse papel?" Kat era a atriz substituta.
Olhei para os meus colegas de elenco: Sean Lewis, Will Potter, Alisha Glass, Britany Saar e Gomez Diaz, entre os que ensaiavam as cenas mais pesadas. Os demais atores eram veteranos e não estavam naquela lida. A verdade é que deixei a premiere da HBO afetar minhas obrigações da semana e a paciência de todos estava no limite. Tinha quase certeza que não conseguiria ir em casa, me arrumar e atender à premiere. O pior é que pegaria mal por ser parte do elenco principal da série.
"Não há necessidade." Olhei para Kat. Ainda não sabia dizer o quão boa atriz era, mas certamente ela dançava muito melhor que eu. Cantar era outro plano e poucos tiravam minha confiança.
Voltei a fazer a coreografia. Não fui perfeita. Ao menos deu para passar. Will Potter, meu par romântico, o cara que apalparia meus seios, me olhou com jeito de entediado. Ele era um gay predador insuportável. Não tinha sinais que denunciavam a sexualidade dele, por isso poderia se passar por macho alfa em qualquer lugar. E ainda era um ótimo jovem ator de teatro. Acho que por isso mesmo que ele tinha certa prepotência no ar e estava convencida que me odiava. Ele era a exceção do elenco. Todos os outros eram pessoas agradáveis e amigáveis, ou ao menos profissionais. Conhecia Sean Lewis desde quando ele se apresentou no concurso de corais no ano em que o Novas Direções de McKinley High foi campeão nacional em Nova York. Depois foi selecionado junto comigo para Songbook. Foi um prazer reencontrá-lo mais seguro e experiente.
Britney era uma garota competitiva tal como a personagem que interpretava, mas sabia como trabalhar em equipe. Gomez era uma graça, um ator fácil de lidar, talentoso e que encantava sem fazer esforço algum. Alisha era sedutora e divertida. Tinha confiança assustadora quando cantava e dançava. Era ela ao telefone quando Quinn estava na minha casa. Alisha me chamou para sair e eu aceitei, mas diferente do que Quinn provavelmente pensou não foi um encontro romântico.
Para começar, Alisha é heterossexual e tinha proposto uma noite de caça no qual ela arrumaria um homem para ela e seja o que fosse para mim. Aconteceu nem uma coisa nem outra. Terminamos a noite nos encontramos com Gomez e Sean, saímos para dançar e beber alguma coisa. Encontrei com Nick Brown, meu antigo colega de Across The Universe e foi muito bom saber que ele também seguiu em frente depois que eu e eles fomos demitidos. Separar de Quinn foi doloroso, mas isso me deu a oportunidade de começar a experimentar uma leve vida de solteira que era também interessante.
"Deveria ser mais profissional, Berry." Will reclamou no nosso intervalo. "Todos nós temos compromissos e ninguém está atropelando as coisas ao contrário de você."
"Fica na sua, Potter." Sean me defendeu e depois começou a massagear meus ombros. "Vai dar certo." Disse ao pé do meu ouvido.
"Será? Do jeito que Martin é sarcástica, ela vai nos fazer ensaiar horas extras."
"Não sob protesto do sindicato."
Os atores da Broadway tinham horas de trabalho estabelecidas, pelo menos em teoria. Costumavam ser mais respeitadas do que no caso de muitos atores de televisão, que ganhavam por episódio e ainda tinhas de cumprir agenda promocional. De qualquer forma, desmarquei o meu cabelo e unha. Repassamos o número mais uma vez e, para a minha surpresa, Martin nos dispensou. O marido dela apareceu no ensaio e parece que os dois também tinham planos.
Nem pensei e tomar a usual chuveirada. Corri e peguei um táxi direto para casa. Tinha pouco mais de duas horas para chegar, tomar banho, me vestir, fazer, maquiagem, sair e chegar à premiere. O elenco quase todo estaria lá, além de VIPs e meus amigos.
A corrida do táxi durou 10 minutos, Santana estava praticamente pronta quando cheguei, e corri direto para o banheiro. Meu banho foi o tempo certo de passar um sabonete e lavar os cabelos. Santana me ajudou a secá-los num procedimento de guerra. Por fim, coloquei o meu vestido curto, um modelo exclusivo de grife, meus sapatos de salto alto. Santana fez uma maquiagem de emergência, uma vez que ela era muito melhor nisso que eu. Unhas? Era melhor esconder as mãos ou não me preocupar com isso. Voamos em nosso carro e Santana deu uma de motorista ao me deixar no tapete vermelho. Nina estava lá a minha espera. Meus colegas de elenco faziam o trabalho com a imprensa. Só tive tempo de ser fotografada rapidamente e corri para dentro do teatro. Não vi onde Santana ficou, ou meus amigos. Fiquei ao lado de Ruth, uma das assistentes de produção e de Nina quando começou o primeiro episódio.
A edição ficou impressionante. Era a primeira vez que assistia ao resultado final e fiquei admirada com o desempenho de May e Will Passon. Que química! Simplesmente fantásticos. Acredito que apreciaria mais Grace Hemon se ela fosse menos diva. Então veio a abertura. Dez segundos de vinheta até o logo Slings and Arrows. A primeira parte, também focada nos atores veteranos, foi ótima. O ritmo da dramédia de 45 minutos era perfeito. Eu só fui aparecer no terceiro bloco. Foi só a introdução do meu personagem com o de Rom e de Amanda. Não tínhamos muito que fazer neste primeiro episódio, parecíamos mais figurantes, e Luis só apareceria no segundo episódio. Era estranho me ver pela primeira vez na tela grande de uma produção profissional. Apesar do pouco tempo de tela, acredito que poderia ter sido melhor, mas acredito que o elenco mais jovem conseguiu se sair muito bem. Luis, naturalmente, foi o melhor de nós. O segundo episódio foi exibido em seguida. Minha história e a de Luis começou a andar a partir dele. Tínhamos boa química juntos, isso era fato. Rom e Amanda, por outro lado, não formaram um bom par na tela.
Quando a sessão terminou em aplausos, Tom e Robert subiram ao palco para fazer alguns discursos e considerações. Perguntas não foram permitidas para a imprensa.
"Rachel Berry." Fui abordada por um crítico do Hollywood Reporter. "Meus parabéns. Fiquei positivamente surpreso com o piloto e a sequência."
"Obrigada." Respondi com Nina atenta à conversa.
"Parabéns mesmo. Não conhecia o seu trabalho. Sabia que você vem da Broadway, mas não imaginava. Prepare-se porque se essa série for descoberta pelos teens, você e o Luis não terão mais sossego."
Acenei e tratei de primeiro cumprimentar meus diretores e colegas de elencos. Todos estavam muitos felizes com o resultado final e de fato era um trabalho de primeira qualidade. Ganhei um beijo no rosto de Luis, de George e de May. Amanda me reservou um abraço caloroso, assim como Will Passon. Então veio Rom. Ele sorriu e me reservou um discreto beijo na cabeça. Depois nos separamos. Sabia que eu não gostaria de alimentar a indústria da fofoca com rumores sobre nós dois.
"Está linda." Rom disse perto do meu ouvido.
"Você que é extremamente gentil." Rebati.
A festa começou, fotógrafos faziam a festa e finalmente pude receber um abraço dos meus amigos que me prestigiaram. Johnny estava bem vestido, perfumado e num trato que a gente sabia que ele reservava para ocasiões especiais, como no dia em que ele conheceu meus pais no dia da formatura de Santana em Stuyvesant.
"Você arrebentou como sempre, Rach." Ele disse enquanto me dava um abraço de urso.
"Obrigada."
"Quem diria que aquela atriz exagerada do teatro amador em Lima conseguiria tomar jeito." Santana desdenhou, mas não seria minha irmã se não o fizesse.
Também foi cumprimentar Sean, Alisha e Gomez. Fiquei feliz que meus atuais colegas da Broadway também prestigiaram. E assim a festa prosseguiu. Mas parecia que alguma coisa faltava. Alguém. Quinn. Apesar de tudo, ela merecia estar presente porque vivenciou todo o processo em minha companhia. Eu não enviei um convite a ela, porque estava muito magoada pela discussão que tivemos no fim de semana. Naquela festa de bebidas e petiscos livres, procurei um lugar quieto e peguei meu celular. Cliquei no nome que fazia um mês que raramente acessava.
"Rachel?" Ouvi a voz dela de surpresa do outro lado da linha.
"Oi."
"Oi... aconteceu alguma coisa?"
"Não é que... hoje é a premiere da série e... acho que você merecia estar aqui..."
"Oh!"
"Desculpe, Quinn. Desculpe por não ter enviado o convite. Tenho certeza que você se divertiria na festa."
"Eu sabia que hoje era a premiere. Johnny me contou. Mas não estou chateada. Juro. Fiquei aqui rezando para que tudo desse certo." Não duvidava que ela torcia a favor, mas era mentira que não ficou chateada. "Rach?" Ela perguntou após meu breve silêncio ao telefone.
"Sim?"
"Desculpe pelo meu comportamento no dia em que esvaziamos o apartamento. Isso não vai se repetir."
"Tudo bem." Mais um breve silêncio até que tivesse coragem de dizer as palavras. "Te vejo em breve? Quer dizer, não em um encontro, mas gostaria que a gente pudesse se encontrar numa ocasião qualquer, circunstancial, e nos comportar como boas amigas. Apesar do nosso relacionamento, éramos boas amigas, Quinn, e eu sinto falta da minha amiga."
"Ficaria feliz em te encontrar qualquer hora. Ficaria feliz em conversar contigo sempre que quiser, mas eu nunca poderei ser sua amiga. Não de verdade. Não basta para mim ser apenas a sua amiga, porque de você eu sempre vou querer mais." Mais silêncio porque precisava absorver aquelas palavras. "Rachel?"
"Até mais, Quinn."
Desliguei o celular e respirei fundo para me recompor. Empinei o nariz e voltei para a festa da premiere. Ao longe vi Santana e Johnny mais próximos do que apenas bons amigos estariam e franzi a testa. Será? Tomei o caminho oposto. Vai que meus olhos não me iludiram e havia mesmo algo mais rolando entre aqueles dois. Eu não me oporia porque adorava Johnny e, no fundo, bem que ele seria o cara certo para fazer a minha irmã esquecer Brittany de uma vez por todas.
"Que festa ótima, Rachel." Gomez se aproximou e me entregou uma taça de vinho.
"Cuidado que elas são bem mais perigosas do que as festas de promoção na Broadway, pode apostar."
"Vejo que sim. Aquele cara não deveria ser o seu suposto namorado?"
Apontou para Rom. Até um sujeito meio desligado como Gomez sabia das fofocas.
"Ele é só um bom amigo meu. Nunca tive nada, absolutamente nada com ele... a não ser um beijo casual."
"Isso é excelente."
"Por quê?"
"Por que eu gostaria de te convidar a sair e seria muito chato se você estivesse de rolo com um colega do elenco da TV." Fiquei muda e surpresa. "Então Rachel Berry, que tal um encontro?"
