(Quinn)
A luminosidade estava uma porcaria para se controlar. Sabe quando a proposta do roteiro era de um dia nublado, melancólico, que refletisse com perfeição o espírito do personagem? Existia uma razão para que se rodasse no outono para tal. Então chega o dia das filmagens, em que a equipe se dispõe realizar o projeto e faz sol em Nova York.
"Vamos usar lente azul." Disse para o câmera e para o diretor. "Sinto muito, mas a não ser que se crie uma metáfora de conflito entre clima interior do personagem e clima exterior, essa é a solução mais rápida e barata que temos."
"Usar metáforas?" Ryan, o diretor, me questionou.
"É... como mostrar o personagem em conflito ao lado de pessoas tomando picolé na rua, crianças no parque e coisas assim. Você cria o truque, eu não preciso mexer com lente de cor e a gente não perde o dia."
"Use a lente." Ryan decidiu. "Eu não gosto de filmes azulados, mas que merda que o sol resolveu aparecer em Nova York."
Acenei, puxei o câmera e os assistentes para trabalhar com a lente azul. Peguei minha câmera e meus equipamentos para fazer a melhor análise de tom. Não poderia exagerar. Precisei de vinte minutos para organizar tudo e ter a aprovação de Ryan. Então ele mandou o ator se posicionar, fizemos uma última medição antes da ação. O curta-metragem era sobre o último dia de uma pessoa. O defunto narra o dia em que ele morreu de forma inesperada. Ele passa o dia inteiro com uma sensação estranha, melancólico, saudoso. Depois do único momento de felicidade frívola que ele teve naquele dia, que foi um beijo no rosto que recebeu de uma desconhecida depois de um favor, sofre um ataque fulminante no meio da rua.
O alvo do filme era o festival de Tribeca de 2016, mas como a grana tinha saído naquela época, teria de ser gasta ou orçamentos poderiam ser alterados. Nunca era possível arriscar.
"Você está saindo da posição toda hora." Reclamei com o ator depois que filmamos o primeiro take. "Se ficar indo pro lado da rua vai estourar a luz."
"Mas a movimentação é melhor assim." O ator reclamou. "Vai parecer mais natural."
"Então ponha o seu talento à prova e pareça natural dentro da marcação determinada, Phill." Comemorei a ordem de Ryan. Atores achavam que o mundo era o palco deles. As coisas não eram assim.
A cena saiu. Assim como todas as outras do dia até que o fim da tarde chegou e Ryan dispensou a equipe porque não havia mais como gravar as externas. Coloquei minha câmera e meus equipamentos próprios na mochila, e saí correndo para a imobiliária. Precisei fazer acordos com o patrão. Tinha dois apartamentos para fotografar e colocar as fotos no site no mesmo dia.
"Oi Quinn." Rose, a recepcionista, fez cara de entediada. Estava chegando a hora de saída do expediente, e entendia a razão de ela mal esperar para dar o fora dali. Era ela quem abria e fechava o escritório todo santo dia. "Marion deixou as chaves dos apartamentos e os endereços. Disse que estão vazios e que é para você colocar as fotos até as dez da noite."
"Obrigada."
Peguei os envelopes e deu vontade de morrer quando vi que um apartamento ficava na E 4th St, Bowery, Manhattan, e o outro em 510 Jefferson Ave, Bed-Stuy, Brooklin. Isso para depois voltar para casa em Washington Heights, periferia de Manhattan. Por favor, me mate.
Peguei o metrô e fui para o Brooklin primeiro. Precisei consultar o mapa no meu celular para ver qual estação descia e como chegaria. A resposta foi simples: gastando a sola do meu sapato. O problema era que estava escuro, mas que remédio? O apartamento ficava ao lado de uma fábrica antiga. Era vazado, mobiliado e custava uma fortuna que eu não teria condições de arcar nos meus melhores sonhos. O espaço era excelente, com dois quartos, cozinha separada da sala, banheiro e lavabo, além de área verde atrás a ser dividida com quatro vizinhos. Tirei as fotos o mais rápido que pude, fechei o apartamento e corri de volta a Manhattan. Tive medo de adiantar trabalho no metrô e ficar sem todas as minhas coisas. Pelo menos o apartamento da Bowery ficava mais próximo da estação. Este era um de três quartos gigantes, que estava à venda no prédio da esquina com a Segunda Avenida. Outro ótimo imóvel que só teria nos meus mais belos sonhos.
Voltei para casa eram quase dez da noite, e praticamente corri para o meu prédio. Não pelos perigos do local, que estava me habituando. O que se precisa fazer quando se mora em um local dito perigoso, e procurar conhecer a vizinhança. Eu fiz amizade com os donos e funcionários de pequenas lojinhas da redondeza que frequentava. Fiz amizade com a moça do salão de beleza, quando fui lá um dia para cortar dois dedos do meu cabelo e fazer as unhas. Eram pessoas-chave, influentes na área. Gente que diria aos traficantes e similares: "não incomode Quinn Fabray, porque ela é uma boa garota". Nada era garantido. Não queria dizer que isso me impediria de eu levar um tiro, ou ser roubada, ou que fosse estuprada, sequestrada e forçada a ser uma escrava sexual no Oriente Médio. Queria dizer apenas que a vizinhança me conhecia, sabia que eu era de paz, e não mexeria comigo sem uma razão.
"Quinn!" Santiago parecia preocupado quando quase arrombei a porta da frente, e fui direto ao meu quarto pegar o meu computador. "Achei que chegaria nunca. Estava preocupado."
"Filmando e depois tive de fazer trabalhos para o diabo dessa imobiliária." Resmunguei já pegando a minha máquina para descarregar as fotos.
"Atender ao celular às vezes é bom."
"Desculpe, Tiago." Me permiti respirar. "É que o dia de hoje ainda nem terminou. E o patrão é um saco. O cara disse que quer ver as fotos às dez. Quer dizer que eu tenho dez minutos para terminar o meu trabalho, que nesse momento vou fazer de maneira porca só para cumprir o horário. Amanhã eu arrumo as cagadas."
"Quer ajuda?"
"Não porque eu já tenho o sistema."
Fiz um serviço de porco ao tratar as fotos, mas estava em estado de emergência. Usei todos os recursos automáticos do photoshop. Os músculos das minhas costas estavam como rochas e ardiam. Suor escorria pelo meu rosto. Trabalhava o mais rápido que podia dentro do máximo de atenção ou trocaria cômodos arquivos, apartamentos e seria demitida no dia seguinte. Quando terminei de postar a última imagem dentro do mínimo que a imobiliária exigia para cada tipo de imóvel, me deu uma vontade de chorar, desses desabafos que se faz quando se está à beira da exaustão.
"Terminou?" Santiago apareceu à porta do meu quarto. Estava com as duas mãos no rosto, fingindo que não estava olhando caso eu estivesse pelada ou algo assim. Já aconteceu uma vez: ele me flagrar pelada. Acidentes aconteciam também quando eu dividia o quarto com Mike, então não me estressei tanto assim. Naquele momento, com todas as roupas sujas e suadas ainda no meu corpo, apenas resmunguei.
"Hum hummm."
"Beleza, Fabray." Permaneceu à porta do meu quarto como fazia quando tinha algo a me contar. Não que ele ficasse necessariamente à porta do quarto, mas me encarava esperando não sei o quê. Era uma espécie de cacoete de Santiago que nem sempre estava com paciência. Era como se ele fosse um vampiro, que pedia permissão toda que vez que queria entrar em um lugar.
"O que foi?" Disse irritada querendo tirar minhas roupas do armário e finalmente tomar uma chuveirada no nosso minúsculo e encardido banheiro.
"Vai ter o processo de seleção da Bad Things. As inscrições iam até hoje."
"Mesmo? Por que não me avisou?" Fiquei irritada.
"Talvez porque você não atendeu o telefone!"
"Mas você trabalha na merda da produtora. Podia ter me avisado antes."
"Escute. Eu não avisei antes, porque eu me desliguei disso. O trabalho lá é pauleira, e paga-se pouco. Mas é melhor e dá mais currículo do que tirar fotos de apartamentos. Então quando eu fiquei sabendo e tentei te ligar para avisar, deixei até mensagem, e você não me respondeu..." Conferi o celular. Cinco mensagens de Santiago que eu não olhei. Droga.
"Desculpe Tiago, eu tive um dia cheio..."
"Deixa eu terminar de falar." Ele bronqueou. "Como você não me atendeu, eu tomei a liberdade de te inscrever."
"O quê?" Levei um susto. "Como?"
"Eu tenho os seus dados, o número do seu seguro social, e o seu currículo salvo no meu computador. Tudo que precisei fazer foi te inscrever no sistema."
Imediatamente, entrei no meu email. Vi uma resposta automática da Bad Things dizendo que a minha inscrição foi efetuado com sucesso. Deu um salto e abracei Santiago, dando também um beijo na bochecha dele.
"Obrigada! Nunca fiquei tão feliz em ter uma inscrição para trabalhar no lugar dos sonhos e ganhar um salário que mal vai dar para comer!"
"O grande lance, Fabray, é que o chefe sempre pede indicações ao pessoal que está lá. Então... Não custou nada fazer um reforço."
"Mas por que eu estou me enganando? Vai ser impossível!" Disse ríspida. "Como posso participar de um processo de seleção com um curta-metragem em curso? Filmagem de uma semana. Essas pessoas me pagam, Santiago. As coisas não são assim."
"Você tem certeza que vai deixar passar essa oportunidade para ficar presa eternamente a esses trampos que você odeia? Só existe duas maneiras de se entrar na Bad Things: começando por baixo como estagiário, onde você vai fazer praticamente um intensivão de cinema e de audiovisual, ou já com o nome feito dentro do mercado. Nesse momento, a primeira opção é bem mais viável."
"Desculpe, Tiago. Eu só estou mentalmente exausta. Ok? Prometo que vou pensar melhor sobre o que fazer."
Santiago saiu do meu quarto e eu fiquei aliviada. Peguei minha roupa e fui tomar banho. Parecia até piada divina porque enquanto me ensaboava a água esfriou. Só podia ter feito todas as coisas que as pessoas falavam que faziam numa maré de azar ou dificuldades e um pouco mais. O que era aquilo? Purgatório, inferno astral. Era castigo? Não tinha remédio a não ser terminar o banho frio. Vesti meu pijama e meu estômago roncou. Alto. Dei-me conta que não comia nada desde o sanduíche do almoço. Passei por Santiago, que assistia televisão sentado nos almofadões de segunda mão que arrumamos para ser a nossa sala. A TV ficava em cima da escrivaninha que foi de Santana e que era a única coisa do meu antigo apartamento que cabia neste menor e pior. A gente não tinha muitas opções de comida. Como dizia Santana: comer bem é caro. Peguei o macarrão instantâneo sabor bacon, coloquei água no copo e depois levei ao microondas.
Sabia que tinha feito um bom trabalho ao longo do dia, mas estava frustrada. Depois que pedi demissão da R&J, a impressão que tinha era que a minha vida profissional estava numa ladeira: para descer era só relaxar o corpo, e para subir era preciso um esforço descomunal. Eu não queria estar em ladeiras: eu gostava de planícies. Verdade que tinha 21 anos e muito ainda que fazer. Mas na R&J, eu tinha um emprego de 6 horas e ganhava bem. Era assistência de produção basicamente, e eu pouco trabalhava com fotografia ou filmagens, mas as coisas eram melhores. Eu joguei isso fora por causa de Rachel. Por cumplicidade a ela. No fundo, sabia que não era justo, que ela jamais me cobrou tal coisa, mas o que aconteceu? Ela foi parar na droga da HBO. E eu? Era o que dava misturar as minhas relações pessoais com profissionais. Deu vontade de chorar.
"Posso te dar a minha opinião?" Santiago disse quieto.
"O quê!" Esbravejei. Minha mente e meu humor deixaram-se envolver pelo meu esgotamento físico e mental.
"Nada..." Resmungou e cruzou os braços.
"Agora você vai falar."
"Oh, eu não me lembro exatamente que dia do processo seletivo da Bad Things, você vai ter que checar isso, mas eu sei de uma coisa dessa empresa: eu trabalho pra caramba lá, Fabray, e ganho um salário que mal dá para o aluguel mais os tickets de alimentação e transporte. Você sabe disso. Mas a Bad Things tem uma estrutura do caramba, eu aprendo coisas novas todos os dias, e vale à pena fazer parte disso. Eu vejo você toda frustrada tirando foto de apartamento. Cara, isso não é vida para você. Não é a sua. Isso é trabalho legal para fotógrafo mequetrefe de festa de casamento, não para Quinn Fabray. Você vai entrar no bolo para fazer os testes. Duram dois dias, mas não são complicados. É uma provinha de conhecimentos técnicos gerais, um teste de psicológico desses de RH e uma entrevista de dez minutos. Se você passar nessa etapa, eles chamam quem passar para fazer um teste prático, que é basicamente trabalhar por lá por um dia. Os dois ou três melhores ficam. Fim. Não tem segredo."
"Eu não sei, Tiago."
"Fabray, eu fiz a minha parte como teu amigo. Aparecer vai ser problema seu."
...
14 de outubro de 2015
(Rachel)
Teatro St. Luke's . Ainda não havia chegado à grande Broadway, mas pela primeira vez pisava em Times Square à trabalho. Estava excitada com o bom momento que vivia em minha carreira. Slings and Arrows recebeu ótimas críticas na estreia, e estávamos com 96% no Rotten Tomatoes da crítica, e 92% do público. Quando as opiniões da crítica e do público se encontravam, esse era o cenário ideal para qualquer produção.
Tivemos ótimas avaliações dos veículos que importavam: New York Times, Los Angeles Times, Washington Post, Huffington Post. Além dos populares e necessários Hollywood Reporter, E!, A.V Club, Hit Fix, EW. Embora o tamanho da audiência não seja espetacular dentro de um canal por assinatura como a HBO, sabíamos que estava no caminho certo e já havia burburinhos sobre a segunda temporada.
Foi uma corrente de telefonemas no dia da estreia e nos dois seguintes. Até mesmo os atores veteranos estavam ansiosos com o falatório, porque havia um consenso no elenco de que todos gostariam de voltar para uma segunda temporada. Era um trabalho de três meses em média, em que se ganhava o justo, trabalhava-se com um ótimo texto e havia dinheiro para uma boa produção.
Rom era um dos mais animados, porque era a primeira produção considerada de qualidade que ele participava aos olhos da mídia. Luis achava que a série iria ajudar a alavancar mídia para o filme independente dele. Amanda? Ela se preocupava muito com o namorado roqueiro dela.
Depois de dias incríveis na televisão: St Luke's, em Times Square.
"Ahhhh" Alisha gritava no centro do palco enquanto a gente explorava o ambiente e tomava posse dele, ou ele de nós. "Freedom, freedom, freedom..." Começou a imitar o George Michael e nós começamos a rir.
"Pessoal!" Otis, o assistente de direção, chamou o elenco no palco para conversar. Estávamos todos reunidos, inclusive os veteranos, figurantes e dançarinos. "Paul deve chegar para assumir de vez a direção na próxima semana, enquanto isso, ele pediu para e a gente trabalhasse as marcações de ato por ato em ordem para não atrapalhar o andamento do trabalho. Como dezembro é um mês curto, precisamos estar com a peça tinindo até o final de novembro para os ensaios gerais."
A peça começava comigo cantando Life on Mars à capela e foi assim que Otis sugeriu que começássemos os trabalhos no palco em que encenaríamos a peça escrita por David Bowie. Eu me posicionei no centro do placo, algumas pessoas do elenco a minha volta e outras se posicionaram nas poltronas. Respirei fundo e procurei canalizar a minha personagem para encontrar a interpretação correta.
"It's a God awful small affair/ to the girl the mousey hair/ but her mummy is yelling, no!/ and her daddy has told her to go/ but her friend is no where to be seen/ now she walks through her sunken dream/ to the seats with the clearest view/ and she's hooked to the silver screen/ but the film is sadd'ning bore/ for she's lived it tem times or more/ she could spit in the eyes of fools/ as they ask her focus on"
Era como se o teatro desaparecesse, o que era bom para mim porque no plano original era eu entrar e cantar em completo breu.
"Sailors fighting in the dance hall/ oh man! Look at those cavemen go/ it's the freakiest show/ take a look at the lawman/ Beating up the wrong Guy/ Oh man! Wonder if he'll ever know/ he's in the best selling show/ is there life on mars?"
A última nota era estendida, bem Broadway e arranquei aplausos dos meus colegas. Continuei a segunda parte da canção e terminei com algumas lágrimas no rosto. Era uma canção forte, e eu a cantei com vontade. Era para dizer ao St. Luke's que Rachel Berry-Lopez havia chegado.
"Lindo!" Alguns dos meus colegas aplaudiram de pé.
"Muito bom, Berry." Otiz estava mais contido, com jeito de que não estava impressionado. "Bom pessoal, após essa abertura de gala, vamos dar uma passada ligeira pela peça e amanhã a gente começa pelo primeiro ato."
No final do expediente, Gomez me abordou e me deu um selinho nos lábios. A gente estava saindo juntos. Começamos com um café dias depois da estreia de Slings para a imprensa. Ele era um homem muito charmoso, bom de papo, latino de origem espanhola. Era também o meu primeiro esforço para esquecer Quinn e seguir adiante. Não rolou nada no nosso primeiro encontro. Eu expliquei que estava me recuperando do rompimento de uma relação longa, e Gomez entendeu.
Fomos a um restaurante italiano em nosso segundo encontro, e as coisas já fluíram mais naturalmente, apesar de eu ainda estar me acostumando com a ideia de voltar a sair com um homem. É até surreal pensar que Finn Hudson foi o meu último namorado. Gomez e eu nos beijamos no segundo encontro. Devo admitir que ele beijava muito bem. Mesmo namorando Quinn, eu beijei homens porque a profissão pedia. Apesar da técnica do beijo, de movimentar apenas os lábios, sim, as línguas se encontravam algumas vezes, e aprendi, desde os tempos de Across The Universe, que era melhor não grilar e nem se estressar com isso.
Mas beijar por querer, porque faz parte de um romance pessoal, era outra história, outra vibração. Não se fazia isso diante de uma câmera. Era por você mesma. E beijar um homem nessas condições era totalmente diferente. Gomez não era tímido, e desde o primeiro momento deixou bem claro, não em palavras exatamente, mas eu atitudes, que ele queria ir para a cama comigo. A questão é que eu não sabia se eu estava preparada para ter sexo com um homem pela primeira vez. Esses grilos sempre voltavam a minha cabeça quando eu via Gomez nos bastidores.
"Continua impressionante, Rachel." Só tínhamos feito um ensaio de canto ainda durante as leituras, e aquela foi a primeira vez que eu mostrei aos colegas de elenco a verdadeira extensão da minha voz.
"Obrigada."
"Sai logo com ele!" Alisha passou por nós. "E acabe de uma vez com isso."
Gomez sorriu sem-graça e eu olhei para o lado. As pessoas do elenco faziam seus próprios negócios cuidavam das próprias vidas, cuidavam dos problemas. Eram quatro da tarde e havia muito que fazer pela cidade e no dia. Santana, àquela hora, estava na Weiz Co e eu não tinha mais o que fazer pelo resto do dia a não ser ir à academia e depois preparar o jantar. Não tinha planos com mais ninguém, e Gomez era uma boa companhia.
"O que tem em mente para hoje?" Perguntei.
"Que tal um cinema? Depois a gente poderia passar em um bar, curtir o ambiente, relaxar um pouco..."
"Parece uma boa ideia."
Olhei para os lados. Ainda estava insegura, mas arrisquei um beijo em Gomez. Ele correspondeu no mesmo segundo, me envolvendo nos braços dele. Que droga, o pior de tudo é que ele tinha pegada. Parti os lábios, a língua dele entrou. Então ele rompeu o beijo e sorriu. Afastou-se e piscou. Ele sabia seduzir.
Deixei um recado no celular da minha irmã dizendo que poderia chegar em casa mais tarde. Saí do teatro de mãos dadas com Gomez e fomos ao cinema na Oitava Avenida. Gomez não era um latino típico de pele morena, como meu pai ou Santana. Ou mesmo eu. Ele era espanhol, branco, olhos azuis intensos e o cabelo preto como carvão. Gomez nem era o primeiro nome, mas o segundo. O primeiro era Heráclito: Heráclito Gomez Diaz. O pai dele era professor de filosofia clássica. Os pais se divorciaram quando era pequeno e a mãe casou-se novamente com um americano. Ele veio para Nova York com a mãe e o padrasto aos seis anos de idade, e mora aqui desde então. Diz que ainda vai a Valência uma vez por ano para visitar o pai e a família.
"Valência é maravilhosa. Acho a cidade mil vezes mais bonita que Nova York. Não tem nem comparação, mas eu não tenho muita identificação com a cultura espanhola. Eu fui criado aqui, tenho cidadania americana, mas as pessoas acham que eu preciso me portar como o estrangeiro, por alguma razão."
"É exatamente isso!" Concordei com Gomez quando sentamos no bar e pedimos alguns drinks. "Quando as pessoas ficam sabendo que o meu Lopez vem do Chile, passam a me olhar diferente. Meu pai e abuela que me perdoem, a história da família é linda, mas eu sou americana e não me identifico em nada com o Chile, apesar de já ter ido a Santiago duas vezes."
"Então você realmente entende." Brindamos. "Qual a história da sua família Lopez?"
"Meus avós vieram fugindo da ditadura de Pinochet. Eles eram militantes do partido comunista e precisaram deixar o país para não morrer. Meu pai tinha 11 anos quando chegou, e disse que o inglês dele se limitava a algumas frases."
"Trágico."
"Bom, ele superou. Todos superaram. Faz parte da história."
"Fala espanhol?"
"Tan fácil como salgo a cantar." Rimos alto. "As reuniões familiares entre os Lopez costumam ser em espanhol, e às vezes minha irmã e eu conversamos neste idioma em casa. Meu pai ainda fala muito em espanhol conosco quando não há mais ninguém por perto."
"Por que não escolheu o Lopez como nome artístico? Ou manteve os dois? Ficou tão bonito: Rachel Berry-Lopez. Soa bem."
"Porque Rachel Berry-Lopez não cabia no cartaz de Songbook! Muito longo para a diagramação que fizeram à época. Roger sugeriu para que eu optasse, então peguei o Berry em homenagem ao meu pai que faleceu."
"Incrível você ter sido criada por dois pais gays."
"Tecnicamente, um pai gay e um pai bissexual."
A conversa estava agradável. A gente bebia e falávamos dos mais diversos assuntos. Até mesmo discutimos se Leonardo di Caprio era ou não hipervalorizado.
"Mesmo?" Gomez questionou. "A performance de Michael Fassbender foi muito superior. Aliás, estou para ver um filme que esse alemão não esteja bem. Sou o maior fã dele."
"Eu não vi o filme com Fassbender, mas sei que ele só faz filme que não me atrai: X-Men, Bastardos Inglórios, Prometheus? Não faz o meu estilo."
"E o que faz o seu estilo?"
"Musicais, por exemplo."
"Musicais? Tipo Pitch Perfect e toda a baboseira que a Anna Kendrick faz? Tão literal assim?"
"Pitch Perfect é escapismo, Anna Kendrick é ótima, e a última adaptação de Les Mis para o cinema foi uma merda colossal. Mas eu gosto dos musicais clássicos, em especial os estrelados por Barbra Streisand."
"Não se arme. Ator de musical aqui, Rachel. O meu sonho é produzir um musical que envolva um casal que dança tango. Mas queria colocar toda a angústia e filosofia que envolve a música, a paixão, a força."
"Como você faria isso?" Fiquei curiosa.
"Ainda não sei. Como roteirista eu sou um excelente ator."
"Você já tentou escrever um roteiro?" A conversa começou a ficar interessante de verdade.
"Tenho dois roteiros engavetados em casa.
Gomez me chamou para dançar num outro bar com temática cubana que ficava próximo ao apartamento dele. Algo para fechar a noite. Aceitei, afinal, era o nosso terceiro encontro, éramos adultos e não faria mal tomar uma taça de vinho antes ir para casa e conversarmos trivialidades. O bar tinha mesmo decoração alegre, com som ambiente caribenho. Gomez escolheu uma mesa para dois num ponto mais reservado, e logo fomos atendidos por uma garçonete em um uniforme com avental laranja chamativo. Ela nos ofereceu o cardápio, que tinha uma carta enorme de drinks e pequenos petiscos. Escolhemos plátanos, que são lascas de banana frita: é um sabor espetacular, além de amendoins. Pedi um drink chamado Acapulco, com rum, tequila e suco de laranja com abacaxi. Gomez foi de um Long Island Iced Tea, que era famoso por ser bem forte.
"Isso aqui é o paraíso." Disse assim que experimentei o meu drink.
"Não disse que esse lugar era espetacular?"
"Você vem muito aqui?"
"Estive aqui umas duas ou três vezes. O filé é ótimo."
"Sou vegetariana!"
"A salada também é ótima!" Gomez completou tão rápido que começamos a rir.
Nós jantamos e tomamos mais um drink. Eu estava me divertindo e solta o suficiente para dançar salsa com Gomez. Todas as minhas aulas de dança não me prepararam para ter o molejo necessário, mas a minha cintura dura não me impediu de dançar a valer. Estava envolvida os braços de Gomez. Mesmo que tivesse bebido um pouco mais, estava ainda em perfeito juízo, capaz de tomar decisões. Estava dançando um ritmo envolvente nos braços de um cara lindo. Ele era divertido, me fazia rir e quando mal percebi, estávamos nos beijando sem receios.
"Quer subir para o meu apartamento?" Ele perguntou.
"Claro!"
Gomez pagou a conta e de mãos dadas fomos andando até o edifício em que ele morava, que ficava a duas ruas do bar. Ele dizia coisas engraçadas, piadas bobas sobre o nosso meio, e as vezes me beijava. Pegamos o elevador, e eu nem reparei que andar era o apartamento dele. Só sei que estávamos nos beijando loucamente pelo corredor. Ele abriu a porta, e mal entrei e fui prensada contra a porta. Estava me sentindo sexy e desejada. Eu podia sentir a ereção dele. Minha mente estava um pouco nublada devido aos drinks, mas eu sei que estava sendo levada pelo momento. Queria ser levada pelo momento.
Ele beijou o meu pescoço, apertava meus seios. O toque era completamente diferente de Quinn. Era mais cru, rudimentar. Não sabia como comparar. Mas eu estava excitada. Gomez levou a mão para dentro da minha saia e da minha calcinha. A técnica dele de estimulo não era muito boa. Era como se ele estivesse querendo mais ver o quanto eu estava molhada do que me fazer me sentir bem.
"Você me quer?" Ele sussurrou no meu ouvido enquanto esfregava o meu clitoris.
"Quero."
Ele me penetrou com o dedo. Continuou a me beijar enquanto o dedo dele explorava a minha vagina. Então ele tirou as mãos momentaneamente. Tirou a camisa, e tirou a minha roupa. Me carregou até o quarto dele, deitou-me na cama, passou a mão pelo meu corpo, e desabotoou a calça.
Eu fiquei nervosa quando vi um pênis de verdade ereto, bem na minha frente, pela primeira vez.
"Seja gentil, por favor." Sussurrei.
"Você tem uma boceta linda. Tão perfeita."
Ele mudou de posição momentaneamente e posicionou a cabeça entre as minhas pernas. Sugou um pouco o meu clitoris e me lambeu. A estimulação oral durou até a curiosidade dele saber qual era o meu gosto passar. Então se reposicionou entre as minhas pernas. Parecia não ter pressa alguma. Eu era uma virgem para esse tipo de sexo. Era a minha primeira vez de novo. Gomez pegou a cabeça do pênis e o friccionou ao longo da minha vulva, uma, duas, muitas vezes. Não era ruim, pelo contrário, estava me levando ao gozo, mas era meio alienígena. Então ele me penetrou. Foi algo completamente diferente do que quando Quinn usava o nosso amiguinho. Por mais que no fundo da minha cabeça pedia para que eu não gostasse de ter sexo com um homem, eu gozei.
...
15 de outubro de 2015
(Rachel)
Santana enrolava com o café. Odiava quando fazia isso. O normal da minha irmã era simplesmente comer e comentar uma coisa ou duas. Não abocanhar lentamente o cereal com leite e banana enquanto me encarava como uma policial prestes a interrogar o suspeito de um crime. Tinha era medo dela nessas horas, e me sentia novamente como a velha Rachel de Ohio acuada pela irmã popular, bitch e dominadora.
"Para com isso!" Apelei e ela não se abalou. "Para de me olhar como se estivesse me julgando."
"Eu não estou te julgando, Rachel Barbra Berry-Lopez. Só estou aqui sentada à mesa somando meu café da manhã."
"Então para de olhar para mim."
"Vou olhar para quem mais? Para Filomena, a fantasminha nem tão camarada que vive escondendo as rosquinhas dos meus brincos?"
"Talvez se você colocasse suas jóias e bijuterias num lugar só, Filomena, a fantasminha não-camarada não teria como agir."
"Digamos que a Filomena, a fantasminha não-camarada estivesse atrás de você, por isso que não consigo desviar o meu olhar."
"Ok!" Esbravejei. "Eu saí com Gomez ontem, por isso que cheguei em casa de manhazinha. Feliz agora?"
"Oh!" Mesmo com uma resposta franca e direta, Santana continuou com o mesmo olhar. Por longos cinco minutos. Eu não aguentei.
"Não está atrasada para uma classe na Columbia ou algo assim?"
"Você transou com ele?" Agora ela foi direta do que poderia suportar.
"O quê?"
"Oito meses dividindo espaço na mesma barriga, Ray. Acha que o sexto sentido só funciona contigo? Você transou com o cara ou algo assim? Porque seria estranho saber que você perdeu a sua condição de gold star."
"A gente..." Suspirei. Eu não poderia mentir para a minha irmã. Não sobre isso. "Não esperava que isso acontecesse. Acho que bebi um pouco. Não tanto a ponto de ficar bêbada e não conseguir mais discernir as coisas. Eu estava me divertindo e... aconteceu. Acordei antes do sol nascer, deixei um bilhete e peguei um táxi. Foi o que aconteceu. Mas antes que você diga qualquer coisa, eu sou adulta e estou solteira."
"Você usou proteção?"
"Não..." Falei morrendo de vergonha de mim mesma.
"Rachel! Como você pôde transar com um cara sem proteção?" Minha irmã gritou comigo. "Eu que sou eu jamais me arrisquei assim."
"Não é que eu esteja familiarizada com preservativos, Santana! Foi a primeira vez que estive com um homem!" Gritei de volta e minha irmã ficou atônita. Eu fiquei atônita.
"Precisamos ir à farmácia!" Ela foi logo se levantando e pegando o casaco. "Precisamos comprar a pílula do dia seguinte. É o mínimo!"
"Santy..."
"Agora Rachel! Não tem discussão! Ao contrário de mim, você nunca tomou anticoncepcional. Seu organismo tão está envenenado. Uma gota de esperma te engravidaria fácil. Sem falar das outras coisas."
"Não enche."
"Não enche? Você não se lembra do mantra que um certo dr. Lopez mandou a gente recitar? Camisinha evita gravidez e doença? O mesmo dr. Lopez que mandou a gente pesquisar sobre dez DST's diferentes e fazer uma apresentação?"
"Porque você transou com Puck e jogou isso na cara dele..."
"Rachel Barbra Berry-Lopez, você deveria saber melhor!"
Suspirei. Minha irmã tinha razão e eu começava a sentir o peso de minhas decisões. Como pude me deixar levar desse jeito? Eu não posso negar que eu quis fazer sexo. Mas agora tinha essa culpa no meu peito porque o fiz sem proteção com um homem que, na verdade, eu mal conheço além da convivência no trabalho.
A farmácia era próxima, no mesmo quarteirão de nossa casa. Santana me obrigou a pedir o remédio para o balconista, e eu nunca pensei que sentiria tanta culpa. Assim que retornamos para casa, Santana me obrigou a tomar o remédio na frente dela, e fechou o cenho.
"Você não pode me julgar, Santy!" Insisti. "Você já teve sexo casual com homens e mulheres! Por que está me julgando?"
"Sim, eu tive sexo casual algumas vezes, mas uma coisa que eu nunca fiz da minha vida foi fazer sexo desprotegido com um cara! Rachel! Fazer sexo casual não é crime, mas isso não é você! A Rachel Berry-Lopez que eu conheço jamais teria sexo casual! A Rachel Berry-Lopez que eu conheço é uma garota de relacionamento!"
"Para de gritar comigo!"
"Eu não estou gritando!"
"Eu não cometi um crime, Santana!" Disparei. "Eu passei todo esse tempo me sentindo miserável por causa da Quinn. Sem conseguir sorrir com naturalidade, chorando baixinho à noite, e até me sentindo culpada. Ontem eu tive um pequeno momento em que me diverti e esqueci por um segundo que Quinn Fabray existe. Foi um ótimo segundo, Santy. Desculpe se eu cometi um erro. Desculpe se eu não sou uma mulher experiente com sexo heterossexual, a ponto de me lembrar todas as vezes de usar camisinha. Você já me fez tomar remédio, e pode deixar que assim que puder eu farei exames! Se der merda, coloque na minha conta! Mas você não pode me julgar!"
Santana respirou fundo e dentou na cadeira da cozinha, porque era o único lugar da casa em que poderíamos sentar além de nossas camas. Tínhamos uma enorme sala vazia, em parte por falta de tempo, em parte porque nunca chegamos a um consenso sobre a decoração. Ela olhou para o café da manhã que não foi arrumado, para a louça por lavar. Eu me sentei na outra cadeira da mesa em nossa cozinha e fiquei amassando o miolo do pão.
"Isso quer dizer que você está disposta a seguir adiante ou algo assim?" Santana me perguntou com mais calma.
"Eu... eu... sinceramente, Santy? Eu não sei..." Praticamente desabei sobre a mesa. "Gomez é lindo, e quando a gente fez... foi prazeroso, não vou negar. Eu gostei. Mas agora que tudo isso passou... eu não sei, Santy..." Levei minhas duas mãos à minha cabeça numa posição de arrependimento. "Eu não tenho certeza se eu estou preparada para seguir adiante. Eu ainda amo Quinn, mas eu também não estou preparada para perdoá-la, muito menos para voltar. Eu sei que nós iriamos cometer os mesmos erros, e isso seria fatal."
"Se foi esse o motivo, digo que essa sua noite de liberdade foi um movimento bem arriscado, Ray. Porque enquanto você espera Quinn cair na real, outras pessoas vão surgir neste meio tempo. Aconteceu ontem contigo, pode ter acontecido com ela também, e não será a primeira e nem a única vez. Se o seu objetivo é voltar, então não brinque com fogo. Mas se o seu objetivo é seguir adiante, fique com Gomez ou com outra pessoa que te atraia, mas use proteção!" Ela disse com autoridade, apontando o dedo para mim.
"Como pode ser tão certa disso?"
"Porque merdas acontecem quando se brinca com fogo. Foi nessas circunstâncias que eu transei pela primeira vez com Puck. Aliás, foi assim que a sua ex-namorada ficou grávida. Não duvido nada que deve ter sido assim Brittany ficou grávida. Merdas acontecem por causa de casualidades." Santana tinha um ponto mais que válido.
Minha irmã olhou para o relógio e levantou da mesa sem a menor cerimônia em deixar pratos sujos do café para eu lavar. Me deixou sozinha na cozinha e foi para o quarto dela. Cinco minutos depois, voltou a cozinha, e viu que eu não tinha conseguido me mexer. Estava de mochila nas costas.
"Agora sim estou atrasada para a primeira aula. Obrigada, Rachel Berry-Lopez!"
Esqueceu a bengala encostada na parede da sala. Desisti de brigar com ela para usar o objeto. Deixaria essa responsabilidade para o médico. Organizei a mesa antes de sair para os ensaios da manhã. Estava ansiosa e com certo temor de encontrar com Gomez. Seria inevitável. Mesmo assim me esforcei. Dei bom dia para o porteiro, para o segurança, para os funcionários da produção. Cumprimentei meus colegas e procurei ao máximo não me aproximar dele. Impossível. No primeiro intervalo, ele me cercou na entrada o banheiro e me beijou.
"Interessante o bilhete que você me deixou."
"Desculpe. Eu nunca fiquei com alguém casualmente, e entrei em pânico. Desculpe mesmo!"
"Então o nosso lance foi coisa de uma noite só?"
"Posso ser sincera contigo?" Ele acenou e eu suspirei antes de continuar. "Eu não sei o que fazer. Eu terminei recentemente um relacionamento de três anos com uma mulher, e não superei isso ainda. Ontem foi incrível. Você foi incrível. Mas eu te usei."
"Bom..." Gomez deu um passo para trás. "Não é exatamente algo confortável de se ouvir, mas é óbvio que posso entender. Somos dois adultos, vacinados, independentes, e tivemos um ótimo encontro. Se pararmos por aqui, ainda teremos a história desse ótimo encontro."
"Sim. Eu não me importaria se você estivesse afim de outro encontro... casualmente... mas eu não quero um relacionamento, ou compromissos."
"Bom..." Ele se reaproximou. "Casualmente... você gostaria de jantar em minha casa hoje a noite? Daí a gente pode fazer isso... casualmente... uma última vez?"
"Casualmente... você tem camisinha?"
Gomez fez uma expressão engraçada.
...
(Quinn)
Estava enlouquecendo com as discussões entre o ator e o diretor do filme. Aquele curta-metragem podia ter um roteiro genial, e Ryan era um diretor de alguns nomes em Nova York que tinha colocado trabalhos antes do Festival de Nova York e de Tribeca. O problema é que era um metódico de torrar a paciência. Phill, o ator, era outro purgante. Dava graças pelas filmagens serem apenas de uma semana, e depois eu não ter que lidar mais com essa gente. Num dos intervalos, entre um take e outro, meu telefone vibrou. Número desconhecido. Tinha arrepios quando atendia a números desconhecidos depois de Monica.
"Alô?"
"Quinn Fabray?"
"É ela."
"Aqui é Marta Gruber, trabalho na Bad Things Produções. Você cadastrou o seu currículo em nosso processo seletivo para novos estagiários. Tivemos um problema em nosso sistema, por isso estamos informando individualmente os candidatos que passaram pela primeira peneira de análise do currículo."
Meu coração bateu forte. Toda a conversa que tive com Santiago veio à memória em um segundo, em especial a parte que eu não merecia trabalhar numa imobiliária para tirar fotos de apartamentos. Eu tinha esquecido completamente de verificar o site da produtora. Respirei fundo e decidi encarar as oportunidades que batiam à minha porta.
"Muito obrigada pelo aviso. Estava ansiosa. Quando mesmo que será a etapa da prova escrita e entrevista?"
"Vai acontecer na próxima segunda-feira, 19 de outubro, às 14h30 em ponto. Recomendamos que os candidatos cheguem com pelo menos meia hora de antecedência para a identificação."
"Segunda às 14h então."
"Sabe o nosso endereço, senhorita Fabray?"
"Vai ser no escritório da Madison?"
"Correto, 413 Madison, 6º andar, edifício do HSBC."
"Obrigada."
Desliguei o telefone e meu coração bateu forte. Meu primeiro ímpeto foi querer ligar para Rachel e contar as novidades, mas assim que vi o nome dela no meu visor, a ficha caiu: não podia fazer isso. Não quando eu mesma tinha dito que jamais poderia ser amiga dela, mesmo que isso fosse a mais pura verdade. Suspirei derrotada com a constatação de que Rachel fazia mais falta do que podia imaginar e suportar. Não apenas tínhamos uma ótima vida sexual, como eu também adorava igualmente ficar com ela e conversar sobre as coisas mais cotidianas. Rachel, além da minha namorada, foi a melhor amiga que tive. Eu faria qualquer coisa para ter isso de volta.
...
17 de outubro de 2015
(Santana)
Odiava usar bengala. Primeiro porque achava cafona, depois porque não consegui me adaptar. O fisioterapeuta insistia com o programa, mas eu me sentia forte suficiente para caminhar normalmente. Ainda sentia dores quando exagerava, mas nada que um analgésico e quinze minutos com os pés para cima não resolvessem. Mesmo assim, a bengala foi uma ótima desculpa para não jogar golfe com o senhor Weiz.
Ele me convocou para jogar uma partida com um amigo empresário e o filho deste cara, que tinha mais ou menos a minha idade e estudava em Yale. Aquele velho lobo queria comprar a empresa do cara, que não era grande coisa, mas o valor de imóvel dela era a parte interessante. Ele só precisava convencer que era um homem de família, avô amoroso e que por isso se importaria com todo o material humano que viria junto. O bom da bengala era a desculpa para eu não precisar jogar. Detestava golfe.
"Há quanto tempo está cursando na Columbia, Santana?" Senhor Blaze procurou ser casual enquanto o vovô Don Weiz Corleone fazia uma tacada.
"Sou Junior na Faculdade de Economia. Estou me especializando em Matemática aplicada à Economia e Mercado Financeiro, e estou fazendo minor em Negócios."
"Dois cursos?" Fez cara de impressionado, embora achasse que não estava.
"É bom para otimizar o tempo. Depois penso em fazer algumas especializações pontuais para lidar melhor com meu trabalho. Talvez uma pós-graduação, quem sabe? Vai depender se terei tempo de fazer isso."
"Por que não teria tempo?" O filho dele tentou me alfinetar.
"Wall Street corre e a Weiz Co. é uma empresa com negócios em vários países. Eu terei muito trabalho lá dentro e não sei quanto tempo terei para me dedicar as especializações que pretendo ter. Mas se não tiver, contrato alguém que tenha tido esse tempo."
Weiz gargalhou e deu tapinhas em minhas costas.
"Não ligue para a minha neta. Ela sempre foi agressiva e focada. Jamais faria algo mal feito."
"Negócios nem sempre se traduzem em números." Blaze se arrumou para fazer a jogada. "Há pessoas a se importar." concentrou-se e jogou. Então virou-se para dar a lição de moral. "É algo que procuro passar aos meus três filhos: as pessoas importam. Ela é a sua neta, a herdeira da sua empresa." Começou a dizer como se eu não estivesse lá. "Precisa ensinar a ela o valor do material humano, porque um negócio é muito mais que números frios. Há famílias envolvidas. Pais e filhos."
"Quem disse que não me importo?" Protestei. "Não é porque me especializo em algo aparentemente frio que seja alguém menos sensível. Escolhi o lado financeiro da empresa porque penso com números. Sou assim desde pequena. Mas eu estagio no Departamento de Projetos, que não apenas é o mais estratégico, como também o que mais precisa pensar no material humano de uma empresa. Sem falar que eu tenho a minha própria microempresa que emprega meus melhores amigos. Invisto tempo e suor na minha Rock'n'Pano em primeiro lugar pelo prazer que tenho em fazer algo que gosto e por ter meus amigos mais queridos envolvidos comigo, para dar oportunidades à arte deles. Penso em ajudar. Então não me julgue, senhor Blaze."
Eles fecharam negócio depois dessa. Pior, Weiz e Blaze praticamente forçaram para que eu e o tal futuro advogado de Yale saíssemos juntos, porque éramos jovens, universitários e seria delicado da minha parte mostrar a cidade ao talzinho. Como se o sujeito com aquele poder aquisitivo não conhecesse Nova York.
"Ele é bonito?" Rachel perguntou enquanto eu me arrumava.
"Comum. Um sujeito feiozinho que tem dinheiro para se vestir bem."
"E Johnny?"
"O que tem ele?" Procurei me fazer de desentendida enquanto me maquiava.
"Achei que vocês estivessem... mais próximos. Pelo que entendi, você gosta dele, certo? Talvez pudesse chamá-lo para fazer companhia."
"Eu amo Johnny como amigo." Falei alto o mantra que repetia para mim mesma nas últimas semanas. "E essa é uma saída de negócios, Ray. Vou jantar com o cara, dar o fora nele e voltar para casa. A não ser que um amigo meu me convide para algo melhor. Pode ser o Johnny, como também pode ser Christine, aquela gostosinha sophomore de Columbia que eu traçaria em dois segundos."
"Mesmo?" Rachel disse irônica.
"Qual o seu problema?"
"Nada. É que tenho reparado que os dois têm ficado mais próximos. Tive a impressão de que ficariam juntos na premiere, e confesso que foi surpreendente descobrir que não aconteceu. Mais ainda porque depois você pouco falou dele. Evitou até. O que aconteceu naquela festa que eu não vi?"
"Ele me beijou."
"Você não gostou?"
"Foi bem o contrário."
"Então qual é o problema?"
Terminei a minha maquiagem e passei a mãos nos meus cabelos para dar um toque final. Deixei a minha irmã sem resposta.
...
19 de outubro de 2015
(Quinn)
Estava quase surtando de tão nervosa. Era véspera do meu teste de seleção na Bad Things e estava em cima da minha cama entre livros, anotações e xerox espalhadas. Tinha estudado feito uma louca para a tal prova de conhecimentos gerais. Santiago disse que não era difícil, mas e se eles tivessem modificado o teste para realmente selecionar os melhores? Eu passei a minha tarde livre em cima dos livros tentando figurar o que poderia cair na prova. Era muito difícil estudar sem saber exatamente qual era o conteúdo. Tudo que eles mandaram foram temas a serem estudados, em tópicos: não tinha uma bibliografia específica.
Fui até a cozinha microscópica, abri a geladeira e me servi com um copo de leite, rezando para que não estivesse azedo porque Santiago tinha mania de beber no gargalo. Voltei correndo para o meu quarto, bebi o leite de uma vez de tão ansiosa. Voltei a cozinha, deixei o copo sujo, fui ao banheiro, voltei a cozinha e bebi água, voltei ao meu quarto e quase entrei em pânico ao ver a minha cama com tanto papel em cima.
Precisava parar com aquilo e me distrair. Precisava conversar com alguém, mas quem? Santiago devia estar vendo pornografia e se masturbando no quarto dele naquele instante, a julgar pela porta fechada e alguns resmungos altos que as vezes escapava. Não que eu me importasse com isso. Não tinha vontade de conversar com mais ninguém, a não ser uma pessoa.
Peguei o telefone e pensei mil vezes antes de tocar em cima do nome dela. E se ela me rejeitasse mais uma vez? E se ela jogasse na minha cara que não poderia ser minha amiga agora que eu estava precisando desesperadamente de uma?
Acho que o meu dedo escorregou porque quando dei por mim, o telefone estava chamando.
"Alô? Quinn?" Ouvi a voz dela.
"Oi Rachel."
"O que você quer?" Senti um arrepio na espinha pela forma indiferente com que ela perguntou, quase como se eu tivesse a importunando num momento impróprio.
"Está ocupada?"
"O que você quer?" Ela repetiu de um jeito mais urgente.
"Desculpe importuná-la." Ia desligar mas esperei três segundos por um milagre.
"Quinn... espere! É que você me liga tarde da noite de domingo e eu já ia dormir. Você não me ligaria a essa hora se não fosse algo importante, certo?"
"Eu preciso da minha amiga de volta!"
"O quê?"
"Sei que eu disse que jamais poderia ser sua amiga, o que é verdade. Mas pensei que, talvez, se você concordar, eu poderia te ligar de vez em quando apenas para conversarmos." Rachel não respondeu, e o meu coração estava prestes a saltar pela boca. "Eu sei que você não quer voltar, Rach, e não é para isso que estou ligando, ok? É que vou fazer a prova de seleção para entrar na Bad Things amanhã, e estou quase surtando. Preciso de alguém para conversar, e a única pessoa que sinto vontade de falar é com você. Eu sei que não consigo ser apenas a sua amiga, mas é que neste momento preciso da minha melhor amiga."
"Ok..."
"Ok?"
"Você vai fazer o teste amanhã para a Bad Things?"
"É."
"Não parece ser um teste tão complicado se até o Santiago passou. Ele não trabalha nessa produtora?" A voz de Rachel suavizou.
"Santiago pode ainda ser um pré-adolescente no corpo de um homem de 22 anos, mas ele é mais esperto e competente do que se imagina quando se fala de departamento de arte no cinema."
"E você sabe tudo de cinematografia!"
"Não tudo."
"É claro que sabe. Pode não ter a mesma informação desses profissionais que trabalham há milhares de anos no cinema, mas você é muito talentosa e estudiosa, Quinn. Eu sei o quanto se esforça para aprender e aplicar o que sabe. Essa é uma boa qualidade que ninguém pode te tirar, e tenho certeza que se o pessoal da Bad Things for esperto, não vai deixar você escapar."
"Você acha?" Já podia sentir o meu moral se erguer e minhas inseguranças darem um tempo.
"Tenho certeza..."
Rachel e eu conversamos por mais dez minutos. Não podia acreditar que pude ficar tanto tempo sem ter uma conversa civilizada com ela e só o que posso dizer é que quando isso aconteceu, foi maravilhoso. Meu coração estava mais calmo e feliz: Rachel voltou a falar comigo! Me sentia tão fortalecida que seria capaz de enfrentar um dragão se fosse preciso.
...
20 de outubro de 2015
(Quinn)
Teste de conhecimentos técnicos gerais? Sinceramente, quando fui até a Bad Things junto com Santiago, e fui colocada numa sala com nada menos que 50 candidatos concorrendo a quatro vagas de estágio, achei que não ia dar. Processos de seleção como aqueles para estagiários aconteciam duas vezes por ano, sempre com o mesmo formato. Eu achando que eles iriam pegar o meu currículo e ligar para o meu celular só porque me interessei em trabalhar por lá. A prova foi um pesadelo, porque caiu questões que envolviam de tudo: desde a concepção da idéia até a pós-produção. Lógico que a condição de estudante de Cinema me fez ter condições de saber um pouco de tudo.
Se fosse só o cinema, tudo bem, mas entraram também na prova questões obre o mundo da publicidade. Isso porque a Bad Things também é agência, e muito dos departamentos trabalham para os dois fins. Essa era, inclusive, a grande frustração de Santiago lá dentro: ele não conseguia ser incluído na equipe dos projetos de dramaturgia e ficção. Era um risco que se corria, mas era a Bad Things. Sabia nada de publicidade. Sou uma cinematógrafa que brinca de ser roteirista e diretora de vez em quando. Faço produção, embora não seja a minha preferência, pelo trabalho que dá. Mas não sou uma pessoa que entraria na sala de criação de uma agência publicitária. Essa não é a minha. Procurei responder tudo com o máximo de coerência, deixando claro que aquela não era a minha especialidade.
A etapa seguinte foi responder umas perguntas chatinhas no esquema "marque a alternativa que mais se pareça contigo", destes testes psicológicos em que não existe uma resposta certa ou errada. Por último, deram 15 minutos para os candidatos resolverem um problema de lógica. Todas as etapas tinham tempo cronometrado. A última etapa do primeiro dia de seleção foi a entrevista. Eram duas mulheres quem chamavam as pessoas uma a uma a cada 15 minutos em média.
Eu fui a terceira a ser chamada por uma moça chamada Pâmela Brosson, que conduziu a maior parte do processo.
"Você tem algum parente ou conhecido que trabalha na Bad Things?" Foi a primeira pergunta.
"Apenas um amigo, que é estagiário." Acredito que ela não se importou com o cargo de influência do Santiago porque o assunto morreu ali. Reparei que ela estava com um papel impresso à frente. Estiquei os olhos e vi que era o meu currículo desatualizado.
"Quando você se forma pela NYU?"
"No final do segundo semestre de 2016. É quando terei o número mínimo de créditos."
"Por que vai se formar com o número mínimo de créditos? A maior parte dos estudantes fazem o maior número de créditos possível."
"Porque a maioria dos estudantes não precisa de um emprego de meio período como eu."
"Conte um pouco sobre a sua experiência profissional, senhorita Fabray. Algo que não esteja exatamente no currículo."
"Eu cheguei a Nova York por uma oportunidade junto com amigos. Eles conseguiram um papel na peça experimental off-off-Broadway Songbook da R&J Produções. Eu também fiz a audição para a peça, mas saí de lá com um estágio como assistente de produção quase de regime escravocrata. Isso me deu oportunidade de crescer dentro da produtora, até me tornar uma funcionária efetiva. Lá dentro eu fui assistente na produção das peças teatrais de Across The Universe e Lucy. Fiz parte da equipe de pré-produção do longa The Saint Woman, especialmente na organização de seleção de elenco de figurantes. Fui assistente de fotografia da webssérie Pavements."
"Por que saiu?"
"Razões pessoais."
"O seu currículo não mostra mais nada após a saída da R&J, mas ele tem data de janeiro. O que tem feito deste então?"
"Sou estagiária no estúdio de edição e filmagem da NYU que é usado basicamente pelo pessoal do jornalismo. Tive a oportunidade de atuar como cinematógrafa e câmera no documentário "Nos Passos de Bob Dylan", de Alan Gehl, que está em fase de pós-produção. Semana passada terminei, fiz a cinematografia do curta-metragem "Day", de Ryan Phillips." Tudo que dizia, ela anotava e aquilo me dava agonia. "Fora das produções audiovisuais, fiz vários trabalhos como fotógrafa freelancer. O meu portfólio pode ser visto no meu Facebook, Instagram e IMDb, que uso basicamente com propósitos profissionais. Atualmente presto serviço a Imobiliária NY Blocks Sales & Rent."
"Você é corretora também?"
"Não, eu tiro fotografias dos imóveis que são colocados à disposição."
"Agora me diz, senhorita Fabray, o que procura ao trabalhar para a Bad Things?"
"Sinceramente? Eu tenho aluguel para pagar e contas. Cifras que o salário de estagiário da Bad Things não me supriria. Mas estou disposta a deixar um emprego que paga as minhas contas, e ter que colocar mais uma pessoa dentro do meu apartamento para dividir o aluguel, porque estar aqui é uma oportunidade única de carreira e de aprendizado. A Bad Things hoje trabalha com os projetos mais atraentes sob minha ótica e seria um sonho fazer parte disso. Seria um sonho aprender tudo que puder aqui dentro."
"Você acredita que pode fazer o seu nome dentro da Bad Things?"
"Eu sei que vou dar o melhor de mim. Se vou conseguir fazer o meu nome aqui dentro, bom, acho que tudo isso é conseqüência do trabalho."
"Muito bem, senhorita Fabray. Nós vamos te telefonar pela manhã te convidando ou não para retornar na segunda etapa no nosso processo."
Cumprimentei a entrevistadora, peguei minha bolsa e saí de lá um pouco temerosa achando que talvez tivesse exagerado no tom. Por causa da hora, esperei por Santiago num chá de cadeira de uma hora no sofá da recepção da produtora.
...
21 de outubro de 2015
(Quinn)
Eles garantiram que ligariam para uma resposta negativa ou positiva. Estava no meio de uma classe com o celular em mãos aguardando pela resposta. Era uma agonia esperar. Uma resposta positiva significava mais um passo em direção a produtora em ascensão mais desejada da cidade e provavelmente a minha demissão na imobiliária. Uma resposta negativa significaria que eu deveria passar no meu emprego e pedir perdão para o meu chefe linha dura pela falta sem justificativa, que ficaria mais que contente em ter meu conto cortado desde que ele não me demitisse. Patético.
Quando meu telefone vibrou, não quis nem saber: levantei-me de supetão numa classe com apenas 15 alunos e corri para fora da sala.
"Quinn Fabray?"
"Sim?"
"Aqui é Pamela Brosson, da Bad Things. Gostaria de te convidar a participar da segunda parte do nosso processo seletivo. É possível você comparecer ao escritório da produtora na Madison às 14h30 desta quarta-feita?"
"Com certeza."
"Ótimo. Nós te aguardaremos."
Dei três pulos com os braços erguidos ao lado da porta da classe e quando dei por mim, meus colegas estavam com os pescoços esticados observando a cena. Aquilo me deixou sem-graça e vermelha, mas não tirou a minha satisfação. Liguei para a imobiliária. Avisei que não iria trabalhar de novo. Acreditava que a minha demissão por justa causa era questão de horas.
...
22 de outubro de 2015
(Quinn)
Almocei com Santiago no refeitório do nosso prédio da NYU. Era o único lugar em Nova York em que a gente poderia comer à vontade por cinco dólares. Tudo que precisávamos fazer era apresentar a carteirinha de estudante. Verdade que a variação não era tão grande, que a comida perdia o gosto com o passar do tempo, e a gente passou a definir o copinho de suco pela cor dele: suco de amarelo, suco de vermelho, suco de bege, etc.
"Não se afobe." Santiago estava ansioso também. "Vá na boa, mas sem se oferecer demais, porque eles descartam as pessoas que tentam ser prestativas além da conta."
"Ok."
"Eles te colocam para fazer um teste no departamento que eles pensam em te colocar para trabalhar, mas não vão necessariamente dar uma tarefa que você tiraria de letra. Não se assuste porque o propósito é esse mesmo. Quando eu fiz o meu teste, me colocaram para organizar figurino. Passei umas três horas no depósito cumprindo uma lista de tarefas só em cima disso."
"Você contou essa história."
"Então, eles não vão te mandar tratar foto, nada disso. Eles querem versatilidade, lá dentro."
"Tiago!" Adverti. "Respira. Quem vai fazer o teste sou eu."
No horário certo, pegamos um ônibus em direção a Madison. Santiago me deu um carinhoso beijo no rosto de boa sorte antes de eu me apresentar a recepcionista junto aos outros candidatos que passaram para a segunda etapa. Eram doze pessoas que ficariam com quatro vagas para ganhar 650 dólares, trabalhar cinco horas, ter direito a ajuda de transporte, alimentação e ter banco de horas que jamais era convertido a mais dinheiro: apenas em folgas. Das pessoas que estavam lá, havia dois colegas meu e de Santiago na NYU. Eu torcia para que nós três pudéssemos entrar, claro, mas ali, no calor da tensão, a gente mal conseguiu se falar.
"Pessoal." Pamela apareceu para nos recepcionar. "Por aqui, por favor."
Ela nos conduziu à mesma saleta em que fizemos as provas.
"Muito bem, vocês todos foram selecionados depois de duas etapas: a primeira foi de análise de currículo, e a segunda, provas e entrevistas. Parabéns a todos, porque não é fácil chegar até aqui." Uma pausa para aplausos. "Essa terceira e última etapa é prática. Cada um de vocês vai receber uma folha com orientações específicas." Pegou uma de exemplo e a levantou para que todos pudessem visualizar. "Essas tarefas estão relacionadas com as atividades que estagiários exercem dentro da Bad Things. Como sabem, aqui na produtora, o estagiário não cumpre uma tarefa fixa dentro do departamento. Os processos são dinâmicos e esperamos que todos os nossos colaboradores tenham esse perfil. Vocês serão divididos em quatro grupos e serão encaminhados para os departamentos. Lá serão submetidos a avaliação do respectivo coordenador. É ele quem vai decidir o destino de cada um de vocês dentro da Bad Things. Nós anunciaremos o resultado amanhã pela manhã, em nosso site, que voltou a funcionar normalmente. Quem for escolhido deve comparecer ao longo da semana para resolver questões burocráticas o mais rápido possível. Boa sorte a todos e aguardem a minha chamada." Ela chamou três pessoas, distribuiu os papeis e as conduziu até um ponto da produtora enquanto os demais permaneceram a espera. Não era difícil fazer as contas. Se eram quatro grupos para quatro vagas, era sinal de que eu iria concorrer diretamente com as pessoas que estivessem no grupo que eu seria posta. Pamela voltou cinco minutos depois e chamou. "Quinn Fabray, Cecilia Harrison e Guth Bridges."
Foi a nossa vez. Cecilia era uma das minhas colegas da NYU. Se ela foi comigo no grupo, significava que naquele momento tornou-se minha concorrente direta à vaga. Pamela nos conduziu até ao departamento de fotografia e meu coração bateu forte. Ela nos apresentou ao coordenador, e nos deu nossas tarefas já pré-estabelecidas. Santiago estava certo quando disse que eles tentariam colocar o candidato dentro do departamento certo, mas para fazer algo em que não estava habituado. Olhando especificamente para o departamento de cinematografia e filmagem, eu não estava habituada em fazer trabalho de grip, ou seja, em lidar com a maquinaria. Minha função era subir até ao estúdio no sétimo andar, falar com The Animal. Foi o que fiz. Subi as escadas, procurei o pequeno estúdio usado para filmagens simples e fotografia.
"Por favor, gostaria de falar com o Animal?" Disse quase envergonhada para um homem de meia idade que passava por ali.
"Ah, ele está lá dentro da sala. Pode ir lá."
Estava nervosa. Olhava para a minha tarefa. Grip. Eu tratava fotos, tirava um monte delas, fazia testes de câmera, manejava, tudo. Mas grip? Era o trabalho mais braçal do departamento de fotografia ao lado do pessoal da iluminação.
"Animal?" Perguntei envergonhada um homem barbudo com cabelo grande e amarrado num rabo de cavalo curto, mas que me parecia bem normal. "Eu sou Quinn Fabray e estou aqui fazendo um teste para vaga de estágio. Me mandaram para cá."
"Que maravilha." Ele sorriu. "Não é todo dia que eles mandam uma linda garota para sujar as mãos na maquinaria." Pegou o meu papel e deu uma rápida lida. "Muito bem, Fabray, aqui estão os equipamentos e ali está o estúdio. Agora monte conforme o solicitado."
E foi saindo da sala.
"Você vai me deixar aqui sozinha?" Quase me apavorei.
"Por hora... grite se precisar, não tenha pressa em fazer, mas faça o mais rápido que puder." Mais paradoxo, impossível.
Eu tinha um papel, uma lista de equipamentos, um armário organizado, e um estúdio ao lado a espera para ser montado. Trilhos, cabos, eletricidade. E ai de mim se estourar qualquer coisa dali. Teria de me vender todos os dias na quinta avenida por uns dez anos para pagar a dívida. Respirei fundo, tirei meu casaco de frio, amarrei meu cabelo e comecei a trabalhar.
...
23 de outubro de 2015
(Rachel)
Gomez sorriu para mim, e me entregou um copo de café. Mocha com creme e canela, como eu gostava. Ele era gentil comigo, e nós tivemos duas ótimas noites juntos, não posso negar. Mas eu decidi dar ouvidos a minha irmã, e ao conselho de uma colega de elenco: se não quiser levar a relação adiante, é melhor encerrar nas duas boas noites antes que as coisas se tornem confusas. Éramos colegas de elenco, nos veríamos quase todos os dias, por isso era bom deixar tudo muito bem resolvido. Foi o que eu fiz, e Gomez, apesar de mostrar sinais que talvez poderíamos ir mais adiante, me respeitou. Penso que se ele aparecer com outra garota, posso ter algum ciúme, mas, no fundo, vou ficar aliviada em ver que ele partiu para outra.
Tomei o café e agradeci pela gentileza. Não era exatamente algo difícil de saber sobre o meu café favorito, uma vez que eu pedia para a estagiária comprar exatamente o mesmo tipo quase todos os dias. Ou era a mocha, ou era o chá verde. Quase sempre alguém do elenco trazia agrados para os colegas. Gomez trazia o café, eu às vezes comprava esfirras numa padaria árabe que eu passava a caminho do teatro. E assim seguia. O elenco resolveu se unir dessa maneira, até como uma forma de sobreviver aos ensaios cansativos.
"Rachel!" O diretor chamou a minha atenção durante a passagem em que a minha personagem tira a blusa para o amado dela antes de eles fazerem amor pela primeira vez. No ensaio eu não tirava e a verdade era que Will Potter e eu tínhamos química zero.
"Sim?"
"Você já ficou nua no palco?"
"Não senhor, mas já fiz cenas com sugestão sexual."
"Que bom que não estou lidando com uma puritana! Fico feliz por você estar ciente de que precisa seduzir o seu parceiro e o público nesta cena. Não com sensualidade vulgar e barata, mas com sua inocência e sinceridade, e também com os seus seios." Fiquei em silêncio a espera do esporro. "Agora te pergunto: como vai fazer isso para um teatro cheio de gente desconhecida, se age como uma porta celibatária na cena mais romântica da peça?" Não berrou, mas o tom dele te fazia querer morrer.
"Se o problema é tirar a minha blusa nos ensaios..."
"Não é tirar a blusa, Rachel. Você poderia ficar nua em pelo e se masturbar agora na nossa frente que não adiantaria. Todo o processo está errado. Está sem paixão. Parece que você está sem cabeça, fora da peça, um robô. Está travada. Está vendo esse bicha idiota na tua frente? Ele não é o Will Potter, o imbecil que está me devendo 50 dólares numa aposta. Ele é o cara por quem a sua personagem está apaixonada. Ok? Então, toda vez que você pisar neste palco, entenda que a paixão da sua juventude torta neste mundo estranho é por este palhaço. Não estou nem aí se quiser cortar a cabeça dele na coxia. Mas aqui em cima, você estará apaixonadíssima." Então levantou-se e gesticulou para todos os outros. "Isso se chama atuar, pessoal." Gritou. "Isso é muito mais do que cantar bem ou dançar bem num musical. Se vocês não encontrarem a verdade por trás até do silêncio, então não servem para estar aqui."
Eu. Queria. Morrer.
"Vamos fazer o ato 2, cena 4." Era uma cena que não participava. Fui saindo o palco em direção aos camarins. "Rachel!" O diretor me gritou. "Não se demore porque quero ensaiar essa cena ainda hoje."
Sabe as cenas em que as divas quebram todo o camarim após um momento de ira? Eu queria quebrar alguma coisa. Não estava com raiva do Paul Diano. Aquele era o jeito dele, todos sabiam que era um diretor teatral duro e perfeccionista. Minha raiva era comigo mesma, porque deixei os meus grilos entrarem no palco, o que era um pecado. Em vez do ar tenso do camarim, escolhi o barulho da calçada de Manhattan para respirar.
"Esquenta não, Berry." Will veio até mim, logo a última pessoa que esperava. "Não receber uma chamada de Paul Diano é como nunca ter trabalhado com ele. Vai por mim. Eu já passei por isso."
"Obrigada, Will. Mas o chato é que ele tem toda razão."
"Eu sei, você está travada. Até achei que o problema fosse comigo, até o pessoal começar a comentar sobre o seu caso com Gomez. Está achando que ele pode ficar com ciúmes em você fazer essa cena comigo?"
"O que a gente teve só foi casual. Acabou."
"Acontece... seja como for, queria ficar em bons termos contigo. Por mais profissional que a gente seja, nunca vou poder te beijar direito ou apalpar os seus peitos se a gente entrar no palco e achar que está competindo."
"Competindo?"
"Você não é a única a querer entrar nas calças de Gomez."
"Você... e ele?" Estranhei.
"Não ainda, mas... eu sei que ele tem a mente bem aberta para um cara hétero, e agora sei que o seu caso foi apenas casual."
"Oh meu deus..." Comecei a rir do absurdo que ela a situação. "Então essa sensação de desconforto em cena..."
"Eu não estava sendo o seu parceiro." Estendeu a mão. "Paz?"
"Eu nem sabia que a gente estava em guerra, mas aceito."
"Então que tal a gente voltar para o palco, e fazer o diretor ter uma ereção?"
"Que nojo, Will!" balancei a cabeça por causa do horror visual. "Bom, você pode entrar. Eu só preciso de mais cinco minutos."
Esperei ainda meia hora para fazer mais uma tentativa da fatídica cena. Ainda estava longe do ideal, mas ao menos o diretor não me chamou mais de porta celibatária. Recebi uma mensagem de texto de Santana no final da tarde. Ela disse que iria chegar tarde em casa porque passaria num bar karaokê. O meu dia foi péssimo, e pensei que talvez pudesse acompanhá-la num copo de cerveja e depois soltar a voz com uma música depressiva da Celine Dion. Precisava disso.
"Qual bar?" – Rachel
"Wicked Willy's, na Bleecker" – Santy
Sabia que bar ela se referia. Era um que ficava cheio de estudantes da NYU, o que era uma surpresa, porque o reduto de Santana girava nas proximidades do campus da Columbia em Upper West Side.
"Estarei lá" – Rachel
Fui direto para lá sem carregar qualquer colega do teatro. Peguei um táxi porque não sabia direito qual estação descer. Era mais prático. Quando cheguei ao bar, vi um grupinho que parecia fazer uma festa particular. Conhecia pessoas dali. Lá estavam Santiago e Quinn.
"Rachel!" Johnny me encontrou à porta do bar. "Legal que você também veio."
Eu o puxei para um canto.
"O que está acontecendo aqui?" Perguntei com os olhos atentos ao grupo para ver se eles tinham notado a nossa presença. Quinn sorria e erguia uma taça. Ela era celebrada pelos demais.
"Está aqui e não soube?" Franziu a testa. "Quinn foi chamada para trabalhar na produtora que queria."
"A Bad Things? Ela conseguiu passar no processo de seleção?" Arregalei os olhos. Era uma boa novidade.
"Acho que é essa mesmo. Vamos lá falar com ela?"
Minhas mãos suavam. Sentia uma felicidade enorme por ela ter conseguido entrar num lugar que desejava. Era mesmo algo a se comemorar. Johnny chegou fazendo festa, me encobrindo e penso que foi proposital. Então ele se virou em minha direção.
"Olha só o que apareceu por aqui..." Ele disse.
Quinn estava surpresa em me ver. Eu estava surpresa em estar ali. Isso só podia ser armação, e Santana estava fazendo parte disso. Só não sabia ainda o motivo.
"Oi." Me aproximei timidamente e dei um beijo atrapalhado no rosto dela. Quinn abriu um bonito sorriso, franco. Ela estava linda, radiante, como aquelas pessoas que tiraram um peso enorme das costas.
"Que boa surpresa."
"Santana contou e eu não pude faltar." Menti, mas foi por uma boa causa. Depois, era provável que comparecesse se ela me dissesse toda a história. "Meus parabéns."
"É só um estágio. Vou ganhar uma miséria. Mas vai dar tudo certo."
"Vai sim... estou orgulhosa." Olhei para o lado. "Oi Santiago." Cumprimentei de longe. Ao que parecia, ele estava tentando traçar uma nova menina. Coitada dela.
"Quer uma bebida? Eu pago. Faço questão!"
"Vou aceitar."
"Sabe Rachel, falar contigo na véspera do teste foi fundamental. Eu não sei o que faria se não tivesse me dado aquela força."
"Você faria o teste de todo jeito, Quinn."
"Pode ser, mas não creio que teria a energia extra para ser bem sucedida. Obrigada mesmo."
Santana chegou quase meia hora depois. Queria entender o que houve na noite da premiere porque ela e Johnny pareciam estar mais afastados que o normal deles. Só um beijo não poderia ter causado tudo aquilo entre dois grandes amigos. Ela não se abria comigo, e eu não tinha como pressionar Johnny. Mas um dia eu os pegaria de jeito.
O dono do bar abriu o palco. Alguns colegas de Quinn e outros presentes no bar se arriscaram. Achei na lista uma música antiga do Big Star que conhecia dos discos do meu pai. Era uma canção boba, mas que me deu vontade de cantar naquele instante. Bem mais do que Celine Dion. Subi ao palco e não disse nada. Simplesmente soltei a voz quando o playback do violão começou.
"I'm in love with a girl/ Finest girl in the world/ i didn't know i could feel this way/ think about her all the time/ always on my mind/ i didn't know about love/ All that a man should do is true/ i'm in love with a girl/ finest girl in the world/ i didn't know this could happen to me."
Saí do palco sob aplausos, mas estava com sentimentos conflitantes. Triste pelo meu dia, feliz por Quinn, e me sentindo solitária como nunca.
"Santana." Puxei a minha irmã, que bebia uma cerveja. "Eu não estou me sentindo bem e vou para casa."
"Eu vou contigo. Só me dê dez minutos?" Acenei. Recolhi minha bolsa, me despedi de Johnny e aguardei minha irmã fora do bar.
"Rachel?" Quinn foi atrás de mim.
"Ei."
"Foi uma escolha... interessante... digo... da música."
"É de um disco velho que tem na casa dos meus pais."
"Estive pensando..." Ela estava nervosa. Esfregava o dedo do anel da mão esquerda. Era um cacoete. "Aquela nossa conversa foi tão boa. Será que poderíamos repetir mais vezes? Será que eu poderia te ligar só para conversar e saber como foi o seu dia?"
"Eu adoraria." Sorri e ela retribuiu.
"Obrigada. Obrigada por vir. Não tem idéia de como isso foi importante."
"Falo com você mais tarde." Disse quando vi Santana sair do bar.
Minha irmã se despediu de Quinn com um abraço ligeiro. Pegamos um táxi de volta ao nosso apartamento. Ficamos em silêncio ao longo do caminho, mas assim que entramos, segurei a mão da minha irmã antes que ela pudesse entrar no quarto dela e não sair mais.
"Por que você não disse que era uma festa para Quinn?"
"Porque você não iria se eu dissesse. E eu sei que você gostaria de estar presente em um momento assim."
"Você está querendo que nós..."
"Eu não quero nada, Ray. Eu só quero dormir."
"Essa sua depressão súbita tem a ver com o Johnny?"
"Talvez."
"O que rolou entre vocês?"
Santana emudeceu, libertou-se da minha mão e se trancou no próprio quarto.
