(Quinn)

Eu estava no céu. Antes mesmo de abrir os olhos, podia me lembrar de todas as coisas boas que aconteceram naquela madrugada. Lembro de Rachel me beijar ainda na festa, de bebermos um pouco, de ela sugerir que eu deveria conhecer o novo apartamento. Então pegamos um táxi e fomos para a casa dela (era tão estranho dizer isso). Sinceramente, reparei em nada sobre o tal novo apartamento, porque estava ocupada demais em beijar minha lady. Mas confesso que achei estranho o caminho diferente até o quarto, os espaços e as distâncias. Era tudo muito diferente da nossa velha e boa toca em Astoria.

Rachel me conduziu ao quarto dela, cujo tamanho era praticamente o apartamento que eu dividia com Santiago. Nós ocupamos a cama, que era bem maior do que aquela que herdei da mudança. Ali, na madrugada, fizemos amor. Foi tão bom e tão confortável, que nem parecia que passamos três meses separadas. Uma delícia poder sentir novamente os lábios quentes de Rachel, seu corpo pequeno e que se encaixava perfeitamente no meu, as lindas pernas entrelaçando com as minhas, a pele de seda, o perfume, e depois o suor que escorria entre os seios enquanto eu a penetrava com meus dedos. Foi uma noite incrível que me fez lembrar o quanto Rachel me fazia feliz.

Fazia tempo que não sabia o que era acordar ao lado da mulher que mais amava neste mundo. Rachel dormia meio de lado, meio de barriga para baixo. Não podia ver o rosto dela por hora, e não estava segura se ela dormia ou não. Resolvi testar a minha sorte. Passei o meu braço sobre na cintura dela, encostei-me e a beijei no ombro. Rachel se mexeu de forma que me fez perceber que ela estava definitivamente acordada.

"Bom dia, minha lady." Continuei minhas carícias.

"Quinn..." A voz dela saiu rouca, sexy.

"Humm?" Continuei a beijar aquela pele macia, bem tratada. Então senti os músculos dela tensionarem.

"Para." Rachel se virou, e se afastou, o que me deixou confusa.

"Mas?" Sentei-me na cama sem preocupar com a minha nudez. "Não vai me dizer que você se arrependeu?" Seria desesperador, por isso fechei os olhos uma tentativa de não me decepcionar.

"Sim e não." Agora foi o meu corpo que tensionou quando escutei a resposta dela. "Não me arrependo de ter dormido contigo. Foi uma noite verdadeiramente prazerosa, e confesso que senti falta desse contato físico, dos seus beijos, do seu toque."

"Mas?" Sempre havia um porém. Frases adversativas eram a especialidade de Rachel.

"A gente se precipitou." Estava bom demais para ser verdade.

"Por quê? Se fôssemos duas estranhas, diriam que tivemos um momento bom durante uma festa que acabou numa noite. Ninguém falaria nada, ninguém julgaria. Ao contrário, as pessoas iriam aplaudir. Imagine que bem faria ao meu caderninho ter transado com uma atriz da Broadway que está numa série da HBO. Sua irmã provavelmente teve uma noite com a mulher maravilha. O problema é que somos nós, não é verdade? Ou sou eu? Não é isso?"

"O problema é definitivamente você, e não é você ao mesmo tempo." Ela respondeu de um jeito que me deixou confusa. "Vou direto ao ponto aqui, Quinn. Isso não deveria ter acontecido. Eu ainda não estou preparada para voltar a ter um relacionamento contigo, ou com qualquer outra pessoa. A gente mal voltou a conversar de forma civilizada, e dormir contigo foi como se a gente tivesse queimado muitas etapas de nossa reaproximação."

"Mas... como?" Estava legitimamente confusa. Como Rachel pode me levar a casa dela, fazer amor comigo, para no dia seguinte dizer que não é bem assim? Até poderia entender essa reação se ela tivesse ficado bêbada, mas não foi o caso: nós bebemos, mas longe de ficar embriagadas, com dificuldade de se lembrar o que aconteceu no dia seguinte. Estávamos sobreas, sem ressaca, perfeitamente cientes de tudo que fizemos.

"Isso foi um erro!"

"De jeito nenhum Rachel! Isso não pode ser um erro. O que a nossa noite mostrou é que ficarmos separadas é um erro. Quero ver você negar na minha cara que você não quer voltar!"

"Eu não quero voltar. Não assim." Meu coração disparou, e foi difícil me controlar para continuar a prestar atenção do que Rachel dizia. "Se teve uma coisa que essa noite mostrou é no quanto em me sinto bem os seus braços, no quanto nós somos nos encaixamos, nos completamos."

"Discussão encerrada!"

"De jeito nenhum, Quinn. O fato de você conhecer o meu corpo como ninguém, e de nós temos uma química impecável na cama, não apaga tudo de errado que aconteceu entre nós. Fazia muito tempo que eu não sabia o que era ficar solteira, e o que esses meses me mostraram é que eu também adoro ter espaço só meu. Algo que eu não sabia o que era desde que me mudei para Nova York! Eu fiquei sem espaço físico, e fiquei sem espaços emocionais e pessoais. Agora que eu redescobri o quanto isso é bom, quero aproveitar mais um pouco. Eu preciso explorar a Rachel Berry-Lopez solteira um pouco mais. Eu ainda vou fazer 21 anos, Quinn. Talvez você ache que não precise deste espaço, até porque você sempre tentou dominar tudo. Só que eu preciso disso!"

"A gente pode trabalhar em cima desse problema, Rach."

"Eu tive relações sexuais com outra pessoa depois que terminamos!"

A informação fez paralisar meu corpo e meu cérebro. Só em pensar que outra pessoa tocou minha Rachel em lugares onde apenas eu deveria tocar me encheu de fúria e agonia.

"Relações sexuais?"

"Sim, Quinn. Relações sexuais, no plural. Foi mais de uma vez."

"O quê!" Reagi com raiva. "Como você pode?"

"Como eu pude? Nós terminamos, eu estou solteira, Quinn, e sou dona do meu próprio nariz. Foi assim que eu pude: porque eu era livre. Eu fiz sexo sem compromisso com uma pessoa, e foi bom!"

"Foi com o Rom?" Meu estômago revirou.

"Não foi com o Rom. Eu não conseguiria ir com Rom, posso te garantir."

"Então quem? Foi com outra mulher?"

"Foi com um homem." Um homem? Eu sempre soube que Rachel era bissexual. Mas doía mesmo assim saber que um pênis grotesco entrou naquela vagina preciosa.

"Quem?" Insisti.

"Isso não tem a menor importância. Porque se eu disser quem foi, você vai ficar paranoica."

"Eu não acredito nisso..." Lágrimas começaram a descer no meu rosto. Se o objetivo dela era me ferir em cheio, missão cumprida.

"Dói, não é?"

"Você transou com alguém por vingança?"

"Eu não sou você, Quinn. Jamais faria uma coisa dessas por vingança ou por raiva, como você fez. Como eu disse, eu estou solteira, sou dona do meu nariz, e tive todo direito de tentar coisas novas."

"Não posso ficar aqui..." Desci da cama dela e comecei a procurar minhas roupas pelo chão daquele quarto gigante.

"Não vai querer ouvir o resto?"

"Você quer me torturar mais?" Estava perplexa com a calma dela, ao passo que eu estava o oposto. Eu só queria sair correndo.

"O resto, Quinn, é que eu não fiz nada disso para provar um ponto, porque as coisas aconteceram naturalmente. Mas a conclusão que cheguei da minha noite com outra pessoa, e dessa noite contigo, é que eu preciso levar essa parte da minha vida de um jeito mais leve. Por mais que você seja uma idiota, eu quero você na minha vida. Mas eu também quero provar um pouco mais dessa liberdade."

"Resumindo, você quer que eu seja a sua amizade colorida. Você quer ficar livre para transar comigo quando quiser, e experimentar com outras pessoas também quando quiser. Isso não será possível. Não depois do que você confessou." Achei minha calcinha e meu sutiã. Percebi que toda roupa que tinha ali era a minha fantasia estúpida de leão.

"Por que eu fiz sexo com outra pessoa quando tive o direito de fazê-lo, e gostei? Você fez sexo com outra pessoa, você usou outra pessoa por razões deploráveis, e acha que tem o direito de me julgar?"

"Rachel, eu preciso sair daqui. Preciso pensar e digerir essa informação, ok? Prometo que eu te ligo quando estiver pronta, mas agora eu preciso mesmo ir embora."

Enquanto vesti a minha fantasia estúpida de leão, Rachel foi até o banheiro dela e vestiu um roupão. Ela me conduziu para fora do quarto e para fora do apartamento dela. Ela estava mesmo experimentando outra vida, e não tinha certeza se poderia acompanhar. Eu estava perdida. Não sabia como poderia me encaixar naquele novo cenário de amizade colorida. Não depois que tudo que vivenciamos juntas. Tudo me pareceu doloroso.

Rachel abriu a porta e eu fui embora daquele prédio luxuoso. Na recepção, cruzei com Santana, que parecia que estava terminando de fazer uma caminhada da vergonha vestida de Wilykit.

"Quinn..."

"San..."

"Está tudo bem?"

"Eu não sei. Preciso ir."

Saí do edifício e fui para o ponto de ônibus.

...

(Santana)

O que eu fiz? Eu sabia que estava na cama da Mulher Maravilha e que tivemos uma noite e tanto. Estava um pouco bêbada para me lembrar de todos os detalhes, mas o dolorido em minha lady, e a ardência nas minhas costas não me deixariam esquecer daquela noite tão cedo. Olhei para o lado e a Mulher Maravilha estava ali dormindo com um sorriso sacana no rosto. Sinceramente, se eu fui bem, não estava muito orgulhosa disso. Por curiosidade dei uma olhada nas unhas da Mulher Maravilha.

Oh!

Deveria ter reparado nisso antes.

Onde é que eu estava mesmo? Bom, eu sabia que era o quarto da Mulher Maravilha, só não me lembrava onde ficava exatamente. Precisava recolher minhas roupas e pegar um táxi para casa o mais rápido possível. Vesti a minha calcinha e minha fantasia. Encontrei a minha bolsa, que só tinha a minha identidade e um pouco de dinheiro. Pelo menos era suficiente para o táxi.

"Vai embora sem se despedir?" A Mulher Maravilha abriu os olhos e se espreguiçou. "Hum, não sabia que a famosa Santana Berry-Lopez era dessas que gostava de sair de fininho sem dar nenhum bom dia ou beijo de despedida."

Ela sabia o meu nome e sobrenome, e eu não tinha ideia nem da primeira letra do nome dela. Eu a chamei de Mulher Maravilha a noite inteira. Não que ela fosse um rosto completamente desconhecido, porque sabia que ela era amiga de um amigo e que, se não me engano, estudava Engenharia Civil. Ou seria Arquitetura?

"Bom dia..." Não arrisquei em falar o nome dela.

"Falta o beijinho."

Respirei fundo e me inclinei para beijá-la rapidamente nos lábios.

"Foi uma ótima noite!" Ela agarrou o travesseiro. "Se eu soubesse que era assim, teria experimentado bem antes."

"Oh, essa foi a primeira vez que você... com uma mulher?"

"E foi perfeito. Dizem que faculdade é o tempo certo para experimentar. Bom, valeu mesmo à pena. Precisamos voltar a fazer isso, Santana. Preciso pegar mais algumas notas, se é que me entende."

"Se quiser tentar de novo algum dia, cortar as unhas seria um bom começo."

"Meu deus, eu te machuquei?"

"Minhas costas..."

"Os caras adoram quando eu tiro sangue deles."

"Eu não sou um cara..."

"Não, definitivamente você não é." É voltou a sorrir e pegou a minha mão. "Então... não quer ficar para o café da manhã? Ainda é cedo. A gente pode fazer o round quatro. Três orgasmo numa noite... que delícia!"

"Preciso ir. Eu tenho um compromisso, tenho de ir para casa e me arrumar... para esse compromisso... que é muito importante."

"Te vejo pelo campus?"

"Claro." Fui me aproximando da porta.

"Sem nenhum beijo de despedida?"

Virei os olhos e suspirei de novo. Mal encostei nos lábios dela e senti um braço envolvendo o meu pescoço como se fosse uma cobra e uma língua invadindo minha boca. Deixei que a Mulher Maravilha me beijasse na esperança que ela se desse por satisfeita, e me deixasse ir sem mais perguntas. Essa era a opção gentil. A outra seria literalmente sair correndo. Depois do beijo, ela me deixou ir. Por sorte não me pediu o telefone, o que era um ótimo sinal. Ou péssimo, considerando que ela sabe o meu nome, e é fácil achar, pelo menos, o meu email institucional de Columbia.

Saí da casa dela, que descobri ser um apartamento que ela dividia com outra garota. Essa moça em questão era uma completa desconhecia vestida em um pijama rosa super cafona, que estava encostada no balcão da cozinha americana mastigando um pedaço de pão.

"Bom dia." Eu disse sem jeito. A situação estava ficando bastante constrangedora. Minha intenção era cumprimentar e ir embora.

"Bom dia, Santana Berry-Lopez."

Franzi a testa em perplexidade. Eu era tão conhecida assim naquele campus? Tirando a minha passagem pelo coral de música popular que se apresentava nos intervalos dos eventos esportivos dos Lions, eu não era o tipo da aluna que era famosa ou popular. Não mais. Columbia não era high school, e as pessoas estavam mais preocupadas em viver a própria vida.

"Como você me conhece? Com todo respeito, mas eu nem te conheço!"

"Quem não te conhece? Você é a protegida do professor Harris, e ainda canta nos jogos de basquete. Se tudo mais falhar, você ainda pode tentar a sorte naqueles programas de calouros."

"Nós tivemos aulas juntas?"

"No segundo semestre do primeiro ano."

"Oh, deus. Eu preciso ir..."

Acenei sem-jeito e abri a maldita porta da frente. Não queria prolongar a conversa de jeito algum. Era um prédio sem elevador, e aparentemente eu estava no segundo andar. Desci as escadas e demorei um pouco para me localizar. Estava em um edifício não muito longe do clube onde aconteceu a festa de Halloween. Aquele pedaço era um reduto de dormitórios e de apartamentos alugados por alunos da Columbia, de qualquer forma.

Peguei o primeiro táxi que vi e fui para casa. Estava louca por aspirina e paracetamol, precisava colocar alguma pomada na minha lady e tinha de tomar um banho. Queria cair na minha cama e ficar por lá pelo resto do dia sem pensar em trabalhos da faculdade, rock'n'pano e Weiz Co. Paguei o motorista e, quando entro na portaria do meu prédio, me surpreendo ao ver Quinn saindo do elevador. Ela e Rachel estavam dançando juntas na festa, mas eu não lembro de ter visto uma interação mais expressiva para que elas acabassem dormindo juntas, embora isso não me surpreenda.

"Quinn..."

"San..."

"Está tudo bem?"

"Eu não sei. Preciso ir."

Observei Quinn sair e suspirei por antecipação. Se Quinn dormiu com a minha irmã e depois saiu correndo, havia uma boa possibilidade de eu entrar em casa e encontrar Rachel chorando. Estava ficando cansada disso. Aproveitei o elevador no térreo e apertei no nono andar.

Quando entrei em casa, minha irmã estava em nossa cozinha fazendo café da manhã. Estava até cantarolando. Fiquei sem entender uma vírgula. Ela não deveria estar chorando ou algo assim?

"Ei!" Apareci na porta da cozinha.

"Oi. Como foi a noite com a Mulher Maravilha slut?"

"Todo mundo viu que..."

"Basicamente, Santy. Teve uma hora na festa que eu te procurei, e você e ela já tinham desaparecido."

"Oh... e você e Quinn?"

"É..."

"Eu cruzei com Quinn na portaria, e ela não parecia feliz. Você quer falar sobre isso?"

"Não." Então Rachel suspirou e reelaborou. "Não, neste momento."

"Ok. Eu vou tomar banho."

Eu achando que estava com problemas. Rachel monossilábica era um sinal quase apocalíptico. Também tinha minhas próprias emergências. Fui para o meu quarto, tomei um banho morno e resmunguei com o ardor nas minhas costas. Fiz um rápido exame no espelho e as unhadas que levei não estavam tão ruins, mas definitivamente eu precisava passar alguma coisa ali. Aquela maluca literalmente cravou aquelas garras em mim! Vesti uma blusa sem manga velha e calça de moletom, justamente para reforçar o ponto de que eu não iria mais sair de casa. Depois voltei a cozinha para encontrar a minha irmã já arrumando tudo.

"Preciso que você passe mertiolate nas minhas costas."

Rachel fez cara de interrogação, mas eu apenas entreguei o remédio e tirei a blusa para ela ver o estrago.

"Você passou a noite com a Mulher Maravilha ou com o Wolverine?" Ela perguntou tentando esconder uma risadinha.

"Cala a boca e passe a droga do remédio."

Rachel pegou um pedaço de algodão e encharcou de mertiolate. Senti a mão da minha irmã passando o remédio com delicadeza nos meus ferimentos. Se ela não fosse cantora, poderia ser uma boa enfermeira: Rachel tinha jeito para fazer curativos, e posso dizer isso com segurança porque ela tratou mais da metade dos meus machucados de infância.

"Quer falar sobre isso?" Ela perguntou. Terminou de passar o remédio e eu recoloquei a camiseta.

"Eu quero esquecer. Tive de passar pomada na minha lady."

"Que horror!"

"O mais bizarro é que não apenas ela sabia o meu nome, como a colega de quarto dela também."

"Oh, você fez uma ménage..."

"Não! Fiz nada tão excitante assim. Como pode eu nem saber o nome dela, mas ela saber o meu... e a colega dela também? Tem alguma coisa estranha!"

"Você não sabe o nome da Mulher Maravilha?"

"É a primeira vez que isso me acontece."

"Espero que seja primeira e última, Santana Berry-Lopez."

"E você e Quinn? Não quer mesmo falar o que aconteceu?"

"Nós tivemos uma noite, nós conversamos... e eu contei a ela que estive com outra pessoa. Quinn surtou e se fez de vítima. Sinceramente, eu não estou afim de engolir essa droga. Estou cansada, Santy. Eu a amo, mas não dá mais para permitir que ela reverta todas as situações e discussões para ficar por cima. Se isso significar que ela não quer mais ficar comigo, vou sofrer, mas posso viver com isso."

"Rachel Berry-Lopez... Fiquei emocionada agora!"

Minha irmã me deu um soquinho no meu braço e sorriu.

...

(Rachel)

O que achei mais válido sobre a minha experiência com Gomez foi descobrir que o prazer físico não é algo difícil de se obter com outra pessoa. Não é preciso amar, não é preciso sequer conhecer direito. Basta estar com vontade, e vivenciar uma atmosfera apropriada. Outra coisa que descobri é que ter relações sexuais com um homem não é coisa complicada e de outro mundo. Eu poderia me apaixonar por um homem e ter uma vida sexual feliz com ele.

A minha experiência com Gomez me fez, por exemplo, entender melhor Santana. Também me fez entender o meu pai, e o triangulo amoroso bissexual em que ele se meteu entre papai e minha mãe. Se for pensar na questão física, o prazer pode ser encontrado em ambos gêneros biológicos, se você tiver a mente aberta para tal. Só é preciso entender que um funciona de um jeito diferente do outro. O que isso fazia de mim? Uma bissexual. Se eu tinha essa dúvida na minha cabeça, ela agora passou. Virei a página a respeito da minha própria sexualidade.

Mesmo que Gomez tenha me ajudado a tomar notas sobre essa parte do meu ser, não posso negar a irrefutável verdade de que o meu coração ainda pertence a uma mulher. Eu amo Quinn Fabray. Eu desejo Quinn Fabray. Meu corpo salta em êxtase a cada toque de Quinn Fabray. Meu coração sorri feliz quando estou com Quinn Fabray. Mas eu não consigo confiar em Quinn Fabray. Eu não quero viver sob o mesmo teto de Quinn Fabray. Eu não quero ter uma vida de casada com Quinn Fabray. Esse dilema era muito mais difícil de se resolver do que a minha sexualidade.

A nossa noite definitivamente não foi planejada e, para ser sincera, não pensava em dormir com ela. Aconteceu e foi ótimo, mas pensando de cabeça fria, foi extremamente precipitado: eu não estava pronta. Ainda há coisas demais para serem resolvidas e sinto que saltamos várias etapas ao ir direto para cama. Do jeito que ela saiu daqui de casa depois que eu simplesmente lhe contei a verdade, penso que nossa relação tornou-se ainda mais complicada.

Às vezes eu queria ser um pouco mais como minha irmã. Ali estava Santana deitada no nosso sofá recém comprado, com as pernas para cima, vendo uma maratona de Blacklist em nossa televisão enorme. Ela tinha acabado de passar uma noite com alguém cujo nome sequer sabia: só que era uma mulher muito atraente que lhe tirou sangue das costas dela durante uma relação sexual. A Mulher Maravilha pode ter a deixado dolorida, mas eu tinha certeza que isso não lhe tiraria um minuto de sono. Bem ao contrário de Quinn, que tinha essa capacidade.

"Tem certeza que não quer assistir, Ray? O episódio está ótimo!"

Resolvi sentar no sofá com ela. Cruzei as pernas em cima do sofá, na posição indiana, e indiquei para que minha irmã deitasse a cabeça no meu colo. Enquanto Santana assistia ao episódio, eu lhe fazia cafuné. Olhava mais para a minha irmã do que para a televisão.

"O que foi?" Santana olhou para mim e levantou o tronco para sentar-se. "Está pensando nela, não é?"

"Eu não sei o que fazer."

"Quer o meu conselho? Ligue para ela, converse ainda hoje e coloque todas as cartas na mesa. Mas vá devagar."

"Mas..."

"Ray, sinceramente, esse seu drama com Fabray foi interessante de se ver no início, mas agora está maçante e chato. Ligue pra ela e me deixa aqui assistindo televisão. Eu prometo que vou comer qualquer coisa no sofá novo só para te irritar."

"Ok, e vou fazer isso..." Sorri e dei um selinho nos lábios da minha irmã. "Obrigada, Santy, mas se você comer em cima do sofá novo, eu arranco sua cabeça."

A gente demorou o maior tempão para chegar a um consenso, e encontrar algo que fosse elegante e confortavelmente caseiro ao mesmo tempo. Santana era contra ter televisão no quarto: hábito que trouxemos de Lima, dos nossos pais. Especialmente papai. Ele dizia que uma casa só poderia ter uma televisão, numa sala, em espaço comum, para que se minimizasse essa história de cada um se isolar num canto da casa.

Fui até o meu quarto para pegar o celular. Cliquei em cima do nome de Quinn e o telefone começou a chamar.

"O que você quer, Rachel?" Ela atendeu meio zangada.

"Precisamos conversar ainda hoje. Você estaria disposta a jantar comigo?"

"Na sua casa?"

"Num restaurante."

"Tão impessoal assim?"

"É tudo que precisamos para conversar."

"Ok."

De repente, o meu coração disparou em ansiedade. Eu tinha uma hora para saber exatamente o que queria dessa conversa com Quinn Fabray.

...

(Quinn)

"Twenty, twenty, twenty four hours to go/ I wanna ne sedated/Nothing to do, nowhere to go, oh/ I wanna be sedated."

Acho que eu cantarolei essa música tantas vezes que estava deixando Santiago maluco. Mas era exatamente o que sentia. Depois de ter uma noite linda com a mulher que amo, para em seguida ouvir uma confissão daquelas, eu literalmente queria beber até entrar em coma. Em vez disso, eu comecei a limpar a minha casa e a cantarolar a música dos Ramones num looping.

"Tem certeza que você não quer um litro de vodca? Juro que eu vou até ali no mercado e compro vodca e refrigerante para você se esbaldar. Mas para de cantarolar essa música! Você está me fazendo odiar Ramones e eu adoro os Ramones!"

"Troca tentadora..."

"Cê tá de sacanagem comigo?"

"Eu costumava cantar You Keep Me Hangin' On sem parar. Então Ramones é uma boa mudança."

"Supremes? Sério?"

"Você não imagina os videoclipes imaginários que já fiz com essa música."

"Espera aí..." Santiago começou a cantarolar e arregalou os olhos. "Você cantava essa música por causa da Rachel também? Como?"

"Em Mckinley High, ainda em Lima. Rachel vivia atrás de Finn Hudson e eu vivia sofrendo com o meu patético amor platônico."

"Isso é ridículo!"

"É um pouco." Balancei a cabeça em descrença.

"Então... vodca?"

"É sempre bom ter um destilado em casa. Mas você paga!"

Santiago vestiu uma calça e saiu de casa para a lojinha de conveniência do quarteirão, dessas que já foi assaltada tantas vezes, que o dono, um imigrante turco, contratou um segurança e recebe o dinheiro atrás de uma grade. Assim que Santiago saiu, meu celular tocou. Suspirei quando vi o retrato de Rachel. Por mais que eu quisesse falar com ela, ironicamente era a última pessoa que gostaria de ver naquele exato momento.

"O que você quer, Rachel?" Eu disse logo de cara, para deixar claro que não estava feliz e nem desesperada por falar com ela.

"Precisamos conversar ainda hoje. Você estaria disposta a jantar comigo?"

"Na sua casa?"

"Num restaurante."

"Tão impessoal assim?"

"É tudo que precisamos para conversar."

"Ok."

Rachel combinou de nos encontrar num diner próximo a casa dela. O que a caracterizava como sendo uma baita cara-de-pau. Ela não era a rica desta relação? Por que eu tinha de pagar pela passagem de ônibus para nos encontrarmos? Coloquei uma roupa e reparei que tinha apenas 27 dólares no bolso. Não poderia tomar nem uma xícara de café. Mas fui mesmo assim.

"Quinn, trouxe o licor!" Ouvi Santiago de trás da porta do meu quarto.

"Salve para depois. Com certeza eu vou precisar."

Saí do meu quarto amarrando meu cabelo num rabo de cavalo. Meu cabelo estava grande e precisava urgentemente de um corte. Juro que iria mandar passar a tesoura, para ele ficar acima da altura dos meus ombros novamente. Gostava do meu cabelo curto, porém nem tão curto. Peguei o ônibus relativamente rápido, e aproveitei o tempo da condução para olhar a cidade e pensar no que Rachel poderia me dizer mais? Desde que não seja a notícia que ela dormiu com mais alguém, acho que iria sobreviver. Também não pensava que poderia ser algo tão ruim, porque qual seria o ponto de ela me tirar de casa só para me dizer mais desaforos? Eu estava magoada, mas ainda tinha alguma esperança.

Cheguei no diner em questão e, desta vez, fui a primeira. A garçonete foi até a minha mesa, mostrou o cardápio, e fez a pergunta usual. Eu só tinha dinheiro para um expresso, e foi o que pedi. Rachel chegou nesse meio tempo. Usava jeans, o que era estranho. Ela raramente usava calças jeans, e quando usava, era porque se arrumou para fazer algo rápido em algum lugar próximo. Significava que ela não fez nenhum esforço para vir aqui.

Sentou-se de frente para mim e não sorriu. A garçonete trouxe o meu expresso, enquanto Rachel analisava o cardápio. Por fim, pediu um suco de laranja e um sanduíche vegetariano.

"Não vai querer mais nada?" Ela perguntou. "Eu pago."

"Meu café está ótimo."

"Os caldos daqui são ótimos, e são baratos. Às vezes eu venho aqui e compro uma poção para mim e Santana."

"Estou bem, Rachel."

"Está vendo? É isso que eu não suporto em você!" Ela fechou a cara. "É óbvio que você está com fome, mas está sem dinheiro. Eu te convidei para vir aqui. É por minha conta."

"Eu estou bem!"

"Okay, você é quem sabe. Antes de mais nada, antes de falar sobre nós, gostaria de saber se existe mais alguma coisa que você queira me contar?"

"Em relação ao quê?"

"Eu fui honesta quando disse que dormi com outra pessoa nesse período em que terminamos. Então quero honestidade da sua parte também para que a gente possa começar essa conversa sem esconder nada uma da outra. Pelo menos nesse setor em particular."

"Muito bem, nesse período em que estivemos separadas, eu tive duas rapidinhas com garotas em bares. Uma em que nem sequer lembro direito, porque eu estava muito bêbada. A outra foi coisa mais recente. Aconteceu pouco depois que eu me mudei para o atual apartamento. Foi por causa de um game estúpido que Santiago inventou."

"Oh... Quinn..." Rachel fez cara de nojo.

"Você pediu honestidade e eu estou sendo honesta."

Rachel ficou em silêncio por um tempo, e eu dei esse espaço para ela processar a informação. Era visível a dor e a decepção no rosto dela. Não podia fazer nada: eu estava bêbada quando aconteceu, mas lembro do que fiz. A segunda vez foi quando Santiago tentou pegar a garota num bar, e ela acabou ficando comigo. Como eu estava me sentindo o tanto quanto solitária, não neguei fogo.

"Mais alguma coisa que eu deva saber?"

"É tudo que tenho a dizer a respeito desse assunto."

"Ok..." Ela respirou fundo e ficou brincando com o copo de suco sem bebê-lo. O sanduíche sobre a mesa ainda estava intocado. "Eu pensei bem, e cheguei a conclusão que não estou tão disposta assim a tentar relacionamentos casuais. Eu faria isso se você estivesse completamente fora da minha vida. Mas não é o caso. Também não sei se gostaria, neste momento, que você desaparecesse da minha vida de uma vez por todas. Esses últimos três meses foram confusos."

"Nem me fala!"

"Mas eu também não quero voltar contigo. Pelo menos, não do ponto em que paramos. Quero recomeçar devagar, quero redescobrir quem é Quinn Fabray, e dar uma chance a essa pessoa."

"É justo. Eu também gostaria de ter uma chance de entender quem é essa Rachel Berry-Lopez que está diante de mim." Era verdade. Podia sentir que Rachel mudou. Ela ainda estava ferida, mas não era só isso. "O que tem em mente?"

"Você disse que não pode ser apenas minha amiga, e eu concordo, porque me dei conta que eu também não consigo ser apenas a sua amiga. Sempre vai existir algo entre nós, nossa história... três anos não são três dias. Eu sinto que a nossa história não acabou ainda. Por isso eu quer tentar recomeçar aos poucos. Eu na minha casa, você na sua." Esperava algo nesse sentido. Não era o meu ideal, mas era um recomeço aceitável. "Eu só voltaria a morar contigo se estiver casada contigo. Pulamos etapas em nosso relacionamento, e isso foi um grande erro. A gente estava a caminho do altar porque era fácil. Seria só uma questão de formalizar uma condição em que vivíamos. Só que a gente não tinha e ainda não tem maturidade para entender o que é isso."

"Não posso tirar a sua razão. Eu realmente achava que estava casada contigo. Para te ser sincera, eu pensava nisso desde aquela cerimônia que fiz para te dar aquele anel de prata. Eu interiorizei mesmo esse sentimento. Foi por isso que eu fiquei tão possessiva, e depois tão desestabilizada quando rompemos. Foi a pior fase da minha vida. Nem quando fui expulsa de casa quando engravidei de Beth, cheguei tão ao fundo do poço."

"Posso imaginar Quinn. Foi difícil me acostumar a não ter você mais ao meu lado. Mas até quando isso era amor e até quando era comodidade e dependência afetiva? Tive algum tempo para pensar a respeito, e concluí que se não me interessa tanto assim estar com outras pessoas, e se eu te amo, por outro lado eu adorei ter minha liberdade de volta. A gente pode voltar, mas aos poucos."

"Você vai estabelecer quantidade de telefonemas ou dias da semana para a gente se ver?" Tinha de perguntar por que programação e agenda eram coisas que Rachel Berry-Lopez carregava até para a vida pessoal. Comecei a ajudá-la com a arrumação da cama e do quarto.

"Tenho certeza que vamos achar um ritmo aceitável e razoável." Ela finalmente tomou um gole do suco de laranja. "Eu quero romance, Quinn. Quero ser seduzida e também ter a minha chance de seduzir. Quero comer contigo um sanduíche da esquina com suco de laranja, sem essas implicações de quem paga o quê. Eu quero poder te pagar uma ida ao cinema, um jantar a dois num bom restaurante sem que você se sinta desconfortável ou ofendida. Eu quero ter a incerteza se vou te ver ou não e, sinceramente, haverá outros que não vou querer de ver mesmo. Quero ligar para você e conversar enquanto estou de pernas para cima descansando de um dia agitado. Quero sair com amigos sem te dar satisfações, mas falar depois a respeito. Quero contar histórias. Quero te convidar a vir na minha casa, e quero ir à sua."

"Você quer muitas coisas." Disse mais para mim mesma do que para ela. Claro que foi alto suficiente para Rachel escutar e levar as mãos à cintura. "Juntas, mas separadas, é isso que você deseja agora." Resumi.

"É uma nova chance que a gente precisa se dar. Se a gente pular etapas de novo e romper, não vai ter mais volta."

"Ok..."

"Não é 'ok', Quinn, estou falando sério aqui. Não pense que você vai poder levar tudo isso à brisa, porque terá de trabalhar duro sim senhora se quiser que a nossa relação volte aos bons tempos. E vai ter que fazer isso direito, porque se a gente eventualmente se casar, não quero ter de ouvir a aquela frase que você me disse enquanto namorávamos."

"Que frase?"

'Amor, vá tirando a roupa enquanto eu escovo os dentes'." Tentei protestar. Que eu me lembre, eu só disse isso uma vez. Talvez duas. Olhando por outro ângulo, eu fui realmente uma cretina chauvinista algumas vezes.

"Eu vou tentar melhorar, Rachel. Por mim e por nós. Juro que vou. Mas também tenho minhas condições."

"Manda."

"Você quer sair com seus amigos? Tudo bem. Mas pondere as liberdades. Há pessoas de olho em você agora, e eu não sei mesurar o que é verdade e o que é mentira sobre o que é publicado. No episódio com Rom, a repórter inventou uma narrativa baseada em algo real. Que ela testemunhou. Não dá para dizer que foi má fé. Não totalmente. Então se você esquece o profissionalismo no estúdio, ou age assim em eventos sociais, como eu vou conseguir diferenciar? Aquele beijo com Rom..."

"Ainda remoendo aquilo?"

"Claro que sim. Foi o catalisador para toda merda que passamos. Como poderia não remoer? Apenas saiba quais são limites. Carícias com ele ou qualquer outra pessoa como beijos na boca, estão fora de questão. Tenha esse respeito por mim."

"E no dia que eu precisar de um beard?"

"Beard?"

"Sejamos realistas, Quinn. Eu não posso ser vista como gay neste ponto da carreira ou estarei arruinada. Atrizes jovens só revelam ser bissexuais ou quando tem um noivo ao lado, ou uma carreira muito sólida. Gente como a Kristen Stewart, que nunca se assumiu, mas já teve mil namoradas. Se eu ficar mais conhecida e quiser uma carreira no cinema, vou precisar de um beard. Eu vou ser fotografada com ele, vou beijá-lo em público, vou sair com ele, andar abraçada, de mãos dadas. Então como será?"

"Acho que teremos de esperar esse momento chegar..." Era complicado imaginar Rachel posando diante das câmeras com um galã à tiracolo, enquanto eu permanecia às sombras. Esse mundo era tão injusto. "Enfim..." Procurei afastar a imagem. "Preciso que você mantenha padrões realistas no nosso relacionamento, pelo menos. Vou tentar me melhorar sim, mas não espere eu virar a namorada perfeita. Então não me pressione demais. Também não subestime a minha inteligência. Eu errei sim, feio. Mas não fui a única, Rach. Erramos as duas de um jeito ou de outro. Se essa é a nossa segunda chance, então temos que as duas colocar a mão na consciência e procurar fazer as correções."

"Eu entendo e aceito os seus termos. Acredito que se a gente teve trabalhar nosso relacionamento devagar, vamos encontrar naturalmente um equilíbrio."

"Então..." Segurei a mão de uma Rachel já mais apaziguada. "Posso beijar a minha namorada e selar o nosso pacto?"

"Nós estamos em público, Fabray. Como você bem lembrou, eu já não sou um rosto tão desconhecido assim." Foi bem lembrado, mas não quer dizer que não seja frustrante. "Nada de sexo por enquanto!"

"O quê?" Fiquei confusa.

"Se vamos devagar desta vez, nada de sexo. Hoje nós pulamos uma etapa importante e precisamos pisar no freio para fazer as coisas darem certo."

"Ok." Eu não concordava, mas era melhor dizer que sim para não criar mais discussão. Sinceramente, eu estava cansada de brigar. Eu só queria que a minha vida pessoal pudesse voltar novamente aos trilhos.

"Tem certeza que você não quer comer nada? Eu pago!"

Olhei para a garçonete e pedi novamente o cardápio.

Saboreamos nossa refeição em confortável silêncio, que era quebrado com um comentário aqui e acolá. Por um momento, senti como antigamente, como na época em que morava com as gêmeas e era parte da família. A realidade mudou.

Tinha de agradecer a Santana por não ter rompido as relações comigo no processo. Ela não me chutou para fora da Rock'n'Pano, que vai garantir uma renda importante para mim enquanto divido o apartamento com Santiago e faço estágio na Bad Things. Ela também foi fundamental ao arrumar o convite para a festa quando pedi. Estava disposta a me desfazer de um dinheiro valioso, no entanto ela me presenteou e só me deixou uma recomendação: se eu estragasse a festa de Rachel de alguma forma, que aí sim ela passaria a estimular a irmã dela a encontrar outra pessoa. Por hora, ela segurava a onda e procurava ponderar. Eu me sentia em dívida com Santana pelo apoio.

"Quais são os seus planos para a semana?" Perguntei casualmente quando estávamos por terminar a refeição.

"Estou atolada com os ensaios e compromissos com a peça. O meu diretor quer tudo perfeito até o fim do mês, porque depois a gente entra num período de licenças e de feriados."

"E no fim de semana?"

"Nada agendado."

"A gente poderia sair."

"Como num encontro?"

"Exato, como num encontro."

"Ok."

"Ok?" Abri um sorriso e quase gargalhei. "Então senhorita Berry-Lopez, aguarde que os detalhes desse encontro eu revelarei ao longo da semana em nossos telefonemas, se isso estiver bom para você."

"Está perfeito."

Rachel pagou a nossa refeição e eu levei mais um sanduíche para casa. Nos despedimos ali na calçada de frente para o diner. Caminhei com Rachel até o ponto de ônibus que também ficava próximo ao prédio dela. Ela me deu um beijo no rosto antes de subir para a casa dela, ao passo que eu fiquei na rua a espera do transporte para voltar para a minha. Meu peito estava explodindo de alegria e meu espírito estava leve. Rachel era novamente minha. Peguei o ônibus com uma nova música em mente.

"In the jungle, the mighty jungle, the Lion sleeps tonight/ In the jungle, the quiet jungle, the Lion sleeps tonight..."