(Santana)

"Oi Santana." Levei um susto quando ouvi a voz feminina vinda por trás de mim na saída do campus da Columbia. É que o timbre parecia com a da Mulher Maravilha, que evitava como se fosse uma praga. Era só Roberta, uma colega das classes de negócios que está atrás de mim há algum tempo porque queria fazer um estágio com boa remuneração e a Weiz era famosa por não pagar uma miséria. Achou que se ficasse na minha cola, poderia entrar com mais facilidade na empresa dentro do departamento que desejava.

"Ei."

Procurei me acalmar um pouco do susto, ainda assim estava cautelosa. A Mulher Maravilha, que fazia curso de Engenharia Civil, andou me procurando para rodadas adicionais de nossa noite, porque, segundo dizem nas rodas de fofoca virtual de Columbia, eu tirei uma boa nota no caderninho dela. O lado ruim de ser uma bissexual assumida no campus é que vários homens e mulheres queriam pagar para ver. Andava recebendo propostas de todos os lados. Ao menos Roberta queria arrancar outra coisa de mim que não fosse minha pele.

"Queria saber se você teve tempo de entregar o meu currículo para o senhor Martini." Era o diretor do departamento financeiro da Weiz Co.

Ela nem parecia se importar com o fato de que corria fofocas internas de que as estagiárias bonitinhas terminavam na cama do senhor Martini e, às vezes, de alguns dos coordenadores. Roberta era bonitinha. Não que eles fossem tarados que usavam a posição para forçar sexo com alguém. Era uma via de mão dupla. Alguns dos executivos (nem todos porque alguns eram gays e outros eram realmente respeitáveis pais de família) gostavam de uma bocetinha jovem. Algumas das meninas usavam dessas armas para subir na empresa. Parecia ser o perfil da minha colega de faculdade. Ela era do tipo que treparia até com um sem-teto num freakshow assistido pela própria mãe se isso significasse subir até onde queria. Não a julgava. Cada um lutava com as armas que tinha.

"Desculpe, não tive a chance de encontrá-lo pessoalmente, e deixei o seu currículo nas mãos da secretária dele." Roberta ficou decepcionada. Eu também ficaria, de certo modo. Mas não fiz promessas, logo, estava de consciência tranqüila.

"Ok." O descontentamento parece que só durou alguns segundos. Logo ela recompôs a postura. "E você? O que vai fazer hoje?" O tom mudou, passou a ser de paquera. Segurei para não rir em descrença.

Era como se Roberta achasse que deveria me estimular de alguma forma para fazer com que o currículo dela chegasse diretamente às mãos de um executivo de primeiro time. Se fosse um colega qualquer desesperado por um emprego, até que não pensaria mal. Mas ela sabe, assim como todo mundo daquela empresa, que sou herdeira de Caleb Weiz. Havia quintas intenções ali. Infelizmente era preciso ter muito cuidado com as pessoas que se aproximavam de mim de agora em diante. Também era preciso valorizar ainda mais a amizade daqueles que faziam parte o meu convívio antes dos cifrões futuros atingirem minha cabeça.

"Tenho um compromisso. Algo fechado." Acrescentei rapidamente para não dar margem para ela não se convidar.

"Quem sabe um lanche após as classes? Conheço um lugar bem discreto."

"Andrew!" Disse com alegria ao ver o meu ex-namorado passando ali por perto.

"Oi San!" Ele gritou ao longe e foi se aproximando.

"Achei que vocês tinham terminado..."

"Terminamos. Desculpe, Roberta. Falo contigo noutra ocasião."

"O que foi espoleta?" Peguei no braço dele e saímos caminhando em direção à biblioteca.

"Não consegui fazer um favor a uma colega do jeito que ela queria, então ela pensou que se me desse uma alegria eu poderia me empenhar mais."

"Oh!" Passou o braço pelo meu ombro. Velho hábito que eu não me importava que continuasse. "Ocupada hoje?"

"Como sempre. Por quê?"

"Dave vai estrear o game que ele desenvolveu hoje e nós seremos os primeiros a testar." Ah, o paraíso nerd.

"Legal. Pena que não posso ir." Nem gostaria de ir. Gostar de jogar videogame era uma coisa completamente diferente de ser fanático que testava tudo que era brinquedinho novo e ficava horas regulares em frente a uma tela. Tinha mais o que fazer.

Despedi-me de Andrew ainda dentro da biblioteca. Ele ficaria por lá e eu pegaria um livro para estudar em casa, ou no trabalho. A vantagem de ser uma "intocável" na empresa era que podia barganhar com o chefe. Não que fosse preguiçosa e trapaceasse, mas às vezes pedia vistas grossas para poder fazer minhas obrigações da Columbia ou em algo da Rock'n'Pano durante o meu expediente na Weiz. Não era um picareta. Cumpria minhas tarefas sem reclamar, mas fato era que não tinha trabalho a fazer ao longo de todo expediente. Muitas vezes meia hora bastava. O resto era blá, blá, blá. Especialmente quando o senhor Weiz resolvia aparecer na empresa e me chamava para acompanhá-lo junto à diretoria.

Fui trabalhar no lugar que passaria uma boa parte da minha jovem vida. Nada de novo no front. O departamento estava dividido entre fazer balanços de estratégias aplicadas e avaliações de cenários antes de desenvolver novos projetos estratégicos. Como mera estagiária, tinha de fazer o trabalho chato de planilha. Nada complicado. Só pedia atenção.

"Ainda vou explodir tudo isso..." Resmunguei entediada.

"Exploda depois de você ser presidente." Um colega ironizou. "Tenho certeza que fará um ótimo trabalho dado as suas tendências terroristas."

Não levava à sério o que os imbecis desdenhavam. Faziam porque podiam. Simples assim. Era uma espécie de lambuzar enquanto se podia, ou porque alguns desses caras tinham a menor vontade de seguir carreira dentro de uma única empresa. Era algo normal e eu não ligava. Terminei o meu trabalho chato, e fiz um intervalo por conta própria de quinze minutos antes de mexer em coisas pessoais.

Depois do café fundamental da máquina que ficava dentro do nosso departamento (havia também a copeira que servia se quisesse, mas eu preferia o da máquina por ser mais forte), e dos biscoitinhos amanteigados, verifiquei o meu e-mail. Havia um desses de corrente religioso da tia Maria que eu nunca abria, newsletters, fotos que Shelby mandava de papi e Beth (a família havia concordado que Facebook e Instagram eram exposições desnecessárias, especialmente por causa de Rachel depois que ela começou a fazer carreira na Broadway), e-mails de Mercedes, de Brittany e de Mike. Mike? Era uma raridade receber e-mail de Mike, até porque ele sempre ligava quando queria dizer alguma coisa. A não ser que fosse uma convocação e das grandes. Abri a mensagem. Dito e feito.

Amigos, encontro vocês nesta sexta-feira, dia 20, depois das 21h horas, no bar de sempre perto da minha casa. Tenho um anúncio importante a fazer e espero que estejam todos lá. É importante.

Oh deus, tomara que ele não tenha engravidado alguém.

...

20 de novembro de 2015

(Rachel)

Se você sentia que era preciso reunir pessoas para um anúncio era porque algo devia ser realmente importante a ser dito. Não acredito que fazê-lo num bar fosse apropriado. O ambiente envolve álcool e barulho e desatenção. Tudo bem que o apartamento de Mike é muito pequeno para qualquer reunião, a não ser que sejam para duas, no máximo três pessoas. Torna-se necessário, portanto, um espaço maior. O salão de eventos do meu prédio é muito agradável e apropriado. Bem que Mike poderia me pedir para reservá-lo. Não seria um problema nem para deslocamentos, porque East Side era uma área nobre e central.

Enfim, o encontro estava marcado num bar. Eu estava morrendo de curiosidade para saber do que se tratava, e sabia de alguém cujo anúncio não era um mistério: Quinn. Nada de anormal. Minha namorada era a melhor amiga de um dos nossos melhores amigos. O problema: ela não queria me adiantar do que se tratava por mais que insistisse, e a curiosidade corroía meu estômago a ponto de que provavelmente teria uma gastrite assim como a minha irmã.

"Última chance." Discuti com a minha namorada ao celular.

"Rachel, daqui a umas cinco horas todo mundo vai se encontrar e você vai saber do que se trata. Tenha paciência! Parece que está remoendo isso o dia inteiro."

"Estou remoendo o fato de você saber do que se trata e eu não."

"Óbvio!"

"Quinn, por favor..."

"Não, senhorita Berry-Lopez. Agora comporte-se."

"Se você me contar agora, eu deixo você chegar a segunda base e quem sabe, com muita negociação, na terceira. O que acha?"

"Você deve estar desesperada de curiosidade para se oferecer dessa forma." Quinn é quem mais se insinua, que mais se empenha em quebrar as minhas barreiras, e agora ela caçoava de mim pelo celular porque eu ofereci a segunda base em troca de uma informação? Incrível. "Embora seja tentador voltar à segunda base, e quem sabe sentir o gostinho da terceira base, após tanto tempo por causa da sua abstinência impositiva e maluca, ainda assim não vou dizer."

"Ai, você é tão frustrante!"

"Sejamos realistas, Rach. Eu vou marcar o meu home run mais cedo do que você imagina. Você não vai se aguentar ficar abstinente por tanto tempo."

"Duas palavras, Fabray: self pleasure."

"Que não é tão bom quanto as minhas mãos."

"Além de frustrante, você é cheia de si. Como sempre!"

"Mesmo assim, você me ama."

"Sorte sua, senhorita Fabray." Revirei os olhos. "Que horas você vai estar lá?"

"Depois do expediente. Fica contramão ir em casa para depois descer novamente a Midtown."

"Nesse caso, vou procurar chegar mais cedo para te fazer companhia."

"Será uma honra." Ela deu uma risadinha ao telefone.

"Até lá."

Voltei a me concentrar nos ensaios da peça. Estávamos chegando a uma etapa final em deixaríamos os fragmentos de lado para começar a ensaiar o conjunto em sequência até chegar ao ponto dos ensaios gerais. Nem queria pensar a respeito. Era minha primeira protagonista no teatro, e embora sempre fui bem tratada pela crítica, tudo poderia acontecer no mundo da Broadway. Hoje amado, amanhã odiado. A nota boa era que Bowie e os patrocinadores pareciam felizes com o andamento dos trabalhos: tudo dentro do cronograma. Benefícios em trabalhar com a Cosmic Stage, uma das companhias mais experientes do mercado que, diferente da R&J, por exemplo, eram especialistas em teatro.

Como o meu expediente terminava no meio da tarde, a não ser que tivesse algo extra para fazer, costumava ir para casa e aproveitava de pequenos luxos do meu bairro. Morar em East Side era como estar numa cidade gigante com características de transição de subúrbio. Podia-se, por exemplo, encontrar todas as lojas de rede, algumas de luxo e, logo ao lado, o mercadinho. Eu me sentia muito bem transitando pelas avenidas do bairro de carro ou de bicicleta. Era onde eu cuidava das minhas unhas e tratava dos meus cabelos, comprava minhas frutas e vegetais orgânicos, e começava a conhecer as pessoas do bairro, como o moço da banca de revista, o senhor que tomava conta do bar de jazz, e até da menina que tinha uma lojinha de flores. Desta vez, optei por cuidar apenas das unhas.

"Curtinhas desta vez!" Pedi a Marla.

"Por quê?" Ela me olhou decepcionada. "Suas unhas estão lindas, Rachel. Estão elegantes."

"Então faça delas curtas e elegantes."

"Tudo bem." Ela suspirou decepcionada e começou a cortar e tratar enquanto eu repousava minha cabeça na poltrona confortável e fechei os olhos. Gostava de ser atendida por Marla, porque ela conversava se você estivesse disposta a tal, e sabia acompanhar razoavelmente bem qualquer assunto. Caso contrário, ela logo percebia em que modo o cliente estava, e fazia o trabalho dela em silêncio. "Assim está bom?" Unhas curtinhas, mas sem ser 'toquinho'. Pontas mais quadradinhas.

"Perfeitas."

"Qual esmalte?" Mostrou a carta de esmaltes. "Liso ou trabalhado?"

"Liso. Vou experimentar esse azul."

"Lindo tom." Ela sorriu e continuou a trabalhar. "O mesmo nos pés?" Acenei positivo.

Saí do salão com minhas unhas renovadas e preparadas para o início de um fim de semana que prometia. Quinn havia combinado comigo ao longo da semana que o nosso próximo encontro seria por conta dela. Ela ia aproveitar a ausência de Santiago no apartamento para me oferecer um jantar preparado por ela mesma. Ao que parece, Santiago arrumou uma namorada (coitada), e que planejava dormir fora. Quinn disse que conseguiu no sebo um livro de receita para pessoas que sabem nada de cozinha. Ela pensou em presentear Santiago, mas quem aproveitou de verdade foi ela. Apesar de que jura que Santiago aprendeu a fazer ovos mexidos, torradas e começava a ensaiar a fazer uma omelete. Milagres acontecem.

Por isso que Quinn estava tão certa que entraria em minhas calças no nosso encontro. Ela achava que me seduziria com comida caseira básica, mas que eu cairia de amores só por causa disso. Apesar de eu ter as minhas necessidades e vontades, ainda pensava seriamente em cozinha-la um pouco mais. Era difícil resistir a uma mulher tão linda, que me amava, e que me pegava de um jeito que me deixava tonta e mole e úmida em minha roupa íntima, mas eu estava fazendo isso por um bem maior. As unhas curtas eram uma precaução, caso eu ficasse com a minha guarda baixa e ela conseguisse me aplicar um direto de direita, metaforicamente falando, claro. Em todo caso, eu ia fazer jogo duro, mas estava me preparando caso eu me traísse.

Coloquei um conjunto mais leve, Nova York estava irreconhecivelmente quente para aquela época do ano, arrumei meu cabelo e peguei um táxi até Midtown no famoso bar do Mike. Não que fosse dele, mas era um local decente que ficava próximo ao apartamento e ele gostava de levar alguns amigos e, principalmente, mulheres para lá. Encontrei Quinn numa mesa conversando com Roger Benz. Não era tão irritante encontrar o meu ex-patrão quando se estava por cima.

"Oi." Me aproximei dos dois. "Boa noite." Estendi primeiro a mão para cumprimentar Roger e depois dei um selinho em Quinn. "Oi" Disse novamente, desta vez, só para ela e com mais entusiasmo.

"Está bem Berry. Os ares da HBO fizeram maravilha."

"Prefiro Berry-Lopez quando estamos fora do meio." Falei seca. "Mike ligou para dizer quando chegaria?" Procurei não estabelecer muito diálogo com Roger, que me encarou enquanto bebia uma dose de whisky.

"Ele está chegando em breve." Quinn respondeu. Ela também tinha um copo de whisky na frente, provavelmente cortesia de Roger uma vez que a minha namorada não tinha dinheiro sobrando para ser gasto com bebida cara em bar. "Roger contava sobre as últimas da R&J depois do naufrágio do filme Saint Woman."

"Os críticos não tiveram uma boa opinião." Alfinetei.

"Nem o público." Ele riu e parecia ser de si mesmo. "A bilheteria mal deu para pagar o custo. Ficamos no zero, mas valeu a experiência. Serviu para nos mostrar que a gente lucra menos com o teatro, mas é um investimento muito mais seguro para nós. Quinn me contou que vendeu a alma ao diabo. Quem diria?"

"Roger não gosta da Bad Things." Quinn explicou mesmo sem precisar.

"Por que é uma produtora bem-sucedida e em pleno crescimento?" Provoquei.

"Eles só investem naquilo que é seguro. Acho que há espaço para um pouco de arte até mesmo naquilo que é comercial. Talvez seja coisa de quem veio do teatro, não sei. Esses caras da Bad Things são pragmáticos, tecnicamente perfeitos, com drive para o mercado, mas sem arte e sem alma."

"É por isso que gosto de você, Roger." Quinn ergueu o copo. "Você sempre teve espaço para o idealismo."

"Menos no momento em que preferiu me demitir para preservar o galã que garantia a bilheteria." Disse com classe entre uma dose cavalar de cinismo. "Mas há males que vem para bem, e acho que deveria te agradecer, Roger. Se você não tivesse me demitido, hoje eu não estaria na HBO, em uma série aclamada pela crítica e com a segunda temporada renovada."

"É uma ótima série, Berry." Ele ergueu novamente o copo antes de enxugá-lo. "Você ganhou na loteria, e fico feliz por ter dado o chute inicial."

"Quanto a isso, Roger, muito obrigada."

Mike foi o próximo a chegar. Embora a minha curiosidade estivesse grande, ele insistiu que esperaria as pessoas chaves da vida dele para fazer o anúncio. Na medida em que o tempo passava, mais o grupo aumentava. Vieram Santana, Johnny, o agente de Mike, alguns colegas de trabalho (alguns que tínhamos em comum). Até mesmo Angela apareceu. Não fazia idéia que Mike ainda tinha contato com a primeira namorada que teve em Nova York. Ela estava muito bem, e atualmente trabalhava como coadjuvante numa peça dramática off-Broadway. Fiquei feliz em saber. Quando Mike julgou que todas as pessoas significantes estavam presentes, ele se levantou com um copo de conhaque em mãos.

"Bom, pessoal. Estou honrado que todas as pessoas significantes para mim desta cidade compareceram ao meu chamado."

"Lógico! Foi num bar!" Josh Solano gritou. "Agora fala logo antes que metade das pessoas aqui fique bêbada demais para se lembrar."

"Você tem um ponto." Ele apontou para o colega. "Queria informar que isso aqui é uma festa de despedida." Foi um choque. Eu e Santana trocamos olhares. Estávamos confusas. Muitos estavam, menos Quinn e algumas outras pessoas, como o agente de Mike. "Isso é uma festa de despedida com as pessoas que mais gosto, porque estou de mudança para Los Angeles. Tenho recebido algumas propostas de trabalho e entendi que administraria melhor a minha carreira se estivesse lá."

"Por quê?" Gritei quase inconformada.

"Bom, Rach, você é uma garota da Broadway. Eu tive a chance sem saber qual era realmente a minha. Descobri que me sinto mil vezes melhor diante de uma câmera do que de uma platéia. Sendo assim, lá é o meu lugar."

"Como você não me contou?" Cutuquei Quinn. Estava ainda atordoada. Ela não se importou e continuou a prestar atenção em nosso amigo.

"O lance é que vou passar dezembro quase todo fora e não vou ter outra chance boa de reunir todo mundo a não ser essa. Até porque vocês também são pessoas ocupadas e muitos aqui estão nos negócios. Deu certo trabalho para identificar essa janela e reuni-los. Mas estou feliz demais por ter conseguido. A minha vontade era de falar de cada um de vocês, do quão importantes foram para mim. Como não dá, porque senão vou causar ciumeira, me limito a falar em especial de quatro pessoas. Justo aquelas que me empurraram para essa jornada. A primeira é Roger, por ter ido ao concurso de coral e recrutado alguns jovens para fazer uma audição para uma peça altamente arriscada. Obrigado por ter colocado aquele bendito cartão em minhas mãos, porque sem ele, eu estaria cursando engenharia elétrica na OSU neste exato momento. Depois gostaria de agradecer a Rachel e Santana, as gêmeas mais díspares e adoráveis que se tem notícia. Sem elas, eu não teria ficado em Nova York para fazer a audição e nem me estabelecido na cidade. Por último, gostaria de agradecer a Quinn Fabray. Cara, eu não sei nem por onde começar." Mike se emocionou. "Como pode a menina que nem sabia da minha existência na escola ter se tornado a minha melhor amiga. Quinn foi o meu ombro amigo mais importante no período em que a minha família de sangue virou as costas por causa das escolhas que fiz. As gêmeas estiveram lá também e alguns de vocês, mas Quinn foi essencial. Era com ela com quem eu me abria, ela é a minha melhor amiga e é com ela que sinto à vontade de dizer coisas daqui de dentro. Obrigado por me aturar até agora, Quinn. Eu te amo, e espero sinceramente que você continue a me aturar à distância."

Aplausos. Quinn se levantou e abraçou Mike. Forte, firme, de forma prolongada com direito a lágrimas, sussurros no ouvido e um beijo no rosto. Foi uma cena tão afetuosa entre os dois, que me dei o direito de sentir uma ponta de ciúmes. Depois Mike foi cumprimentado pelo resto de nós.

"Eu também te amo, sabia." Disse quando o abracei.

Esse foi o momento melancólico da noite. As pessoas começaram a lembrar histórias engraçadas de Mike. Coisas que eu classificaria como embaraçosas. Quinn compartilhou pelo menos uma que desconhecia. Aparentemente eles faziam alguns jogos de bar envolvendo garotas. Cheguei a cruzar os braços e reconsiderar dunturecer as coisas para ela novamente. Acho que estava tão centrada na minha namorada que esqueci por um momento de observar a minha irmã. Santana não parecia tão à vontade, e bem e poderia jurar que a partida de Mike tinha nada a ver com o estado de espírito dela. Procurei entender razões para ela estar tão para baixo.

Não poderia ser trabalho. A Rock'n'Pano fazia uma trajetória decente e as coisas pareciam sob controle na Weiz. Columbia também não era problema. Minha irmã continuava a ser uma ótima aluna dentro do possível. Então reparei em Johnny. Olhei bem para ele paquerando descaradamente uma mulher no bar que estava fora do grupo. Quis matá-lo, mas por qual razão? Até onde sabia, ele e minha irmã se beijaram e depois nada. Os dois não tinham compromissos um com o outro, portanto, Johnny estava no direito de paquerar quem quisesse. A raiva dele não passou, mas eu raciocinei melhor e fui ao resgate da minha irmã.

"Ele é um imbecil." A surpreendi enquanto Santana bebia um copo de cerveja.

"Por quê? Ele tem nada comigo, Ray. Somos só amigos, e temos um contrato com a minha empresa."

"Eu sei, mas é a minha obrigação sagrada de irmã te colocar para cima mesmo sem entender direito essa história."

"Talvez seja melhor ficar sem entender." Santana terminou a cerveja. A intenção era conseguir outra, mas eu a impedi.

"Você já bebeu o suficiente e Mike fez a despedida social dele. Vamos para casa?"

"Isso não estragaria seus planos com Fabray?"

"Não tenho nenhum plano com ela para hoje." Disse com firmeza. "Meus planos com a minha namorada são para amanhã. Hoje o meu plano é chegar em casa depois de uma noitada, e ajudar a cuidar da minha irmã que está precisando de um colo."

"Digamos que talvez eu aceite..."

"Santy... sou eu... sei que as vezes você odeia contar certas coisas, mas eu sinto que precisa colocar isso para fora ou vai explodir."

"Não sou dramática como você."

"Mas está deprimida e isso me machuca."

"Ok, talvez eu queira um cobertor agora..."

Santana e eu nos despedimos de Mike e Quinn. Minha namorada ficou com uma ruga na testa pela minha saída, mas ainda teríamos o nosso encontro. Santana despediu-se de Johnny e achei corajoso e digno da parte dela mostrar que não estava por baixo. Entramos no táxi e voltamos para casa em silêncio. Santana trocou de roupa, usou o banheiro e foi para a sala com uma manta em mãos. Passava da meia noite, quando ela sentou no sofá e dividiu pedaço da manta comigo. Coloquei um musical, porque sabia que ela não restaria atenção e talvez começasse a finalmente desabafar.

"Não consigo imaginar Nova York sem Mike." Ela disse casualmente.

"Foi uma surpresa. Embora isso possa acontecer com qualquer ator."

"Você se mudaria para L.A. Ray?" A voz dela saiu miúda.

"Não está nos meus planos, Santy. Mas a gente nunca sabe o dia de amanhã." Ela ficou pensativa e prestou atenção no número de dança.

"Você e Quinn agora parecem um casal de namoradas normal." Comentou. "Parecem mais soltas quando estão perto uma da outra do que antes."

"Achou mesmo?" Santana acenou e eu fiquei feliz em saber. Realmente tudo parecia mais leve agora que morávamos em casas separadas e não nos víamos todos os dias. É como se estivesse menos pressão sobre o relacionamento. A sensação era ótima, não podia negar.

"Johnny engordou um quilo ou dois. Reparou? E aquela garota que ele estava conversando nem era tão sexy. Tinha um nariz do tamanho do mundo." Olhou para mim. "Sem ofensa."

"Você deu sorte, Santana Berry-Lopez, só isso. Eu gosto do meu nariz."

"A ponto de vez ou outra pensar em fazer plástica nele, certo?"

"Pelo menos eu nunca implorei para nossos pais autorizarem uma cirurgia plástica para colocar silicone nos seios, o que aliás, eles sabiamente nunca deram ouvidos. Você já é peituda igual a nossa mãe, e ainda queria ficar com aspecto de stripper? Seria um horror!"

"Puck dizia que eu seria perfeita se meus peitos fossem maiores..." Ela divagou. "Àquela época eu tinha alguns problemas com a minha imagem, como toda adolescente."

"Bobagem sua. Sempre foi linda. Intervenções cirúrgicas iriam te estragar."

"Eu achava que era mais autoconfiante que a maioria das meninas, mas tinha minhas fragilidades. Ainda tenho."

"Por exemplo?"

"Sei lá... o que posso ter de errado para Brittany nunca me escolher como prioridade? É a minha aparência? Por que sou bissexual? Minha personalidade? O quê? Eu ligo para ela, converso por skype para sempre ter a mesma imagem da moça que cuida do filho pequeno, que tem um marido. Ela já voltou a trabalhar, o que é legal. Mas ela não sinaliza nada de que me quer. Nadinha. E eu aqui sem saber por quê."

"Não há nada de errado contigo, Santy."

"Talvez tenha, Ray. Talvez tenha, ou por que eu tenho tanto medo de seguir adiante? De deixar Brittany para trás?"

Olhei para a minha irmã. Ela estava com a testa franzida, os olhos tristes e frágeis como há muito não a via. Passei meus dedos entre os cachos dos cabelos dela, e perguntei séria.

"Juro que é a última vez que pergunto, mas o que aconteceu entre você e Johnny naquela noite da Premiere?"

Ela tinha os olhos fixos em mim como se considerasse abrir a guarda ou não. Qual o ponto em não contar? Eu sentia, com o meu sexto sentido e pelo nosso cordão umbilical invisível, que Santana precisava colocar essas coisas para fora. Minha irmã relaxou um pouco mais no sofá, puxou as cobertas para si.

"Nós estávamos numa ótima noite. De verdade. Flertávamos um com outro como vínhamos fazendo há algum tempo. Era divertido e não era ao mesmo tempo, porque estar com Johnny me faz sentir coisas diferentes do que quando eu estava com Andrew, ou com Paul, ou com Puck."

"Não entendo..."

"Digamos que funciono assim, Ray. Eu gosto da mecânica do sexo com os caras. Mas não é que eu os ache particularmente atraentes no dia a dia. Eu tive namorados ou porque o cara era bom de cama, como Puck, ou porque era um grande amigo, como Andrew, ou porque queria viver a experiência e estava sozinha, como foi o caso de Paul. Johnny me assusta em primeiro lugar porque sou atraída de verdade por ele. Eu o acho sexy como eu acho uma mulher sexy. Como Izabella é sexy. Como acho Brittany sexy."

"Acho que é essa é a parte que explica porque você é bissexual, Santy."

"Pode ser, só que nunca aconteceu antes. A amizade entre nós sempre esteve presente, e depois que ele se arrumou e se revelou ser um cara muito bonito por trás daquele cabelo sem corte e daquela barba estranha, as coisas começaram a mudar nesse campo também. Um belo dia, me peguei seriamente atraída o Johnny. Acho que começou num show, e de lá para cá fui caindo cada vez mais. Andrew percebeu, e essa foi uma das razões que fez com que ele terminasse comigo. A gente via flertando de leve há algum tempo e as coisas tomaram proporções mais intensas quando terminei meu namoro. No dia da premiere, a gente se divertia com o comportamento afetado de algumas das pessoas do seu meio. A gente ria que nem criança travessa até que deixamos de rir e nos aproximamos de um jeito sério. A gente decidiu sair daquela multidão para tomar um ar fresco e foi quando a gente se beijou."

"Então?" Eu estava quase prendendo a respiração com a história.

"Foi maravilhoso. Eu me senti nas nuvens como nenhum outro cara havia conseguido fazer. Aliás, como nenhuma outra pessoa, exceto uma."

"Brittany."

"É. Brittany. Eu senti que aquele cara poderia me fazer seguir adiante. Se existe alguém que realmente tenha o poder de me fazer superar Brittany romanticamente falando, neste exato momento, é ele. Por isso entrei em pânico. Do fundo do meu coração, não sei se estou preparada para desistir da minha Britt Britt. Então eu o rejeitei da maneira mais grosseira possível."

"Oh, Santana."

"Eu disse algo... que classificaria como muito escroto até para os padrões despreocupados de Johnny. Disse algo como 'e quem disse que pequenos órfãos maconheiros não sabem beijar?', entre outras coisas menores. Não procurei contornar ou pedir desculpas logo depois. Johnny sequer respondeu. Ele fechou a cara e me deixou plantada. Foi embora, simplesmente. Não o culpo."

Johnny era um sujeito fechado quando se tratava da vida particular, e de todos nós, Santana era a maior confidente ele. Eu sabia que os dois pais dele morreram. O pai num acidente doméstico, se não me engano, e a mãe se matou meses depois. Santana é quem sabe melhor da história de Johnny, e ela não trai a confiança dele revelando coisas que supostamente não deveria. Deve ter doído muito ouvir tal comentário mesquinho da pessoa que se confia. Na minha impossibilidade de bater na minha própria irmã, até porque a vida já estava fazendo isso por mim, procurei ponderar da melhor forma que podia.

"Acho que você deveria pedir desculpas."

"Eu pedi desculpas dias depois, não se preocupe, ou não conseguiria nem mesmo olhar para o rosto dele de tanta vergonha."

"Então, minha irmã, acho que o passo seguinte é ser sincera consigo mesma. Gostar dele não é o problema. Dar a você mesma uma chance é a grande questão. Resta saber se você está disposta a ficar eternamente esperando por um amor que se arrumou com outra pessoa, ou começar a desconfiar que essa sua fidelidade emocional à Brittany não vai te levar a nada neste exato momento. Ao contrário, só está te segurando de encontrar o mesmo amor em outras pessoas, como Johnny. Eu amo Brittany, Santy. Ela também é uma das pessoas mais importantes da minha vida, em especial da minha juventude, e sei que ela te ama tanto a ponto de ficar realmente triste se soubesse que você se priva de tentar a própria felicidade por causa dela."

"Você acha?"

"Tenho certeza." Passei minha mão de leve no rosto da minha irmã. "Se você gosta do Johnny, converse com ele. Tente. Se não der certo, paciência. Mas vai que dá? Vai que ele é o cara da sua vida? Você só vai saber se tentar."

"Eu te odeio, Ray. Odeio quando está certa e eu passo pela insegura da nossa dupla."

"Você é orgulhosa demais para essas coisas."

"Talvez. É que quando penso nos meus 29 minutos de vantagem..."

"Boba."

Minha irmã aproximou o rosto e trocamos um selinho antes de ela encostar a cabeça no meu ombro para dormir enquanto o filme chegava à metade. Minha vida amorosa estava encaminhada. Torcia para que a da minha irmã pudesse se resolver também.