(Rachel)

Eu estava numa missão de aniversário. Santana e eu iríamos completar 21 anos. Era a nossa maior idade em definitivo. A data marcava oficialmente que éramos adultas. Não poderíamos ser mais declaradas como dependentes do meu pai no plano de saúde ou no imposto de renda. Para mim significava muito mais que isso. Era a data que se cumpriria um acordo que fiz com papai quando tinha apenas nove anos de idade. Por muito tempo cheguei a esquecer o trato, mas com a proximidade da data, pelo fato de papai não estar mais entre nós, e pelo ano corrido e intenso que vivi, a história não saía da minha mente.

Sei que a maior parte das pessoas quando faz 21 anos reúne os amigos e vai se embebedar num bar qualquer. Mais ou menos como foi celebrado os 21 anos de Quinn. Aquilo era o clichê desejado. Mas não para mim. O meu aniversário seria especial em todos os sentidos, porque estaria numa caçada ao tesouro. Para isso, seria imprescindível a presença de Santana. Ela não tinha idéia do que eu queria fazer, e reclamou uma barbaridade quando apresentei duas passagens de avião de ida para Portland, e passei uma semana fazendo intensa chantagem emocional para que ela me acompanhasse.

Santana desejava o clichê. Ela sonhava com a festa dos 21 anos desde os 12. Claro que na cabeça de pré-adolescente dela (com algumas modificações posteriores), a festa seria realizada em Las Vegas com a presença de Brittany, e de todos os amigos que ela julgava importantes na época. Eu não faria parte da comemoração porque Santana aos 12 anos me considerava chata, irritante, boca grande e indesejável. Nove anos depois, só consegui reverter o indesejável no conceito que a minha irmã tem de mim, e agora seria convidada para a festa. Ela ainda me chama de chata e irritante. Não me chama mais de boca grande, mas deve pensar a considerar a relutância que ela tem em dividir certas coisas pessoais comigo. Levaram semanas para contar o que houve entre ela e Johnny, só para citar o exemplo mais recente.

Pulei de alegria quando chegou na manhã de quinta e vi a mala de Santana pronta para irmos ao aeroporto. Nossos laços sanguíneos, genéticos e espirituais sempre falaram mais alto.

"Ok, Frodo, espero que essa viagem se faça valer, apesar de eu não saber o que possivelmente a gente vai fazer no fim do mundo chamado Oregon. Com tantos lugares interessantes para se ir à costa oeste, porque a gente vai logo ao pior? Por que não San Francisco? Ou a própria Los Angeles? A gente poderia ir para a Disney, e depois descer para Vegas numa road trip. Ou, sei lá, a gente poderia ir para o México encher a cara e fazer uma tatuagem. Mas Portland? O que há para se fazer em Portland a não ser cair no tédio? Você já viu Portland? É como ir a Cleveland, mas em vez do lago, temos um rio tedioso."

"Você não deveria falar mal de Cleveland. A gente nasceu lá."

"Então vamos para Cleveland comemorar o nosso nascimento. A gente se hospeda na casa do quintal de zaide e bubbee, e vai encher a cara naquele bar legal na orla do Eire."

"Não."

"Qual é o seu lance com Portland?"

"Eu te conto quando chegarmos lá." Disse cantarolando.

"Para quê tanto mistério?" Santana estava inquieta.

"Não vou estragar a surpresa." Cantarolei mais uma vez.

"Eu te odeio, Rachel Barbra Berry-Lopez." Cruzou os braços. "Você é a pessoa mais irritante do mundo. Como pode isso ser humanamente possível? Qual é o problema de você me dizer a razão de me arrastar até o fim do mundo?"

"Que eu me lembre bem, você gostou do fim do mundo uma vez."

"É, eu tinha uns oito anos..."

"Nove." Corrigi rapidamente.

"Tanto faz. Era uma criança e a gente viajou num verão. Não num inverno intenso às vésperas de completar 21 anos!"

"Lá é mais quente do que aqui. E tem vulcões."

"Tomara que essa viagem seja mesmo importante, Rachel Barbra Berry-Lopez. Para o bem da sua integridade física!"

Eu poderia responder falando o nome completo dela também, mas Santana detestava o nome do meio, e isso poderia deixá-la ainda mais nervosa. Já era bom o suficiente ela ter decidido me acompanhar sem eu precisar dopá-la ou algo nesse sentido.

Chegamos em tempo ao aeroporto, beneficiadas por um trânsito tranquilo para o horário. Eu poderia ter pedido para Quinn nos levar e depois permitir para que ela ficasse com o carro. Por fim achei melhor não. Ela estava empenhada em fazer o curso de verão na faculdade que lhe garantiria os créditos mínimos para formatura. Ela também tinha o estágio, que não lhe daria férias. Eu não queria atrapalhar.

Nosso voo foi tranqüilo. Santana passou a viagem quase inteira com os olhos grudados no ipad. Antes fosse por causa da Rock'n'Pano: ela testou um joguinho de videogame desenvolvido por Andrew em parceria com outro rapaz. Era um desses bobinhos estilo Angry Birds, feito só para passar o tempo. Parecia entretida com aquilo. Ela jogou outras coisas e viu alguns pequenos vídeos. Em resumo, fez qualquer coisa para não falar comigo. Eu só pude me resignar, e ler alguns dos roteiros que Josh me passou para análise. Tinha um roteiro razoável de um filme independente a ser rodado entre Los Angeles e México, tinha outro para um papel secundário num filme a ser rodado na Carolina do Norte, de um filme pequeno cheio de nudez e sexo a ser rodado na Califórnia.

Alguns diretores acham que explorar o corpo humano é fazer arte no cinema. Mas existia uma distância enorme entre fazer um soft pornô e um filme de arte explorando o tema. Não aceitaria fazer aquilo, e nem pegaria o filme independente porque embora ele fosse interessante, as agendas iriam colidir. Escolhi o filme a ser gravado entre Los Angeles e México. Já tinha conversado com os produtores e com o diretor. Faltava finalizar os valores e então, em agosto, começaria a filmar em Los Angeles quase imediatamente depois da segunda temporada de Slings and Arrows. Estava animada e receosa.

Ouvi o sinal para colocar o cinto, e a aeromoça pediu para Santana e os demais passageiros a desligarem os aparelhos eletrônicos. Pousamos bem apesar do frio e de alguma neve. A gente se dirigiu imediatamente para o hotel próximo do aeroporto. Um de pouco luxo, o que não me importava porque não precisaríamos mais que uma diária.

"Agora que desembarcamos, será que dá para você me contar?" Ela insistiu. "Vir para Portland e ainda se hospedar em hotel barato?"

"Não!" Disse firme depois que deixamos as malas em nosso quarto. "Vamos naquela locadora de carros perto deste hotel. Quero fazer isso logo para a gente poder cair na estrada amanhã. Quanto mais cedo, melhor."

"Amanhã é o nosso aniversário, Ray! 21 anos! Pelo menos deve haver alguns pubs legais aqui em Portland para gente encher a cara."

"Você pode encher a cara hoje. Mas saiba que vai dirigir amanhã!"

"Dirigir para onde?"

"Amanhã eu te falo."

Santana resmungou pela enésima vez. Meus planos eram específicos, estavam cronometrados inclusive. Alugamos um bom carro, passamos num mercado para comprar comidinhas para viagem, água mineral, suco em caixinha, sanduíches frios, coisas como macarrão instantâneo e biscoitos, e voltamos para o hotel. Jantamos e Santana não saiu para encher a cara, afinal. Ficou me fazendo companhia no quarto. Ou quase isso. O humor dela estava péssimo, e ela passou o tempo inteiro em frente a televisão, resmungando coisas que não pude escutar com clareza enquanto eu arrumava nossas coisas e pensava positivo. Tudo iria valer à pena.

...

19 de dezembro de 2015

(Rachel)

Meu celular despertou às cinco e meia da manhã. Ainda estava escuro, mas era o velho hábito que herdei dos meus pais sempre que nos preparávamos para viajar de carro. Levantar cedinho, antes do sol nascer, colocar as coisas no carro, tomar café da manhã e pegar a estrada. Papai como botânico adorava o ambiente aberto, a natureza, as florestas e viagens de carro. Santana também adorava, mas isso não queria dizer que ela resmungaria menos. Confesso que eu era mais parecida com o meu pai neste aspecto: gostava de viajar de avião e ter conforto. Santana e papai sempre foram os aventureiros da família, mas essa história teria de mudar um pouco. Pulei em cima da minha irmã na cama ao lado e comecei a sacudi-la.

"Ei Santy, adivinha só? Hoje é o nosso aniversário!" O frio logo me fez entrar embaixo dos cobertores dela. Aproveitei para abraçá-la forte.

"Eu quero te matar!" Ela resmungou alto. Às vezes ficava admirado na quantidade de vezes que ela desejava dar o fim na minha vida. Se fosse levar a vontade ao pé da letra, teria que ter mais vidas que um gato para atender à demanda de morrer tantas vezes pela boca de Santana.

"Mata depois. Temos de nos aprontar para pegar a estrada." Dei um selinho nos lábios dela ainda debaixo dos cobertores, e me levantei, puxando todas as cobertas comigo. Ouvi um grito abafado no travesseiro de horror.

"Por que você tem que ser assim? Se ao menos estivesse um dia ensolarado e quente lá fora para aproveitar!" Ela esbravejou. "Mas não! É o maldito Oregon, com suas malditas florestas de pinheiro de reflorestamento durante o maldito inverno."

"Oficialmente ainda é outono." Precisei segurar o riso ao ouvir o grito de agonia.

Eu fui a primeira a usar o banheiro. Santana ainda enrolava em cima da cama, lutando para acordar. Demoramos quase uma hora por causa da frescura da minha irmã (eu nunca pensei que fosse dizer isso dela), e mais meia hora para arrumar nossas coisas e fechar a diária antes de pegar a estrada. Passamos no Starbucks que vimos ao longo do caminho, compramos dois cafés e pegamos a rodovia em definitivo.

"Para onde Ray?" Santana disse enquanto bebia uma golada do café. "Agora você tem que me dizer, já que eu estou no volante."

"Crater Lake." Fui consultando os mapas rodoviários a acessei do meu celular. "A gente pega a nº 5 e desce até Eugene e de lá pega o desvio para a rodovia secundária nº 58. Não tem mistério".

"O que tem de especial em Crater Lake? Quer dizer, a gente esteve lá quando tínhamos uns 10 anos?"

"Quando a gente tinha nove anos, Santana. Isso é birra sua ou você realmente não se lembra de quando estivemos aqui?"

"Uma das poucas coisas que eu me lembro dessa viagem foi que você quase se afogou no rio e papai precisou te tirar da água. Foi daí que você desenvolveu esse medo de nadar em piscinas, lagos e tudo mais. Um medo que até hoje você não procura tratar, o que faz muito mal. Mas fora essa sua quase morte, não vejo razão do Crater Lake ser possivelmente espiritual. Muito menos lá é um bom lugar para se comemorar um aniversário de 21 anos."

"Eu te explico quando a gente chegar. Mas é importante para nós duas. Confie em mim!"

A rodovia nº 5 era uma reta na maior parte do tempo, e em pouco mais de duas horas de viagem chegamos a Eugene, que é o berço da Nike. Mas não paramos para fazer turismo nela. Nosso fim era encontrar um banheiro, e para fazer um lanche rápido. Havia um mercado que vendia pêssegos bonitos. Comprei alguns e peguei um para saborear. O resto, eu alojei no pequeno cooler com os sucos, os sanduíches e a água. Pegamos a estrada de Eugene para o Crater Lake. Não me lembrava da estrada em si, mas por causa da região de montanhas tratei de tomar um remédio para prevenir enjôo. Santana era quem dirigia, mas ela não poderia tomar um porque esse tipo de remédio dava sono. Depois, os motoristas sentiam menos do que os passageiros por alguma razão estranha.

Era a seleção musical de Santana que reinava no som do carro (exigência dela). Por alguma razão, ela estava passando por uma fase em que só escutava os clássicos como Beatles, Stones, Birds, The Allman Brothers Band e Jimi Hendrix. Posso dizer que a trilha da nossa viagem foi rock'n'roll da melhor espécie. Mais duas horas de viagem, e chegamos ao resort de acampamento do Crater Lake, exatamente o mesmo em que estivemos quando éramos pequenas. Se olhar matasse alguém, Santana teria me assassinado inúmeras vezes. Mas eu tinha as minhas razões por escolher aquele resort rústico.

"Boa tarde." Disse para a recepcionista assim que entrei na sede do resort. Era a maior construção do lugar e parecia ter sofrido uma reforma recente. O hall de entrada e recepção parecia novo em folha, e havia algumas facilidades por lá, como banheiro, lanchonete, sala de jogos e lugar para alugar equipamento. O restaurante ampliado ficava numa ala à parte. Os andares de cima tinham apartamentos caso alguém não gostasse de chalés, creio eu. O lugar estava vazio, mas a temporada de esportes de inverno mal tinha começado. "Sou Rachel Berry-Lopez. Tenho uma reserva para um chalé".

"Claro!" A moça consultou o computador. "Berry-Lopez, você reservou um chalé com duas camas para duas diárias".

"Correto." Mostrei a minha documentação, fiz o registro de entrada e já deixei pagas as diárias.

Uma outra moça me acompanhou, e pediu a Santana para que ela colocasse o carro a posição correta do que seria a garagem do nosso chalé. Feito isso, mostrou rapidamente as instalações. Era um lugar simples com duas camas grandes, conforme foi o pedido de reserva, banheiro bem arejado e limpo, televisão, sinal de internet, aquecedor a óleo, lareira e espaço de cozinha.

"Conforme está no contrato, oferecemos o café da manhã aos nossos hóspedes das sete às 10 da manhã. O restaurante volta a funcionar comercialmente depois deste horário para servir pratos a La carte, e oferecemos 20% de desconto do valor da conta para os nossos hóspedes. Basta apresentar o cartão do quarto. Devo lembrar que as atividades no rio ficam suspensas durante o inverno, e a trilha até o crater lake não é recomendada depois das três da tarde nesta época do ano. Qualquer equipamento que vocês precisarem para fazer as atividades disponíveis podem ser alugadas na sede. Nossos guias também estarão a disposição sempre pelas manhãs. Basta ligar para a recepção para agendar, ou se apresentarem na sede até as 10 da manhã."

"Obrigada."

"Sem querer ser inconveniente, mas posso fazer uma pergunta?" A atendente mudou de expressão, depois que o falatório obrigatório foi dito.

"Claro!"

"Você não é a Kath de 'Slings and Arrows'?" Acenei positivo. "Achei a série fabulosa. Fiquei entusiasmada quando soube que ia ter uma segunda temporada".

"Muito obrigada. Fico honrada por você ter gostado na história".

"Posso ter um autógrafo seu e tirar uma foto?" Ela olhou por trás de mim, chamando a minha atenção. Santana estava praticamente rosnando. "... ela está bem?"

"Não liga para a minha irmã. Ela é nervosa assim mesmo." Disse enquanto assinava. Tiramos uma foto pelo celular e ela nos deixou em paz em seguida.

Eu gostei do espaço. Não me lembrava dos detalhes do chalé em que ficamos da última vez, mas era um dos maiores para famílias completas. Não tinha razão para eu alugar um daqueles quando só haveria eu e Santana. Ficamos com o chalé menor, desses que costumavam ser ocupados por casais. Por isso eram mais aconchegantes. Quem sabe eu não levaria Quinn para uma viagem num lugar desses, algum dia? Sei que mato não era a preferência dela. Nem a minha para dizer a verdade, mas bem que poderia ser romântico.

"Não acredito que vou passar o meu aniversário de 21 anos num chalé no meio do nada contigo!" Santana gritou de frustração e raiva. Eu não liguei. Tinha coisas a fazer.

Peguei um casaco de frio mais grosso e voltei até a recepção. Pedi uma pá emprestada. Acho que a moça ficou com medo de eu querer matar Santana e enterrar o corpo por ali. Por isso hesitou. Mas eu usei o meu poder persuasivo, afinal, era uma atriz que aparecia na HBO, e ela me trouxe a ferramenta pedindo o máximo de discrição porque havia outros hóspedes, pelo que entendi, e eles poderiam achar estranho. Então passei de volta no chalé e praticamente arrastei Santana junto comigo.

"Vai plantar pinheiro?" Ela me ironizou enquanto entrávamos na pequena floresta. A sorte é que, apesar das melhorias, o resort preservou muitas coisas, inclusive aquela parte da floresta que me interessava em particular.

"Você vai ver. Agora me ajude a achar uma árvore de tronco torto que lembra o número 4".

"Você diz aquela ali?" Santana apontou para exatamente para a árvore que eu estava procurando.

Comemorei. Ficaria desolada se fosse até ali e depois soubesse que a árvore tivesse sido derrubada e o local ocupado por construções. Mas o espaço em si era quase exatamente como me lembrava. Agora sim poderia cumprir minha missão e minha promessa.

Meu pai, papai, eu e Santana fizemos uma viagem de férias de verão pelo Oregon quando Santana e eu tínhamos nove anos. A gente foi de Astoria, a cidade em que foi rodado o filme 'Os Goonies' até o Crater Lake, conhecendo todos os pontos turísticos que o estado poderia oferecer: das montanhas ao deserto. Foram 15 dias percorrendo o Oregon de carro, dormindo em cidades diferentes, conhecendo desde o deserto, até os vulcões com seus picos com neve.

Lembro que papai queria fazer algo diferente, e sugeriu uma viagem dessa natureza em algum estado do nosso próprio país. Ele deve ter vencido alguma disputa contra meu pai, porque o velho Hiram Lopez gosta de conforto, e é meio avesso a viagens muito elaboradas, cheias de traslados. Confesso que fiquei muito parecida com meu pai nesse aspecto, e nos gostos, mas quando se é criança, viagens com aventuras são perfeitas. Lembro que o plano inicial era conhecer o Grand Canyon. Não sei por que não deu certo e acabamos viajando pelo Oregon.

Eu nunca fui ligada a fazer esportes em rios, caminhadas em trilhas e todas essas coisas ligadas à natureza. Papai e Santana adoravam se embrenhar em florestas e em todas as coisas aventureiras. Como botânico, papai adorava acampar, andar de bicicleta em trilhas, nadar em rios. Eu participava, porque a família inteira ficava junta na maior parte das atividades. Papai nos orientava na caminhada e dizia as espécies interessantes de plantas que encontrava pelo caminho. As vezes fazia joguinhos entre eu e minha irmã, para ver quem sabia mais sobre coisas da natureza. Santana costumava ganhar, claro.

Eu não me importava com isso, porque era uma relação que os dois tinham que nunca me interessei ou senti ciúmes. Eu preferia ficar sob a barra da calça do meu pai, o médico. Burguês como sempre foi, meu pai apreciava um ótimo hotel com academia de ginástica bem aparelhada. Se hoje Santana me chama de fresca, digamos que isso também é culpa do meu pai. Santana seguia muito papai quando era criança. Eu costumava seguir o meu pai. É interessante como genética tem nada a ver com afinidades.

Naquele ano, atravessamos o Oregon entre pequenos chalés e acampamentos. Quando chegamos ao Crater Lake, nossa última parada no estado, nos hospedamos neste exato resort, que na época não tinha uma estrutura tão boa, nem tão confortável quanto a atual. No dia seguinte, Santana e papai entraram afoitos no rio para brincar. Era verão e fazia muito calor, mas as águas dos rios do Oregon eram sempre frias por causa da origem do desgelo das montanhas. Eu quis segui-los, mas ainda estava aprendendo a nadar àquela época. Ia a contragosto nas aulas de natação. Enquanto Santana atravessava a piscina várias vezes como um peixe, eu sempre tive dificuldades. Some isso daí ao fato das crianças me zoarem durante a aula porque era pequena e medrosa. A água nunca foi meu ambiente favorito, mas eu tentava aprender a nadar.

Então, naquele dia, quis seguir papai e Santana. Numa desatenção, escorreguei no lodo da pedra e caí em um dos vários poços formados pelo rio. Não estava preparada para aquela situação, lembro da água congelante, meu cérebro parece que parou e não consegui reagir. Lembro a sensação até hoje de me debater, de me afogar, e só enxergar o reflexo luminoso do sol. Até que fui puxada por alguém: papai me salvou e me tirou da água. Meu pai correu e fez respiração boca a boca até que expeli a água que tinha engolido.

Meus pais brigaram feio naquele dia, e eu achei que foi por minha causa. Hoje, mais velha, penso que meu acidente foi um catalizador para uma briga, não a razão em si. Mas naquela época, eu era só uma criança e não sabia ponderar essas coisas. Foi horrível. Chorei o resto do dia de tanta vergonha. No final da tarde, papai teve uma idéia para me animar. Que iríamos enterrar ali uma cápsula do tempo com tesouros. Então pegamos objetos nossos e roubamos outros de meu pai e Santana. Colocamos tudo dentro de um saco plástico, lacramos muito bem e depositamos tudo numa caixa de plástico dessas que parecem de pescaria. Embalamos a própria caixa num saco de lixo e a fechamos o melhor que foi possível. Entramos na floresta como grandes aventureiros e achamos uma árvore peculiar, em forma do número 4. Ela era perfeita para marcar o local de nossa cápsula.

"Então é isso que você está procurando?" Santana disse depois que expliquei enquanto tentava cavar o local aproximado. "Uma caixa enterrada com coisas velhas?"

"Papai disse que aquela cápsula do tempo deveria ser desenterrada quando eu fizesse 21 anos. Porque seria o máximo ter o meu primeiro momento como adulta em maior idade, e poder desenterrar uma cápsula do tempo para se lembrar das coisas boas. Eu poderia pegar a caixa e pensar no quanto eu havia crescido. Papai disse que seria uma coisa que faríamos juntos, que aquilo era uma promessa. E caso ele não pudesse vir por qualquer razão, então que eu devesse comparecer em companhia do meu príncipe encantado para desenterrar os tesouros. Bom, no meu caso: uma princesa que não gosta tanto assim de musicais. Como papai quebrou a promessa e a minha princesa ainda tem momentos de sapo, então você era a próxima da fila. Qual outra pessoa neste mundo que eu ia querer aqui comigo para desenterrar esse tesouro senão a minha irmã? Além disso, são coisas de papai, Santy. Dizem respeito a nós duas."

"Papai sempre contava essas histórias bobas de príncipes e princesas." Santana secou os olhos e pegou a pá. Ela tinha mais jeito do que eu. "Você vivia se imaginando em castelos. Eu não. Eu sempre quis ser o cavalheiro que lutava contra os dragões." Começou a cavar.

Perdemos um pouco de tempo nessa parte, cavando em diversos locais, pois eu não lembrava exatamente aonde a capsula foi enterrada. Santana e eu nos revezamos no manuseio da pá. Até que, pouco mais depois de uma hora procurando, Santana esbarrou num objeto e começou a tentar tirá-lo com a mão. Eu prontamente ajudei. Mal podia acreditar que era a nossa cápsula do tempo. Puxamos a caixa. Ela estava ali perfeita, ainda embrulhada com todo esmero no saco plástico preto. Santana e eu voltamos para o chalé imediatamente. Estava frio, muito escuro e começava a nevar. Era provável que caísse uma tempestade de neve naquela noite. Já na segurança e no calor do nosso abrigo com os aquecedores em pleno funcionamento, abrimos a minha cápsula do tempo e começamos a lembrar.

"Então aqui que foram parar as minhas figurinhas de Arquivo X, e o meu CD de clássicos dos Beatles com a Turma do Snoopy?" Santana abriu um sorriso largo. "Eu adorava esse CD. Será que ainda toca?" Ela inseriu a mídia no computador e para a nossa surpresa, sim, o CD ainda funcionava. Comemoramos.

Deixamos que Yellow Submarine cantado por crianças de um jeito meio desafinado, usando instrumentos de brinquedo, tomasse o ambiente. Não me lembrava desse disco, mas dá para entender porque Santana tem um gosto musical muito mais cool que o meu. Eu ouvia musicais, ela sempre ouviu Beatles. Aquele disco era mesmo a cara dela.

Na cápsula tinha um pequeno ursinho de pelúcia que eu chamava de Pibu, um desenho que eu fiz da minha família: meus dois pais, Santana e eu. Tinha o chaveiro com a boca dos Stones do meu pai, a pedra em formato de ponta de lança que papai tinha achado naquela mesma viagem, a pulseira afro que papai gostava de usar, o cubo mágico de Santana (ela conseguia resolver, eu não), e o meu chaveiro do Empire State que papai havia me dado na primeira vez que me levou a Nova York. Dizia que eu conquistaria aquela cidade. Os dois falavam a mesma coisa, para ser justa. E tinha também um bilhete escrito por papai à mão. Abrimos com todo cuidado, pois o papel estava meio fungado e velho.

"Alô, alô Rachel do futuro!

Câmbio!

Se você está lendo essa carta, aí perto do ano 2015, é porque você completou 21 anos e deve ter se tornado uma mulher exuberante. Talvez até esteja acompanhada do seu príncipe encantando que gosta de musicais, a sua alma gêmea. Eu não poderia estar mais triste e mais feliz por isso. Triste porque significa que a minha princesinha cresceu, contrariando as preces fervorosas que os pais fazem todas as noites para que vocês sejam eternas crianças. Feliz porque você deve estar radiante por viver uma vida feliz, talvez esteja prestes a conquistar todos os seus sonhos, e que alguém bom possa estar ao seu lado te fazendo muito feliz. O Hiram aqui do passado deseja que esse príncipe te trate com todo amor. Um tão grande quanto o meu. Você não merece menos que isso.

Aproveite e mande saudações deste Hiram do passado às outras pessoas que mais amo aí do futuro: Santana e Juan. Santana deve estar crescida, linda. Talvez uma intrépida aventureira dos sete mares. Ela não queria ser pirata? Ou seria caçadora de dragões? Oh, a mente deste velho já não funciona como antes. Ou seria porque sua irmã sempre deseja viver grandes aventuras diferentes a cada semana? Que D'us conserve esse bom espírito em sua irmã. Juan já deve ser o chefe cirurgião do hospital até 2015. E eu, bom, imagino o Hiram do futuro como um velho bobo, fazendo todos os desejos das pessoas que mais amo e me preparando para estragar todos os meus netos. Sim, porque o Hiram do passado sabe muito bem que o Hiram do futuro vai deseducar com tantos mimos e sentir um orgulho danado ao ver a família crescida e feliz.

Vou aproveitar a ocasião e checar algumas coisas que andei pensando. Rachel do futuro, por favor, ajude o Hiram do futuro a colocar um sinal de certo na frente dos itens. Ele não deve enxergar muito bem a essa altura:

— Rachel aprendeu a nadar;

— Santana aprendeu que a torradeira não foi feita para derreter queijo;

— Rachel aprendeu as regras do futebol americano;

— Santana não se perdeu numa expedição pela floresta amazônica;

— Rachel se convenceu que Liza é melhor do que a Barbra;

— Santana aprendeu a gostar da Liza e de musicais;

— Rachel está feliz;

— Santana está feliz;

— Nossa família está unida, apesar de todos os tropeços que sempre acontecem.

Você deve estar estranhando porque eu não mencionei a Broadway. É que, para mim, o que mais me interessa é a sua felicidade, não importa onde ou no que esteja fazendo no momento. Siga a vida, minha princesa. Não tenha medo de encarar esse horizonte. A vida é preciosa e interessante mesmo nos momentos de dificuldade. Pode ser que você discorde do seu velho em algum momento. Mas eu insisto: confie. Com o tempo perceberá que tudo que acontecer só vai servir para que você seja uma pessoa ainda melhor. Só não se esqueça nunca de abrir esse sorriso maravilhoso do qual sou apaixonado (e nunca nos prive de sua gargalhada). O mundo é mais bonito quando você sorri.

Que D'us proteja todos os seus caminhos.

Te amo com toda a minha alma e coração.

Hiram Joel Berry

Câmbio, desligo!

Oregon, Crater Lake, 16 de agosto de 2004"

Minha visão estava embaçada e eu soluçava de tanto chorar. Santana me abraçou e me aninhou contra o corpo dela. Ali ficamos quietas.

...

20 de dezembro de 2015

(Santana)

Não me lembrava de muitos detalhes da primeira vez que vim aqui. Papai dizia que era considerado um dos locais mais bonitos do mundo, e também um dos mais atípicos. O Carter Lake era o lago vulcânico mais profundo que existe em território norte-americano. Ele não tem conexões externas. Em outras palavras, não alimenta e nem é alimentando por rios e outros lagos. A água dele vem exclusivamente do derretimento de neve e das chuvas anuais. E no Oregon chove muito! Ainda assim, é uma das águas mais cristalinas do mundo. Nada vive dentro dele a não ser plânctons e bactérias por causa da acidez da água. Papai é que gostava de dizer essas informações com todo entusiasmo. Do Crater Lake, e de muitas outras paisagens naturais que ele considerava fascinante por alguma razão.

Quando Rachel me arrastou para cá sem me dizer o motivo, fiquei puta de raiva. Meu plano era ter uma festa arrasadora de 21 anos com todos os meus amigos. Primeiro, eu pensei em comemorar em Vegas, mas depois tive uma fase indie e pensei em me divertir num show do Franz Ferdinad (as bandas iam sendo trocadas ao longo do tempo), e depois encerraríamos a noite num jazz club para beber e dançar até o amanhecer do dia. Jazz clubs eram um luxo no meu modo de ver. No entanto, passei o meu aniversário num chalé perdido no Oregon em companhia de Rachel. Quer saber? Foi o melhor presente de aniversário que ela poderia me dar. Acho que eu reli a carta de papai umas 50 vezes. E mesmo que não seja diretamente endereçada a mim, sinto um nó na garganta em todas as leituras. O recado era para Rachel, e mesmo assim ele não deixou a oportunidade passar para dizer que me amava e que só desejava a minha felicidade.

Olhei em direção ao restaurante próximo ao mirante. Rachel estava ainda lá dentro fazendo não sei o quê. Não ia atrás dela. A grandiosidade do lago capturou a minha atenção mais uma vez. Pensei em Rachel. Nós duas passamos por alguns maus bocados neste ano, tanto profissionais quando pessoais. A novela do senhor Weiz só foi um suplício maior do que o fora que levei da Brittany. Minha irmã precisou se superar em muitos sentidos e, ainda assim, não deixou de olhar pelas pessoas que amava, em especial por mim. Nem eu deixei de olhar por ela, assim, do meu jeito. Foi como papai me disse há alguns anos: estava em nossa natureza cuidar uma da outra por maiores que fossem as nossas diferenças no momento. Sim papai, onde quer que esteja (e certamente olhando por nós), procuro cumprir o que prometi ao senhor. Jamais a deixarei na mão.

"Cerveja?" Rachel me ofereceu uma garrafinha. "Eu comprei! Mostrei a minha identidade e comprei! Não precisei pedir para outra pessoa fazer isso por mim, nem contei com a sorte e nem precisei pagar a omissão do caixa para ele liberar." Era o que a gente costumava fazer quando comprava bebida alcoólica. Às vezes uma garrafa custava três dólares, mas pagávamos o dobro para o caixa nos deixar comprar.

"Que emocionante!" Revirei os olhos enquanto girei a tampa para abrir. "Eu proponho um brinde." Rachel me olhou intrigada. "Ao papai. Aquele velho Berry deve estar dando muitas risadas lá no céu as nossas custas".

"Eu estendo esse brinde a nós, as irmãs Berry-Lopez. A nossa parceria e cumplicidade é para sempre, não importa o que aconteça em nossas vidas. Eu queria também brindar a você, Santy, que foi a minha rocha nesses últimos anos".

"Pode apostar! Mas saiba que a recíproca é verdadeira. Você foi a minha rocha, Ray. Eu não conseguiria passar por nada do que passamos, sobre todos os segredos sendo desvelados, se você não estivesse ao meu lado."

"Um brinde a nós?"

"Um brinde a nós." Sorri e brindei.

Ainda estava muito emocional e as lágrimas brotaram nos meus olhos pela enésima vez desde que chegamos ao Crater Lake. Rachel beijou o meu rosto e me abraçou. Então eu sacudi a cabeça erguia garrafa e dei mais um gole no líquido. A cerveja era deliciosa. Olhei o rótulo e percebi que era produto de uma das dezenas de pequenas fábricas artesanais que existiam no Oregon. Era o estado que tinha as melhores em todo os Estados Unidos. Oregon, além de pinheiros e castores, também era sinônimo de boa cerveja americana, precisava admitir. Melhor do que as cervejas do Oregon, só as cervejas belgas, que era mesmo imbatíveis.

"Você deveria levar a carta de papai para mostrar ao nosso pai." Rachel sugeriu.

"Mas ela é sua. Não acha que você deveria mostrar em pessoa?"

"Quem vai passar o natal em Lima é você, Santy. Você deveria levar a carta e também o meu abraço para nosso pai e Shelby, e para o resto da nossa família. Pense no quanto zaide e bubbee ficarão felizes."

"Enquanto isso, você se enterra em Nova York com Quinn." Não gostei em saber que ela deixaria de passar as festas de fim de ano conosco para ficar na cidade só por causa da namorada dela.

"Não é por causa da Quinn. Eu estou atolada de trabalho a fazer, tem os ensaios, e a peça vai estrear mês que vem. Quinn vai ficar porque ela precisa fazer créditos extras para antecipar a formatura. Uma coisa tem nada a ver com a outra. Mas já que vamos estar sozinhas na cidade, claro que vamos passar natal e ano novo juntas."

"Sua amorosidade me choca." Quinn e Rachel tinham retomado o namoro, o que era bom no sentido que aquele drama pesado teve um desfecho. Mas a minha irmã estava definitivamente mais fria com Quinn.

"Quinn e eu estamos trabalhando em algo diferente, e eu não vou fazer nada para quebrar isso. Pelo menos não enquanto me se sentir desconfortável com certas coisas."

"Vocês são muito complicadas."

"Olha quem fala! E você e o Johnny não são?"

"Não somos." Fui categórica. "Como pode ser complicado algo que sequer teve a chance de começar? Além do mais, nossa amizade sempre foi simples e natural. Diferente de você e Quinn."

"Bingo. Mesmo assim, Santy, se quer saber da minha opinião: não desista assim tão fácil e tão logo. Se existe uma chance e ele ser a sua pessoa, a sua metade, em vez de Brittany, não desista."

"Mas ele está com outra agora, e eu não estou com saco de dar uma de estraga lares desta vez."

"Acontece que o meu sexto sentido diz que isso é só um caso. Que ele está esperando por um sinal seu, um de verdade, para largar quem for para tentar um relacionamento contigo."

"Mesmo?" Ironizei. "O seu sexto sentido te garante isso tudo?"

"Ainda me subestima apesar de todos esses anos e de todas as vezes que acertei? Nós temos o nosso cordão umbilical invisível."

Ela tinha um ponto válido. A intuição da minha irmã era muito afiada, especialmente no que dizia respeito das coisas sobre as pessoas que ela amava. Sobre as minhas coisas então... era um saco admitir que ela costumava estar certa sobre várias das coisas ao meu respeito.

"Vou manter isso em mente." Coloquei meu braço nos ombros da minha irmã e a aproximei para mais junto a mim. "Vamos pegar a estrada? Eu tenho um voo para Cleveland, e você precisa voltar a Nova York para a sua princesa sapo."

"Vai levar a carta?"

"Posso levar. E depois?"

"Depois você a traz de volta. É minha carta e eu não seria louca de deixar você com as minhas coisas! Essa carta vai para um cofre."

Soltamos uma gargalhada e nos abraçamos mais uma vez, desta vez forte, de verdade.

"Te amo Ray! Obrigada por me trazer a melhor festa de aniversário de todos os tempos." Sussurrei no ouvido da minha irmã.

Pegamos a estrada de volta. A neve caía suave no para-brisa e "In My Life", dos Beatles, tocava na rádio. Adeus Crater Lake. Adeus juventude. Olá vida adulta. Agora ela chegou para valer.

"Though I know I'll never lose affection.

For people and things that went before.

I know I'll often stop and think about them.

In my life I'll love you more.

In my life I'll love you more."

FIM...