"Precisa de ajuda, minha senhora?".
"Quanto está o espinafre?".
"Me vê 2 dúzias, por favor".
"Senhor! Senhor! Esqueceu sua sacola!".
Sasuke fazia o máximo para ignorar todos os murmúrios ao seu redor. Todo aquele barulho sempre lhe parecia extremamente desnecessário, chegando até mesmo a irritá-lo, porém, sua vontade de sentir o sabor ácido de seus tomates favoritos falava mais alto.
Era sempre a mesma barraca, o mesmo local. Ele chegaria até a Obaa-chan responsável, ela lhe daria um sorriso genuíno, e lhe entregaria seus tomates - estes já separados, como ela sempre fazia quando o via se aproximando.
Para seu alívio e conforto, a Obaa-chan não se importava com seu silêncio ou sua talvez falta de etiqueta. Não importava o humor do Uchiha, a velha senhora sempre o tratava muito bem - sempre dizendo o quanto ficava feliz em ver o jovem comendo tão bem comparado às outras crianças da sua idade.
Crianças.
Sempre que ouvia aquela palavra, de alguma forma, um arrepio lhe subia a espinha, e um gosto amargo a sua boca.
Há muito tempo atrás, Sasuke Uchiha largara completamente sua infância, deixando sua inocência para trás e pensando cada vez mais como um vingador. Seus pensamentos já não eram mais tão puros nem ignorantes como os das outras crianças, como os seus eram antes de perder toda a sua família em uma única noite - desde então, estes lhe conduziam para um caminho intensamente obscuro.
E era isso o que ele se considerava, um vingador, não uma criança.
Mas dado ao seu favoritismo pelo silêncio, e a sua falta de vontade para com explicações, ele sempre ouvia a velha senhora em silêncio, com preguiça de corrigi-la sempre que esta o chamava de "criança".
Sasuke apenas ouvia, pegava sua sacola de tomates e lhe entregava os ryos correspondentes ao peso destes, mas não antes de abaixar levemente a cabeça em um ato de respeito — ato que muitas vezes passava despercebido até mesmo por ele.
Porém, ao se aproximar da conhecida ruela estreita, ainda um pouco distante de toda a conversação na feira de alimentos, Sasuke notou algo estranho: a barraca que ele sempre comprava os seus tomates não estava aberta.
Sasuke procurou algum aviso, mas não havia nada dizendo o porquê daquilo, nem onde a senhora se encontrava.
Estranho. Isso nunca aconteceu.
Apesar do aborrecimento de ter que voltar para casa sem seus tomates prediletos, no fundo, mesmo que não quisesse admitir para si mesmo, Sasuke se preocupou com o motivo que poderia ter feito a bem humorada e sempre sorridente senhora não estar ali, vendendo seus tomates.
Será que ela está doente?
Balançando a cabeça, como se quisesse afastar os pensamentos desconexos e preocupações fúteis da sua mente, Sasuke deu meio volta na ruela e retornou para a avenida principal da feira.
No momento que ele se aproximou de uma barraca vermelha, que lhe chamara a atenção pelo enorme banner "Os Melhores Tomates de Konoha!", Sasuke se sentiu perdido, como jamais se sentira antes naquele momento: ele nunca escolhera seus próprios tomates na vida! Ele não fazia a mínima ideia de como escolher, qual escolher.
Sasuke fazia questão de comprar os tomates da velha senhora, cuja barraca ficava até mesmo distante do tumulto central da feira, pois era onde sua mãe, Mikoto, sempre comprava os tomates para a família.
Ele não precisava escolher os tomates, a velha senhora já sabia muito bem o tipo que ele gostava, simplesmente por ter vendido para sua mãe por anos. Sem a senhora o amparando, ele não fazia ideia de quais dos frutos escolher.
"Tsc!", ele resmungou, frustrado, e quando pensava em desistir e voltar para casa, uma voz que ele reconheceria em qualquer lugar surgiu da multidão.
"Sa-Sasuke-kun?!", a voz doce parecia incerta, como se quisesse ter a certeza de que era ele mesmo ali.
Ao virar lentamente o rosto em direção a tal voz, ele viu sua colega do Time 7, Sakura Haruno, se aproximando — seu olhar brilhante do momento em que ela percebeu que se tratava realmente dele ali.
"Sakura", ele a cumprimentou.
A garota parecia eufórica em encontrá-lo, e apesar de achar irritante seu entusiasmo, no fundo, ele só odiava sentir um certo calor ao ver a garota tão feliz em simplesmente tê-lo no mesmo ambiente que ela, que não fosse um campo de treinamento.
"Está escolhendo tomates?", foi sua primeira pergunta. Sakura não era tola como seu outro colega de time, Naruto Uzumaki. A garota era perspicaz, e o membro mais inteligente do Time 7. Ela jamais saberia disso por ele, claro, mas era exatamente o que ele pensava sobre ela.
"Não", ele respondeu de imediato, negando o óbvio. Se ele continuasse a olhar para os cestos de tomates, ele teria que pegar algum, e ele odiaria pegar tomates ruins bem na frente da garota.
"Você pode me dar licença, então, Sasuke-kun?", a forma como a garota direcionou-se a ele o assustou. Ela não havia sido grossa com ele, de jeito nenhum, mas a forma como ela se desfez dele tão rápido, como se precisasse sair logo dali, acabou o chocando um pouco.
Sakura sempre fazia de tudo para ficar sozinha com ele, sempre chamando-o para treinar, para passear pela aldeia, para comer etc.. Aquela era uma das raríssimas oportunidades na qual ambos estavam sozinhos, sem a presença de seu sensei, Kakashi Hatake, e do amigo barulhento, Naruto Uzumaki, e mesmo assim, a garota o desfez…
Ela não notara aquela situação atípica? Talvez Sakura só quisesse chamar sua atenção na presença de Naruto, para provocá-lo?
Mas por que ele estava preocupado com aquilo, afinal de contas?
Dando o espaço que Sakura necessitava, o Uchiha se distanciou um pouco dos cestos de tomates da barraca, e não conseguiu evitar observar o quão graciosa sua colega de time era até mesmo selecionando os tomates.
A forma como ela pegava cada um para observar e como ela dialogava com o vendedor da barraca, como se entendesse do fruto, fez até mesmo com que ele se lembrasse de sua mãe, quando ela falava sobre os pratos que poderia fazer com os tomates maduros que escolhia. Não eram lembranças ruins, mas eram lembranças tão remotas que Sasuke se perguntava se eram reais ou apenas fruto de sua imaginação, tamanho o tempo que passara desde que observou sua mãe.
"Aqui está", ele ouviu a voz do vendedor a Sakura, tirando-o de seu transe. No mesmo momento, ele viu a garota lhe direcionar um olhar tímido.
"Sasuke-kun… aqui, escolhi uns para você", ela lhe esticou uma das sacolas em direção a ele. "Você não viria a toa num lugar tão lotado como este, sei que gosta de sossego. A Harumi-Obaa-chan está no País da Grama visitando os filhos, então imagino que você não tenha comprado os tomates que costuma. Infelizmente não tinha muitos do jeito que você gosta, mas consegui pelo menos cinco, acho que dá para você aproveitar até a Obaa-chan chegar de viagem", ela lhe deu um sorriso genuíno, deixando-o completamente sem graça. Sakura costumava causar-lhe aquele tipo de sentimento.
"Ah", ele assentiu. Não sabia o que dizer, mas também não poderia rejeitar a sacola que a garota ainda lhe estendia, então a pegou. Sasuke olhou para dentro desta e notou que haviam cinco tomates grandes que pareciam do exato jeito que ele gostava.
"Sakura! Onde você está?", ele ouviu uma voz chamando-a, e viu que a garota logo virou-se para respondê-la.
"Eu já vou!", virando-se novamente para ele, ela baixou a cabeça em cumprimento e em seguida, "Vejo você no campo de treinamento daqui dois dias, Sasuke-kun!", sem nem ao menos lhe dar a chance de agradecê-la apropriadamente, viu a garota adentrar a multidão, e antes que desaparecesse, a viu pegando na mão de um homem esguio e espalhafatoso. A cor de seu cabelo era rosa, mas um pouco mais escuro que o de Sakura, e mesmo que ele nunca tenha visto o homem antes, ele imaginou se tratar do pai de sua colega.
"Tsc". Por algum motivo, Sasuke irritou-se com sua dificuldade de simplesmente agradecer a garota pela gentileza.
Eu não pedi ajuda.
…e mesmo assim, ela sabia o que você queria, e isso te deixou sem palavras.
As vozes em sua cabeça o irritavam ainda mais. Ele queria achar a garota irritante e intrometida, mas no fundo, ele não podia deixar de se sentir grato por sua sensibilidade ao notar o seu propósito ali.
Sakura era irritante porque lhe trazia sentimentos que ele queria esquecer.
Sentimentos guardados e enterrados.
Quanto mais longe emocionalmente ele ficasse da garota de cabelos róseos…
…melhor para ele.
Pelo menos, era isso o que ele tentaria fazer.
Os dias se passaram e o Time 7 havia se unido novamente para a sua próxima missão, e para o desespero de Sasuke — e também de Naruto — era só mais uma missão Rank D.
Sakura nada disse sobre o dia que lhe ajudou com a compra de tomates, para o alívio do Uchiha. Sasuke evitava a garota a qualquer custo, mais ainda por não saber como agradecer pelo gesto gentil.
Obrigado.
Quão difícil era dizer-lhe essa única palavra?
Tsc.
"Ei, Kakashi-sensei! Você está nos devendo um lámen do Ichiraku!", Naruto tirou-lhe de seus devaneios. Todos os três estavam de frente ao sensei, que acabara de se retirar da sala do Hokage. Estavam aguardando a liberação deste após mais uma missão bem sucedida.
"Eu não lembro de ter prometido nada—" Kakashi já estava arranjando desculpas quando Naruto o cortou.
"Nem vem! Você me fez calar a boca em frente ao Terceiro para não te fazer passar vergonha e me disse que me pagaria um lámen se eu ficasse quieto e aceitasse, `ttebayo!", Naruto parecia irredutível, "O Iruka-sensei cumpre suas promessas, `ttebayo! Kakashi-sensei você é mal, é—", Kakashi calou o louro com uma mão em sua boca quando percebeu que este estava gritando cada vez mais alto, chamando a atenção dos Jounin próximos ao escritório do Terceiro.
"Vamos! Todo mundo!", Kakashi direcionou-se a ele e a Sakura, enquanto empurrava Naruto porta afora, ainda com a mão em sua boca.
"Naruto…", ele ouviu Sakura bufar, mas sua voz parecia divertida por toda a situação.
"Ele não aprende nunca", ele acabou soltando, se aproximando da garota.
Com Sakura, para parecia sempre fácil engajar uma conversa — mesmo quando ele não pretendia.
"He-he. O Kakashi-sensei vai nos enganar como da outra vez, nos fazendo pagar pelos nossos próprios lámen", ela cochichou ao seu ouvido.
Sasuke não conseguiu segurar uma fraca risada ao ouvir aquilo.
Parecia ser fácil ser criança às vezes.
"Eu não acredito que o Kakashi-sensei sumiu de novo!", Naruto resmungou enquanto abria seu sapinho para pegar seu recém salário recebido pela missão para pagar suas sete tigelas de lámen.
"Se você não comesse como um porco, não sairia tão cara a sua conta", Sakura o repreendeu, "Você deveria comer melhor, Naruto".
"Ah, para com isso, Sakura-chan! Eu como coisa saudável, sim! — no lámen!", ele respondeu, orgulhoso da sua própria resposta, fazendo Sakura revirar os olhos.
"Bom, eu vou indo! Eu tenho um compromisso com o Sábio Tarado", Naruto disse animado, parecia até ansioso, "Acho que finalmente ele vai me ensinar algo melhor que o Rasengan!".
"Tem um compromisso ou vai arranjar um compromisso?", aquele velho tarado parece que sempre está fugindo do Naruto, Sakura pensou, com desdém.
"Não importa! Ele vai me ensinar alguma coisa", ele resmungou, "Até amanhã, Sakura-chan!", Naruto então semicerrou os olhos e olhou para Sasuke com desafeto — que estava de costas para ele, "Até amanhã… Teme".
"Uh", Sasuke deu um toque para o lado com a cabeça, como se dissesse que o ouviu.
Olhando Naruto deixar a barraca do Ichiraku, Sakura virou-se na cadeira novamente e então pediu sua conta. Porém, no momento que ela colocou a mão em sua pochete, notou que sua bolsa de moedas não estava ali.
"Espera", ela acabou verbalizando seus pensamentos, o que acabou chamando a atenção de Sasuke para sua atual posição.
Sasuke não deixou de perceber que a garota ao seu lado aparentava estar totalmente nervosa, dado que a qualquer momento a conta lhe seria entregue e ela não teria como pagar.
E Sasuke sabia exatamente o porquê.
Sakura havia se esquecido do rasgo em um de seus bolsos durante a missão e colocara sua bolsinha de moedas exatamente no bolso rasgado, e com todo o alvoroço de não deixar Naruto pular em cima do neto do Terceiro Hokage em represália, não notara quando sua bolsinha caiu no chão. Sasuke pegou-a de imediato, guardando-a em sua própria mochila para devolver a garota quando estivessem sozinhos.
Aquela era sua chance de agradecer pelo dia em que ela lhe ajudou com os tomates, e sem pensar duas vezes, Sasuke apenas agiu.
"Vamos, Sakura", ele desceu do banquinho, deixou uma quantia suficiente para pagar a conta dos dois juntos e retirou-se da barraca do Ichiraku, apenas aguardando que a garota o seguisse.
"Neeh, Sasuke-kun", ela parecia envergonhada. Ambos estavam de frente com a barraca, e partir dali, cada um seguiria seu rumo para casa, "Obrigada… eu vou te pagar quando—", ela parou de falar na hora que viu sua bolsinha de moedas na mão do garoto, que lhe estendeu para que a pegasse.
"Você deixou cair", ele disse simplesmente.
Sakura fez um 'O' com a boca quando pegou a bolsinha de moedas que achava ter perdido.
"Na próxima vez, atente-se com seus bolsos", ele disse em seguida, e mesmo que não tenha pretendido soar grosso, notou como acabou mudando a expressão da garota, que remexia em sua bolsinha para não encará-lo.
"Agora eu posso te pagar—".
"Não".
"Uh?", ela parecia confusa, tendo levantado o rosto novamente para encará-lo.
"Não precisa".
"Mas—"
"Não seja irritante, Sakura", mesmo as palavras parecendo ácidas, Sasuke desviou seu rosto, a fim de não mostrar o quão vermelho estava.
Ele podia sentir seu rosto quente, e ele não gostava nada daquilo.
Ele odiava aquilo.
Sakura, entendendo o que o colega queria, e vendo seu desconforto, apenas acenou com a cabeça em agradecimento. Virando as costas para o amigo, rumou em direção a rua principal, a fim de dirigir-se até sua casa.
Porém, algo inédito havia acontecido.
Antes que virasse a esquina da ruela, notou Sasuke acompanhando-a.
"Sasuke-kun?", ela parecia confusa ao vê-lo ao seu lado.
Sem permiti-la olhar diretamente sua expressão, Sasuke encarava o lado oposto ao dela, disfarçando ao máximo o quão tímido estava.
"Vou te acompanhar até em casa", e dito isso, deu passos mais longos, ultrapassando a garota, deixando claro que ele não pararia de andar.
Sakura não conseguiu disfarçar o enorme sorriso em seu rosto. Ela nunca se sentiu tão vitoriosa como naquele meio de tarde.
Sasuke Uchiha não só havia lhe pagado um lámen, como também a acompanharia até em casa.
Deixa só a Ino-porca saber disso! Shanarooo!
.
.
Espera! A Ino não pode saber disso!
"É algo somente meu e do Sasuke-kun", ela murmurou para si mesma, completamente satisfeita e feliz por dentro.
Sakura sabia que Sasuke estava se abrindo aos poucos, e sentia-se a pessoa mais especial do mundo ao saber que o garoto lhe parecia cada vez mais solícito…
...com ela.
