O caminho para Avebury estava exatamente igual a como John se recordava. A brisa fresca do sul da Inglaterra nesta época do ano invadia seus pulmões e ele se surpreendeu com o fato de que isso lhe fazia mais falta do que ele imaginava. Enquanto disfrutava dessas sensações ele se permitiu pensar o quanto sua vida estaria perfeita se Marguerite estivesse em sua companhia, compartilhando este momento. No cais, a vontade de tomá-la nos braços na frente de todos foi quase insuportável e ele tinha dificuldade para imaginar como seriam os próximos dias sem ela.

Durante todo o percurso Roxton foi sendo atualizado por Alfred de alguns assuntos triviais, e o lorde não conseguia entender porque o amigo tratava com tantas reservas o estado de espirito de sua mãe. Os veículos tinham se modernizado consideravelmente nos últimos 4 anos e em um tempo recorde o automóvel encontrou-se parado diante dos grande portões de ferro esculpidos com o brasão da família Roxton. Um contraditório sentimento de alívio e medo gladiava dentro do coração do nobre homem. A propriedade de sua família estava ainda mais bela do que ele se lembrava, os jardins bem cuidados exibiam lindas rosas de todas as cores, no centro havia uma fonte d'agua com um querubim esculpido jorrando o liquido pela boca. O veículo contornou a fonte e estacionou em frente à entrada principal da belíssima mansão de pedras que foi construída pelo seu primeiro ancestral detentor do título de nobreza, ainda no século XVIII. Roxton desceu do carro e subiu as escadas com destreza, hesitou por um momento e em seguida abriu a grande porta com segurança.

Uma jovem vestida com o uniforme da criadagem o avisou que Lady Roxton aguardava no escritório. John caminhou em passos rápidos até o recinto e quando finalmente entrou não demorou muito para notar a imponente mulher que trajava um luxuoso vestido negro. Embora estivesse de costas para ele, o caçador teve a impressão de que ela estava ainda mais altiva do que há quatro anos, quando ele se despediu para embarcar na maior aventura de sua vida.

"Mamãe?" Ele chamou mal conseguindo controlar sua voz. A mulher se virou e por uma fração de segundo ele achou ter visto alguma emoção nos

olhos dela, entretanto, ela tratou de se recompor, como sempre fazia, e disse inabalável:

"Oh, John! Você finalmente chegou!"

O homem não conseguiu se conter e correu para abraçá-la com ansiedade. No início sentiu que sua mãe correspondia e necessitava daquele abraço tanto quanto ele, mas, algum tempo depois ela se soltou de seus braços e disse com reprovação:

"John Richard Roxton, pare imediatamente com isso! Você está me amarrotando".

"Mas... mãe... eu achei que a senhora estava feliz com o meu retorno" disse sem entender a reação dela. Lady Elizabeth Mary Spencer Roxton nunca foi uma mulher dada a demonstrações de carinho, mas o retorno de um filho considerado morto era uma situação extraordinária e até mesmo ela poderia se deixar levar pelas emoções sem parecer fraca.

"É claro que eu estou feliz John! Não seja dramático! Mas isso não significa que eu preciso esquecer os bons modos. Você esteve muito tempo na selva cercado por pessoas que nunca estiveram numa corte, isso deve tê-lo desacostumado a como se deve portar na sociedade". Roxton não conseguia nem emitir algum som diante da frieza expressada nas palavras de sua mãe. "Agora que você está de volta precisamos recuperar o tempo perdido. Quero que você conheça a Senhorita Christine Fraser, ela tem sido minha assistente na administração das propriedades e negócios da família" neste instante o caçador percebeu que não estavam sozinhos na sala e notou a jovem mulher loira de cabelos cortados de forma moderna logo abaixo das orelhas, os fios lisos perfeitamente alinhados davam a mulher uma aparência organizada e séria. Os olhos azuis e a pele alva completavam a descrição primária que Roxton fazia da moça. "A Srta. Fraser vai colocá-lo a par de tudo que você precisa saber, com o máximo de rapidez possível" ela fez uma pausa e voltou a olhar para o filho "Vocês viajam para América no vapor que parte em seis dias".

"Como assim América? Eu acabei de chegar..." indagou o caçador perplexo.

"John, no tempo em que você esteve brincando de Tarzan a vida teve que seguir. Eu estive a frente dos negócios e prosperei nosso patrimônio. Temos ações em empresas de diferentes ramos e algumas delas estão nos

EUA. Você precisa urgentemente saber tudo sobre elas para que possa finalmente assumir sua posição a frente desta família. Esse é o mínimo de comprometimento que eu espero de você. Você me deve isso, depois que passou boa parte da sua vida fazendo apenas o que lhe dava vontade".

Apesar da falta de sensibilidade da mãe, ele sabia que em boa parte ela tinha razão. Ele nunca foi dedicado à responsabilidade que o título de Lorde o incumbia. Preferia agir e se misturar com os plebeus, muitas vezes escondendo sua posição social para poder transitar livremente entre a população e usufruir dos benefícios do anonimato. Chegou a se destacar no ramo do boxe clandestino sem que sua família sequer imaginasse, além disso, frequentemente acordava em camas dos piores bordeis de Londres. Encarava a vida comum como uma alegre distração. A morte de seu irmão e logo depois de seu pai, embora, depositasse uma enorme culpa em suas costas não o fez mudar de postura em relação ao título. Roxton encontrou uma maneira mais eficaz de fugir de tudo, embarcando de aventura em aventura na tentativa frustrada de esquecer a realidade. Depois veio a guerra, Major Lorde John Roxton não se importou em fazer parte da atuação que arruinou sua carreira no exército, mesmo sabendo que sua mãe nunca saberia as reais circunstâncias que motivaram sua expulsão, para Lady Roxton restou lidar com essa vergonha sem precedentes atribuindo o fato a alguma má conduta do filho.

O caçador sabia que estava em falta com sua mãe, talvez este fosse o momento de se comportar da maneira que ela sempre desejou e quem sabe se ela estivesse feliz com sua postura aceitaria Marguerite com mais facilidade. A simples menção a Marguerite o fez sorrir. "Sim, pela chance de aproximá-las e faria todos os sacrifícios necessários" pensou.

"Ok mamãe, eu viajarei. Mas, gostaria que antes a senhora me acompanhasse a Londres para uma recepção na casa do professor George Challenger. Será uma oportunidade para a senhora conhecer meus amigos... isso é muito importante para mim".

"Ora John, que bobagem!" disse com indignação. "há muito tempo não me interesso por conhecer ninguém. Além disso, você sabe que eu não frequento círculos sociais há anos, detesto a maneira pesarosa que todos me olham, como a miserável viúva Roxton, e por fim, não há nada mais enfadonho

que ouvir suas histórias de safaris, querido. A Srta. "Fraser o acompanhará para que você não se sinta desconfortável em ir sozinho".

O jovem Lorde nem teve tempo de argumentar, a mulher mais velha saiu da sala deixando-o sem atitude. Ele ficou parado pensando no que acabará de acontecer. De repente uma voz feminina o tirou de seus devaneios.

"Lorde Roxton, é um prazer conhecê-lo" a moça estendeu a mão em sua direção.

"Srta. Fraser, não é?" ele se perguntou se esse era mesmo o nome da assistente. Diante da concordância ele continuou "Por favor, pode me chamar de John".

"Como quiser, desde que você me chame de Christine."

"De acordo" ambos deram as mãos e sorriram.

"John, eu quero que saiba que pode declinar do convite para reunião na

casa do professor Challenger, eu não me sentirei ofendida de nenhum modo". "Fique tranquila, a reunião será na véspera de nossa viagem, você será minha hospede em Londres, então será um prazer que você me acompanhe.

Meus amigos são extraordinários, você gostará de conhecê-los".

Ela sorriu e assentiu.

Os dias que se transcorreram foram de intenso trabalho para John. Ele ficou impressionado com as habilidades de Christine para os negócios e como sua mãe conseguiu prosperar nos anos em que ele esteve fora. A sobrecarga de trabalho o ajudou a passar mais facilmente pelos dias sem sua Marguerite. Entretanto, as noites sem ela eram de agoniante tortura. O caçador sentia falta do calor do corpo de Marguerite junto ao seu, do luxuriante cabelo negro indomável sobre seu peito, dos beijos apaixonados e da sensação maravilhosa de prazer que ele só experimentava quando ela estava em seus braços. Roxton guardou consigo um lenço com o perfume de sua amada, este pequeno pedaço de pano o ajudava a dormir. Ele se perguntava se ela estava sentindo a sua falta tanto quanto ele sentia a dela.

Em sua mansão num bairro nobre de Londres Marguerite sofria com a saudade de Roxton. Ela contava as horas e os minutos para encontrá-lo novamente. Arthur e Benjamin estavam sendo atenciosos com ela, convidando- a para passeios, almoços e chás. Challenger e Jesse também estavam sendo muito gentis e isso a distraiu nos dias em que esteve sozinha. Os incômodos

gástricos ainda não haviam acabado totalmente e a herdeira se perguntava se a fraqueza que sentia tinha a alguma relação com a dor de estar separada do homem que amava. "Que bobagem Marguerite, você nunca foi sentimental, o que é isso agora?!" ela riu de si mesma. Embora enjoada, ela oscilava com momentos de apetite intenso e notou que suas roupas estavam mais apertadas do que de costume.

Na manhã do evento na casa de George ela percebeu que não possuía nada adequado para vestir e que precisava comprar um vestido novo. A herdeira queria estar deslumbrante no seu reencontro com John. Quando estava se preparando para sair recebeu uma mensagem de Benjamin convidando-a para um almoço no Rules Restaurant. A mera lembrança do adorável lugar a fez aceitar o convite de imediato. Ela respondeu a mensagem brevemente e seguiu para o seu destino.

A Harrods era uma das lojas mais tradicionais e sofisticadas de Londres, e sem dúvida era o lugar favorito da herdeira na cidade. Marguerite escolheu um lindo vestido bordô de cetim bordado com fios dourados que muito lembravam a fios de ouro. "Parece apropriado" ela disse pra si mesma ao se olhar no ornamentado espelho do provador. As costas nuas da peça deixava a bela mulher mais atraente, sem vulgaridade. As suas novas curvas a obrigaram a comprar o modelo no manequim maior do que o que ela geralmente compraria, mas realmente isso não a importou, estava muito satisfeita com o novo volume dos seus seios e quadril, e com o resultado do vestido teve em seu corpo. Saindo da loja ela pegou um carro de aluguel dando ao motorista a direção do restaurante em que Benjamin a esperava.

Logo que percebeu sua presença o médico se ergueu e gentilmente afastou a cadeira para que a mulher se sentasse.

"Foi as compras?" o homem perguntou ao perceber as sacolas em suas mãos.

"Sim. Acho que não me dei conta de como a comida da civilização é saborosa e engordei uns quilos... não possuía nenhuma roupa apropriada para ocasião de hoje à noite" ela sorriu.

"Isso não me surpreende" o médico respondeu com sinceridade.

Marguerite fechou a expressão e pensou se ela estava realmente tão rechonchuda pra o médico se atrever a fazer tão hostil comentário. A herdeira

sempre foi uma mulher vaidosa e a menção de estar menos atraente a deixou muito incomodada.

"Ouça Marguerite, eu recebi os resultados dos seus exames hoje pela manhã e essa foi uma das razões pela quais eu a convidei para almoçar".

"Algum problema?" Marguerite se preocupou. Ela realmente estava se sentindo melhor nos últimos dias, mas algumas tonturas e enjoos insistiam em acompanhá-la vez ou outra.

"Não necessariamente" ele respondeu. "Marguerite, sua dosagem hormonal indicou um gestação de 12 semanas. É surpreendente que você ainda não tenha se dado conta ainda".

Marguerite recebeu a noticia como se fosse um tiro a queima roupa. De uma hora pra outra tudo parecia começar a fazer sentido, o cansaço, os enjoos, as tonturas, e principalmente a sensibilidade. Ela nunca imaginou ser capaz de gerar vida novamente. Lágrimas começaram a brotar em seus olhos e o médico pousou sua mão sobre a dela em sinal de compreensão.

"Eu nunca imaginei que poderia ficar grávida novamente. No meu primeiro casamento sofri complicações em um parto prematuro aos sete meses de gestação" ela hesitou e baixou a cabeça "o bebe não sobreviveu. Eu era muito jovem e o médico que me atendeu disse que provavelmente eu nunca teria a possibilidade de engravidar. No começo foi muito difícil aceitar, mas depois me habituei com a ideia de que este era um sonho impossível o de que eu não era merecedora de tal dom. Essa foi uma das principais razões para minha relutância em aceitar o amor de John. Eu sabia que na posição de lorde ele gostaria e precisaria de um herdeiro e eu nunca seria capaz de dar um filho legitimo a ele. Com o tempo ele me convenceu que me amaria acima de tudo e que não se importava com essa minha limitação".

"Foi por isso que vocês propôs que se separassem?"

"Sim, esse foi um dos motivos. Nunca me julguei boa o suficiente para ele" respondeu com humildade.

O médico apertou a mão dela enquanto dizia: "Nunca mais fale isso, Marguerite! Você é a mulher mais extraordinária que eu começo. Qualquer homem na Inglaterra ou em todo o mundo se sentiria a pessoa mais feliz do mundo em tê-la como sua senhora. Lorde Roxton é um home de muita sorte e ele sabe disso".

A herdeira se surpreendeu com a confissão do amigo e sorriu em agradecimento.

"Então, quando você pretende contar essa novidade a ele? Eu imagino que a partir de agora vocês terão que reajustar seus planos de distanciamento" Benjamin não se sentia feliz com essa constatação, embora soubesse era o certo a fazer.

Marguerite sorriu e para o médico foi como se mil sóis o iluminassem e o aquecessem.

"Acho que hoje a noite é uma ótima oportunidade!"