Os primeiros raios de sol invadiam o quarto do casal Roxton. A claridade começava a acordar o nobre que aconchegou seu braço ainda mais em torno da esposa depositando um beijo carinhoso na parte de trás do seu pescoço. Ela gemeu com a deliciosa sensação. Ele fazia isso todas as manhã antes de se levantar, este era seu ritual de bom dia. Em seguida, vestiu seu robe negro de cetim e suas confortáveis pantufas de quarto. Embora, tivesse a sua disposição muitos empregados, o caçador mantinha a tradição de todos os dias preparar o café para sua amada. Marguerite era uma mulher exigente e só Roxton sabia o ponto certo da torragem dos grãos, a granulometria das partículas de café e a temperatura ideal da água para preparar a bebida perfeita que agradaria o paladar da herdeira. Ele não se importava em mimá-la, aliás, ele adorava ser o único a saber todos os gostos da esposa e assim poder satisfazê-la em todos os aspectos. Além do mais, aquele dia era especial. Fazia exatamente um ano que Marguerite finalmente havia se tornado Lady Roxton, e suas pequenas ladies completam seu primeiro ciclo em volta do sol.
Enquanto esperava a água passar pelo pó de café depositado em um coador de pano, extraindo sua cor, sabor e textura, o Lorde lembrava dos acontecimentos dos últimos 365 dias. Depois que Marguerite soube a verdade sobre seu passado, Summerlee fez questão de assumi-la como filha legítima dando a ela o direito de usar seu sobrenome. Ele havia se tornado um avô carinhoso e brincalhão, por vezes levava as pequenas ao jardim deixando que elas mexessem na terra e regasse as plantas. Benjamin se alistou ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha e foi enviado em missão na África. Roxton ficou particularmente satisfeito com essa decisão honrosa do médico, por mais que confiasse em Marguerite, não podia negar que ainda nutria certo ciúmes do então sobrinho da esposa. Melhor vê-lo longe, concluiu. Veronica e Malone retornaram ao platô, mas prometeram visitá-los em alguma oportunidade, agora que o caminho para o mundo Perdido tinha se tornado conhecido. Challenger e Jesse estavam enfim aproveitando a companhia um do outro, o cientista havia se dado conta, ainda no planalto, da mulher espetacular com quem era casado e estava determinado a recuperar o tempo perdido e fazê-la feliz. Lady Elizabeth era outra mulher, as netas a transformaram por completo. Embora ainda fosse uma mulher de pulso firme, feita de fogo e aço, como diria seu finado marido, ela se deixou render aos encantos de ser uma avó zelosa e dedicada. Também se permitiu amar novamente. Como sempre à frente do seu tempo, a nobre Lady aceitou o amor de Alfred que sempre foi seu mais fiel amigo e confidente. Também voltou a frequentar os meios sociais e junto com o filho e a nora encabeçaram muitas mudanças no cenário político e social de toda a Inglaterra.
O café estava pronto e ele gentilmente derramou o líquido em uma luxuosa xícara de porcelana chinesa, colocou-a em uma bandeja onde estavam algumas torradas e ovos mexidos. Apressou-se em ir ao jardim e colheu um pequeno ramalhete de margaridas que usou pra enfeitar a refeição. Com a destreza de quem fazia isso todos os dias, John subiu as escadas com o tabuleiro e empurrou a porta maciça do seu quarto que havia deixado previamente entreaberta. Sorriu ao admirá-la dormindo, ele jamais se cansaria de olhá-la. O simples fato de vê-la respirar já o encantava. Aquele foi o ano mais feliz de toda sua vida, isso sem sombra de dúvidas. E o melhor, é que este tinha sido apenas o primeiro de muitos anos que pretendia passar ao lado de Marguerite. Permitiu-se refletir sobre o que haviam vivido desde que voltaram a Londres, o medo de quase perdê-la por conta de mal entendidos e a angústia por ser impotente diante de sua morte eminente o atingiram, mas, rapidamente afastou esses pensamentos e lembrou apenas de que ela voltou...voltou para ele... nenhum título de nobreza no mundo alcançaria este valor... ter uma família e o amor de uma mulher feita de fogo e aço a qual se encontra somente uma vez em uma eternidade.
Ao sentir o aroma delicioso de sua bebida predileta a herdeira sorriu, ainda com os olhos fechados. Ela sabia que o marido a observava. Entretanto, o sorriso não passou despercebido pelos instintos aguçados do caçador. Colocando a bandeja sobre a cômoda ele se aproximou da cama sentando próximo dela e beijando sua tez com carinho.
"Seu café está servido, milady" brincou.
Marguerite abriu seus lindos olhos e mirou seu amado. Em um gesto rápido lançou seus braços envolta do pescoço de John e o beijou apaixonadamente.
"O café pode esperar"
FIM!
