Parte 1 - O Temporal...


Um dia claro, flores desabrochando e pássaros cantando com alegria. Esse seria um dia perfeito para ser desfrutado por pessoas de bem com a vida.

Entretanto, no meio de um parque da cidade, alguém via o dia como um que tinha de tudo pra ser formidável, mas que deu resultados horríveis.

"Snif, snif. Por que tinha que ser comigo?" Fungava Usagi de cabeça baixa e derramando lágrimas sem cessar. "Eu faço tanto pra todos e só me pagam com ingratidão. Seria demais respeitarem o que eu quero? Ou de considerarem o dia de hoje?"


Flashback

"Uááááá. Que noite gostosa, e este dia tem de tudo pra ser ótimo, pois é...MEU ANIVERSÁRIO." Usagi exclamou entusiasmada, imaginando tudo que se daria, desde uma festa-surpresa preparada por seus pais e amigos até um jantar romântico com seu amado Mamoru. Olhando pelo quarto, a loira notou a ausência de sua gatinha falante, Luna.

"Oh, ela já saiu. Na certa foi avisar o pessoal sobre a festa. Melhor eu ir logo pra escola."

Depois de se vestir, Usagi viu que seus pais e irmão não tinham acordado. Em geral, era sua mãe que a despertava, mas nos últimos 3 anos, começou a pegar firme em suas responsabilidades que tratava não apenas de se levantar sozinha, mas de melhorar na escola, obtendo uma ótima pontuação nas provas. Ainda que não fosse completamente perfeita, conseguia se manter dentro da média aceitável.

"Hoje sai os resultados das provas do mês. Mais notinhas azuis pra coleção. Isso, somado as boas surpresas que me reservam hoje, fará desse o melhor dia do ano."

Terminando de tomar seu café, Usagi saiu pra escola, andando com calma, já que as aulas só ia começar em menos de uma hora, tempo bastante pra chegar com folga.


"Usagi. Preciso te dizer. Suas notas me deixam muito orgulhosa."

"Ah, muito obrigada, professora Haruna."

"E pensar que há alguns anos, não conseguia passar de 25 da nota total e agora, está entre os mais aplicados. Estou muito feliz do seu progresso, e antes que eu esqueça...feliz aniversário."

"Oh, agradeço, professora. Hoje tem de tudo pra dar certo. Tenho que ir. Lembranças à professora Higure. Eu acho as duas um casal simpático."

"E somos mesmo, graças à você. Agora vá, querida, e desfrute do seu dia." Haruna acenou pra jovem sorridente, desejando tudo de bom pra ela.


Indo em frente, Usagi olhava contente pro seu boletim, fitando cada nota boa tirada nos testes. Mal esperava pra mostrar para seus pais.

"Oh, que maneira ótima de começar o dia. Vou pegar um atalho pelo parque."

Andando pela verde vegetação, Usagi mal se continha em poder encontrar Mamoru, pensando como seria o jantar com ele.

"Ah, sim. Nós dois à luz de vela, desfrutando de um bom vinho, só nos olhando com muito amor e..." Foi quando algo bem adiante a pegou com um choque. A cena era digna de um filme de horror: seu namorado, Mamoru, abraçando e beijando uma mulher ruiva com aspecto de estrangeira e pelas palavras ouvidas, estavam caídos um pelo outro.

Escondida atrás de uma árvore, Usagi sentia como um machado lhe penetrando no corpo, partindo seu coração fatalmente.

"Mamoru. Mamoru. Como teve coragem? Pensei que estávamos destinados a ficar juntos. À nos casarmos e termos uma família amorosa. Fiz de tudo pro nosso amor florescer...e é assim que retribuí?"

A jovem loira buscava não chorar, pois ele não valia tal emoção. Nessa hora, recebeu uma ligação de Ami pra encontrar com ela e as garotas no templo de Rei, mesmo esta viajando. Logo desligou o celular, esboçando um sorriso.

"Posso não ter um encontro, mas ainda tenho minhas amigas e sei que estarão me esperando com uma grande surpresa." Assim, mais confiante, saiu do parque sem ser vista pelo ex-namorado e se dirigiu ao templo.


"Não posso crer que me chamaram pra dizer isso." Usagi exclamou bem revoltada.

"Receio que sim, Usagi. Aliás, tem mais coisa que precisa ouvir, como por exemplo se focar mais nas suas responsabilidades."

"Luna tem razão. Precisa parar de agir como criança durante as lutas. Desse jeito, só vai pôr em perigo as pessoas ao redor."

"Ei. Espera aí, Ami. Acham que não sei levar nada à sério? Eu acho que me saio bem nas batalhas e depois, eu sempre dou o golpe final, pois nenhuma de vocês é forte ou competente o bastante pra derrotar os monstros sozinha."

"Não é esse o problema, Usagi. O caso é que você precisa crescer não só em tamanho, mas em espírito e sabedoria." Acrescentou Setsuna.

"De outro modo, como iremos confiar em você pra erguer Tokyo de Cristal no futuro e trazer a paz ao mundo?" Makoto indagou olhando fixamente pra loira. "Esperasse que uma futura princesa fosse capaz de levar seu trabalho mais seriamente."

"Isso é tudo que importa pra vocês? Que eu seja sua princesa e as lidere? Ainda que não me deem outra escolha?"

"E por que não? Pensa que pode fugir disso quando quiser?" Quando se virou, Usagi reparou ser Mamoru que tinha acabo de chegar.

"Como você disse?"

"Vejo que não escuta bem. Se não começar a agir como a princesa que deve ser, nunca teremos Tokyo de Cristal. Ou pensa que vou querer como esposa uma desvairada com a cabeça das nuvens e tão irresponsável?"

Aquilo foi além do que Usagi podia suportar, especialmente por tais palavras virem do homem que ela pensava amar e naquele dia, que deveria ser o mais especial, a traiu sem mais nem menos.

"Ora, seu...seu...SEU CANALHA FILHO DA..." Sem completar a frase, Usagi chutou Mamoru bem entre as pernas, ajoelhando-o de dor, para no instante seguinte, acertando-o com força no nariz com o joelho, derrubando-o no chão. As demais presentes não conseguiam crer no que tinham visto.

"Isso foi bom, Ma...Chiba? Foi tão bom quanto o abraço que aquela vagabunda pra quem estava se esfregando no parque lhe dava? Bem, tomara que tenha lhe doido bastante, seu verme." O rosto de Usagi queimava de raiva.

"Ei, Usagi. O que acabou...?"

"Você escutou, Artemis. Esse maldito me traiu com uma biscate estrangeira qualquer. E logo hoje que eu desejava que fosse um dia especial e o que recebo? Traição do homem que pensei que me amaria e seria fiel, mas que se revelou um casanova e no lugar de me darem alguma alegria e consolo, tudo que recebo das minhas 'amigas' é bronca e papo furado sobre me preparar pro futuro agora, pois me acham uma garotinha bobinha incapaz de ser responsável. Vocês querem o que de mim? Só tenho 16 anos e esperam que eu já seja o quê? Governante do mundo?"

"Não, Usagi. Só queríamos...espera. 16 anos? Você não tinha 15? Ah, é verdade. Sabia que tinha algo neste dia pra lembrar. Hoje é seu aniversário." Minako levantou as mãos pra cabeça chocada.

"Sim, Minako. Meu aniversário. Acordei hoje contente e cheia de alto astral esperando por um dia radiante, mas tudo se cobriu com uma cortina de escuridão, igual a um horrível temporal. Meu noivo, isto é, ex-noivo me apunhalou; minhas amigas não tiveram a menor consideração pela minha dor e querem me empurrar para um futuro que nem sei se quero. Querem os fatos? Não quero ser princesa, não quero um marido mulherengo, nem Tokyo de Cristal nenhuma, não desejo um destino forçado. Ponto final."

"Não pode deixar tudo isso, Usagi. Claro, Mamoru se revelou um traste e não merece governar ao seu lado, mas precisamos de você. Só por meio de Tokyo de Cristal é que se dará a paz no mundo e na galáxia e apenas você pode nos guiar..."

"É tudo que sabe dizer, Setsuna? Que só sirvo pra ser um alicerce pra esse seu estúpido futuro e mais nada? Que não tenho escolha? Que não posso decidir o que quero da vida ou que não possamos achar outro caminho? Pois tenho novidades: EU NÃO QUERO ESSE DESTINO, e com amigas como vocês que não ligam pros sentimentos dos outros, quem precisa de inimigas?" Dito isso, Usagi deu de costas e correu pra longe se distanciando daquelas pessoas que nunca lhe deram o real valor.

"Usagi, espera. Volta, vamos conversar." Mas os apelos de Luna foram em vão, pois Usagi continuou correndo sem parar. Minako caiu de joelhos no chão, quase chorando.

"Como pudemos fazer isso com ela, logo no seu aniversário, o qual esquecemos? Que tipo de amigas somos?"

"Me sinto mal com isso. Ela que faz tanto bem pra nós e pra tantos outros e não soubemos reconhecer." Concordou Makoto, que agarrou enfurecida Mamoru. "Seu desgraçado. Como teve coragem de machucar o coração dela?"

"N-não, não, Makoto. Foi um mal-entendido. Eu a amo, eu juro."

"A única coisa que você ama é seu desejo de governar Tokyo de Cristal com ela e por culpa do seu egoísmo, tudo foi estragado." Artemis mal escondia sua fúria por aquele homem. Makoto o ergueu um pouco mais e o jogou com força até um espinheiro, deixando-o coberto pelas plantas pontudas.

"Agora dá o fora ou cair nos espinhos será o pior de seus problemas, e não chegue mais perto nem dela ou da gente." Mamoru acatou o aviso de Ami e saiu correndo como um foguete.

"Gente. Preciso dizer que não me sinto bem com o que fizemos, mas Usagi precisa entender o significado de governar sabiamente. Temos que nos concentrar no futuro." Setsuna explicava sobre os olhares zangados das garotas e dos gatos.

"Jovens. Apressados com o futuro, mas descuidados com o presente." Disse uma voz meio aborrecida. Se virando, viram se tratar de um senhor de quimono escarlate e um emblema que lembrava um pé. Seu olhar mostrava-se um tanto severo.

"Desculpe me meter em seus assuntos, mas não pude deixar de observar o modo como agiam. Parecem tão focadas em construir o amanhã que esquecem a importância de instalar os alicerces do presente. Sem alicerces, não há uma construção segura. Se não prezam a confiança, nunca terão uma base fixa e o elo de amizade á algo que pode se romper facilmente. Pensem nisso, e tenham um bom dia." Dizendo essa palavras, o senhor se afastou calmamente, deixando as jovens bem pensativas.

"Eu conheço ele, é vizinho da Rei. Não tem um dia que não tenha palavras sábias pra desferir."

"E creio que ele possa estar certo, Minako. Temos tanta pressa de chegar ao nosso objetivo que mal damos importância as coisas presentes." Era Michiru, que acabara de chegar com Haruka e desconhecia o que tinha acontecido. "Escutem. A Usagi veio aqui? Queremos dar os parabéns pelos 16 anos dela."

"Pois é. Íamos ligar pra ela, mas estávamos com os celulares descarregados. Alguém pode ligar para ela?"

"Eu posso, Haruka. Espero que ela atenda." Ami puxou seu telefone e teclou. Passou-se alguns segundos e ia chamando, até finalmente responder. "Usagi. Eu..."

"Não, Ami. Não quero papo com você e com as outras. Me deixa."

"Por favor, Usagi. Desculpa. Estou pedindo, como sua amiga..."

"Amiga? AMIGA? Deixa eu dizer uma coisa: nunca te considerei uma amiga. Só saia com você por pena pelas pessoas nunca ficarem por perto de você, sempre te achando uma metida à sabe-tudo. Conhecer você e as outras foi um grande erro da minha vida. Nunca se importaram comigo, só com sua preciosa 'princesa da lua'. Não fala mais comigo." Clique forte de celular desligando. Ami sentiu uma dor no ouvido pelo baque surdo do encerramento. Ela tentou ligar de novo, mas dava 'número desligado'. A garota mal continha a tristeza pelo que tinha escutado. Makoto lhe deu um abraço, desejando consolá-la.

"Gente. Acho que Michiru e eu estamos meio por fora do assunto. Fizeram algo com Usagi que nós não deveríamos saber?" Perguntou Haruka, cujo tom de voz expressava um ar bem zangado.


"Como puderam? Sei que é importante ter um futuro que seja bom pra todos, mas não me dar a chance de escolher? E fazerem pouco caso do meu dia especial? Bem, sei que minha família vai me dar o que mereço e não há desculpa pra me negarem isso."

Usagi chegou em casa e logo encontrou seu pai e mãe na sala. Não havia muito clima de ter uma festa de aniversário preparada, mas buscava se manter esperançosa.

"Mãe. Pai. Novidades. Os boletins. Vejam só." A garota exibiu os papéis pros pais, exibindo um sorriso de triunfo. Os dois examinaram os resultados.

"Tirou entre 85 e 87 nas provas, filha?" "Sim, papai. Consegui." Usagi pensou como seus pais pareciam orgulhosos. "E por que não se esforçou mais?"

A resposta veio como um martelo caindo a toda velocidade, acertando-a na cabeça. Era como se o desejo de impressionar os pais de quebrasse em inúmeros pedaços.

"Como assim? Claro que me esforcei. Tirei boas notas. Aliás, nos últimos 3 anos, meu progresso aumentou bastante e dos míseros 25, que eram minha média máxima, subiram pra cima de 80. Não é o suficiente?"

"Mas se pode tirar 80, nada te impede de se esforçar um pouco mais e obter 100, como seu irmão. Se não ficasse brincando por aí..."

"Brincando? Acha que fico brincando, mãe? Já me dá um duro danado ser Sailor Moon e proteger a cidade todos os dias de invasões e ataques e me virar pra estudar feito louca pra conquistar essas notas. Ter que dividir minha vida como duas pessoas e manter minha identidade em segredo está acabando comigo, e como se isso não fosse pressão demais na minha vida..."

"Ah, por favor. Ninguém quer escutar sua lamúrias. Pensa que só por ser seu aniversário, acha que o mundo vai virar ao seu redor?"

"O que você falou, Shingo? Aniver...? Usagi, hoje é seu aniversário?" Perguntou a sra. Tsukino bem trêmula, não acreditando no que tinha ouvido do filho.

"Vocês...vocês esqueceram? Como puderam? COMO? Eu acordei hoje com a sensação de que teria um excelente dia, de que ia ser um aniversário como nenhum outro e o que descubro? Que meu noivo me trocou por uma prostituta, minhas amigas me desceram bronca por pensarem que não levo minhas funções à sério e agora, que meus próprios pais não valorizam meu esforço escolar...e ninguém deu a mínima pro meu aniversário. Tenho 16 anos e é um momento importante na vida de uma garota. Buáááá."

"Filhinha. Nós..." Sr. Tsukino tentou se aproximar, mas Usagi o empurrou.

"Eu já me enchi dessa vida. Ninguém se importa comigo, ninguém me ama, só querem me usar pra suas necessidades e interesses. Seria bom se eu não tivesse nascido. Daí todos ficariam felizes. EU ODEIO VOCÊS TODOS." Depois do desabafo, Usagi correu pra porta da frente e saiu rua afora, sumindo na esquina de baixo. Sua mãe tentou alcançá-la.

"Filha. Filhinha, volte. Por favor." Mas foi em vão, pois Usagi já sumira rapidamente. De volta à casa, ela e o marido se voltaram pra Shingo.

"Shingo. Por que não nos lembrou de que era aniversário da sua irmã?"

"Ora, pai. E íamos celebrar o quê? O esforço medíocre dessa cabeça de vento? Se ela fosse esperta, ia ter notas como as minhas e aposto que ela cola, se bem que talvez nem isso, pois ela é muito tonta para bolar um meio de colar. Se querem saber, ela devia ir embora daqui e dessa maneira, se concentrarem em quem tem mais chance de subir na vida."

Se o fato de terem esquecido o aniversário da filha os perturbou, as palavras cruéis do caçula foram como uma rajada de balas de tanto que feriram. Verdade que Shingo era um bom aluno, mas agora os Tsukino perceberam que a fachada de intelectual se ocultava um ser desalmado e insensível. Sem pensar 2 vezes, a mãe o pegou pela orelha e o puxou até o quarto, seguido do marido.

"Ai. Ai. Ai. Ai. Para, mãe. Isso machuca. O que pensa estar fazendo?"

"O que penso estar fazendo? O que você pensa estar fazendo. Como pode ser tão mesquinho e cruel com sua irmã? Isso é coisa que se diga? Tem razão numa ponto, Shingo: alguém ter que ir, mas vai ser você. Faça as malas. Você vai pro colégio interno Shinotome."

"Shi-Shinotome? Não, mãe, por favor. Aquele lugar é horrível. Quem entra lá nunca mais será como era. Um amigo meu foi mandado pra lá e..."

"Sei o que aconteceu. Ele voltou uma pessoa diferente de antes e achamos que isso é o que precisa pro seu caráter. Trate de se arrumar. Você irá pra lá em uma hora e nem pense que vai fugir." Com essas palavras, o sr. Tsukino bateu a porta do quarto e o trancou. Voltando para a sala, a mãe de Usagi se sentou no sofá e começou a chorar amargamente.

"Como pudemos? Como tivemos a ousadia de reprender nossa filha? Ela tinha razão. Ela vem dando o máximo de si como Sailor Moon em prol da cidade e estudando duramente pra obter boas notas e o que faço? Só desço bronca e não ligo nada pro esforço dela. Sou uma mãe horrível e o pior, acabei negligenciando seu aniversário. Snif, Snif."

"Tenha calma, amor. Também tenho culpa disso. Estava tão orgulhoso do bom desempenho de Shingo que nem me dei conta das coisas maravilhosas que nossa anjinha fazia, mas vamos consertar tudo, eu prometo." O pai ligou pro celular da filha, mas só dava mensagem de 'linha desligada'. Sem saber o que fazer, de repente o telefone ligou. Na esperança de ser Usagi, atendeu depressa. "Alô? Usagi?"

"Que? Não, senhor Tsukino, é a Makoto, amiga dela." "Oh. Imagino que estejam procurando ela." "Estamos, sim. Escuta. Será que eu e as meninas podemos dar uma passada aí? Temos um assunto que precisa ser discutido." Recebendo a afirmação, os telefones foram desligados. Agora, era saber o que podiam fazer pra reparar o estrago feito.

Fim do flashback


"Odeio eles. Odeio. Família, futuro. Odeio tudo. Por que não me deixam escolher? Eles tem tudo, dou tudo que querem e como me pagam? Com nada."

"Ei, Usagi. O que houve?" A jovem loira notou de quem era a voz e olhou pro lado. Eram suas professoras, Haruna e Higure.

"Professoras? Vocês...aqui?"

"Sim. Estávamos passeando e quando te vimos, sentimos haver algo errado." Comentou Higure quando ela e Haruna sentaram no banco, passando-lhe um lenço.

"Que aconteceu? Pode nos contar. Seu aniversário não foi como esperava?"

Com os olhos vermelhos de tanto chorar, Usagi explicou ponto por ponto de cada evento do dia. As duas professoras ficaram bem abatidas depois do relato.

"Não posso acreditar. E depois de tudo, ninguém deu qualquer importância ao seu aniversário?"

"Não, professora Higure. Pra eles, esse dia não tem qualquer valor. Nem pra eles ou ninguém."

"Não esteja tão certa disso, Usagi." Escutou-se uma voz masculina que a menina tinha razão em lembrar.

"Motoki? Você...por aqui?" "Ora, é claro. Estive te procurando o dia todo, pois lembrei que era seu aniversário. Quis te ligar, mas seu celular não atendia."

"Oh, Motoki. Que amável de sua parte. Pelo menos uma pessoa foi gentil de lembrar desse dia."

"Ora, e nós?" Perguntou Haruna fingindo indignação, mas logo deu um sorriso, segurando a mão de sua aluna. "Agora vem conosco. Não vamos deixar que seu aniversário seja lembrado como um dia amargo e tristonho. Iremos à um bom restaurante pra comemorar."

"Bem, eu não sei se..."

"Ora, querida. Você merece um dia de sol e não de chuva." Disse Higure. Motoki era da mesma opinião.

"Ela tá certa. Vamos primeiro na loja que vou te dar um grande sundae e um presente. Eu insisto."

"Bem, pode ser, mas não tenho roupa adequada pra um restaurante," A loira via que ainda usava seu uniforme escolar. "e não quero voltar pra casa."

"Ora. Não seja por isso. Vem com a gente." Higure e Haruna deram as mãos pra Usagi e seguiram pra fora do parque. Motoki foi na direção oposta, dizendo que as esperaria na loja.


Seguindo pelo centro comercial, Usagi e as professoras foram visitando diversas lojas, olhando e experimentando várias roupas e vestidos. A garota parecia estar de humor bem melhor. Depois de um tempo, escolheram algumas roupas pra levar.

No caminho de volta, passaram pelo arcade onde Motoki trabalhava e ele as serviu, dando-lhes sorvete, doces e fichas pra jogar. Num dos jogos de prêmios, Usagi ganhou um enorme panda de pelúcia, o prêmio especial do estabelecimento. Ela ficou meio sem jeito de aceitar, mas por insistência de Motoki, decidiu levá-lo.

Chegando ao apartamento de Haruna e Higure, as duas moradoras deram um trato especial ao visual da menina, indo de um bom banho até maquiagem e cabelo. Ao vestir um dos vestidos novos, Usagi mal conseguia se reconhecer.

"Nossa. Estou...estou...tão linda. Muito obrigada, Higure-san e Haruna-san."

"O prazer foi nosso. Não foi, Haruna?"

"Sem dúvida. Uma bela jovem deve estar bem arrumada pra uma noite especial. Agora é nossa vez de nos arrumar."

"E eu quero ajudar. É o mínimo que posso fazer. Por favor, deixem." Ambas aprovaram com um lindo sorriso.


"Puxa. Este lugar é bem chique." Usagi notou como era o ambiente do restaurante, todo elegante e glamoroso, parecendo um desses lugares frequentado pela nata da sociedade. "Tem certeza de que podemos jantar aqui? Me parece um pouco caro."

"Sossegue, Usagi. Apenas relaxe e aproveite."

"Haruna está certa. Não precisa se preocupar com nada. Hoje é seu aniversário e portanto, é seu dia."

Ainda um pouco nervosa, Usagi acatou a sugestão de Higure. As três se dirigiram à uma das mesas no centro e sentaram, sendo que momentos antes, viram alguém que aguardavam.

"Olá, moças. Espero não estar atrasado." "Mas de forma alguma, Motoki. Está bem elegante." "Muito gentil de observar, Haruna-san, e agradeço por me convidarem. Usagi, me permite?"

Sorrindo, Usagi permitiu que Motoki lhe puxasse a cadeira pra se sentar. Ele fez o mesmo com as duas mulheres mais velhas antes de se sentar.

"Então, Usagi? Deseja fazer o primeiro pedido?" Porém, antes de pegar o menu, duas pessoas se dirigiram até a mesa e a jovem loira as reconheceu, especialmente a moça vestida de fraque, como era de seu hábito.

"Michiru? Haruka? Vocês por aqui?"

"Sim, Usagi, somos nós. E foi em boa hora." As duas Sailors mais velhas tomaram assentos à mesa. Michiru prosseguiu. "Que bom termos te achado. Sabe que te procuramos pela cidade inteira?"

"Foi mesmo." Concordou Haruka. "Depois do que soubemos do que te aconteceu, estávamos decididas a te encontrar, principalmente por sabermos que era seu aniversário."

"Então souberam o que as outras contaram. Nem sei por que se incomodaram em lembrar de um dia sem importância." Usagi pareceu um pouco abatida.

"Não diz isso, Usa-chan." Michiru lhe tomou a mão. "Claro que é um dia importante. Você é importante."

"Não, não sou. Me esforço de todo jeito pra agradar as pessoas e ajudá-las e como sou paga? Com ralhação, traições e decepções. Ninguém dá nenhum valor aos meus esforços. Meus pais, meus...amigos e até o homem que pensava amar...todos me viraram as costas. Seria melhor eu não ter nascido. Todos seriam mais felizes se eu nunca tivesse existido."

"Usagi Tsukino." Haruka falou bem autoritária. "Nunca mais repita essas palavras. Claro que você é importante, não por causa de suas notas ou do que fará pelo futuro, mas por si própria. Muitas pessoas estão felizes hoje graças ao seu jeito único de unir e consolar os corações. Com você por perto, é como uma cura de amor à doença da tristeza e solidão."

"Ela tem razão. Eu mesma tinha dúvidas quanto ao que sentia por Haruka e foi você a me encorajar a abrir meu coração. É por sua causa que hoje estou feliz ao lado da mulher que amo."

"O mesmo val pra gente." Higure entrou na conversa. "Depois que meu marido morreu, fiquei num estado de depressão tão intenso que achava não valer mais a pena viver, mas, Usagi...você que me disse pra não desistir de buscar a felicidade e que eu poderia encontrar um novo amor, e foi o que aconteceu."

"Exato. Lembra que te contei, embora em querer, de que tinha alguém que eu gostava, porém tinha medo de dizer? Bem, você me falou: 'se gosta dessa pessoa, diga a ela e se não corresponder, siga em frente. Melhor ter perdido, mas tirado a incerteza do que viver preso a esse dilema a vida toda', e deu resultado, pois quem eu gosto me correspondeu." A professora olhou carinhosamente para Higure, que retribuiu o afeto.

"Como vê, Usagi, para muitos de nós, o mundo seria um enorme vazio sem seu carinho e positividade pra aproximar os corações. Seria como naquele filme onde um homem, num momento de fraqueza no Natal, desejou não ter existido e qual foi o resultado? O mundo ao redor dele caiu pra pior. Só quando se sentiu valorizado é que notou o quanto era importante pros amigos e entes queridos e pediu pra voltar. Imagina só como seriam nossas vidas sem você, Usagi."

"Sim, está certo, Motoki. Fiquei tão ocupada em auto-piedade que nem me dei conta de quantos ajudei a encontrar o amor."

"E bem mais do que pensa."

O grupo se virou pra saber quem tinha dito aquilo e Usagi imediatamente reconheceu aquele homem e a mulher ao seu lado.

"Yu...Yusuke Amade? Akiko?"

"Sim, Usagi, somos nós. Que grande coincidência a encontrarmos justamente onde viemos comemorar nosso aniversário de casamento."

"Foi mais que isso, senhor Amade. Usagi está fazendo 16 anos hoje." Comentou Haruna.

"Sério? Parece coisa do destino. Meus parabéns, Usagi. Bem conveniente nos encontrarmos com a cupido que nos uniu."

"Disse bem, querida. Nunca esqueci do que me falou, Usagi: 'a idade não importa quando se trata do amor. Você tem o direito de se apaixonar', e nos rendeu frutos. Veja isto." Yusuke mostrou uma foto dele com Akiko e uma bebê nos braços rindo inocentemente. "Nós a chamamos de Usagi em honra à você."

"À mim? Estou lisonjeada. Que bom que puderam se corresponder." Usagi respondeu meio envergonhada.

"Ora, você merece. Aliás, queremos mostrar como estamos gratos de uma maneira especial." Yusuke se dirigiu à Michiru. "Você é Michiru Kaioh, a violinista, não? Me acompanharia numa apresentação?" "Claro, senhor Amade. Será uma honra." "Yusuke, por favor. Não necessita ser tão formal, principalmente se tratando de uma amiga de Usagi."

Yusuke e Michiru foram até o gerente do restaurante e depois de uma conversa, obtiveram uma resposta positiva. Indo até o centro do salão onde havia um piano, Yusuke se sentou enquanto a garota de cabelo verde-oceano pegou um violino. As luzes foram focadas neles. Michiru pediu a atenção de todos.

"Gostaríamos de dedicar esta música à uma amiga muito especial. Não só porque ela está comemorando seu aniversário de 16 anos, mas porque ela é um anjo de puro amor. Usagi, é pra você."

Yusuke e Michiru tocaram seus instrumentos de forma sincronizada e afinada. O som era extremamente agradável, como nenhum outro que se ouvira. A combinação de piano e violino encheram o ambiente de alegria e paixão. Usagi se encantara tanto com aquela música que foi como se o desânimo e desilusão que sofreu o dia todo fossem tirados de seu coração como um tumor maligno e substituído por uma luz similar a um arco iris.

Terminado o dueto, uma grande salva de palmas cobriu o restaurante. Usagi abraçou os dois quando voltaram à mesa.

"Yusuke, Michiru. Muito obrigada. Sem dúvida foi o melhor presente que poderia ganhar."

"Estamos felizes que gostou, Usagi, e esperamos que agora passe a se dar mais valor."

"Tenha certeza que sim, Yusuke, e feliz aniversário de casamento à você e Akiko. Gostaria de um dia conhecer sua filhinha."

"Ficaremos radiantes de termos essa oportunidade. Aproveite seu dia, querida, e felicitações." Disse Akiko, tomando o marido nos braços e seguindo pra outra mesa.

"E então? Como se sente?"

"Sinto-me ótima, Higure-san. Foi como ter rasgado uma carta ruim e escrito outra bem melhor no lugar. Bem, já que eu aniversario hoje, vamos nos divertir."

"É esse o espírito, Usagi. Hora da festa." Exclamou Haruka.

A noite correu de bem pra melhor. Todos comeram bem, cantaram no karaokê, foi papel de presente pra todo lado e embora tenha se armado um pouco de bagunça, tudo foi diversão e euforia. Usagi nunca se sentira tão feliz e amada por ter tantos amigos ao seu redor. Só lamentava uma certa pessoa, que estava fora do país, não estar presente naquele evento tão festivo.


No fim da noite, Usagi mal se aguentava acordada. Motoki e Haruka a levaram até o carro das professoras, que ficaram maravilhadas quando o gerente não cobrou um centavo sequer pela refeição.

"Ficamos satisfeitos de oferecer esta festa aos amigos de duas grandes celebridades. Tenham uma boa noite e voltem sempre." Ele concluiu satisfeito.

"Agradecemos pela generosidade, senhor. Boa noite." Disse Haruna ao se despedir. Chegando ao carro, Haruka e Michiru se ofereceram pra levar Usagi ao seu apartamento.

"Olhe, não tem que se incomodarem com isso."

"Não é trabalho algum. Além disso, queremos estar juntos dela caso ela decida encarar os pais." Explicou Michiru.

"Ok então. Cuidem dela, certo? Boa noite." O casal feminino se despediu de Motoki e das professoras, voltando pra casa com sua amiga adormecida que segurava com carinho o panda de pelúcia. Foi aí que Haruka recebeu uma ligação: era a mãe de Usagi.

"Sim, senhora Tsukino. Sou eu, Haruka. (...) Claro, ela está conosco. (...) Fique descansada. Nós tomaremos conta dela hoje e conversaremos sobre isso amanhã. (...) Sim, vamos ajudar no que puder, mas espero que a senhora e as outras tenham se dado conta...(...) Ah, estão cientes. (...) Certo, fico feliz que farão isso. Nos veremos amanhã. Boa noite."

"Boas notícias, querida?"

"Talvez até bem mais. Os pais de Usagi e as garotas andaram conversando sobre o que fizeram e creio que tudo ficará bem."

"Espero mesmo. Ninguém que tente magoar nossa querida amiga vai ficar seguro de mim, eu prometo." Falou Michiru num tom bem zangado, o bastante para deixar até sua namorada, considerada uma mulher valente, meio assustada.

Continua...


Devem pensar: eu gosto de ver a Usagi sofrer e ser constantemente malhada por seus amigos e entes queridos? Resposta: não. E devem se perguntar: por que os demais personagens(entenda-se secundários) não passam por isso? Pelo seguinte: em toda história, o principal protagonista é o que passa por mais provas de fogo do que os demais, uma vez que ele/a tem a história centralizada em si. Também se deve ao fato que várias vezes o principal deve provar ser capaz de superar as provações e mostrar aos outros que estavam errados à seu respeito. Li vários FFs onde situações assim se dão não só com Sailor Moon, mas com Ash(Pokemon)e Lincoln(Loud House) entre outros, cujos títulos e autores não citarei por respeito à seu direito de expressar as histórias conforme sua vontade, e embora aja muitos cujo desfecho se assimilou ao meu conto e não gostei, existem aquelas que de certa forma me chamaram a atenção e salvei nos favoritos.

Lembrando que muitos personagens devem, de alguma forma, seu progresso e conquistas por conhecerem o principal, sem o qual nunca teria deixado sua rotina, muitas vezes um círculo sem fim. Conseguem pensar onde estariam Misty e Brock se não tivessem conhecido Ash? Ou em Dragon Ball, as vidas que se dariam pra Bulma, Kuririn, Ten-Shin-Han, Yamcha, Vegeta e todos sem Goku? Até alguns secundários são de vital importância pros desfechos determinados, como foi em Beast Wars com a entrada de Silverbolt nos Maximals. Na linha TF Universe, os Maximals perderam por não terem conseguido encontrar Silverbolt(e isso é um fato).

O filme que Motoki mencionou, A Felicidade Não Se Compra(It's A Wonderful Life) já foi tema de diversas situações que resultaram em desastres aos heróis e protagonistas que acreditam que tudo seria melhor se não existissem e o que se deu? Os heróis se viram num mundo ou universo tomado pela escuridão, o desespero e o mal porque não estavam ali pra evitar esse desastre. Podem até achar que certas coisas podem até ser sua culpa e algumas até são, indiretamente, tipo os vilões e inimigos que confrontam, mas lembrando que a maioria deles estragou a própria vida e tomou pra si mesmo o rumo errado, levando em alguns casos(como mencionou uma promotora de um ep. de Batman The Animated Serie que acreditava que o Homem Morcego 'gerou' os vilões de Gotham, mas no fim se conscientizou que eles 'o criaram') a questionar: por que não desejar isso aos vilões que assim tudo se resolve? Isso pode depender pra quem isso pode ser feito, pois alguns heróis devem sua existência aos antagonistas, tipo o Destruidor pras Tartarugas Ninjas e o Macaco Louco para as Meninas Super Poderosas. De fato, um universo onde Usagi nunca se tornaria Sailor Moon viraria de ponta-cabeça.

Oh, sim. Se existe alguém no anime cuja vida se tornou maravilhosa, graças a Usagi, são Yusuke e Akiko(ep. da primeira fase: 'Usagi É Um Bom Cupido'), razão pela qual eles são citados neste capítulo e merecem tal participação. Onde eles estariam sem ela para poder aproximá-los?