As quintas frequentemente são os nossos dias de folga, e aproveitamos as quartas à noite para nos distrairmos. Geralmente saímos sozinhos para fazer algo de nosso agrado, saímos em grupo para bater papo sobre tudo e sobre nada, ou simplesmente ficamos em casa descansando e aproveitando nossa própria companhia. Esta última era bem mais comum pra ele.

Sempre mais introspectivo, principalmente depois que aquele discípulo finlandês foi dado como morto e tudo só piorou quando descobrimos que ele estava vivo. Parecia que nunca mais aquele homem sairia de sua casa, mas nas últimas semanas ele parecia ter decidido mudar. Primeiro era recorrente a quantidade de vezes que passava por minha casa, mas nunca me chamava, ainda que parecesse muito que queria falar comigo.

Até que um dia enfim aceitou o convite do vizinho para vir conosco pro bar no centro de Atenas. Naquele dia em especial tínhamos decidido por um bar para que pudéssemos nos descontrair e conversar sem culpa. Ao menos uma vez ao mês tínhamos a liberdade de sairmos os treze ao mesmo tempo, e sempre aproveitamos para estarmos juntos. Depois que tudo passara, as brigas e os rancores se encerraram e passamos a nos dar muito bem.

E pela primeira vez acho que o vi relaxando pouco a pouco. No começo bastante tímido não por vergonha, mas por não saber se portar direito naquele ambiente e ao nosso lado ao mesmo tempo. Parecia ter realmente gostado de estar conosco e nas semanas seguintes, sempre que podia respeitando a escala de quem ficaria nas doze casas para proteger a deusa.

Havia inclusive se tornado cada vez mais frequente sua presença junto de nós durante as semanas de treinos, ou reuniões esporádicas nas casas dos cavaleiros. Ele próprio havia feito uma social e chamado a todos nós para irmos à casa dele. Todos estranhamos, mas não de um jeito ruim. Enfim ele estava se enturmando, e todos lhe diziam exatamente como estavam gostando da abertura a que ele estava enfim se permitindo.

E mais uma quarta-feira chegou.

Estamos em uma das casas noturnas mais badaladas da Kolonaki, e claro todos nos arrumamos de acordo. Desde que tínhamos combinado, tinha ficado claro: só sairíamos de lá expulsos pelo gerente. Só terminaríamos a noite com o cantar do galo.

E mais uma vez nós treze estamos aqui.

Ele veio.

Mas não simplesmente veio.

Veio pra quebrar a banca.

Às vezes se permitia uma excentricidade que lhe caía bem: pintava as unhas de um vermelho vivo. Tão vivo quanto seus fios de cabelo. Blusa de cetim ocre, uma calça em couro e um par de sapatos lustrosos, ambos pretos. Aquela roupa parecia abraçar cada curva do corpo esguio, se desenhando nos músculos a cada movimento. E que movimentos.

Um homem bonito. Não, belo. Ele veio no carro falando que hoje ele iria extravasar tudo o que podia, que então o chamasse apenas se fosse mesmo necessário, e não mentiu. Desde que chegamos, ele só parava para pegar um drink no bar e ao terminar, voltava para a pista e dançava como se fosse o último dia de sua vida.

Não sei o que mais me chocou, o fato de vê-lo dançar e beber, vendo-o tão livre e sedutor como nunca antes, perceber quantos olhares ele atraía para seus movimentos, ou eu percebendo que fazia parte da turba que o queria. Mesmo dentre nós, percebi olhares cobiçosos sobre seu corpo perfeito, e para quem era tão frio, estava só sorrisos, derretendo corações e torcendo pescoços por onde deslizava.

Não sabia mais o que fazer, começou a me subir um calor que não sentia com tanta facilidade, mas claramente era reação a ele. Àquele ser encantador que ninguém conhecia. Todos ansiavam por sua atenção, todos ali desejavam imensamente que ele escolhesse a si. Ele exalava sensualidade, e era nítido a todos que o bote estava lançado, e agora só faltava escolher a vítima.

Vítima sim, pois do jeito que estava, poderia fazer de gato e sapato quem ele quisesse que aceitaria de bom grado. Quem quer que fosse não recusaria, e estaria plenamente em suas mãos. Escravo de suas vontades.

E o calor só aumentava.

De longe dava pra ver a blusa escurecendo pelo suor que brotava de seu corpo pela dança contínua. Não parava de dançar e seu sorriso só aumentava. Olhava para todos, mas até agora ninguém em especial, mas pela sua reação, percebo que já havia escolhido a vítima.

Comecei a me incomodar com a possibilidade de óbvio não ser eu a tal pessoa que ele dominaria. Ele não é assim, e algo mudou. Até o começo da noite achava que para melhor, mas agora, vendo até onde ele estava disposto a ir, pensava que se não fosse comigo que não havia sido uma boa mudança. Precisava ser eu ali. Ele queria alguém em especial, ele estava certo de suas investidas, mesmo que ainda não tivesse chegado nela. Seu plano, fosse qual fosse, havia dado certo.

E como eu quero que seja eu!

Fui ao bar, tentar ver se algo me acalmava, me virando de costas para ele, para que eu pudesse me recompor ou simplesmente esquecer. Precisava de algo forte.

- Tequila, por favor.

Mal havia recebido o primeiro copo já o virei, entregando-o vazio ao atendente.

- Outra dose.

Virei um copo atrás do outro, e já ia pra minha quarta dose quando ouvi falarem comigo.

- Tudo isso é sede?

Era ele, ali ao meu lado.

- Um pouco - falei, nem sabia mais o que pensar. Além de glamuroso, ele ainda estava indecentemente cheiroso. Aquele perfume amadeirado parecia se intensificar na umidade promovida pelo suor.

- Vodka, por favor.

- Você não bebeu demais não?

- Nada. estou literalmente evaporando o álcool do corpo - recebeu o copo e segurou-o sem intenção de bebê-lo de vez, recostando os cotovelos no balcão. Parecia querer conversar.

- Hoje você está diferente.

- Você acha? - sorriu e deu um gole no drink. Esse sorriso… Ah, esse sorriso...

- Claro, né. Você até poucos dias estava quieto em casa lendo seus livros, ouvindo suas músicas, e hoje está aqui, dançando como se essa fosse sua vida.

Ele me olhava e sorria de canto, e eu não conseguia tirar os olhos daquela boca, principalmente quando passou a língua provocativamente nos lábios. Me olhando como se pudesse ver através de mim. E algo a mais.

- Quer saber o quão diferente realmente estou?

Virou o restaurante do copo em um gole só, pondo o copo no balcão.

- Quando chegarmos em casa, me procure em Aquário.

E saiu, como se nada tivesse sido dito.

Minha respiração falhou.

Eu era a vítima.