As quintas frequentemente são os nossos dias de folga, e aproveitamos as quartas à noite para nos distrairmos. Geralmente saímos sozinhos para fazer algo de nosso agrado, saímos em grupo para bater papo sobre tudo e sobre nada, ou simplesmente ficamos em casa descansando e aproveitando nossa própria companhia. Esta última era bem mais comum pra mim.
Sempre fui mais do tipo introspectivo, focado nas minhas obrigações, ainda que a maneira que eu precisasse utilizar para cumpri-las fossem questionáveis segundo os padrões morais de alguns. Para mim, era bem simples: tenho um problema? Vou solucionar. Só não importa como.
E talvez por acabar agindo de forma tão passional, mesmo parecendo frio - já que uma coisa não tem absolutamente a ver com a outra - foi que eu às vezes faço escolhas não muito boas. Tendo dois discípulos pra treinar, era claro como a neve da Sibéria e translúcido como o cristal que Isaak era o mais indicado para ser um cavaleiro. Escolhi então focar no treinamento dele, não negligenciando Hyoga, mas sabendo que ele ainda não era maduro o suficiente para passar por certos conflitos internos, deixei passar esse lado emocional dele.
O engano me deu o tapa mais dolorido de minha vida quando por justamente esse desequilíbrio emocional do russo que Isaak havia nos deixado. Doeu, mas precisava cumprir minha obrigação de entregar um cavaleiro de Cisne, ou alguém minimamente apto para isso. Hyoga tinha que servir. E novamente paguei um preço alto pelo treino incompleto do moleque, mas pelo menos consegui cumprir com minhas obrigações até o fim.
Com tudo enfim terminado e todos nós de volta aqui, doeu ainda mais saber que Isaak estava vivo. Me senti a pior das criaturas por ter aceitado que ele havia morrido ao invés de ter ido conferir com meus olhos. Mais do que vítima da inconsequência do russo, fui eu mesmo vítima da minha estratégia falha. E então, ao longo do tempo que voltamos, preferi ficar sozinho, refletindo sobre tudo, tentando entender e aceitar as minhas decisões e as consequências das minhas falhas. Sim, eu estava me martirizando.
Conforme eu mais pensava em tudo, mais uma espécie de angústia crescia em meu peito, e já não estava sabendo lidar com isso sozinho. Precisava muito de alguém do meu lado para isso, e quando eu percebia, já estava na frente da casa dele. Mais de uma vez inclusive. Todas elas eu ia, e quando via onde estava um sentimento antigo me atingia.
Já não posso mais negar a mim mesmo o direito de me saber apaixonado. Desde que eu me lembre, ele me encantou de uma forma que foi imediato. Instantâneo. Nunca fui de me importar com opinião alheia, se não, teria escolhido outra maneira de treinar meus discípulos. Não sabia o que os outros falavam dele, nunca prestei atenção a esse detalhe em especial. Sabia do que sentia, sabia que era certo, mas meu dever me fez colocar meus sentimentos enterrados fundo no baú do esquecimento.
Mas parece que agora o preço está sendo cobrado.
Admito não ter coragem de me declarar, também nunca o observei a ponto de saber o que ele sente, ou sequer de sua orientação.
Comecei a perceber uma movimentação diferente entre os rapazes quando um deles me convidou, falando do que se tratava. Enfim estavam todos tentando se dar bem, entrosar, e achei a ideia muito boa. Pela cara do vizinho, ele não acreditava que eu iria aceitar. Cheguei até mesmo a pensar se não tinha sido apenas por educação e se realmente era bem vindo, mas logo seus olhos mostraram real contentamento e aquilo me aliviou.
Foram muitas as noites a partir daquela primeira que pude estar ao lado deles, agora conseguia dizer meus amigos, e todas foram realmente agradáveis. Por hora, tudo o que eu tinha eram essas reuniões para estar ao lado dele, e até um momento me bastou.
Enfim, o dia especial do mês chegou, e decidimos ir os treze a uma casa noturna badalada na cidade. Eu, de alguma forma, me sentia cada vez mais curado das minhas falhas passadas e mais inclinado a tentar algo com ele. Me permitir, me dar essa chance e tentar ser feliz.
Foi aí que uma ideia louca surgiu na minha cabeça.
Por natureza não sou inseguro, mas também gosto de evitar me desgastar desnecessariamente. Um flerte é outra coisa, a gente saboreia a conquista ou a tentativa dela, mas ali era outro nível. Eram meus sentimentos em jogo e não estava disposto a me machucar, caso fosse com tanta sede ao pote. Precisava saber se ao menos o interesse era recíproco.
Desde cedo eu estava me arrumando. Pensei estrategicamente nas roupas, resolvi atender a um capricho pessoal que era pintar as unhas da cor dos meus cabelos. A blusa, única peça com cor, serviria pra realçar meus olhos. Precisava estar pronto pra causar delírio. Precisava chamar toda a atenção possível. Ia, claro, aproveitar pra dançar tudo o que podia, porque se ao menos eu saísse de lá sem certeza, ou pior, com a convicção de que eu não o atraía, ao menos enfim terminaria de expurgar todo o resquício de dor que ainda residia em mim.
Precisava me libertar.
Passei então a organizar as coisas da casa, para qualquer eventualidade. Não sabia exatamente o que se sucederia. Poderia, inclusive, descobrir outro alguém interessante hoje.
Tudo pronto, finalizei com meu perfume favorito, e comecei a descer as escadarias. Sempre fazíamos assim: cada um descia e chamava o seguinte, e iam repetindo por todas as casas até enfim estarmos os treze juntos. Carros organizados, quem iria dirigir também, e pela primeira vez eu neguei.
- Gente, hoje eu preciso extravasar, então, eu gostaria de não ser o motorista dessa vez.
Todos pareciam ter aceitado tranquilamente, e já no carro, eu completei.
- Inclusive, hoje eu queria dançar até me acabar. Se for possível, só me chamem se for algo realmente importante. Tem algum problema?
Todos ali receberam bem meu pedido, e quando chegamos repassamos os pedidos e combinados.
As portas logo se abriram e entramos na casa.
Iria seduzi-lo, esse seria o jogo da noite.
~CONTINUA
