Eu comecei com esse jogo, e agora eu vou até o fim. E só precisei mesmo começar a dançar. Acho que os meus amigos de patente não esperavam todo esse meu movimento, ou sequer suspeitavam que eu sabia dançar. Pra ser sincero, amo dançar, me sinto como se estivesse pegando todas as minhas dores, juntando num bolinho e colocando em uma fogueira. Se pudesse descrever a sensação seria como se aos poucos tudo de ruim em mim fosse escoando até eu ficar completamente limpo.

A expressão alma lavada sempre me aparece na mente nesses momentos, e foram poucas as vezes que pude me permitir esse pequeno, mas recompensador prazer.

A pista era minha esta noite, e eu faria o meu melhor show. Precisava que todos, sem exceção me olhassem, me admirassem e me desejassem. Minha intenção aqui é atirar para todos os lados apenas para ter uma remota chance de atingi-lo.

Tudo por ele.

A cada nota, a cada virada, a cada segundo eu me entregava com paixão e vontade à melodia. De olhos fechados, apenas me permiti por pra fora tudo o que sentia. De hoje em diante não quero mais me sentir culpado. Já entendo que tudo acontece por uma razão e fiz meu melhor. Toda mágoa que se vá de mim, porque hoje eu decidi que quero ser feliz, e vou ser ao lado dele.

Ou ao menos assim espero.

Vez ou outra eu abro os olhos e observo o que está acontecendo ao redor, e admito me sentir realizado ao me dar conta de que sou desejado ao menos ali no centro da pista. Uma ou outra aproximação furtiva de algum interessado, mas escorrego das mãos dessas pessoas, afinal, preciso estar completamente disponível para ele.

Ao longe, o vejo ir ao bar até com certa frequência. Pra curtir a noite como em outras vezes, ele prefere um drink mais suave. Hiker. Daqui vejo a cereja que logo vai para os lábios dele, cada mordida na fruta me faz delirar. Parecia suculenta.

Quando nenhum deles estava no bar, aproveito pra me aproximar do bar e solicitar minha mais que amiga vodka. Sempre vodka. Bebo, deixo o copo e retorno para a pista, para dançar ainda mais intensamente, dessa vez, pensando ser eu aquela cereja.

Eu, o mago do gelo, fervendo a pista.

E conforme o tempo passa, lá vou eu pegar mais um e mais outro drink, bebendo e retornando para a pista, como se ali fosse a minha casa. O álcool já começava a fazer efeito e me tornava ainda mais ousado nos meus movimentos, mas ainda estava completamente consciente das minhas ações. Só que agora, ao olhar para onde ele estava, vi que ele me olhava de volta e meu sorriso se alargou ainda mais. Meus olhares nunca eram diretos, mas objetivos o suficiente para captar o que acontecia no meu entorno.

Inclusive os rapazes me olhavam, todos eles sem exceção. Sei que logo fariam comentários bestas, mas levando na brincadeira. Uns ali me olhavam com fascínio, outros admiração, alguns até felizes, imagino eu por me verem tão livre das minhas correntes. Quase todos com um leve desejo no fundo. Outros, com intensa fome.

Mas era o desejo dele que me afetava. Era só o dele que eu queria.

Dessa vez de onde estou percebo que o drink era diferente. Branco… Ele mudou pra uma dose mais forte então talvez esteja incomodado com algo. Preciso saber o que é.

Me aproximo felinamente a tempo de ouvi-lo falando

- Outra dose.

Vejo-o virando um copo atrás do outro como se bebesse água. Cheguei já falando, impondo minha presença.

- Tudo isso é sede?

Ele reagiu estranho. Estava incomodado comigo? Mas ainda via em seus olhos um brilho estranho.

- Um pouco - ele me respondeu curto, e percebi bem sutilmente ele aspirando algo, como se sentisse um cheiro bom. Queria que fosse eu. Antes que perdesse a pouca razão que ainda tinha, resolvi acompanhá-lo.

- Vodka, por favor.

- Você não bebeu demais não?

- Nada. estou literalmente evaporando o álcool do corpo - recebi o copo e segurei-o sem intenção de bebê-lo de vez, recostando meus cotovelos no balcão, mostrando que podíamos conversar um pouco.

- Hoje você está diferente.

- Você acha? - sorri e dei um gole no drink.

- Claro, né. Você até poucos dias estava quieto em casa lendo seus livros, ouvindo suas músicas, e hoje está aqui, dançando como se essa fosse sua vida.

Eu achava graça dele citar justamente esse aspecto da minha vida. Gosto sim dessas coisas, claro, mas aprendi a curtir a companhia dos rapazes, e me permitir desejar a companhia dele em particular. Percebi que olhava meus lábios, sem esconder a fixação. Provoquei passando neles, saboreando ainda o pouco do drink que ali tivesse e vi sua pupila dilatar, seus olhos quase se tornando negros.

Era agora ou nunca. Não conseguirei um momento mais propício que esse.

- Quer saber o quão diferente realmente estou?

Viro o restante do copo em um gole só, pondo o copo no balcão.

- Quando chegarmos em casa, me procure em Aquário.

Volto pra pista e me desfaço em dançar. Sempre que posso eu olho na direção dele, me movendo insinuante e deixando claro que era pra ele, e o que vejo muito me agrada. Agora era bola pra frente, e seguir com a última fase do plano.

Já havia poucas pessoas na casa e por fim foi anunciada a última música. Apesar de ainda estar com disposição para dançar mais aquela música, os rapazes já se encaminharam para o caixa, então era justo que eu fosse também. Já havia dançado bastante, estava bom por uma noite.

Eu estava atrás dele na fila do caixa e quando chegou a minha vez eu pude olhar novamente em seus olhos. Nos olhamos rapidamente, sem chamar a atenção dos demais, mas estava ali o desejo e parecia só ter aumentado.

Durante o caminho alguns já cochilavam enquanto outros conversavam animados. Sendo o trajeto não tão longe, logo estávamos os treze nos pés da escadaria e cada um rumando pra sua casa, nos despedindo ao longo do trajeto, logo me vi em Aquário.

A aposta é alta, e já havia deixado tudo pré organizado, então o que me restava era tomar um banho para pelo menos tirar o cheiro de álcool. Novamente perfumado, vestindo uma blusa de botão antiga e um short grande o suficiente para cobrir a boxer.

Ele poderia nesse tempo desistir de vir, então tentava não criar tantas expectativas. Poderia pensar qualquer coisa, e as mil possibilidades me fazem colocar um som ambiente e me sentar na poltrona, aguardando. E se ele não viesse, paciência, terei que lidar com isso.

Batidas na porta.

Chego a pular de onde estava, pois já estava perdendo as esperanças.

Me muno de toda a coragem que tenho, me levanto e me dirijo até a porta.

"Vai, Camus, você está quase lá".

Abro a porta e lá está ele com os cabelos também molhados, ainda pingando. Parecia ter tomado um banho rápido só para limpar o corpo do suor e do cheiro de bebida.

Assim que ele entra, fecho a porta e nem dou chance dele falar: já o pressiono contra a parede, coloco minhas mãos em sua nuca, passando forte por entre os fios desarrumando-os e beijando aquela boca que me fez delirar a noite inteira. Que boca, que beijo! Ainda posso sentir o sabor daquelas cerejas todas, e tudo só fica mais intenso quando ele começa a me corresponder na mesma intensidade até que ele me afasta.

- Você está bêbado… - olhou fundo em meus olhos, e dava pra ver a briga dentro de si. Sorri

- Não estou não.

- Mas esse não é você.

- Então se desejar você é estar bêbado, eu estive bêbado praticamente a minha vida toda.

Ele arregalou os olhos surpreso com aquela declaração. Não sei mesmo se foi uma boa ideia, mas essa era a parte da sobriedade que me me deu tchau lá atrás na casa noturna. Apenas saiu.

Meu rosto foi acarinhado por suas mãos, que antes de continuar, me diz:

- Bom saber que não sou o único me sentindo assim.

O beijo se intensificou e o dia só estava começando na décima primeira casa.

FIM