IDAS E VINDAS DO CORAÇÃO
O baile ainda estava acontecendo, porém Kurt não estava mais com ânimo nem intenção de continuar a desfrutar da festa, foi quando de repente, Jeff o surpreende colocando as duas mãos sobre seus ombros. "És o conde Kurt?" perguntou o chacoalhando Kurt de sua melancolia. "Sim... Ele mesmo." Respondeu Kurt com um suspiro.
E cada vez mais animado, Jeff pergunta ao amigo "Vireis comigo?", o que, com um franzido na testa Kurt responde "Exatamente para onde?"
Então, já bufando impaciente com tanta hesitação por parte de Kurt, Jeff diz com as mãos na cintura "Até ao próximo salgueiro, é de seu próprio interesse, conde. De que modo desejas dar cabo de sua liberdade? Uma aliança em torno do seu dedo, ou um grilão preso aos seus pés? De um jeito ou do outro, terás de usá-la, que o príncipe já conquistou o vosso Blaine."
"Desejo que seja feliz com ele." Respondeu Kurt friamente, sem virar-se para onde Jeff já se encontrava à certa distância, causando estranheza ao amigo. "Que é isso? Até parece que tinha dúvidas do que aconteceria. Mas, em verdade, esperava que o príncipe vos tratasse dessa maneira?" continuou Jeff sem entender muito o ânimo do amigo.
Já irritado, Kurt se levanta, e com a voz um pouco elevada e tomada por certo veneno no tom, diz á Jeff "Deixai-me em paz, por gentileza." Que ironicamente responde "Oh! Estais fazendo como os cegos: o garoto vos roubou a comida e descarregais uma paulada no poste." Sendo abruptamente interrompido por Kurt que fala "Já que não saís, saio eu." Passando diretamente pelo amigo em direção á casa, deixando Jeff de boca aberta, questionando-se o que realmente havia acontecido.
"Vai entender a cabeça dos que deixam o coração ser tomado por tolices. É uma pena..." Jeff começa confabular consigo mesmo "Mas pena mesmo é que o senhor Nick me conheça tão bem e, ao mesmo tempo, tão mal!" e dá uma bufada de desgosto gesticulando com as mãos "O bobo da corte do príncipe!" e continua falando sozinho, andando de um lado para o outro, como numa conversa acalorada tentando colocar seus pensamentos em ordem "Ah! É possível que eu tivesse adquirido esse título por ser de gênio alegre. Não, não! Estou sendo injusto comigo mesmo."
Parando repentinamente, com um ar de dúvida e as mãos na cintura, Jeff questiona-se "Serei tido, realmente, nesse conceito?" e como respondendo prontamente a sua própria questão, Jeff continua num tom de voz descontente "Não pode ser! É a disposição maldosa de Nick que o leva a falar como porta-voz do mundo e a apresentar-me sob esse aspecto. Só por isso, hei de vingar-me como puder. Me recuso a ser o "Bobo do Príncipe"!"
E como se fosse uma espécie de chamado, assim que Jeff fala a palavra "Príncipe", Don David se aproxima do rapaz perguntando sobre Kurt "Caro amigo, sabeis onde está o conde? Viste Kurt por acaso?"
"Em verdade, milorde, acabei de ter uma pequena conversa com ele. Estava tão melancólico sozinho sob às estrelas. Disse-lhe, e penso que lhe dizia a verdade, que Vossa Alteza havia captado as boas graças do jovem rapaz e me ofereci para acompanhá-lo até ao salgueiro próximo e aí dar-lhe um sermão por ter sido ele abandonado, ou então para cortar um feixe de varas, por merecer umas leves açoitadas" respondeu Jeff, com seu jeito falador de sempre.
"E por que seria don Kurt merecedor de leves açoitadas?" perguntou Don David com certa malícia na voz, acreditando na brincadeira nas palavras de Jeff, que respondeu prontamente "A inocência infantil que, transbordante de alegria por haver achado um ninho, o mostra ao seu camarada que acaba ficando com ele." Como se fosse a coisa mais óbvia a ser explicada.
Balançando a cabeça em reprovação ás palavras do amigo, Don David diz com serenidade "Pretendeis fazer da confiança uma transgressão? Seria erro passível de reprimenda, se houvesse acontecido roubo de alguma natureza".
Jeff ainda insistindo em sua visão dos fatos, continua "Ainda assim, as varas e o sermão não teriam sido totalmente perdidos; o sermão poderia servir para ele próprio, que vos presentearia com as varas, por lhe terdes roubado o seu passarinho."
"Não houve roubo nenhum meu amigo! Só queria ensinar o passarinho a cantar, para depois entregá-lo ao verdadeiro dono. Por isso procuro Kurt" respondeu Don David, com toda paciência que conseguia reunir na voz.
Parando em seu vai e vem, Jeff vira-se para o príncipe e fala "Se o canto de tal pássaro, estiver de acordo com o que dizeis, por minha fé, falais honestamente." E com um aceno exagerado, coloca a mão sobre o próprio peito e faz uma cortesia ao príncipe.
Mudando um pouco de assunto, Don David, com feições marotas diz ao amigo falastrão "O jovem senhor Nick tem contas ajustar convosco... Pelo que fiquei sabendo, o mascarado com quem ele dançou no baile, disse que falastes muito mal dele."
Jeff por sua vez, surpreso com o comentário, respondeu "Oh! Eu é que suportei maus-tratos da parte dele, com a paciência de uma pedra insensível. Um carvalho de uma única folha verde lhe teria respondido." E com um suspiro de desgosto continuou "Sim... minha própria máscara parecia animar-se para lhe dar a reprimenda merecida. Sem saber que estava falando comigo, disse-me que eu era o bufão do príncipe e dos mais enfadonhos, desse jeito foi me atirando uma série de sarcasmos com tal habilidade que eu parecia preso a um poste, servindo de alvo para um exército." E Jeff continuava falando, e falando sem parar "Sua fala é só punhais... cada palavra produz uma ferida. Se seu hálito fosse tão terrível como as expressões de que ele se vale, ninguém ficaria com vida nas suas imediações. ... devastaria tudo! Tudo, daqui ao pólo norte seria dizimado." Jeff estava agitado, não parava de falar e gesticular irritado com a situação.
Porém, como numa pequena traição de sua mente, em meio a seus devaneios, Jeff declara "Não o desposaria, ainda mesmo que como dote levasse tudo quanto Adão possuía antes do pecado. Vamos, não me faleis mais dessa pessoa, em que podemos reconhecer a figura infernal com vestes graciosas. Prouvera a Deus que algum sábio o exorcizasse, pois, enquanto ele se encontrar neste mundo, é certeza poder a gente viver no inferno com tanta tranquilidade e tanto é verdade isso, que por toda parte o seguem a discórdia, o pavor e a inquietação. "
Durante a finalização do discurso de Jeff, Don David percebe a aproximação de seu amigo senhor Leonard com o filho Blaine, o sobrinho Nick e o jovem Kurt e anuncia animadamente, acenando aos que chegavam "Veja só quem se aproxima."
Jeff, tomado por um sentimento de desespero, implora ao príncipe "Não quererá Vossa Graça mandar-me ao fim do mundo com alguma incumbência? Pelo mais insignificante pretexto, estou disposto a ir até aos confins do mundo!" e dando uma desviada de olha disfarçada aos que chegavam, mais precisamente, à Nick, Jeff continua implorando. Falando um pouco mais baixo para ser ouvido só por Don David "Sou capaz de vos trazer um palito do mais longínquo recanto da Ásia, ou a medida da grande Muralha da China em polegares meus, ou um fio da barba do cão que guarda os portões do inferno, ou ir, como embaixador, aos pigmeus, contanto que não troque três palavras com essa harpia. Não tendes nenhuma incumbência para mim?" com as mãos unidas como em prece, Jeff termina seu discurso.
Don David, por sua vez, sorrindo ao amigo responde com determinação "Não, meu caro Jeff. Não desejo nada de vós senão boa companhia." E enfatiza sua resposta, com um leve tapa no ombro do rapaz. "Oh céus! Oh céus! Uma companhia que não me agrada: não suporto o senhor Língua Feroz!" Jeff brada exasperado, e como um raio, deixa o pátio em passos largos e rápidos.
"Como estais vendo, meu jovem, perdestes o coração do senhor Jeff." Disse Don David á Nick em tom de brincadeira, o que recebeu como resposta, com um sorriso melancólico "É certo, milorde; ele me emprestara por algum tempo e eu lhe devolvi com juros: um coração duplo, no lugar do simples que eu havia recebido. Mas, antes disso, ele já me havia ganho com dados falsos. Vossa Graça tem razão de dizer que o perdi." E Nick, termina com um suspiro um tanto derrotado.
Don David, por sua vez, constatando a melancolia de Nick, afirma com delicadeza ao rapaz " Vós o levastes ao chão, Nick, vós o levastes ao chão!" e acenando a cabeça em negativa, Nick aponta para os dois jovens que o seguiam e fala "Aqui vos trago o Conde Kurt , que me havia mandado procurar."
Olhando para o rapaz cabisbaixo que estava atrás de Nick, Don David fala "Como tem passado, conde Kurt? Por que estais tão triste?" fazendo com que Kurt levante ligeiramente a cabeça, sem olhar diretamente nos olhos do príncipe e respondesse como num discurso ensaiado "Não estou triste, milorde." "Então estais doente, conde Kurt?", com um suspiro Kurt responde "Também não, milorde."
Nick, não aguentando ficar quieta ao ver os dois trocando conversa sem sentido, intromete-se "O conde não está nem triste, nem doente, nem alegre, nem com saúde. Conde Kurt está simplesmente um conde polido, tão polido quanto ciumenta é a serpente de Eva no Paraíso... sem mais nem menos."
Dando razão ao jovem rapaz, Don David diz "De fato, senhor Nick, penso que a vossa interpretação é verdadeira, porém eu possa afirmar que a suspeita dele não tem base nenhuma em verdades." E então, pegando o jovem Blaine pela mão e dirigindo-se à Kurt ao falar, Don David diz com seriedade "Vê, Kurt, fiz a corte em teu nome e obtive a mão do jovem Blaine. Falei com o pai dele, que deu o seu consentimento. Só falta marcares o dia do casamento, e que Deus faça feliz vocês dois."
Senhor Leonard, que acompanhava toda a cena à distância, calado, tomou como sua deixa e disse ao rapaz "Conde Kurt, recebei meu filho e, juntamente com ele, minha fortuna. Sua Graça, o príncipe promoveu essa união, e a Graça divina diz Amém."
Nick, percebendo a surpresa de Kurt, dá um empurrãozinho no rapaz que estava congelado, sem reação em meio á tantas revelações ""É a vossa deixa, conde Kurt! Dizei alguma coisa. Reaja de alguma maneira jovem!"
Foi então que Kurt, com emoção em sua voz e o olhar doce voltado para o jovem Blaine, respondeu, quase que como uma oração "O silêncio é o mais eloquente arauto da alegria. Pequena seria a minha felicidade, se eu pudesse dizer quanto ela é grande. Senhor Blaine, sou vosso, como sois meu; em troca de vós, dou-me a mim mesmo, exultando com a barganha." E então, Kurt toma as duas mãos de Blaine com grande reverência e carinho.
Mais uma vez, Nick não aguentando o estranho silêncio que ia tomando lugar entre os dois enamorados, com um sorriso e um cutucão no ombro do primo diz marotamente "Primo, dizei alguma coisa também; se o não puderes, tape a boca do pobre rapaz com um beijo, não permitindo que ele continue a falar."
Sob o som das risadas de todos que estavam presentes, Don David diz à Nick com carinho "De fato, meu jovem Nick, o senhor possuí um coração alegre." Agradecendo ao comentário, Nick responde mansamente "É certo, milorde, e sou muito grato ao coitadinho, por saber ele manter-se sempre resguardado do vento das preocupações."
E olhando ao casal de apaixonados que havia se afastado um pouco para conversar mais privadamente, Nick continua com doçura na voz "Observe: Meu primo está dizendo ao ouvido do conde que ele se acha no coração dele." O que, Kurt por sua vez afirma para o grupo "Foi isso mesmo que ele disse, primo."
Nick então, demonstrando contentamento com o que estava acontecendo, diz "Oh Deus bondoso, mais um casamento!" e continua num tom um pouco que misturava ironia e tristeza em iguais partes "Assim acaba acontecendo com todo o mundo, menos comigo, por ser desengonçado. Serei obrigada a ficar no meu canto a chorar a solidão!"
"Lord Nick, vou arranjar-vos um marido." Afirma Don David ao jovem melancólico, que por sua vez, responde de maneira certeira "Seria bom que fosse algum da reserva de vosso pai. Não possui Vossa Graça nenhum irmão que se pareça convosco? Vosso pai gerou excelentes maridos para as felizardas a quem eles tocarem por sorte." Sorri levemente Nick.
Don David, levado pela surpresa nas palavras de Nick, diz com certo tom de dúvida na voz "Quereis-me por esposo, meu senhor?" "Não, milorde. Não me leve a mal, só o faria se ao menos tivesse outro para os dias de serviço. Vossa Graça é por demais precioso para uso diário. Vossa Graça há de me perdoar, mas parece que eu nasci somente para dizer tolices. Perdão!"
"Não há o que perdoar, meu jovem. Vosso silêncio me desagradaria muito mais do que os seus devaneios. Essa alegria diz melhor com o vosso todo; decerto nascestes em uma hora alegre." Disse sinceramente Don David à Nick, pegando sua mão com educada atenção. "Não é bem assim, milorde. Minha mãe chorou ao meu nascimento e meu pai estava por demasiado nervoso."
De repente, interrompendo o divagar auto depreciativo do sobrinho, Senhor Leonard fala com finalidade "Sobrinho, não ireis cuidar do que combinamos?" o que fez com que Nick virasse para seu tio e despedindo-se de Don David "Perdão tio. Com licença Vossa Graça, preciso me retirar!" e Nick vai para dentro de Dalton em busca dos seus afazeres.
"Realmente, é um rapaz de gênio brincalhão esse Nick" comentou Don David, assim que Nick se afastou do grupo. "É certo, milorde. Quando em sua companhia, não há muito tempo para melancolia. Só está triste quando dorme, e assim mesmo nem sempre, pois meu filho me disse que já aconteceu ter ele sonhado com coisas tristes e despertado às gargalhadas." Respondeu Don Leonard ao príncipe, dando continuidade á conversa sobre Nick. "Em casamento é que ele não quer ouvir falar, pelo que me parece." Disse o príncipe, tentando situar-se na conversa. "De jeito nenhum, meu senhor!" respondeu Don Leonard sobre o sobrinho, e com um acenar negativo da cabeça, continuou "Zomba de todos os pretendentes."
Com uma gargalhada, Don David fala algo que pega todos de surpresa "Está bom para casar-se com o jovem Jeff!", mas que desperta uma certa curiosidade em todos que ali ainda se encontravam.
"Que dizeis, milorde? Depois de uma semana, os dois estariam deixando o outro louco!" afirmou don Leonard, incrédulo com tal idéia do príncipe.
Don David, virando-se para o casal de enamorados que estava próximo, perguntou ao jovem amigo "Conde Kurt, quando estás pensando em marcar o casamento?" "Amanhã, milorde." Respondeu decisivamente o jovem rapaz. "O tempo andará de muletas enquanto o amor não completar seus ritos." Completou Kurt, olhando fixamente nos olhos de Blaine, que já tinha seu rosto corado com a previsão de eventos e o olhar fulminante e apaixonado de Kurt.
"Calma meu rapaz! Não, meu filho. Não poderá ser antes da próxima segunda-feira, dentro de sete dias justos, o que, aliás, ainda é prazo muito curto para a realização de todos os meus projetos." Disse Don Leonard com cautela.
Don David por sua vez, percebendo que Kurt se demonstrava um tanto contrariado, falou com ar decidido "Ora vamos, meu rapaz! Estou vendo que abanais a cabeça à notícia de tão grande adiamento. Mas posso assegurar-te, Kurt, que não vamos sentir tédio durante essa semana, pois nesse ínterim pretendo meter ombros a um dos trabalhos de Hércules, que irá consistir em deixar o senhor Jeff e a senhor Nick debaixo de uma montanha de amor. O meu desejo é vê-los casados, não alimentando dúvidas de que conseguirei o intento, se vós três seguirdes as minhas indicações." E com um sorriso conspiratório no rosto, o príncipe esperou pela resposta dos amigos.
Com um sorriso no rosto, Don Leonard respondeu ao príncipe "Estou ao vosso dispor, milorde, embora isso me pareça digno de noites em claro.". "Eu também estou de acordo, milorde." Afirmou Kurt firmemente.
E virando-se para o jovem Blaine, que a tudo observava com um sorriso largo no rosto, Don David perguntou "E vós também, gentil Blaine? Ajudará nessa façanha?" sendo prontamente respondido "Na minha modéstia, farei o possível para ajudar meu amado primo a arranjar um grande amor e bom marido."
"Posso dizer que Jeff não é dos menos cobiçáveis partidos do meu conhecimento. Em seu louvor posso ir ao ponto de dizer que é de nascimento nobre, valor comprovado e honestidade à toda a prova, apesar da metralhadora de palavras que é." Falou Don David rindo, e continuou, já colocando em prática o plano que ia criando em sua mente "Direi como deveis tratar vosso primo, para que ele venha a se apaixonar por Jeff!" disse olhando nos olhos esperançosos de Blaine, depois, virando-se para Kurt continuou "Por outro lado, manejaremos Jeff de tal modo, que, a despeito de seu espírito vivaz e de suas repugnâncias naturais, ficará igualmente apaixonado por Nick!"
Finalizando a explanação de seu plano romântico, juntou as mãos e disse com firmeza "Se conseguirmos isso, Cupido deixará de ser arqueiro! Sua glória ficará sendo nossa, apenas, pois passaremos a ser as únicas divindades do amor!"
