A CERIMÔNIA DO DESASTRE

A Vila Dalton está toda enfeitada com flores brancas e lamparinas, os convidados já estão tomando seus lugares na capela da Vila. A família Anderson, alheia aos acontecimentos da noite anterior, segue entusiasmada e ansiosa os preparativos finais para a cerimônia.

No interior da capela, estão senhor Leonard Anderson, Frei Burt, senhor Jeff, Nick e Blaine, à espera dos ilustres senhores no altar, quando Don David, don Sebastian e Kurt entram pela porta principal da igreja, marchando como se estivessem indo á uma guerra.

Todos se posicionam para dar início á cerimônia, Blaine com um sorriso esperançoso no rosto, enquanto Kurt mantinha um semblante sério.

"Vamos, Frei Burt, sede breve; bastarão as formalidades do casamento; depois discorrereis sobre os deveres dos cônjuges." Disse o senhor Leonard de modo brincalhão, não percebendo o ar estranho que pairava sobre as feições de Don David e Kurt.

Dando início ás formalidades da cerimônia, Frei Burt fala em voz alta para toda os convidados que se encontram na igreja, que estava lotada, ouvir, vira-se para Kurt e diz: " Estais aqui, senhor Kurt, para desposar este rapaz?"

Com o rosto impassível, e voz dura, Kurt responde secamente "NÃO!".

A príncipio, os convidados, tomaram por brincadeira tal resposta de Kurt, e os risinhos e cochichos inundaram a igreja, esperando a continuação da celebração como seria o esperado.

Com um tom brincalhão, senhor Leonard se dirige á Kurt e diz "Para se casar com Blaine e ser seu esposo, é claro que estás aqui para desposá-lo". E deu uma risada, não percebendo a seriedade da situação

Dirigindo-se então à Blaine, Frei Burt diz: " Viestes aqui,meu caro Blaine, para vos casardes com o conde Kurt?", o que foi respondido prontamente com o mais lindo dos sorrisos no rosto de Blaine "SIM!"

Continuando a cerimônia, agora direcionando-se aos demais presentes na capela, Frei Burt diz "-Se algum dos presentes souber de qualquer impedimento para a realização deste casamento, pela salvação da alma, revelá-lo agora ou cale-se para sempre.".

Kurt, tomando como sua deixa para falar, se dirige á Blaine e, olhando diretamente nos olhos do rapaz diz sarcasticamente " Conheceis algum, mau caro Blaine?", o que foi respondido com um sorriso hesitante e um tom de voz confuso " Nenhum, senhor."

Sentindo que a situação estava tomando um rumo estranho, o Frei por sua vez pergunta ao conde Kurt: " Conheceis algum, conde Kurt, que queira contar?"

O senhor Leonard, tentando colocar a situação nos eixos, meio sem saber o que ali estava acontecendo ao certo, diz " Atrevo-me a responder por ele: nenhum."

Tomado pela resposta de senhor Leonard, Kurt, então ainda mais desafiador e com um tom de voz ainda mais venenoso que antes, começa "Oh! Quanto ousam fazer os homens! Quanto podem fazer! Quanto fazem eles todos os dias, sem saber o que estão fazendo!"

Senhor Jeff, que até então só observava a situação que transcorria, falou ao amigo Kurt tentando entender o que se passava ali "Que é isso? Interjeições? Que pelo menos algumas sejam de riso: ah!ah! ah!" tentando quebrar a tensão criada no ambiente, porém foi respondido por Kurt, se dirigindo ao frei de modo ríspido. "Frei Burt, ficai de lado um momento." O que deixou a situação mais estranha e desconfortável.

Kurt então continuou, com a feição cada vez mais séria e a voz cada vez mais alta e seca, dirigindo seu discurso ao senhor Leonard Anderson: "Com licença senhores e senhoras aqui presentes. Gostaria de saber; é sem constrangimento, pai, de livre vontade que me dais este jovem rapaz, vosso filho?"

Confuso e incomodado com o tom da pergunta feita por Kurt, senhor Leonard responde mesmo assim " Tão livre e honrado, filho, como quanto Deus me entregou"., e colocou a mão direita no ombro de Blaine, que já não tinha o rosto tão feliz como no início da cerimônia.

Continuando seu discurso, Kurt foi se aproximando de Blaine, o olhando diretamente nos olhos,mas falava para o senhor Leonard "E eu, um mero Conde, que podia dar-vos em troca, como recompensa de uma tão rica e tão preciosa dádiva?"

Foi então, que o príncipe Don David fala pela primeira vez na cerimônia. Rosto impassível de emoções, mas veneno na voz: " Nada, a não ser devolver ao pai tal tesouro.", recebendo olhares confusos de todos que se encontravam no altar.

Tomando as mãos de Blaine nas suas, Kurt então fala com sarcasmo na voz, e um olhar de repúdio ao rapaz "Nobre agradecimento, caro príncipe, com isso me ensinais. Aqui, senhor Leonard, Recebei novamente vosso filho." E empurra Blaine em direção ao senhor Leonard, sem nenhuma consideração ao rapaz.

Os presentes, tomados de susto pela ação do conde Kurt, começam a murmurar pelos bancos da igreja. Blaine, pego de surpresa pela empurrão que levou, assustado, perde o equilíbrioe cai no chão aos pés de seu pai e de Nick.

Sem se importar com Blaine, que havia caído, e com ar confuso e desesperado, já tinha lágrimas escorrendo pelo rosto, Kurt continuou seu discurso " Não deis a amigo algum esta laranja podre por dentro, que sinais externos e aparência, tão-só, de honra conserva." E apontando com desdém em direção ao pobre Blaine, que agoniado, balançava a cabeça em desespero repetindo como um mantra "O que está acontecendo!", Kurt vira-se para os convidados e diz em alto e bom tom "Contemplai-o, corado como as virgens! Oh! Como pode o brilho da virtude revestir o pecado artificioso! Esse rubor não serve de evidência modesta da virtude? Não iríeis jurar, todos que o vedes, que ele é puro e honrado, se o julgásseis tão-só pela aparência? Mas não é tal, que o ardor ele conhece do leito da luxúria. Se ele cora, não é por inocência, é por culpa da lembrança da falta de pudor em seus atos."

A igreja já se encontrava em polvorosa devido á situação que se desenrolava, e principalmente, devido ao discurso de Kurt. Tentando entender tudo que estava ocorrendo, senhor Leonatd vira-se pára Kurt e pergunta, num tom mais baixo de voz: " Que pretendeis, senhor conde?", sendo respondido de modo duro " Não mais casar-me, não me juntar a uma pessoa tão falsa e suja."

Chocado com a rispidez da resposta, senhor Leonard, nervoso e sem graça com a situação diz "Se por acaso, caro conde, tendes provas, por haverdes vencido a resistência de sua virgindade, se tiveste a oportunidade de avançar sua resistência antes do casamento..." mas foi brutalmente interrompido por conde Kurt "ahhhh... Compreendo quanto quereis dizer: se o conheci, acaso; se ele se entregou a mim como a um marido, o que desculpa a falta cometida. Mas NÂO! Senhor Leonard... nunca o tentei com expressões audazes e sedutoras, mas, como um peregrino que se dirige á um santo, eu sempre lhe falava com termos decorosos, reveladores de uma afeição pura e respeitosa."

Blaine, tentando se defender de tais acusações, diz com vóz trêmula pela emoção, " E diferente disso eu parecia, meu senhor?", o que foi recebido com veneno no olhar e nas palavras por Kurt.

"-Fora com as aparências! Parecia? Vou escrever contra isso. Vós me dáveis a impressão de uma Diana em sua esfera, casta como o botão, antes de abrir-se; mas o certo é que tendes mais ardência no sangue do que Vênus ou do que essas feras muito nutridas que se deleitam numa sensualidade desenfreada".

Cada vez mais agoniado e desesperado, o jovem Blaine tenta argumentar com seu, até então noivo, "Senhor... por algum acaso, se encontra doente ou alucinando, para falar assim?" não tendo forças para se levantar do chão, e sendo amparado por Nick.

O caos já havia tomado conta da igreja. Os convidados comentavam sobre o que acontecia, sem mais se preocupar em serem discretos. Senhor Leonard, cada vez mais nervoso, se dirige à Don David agoniado "Meu caro príncipe, por que não dizeis nada?"

Don David, por sua vez, com a cabeça erguida como num óbvio desafio ao pai desesperado "Que posso dizer? Sinto-me desonrado por ter tido desejo de ligar meu grande amigo a uma pessoa sem honra como seu filho!".

Toda cerimônia tornou-se num pandemônio. Blaine chorava desesperado no chão amparado por Nick e Jeff, que tentavam acalmá-lo sem sucesso. Frei Burt não sabia o que fazer, parado no altar apenas observando a cena que ali se desenrolava. Don Leonard, com a mão no peito, começo a cambalear, agoniado com as revelações do conde, e amparado pelo irmão fala " É sonho, acaso, ou realidade o que ora se me fala?"

Foi então que Don Sebastian, que até então, observava o espetáculo de horror que ele, secretamente havia criado, dirige-se ao agoniado pai e fala, com falsa seriedade "São palavras, senhor, e todas elas só verdade traduzem, só a mais pura verdade."

Querendo dar um basta na fatídica cerimônia, Kurt olhando com certo desdém ao rapaz que chorava desesperado no chão abraçado pelo primo e amigo Nick, se dirige ao senhor Leonard "-Vou fazer uma pergunta, e apenas uma , ao vosso filho. Usai de vossa influência benigna e paternal, para que ele me dê a mais sincera e verdadeira resposta."

Respirando fundo, tentando colocar suas emoções em ordem, don Leonard responde ao jovem conde " Na qualidade de pai, ordeno que responda somente a verdade, Blaine!" e olha duramente nos olhos do filho que estava no chão, quase hiperventilando de tão nervoso.

"Oh! Meu Deus! Que pergunta queres me fazer, senhor? O que posso ter feito de tão vil para me tratares assim?" respondia o pobre Blaine, entre soluços e tentativas de encher seu pulmão com ar que se negava a funcionar.

Endurecendo o tom de voz, com os olhos cruelmente direcionados ao emotivo rapaz, Kurt indaga "Com que homem conversavas na varanda de vosso quarto na noite passada, entre meia noite e uma da manhã? Se você é tão puro e digno como juras, respondei à pergunta que vos faço."

Já aos berros, Blaine respondia "Não falava com ninguém, meu senhor!" e tentando alcançar suas mãos para pegar as mãos de Kurt, Blaine continua desesperado "... a essa hora, estava sozinho em meu quarto!"

Tentando manter as emoções que corroíam seu corpo, Kurt dá um passo para trás, o que faz Blaine tombar mais uma vez ao chão, chorando.

Dom David, colocando as mãos no ombro de Kurt, como uma forma de suporte ao amigo conde, diz duramente a Blaine. "Então, nada mais prova que este jovem não tem o mínimo de dignidade e honra. Sinto muito, senhor Leonard, mas a ouvir tal afirmação, me sinto obrigado a defender a honra deste nobre conde. Sob a minha palavra de honra, eu próprio, meu irmão e este conde traído aqui, à uma hora da noite passada, pudemos vê-lo e ouvi-lo conversando na varanda do quarto dele, com um devasso que, miserável sem nenhum escrúpulo, confessou os encontros secretos repetidos com ele já mil vezes."

Don Sebastian, vendo seu plano de destruir a cerimônia, e indiretamente as vidas dos dois jovens, fala com veneno no discurso, para piorar ainda mais a situação para o jovem Blaine "Ora! Ora! Mal podemos descrever tal situação, meu irmão, ou tratar desse assunto. Nossa educação não nos permite expressar tal ato sem ofensa. Por isso, encantador rapaz, lastimo muito vosso desgoverno."

Respirando fundo, para segurar a agonia que tomou seu ser, Kurt vira para Blaine e fala "Ó Blaine, Blaine... que noivo tu terias sido, se metade de tuas graças exteriores tivesses empregado para adornar teus atos e os conselhos do coração! Adeus, belo desleal! Adeus, falsa dignidade e pureza! Por tua causa fecharei as portas de meu coração ao amor, deixando que me penda dos olhos a suspeita, para que mude para mim a beleza em falsidade, privando-a sempre de quaisquer encantos."

"Ninguém tem um punhal para ferir-me?" grita senhor Leonard, agoniado buscando a bainha do conde para tentar se livrar da vergonha que se encontrava. Vendo o desespero do irmão, senhor Antony Anderson, abraça o irmão para ampará-lo, e também para evitar que o senhor fizesse algo que se arrependesse mais tarde.

Em meio a toda a comoção, Blaine, tomado pelo pânico que as injúrias proferidas pelo seu ex-noivo e príncipes, na frente de todos os convidados, acaba desmaiando levando Nick ao desespero. " Primo? Primo? Que estais sentindo?"

Aproveitando o momento, Don Sebastian coloca a mãos no ombro de seu irmão, Don David e diz solenemente "Saiamos logo. Quando as verdades são reveladas, os sentimentos sufocam os menstirosos." E sem olhar pra trás, Don David lidera a saída do grupo pelos portões da Igreja, arrastando pelo ombro, Kurt, que no momento que viu seu ex noivo desmaiando, sentiu momentaneamente a necessidade de acudi-lo, mas foi impedido por don Sebastian.