MENTIRAS QUE SUFOCAM A HONRA

O caos tomou conta da igreja. Assim que Don David, Don Sebastian e Kurt saíram pelas portas da igreja, os convidados começaram a se retirar em alvoroço deixando somente os que estavam no altar.

Jeff, preocupado, pergunta á Nick sobre o estado de Blaine "Como está seu primo?", e coloca uma das mãos no ombro de Nick tentando chamar sua atenção.

"Desacordado! Morto!" respondeu Nick, desesperado, tentando mover o corpo desfalecido do primo, sem reação. "Blaine! Blaine! Por favor primo... reaja!" falava com agonia na voz. Virando-se para os demais presentes no altar, Nick grita " Tio! Socorro! ... Frei!... Tio! "... e sem receber nenhuma resposta dos homens, nem reação do primo... Nick vira-se com olhar desesperado, suplicando "Oh, senhor Jeff! Por favor!" que por sua vez, toma a vez nos pedidos de ajuda "Vamos Frei, me ajude aqui!"

Porém, don Leonard, avança em direção ao filho desmaiado e rudemente empurra Jeff, que tentava levantar o rapaz "Não se atreva impedir que o Destino tome seu curso.", e bufando como um animal enjaulado, continuou " A morte é o véu mais belo que se pode almejar para esse escândalo vergonhoso!"

Ignorando o rompante do tio, Nick toca o rosto de Blaine, que começava a abrir os olhos desorientado, e cuidadosamente chama a atenção do primo para si, perguntando "Primo..., O que tens? O que você está sentindo? Me responda... por favor"

"Coragem, rapaz...Respire fundo" Falaram juntos Jeff e frei Burt, tentando incentivar Blaine a se acalmar, apesar da situação.

Notando os olhares dos demais em direção ao seu filho, senhor Leonard se vira para o rapaz, e pergunta bruscamente: "Estás abrindo os olhos, infeliz?", o que recebe um olhar questionador de todos em volta e faz com que Frei Burt diga " Por que causa não podia ele abri-los?"

Tomado pela vergonha da situação que se passou em frente aos convidados, don Leonard deixa a raiva tomar conta de si e começa a gritar e gesticular com os braços "Por que causa? Por que? Tudo o que há sobre a terra não proclama seu vexame? Ele pode negar, acaso, a história que no sangue traz impressa?" e num momento de fúria incontrolável, don Leonard parte para cima do filho "Não vivas, Blaine! Não atrevas abrir seus olhos, pois, se eu pudesse crer que não virias a morrer pela vergonha de seus atos, ou se eu pensasse que mais forte tivesses os espíritos do que a vergonha, eu próprio, arrematando todas as maldições, te esganaria."

Todos em volta se assustam com a ação de don Leonard, que com as mãos no pescoço do filho, tenta sufoca-lo sem perdão. Jeff parte para a ação, desvencilhando Blaine das mãos do pai, enquanto Nick grita desesperado segurando o primo que chora incontrolavelmente. Ajudando a separar pai e filho, don Antony, puxa seu irmão para trás com dificuldade, o afastando do rapaz assustado.

Don Leonard, deixando-se levar por seu irmão, se inclina sobre don Antony, largando seu peso em derrota "Lastimei-me por ter um só filho? Disse que a natureza tinha sido cruel comigo? Nunca em minha vida... até hoje...Nunca pensei assim... " dando um suspiro derrotado, tornou a olhar para o filho largado no chão, que chorava agoniado segurando o próprio pescoço que começava a mostra as marcas das mãos agressoras em torno dele; e apontando para o filho, com desgosto na voz, continuou "Por que sempre foste digno aos meus olhos? Por que ao invés da vida me dar você como filho, não tive a oportunidade de recolher a filha de um mendigo que me houvesse batido à porta e chamado de minha filha? Agora assim manchado, enlameado de infâmia, poderia dizer que nela nada me pertencia, que esse vexame provém de fonte estranha que não o meu sangue. Mas meu próprio filho idolatrado, que eu tanto amava e elogiava, que tanto orgulho eu tinha de sua honra e capacidade, que até eu mesmo parecia não o merecer como pai em confronto com seus dotes... "

Interrompendo o devaneio raivoso de don Leonard, Jeff suplica ao nobre senhor "Acalmai-vos, senhor. Por minha parte, de tal forma me encontro estupefacto, que não sei o que dizer sobre o acontecido!"

Por sua vez Nick, ainda abraçando o primo que chorava descontrolado no chão, falava nervoso a quem quisesse ouvi-lo "Oh pelos céus! Por minha alma... Meu primo está sendo caluniado!" o que ganhou a atenção de Jeff "Meu caro Nick, dividiste o quarto noite passada com seu primo?"

Balançando a cabeça freneticamente, Nick dizia respondia desesperado " Não, noite passada não, mas até ontem dormimos juntos, no mesmo quarto todos os dias. Juro!"

Dando um berro de desaprovação, Don Leonard fala, mais uma vez apontando para o filho que nem forças mais tem para levantar a cabeça "AHHHHH...Confirma-se! Confirma-se! Poderiam mentir esses dois príncipes? Kurt o caluniaria, ele que o amava a ponto de, ao falar em sua infâmia, com pranto lhe banhar? Então, que morra!"

Frei Burt, tomado pela sensação de injustiça que pairava sobre o jovem Blaine, respira fundo, coloca as duas mãos nos ombros do pai transtornado e faz com que don Leonard foque sua visão no rosto do frei e, com voz calma porém firme diz "Escutai-me um momento, nobre senhor. Calado não fiquei por tanto tempo, deixando as coisas em seu livre curso, senão para observar melhor o jovem Blaine. Notei como no rosto lhe corriam mil rubores, quais só podem ser vistos como mensageiros da pureza, nos olhos lhe notei um grande fogo, pronto a queimar de vergonha, por culpa das injúrias que esses príncipes contra sua lealdade sustentavam. Dizei que estou variando, se o quiserdes; não confieis mais no meu saber, na minha observação, que o selo da experiência tem sempre confirmado, e recusai-me crédito à idade, à dignidade própria, ao ministério sacro, se este rapaz, tão gentil, não se achar, sem ser culpada, vítima de algum erro clamoroso."

Com o peito arfando, Don Leonard olha nos olhos de frei Burt, com olhos marejados, suplicando ajuda ao homem da igreja "Frei... não pode ser. Bem vês que quanto ainda lhe resta de pudor só serve para não agravar a pena eterna com um feio perjuro. Ele não nega. Por que queres cobrir com essas desculpas quanto ele próprio não consegue?"

Sem tirar as mãos do ombro de don Leonard, Frei Burt se vira para Blaine, e pergunta em um tom condescendente "Qual o nome do homem, meu jovem, com quem, segundo dizem, estiveste na noite passada?"

Ainda chorando, agoniado, Blaine responde "Os meus acusadores que sabem, não eu.Não estive com ninguém além de mim mesmo na noite passada em meu quarto. Se eu, estiver de alguma maneira atentando contra a dignidade, não me sejam perdoados os pecados. Ó meu pai! Dai-me a prova de que um homem em hora imprópria, conversou comigo, que eu, esta noite, com qualquer pessoa troquei uma palavra, e repudiai-me, tende-me ódio, matai-me de tormentos" falando entre soluços de choro e tomadas ríspidas de fôlego, amparado pelo primo e senhor Jeff.

"Os príncipes decerto foram vítimas de algum estranho equívoco" comentou praticamente pra si mesmo, Frei Burt, reafirmado pela voz de Jeff, que de repente fala com ar desafiador "Dois deles são realmente pessoas honradas. Se há maldade que acaso a boa fé lhes iluda, a encontraremos no bastardo Sebastian, que só com vilanias se preocupa".

Totalmente desgastado, senhor Leonard olha com tristeza para Jeff e diz, quase sem forças "Não sei dizê-lo; mas se for verdade quanto a respeito dele eles afirmam, com estas mãos hei de fazê-lo pagar... agora... Se a honra lhe difamaram, há de contas justas comigo acertarem." Olhando pela última vez para seu filho, jogado no chão com o rosto lavado em lágrimas, que negava ferozmente com a cabeça as injúrias, continua " O tempo não me fez secar o sangue... não me embotou a inteligência... a idade, não me deixou mais fraco... nem a fortuna me privou de verdadeiros amigos, para que ora me veja sem recurso de qualquer jeito na maldade em curso, sem finura ou meios certos, com a ajuda de bons amigos, para presenteá-los com punição completa."

Com a intenção de acalmar os ânimos de todos que ali se encontravam, e conseguir dar um rumo próximo do ideal aos acontecimentos, frei Burt dá um pequeno tapa nas costas de don Leonard, como forma de encorajamento, e diz ao pobre pai "Parai um pouco, consentindo que ora como guia vos sirva meu conselho. Os príncipes deixaram vosso filho desfalecido. Em secreto o conservemos e espalharemos a notícia que morreu, de fato. De rigoroso pesar se vistam todos; no antigo mausoléu da família inscrevei epitáfios lastimosos, todo o ritual, em suma, costumeiro nas ocasiões de enterros tais como este."

Interrompendo o discurso de frei Burt, don Leonard questiona " Qual a vantagem disso tudo? E as consequências?",

Mais uma vez, Frei Burt coloca toda sua sensatez e também sensibilidade ao responder, com um olhar sincero:

"Se for bem conduzido esse expediente, a calúnia será transformada em compaixão. Já é alguma coisa; mas não sonho com isso apenas ao propor um meio tão singular. Prevejo que essas dores de algo melhor indicam ... uma espécie de renascimento. Tendo morrido, como espalharemos a notícia, no momento preciso em que o acusavam, lamentada há de ser a sua morte e perdoado será por todos os ouvintes. Pois é fato que nunca damos o devido apreço a nada do que temos; mas, se acaso nos vem a faltar isso, exageramos o valor e enxergamos a virtude que nos fora ocultada pela posse. A mesma coisa vai se dar com o conde Kurt. Quando vir que causou a morte do jovem Blaine com suas acusações, inconscientemente, a culpa de mansinho se esgueirará em sua mente e a imagem de Blaine tomara seu coração, e aura que o jovem Blaine, vivo, tinha virão com vestes mais preciosas, mais delicadas, mais comovedoras à visão interior de seu espírito do que quando ele, vivo se encontrava.

Passará então, o conde Kurt a lastimá-lo, no caso de realmente o ter amado de corpo e alma, e a desejar que nunca lhe tivesse atacado com tais injúrias.

Procedei desse modo, e podeis crer-me que o êxito há de dar feições mais belas aos acontecimentos do que eu posso pintar-vos numa tosca alegoria. A verdade será esclarecida, e se falhar de todo o nosso intento de revelar a verdade, a notícia da morte do rapaz, fará apagar o espanto provocado por sua grande infâmia. Nesse caso, podereis ocultá-lo como cumpre nos casos de desonra, numa vida reclusa e religiosa, segregando-o das línguas, dos olhares, das intrigas."

Jeff, com sinceridade no olhar, vira-se para don Leonard aconselhando o nobre senhor "Escutai o conselho deste frei, senhor Leonard. De minha parte, embora me prenda fortemente a Kurt e ao príncipe, amor fraternal e intimidade, dou-vos minha palavra de honra em como hei de portar-me com tanta discrição daqui por diante, como com vosso corpo faz vossa alma.

Totalmente desgastado pelos acontecimentos do dia, don Leonard responde ao jovem Jeff num tom derrotado "No mar de desventuras em que me acho, aceito qualquer alento, por mais insignificante que seja."

Resolvido, frei Burt junta as mãos em sinal de prece, e se dirige a todos ali presentes " Muito bem; para um caso tão estranho deve ser também rara a medicina.", e estendendo á mão á Blaine, auxiliando o rapaz a finalmente se levantar do chão, continua "Morrei para viver; meu rapaz...talvez o casamento só esteja adiado."

Seguindo atrás de senhor Leonard que estava sendo guiado para longe da capela, por seu irmão sr. Antony, Frei Burt pede que Wes, o tutor e amigo de Blaine, que assistia tudo horrorizado, ajude o rapaz a se retirar aos seus aposentos, dizendo "Vá... descanse... que morra a pessoa difamada para renascer em honra e dignidade merecida".