QUANDO O AMOR DE UNS, CURA A DOR DE TODOS

Num dos jardins de Dalton, Wes encontrava-se amuado num banco próximo de uma fonte. O rapaz estava triste e envergonhado por fazer parte, mesmo que sem prévio conhecimento, dos acontecimentos que resultaram na humilhação de seu amigo Blaine. O rapaz estava tão absorto em sua culpa, que não percebeu o jovem Jeff que se aproximava, assustando-se quando o rapaz limpou a garganta antes de falar.

"Por favor, jovem Wes, você seria gentil comigo, ajudando-me a encontrar Nick ?" perguntou polidamente, o que foi recebido com um pequeno sorriso por Wes. Levantando-se devagar, e secando os olhos com a manga da camisa, tentando disfarçar as lágrimas que marejavam em seus olhos, o jovem tutor responde "Não sei se sou digno de tanta simpatia por vossa parte, meu senhor. Mas com certeza posso ajuda-lo, sim!",

Estranhando o ar sombrio do rapaz, Jeff dá um passo até o rapaz e coloca a mão em seu ombro tentando chamar sua atenção enquanto fala "Não sei o que levou , tão nobre rapaz, a se depreciar desse jeito, mas acredito que nada é tão vil que não me permita ser gentil."

Wes, não querendo prolongar-se na discussão de seus atos, e com medo de perder o controle sobre suas emoções se prontifica a ir procurar pelo jovem Nick "Se é o que pensas, meu senhor, pois bem... Vou procurar o jovem Nick e dizer que o chama, que decerto há de vir logo ao seu encontro" e fazendo uma pequena cortesia, se despede de Jeff, e se retira deixando o rapaz sozinho no jardim.

Assim que Jeff percebe que Wes se distanciou indo procurar Nick, ele retira do bolso uma folha de papel e desdobra. Na folha está um poema que ele se aventurou a escrever para seu amado Nick. Como se estivesse conversando consigo mesmo, questionando e criticando sua obra, Jeff fala ao vento:

"O deus do amor, que no alto mora, muito bem sabe, o quanto sou fraco...isto é, fraco no que diz respeito ao canto; porque no que respeita ao amor, nem o mais famoso dos poetas nem o mais apaixonados dos jovens inocentes, jamais se viram revirados pelo amor, em todos os sentidos, como o meu pobre eu. "

Jogando as mãos para o ar, como num desabafo continua "Pelos deuses! Não posso demonstrá-lo por meio de rimas; já tentei mas não deu certo. Não achei rima para "Nick" a não ser "pic-nic", por demais inocente... Para "adorno" só me ocorre "corno", rima dura, muito dura mesmo; "beleza" só rima com "mesa", o que é sobremodo inconveniente. Só rimas pobres e incoerentes... Não; decididamente não nasci sob a influência de um planeta rimador, nem sou capaz de fazer uma declaração com fraseado domingueiro."

Enquanto andava de um lado para o outro, tentando encontrar uma solução para suas rimas, Jeff percebe Nick se aproximando pela entrada do jardim, com um sorriso tímido no rosto. Feliz em ver seu amado, Jeff o saúda com floreios " Oh, doce Nick, atendes, realmente, ao meu chamado?". Baixando a cabeça com timidez, Nick responde prontamente " Sim, senhor; e partirei quando então ordenardes".

Sem saber muito bem como lidar com a timidez do rapaz, Jeff continua "" Oh! Ficarás até então?"

Nick então, olhando diretamente nos olhos de Jeff, com um sorriso malicioso no rosto responde "O "então" já foi dito; por isso, adeus... Mas antes de me retirar, fazei-me saber o que eu desejava saber ao vir até aqui, isto é, o que se passou entre vós e Kurt?!".

Aproximando-se de Nick, Jeff responde com seriamente ao rapaz " Apenas palavras amargas; que estragam o paladar da amizade, e por isso desejo dar-te um beijo para adoçar-me a boca".

Porém, com a resposta de Jeff, Nick dá um passo para trás, distanciando-se do rapaz e responde "Palavras amargas não passam de vento azedo; vento azedo não passa de hálito azedo, e hálito azedo é prejudicial. Por isso, retiro-me sem ser beijado."

Com uma pequena gargalhada, Jeff abana a cabeça em derrota pela rapidez de raciocínio do jovem Nick em responde-lo, então decidindo falar seriamente com o rapaz . Alcançando a mão do jovem, diz "Vou contar-te tudo em todos os detalhes. Kurt aceitou meu desafio; dentro de pouco tempo, ou receberei notícias dele, ou espalharei aos quatro cantos que ele é um grande covarde"... e puxando o rapaz pelas mãos, trouxe Nick para perto de si e, com doçura na voz perguntou " Agora dize-me, por favor! Por qual das minhas más qualidades tu te apaixonaste primeiro?"

Nick, mesmo encabulado com a proximidade de Jeff, olha diretamente nos olhos do rapaz e responde num tom brincalhão "Por todas elas reunidas, que, em conjunto, constituem uma tão perfeita república de defeitos que não permitem que se lhes misture nada de bom." E com um riso no olhar, Nick completa questionando Jeff "E o senhor,...Qual das minhas boas qualidades vos obrigou primeiro a suportar o amor para comigo?"

Encantado pelos olhos de Nick, sem desviar o olhar deles, Jeff responde com um sorriso malicioso no rosto "Bonita expressão: a suportar o amor, porque, de fato, suporto o amor, visto amar-te contra a minha vontade."

Afastando-se um pouco de Jeff, Nick vai até o banco na frente da fonte e senta-se com as mãos no colo, olhando em direção ás águas, e diz num tom sério "Contra o querer do próprio coração? Coitado dele! Mas se o desprezais por minha causa, vou desprezá-lo por vossa causa, por que jamais poderei amar o que o meu amigo odeia."

Rindo, Jeff vai de encontro de Nick, e senta-se ao lado do rapaz, tomando mais uma vez as mãos de Nick. "Tu e eu somos demasiadamente sábios para nos declararmos em paz, como dois ingênuos apaixonados!" e com um sorriso nos lábios, levanta as mãos de Nick para beijá-las suavemente, que recebe o gesto com um leve rubor cobrindo o rosto, e um sorriso nos lábios.

Sentindo a melancolia no olhar de seu amado, que, mesmo um sorriso no rosto não conseguia disfarçar, Jeff resolve questionar Nick sobre Blaine "E agora dizei-me: como passa o vosso primo?"

O sorriso que estava no rosto de Nick se apaga por completo, e desviando o olhar para a fonte a frente, Nick responde solenemente " Muito mal".

Preocupado com Nick, Jeff pergunta " E você? Como está?", o que recebe como resposta acompanhada de um suspiro dolorido " Muito mal, também."

Na intenção de acalmar o pobre coração de seu amado, Jeff alcança as mãos de Nick mais uma vez, dando um pequeno aperto como sinal de conforto e diz, carinhosamente: " Sede piedoso, amai-me e deixai-me amar-te também..." e percebendo que alguém se aproximava do jardim, apressado, completou " Neste ponto vos deixo, porque vem chegando alguém com muita pressa."

Os dois olharam em direção a entrada do jardim, por onde Sam, o criado dos Anderson vinha apressado chamando por Nick.

"Jovem Senhor, é preciso que se apresse e vá encontrar-se com vosso tio. A casa está num rebuliço medonho" e com uma animação contagiante, Sam continuou seu discurso "Ficou provado que a senhor Blaine foi falsamente acusado! ... O príncipe don David e o jovem Kurt, foram enganados em sua boa fé... O autor de tudo foi Dom Sebastian, que fugiu e desapareceu."

Jeff e Nick ouviam surpresos, a tudo o que Sam contava. Percebendo que os dois não falavam nada, Sam tentou chamar a atenção dos dois "Ireis logo?... Encontrar com seu tio?"

Notando a confusão do criado, Nick responde afirmativamente, o que foi o suficiente para que Sam se virasse e saísse na direção em que tinha chegado, deixando Nick e Jeff mais uma vez a sós.

"Preciso ir logo. Não quereis ouvir as novidades, senhor?" disse Nick, agora com um sorriso que tomava o seu rosto com tanto alívio que sentia.

Colocando as mãos de Nick no próprio peito, e olhando diretamente nos olhos do rapaz, Jeff respondeu com animação e amor em sua voz "Quero viver em teu coração, morrer nesses seus lábios e ser sepultado em teus olhos... " e dando uma risada, levantou-se do banco, puxando Nick com ele e completou "... Além disso, irei contigo até a casa de teu tio."