Sr. & Sra. Malfoy
Capítulo 15
Libertação
E ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas fizeram-te insone e inquieta de maneira excessiva.
"De novo, Virgínia? O que você está esperando acontecer?" – ela fitou Draco, sem entender o que acontecia, ele suspirou em derrota – "Okay. Feche os olhos." – antes de fechar os olhos, Ginny viu a expressão frustrada de Draco. E então, silêncio.
Ginny piscou algumas vezes, vendo o rosto de Harry entrar em foco bem à sua frente. Ela sentia suas costas apoiadas num colchão macio, o corpo de Harry estava parcialmente cobrindo o dela e ele a encarava profundamente. Parecia estranhamente mais novo.
"Gin, nós estamos nessa há quanto tempo?" – ela sentiu os lábios de Harry nos seus, pontuando as palavras – "Anos?"
Ginny olhou ao redor, brevemente. Aquilo já tinha acontecido. Mas ela pensou mesmo assim. Ela e Harry começaram os flertes durante o sexto ano dele, quando eles se beijaram pela primeira vez. Infelizmente, o romance adolescente tinha sido interrompido por uma guerra iminente. Depois da guerra, os dois tentaram retomar o que tinham, e conseguiram por algum tempo. Entre idas e vindas, Harry e Ginny eram e não eram um casal. Então sim, fazia quase quinze anos que os dois estavam numa dança que não ia para lugar nenhum.
Não... ela percebeu o que estava acontecendo. E na verdade, aquele momento com Harry tinha acontecido há quase nove anos. Então, eles estavam naquela dança há cerca de seis anos.
"Seis anos, mais ou menos." – ela ouviu-se falar - "Você não quer algo sério, Harry." – ela empurrou-o para o lado e levantou-se da cama – "Você não tem levado nada a sério ultimamente, nem você próprio." – continuou, sumindo atrás da porta do banheiro.
Harry se tornara impulsivo depois da guerra. Mais do que o normal. Se o Ministério tivesse alguma missão perigosa, Harry era o primeiro a se voluntariar, mesmo não sendo o mais qualificado. Missões secundárias ou que não eram prioridade, eram ignoradas completamente. Depois de um tempo, Harry apenas não queria mais participar das missões. Ao invés disso, festas da alta sociedade, jogos e prazeres se tornaram prioridade. E se Ginny não quisesse fazer parte disso, ele tinha garotas que queriam. O comportamento esporádico e impulsivo de Harry era algo que a incomodava mais do que o fato de ele ter uma fila de Harryetes esperando para pôr as mãos nele.
"Hey, o que você quer dizer com isso?" – ele seguiu-a, abrindo a porta e vendo-a deslizar para dentro do box.
"Eu também não quero algo sério, Harry. É o que eu quero dizer." – ela colocou a cabeça para fora do box, olhando divertida para ele – "Você não vai abrir mão das suas garotas e suas festas, eu não vou abrir mão da minha liberdade. Sem falar que eu acabei de me tornar Auror, eu vou focar na minha carreira." – Ginny estendeu a mão e piscou para Harry – "Você vem me acompanhar ou vai ficar aí parado?"
Harry alcançou os lábios de Ginny de forma ousada e foi puxado por ela para dentro do box por ela. Ela sentiu o corpo e mãos de Harry nela por algum tempo, e era uma sensação estranha. Ela ouvia-se gemer e responder aos toques dele, mas sua própria mente parecia não concordar com o que seu corpo demonstrava. Harry saiu do box e, alguns minutos depois, ela saiu do banheiro e encontrou-se sentada numa cadeira confortável, mirando um homem de meia idade, negro e de aparência austera. David Bowl, chefe dos agentes especiais do CIM.
"Muito prazer, Srta. Weasley. Meu nome é David Bowl. Que bom que você resolveu responder à nossa convocação."
Se ela estivesse correta, aquela tinha sido a última vez que ela e Harry tinham estado juntos antes de, alguns dias depois, ela ser convocada para o CIM.
David passou alguns papéis para ela, e ela viu-se assinando-os sem muita hesitação. Ela lembrava-se da sensação. Uma coruja pousou bem à sua frente um dia antes e deixou uma carta cair à sua frente. Ela não se lembrava das exatas palavras, mas na carta continha uma convocação com data, hora e local, e caso ela não comparecesse, ela teria a memória apagada. Na verdade, anos depois ela descobriu que ela teria sido executada caso não aceitasse.
Não havia muito o que pensar quando ameaçavam "apagar sua memória", não é mesmo?
"A partir de hoje" – ela ouviu a voz de David novamente – "seu codinome é Violin, e é como você será conhecida aqui dentro e em comunicações externas, para preservar sua identidade. Seu treinamento começa amanhã e durará dois anos."
Ela sentiu um soco acertar seu rosto e perdeu o equilíbrio, dando alguns passos para trás. Sua mão alcançou o local onde queimava em sua face e ela ouviu uma risada bem à sua frente.
"Você está distraída, Violin. Seu treinamento acaba amanhã, e você está..." – Ginny apenas deixou que seu punho acertasse o rosto da mulher à sua frente fazendo-a parar de falar. Quem estava distraída?
Ginny olhou para a pasta à sua frente. Draco Malfoy. Ela leu:
Inconstante, imprevisível, perigoso, manipulador, assassino, traidor, alvo.
Ginny piscou e deixou que o homem, alguns passos à sua frente, entrasse em foco. Cabelos claros, pele alva. Magro, porém forte. Barba por fazer, aspecto rebele. Simplesmente lindo. Elegante, com terno e camisa pretos e impecáveis e uma gravata lisa vermelha. Ela conhecia aquele homem.
Ela simplesmente parou, e pensou que jamais seria capaz de olhar para outra direção. Os traços do rosto dele eram fortes, a expressão era um misto de gentileza e severidade. Não soube quanto tempo ficou olhando para ele, mas certamente ele percebeu o peso do olhar de Ginny sobre ele. Draco? Ela pensou. Malfoy. Ela conhecia ele. Ela perdeu o fôlego quando os olhos dele encontraram os dela. Ele tinha olhos impossivelmente prateados. Olhos nos quais uma mulher poderia facilmente se perder.
"Há algum motivo para você estar me seguindo?" – ele falou, de repente próximo ao ouvido dela, com a voz baixa e rouca. - "Está tendo uma boa viagem, Sra. Malfoy?" – ele parou na frente dela. Estava impossivelmente jovem. Ela elevou a mão para tocá-lo e sentiu sua mão encontrar a dele.
Ela puxou Draco pelas escadas, até a porta do quarto. Estavam rindo do nada, felizes, inebriados pela tequila e pela dança de seus corpos. Olharam-se, e ela imaginou que ele conseguia ver a alma dela com a intensidade do olhar dele.
"Você me quer, Virgínia." – ele disse, antes de beijá-la e colar seu corpo no dela – "Por quanto tempo você vai continuar nisso?"
Ela o ignorou, apenas queria sentir os lábios dele nos dela. As mãos dele nela. Os dedos dele tocaram o pescoço dela, descendo por entre os seios, deixando rastros em chamas por onde passavam, até que encontraram o espaço entre as pernas dela, atiçando-a.
"Draco" – ela sussurrou num gemido, ela sentiu o corpo dele se enrijecer ainda mais ao som do nome dele. Seus dedos estavam mais ágeis nela e Ginny cobriu a mão dele com a sua, guiando o ritmo. Com a outra mão buscou o pescoço dele, virou o rosto um pouco e beijou-o com pressa – "Por favor."
Draco levou as mãos ao rosto dela, segurando-o de forma que ele desacelerou o ritmo de Ginny. Ela queria algo rápido, voraz e intenso. Ele determinou que a beijaria lentamente, de forma tortuosa e igualmente intensa. Ela deixou um gemido escapar, sentindo falta dos dedos dele nela. O que estava acontecendo?
"Pense, Virgínia. Você não pode ficar aqui para sempre." – a voz dele soou urgente e um pouco irritada em seu ouvido. Ele segurava um copo de whisky e outro apareceu na frente dela.
Ginny bateu o próprio copo de whisky no de Draco e tomou sem esperar por ele. Acontecera de novo, ela pensou, e sua mente parecia bem inebriada nesse momento. Ela olhou para o próprio copo vazio. Quantas doses tinham tomado? Ela não tinha ideia. Draco estava desfocado à sua frente.
"Eu tomo drinks sobre sentimentos, Malfoy." – ela falou.
"Nós já passamos por isso, Sra. Malfoy."
"Você é bonito." – ela falou, com o tom de reconhecimento, sua voz saindo inebriada. Ergueu a mão para tocar o rosto dele – "Sra. Malfoy? Sério?"
Draco apanhou os lábios dela num beijo feroz. Sua raiva transpirava em seu comportamento, na forma como ele a beijava e tocava. O rosto dele afundou no pescoço de Ginny e ele inalou o cheiro dela. Ginny levou as mãos ao peito dele, tentando afastá-lo, tentando tirar as mãos dele de seu corpo. Draco segurou as mãos e braços dela no alto da cabeça de Ginny, apoiadas na parede.
"Não me toque, Malfoy." – Ginny sentia-o pulsar contra o corpo dela. Ela nunca o tinha visto com tanta raiva, pressionando ainda mais seu corpo contra o dela – "Eu nunca te imaginei como o tipo ciumento." – ela constatou, ainda tentando se livrar da proximidade de Draco.
"Não lute contra, Virgínia." - Ela relutou mais, tentando empurrar o corpo dele com o dela e com as pernas. Quanto mais ela lutava, mais ele pressionava o corpo contra o dela. Ela desistiu depois de alguns minutos, vendo que seria impossível se livrar dos braços dele.
Draco inclinou a cabeça e inalou o cheiro dela o máximo que pôde, tentando memorizar cada nuance. Então a encarou e suspirou. Se ele fosse completamente honesto, ele diria que vê-la com outro homem o tinha deixado louco.
"Eu disse..." – ele começou - "que a partir de hoje você não é mais a minha esposa." – ele falou com a voz mais calma e fria e sem emoção que ele pôde encontrar. O corpo de Ginny tremeu e ela teve certeza que uma lágrima escorreu no canto de seu olho. Ela piscou algumas vezes. Algo estava errado. Não era assim que tinha acontecido. Era? Ela estava tão confusa.
Ginny deixou-se cair ajoelhada no chão e sentiu as lágrimas correrem em seu rosto. Não pôde controlar o grito e o choro audíveis que escaparam de seus lábios. Ela abraçou-se ao próprio corpo, sentindo-o tremer. Sua mente gritava e explodia e sua reação foi apontar a varinha para a têmpora e retirar vários fios de pensamentos, na tentativa de aliviar a dor que sentia.
O corpo dela caiu no chão e ela ficou ali, não soube por quanto tempo. Seu choro se tornou menos audível, até que seus olhos pararam de lacrimejar. Sua respiração ainda estava descompassada e dificultosa. Sua mente ainda gritava. Às vezes, era preciso tirar mais do que alguns fios de pensamento para que aquietassem sua mente.
"Eu nunca te machucaria, Virgínia." – ela fitou os sapatos de Draco bem à frente dela. Olhou para cima e viu-o encarando-a. Draco estava apontando a varinha para ela. Sua própria varinha, apontada em sua direção. Ela ergueu-se e apontou a varinha para ele. – "Crucio!"
Seus olhos se arregalaram ao ouvir Draco. Ela não teve tempo de reagir antes que seu corpo fosse atingido pela maldição. Era uma dor excruciante. Ela sentia seus músculos se revirarem e torcerem. Mas era estranho perceber ao mesmo tempo a dor que a consumia e a claridade de sua mente. Ela podia ver a expressão atormentada de Draco e saber que ele estava sendo consumido tanto quanto ela. Ela podia ver a cobra negra se formando em seu braço e deixando rastros em chamas por todo o seu corpo, até voltar e se enrolar em uma cicatriz em seu antebraço. A maldição parou, mas seu corpo continuava se contorcendo com os eventuais espasmos.
"Bombarda maxima, Malfoy!" – Ginny pensou e a última coisa que ela viu foi um sorriso doentio antes de uma explosão de uma névoa rosada de sangue e músculo em pedacinhos. Não foi bonito.
Sentiu seu corpo ser arremessado contra uma parede e com o impacto em adição à maldição Cruciatus, ela foi incapaz de se mover. Então ela sentiu tudo parar, e tudo o que ela podia ouvir era a batida do seu coração em seus ouvidos. Não havia outro som nem outro movimento. Seus olhos estavam se fechando e ela sentiu sua mente esvanecer.
A última coisa que ouviu foi um choro de criança. Ela piscou, tentando ao máximo focar o que estava à sua frente. Liberty? Liberty. Ela não soube se conseguiu sorrir com seus lábios, mas sua mente sorriu para a filha. E a última coisa que sentiu foram os pequenos dedos de Liberty tocarem os seus dedos com as pontas dos dela
Sentiu-se livre, por alguns segundos.
Livre de dor. Livre de angústia. Livre... de tudo. Então era aquilo que chamavam de libertação?
Seus olhos se fecharam, sua consciência desistiu de lutar e ela deixou-se libertar.
"De novo? O que você está esperando acontecer, Virgínia?"– ela ouviu uma voz irritada próxima ao ouvido dela - "Patético, até para você." – ele parecia furioso e desapontado.
Ginny piscou algumas vezes, deixando que seus olhos se ajustassem à claridade do lugar. Quando isso aconteceu, ela conseguiu focar o olhar imediatamente à sua frente. Draco a encarava profundamente. Ela não desviou o olhar, e logo percebeu que estavam deitados na cama, de frente um para o outro. Apenas o que tocavam entre eles eram as pontas dos dedos.
"Draco" – ela sussurrou, fitando o olhar dele - "Eu acho que estou confusa." – ela admitiu, alcançando a lapela de Draco e afundando o rosto em seu peito – "Eu não sei o que está acontecendo."
Ele afastou-a de seu corpo com cuidado e encarou-a. O olhar dele parecia duro e confortável ao mesmo tempo, mas Ginny podia ver a fúria desesperada dançando no olhar prateado dele.
"Nós não temos tempo para isso, Virgínia." – ele falou, dessa vez em um tom decisivo – "Você não tem tempo pra isso. Então apenas ouça, okay?"
Mas ela já não tinha ouvido tudo? Sobre Voldemort, Harry e ela, e a conexão entre as almas deles. Sobre como a conclusão de Draco e Harry estavam erradas sobre Liberty, mas como ela e Draco concluíram o mesmo, momentos antes de tudo acontecer. Ela sabia sobre Lílian. Ela já tinha ouvido Draco falar sobre sua nova cicatriz em forma de marca negra. Ela já tinha ouvido tudo aquilo. Por que ele estava repetindo?
Era bom ouvir a voz dele, de qualquer forma. Ela sorria para ele, tentando absorver, novamente, a informação que ele lhe dava. Ela poderia ficar ali para sempre, ainda com aquela sensação de liberdade que sentia. Sua mente estava em paz.
"Você precisa voltar."
"Você vai estar lá, quando eu voltar?" – ela ouviu-se dizer, mas não era isso que ela queria dizer.
"Um dia, talvez, tudo isso faça mais sentido em nossas mentes. Um dia, talvez, consigamos nos perdoar, por todos os erros que cometemos contra o outro e contra nós mesmos. Um dia nós nos perdoaremos por toda a dor que nos causamos. E quando você estiver preparada, eu estarei lá para você, Virgínia."
Ginny ergueu a mão para tocar o rosto de Draco. Ela sabia do que ele estava falando e o que ele falaria. Ela sabia que ele se inclinaria, daria um beijo lento em seus lábios, como um beijo de despedida. Ele inalaria seu cheiro, fazendo-a tremer, como fizera tantas e tantas vezes.
Ele inclinou-se em direção a ela.
"Nós estamos num loop." – ela observou, de repente, fazendo-o parar e encará-la.
"Você está num loop, Virgínia." – ele corrigiu – "Nós temos que fazer tudo de novo?" – a voz dele voltou a soar impaciente – "De novo?" – repetiu – "Para alguém com tanta insônia, você tem dormido muito." – ela odiava aquele tom irritadiço dele, mas entendia – "Você ainda não está livre, Virgínia." – aquela frase tomou-a de surpresa. Não se lembrava de tê-la ouvido antes.
"O quê?" – ela perguntou, pensando se tinha ouvido corretamente.
"Você me ouviu muito bem, Virgínia." – o tom dele era sério e final – "Você ainda não é livre. Tudo o que você tem buscado tem te feito insone e inquieta de maneira excessiva." – ela fechou os olhos, absorvendo as palavras dele – "Lá fora suas buscas te deixaram desesperada. Suas execuções. Sua alma." – Ginny sentiu o toque de Draco em seu rosto – "Aqui, as suas buscas te deixam presa. Isso não é liberdade." – ela abriu os olhos e suspirou – "Nós podemos começar de novo, se você quiser." – ele afastou-se, olhando para o teto, deixando um longo suspiro frustrado escapar – "Potter estará no meu lugar em alguns momentos."
Ela sorriu. Então Ginny inclinou-se sobre Draco. A cascata de cabelos ruivos caiu sobre o rosto dela e tocou o rosto dele. Com as mãos, segurou a face de Draco e alcançou seus lábios, num beijo lento e profundo. Ela sentiu a língua de Draco enroscar-se à dela e o toque causou um pequeno choque nos dois. Era triste, e ela não pôde conter algumas lágrimas que escaparam de seus olhos. Ela sabia o que tinha que fazer agora.
Afastou o rosto de Draco e abriu os olhos. Ele já a estava encarando, e tinha um sorriso fino nos lábios. Ele ergueu a mão para tocar o rosto dela e Ginny apoiou o rosto na mão dele, apegando-se ao toque dele. Inalou profundamente, tentando absorver o cheiro de Draco em sua mente.
"Você apareceu e sua alma se juntou à minha." – ela sussurrou, com a voz trêmula e falhada – "Minha vida inteira tem o seu cheiro, Draco. Isso vai levar tempo, desfazer a sua marca em mim. E a minha em você. Eu preciso acordar agora."
Ginny abriu os olhos de uma vez e imediatamente arrependeu-se, quando a claridade do quarto a atingiu. Sua cabeça doía e ela levou o braço para tampar a luz em seu rosto. Quando abriu novamente os olhos, já acostumada com a claridade, a primeira coisa que ela viu foi a cicatriz em seu braço. Tinha a forma de uma marca negra, mas era clara e fina, como uma cicatriz.
"Oh, Weasley!" – ela ouviu alguém falar e entrar em foco na sua frente – "Finalmente!" – ele parecia exasperado – "Você acordou depois de dois anos. Voldemort retornou e ganhou a guerra, somos a resistência." – Blaise Zabini. Ela piscou algumas vezes.
"Não tem como te levar a sério, Zabini." – ela falou, sua voz saindo seca e rouca pela falta de uso.
"Okay, eu menti." – ele disse, em falso tom de derrota, e adotando uma postura mais séria. E antes que começasse a falar novamente, James entrou no quarto.
"Eu disse que ela não acreditaria." – ele falou e parou ao lado de Ginny – "Como você está se sentindo?" – perguntou para Ginny, apanhando o rosto dela entre as mãos e virando de um lado para o outro, analisando a pele, movimentos, olhos dela. Depois de um segundo ela lembrou-se como James costumava ser protetor.
"Como se eu tivesse acordado de um loop de sonhos e pesadelos." – James apontou a varinha para a têmpora de Ginny e sussurrou algo. Um fio azul de magia saiu da varinha e tocou a têmpora dela, expandindo-se em uma nuvem azul ao redor do topo de sua cabeça. Era gelado, e ela imediatamente sentiu a dor diminuir – "Obrigada, James."
"Você se lembra do que aconteceu?" – ele perguntou, dessa vez mais sério. Ela afirmou – "Eu não tinha ideia se o feitiço de Draco funcionaria ou não. E você vem acordando várias durante os últimos dias, mas..." – James ponderou.
"O que exatamente Draco fez? O que aconteceu?"
"Para proteger sua mente e sua memória, por conta do impacto e trauma, ele lançou um feitiço de suspensão de memória antes que o resgate chegasse até vocês." – ela estreitou o olhar, ainda sem entender – "Você lançou o feitiço de resgate, Ginny. Você nos chamou até a mansão. O CIM interrogou Draco. Ele acordou um pouco antes do resgate chegar e conseguiu te colocar em suspensão. É como um coma mágico, e serve para que você proteja suas memórias, personalidade e funções normais. Ele não sabia quão forte tinha sido o impacto e julgou ser o melhor para você no momento. Faz alguns dias que você vem tentando acordar, mas sempre gritando, falando coisas desconexas. Os curandeiros tiveram que te manter sedada por vários dias, e mesmo assim às vezes você ainda gritava. "
"Quais as repercussões desse feitiço?"
"Na pior das hipóteses a pessoa nunca sai do coma mágico. O que, graças a Merlin, não aconteceu com você." – nesse momento, Ginny se perguntou se essa hipótese tinha passado pela cabeça de Draco – "Pode ser que demore um pouco para você recuperar todas as memórias da forma correta. O feitiço fragmenta várias de suas memórias e guarda em lugares separados, de forma que é mais fácil preservar mais memórias se diferentes partes do cérebro estiverem dividindo o trabalho para isso. Depois de acordarem, vários pacientes relataram confusões mentais, narram memórias de forma bagunçada ou em diferentes ordens. Todos relataram que em algum momento tiveram noção de que estavam em um loop que se repetia de forma desconexa, e todos relataram a presença constante de alguém tentando convencê-los a acordarem. Draco veio ao hospital um dia e colocou um fio de memória na sua mente que, de acordo com ele, é como uma âncora na mente dos pacientes em coma. Isso soa como algo familiar para você?" – ela riu sem perceber – "Devo assumir que Draco estava tentando fazer você acordar? Pelo que entendi, foi isso que o fio de memória dele fez." – James perguntou.
"Ele fez um bom trabalho." – ela falou – "Não foi sutil, e eu não tenho ideia de quantas vezes eu passei pelo mesmo loop." – ela suspirou profundamente – "Eu sei que Harry está no hospital do CIM, Liberty está segura com Draco, eu tenho uma cicatriz negra. Todas as minhas outras memórias parecem... quebradas. Algumas coisas eu lembro de uma forma estranha, e por mais que eu saiba que não aconteceu daquela forma, eu não sei como realmente aconteceu. Por quanto tempo eu estive em suspensão?"
"Dois meses e meio." – James falou, como se arrancasse um bandaid de uma ferida. Ginny abriu e fechou a boca algumas vezes, mas não disse nada – "Se Draco não tivesse te colocado em suspensão, provavelmente você teria perdido boa parte de sua memória, como aconteceu com Harry. Elas podem parecer um pouco confusas agora, mas aos poucos elas vão se encaixar. Você quer que eu avise Draco que você acordou?"
"Não." – ela falou sem hesitar – "Ele sabe. Ele não vai vir." – James olhou para ela, parcialmente confuso – "Somente uma coisa fez sentido no meu loop, James. Quando Draco me explicou o que tinha acontecido. Todo o resto parecia confuso, apressado, mal terminado ou posto em lugar errado. E eu tenho certeza que era ele me explicando, de novo e de novo, até eu entender. Eu não sei como, mas era ele." – ela escondeu o rosto entre as mãos, tentando não chorar – "Ele sabe que eu acordei, mas ele não vai vir."
"Ginny, por que ele não viria?"
"Porque ele sabe que eu não quero que ele venha."
Ginny olhava impacientemente para o seu terapeuta. Ele escrevia várias coisas em seu pergaminho e estava calado há vários minutos. Mais do que ela gostaria. Se ela estivesse certa, ele finalmente a liberaria da terapia diária, depois de três meses, e passariam a ter apenas sessões mensais.
Sua memória estava de volta. Ela lembrava-se de todos os eventos como eles realmente aconteceram. Alguns deles, no entanto, pareciam enevoados e como se não tivessem acontecido, como quando ela e Draco se separaram, mas eram consequência dos inúmeros fios de memória que ela fez. Eles tinham mesmo se separado? Aquela era uma pergunta que recorria em sua mente de quando em quando. Ela estava proibida de fazer mais fios de memória. Sobre qualquer coisa e em qualquer hipótese.
"Muito bem, Violin," – o terapeuta começou – "como você deve suspeitar, hoje é a nossa última sessão diária. Sua evolução foi melhor do que eu imaginava que seria a esse ponto." – ela não se conteve e sorriu abertamente – "mas não ache que você vai se livrar de mim. Nossas sessões serão mensais agora."
"Você vai sentir minha falta?" – ela perguntou.
"Não." – ele não hesitou em responder, fazendo-a sorrir ainda mais – "Esse seu espírito sorridente e livre não combinam com o clima da minha sala." – ele continuou – "Você parece outra pessoa, Virgínia Weasley."
"Eu sou outra pessoa, Dr. J. Eu também não vou sentir sua falta." – ela disse, seguindo em direção à porta da sala – "Mas obrigada por tudo."
Harry estava encarando Ginny e sua mão tocava o rosto dela. Ela sorria para ele, esperando que ele falasse algo. Ela segurou o queixo de Harry e moveu a cabeça dele de um lado para o outro. Com a varinha, lançou um feitiço de diagnóstico, abrindo várias telas mágicas ao redor dele, indicando a leitura de todas as funções corporais e mentais de Harry Potter.
O cérebro mantinha funções normais de comando. Nada errado ali. Funções corporais normais, exceto por uma leve taquicardia. De acordo com notas deixadas pelos médicos oclumentes, o setor de memórias estava funcionando normalmente e criando novas memórias, mas as memórias antigas continuavam inacessíveis, provavelmente para sempre.
"Você quer sair para jantar, Dra. Weasley?" – ele sorriu com o canto dos lábios, encarando-a divertidamente. Ginny gargalhou abertamente.
"Nós já falamos sobre isso, Harry." – ela terminou de ler o relatório do diagnóstico – "Você está saudável, eu não vejo porque não te liberar para começar seu treinamento."
"Então isso é um sim?" – ele insistiu, e ela o encarou.
"Você é fofo, Harry, mais ainda sem memória. Nós não demos certo quando você tinha memória, não vamos dar agora." – ele suspirou – "Além do mais, você tentou me matar." - ela continuou de forma leve.
"Detalhes, detalhes..." – ele levantou-se e se afastou de Ginny, ainda sorrindo para ela – "Correção: Voldemort tentou te matar. Ou o que restou dele em mim, dois anos atrás."
"Isso." – ela concordou – "Você se lembra de algo?"
"Só das vezes em que você me rejeitou."
"Bom, o seu senso de humor me parece você. Isso é bom." – ela sorriu para Harry e saiu da sala.
Suspirou profundamente. Harry Potter não se lembrava de ser Harry Potter. Ele tinha todas as funções normais de um homem sem problema nenhum de saúde, mas a essência que o fazia ser o herói do mundo mágico tinha se esvanecido.
De acordo com todos os feitiços de diagnóstico de Ginny, não havia nada em Harry que a fizesse suspeitar que ainda houvesse alguma parte de Voldemort nele ou na mente dele. O mesmo nela. As únicas coisas que a lembravam constantemente eram a cicatriz de Harry e a dela própria.
"Então esse é um adeus, Dra. Weasley?" – ela ouviu Harry perguntar.
"Por enquanto sim, Harry. Você será transferido para o centro de treinamento do CIM. Dará um ótimo agente."
"Se você mudar de ideia sobre aceitar meu convite, você vai me dizer?"
"Você será o primeiro a saber, Harry." – ela ofereceu um abraço e ele aceitou – "Contanto que você não tente me matar novamente."
"Combinado."
Ginny saiu do quarto de Harry e encontrou Blaise à sua espera no corredor. Ele tinha um sorriso suspeito no rosto e ela estreitou os olhos para ele.
"O quê, Zabini?" – ele sorriu.
"Potter tem uma queda por você." – ele afirmou o óbvio, fazendo-a rir – "James também." – ela olhou-o com certo alarde, antes de rir alto.
"Zabini, você não tem noção alguma de comportamentos sociais. Não é à toa que demorou anos para se declarar para Luna."
"Mas me declarei, não é mesmo? E está tudo ótimo entre nós, muito obrigada por perguntar."
"Eu não perguntei." – Ginny riu novamente – "James não tem uma queda por mim. Eu reconheço o respeito e carinho que ele tem por mim, mas ele tem uma queda pelo Draco, não por mim." – Blaise olhou-a em choque, ao que ela apenas acenou com a cabeça – "Completamente sem noção das coisas." – ela deu um tapa na cabeça de Blaise.
"E você está de boas com isso? Ele não era casado? Eu tenho tantas perguntas agora." – ela deu de ombros, rindo da ingenuidade de Blaise.
"Eu disse para o James que se Draco topasse ele poderia seguir em frente. Por mim tudo bem. Mas isso foi anos atrás. E, bem, pessoas se divorciam não é mesmo?" – ela falou com naturalidade e casualmente – "E você sabe melhor do que eu se Draco aceitaria ou não, afinal, você era o melhor amigo dele." – Blaise deu um sorriso suspeito para Ginny, ao que ela riu alto por um momento.
"Falar em Draco" – Blaise aproveitou a deixa, usando um tom mais sério. Ginny parou e encarou-o – "E falar em anos atrás, você não acha que já está na hora de falar com ele?" – ela suspirou, claramente incomodada com o rumo do assunto – "Faz dois anos, Ginny, dois anos que tudo aconteceu, que vocês dois estão nessa dança em que um evita o outro mas claramente querem conversar. Você sempre pergunta dele para mim ou James quando trazemos a Liberty pra você, ele sempre pergunta de você quando a levamos para ele. Já está ficando ridículo. Vocês dois são patéticos."
"Blaise..."
"Não, Ginny, não adianta tentar me desarmar pelo meu nome. Eu vejo a sua evolução, como a sua mente voltou a ficar tranquila, como você tem outra expressão depois que tudo aconteceu. Eu não lembro de nunca ter te visto tão feliz como agora. Ou melhor, eu lembro, assim que você começou a se encontrar às escondidas com Draco. Seu semblante mudou da mesma forma. Você conseguiu o que queria, você se tornou uma excelente curandeira, só falta você voltar para o seu marido."
"Ele não é mais meu marido." – ela falou, contrariada.
"De tudo o que eu falei, é só isso que você tem a dizer a respeito?" – ela suspirou longamente, claramente vencida. Mas ela tinha algo mais a falar.
"Você pode ficar com Liberty essa noite?"
Ginny aparatou nos portões da Mansão Rubro Malfoy e entrou correndo quando estes se abriram para ela. Por um segundo, surpreendeu-se por eles terem se aberto instantaneamente, mesmo depois de quase dois anos.
"Dois anos" – o pensamento passou por sua mente. Há muito tempo não ia na mansão. Há muito tempo não falava com Draco ou o via. O pouco contato que tinham durante esse tempo era para falar sobre Liberty, por meio de cartas ou com a ajuda de James e Blaise.
Ela entrou na sala e, por alguns instantes apenas, pensou no que havia ocorrido ali dois anos atrás. Fechou os olhos e suspirou fundo, e quando abriu percebeu que todo o interior da Mansão estava diferente e absolutamente nada lembrava de como era a antiga sala de entrada. Mentalmente ela agradeceu Draco por isso. Tornava as coisas mais fáceis.
Subiu as escadas correndo até o quarto que uma vez tinha sido deles. Ouviu o barulho do chuveiro ligado e dirigiu-se quietamente até o banheiro. Ela suspirou fundo quando abriu a porta aos poucos, esperando internamente que Draco não estivesse acompanhado.
Percebeu a silhueta de Draco atrás do box do banheiro, meio encoberto pelo vapor criado pela água quente. Ele estava sozinho. Ela sorriu. Andou até o box e abriu a porta, entrando no chuveiro e abraçando-o.
"Mas o q..." – ele foi pego de surpresa quando sentiu o corpo dela abraçar-se ao dele debaixo do chuveiro – "Virgínia?" – ele abraçou-a de volta, se dando conta de que ela seria a única pessoa capaz de entrar na Mansão Rubro Malfoy sem que precisasse ser anunciada ou sem ativar todos os alarmes.
Ginny respirava profundamente, abraçada a ele, e sentiu-se imensamente aliviada quando ele se abraçou a ela e ficou em silêncio. Sentiram a água bater nos corpos deles e era como se ela levasse embora tudo que havia de errado entre eles. Tudo que houvera.
Pela primeira vez Draco não odiou o silêncio de Virgínia. Aquele silêncio era diferente, era quieto e calmo, quase em paz. Ele inclinou o rosto e levou os lábios até o pescoço dela, dando um beijo na pele molhada e inalando o cheiro dela. Fazia tanto tempo que não fazia isso, que não sentia o cheiro dela, que a sensação o pegou de surpresa. Ele sentiu seu corpo se arrepiar e aquele simples gesto, uma vez tão comum entre eles, ateou fogo em sua mente e seu corpo. Apenas o que ele pôde fazer foi repetir o gesto, de novo e de novo, até que estivesse inebriado por ela.
Ginny estava bastante consciente do que o corpo de Draco, tão perto do seu, fazia com ela. Mais ainda, o que a respiração dele em seu pescoço, repetidas vezes, provocava nela. Ela sentia a faísca começar em seus dedos, onde tocavam a pele de Draco, e se espalhar por todo o seu corpo. Ela afastou-se dele apenas o suficiente para encará-lo.
"O que você está fazendo aqui, Virgínia?" – ele perguntou, com um gesto rápido fechando o registro do chuveiro.
O contato entre eles, então, se resumia a Draco segurando uma das mãos de Virgínia contra o seu peito, enquanto a outra se apoiava na parede do box à frente dele, fazendo-o se inclinar levemente em direção a ela.
Ela tentou beijá-lo, mas ele afastou-a com a mão que estava na parede, fazendo-a encostar-se, voltando à mesma posição. Ela suspirou, levemente frustrada. Seu coração estava acelarado e a percepção da excitação de Draco a deixava igualmente excitada.
"Você não pode aparecer aqui depois de dois anos e esperar que eu faça sexo com você em silêncio e você ir embora depois." – ele pausou por um instante – "Por mais que eu claramente queira isso. Exceto a parte de você ir embora." – completou, vendo um fino sorriso aparecer nos lábios dela.
Ele estava certo. Ela já havia feito isso antes, muitos anos atrás. Várias vezes. Aparecer no local combinado por um dos dois, transar com ele em silêncio, ignorar suas perguntas, desaparatar, repetir, como um ciclo vicioso. Tantas vezes que ela não podia se recordar quantas. Tinha funcionado por muito tempo. Mas não dessa vez.
Os olhos prateados dele pareciam em chamas naquele momento, até que ela percebeu que eram os próprios olhos refletidos nos de Draco.
"Nós nos odiamos, Virgínia?" – ele perguntou, num sussurro. Ela segurou a respiração e deixou que seus lábios se encostassem aos de Draco, num beijo sutil e quase inocente.
"Nunca." – ela respondeu, no mesmo tom de sussurro dele, voltando a encará-lo.
Ela elevou os dedos até tocar a face e os lábios de Draco. Ele inclinou o rosto, tocando os lábios levemente na cicatriz em formato de cobra no braço dela. Ela tentou recuar, sentindo um choque com o contato dos lábios dele naquele local, mas ele segurou-a no lugar e apenas encarou a cicatriz por alguns segundos.
Ela podia sentir a cicatriz pegando fogo quando os lábios de Draco a tocaram. Não era, de forma nenhuma, uma sensação ruim, mas ela não estava esperando por aquilo, e ela não sabia o que aquela nova sensação significava. Queimava no ponto em que os lábios dele tocavam sua pele e a sensação se espalhava pelo corpo dela. Não tinha acontecido com nenhum outro antes.
Para ele, era a terceira vez que tinha um relance da cicatriz de Ginny, mas era a primeira vez que a olhava realmente de perto e parava para analisá-la. A primeira vez que ele tinha visto tinha sido assim que ele a amaldiçoara, e era como uma marca negra, e ele perdeu a consciência momentos depois. A segunda vez vira rapidamente no hospital, quando fora deixar seu fio de memória para ela durante a suspensão, e não tinha tido coragem o suficiente para ficar e olhar de perto. E, já no hospital, não era mais uma marca negra e sim uma cicatriz esbranquiçada, ainda mantendo um formato fino de uma cobra enroscada.
Ele beijou-a novamente naquele local, enquanto fixava seu olhar no dela. Ginny fechou os olhos, mordeu os lábios e suspirou. Draco parou o que estava fazendo e se olhou-a quando ouviu um pequeno gemido escapar da boca dela. Ela abriu os olhos, sem entender porque ele tinha parado.
"Dói?" – ele perguntou num sussurro, trilhando mais alguns beijos ao longo da cicatriz. Ela apenas suspirou profundamente e sinalizou negativamente com a cabeça.
Ginny sentia a cobra dançar e se mover, deixando rastros de fogo por onde passava. Ela podia sentir a cobra ganhar vida e subir em seu braço, enroscar em seu pescoço e se espalhar pelo seu corpo, queimando sua pele e fazendo-a tremer e vibrar. Ela moveu o corpo, tentando aproximar-se de Draco, tentando sentir a ereção dele nela.
"Queima" – ela sussurrou num gemido. Ele parou imediatamente os beijos, fazendo-a abrir os olhos em questionamento – "Não pare. É como se..." – o toque dos lábios dele na cicatriz a pegaram de surpresa novamente, e ela não conteve um novo gemido que escapou de seus lábios quando sentiu a língua dele trilhar a cicatriz – "Oh, Draco..."
"É como se o que, Virgínia?" – ele sussurrou, novamente deixando que sua língua, com os beijos, tocasse a cicatriz. Ela moveu o corpo novamente, e com uma das mãos puxou Draco fazendo o quadril dele pressionar no seu, contra a parede. Era quase a fricção que ela queria.
"É como se o toque dos seus lábios" – ela gemeu novamente no momento em que a língua dele trilhou um caminho em seu braço – "e sua língua, ateassem fogo no meu corpo e na minha mente." – ela abriu os olhos e encarou Draco novamente – "Isso não aconteceu com outras pessoas." – ela disse, fazendo Draco abrir e fechar a boca algumas vezes, sem saber o que falar. Ela riu levemente – "Dois anos, Draco, você não acha que..." – ela mordeu os lábios, sentindo os lábios e língua de Draco novamente em sua pele, ao mesmo tempo em que ele pressionava o corpo contra o dela e ela o sentia entre suas pernas, sobre as roupas.
"Eu sei, Virgínia." – ele disse apressado, trilhando beijos até alcançar seu pescoço e deixando um beijo intenso e demorado ali – "É como se você ateasse fogo em mim também. E só você faz isso."
Draco levou as mãos à blusa de Ginny, fazendo-a tirá-la. Para seu deleite, não havia nada entre a blusa e os seios dela, e ele pôde saboreá-los imediatamente com sua boca. Cabiam perfeitamente entre seus lábios e o toque a fez gemer alto. Seu corpo queimava como há muito tempo não acontecia e ela não soube o quanto tinha sentido falta de Draco até aquele momento. Até sentir tudo o que ele provocava em seu corpo, de forma mais intensa dessa vez, até ter os lábios e as mãos dele em sua pele.
As mãos dele. Desceram até a calça que ela usava e tiraram todo o resto de roupa que ela tinha no corpo. Então, não havia nada entre os corpos deles. Para frustração dela, Draco parou para observá-la. Foi então que ele ergueu a mão e pegou a mão dela, como num aperto de mãos.
"Prazer, Draco Malfoy." – ele começou, num tom casual e sem desviar o olhar do dela – "Sonserino, auror secreto do Ministério, divorciado, pai." – ela sorriu, entendendo o que ele estava fazendo.
"Virgínia Weasley." – ela disse, usando o mesmo tom que ele usara – "Grifinória, ex assassina do CIM, atual curandeira do CIM, divorciada, mãe." – ela mordeu o lábio antes de prosseguir – "E você precisa saber. Eu tenho uma cicatriz em forma de marca negra." – ele riu. E ela riu de volta.
Encararam-se por mais alguns segundos, antes que Draco rodopiasse Ginny e a fizesse virar de costas para ele, com as costas em seu peito. Era daquele jeito que ele a queria, pois assim as mãos dele teriam acesso ao corpo inteiro dela.
Ele levou os lábios ao pescoço dela, sentindo seu cheiro penetrar suas narinas e incendiar sua mente. Velhos hábitos nunca morreriam. As mãos dele passearam pela frente do corpo dela, brincando com seus seios e descendo até pararem entre as pernas de Ginny. Ele apenas atiçou-a por alguns segundos, fazendo-a apoiar a cabeça em seu ombro e gemer em seu ouvido. Oh, Draco. Ele ouviu, e seu corpo demonstrou a falta que aquele som fez pelos dois anos longe dela.
Sem anunciar, deixou que um e dois dedos deslizassem para dentro dela, ao que ela gemeu ainda mais alto. Ginny estava entregue para Draco, como nunca deveria ter deixado de ser. Draco estava, novamente, se devotando a ela e ao prazer dela. Sentiu a mão de Ginny sobre a dele, guiando um ritmo mais intenso e rápido. Ele deixou que ela guiasse, que ela o direcionasse, que ela o mostrasse os caminhos para o corpo dela novamente. Sentiu-a, depois de um tempo, tremer em seus braços e gemer ainda mais em seu ouvido, quando uma onda a atingiu. Ela respirava ofegante nos braços dele, e ele apenas descansou o rosto em seu pescoço, segurando-a em seus braços quando sentiu as pernas dela falharem por um momento.
Draco retirou os dedos de dentro dela e fez com que ela virasse de frente para ele. Colocou os braços de Ginny para cima, segurando-os com uma mão no alto. Trilhou novamente beijos da cicatriz ao pescoço dela, fazendo-a suspirar e gemer no ouvido dele.
"Eu preciso desacelerar." – ele sussurrou, e os beijos dele eram lentos, gentis, quase como que tentando acalmá-la, mas na verdade eram mais para ele do que para ela.
"Eu não quero que você desacelere, Draco." – ela falou, tentando soltar uma das mãos para tocá-lo. Ao que ele prontamente não deixou, mantendo os dois braços dela presos no alto de sua cabeça, o corpo dela apoiado na parede.
"Virgínia..." – o tom dele era sério e rouco – "Não me toque agora." – ele pediu, e ela pôde ouvir um certo tom de desespero na voz dele, como se ele estivesse na beira de um penhasco, quase pedindo por ajuda. Ela riu. Tecnicamente, ele estava na beira de um penhasco. Ela podia ver a pele dele arrepiada e a reação exagerada do corpo dele ao simples toque dela. Ele precisava desacelerar.
Quando Draco beijou novamente a boca de Ginny, fez questão que fosse lentamente. Apenas o que se tocavam entre eles eram os lábios e a mão dele segurando os braços dela. Era um beijo lento, tortuoso, em que Draco deslizava sua língua sobre os lábios de Ginny e depois deixava que explorasse a boca dela. Se ela tentasse acelerar o ritmo, ele se afastava e quebrava aquele toque. Ela tinha tido a chance de guiá-lo até que seu corpo se desfizesse. Agora era a vez dele. Ela deixou-se ser beijada por Draco Malfoy, pelo tempo que ele achasse necessário. E quando ele liberou os braços dela, ela apenas abraçou-se a ele, sem quebrar o beijo.
Ela não insistiu em nenhum outro toque além dos lábios de Draco nos dela. E eles não souberam por quanto tempo durou, mas nenhum dos dois queria parar. Era um beijo de reconhecimento, um ato que fizeram tantas vezes no passado, mas que de alguma forma precisava ser relembrado e regravado na memória dos dois.
Depois de um bom tempo, ele parou de beijar os lábios dela e seguiu para o pescoço. Deixou que o cheiro dela o inebriasse novamente, levou os lábios ao colo e aos seios e, não se atendo por tanto tempo ali, desceu até que seus lábios encontrassem o pequeno nicho entre as pernas dela.
Beijou-a ali como tinha beijado sua boca. Lentamente, deixando que sua língua explorasse de maneira tortuosa. Sentiu as mãos de Virgínia em seus cabelos e os gemidos dela ficarem mais e mais altos novamente. E aquele som, oh aquele som que saía dos lábios dela e o deixavam louco. Que falta aquele som fizera em sua vida.
Ele sabia que ela estava perto de um novo orgasmo. Podia sentir o corpo dela começar a se arrepiar e tremer. E ele estava atento aos sinais que seu próprio corpo lhe davam. E alguns segundos antes da onda atingi-la, ele parou de beijá-la, ergueu-se e pôs-se dentro dela. Foi o suficiente para ela e para ele. Ela pôde ouvir o gemido alto e rouco de Ginny em seu ouvido, ainda mais profundo que da primeira vez, e ele teve certeza que o som de seu próprio gemido tinha sido abafado pelo seu rosto enterrado no pescoço dela.
Ficaram abraçados por vários minutos, deixando que as respirações se acalmassem e os corpos encontrassem seu ritmo normal. Ficaram em silêncio, e Draco não se importou. Aquele silêncio era leve e cômodo, e parecia ansiado pelos dois.
Quando Draco sentiu-a se acalmar, ele ligou o registro da água morna e deixou que a água escorresse entre eles. Ela sorriu para ele e alcançou a esponja e o sabonete. Em um ritmo quase natural, e que eles conheciam tão bem, passaram a esponja no corpo um do outro e terminaram o banho. Secaram-se e foram para a cama, onde deitaram-se de frente um para o outro, debaixo de um edredom macio e confortável.
"Eu me sinto livre." – ela começou, levando a mão ao rosto de Draco – "Desde que... desde que tudo aconteceu. Eu comecei a procurar a minha alma, Draco." – e então, era a vez dele de escutar o que ela tinha a dizer.
"É interessante você procurar por algo que não sabia que tinha perdido. Primeiro você sente um vazio, parece que algo imenso foi retirado de você, e quando você tem ciência do que está faltando, tudo o que dá pra sentir é... nada." – Draco abriu a boca para falar algo, mas Ginny levou os dedos aos lábios dele e o impediu de proferir o que gostaria.
"Depois que eu acordei no hospital, eles tiveram que me sedar por alguns dias. Eu tenho certeza que você sabe disso, Draco." – ela estava certa, ele sabia – "Era o único jeito de fazer a minha mente ficar quieta. E então ficava tudo em branco. No começo eu entrei em pânico. Minha mente parecia me enganar o tempo todo, meu corpo parecia estar se desintoxicando de uma droga em que estava viciado por anos. Talvez estivesse, desde que eu tinha onze anos." – ela suspirou, mas Draco percebeu que não havia tristeza ou pesar na voz dela.
"E com o passar dos dias, eu percebi que minha mente foi ficando mais clara, os pensamentos não estavam mais tão confusos, e os sedativos foram diminuindo. Eles me liberaram depois de algumas semanas, e dadas as circunstâncias, o CIM me liberou dos meus deveres com honra. Eu comecei a descobrir coisas, Draco, que eu nem sabia que eu gostava. Ou nem lembrava. E descobri porque eu não gostava de tantas coisas e continuava fazendo. É libertador quando sua mente para de tentar te enganar e você tem certeza de algo na sua vida. E não há nada que te diga ou te faça pensar o contrário." – Ginny sentiu os dedos de Draco passearem na lateral de seu corpo e, instintivamente, suas pernas se enlaçaram às dele.
"De repente parecia que eu tinha a minha vida de volta. E meu cérebro me falava que eu gostava de tantas coisas e que eu deveria tentar tantas coisas. E eu me senti... livre. Porque podia gostar e tentar tudo, eu estava livre para ser eu novamente. Eu pertencia a mim mesma e a mais ninguém." – ela viu um sorriso fino nos lábios de Draco e os dedos dele alcançaram seu rosto – "Eu fui treinada para ser curandeira, e foi uma das melhores coisas que eu fiz na vida. A sensação de ter certeza que o que eu queria era realmente o que eu desejava foi uma das melhores coisas da minha vida."
"E ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas fizeram-te insone e inquieta de maneira excessiva." – Draco sussurrou, ao que Ginny sorriu para ele.
"Você estava certo." – ela afirmou, inclinando-se para tocar os lábios de Draco com os seus – "Mas só tem mais uma coisa que eu ainda buscava, Draco." – ela aninhou-se ao peito dele e ele passou os braços ao redor do corpo dela, trazendo-a para ainda mais perto – "Eu estou livre agora." – ela sussurrou e, em questão de minutos, Draco sentiu-a adormecer em seus braços, com a calma de alguém que estava em paz e... livre.
Fim do Capítulo 15
N/Rbc: originalmente a minha intenção era terminar a fanfic aqui. Mas... eu escrevi um epílogo. Em uma semana eu posto. E será o fim de Sr. & Sra. Malfoy. Honestamente, eu nem acredito que eu realmente vou terminar essa fanfic. Eu achava que ela ficaria sem final para sempre. Mas cá estamos. As vezes milagres acontecem, huh? E eu também fiquei bem feliz por ainda ter pessoas lindas que leram e deixaram um recado para mim.
Lud, Rosalind, Lika, Kait! Obrigada DEMAIS pelas reviews! Amei todas. Vocês são demais!
"E ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas fizeram-te insone e inquieta de maneira excessiva." - Semal Sureya, autor turco. Livro Sevda Sozleri. (Palavras de Amor – tradução livre)
