Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Mary Lyons, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.
Capítulo 4
Sakura sentia-se feliz e aquecida em meio à escuridão. Sua paz seria completa se parassem de fazer aquele barulho incômodo.
- Acorde, Sakura ! Imediatamente ! - a voz continuava a ordenar - Vamos lá, garota linda e teimosa ! Acorde !
Através das brumas densas e impenetráveis de sua mente, ela lentamente começou a reconhecer o tom de voz grave e profundo em seu ouvido.
- Vá embora - ela respondeu, mas as palavras, tão claras e definidas em sua cabeça, soaram confusas e embaralhadas - Vá embora, homem horrível !
Sua única resposta foi uma risada. Como ele ousara rir dela ? Fúria e indignação lhe deram forças para abrir os olhos, embora só após um ou dois segundos ela vislumbrasse alguma luz, que lhe possibilitou distinguir a figura alta inclinada sobre ela.
- Olá ! - ele lhe sorriu.
- Prefiro a palavra "adeus" - ela murmurou, antes de fechar novamente os olhos.
Shaoran a sacudiu gentilmente pelo ombro, recusando-se a permitir que ela mergulhasse outra vez na confortadora escuridão.
- Sinto muito, querida, mas é hora de levantar.
- Poderia fazer o grande favor de parar de me chamar de querida ? - ela suspirou profundamente e abriu os olhos a contragosto.
Shaoran se inclinou para ajeitar o travesseiro sob a sua cabeça, com um sorriso irônico.
- Está bem, doutora. Tentarei me lembrar desse importante pedido !
Sakura sentia-se praticamente impossibilitada de raciocinar.
Era como se estivesse sofrendo os efeitos de um pós-operatório, como se acordasse após uma longa anestesia. Seu cérebro era uma massa desordenada de pensamentos incoerentes ao olhar o rosto a apenas alguns centímetros do seu. Conhecia-o muito bem. Sabia que se tratava de um indivíduo indigno de confiança, mas também sensacionalmente atraente.
- O que você acha de tentar se sentar ?
- Sentar ? - ela repetiu, lutando para recuperar a consciência, e pouco a pouco percebendo que estava deitada no chão - Não estou entendendo... eu... ai ! - ela gemeu ao mover a cabeça.
- Relaxe, você está bem. Afora uma pancada na cabeça e escoriações leves no rosto e na perna, não lhe aconteceu nada de grave - ele a acalmou, enquanto umedecia-lhe o rosto com um lenço grande e branco.
- Onde nós estamos ? O que aconteceu ? - ela indagou, um tom histérico na voz, ao notar pela primeira vez o pequeno corte sobre a pálpebra de Shaoran e também a camisa amarrotada e suja e... - Isso é sangue ! - ela gritou, erguendo a mão para tocar a nódoa vermelha.
- Não há nada para você se preocupar - ele declarou com firmeza - Minhas costas estão doendo um pouco, e mais tarde pedirei para você examiná-las. No momento, entretanto, quero apenas que tente se sentar. Talvez sinta-se um pouco tonta a princípio, mas não se assuste. Iremos bem devagar.
- Não vou me assustar ! - ela protestou.
- Está bem, dama de ferro ! - ele riu - Agora, ao trabalho !
Sakura não entrou em pânico. Entretanto, sentiu-se grata por ter o apoio daqueles braços fortes no momento em que a vertigem tornou a voltar. Gradativamente, a neblina em seu cérebro começou a se dissipar e ela conseguiu clarear a visão.
Exceto pelos muros altos e espessos do castelo medieval, que se elevavam ameaçadores sobre eles, Sakura sentia-se como se estivesse na Lua. O terreno áspero e arenoso sobre o qual estava sentada era repleto de pedras. Havia um cheiro estranho de fumaça no ar e vários pedaços de metal retorcido espalhavam-se por toda parte.
- O que diabos estamos fazendo aqui ? - ela quis saber, francamente surpresa, enquanto Shaoran retirava seu paletó rasgado e sujo de areia do chão. O que ela pensara ser um travesseiro, algum dia fora parte de seu bem talhado terno - Foi muita bondade sua - ela murmurou.
- Também tenho meus bons momentos - Ele sorriu diante do tom estupefato de sua voz - Como você está se sentindo ?
- Bem... eu acho - ela tocou levemente o imenso e dolorido "galo" em sua cabeça.
- O suficiente para se levantar ?
- Acho que sim - ela concordou, deixando que ele a ajudasse - A última coisa de que me lembro... - sua voz falhou enquanto ela olhava ao redor - Onde está o carro ?
A pequena clareira estava completamente deserta. A limusine preta e luxuosa do ministro parecia ter desaparecido no ar. O local onde estivera estacionada era agora uma grande depressão, recoberta por pedaços de metal, de onde brotava uma fumaça cinzenta.
- Não é possível... - ela fechou os olhos e sacudiu a cabeça - Parece loucura, mas por um momento eu pensei que... - Ela olhou para Shaoran com um sorriso nervoso.
- Pensou certo - ele concordou - Acredite ou não, isso é o que restou do carro do ministro.
Os olhos verdes de Sakura se arregalaram de espanto, contemplando a depressão escura no meio da clareira.
- Simplesmente não consigo entender... - ela franziu a testa - Lembro-me de que o carro estava bem aqui. Sim, lembro-me até que caminhava em direção a ele, quando...
- Quando a bomba explodiu !
- Uma bomba ? - ela repetiu, horrorizada. Sentindo-se subitamente fraca e tonta, deu um passo para frente e teria caído, não fosse a pronta intervenção de Shaoran - Mas por quê ? - ela sussurrou, enquanto ele a ajudava a se sentar sobre uma pedra.
- Acho que foi um pequeno presente de despedida por parte de Ranya - Shaoran a informou, irônico, ao olhar o que restara do pesado veículo - Sim, aquela mulher é realmente um demônio. Foi quase tarde demais, quando me veio à mente que os terroristas jamais nos deixariam um meio de fuga. Consegui alcançá-la bem na hora. Se você tivesse dado mais um passo em direção ao carro, ambos estaríamos mortos.
- Oh, Deus ! E eu estava determinada a entrar no carro ! - ela fez uma pausa - Você... você salvou a minha vida !
Shaoran deu de ombros.
- No seu lugar, eu não ficaria muito feliz com isso - ele comentou - Podemos ter escapado deste acidente em particular, mas nem por isso as coisas ficarão mais fáceis para nós. Isto aqui não é um hotel - ele apontou a paisagem desolada - Só Deus sabe onde estamos e quando e se conseguiremos voltar à civilização.
Sakura olhou-o sem vê-lo. Não conseguia pensar no futuro, não naquele instante. Ainda estava tentando se convencer do fato de que estivera a um passo da morte. Sua incrível sorte de ainda estar viva ricocheteou em sua mente e ela começou a tremer incontrolavelmente.
Shaoran rapidamente fez com que ela baixasse a cabeça entre os joelhos e a instruiu para respirar fundo.
- Você sempre se comportou como uma mulher forte, Sakura, tente se dominar ! Não vou suportar que caia outra vez em cima de mim. Minhas costas estão doendo demais.
- Eu... já estou bem - ela balbuciou, fazendo um imenso esforço para se controlar - O que há de errado com suas costas ?
- Não sei. É por isso que gostaria você que a examinasse - ele pediu, enquanto desabotoava a camisa e a retirava com um gemido.
Saklura se levantou, cambaleante.
- É melhor que se sente sobre esta pedra. Verei o que posso fazer.
- Espero que não seja necessária uma cirurgia - ele brincou - Aliás, não há instrumentos nem medicação aqui para isso. Apenas faça o melhor que puder.
Ela examinou o corte fino e sangrento que se estendia desde o ombro de Shaoran até o meio das costas. O que poderia fazer ? Mordeu o lábio, indecisa.
- Honestamente, não sei o que sugerir - ela confessou.
Naquele momento, desejaria ter feito um curso básico de primeiros socorros.
- O que está querendo dizer ? - a voz de Shaoran soou incrédula ao se voltar para ela - Você é médica, não é ? Por que, então, não aplica seus conhecimentos em mim ?
Sakura ficou confusa diante da expressão impaciente de Shaoran.
- Não sei do que você está falando. Não sou médica.
- É claro que é !
- Não, não sou. Você se enganou - ela passou a mão pelos cabelos num gesto nervoso - Não sou doutora em Medicina, mas sim em Filosofia.
- O quê ? - ele arregalou os olhos - Ótimo ! Era só isso o que me faltava ! Aqui estou eu, preso no meio do deserto, ferido e adivinhe com quem ? Com uma Sócrates de saias !
- Não, você não entendeu - ela protestou - Meu doutorado não tem nada a ver com esse tipo de Filosofia. É um título honorário, concedido pela Universidade de Oxford, para a minha tese de...
- Não ligo a mínima para Oxford ou Cambridge. Tudo o que eu quero, se não for pedir demais, é saber o que há de errado com as minhas costas - ele acrescentou com sarcasmo.
Sakura cerrou os dentes e procurou contar até dez enquanto olhava o ferimento que se estendia pela pele bronzeada de Shaoran. Devia doer muito, ela sabia, por isso precisava tentar compreender o seu mau humor.
- Há um corte extenso, daqui até aqui - ela tocou-lhe levemente as costas - Como lhe disse, eu não sou médica, mas constatei que o ferimento é superficial. Estou certa de que cicatrizará naturalmente desde que o mantenha limpo e coberto.
- Muito obrigado, querida, por nada ! - ele se levantou, zangado, e vestiu a camisa.
Sakura estava farta daquele homem ! Podia ter lhe salvado a vida, mas a idéia de se mostrar permanentemente agradecida àquele ogro sem educação era demais para ela.
- Sinto muito que esteja ferido - ela comentou, friamente - Mas também não é o fim do mundo. Não tenho culpa por não ser especialista em atendimento de pronto-socorro. Se você tivesse se dignado a verificar minhas credenciais, saberia que...
- Poupe-me do discurso ! - ele a interrompeu - A última coisa de que preciso no momento é ficar ouvindo uma mulher mandona e pretensiosa, que...
- Não seja grosso ! - ela replicou, o rosto vermelho de raiva - Afinal de contas, não sou eu quem está se comportando como um hipocondríaco, que faz tempestade em um copo d'água por causa de um arranhão.
- O que você disse ? - Shaoran indagou, furioso - Repita !
Sakura recuou ante a figura ameaçadora.
- Esqueça ! Não foi realmente isso o que eu quis dizer.
Por um momento ele apenas a olhou, irritado. Em seguida, abotoou lentamente a camisa.
- Escute aqui - ele falou, por fim - De nada vai adiantar continuarmos brigando. Acho que é melhor tentarmos esfriar a cabeça, está bem ?
Ela não respondeu.
- Não nos resta outra alternativa a não ser cooperarmos um com o outro - ele continuou - Deus sabe que não sou uma pessoa pessimista, mas o quanto antes você se convencer de que estamos em maus lençóis, melhor será. E ficar apenas olhando eu me vestir não vai resolver nossos problemas - ele acrescentou, divertido, ao constatar o embaraço de Sakura, conforme ele desafivelava o cinto e colocava a camisa dentro da calça.
Sakura suspirou profundamente, certa de que nunca antes se sentira tão desesperada e exausta. O Sol a pino ardia sem compaixão sobre os dois em meio à paisagem desértica. Fechou os olhos por um instante, grata pelo alivio da escuridão. O que fizera para merecer esse destino ? Abandonada nos confins do mundo com um homem que, apesar de ter lhe salvado a vida, fizera questão de deixar bem claro que não gostava dela e que a considerava uma trapalhona ?
Shaoran olhou para a figura cansada e abatida da garota e surpreendeu-se por sentir pena. Afinal de contas, ela também passara pelo mesmo trauma que ele, o que não deixava de ser uma nova e incrível coincidência. Talvez ele realmente estivesse sendo muito duro com ela...
- Sinto muito pelo que disse, mas a verdade é que temos de reunir coragem para enfrentar os fatos.
Sakura deu de ombros. Shaoran era a última pessoa que ela escolheria para fazer-lhe companhia numa ilha deserta. E, se a situação não era exatamente essa, estava muito próxima. Bastava substituir a montanha pelas águas. Ainda assim, não lhe restava outra opção. Ela e Shaoran precisariam se entender de uma forma ou de outra.
- Tem razão - ela concordou, por fim - Não posso prometer nada, mas tentarei manter a cabeça fria, como você aconselhou.
- Eu também - ele a surpreendeu com um sorriso breve, mas amigável - Eu disse que não sou pessimista, mas nossa situação só pode ser descrita como extremamente séria. Nós não temos provisões nem roupas, a não ser as do corpo, e, principalmente, água - ele passou as mãos pelos cabelos num gesto de desalento - Estou tentando me lembrar da quantidade de água que o organismo humano necessita para sobreviver. Se minhas estatísticas estiverem corretas, são necessários dois litros por dia.
- Tanto assim ?
- Hum-hum - ele assentiu - E esse é outro motivo para evitarmos brigas e conservarmos nossas energias.
Ela o olhou, assustada, mas, após um breve esforço mental, conseguiu manter a calma.
- Não vejo por que entrarmos em pânico. Daqui a pouco surgirá algum carro na estrada e seremos salvos !
- Quem poderia nos salvar, por exemplo ?
- Como posso saber ? Qualquer um que possua um veículo com quatro rodas poderá nos dar uma carona - ela o olhou com ironia - É claro que, sendo uma pessoa tão importante, você pode não querer se rebaixar a subir em um caminhão, ou qualquer coisa do gênero, mas eu não hesitarei em subir no primeiro veículo que aparecer.
Shaoran apertou os lábios. Aquela garota presunçosa estava fazendo pouco-caso dele. Será que ela não tinha idéia da situação desastrosa em que se encontravam ?
- Que veículo, pode me dizer ? Esta é uma estrada secundária, e as chances de passar alguém por aqui, a não ser um rebanho de cabras, são praticamente nulas !
Sakura pestanejou, admitindo com relutância que ele tinha razão.
- Está bem - ela murmurou - Mas nós não podemos continuar aqui sentados sem fazer nada. Precisamos encontrar uma saída.
- Fico feliz em saber que você finalmente começou a raciocinar. E está certa ! Faz muito calor, agora, mas à noite esfriará bastante. Isso significa que precisaremos de um abrigo... e a solução óbvia para este primeiro problema será nos refugiarmos no castelo.
Sakura ergueu a cabeça para contemplar a antiga fortaleza.
- Está sugerindo que escalemos a montanha até lá em cima ? - ela indagou, tentando reprimir um arrepio - Como conseguiremos entrar ?
- Não se lembra ? - ele insistiu, impaciente - O ministro contou que o castelo foi restaurado recentemente, portanto deve haver algum meio de entrarmos, certo ?
- Oh, que coisa horrível ! - ela se lamentou - Como pude me esquecer do pobre Hasan ? O que será que vai acontecer com ele ? - ela começou a chorar.
- Não vai lhe acontecer nada de mal - ele tentou convencê-la. Na verdade, ele duvidava de suas próprias palavras, mas não adiantaria compartilhar seus receios com Sakura. A coisa mais importante no momento era tentar fazer com que ela não perdesse a coragem - O governo sírio tem condições de pagar um resgate por seu ministro do Interior. Estou certo de que tomarão todas as providências para libertá-lo o mais rápido possível. Por isso, relaxe !
- Bem... se você acha mesmo...
- Estou absolutamente seguro - ele declarou com firmeza - É melhor nos concentrarmos agora em nossa própria sobrevivência.
Ela ainda se sentia angustiada pelo ministro, mas precisou desviar a atenção para o presente imediato, pois Shaoran já começava a lhe dar uma série de instruções. Mesmo que detestasse receber ordens, tinha de concordar que a sugestão dele de fazerem uma busca pela área para tentarem encontrar algo de útil era uma boa idéia. Estava perambulando desconsolada pela clareira, quando um grito a fez voltar correndo para o pequeno platô.
- Isso é o que eu chamo de um milagre ! - ele sorriu, aproximando-se dela com o cesto do piquenique, que devia ter sido retirado da limusine antes da explosão.
- Com a sorte que temos, aposto que está vazia - ela comentou, sombria. Mas, para sua surpresa, embora o conteúdo estivesse numa total desordem, não fora danificado.
- Oh, vós que não tendes fé ! - Shaoran brincou - Vamos ver se conseguimos encontrar mais alguma coisa.
Levou um tempo considerável, mas após uma cuidadosa busca, eles realmente encontraram mais alguns itens salvos da explosão.
- Um pouco é melhor do que nada - ele afirmou, enquanto examinavam a pequena pilha de objetos - Embora eu não veja muita utilidade para isso ! - ele apontou, com uma risada, para uma camisa social novinha em folha, ainda na embalagem de celofane.
"Que sorte a dele !", Sakura pensou com inveja. Ao menos ele conseguira encontrar duas camisas e também um roupão atoalhado, embora rasgado. Infelizmente, apesar de todo o seu empenho, não havia sinal de sua própria bagagem. Além das coisas de Shaoran, só havia uma pequena sacola de couro.
- Deve ser de Hasan - Shaoran deu uma gargalhada ao colocar um par de calças enormes à sua frente - Isso lhe dará uma chance para se trocar.
- Mil vezes obrigada ! - ela grunhiu - Como acha que vou prendê-la sem um cinto ?
- Caramba ! Pare de reclamar ! - ele a repreendeu, enquanto apanhava uma chave inglesa, um pé-de-cabra e um alicate que encontrara entre as cinzas do veículo.
- Sinto-me no direito de reclamar - ela continuou, amarga - Não estou ligando para as roupas, mas estou realmente chateada com a perda das anotações e das fotografias que tirei em Palmyra. O seguro de viagem nunca poderá me devolver esses itens preciosos !
- O seguro, minha querida, é o menor de nossos problemas, por isso não percamos mais tempo - ele concluiu, ríspido, entregando-lhe a sacola de couro e começando a recolher o restante dos objetos - Será bom termos um teto sobre nossas cabeças, o quanto antes.
Sakura hesitou por um momento e ficou olhando o castelo, que permanecera quase que intacto naquela região desolada do mundo pelos últimos oitocentos anos. Em seguida, com um suspiro de resignação, seguiu o homem de ombros largos que abria caminho por entre a massa de pedras em direção ao topo da montanha.
Meia hora mais tarde, Sakura se deteve bruscamente ao chegar a uma ponte estreita e oscilante sobre o platô largo e gramado.
- Não posso ! - ela gritou - Não vou conseguir !
- É claro que vai ! - Shaoran respondeu do outro lado da ponte - Não tenha medo !
Sakura estremeceu ao olhar o abismo em frente ao castelo. Devia ter uma altura de quase quarenta metros até o fundo, ela considerou, sentindo-se tonta e enjoada. A ponte estreita era a única ligação entre o platô e o castelo, em cuja entrada estava a figura alta de Shaoran.
Era uma brilhante realização de engenharia, é claro. O abismo escavado por mãos humanas, no século XII, oferecia uma proteção perfeita à fortaleza.
- É o castelo de Saladin ! - ela exclamou subitamente, desprezando-se por não ter percebido até aquele momento, apesar de todas as pesquisas que fizera antes de viajar para a Síria, que aquela só podia ser a famosa fortaleza inacessível do grande herói muçulmano, Saladin.
- Não sei nada a respeito desse Saladin - ele fez uma pausa para tomar fôlego - Mas ele realmente escolheu um bom lugar para construir seu castelo.
- Eu devia ter me lembrado... - Sakura se lamentou - Foi construído pelos cruzados. Saladin só conseguiu conquistá-lo plantando espiões. Quando o tomou, ninguém mais conseguiu recuperá-lo, e não é difícil adivinhar o motivo - ela acrescentou, olhando o terreno montanhoso.
- Sim, é tudo muito interessante, mas não pretendo ficar aqui parado o dia inteiro - Shaoran afirmou, antes de prosseguir.
Sakura, entretanto, não conseguia seguir-lhe o exemplo. O abismo parecia-lhe cada vez mais fundo...
- Venha ! - ele gritou - Esqueça suas pesquisas por enquanto !
- Não posso ! - ela respondeu, fechando os olhos - Sinto muito, mas estou morrendo de medo.
- Oh, pelo amor de Deus ! - ele vociferou, e retomou para perto dela. Antes que percebesse sua intenção, Sakura sentiu-se flutuar. Shaoran a estava carregando em seus braços.
Certa de que despencariam no abismo, ela não pôde evitar um grito de terror. Ainda estava gritando quando ele a colocou firmemente no chão. Seus joelhos tremiam tanto que ela precisou se sentar.
- Desculpe-me - ela soluçou - Não sei o que deu em mim.
- Está tudo bem - ele murmurou - Tente relaxar e se acalmar.
Ela sabia que precisava tentar se controlar, mas no momento os esforços necessários eram-lhe impossíveis. Apesar de todas as discussões e brigas que tivera com aquele homem, era reconfortante estar entre seus braços fortes, poder repousar a cabeça contra seu ombro e saborear o calor e a segurança de seu corpo.
- Sinto-me uma tola - ela gemeu.
- Relaxe, meu bem - ele a embalou suavemente - Você é, sem dúvida, uma garota corajosa. Eu também estava apavorado por ter de atravessar a ponte. Além disso, você acaba de sobreviver à explosão de uma bomba, que a deixou inconsciente - ele sorriu - Passou por um drama maior do que a maioria das pessoas enfrenta durante toda a vida, e no espaço de algumas poucas horas.
- Obrigada por ser tão delicado comigo - ela ergueu os olhos congestionados de lágrimas - Não sou do tipo que chora por qualquer coisa, você sabe...
- Sim, eu sei - ele afirmou.
Ao se lembrar posteriormente do episódio, Shaoran estava seguro de que só pretendera beijar amigavelmente o rosto da pobre garota. Afinal de contas, ela passara por momentos difíceis e estava necessitada de um gesto de apoio, certo ? Por que, então, ele se descontrolara novamente, como das outras vezes em que se encontraram em situações semelhantes ?
Por sua vez, Sakura ainda sentia-se perturbada por não ter forças nem vontade de resistir aos lábios que a procuravam. Em algum lugar, no fundo de sua mente confusa, uma voz tentava alertá-la, mas, até conseguir decifrar a mensagem, já era tarde, muito tarde.
Incapaz de resistir à doce sedução daquela boca sobre a sua, Sakura gemeu e ergueu os braços para afundar os dedos naqueles cabelos castanhos.
Sua reação cega e instintiva provocou uma resposta imediata. Shaoran a estreitou convulsivamente entre seus braços e seu beijo acendeu uma chama de excitação sexual que aquecia-lhe todo o corpo.
Seus lábios deslizaram pelo pescoço alvo, apaixonados, até que ele ergueu a cabeça e fitou os olhos brilhantes e verdes como esmeraldas.
- Sakura !
O som daquela voz rouca e ofegante a despertou. Ela estremeceu diante da reação tempestuosa que o beijo e as carícias lhe provocaram. Sakura sentiu que seu rosto tornava-se corado.
- Eu... não sei por que fiz isso - ela murmurou, afastando os braços de seu pescoço.
Shaoran pigarreou.
- Deve ter sido o choque - ele respondeu, rápido - Choque e exaustão mental. É compreensível ! Você passou por maus pedaços. Quanto a mim... - ele olhou para o céu como se estivesse em busca de inspiração - ... estava simplesmente preocupado com o seu estado de espírito.
Oh, sim ? Ela olhou fixamente para a camisa branca, não apenas rasgada e manchada devido à explosão, mas também molhada após a difícil escalada. Como poderia se safar daquela situação embaraçosa ? Embora uma ou duas explicações para o seu comportamento lhe viessem imediatamente à cabeça, não estava em condições de discutir sobre a versão dele. Afinal... sentiu o sangue aflorar-lhe ainda mais ao rosto ao constatar que o beijara com o mesmo ímpeto que ele ! E se as coisas fugiram ao seu controle, bem... era tarde demais para fingir.
- Olhe aqui - Shaoran anunciou, obviamente determinado a mudar de assunto - Nós tivemos um dia difícil, e ambos estamos completamente exaustos. Acho que já é hora de comermos alguma coisa.
À menção de comida, o estômago de Sakura se contraiu e ela se lembrou de que estava faminta.
- Estou morrendo de fome - ela concordou, sentindo água na boca diante do cesto, que fora preparado no hotel para a longa viagem.
- Então vamos carregar tudo para o castelo e nos instalarmos da melhor maneira possível.
Ao segui-lo através da entrada em arco, Sakura sentiu-se fascinada.
- Apresse-se ! - ele a chamou, impaciente, pois ela novamente se esquecera de tudo, para admirar as grades de ferro amarradas com correntes.
- Oh, está bem... estou indo - ela o seguiu pelo pátio central, amplo e imenso, embora mal pudesse notar as flores amarelas e azuis que cresciam por entre as pedras. Toda a sua atenção, e também a de Shaoran, estava concentrada na imponente estrutura diante de seus olhos.
- Que coisa extraordinária ! Construíram um castelo dentro de outro castelo ! - Shaoran exclamou ao indicar as torres altas da construção.
- Chama-se torre de menagem - Sakura o informou - O principal objetivo de um castelo era a defesa. Portanto, mesmo que forças inimigas conseguissem penetrar pela entrada principal, ainda teriam de enfrentar outra fortaleza inexpugnável - ela ergueu os ombros - Uma tentativa de ataque a um castelo bem protegido era uma tarefa longa e extenuante. Enquanto os habitantes do castelo tivessem alimentos e soldados para protegê-los, nada os abalava. É claro que os inimigos poderiam tentar explodir as fundações, mas...
- Obrigado, doutora - a voz dura de Shaoran a interrompeu - Mas as coisas mais importantes em primeiro lugar, se não se importa ! Neste momento estou mais interessado em comida e abrigo a ficar aqui em pé, sob um Sol causticante, e ser forçado a ouvir uma palestra.
"Como odeio este homem sarcástico !", pensou Sakura com raiva por ele a tratar como uma tola. Que diabos dera nela para beijá-lo com tanto entusiasmo há poucos instantes ? Devia estar fora de si ! Afinal, ele não sabia muita coisa sobre castelos medievais, e ela apenas estava respondendo a uma pergunta que ele próprio levantara. Bem, não levaria muito tempo para que ele descobrisse alguns fatos desagradáveis sobre a vida dentro de um castelo. Quando sentisse sede, por exemplo. Isso apagaria aquele sorriso de superioridade de sua boca ! As chances de haver um reservatório que funcionasse eram mínimas. E, mesmo que houvesse e que a água fosse potável, ele ainda assim não saberia onde encontrá-lo, saberia ?
Sakura estava ciente de que pensava de maneira infantil, mas o que isso lhe importava ? A carne e o sangue poderiam ser fracos e sucumbir às tentações, mas sua mente era forte e ela havia chegado ao limite da saturação. Shaoran Li era um homem rico, importante e um magnífico exemplar de sua espécie. Mas quanto a ela, mal podia esperar que ele descobrisse que não era tão esperto como se julgava !
P. S.: Nos vemos no Capítulo 5.
