Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Mary Lyons, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.
Capítulo 5
Uma hora depois, Sakura se sentiu preparada para encarar Shaoran Li sob um ponto de vista mais piedoso. Era realmente incrível como o conforto físico podia modificar os processos mentais de uma pessoa. Não havia dúvida de que um estômago vazio, ao ser presenteado com deliciosos alimentos, fazia o mundo parecer melhor !
- Humm... como isso é bom ! - ela murmurou, feliz, ao fincar os dentes numa suculenta coxa de frango - Tivemos muita sorte, também, em encontrar uma pilha de lenha no pátio - ela acrescentou, olhando com prazer para a fogueira que Shaoran acendera - Acha que foi deixada aqui pelos homens que trabalharam na restauração do castelo ?
- Acho que sim, e não precisaremos nos preocupar com isso por algum tempo, pois ainda sobraram muitos troncos de carvalho.
Sakura se inclinou para servir-se de mais um pouco de suco de tomate.
- Sobrou algum café na garrafa térmica ? - ela indagou, esperançosa.
- Bem... - ele hesitou por um momento - Creio que seria melhor guardarmos o que sobrou. Não sei quanto a você, mas eu não consigo enfrentar o dia sem tomar uma xícara de café assim que me levanto.
Shaoran se protegeu da tempestade de insultos que certamente cairia sobre sua cabeça. A maldita garota não fizera nada desde que entraram no maldito castelo, a não ser dificultar-lhe as coisas. O que quer que ele sugerisse, era absolutamente errado na opinião dela. Sua insistência em um breve reconhecimento ao que ela chamara de torre de menagem resultara em resmungos e cara feia. Embora isso não fosse nada, comparado à avalanche de impropérios que ela lhe dirigiu como resultado de sua sensível e brilhante sugestão... assim que chegaram ao segundo andar do prédio de pedra maciça e descobriram a imensa lareira, Shaoran insistiu para que acendessem uma fogueira antes de investigar o conteúdo do cesto de piquenique.
Ele não pôde evitar um sorriso ao se lembrar de como Sakura pulara e esbravejara de raiva ao ter arrebatada sua bolsa e ver que ele rasgava seu único talão de cheques. Mas, como ele salientara, são precisos galhos secos e papéis para se alimentar o fogo, e de que adiantariam cheques naquele lugar esquecido do mundo ? Na verdade, Shaoran tinha certeza de que, se não fosse por seu tamanho e peso, não teria conseguido persuadi-la a ajudá-lo a realizar a tarefa. Ele não acreditava em violência, é claro, mas lhe passou pela cabeça por mais de uma vez que, se existia alguém que merecia uma boa sova, esse alguém era a dra. Sakura Kinomoto !
Para sua surpresa, contudo, ela concordara com sua sugestão de que talvez fosse uma boa idéia conservar a comida e a bebida pelo maior tempo possível. E, se a única maneira de fazer com que aquela garota irritante se comportasse razoavelmente era abastecê-la de comida, então ele só podia torcer e rezar para que o conteúdo daquele cesto não se esgotasse muito depressa !
Por outro lado, ele talvez estivesse sendo um pouco injusto. Fora um dia horrível para a pobre garota e ela realmente se esforçara muito para enfrentá-lo. Além disso, com as pernas cruzadas e com a nuvem castanha de seus cabelos caindo-lhe sobre os ombros, Sakura estava encantadora. Embora ele quisesse lembrar-se de que ela significava encrenca com "E" maiúsculo, não podia evitar a sensação maravilhosa do contato que tivera, daquele corpo frágil e esbelto em seus braços, do calor de seus seios macios contra o peito, do toque daquelas pernas longas e bem torneadas envolvendo-o...
Sakura, que se pusera a remexer o conteúdo do cesto, olhou espantada para Shaoran, que se levantara de um salto e começara a andar de um lado para o outro da imensa sala. Oh, Deus ! Será que ele iria brigar novamente ? Normalmente não sentia medo de nada nem de ninguém, exceto daquela ponte sobre o abismo, é claro, mas quando ele perdia as estribeiras e gritava, ela não conseguia evitar obedecê-lo.
Detestava pensar em suas amigas feministas de Oxford e no que elas diriam se soubessem de sua reação diante daquele chauvinista, mas não eram elas que estavam presas naquele castelo com ele, eram ? E além de ser um poderoso banqueiro, ele era também um homem incrivelmente atraente. Não conseguia engolir a desculpa que ele dera, quando a beijara tão apaixonadamente do lado de fora do castelo. Se aquele era o seu jeito de confortar mulheres que haviam sofrido um choque, não levaria muito tempo para que se visse apanhado em sua própria rede !
Enquanto observava a figura alta e flexível caminhando pela sala, o coração de Sakura começou a pulsar mais rápido e o sangue a aquecer em suas veias, por mais que tentasse não pensar na sensualidade erótica daquele beijo, da pressão firme e rígida do membro dele contra a sua perna.
- ... esse é o nosso maior problema, e não consigo pensar em nenhuma saída.
- Hum...?
- Oh, não é possível ! Você não ouviu uma palavra do que eu disse ? - Shaoran suspirou, passando as mãos pelos cabelos, enquanto olhava para o rosto corado de Sakura - Eu estava falando sobre nosso maior problema, sobre como iremos sobreviver sem água. As xícaras de café foram ótimas - ele indicou a garrafa térmica – Mas, assim que a esvaziarmos, estaremos em sérias dificuldades.
Ela fitou-o por um momento e em seguida deu de ombros. Não era hora nem lugar para brincadeiras e ambos estavam juntos naquela situação. Com um suspiro, resolveu se levantar.
- É melhor darmos uma olhada e tentar encontrar o reservatório.
- Que reservatório ?
- Onde armazenavam água, é lógico.
- Quem armazenava água, posso saber ?
- Os cruzados, é claro. Em seu apogeu, este castelo abrigava no mínimo mil homens armados, e também seus respectivos cavalos - Sakura o informou, enquanto se abaixava para fechar o cesto - Não foi você quem disse que o ser humano precisa de dois litros de água por dia ? Como acha que os cavaleiros, para não mencionar os cavalos, sobreviveram aqui dentro ? - ela lhe dirigiu um sorriso irônico - Precisavam ter uma fonte de água fresca e um lugar para armazená-la, não acha ?
Ele praguejou.
- Sim, é claro. Não sei como não pensei nisso antes ! - ele estalou os dedos.
Uma resposta sarcástica imediatamente lhe passou pela cabeça, mas Sakura preferiu descartá-la. Não queria mais brigar e, afinal de contas, ele estava certo ao insistir para que acendessem a lareira. Podia estar fazendo calor do lado de fora, mas no interior do castelo a temperatura estava, no mínimo, vinte graus mais baixa.
- Oh, que coisa ! É muito triste constatar o desmoronamento de um homem tão esperto e inteligente - ela murmurou, balançando a cabeça - Mas se um dia conseguirmos sair daqui, prometo não contar a ninguém o que vi.
- Sua pequena... - ele atravessou rapidamente o espaço que os separava e agarrou-lhe o braço.
- Calma ! Eu só estava brincando ! - ela riu, nervosa.
- Não estava muito longe da verdade - ele murmurou, fitando-a intensamente - Reconheço que estou desmoronando e também prestes a perder a cabeça. Especialmente se continuarmos aqui sozinhos, juntos, por muito tempo.
Subitamente Sakura sentiu que o ar lhe faltava. Olhando para ele, notou pela primeira vez o brilho insinuante daqueles olhos cor de âmbar, a curva sensual de seu lábios. Atordoada pelos estranhos arrepios de excitação que lhe correram pelo corpo, foi apenas a dor causada pelos dedos dele fincados em seu braço que a fez voltar à realidade.
- Eu... realmente estava brincando - ela continuou, rápida - E queria me desculpar por ter agido tão insensatamente a respeito do fogo. Está muito frio aqui, e você tinha razão em insistir para que nos mantivéssemos aquecidos.
- Ei ? Está se sentindo bem ? - ele a soltou, fitando-a divertido - A famosa dra. Kinomoto pedindo desculpas ? Menina, acho que você está doente !
- Não tão doente quanto ficarei se não acharmos água - ela sorriu - Espero que esteja preparado para a possibilidade de o reservatório estar em ruínas.
- Não creio. Se os trabalhos de restauração foram realizados, eles certamente precisaram de água !
- Bem pensado - ela murmurou, aliviada por estar lentamente recobrando o seu equilíbrio, e por sentir as pernas mais firmes do que há poucos instantes - Talvez você ainda não tenha desmoronado por completo, afinal de contas ! - ela caçoou.
- Se eu fosse você, não apostaria nisso - ele riu ao se dirigir para a escada em espiral que levava ao andar térreo - Venha, vamos tentar encontrar esse seu reservatório.
No pátio, entre a torre de menagem e a entrada do castelo, Shaoran olhou para as duas torres principais, uma de cada lado do muro.
- Estou tentando fazer uns cálculos - ele anunciou - Aquelas torres e os muros eram tudo que podíamos ver da estrada. Não fazia idéia de que o castelo fosse tão grande. O que será que tem do lado oposto da construção ?
- As encostas íngremes da montanha, imagino - Sakura respondeu antes de subir os degraus externos, que levavam a uma das torres - Ei ! A vista daqui é de tirar o fôlego !
- Pensei que tivesse medo de altura - Shaoran correu pela escada para se reunir a ela.
- Não, não tenho medo de altura. O que não posso suportar é não ter algo firme onde apoiar os pés.
- É perfeitamente compreensível. Eu também não fiquei muito animado por ter de cruzar aquela ponte - ele confessou, ao se inclinar sobre o parapeito e olhar para o profundo abismo, sob o platô.
- Pelo amor de Deus, tome cuidado ! - ela implorou - Algumas das pedras estão soltas. É muito perigoso.
- Está bem, não se preocupe - ele se levantou e se dirigiu para a rampa que conduzia à outra torre, franzindo a testa ao notar os espaços largos e quadrados que haviam sido cortados na base da estrutura de pedra.
Sakura seguiu-lhe o olhar.
- Esses espaços eram destinados aos tachos de óleo fervente. Os cruzados os derramavam sobre as cabeças dos invasores - ela sorriu ao notar que Shaoran pestanejava.
- Eram certamente um bando de sanguinários... como é que você conhece todos esses fatos ?
- Eu estaria em apuros se não soubesse ! Não acha que uma doutora em História Medieval precisa saber alguma coisa sobre o assunto ?
- É por isso que veio à Síria ?
- Não, não apenas por isso. Recebi um convite oficial para visitar o país porque meu pai, um famoso arqueólogo, morreu recentemente aqui. Entretanto, como acabo de escrever um livro sobre as guerras na Idade Média, sinto-me até grata pela oportunidade de permanecer neste castelo.
- Está falando por si mesma ! - ele riu, uma risada sarcástica - Mal posso esperar sair deste lugar ! - ele continuou, virando-se para descer as escadas em direção ao pátio - Estou confuso com toda essa história sobre cruzados, cavaleiros e sarracenos. O que fazia toda essa gente aqui na Síria ?
- Bem... - ela começou, mas logo se deteve e balançou a cabeça - Oh, não ! Não vou cair outra vez em sua armadilha. Você vai me acusar de forçá-lo a ouvir palestras.
Ele sorriu.
- Não, desta vez estou realmente interessado em ouvir o que tem para me dizer.
- Já que você insiste... - Sakura riu enquanto o seguia através do pátio e penetrava na imensa sala, sob a porta em arco.
- A palavra cruzado origina-se de crux, que em latim significa cruz - ela apontou para o sinal escavado numa coluna de pedra - O símbolo foi adotado pelos cavaleiros cristãos europeus, em suas tentativas de recuperar a cidade santa de Jerusalém, que havia caído nas mãos dos sarracenos, um termo aplicado a todos os seguidores de Maomé.
- Até aí, está tudo muito claro, mas por que construir uma fortaleza a centenas de quilômetros de Jerusalém ?
- Porque esta era a rota principal do comércio entre a Europa e o Oriente Médio - ela explicou - Os líderes das forças cristãs mandavam homens e armas para esta área e construíram castelos para guardar os caminhos de forma a dominarem os acessos para a Terra Santa.
- Antes eles do que eu ! - murmurou Shaoran - Este lugar me dá arrepios - ele continuou em direção ao interior do castelo, até entrar numa enorme estrutura abobadada, que Sakura informou ter sido usada como estábulo para os cavalos dos soldados.
- Olhe, dá para ver as reentrâncias nas paredes, onde eram colocadas as manjedouras, e aqui... - ela indicou os buracos perfurados nos pilares - era o lugar onde amarravam os animais.
- Fascinante - ele murmurou, ao se inclinar para examinar as marcas - Contudo, embora eu deteste ter de lembrá-la, nós ainda não encontramos nenhum depósito de água.
- Os cavaleiros não podiam fazer nada sem seus cavalos, por isso deve estar em algum lugar por aqui - a voz de Sakura ricocheteou pelas paredes da mesma altura de uma catedral.
Shaoran espiou o cômodo contíguo, imerso em penumbra. Onde Sakura teria ido parar ? No instante em que abriu a boca para gritar-lhe o nome, porém, ouviu uma exclamação de triunfo. Seguindo o som, ele prosseguiu por uma passagem estreita e ficou atônito diante da visão abençoada.
- Graças a Deus ! - ele agradeceu.
- E então ? Acha que há água suficiente para nós ?
Com o som do riso de Sakura ainda em seus ouvidos, ele olhou ao redor. Tecnicamente aquilo podia ser um reservatório, mas parecia mais um antigo balneário turco. As paredes eram revestidas de pequenos azulejos em mosaico azul e a água jorrava de uma fonte para dentro de uma piscina.
Dali, ela corria para uma piscina ainda maior.
- Não é maravilhoso ? - Sakura estava eufórica - Mal posso esperar para mergulhar !
- Está bem, mas não vamos nos entusiasmar demais por enquanto - ele a alertou - Ainda não sabemos se a água é adequada ao consumo.
- E quem está ligando para isso ? - ela riu - Não vou ficar aí sentada, morrendo de sede, só pela possibilidade de que a água talvez não seja pura como neve derretida. Aliás, deve ser exatamente isso... neve dos picos das montanhas, que degelou e formou um rio, que foi desviado para cá pelos antigos cruzados. Nós passamos por um córrego ao escalarmos a montanha, lembra-se ?
Shaoran encolheu os ombros, provavelmente Sakura estava certa quanto ao rio e mais ainda quanto a beberem daquela água. Sem ela não sobreviveriam por mais de dois dias.
- Está gelado aqui - ele estremeceu - Foi um dia longo e árduo, e reconheço que ambos estamos exaustos. Acho melhor voltarmos e nos certificar de que o fogo não se apague. Poderemos deixar nossas explorações para amanhã.
No momento em que saíram novamente para o pátio, ela ficou surpresa com a rapidez que a noite caíra.
- Havia me esquecido de que o Sol se põe muito rápido nesta parte do mundo.
Ao entrarem no castelo, Shaoran foi imediatamente verificar o conteúdo de sua mala.
- Foi bom lembrar. Teremos de conservar cada gota de gás do meu isqueiro, para o caso de o fogo apagar e termos de acender outra fogueira amanhã.
- Tivemos sorte por você ter trazido um isqueiro, embora eu não o tenha visto fumar um cigarro o dia inteiro - ela comentou, enquanto olhava através da janela aberta.
- Eu não fumo... apesar de apreciar um charuto após o jantar, de vez em quando. O ponto em que quero chegar, entretanto, é que não há jeito de produzirmos uma iluminação artificial com os objetos recolhidos. Acho que a única solução é dormirmos ao pôr-do-sol e nos levantarmos ao alvorecer, como os antigos faziam.
- Dormir ? Onde ? - ela olhou, nervosa, ao redor - Eu não havia pensado...
- Nossas camas serão o chão de pedra, como pode ver ! É melhor se deitar sobre as roupas que restaram. Tentarei manter o fogo aceso, mas é quase certo que não durará a noite toda.
Algum tempo depois, Sakura ainda permanecia junto à janela, pensativa. A escuridão só era amenizada pelas chamas e ela podia ver Shaoran ocupado em arrumar as roupas junto à lareira.
- Venha, Sakura, vamos nos deitar e dormir.
- Deitar ? - ela repetiu, nervosa - Não quero...
Shaoran suspirou.
- Não seja boba. Estou cansado e com frio, e pode acreditar que sexo não me passa pela cabeça ! Além disso - ele acrescentou, enquanto Sakura caminhava lentamente em sua direção - , não me sinto com forças para tirar toda essa roupa que você está usando !
Sakura se deteve diante dele, sorrindo ao olhar a calça enorme de um azul brilhante, que ela só conseguiu prender à cintura por meio de um barbante.
- Não sei como Hasan podia usar uma coisa tão horrível. Estou simplesmente ridícula - ela se lamentou.
- Não, não está. Acho até que está simpática dentro dessa calça. Agora, por favor, pare de andar por aí e venha descansar.
Ela hesitou por um momento, mas logo chegou à conclusão de que aquela era a única saída. Ela também estava cansada e com frio e era uma infantilidade de sua parte imaginar que Shaoran tivesse outra coisa em mente, a não ser dormir. Além disso, vestida como estava, um fardo de algodão seria mais atraente do que ela. Deitando-se sobre o colchão improvisado, mais fino e duro do que antecipara, procurou ficar o mais longe possível de Shaoran.
- Oh, querida, não seja tão idiota ! - ele suspirou, enquanto puxava o corpo rígido ao seu encontro - Agora, durma ! - ele ordenou, após acomodar-lhe a cabeça sobre o seu ombro - Lembre-se de que banqueiros de nariz empinado, como eu, só se interessam por cifrões !
Sakura não conseguiu reprimir um suspiro de alívio ao relaxar contra aquele corpo firme e forte. Era surpreendente que, após tantas e freqüentes brigas, ela se sentisse calma e segura no conforto daqueles braços ao seu redor, e em poucos segundos abandonou-se ao sono. Shaoran entretanto, permaneceu acordado por um longo tempo, fitando cegamente o teto em meio à escuridão e tentando ignorar a suave maciez e o calor daquele corpo tão próximo ao dele. Quando finalmente conseguiu adormecer, seu sono foi povoado por pesadelos.
A luz pálida da aurora iluminava o céu quando Sakura abriu os olhos. Levou alguns minutos para se lembrar de onde se encontrava e para perceber a dor aguda em suas costas e o peso que a comprimia contra o chão de pedra. Ela ergueu levemente a cabeça e seus olhos se arregalaram diante da visão de um rosto bronzeado deitado sobre seu peito. O que acontecera ? Oh, é claro ! Ela se deitou novamente e virou a cabeça para a lareira, onde só restavam cinzas. Tentou se acomodar melhor, empurrando gentilmente o corpo de Shaoran. Sua intenção não resultou em nada, exceto em um resmungo e em um peso ainda maior sobre ela, conforme ele também procurava uma posição mais confortável. O pior foi que ele ergueu subitamente a mão e lhe apertou um seio.
E agora ? O que ela podia fazer para impedir aquele toque tão íntimo ? Se conseguisse empurrá-lo com mais força, possivelmente o afastaria, mas o chão era tão duro para ele quanto para ela e o coitado estava com aquele enorme corte nas costas ! Ela decidiu não se mover. O esforço não valeria a pena. Além disso, Shaoran não estava interessado nela como mulher, naquele momento. O que ele precisava era apenas de um travesseiro ! Aliás, ambos precisavam ! Tentaria arrumar um pouco de palha ou até mesmo mato naquele dia. E, antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, ela mergulhou num profundo torpor.
Quando acordou novamente, ela notou os raios brilhantes do Sol penetrando através da janela. Ergueu o braço e consultou seu relógio. Dez horas. Incrível ! Como conseguira dormir por tanto tempo ? Esticou o corpo dolorido e sentou-se.
O quarto estava vazio. Não havia sinal de Shaoran nem evidência alguma de que passara a noite com ele. Sentiu o rosto queimar ao se lembrar do peso sobre o seu corpo e da mão que se fechara sobre seu seio. "Oh, deixe disso !", ela se ordenou. Mesmo que nunca tivesse dormido com um homem até aquela noite, era ridículo sentir-se envergonhada. Não era culpa dela que ambos tivessem de se abrigar naquele castelo, e o fato de não ser experiente em assuntos de sexo... bem, isso também não era sua culpa.
Sua tia Natsumi, uma mulher autoritária, filantropa e feminista praticante, fora extremamente repressora no que dizia respeito à vida amorosa da sobrinha.
- Não admitirei namoricos nesta casa ! - ela declarara uma vez, ao surpreender Sakura beijando o namorado na porta. E, por gostar muito da tia e por sentir uma imensa gratidão à mulher que a criara, chegara à presente idade de vinte e cinco anos com a lembrança de um único romance sério em sua vida. Além disso, o estudo e o trabalho tomavam quase todo o seu tempo. Consultar velhos documentos em bibliotecas empoeiradas não lhe dava margem para pensar em assuntos amorosos.
Talvez fosse esse o motivo por ter se apaixonado ao conhecer Eriol Hiiragizawa, um estudante de Dublin dedicado a pesquisas. Embora tivessem se conhecido e passado todo o verão juntos, em longas caminhadas pelos prados de Oxford, ao chegar o inverno ambos perceberam que não tinham nada em comum. Da mesma forma que ela e Shaoran, pensou subitamente, sentindo-se deprimida.
- Ah, então você finalmente acordou ! - Shaoran lhe sorriu ao entrar na sala com um feixe de gravetos.
- Estava tentando imaginar onde você poderia ter ido - ela murmurou, olhando-o colocar os gravetos sobre as brasas.
- Fui nadar no reservatório - ele a informou, enquanto colocava o resto da lenha ao lado da lareira e em seguida se dirigia ao cesto de piquenique, para apanhar a garrafa térmica - Foi ótimo sentir-me limpo outra vez, mas devo avisá-la de que a água está extremamente fria - ele sorriu - Após o banho de pingüim, agradeci aos céus por meu roupão ter sido poupado da explosão. Pena que não sobrou nenhum aparelho de barbear - ele passou a mão pelo rosto.
Ao olhar a figura alta naquele roupão atoalhado, vermelho e curto, Sakura sentiu-se... não sabia descrever como ! Talvez fosse a visão daquelas pernas longas e nuas ou os pêlos escuros e crespos de seu peito que a faziam sentir-se tão fraca e arquejante. O fato de ele estar completamente nu por baixo do roupão também contribuía para que ela não se acalmasse.
- Encontrei isto jogado num canto de um dos quartos - ele lhe mostrou uma panela pequena - Deve ter sido deixada pelos homens que trabalharam na restauração do castelo, e pensei em aproveitá-la para aquecermos o café. Está limpa - ele acrescentou, ao ver que Sakura torcia o nariz - Levei-a comigo ao reservatório e a lavei muito bem.
- Se essa é a única maneira de se conseguir uma xícara de café quente, não me importo com o estado em que ela se encontra - ela sorriu - Espero que sejamos encontrados em breve, pois a idéia de termos de enfrentar o dia de amanhã sem café não é fácil de se encarar !
- Somos dois - ele concordou.
- Quanto tempo acha que levarão para nos resgatar ? - Sakura indagou, enquanto Shaoran se ajoelhava diante da lareira para colocar a panela no fogo.
Ele deu de ombros.
- Tudo vai depender da rapidez com que minha equipe e os guardas de segurança do ministro darão o alarme. Estou certo de que muito em breve sairemos daqui - ele respondeu, confiante - E você, há alguém esperando-a em Damasco ?
- Não. Estou viajando pela Síria por minha própria conta.
- E quanto à sua família, na Inglaterra ?
Sakura balançou a cabeça.
- Meu pai está morto e minha única parenta é uma tia, que, no momento, está na África.
- África ? O que ela está fazendo lá ?
Sakura hesitou por um segundo, mas como ele parecia genuinamente interessado, começou a lhe contar sobre seu excêntrico pai e a igualmente excêntrica tia, Natsumi Amamiya.
- Prometo que nunca mais a chamarei de "louca" ! - Shaoran deu uma gargalhada - Após o que me contou, você ainda tem um longo caminho a percorrer para chegar aos pés de sua tia. Não quero ser rude, mas uma casa cheia de refugiados políticos e esposas abandonadas com seus filhos é a idéia que tenho de como deve ser o inferno - ele balançou a cabeça - Como é que você consegue trabalhar numa casa assim?
- Com extrema dificuldade, posso lhe garantir. Mas tenho orgulho de minha tia e do trabalho que ela faz para a Organização Internacional de Anistia. A violência sofrida por algumas dessas pessoas é verdadeiramente horrível. E, quando preciso de paz e tranqüilidade, sempre posso contar com algumas salas na faculdade.
- E não há nenhum namorado ansioso por sua volta ? - ele indagou casualmente, enquanto retirava a panela do fogo.
- Não, ninguém em especial - ela murmurou, ao ser servida em um dos copinhos plásticos que sobraram no cesto.
Inexplicavelmente, Sakura desejou ter uma lista de nomes de homens interessantes e atraentes para expor a Shaoran. Mas os poucos com quem se encontrara nos últimos meses, dois professores de História e um de Filosofia, embora inteligentes, não eram a resposta para as preces de uma mulher solteira.
- E quanto a você ? Sei que é banqueiro, e um dos "figurões" do Fundo Monetário Internacional, mas isso é tudo - ela hesitou, tentando se lembrar do que Chiharu lhe contara sobre sua ex-esposa - Eu... ouvi dizer que já foi casado !
- Sim, fui - ele suspirou e ficou olhando para o copo de café - Um grande erro...
- Desculpe. Eu não devia ter...
- Está tudo bem. Fiquei muito amargurado na época, mas, para ser honesto, grande parte da culpa foi minha. Eu era e ainda sou viciado em trabalho. Éramos muito jovens. Akemi só queria uma intensa vida social e, quanto a filhos, nem cogitação. Quando ela fugiu com um jogador de pólo argentino, bem... eu não posso dizer que tenha me esforçado para trazê-la de volta...
- Sinto muito.
- Não há necessidade. Tudo aconteceu há muito tempo e me serviu de lição. Atualmente tento me lembrar de que há coisas mais importantes na vida do que colunas de números ou registros financeiros de uma empresa. Agora, por exemplo, acabei de descobrir que um curso de sobrevivência teria sido muito mais útil.
Shaoran se levantou e caminhou lentamente em direção à janela. Contemplou o terreno montanhoso por um longo tempo, até que finalmente se voltou para ela.
- Eu não estava brincando quando mencionei o curso de sobrevivência. Infelizmente a situação não está nada boa para nós. As provisões não durarão mais que dois dias e, mesmo não querendo alarmá-la, acho que devemos encarar o fato de que o seqüestro do ministro foi meticulosamente planejado. Certamente havia alguém do grupo terrorista, além de Ranya, junto com os auxiliares de Hasan. Bem que um rapaz de minha equipe tentou me avisar. Não era correto viajarmos sem o pessoal da segurança. Mas agora não adianta lamentar, e receio que o dia de ontem não tenha sido o último em que nos deparamos com a maldita terrorista e o resto de seu bando.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 6.
