Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Mary Lyons, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 6

Sentado sobre uma imensa pedra no pátio, uma hora mais tarde, Shaoran consultou novamente o relógio. Onde diabos estaria aquela garota ? O tempo, é claro, não era muito importante, pois eles não tinham para onde ir nem ninguém para ver. Mas, ao longo dos anos, o trabalho árduo, e uma agenda precisa, tornou-se para ele praticamente uma questão religiosa, e era muito difícil relaxar e não ter nada para fazer.

Mulheres ! Eram todas iguais, ele falou consigo mesmo, olhando novamente para o relógio. Deus era testemunha de que tentara lhe explicar as sérias dificuldades que precisariam enfrentar, mas Sakura lhe parecera incrivelmente despreocupada com os problemas. Na verdade, ele levara um tempo considerável para convencê-la de que o aviso na estrada, que provocou o desvio no percurso em direção a uma rota secundária, não fora colocado ali por acaso nem por acidente do destino.

- É lógico que foi tudo planejado - ele declarara com firmeza - Você acredita realmente que um caminhão repleto de homens armados, passando por aqui naquele exato momento, fosse uma mera coincidência ? Não foi coincidência alguma, e o quanto antes você aceitar o fato, melhor será !

- Oh, está bem, eu concordo ! - Sakura exclamara, por fim - Mas ainda não vejo motivo para você pensar que a asquerosa falsa intérprete e o resto de seu bando abominável devam voltar aqui.

Mesmo que Shaoran tivesse admitido que havia uma pequena chance de que eles não voltassem, insistiu em seu julgamento de que Ranya, sem dúvida, era apenas um dos membros de uma grande organização. Ele estava convicto de que quando seus colegas descobrissem que haviam permitido que um rico banqueiro americano escapasse por entre seus dedos, e, com ele, a possibilidade de um vultoso resgate, não resistiriam à tentação de voltar e capturar mais uma mina de ouro.

Entretanto, nem a perspectiva de uma ocorrência tão perigosa pareceu afetar o otimismo de Sakura.

- Não adianta ficarmos nos torturando por antecipação. Se o que você teme realmente acontecer, aí sim, vamos pensar no que fazer - a jovem irritante lhe respondera, antes de lhe mostrar um tubo de metal - Se ficarmos desesperados de fome, ainda nos restará isto aqui. Esqueci de lhe dizer que, ao sair da limusine, carreguei minha bolsa comigo - ela sorriu irônica - Sabe como é... uma mulher nunca se separa de sua bolsa !

- Bolsa ? Está querendo dizer a carteira, não é ?

- Dizem que se fala o mesmo idioma nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas eu tenho minhas dúvidas - ela despejou, então, todo o conteúdo da bolsa na frente dele - Tenho tudo o que você pode imaginar aqui, exceto uma pia de cozinha, embora não saiba se vai adiantar alguma coisa.

Não havia um ditado que dizia que o conteúdo da bolsa de uma mulher refletia precisamente a sua personalidade ? Se isso fosse verdade, Shaoran constatou que Sakura seria um prato cheio para um psiquiatra. Entretanto, tinha de admitir que um pequeno estojo de costura, uma tesoura, um longo fio de linha e alfinetes de segurança poderiam ser de alguma utilidade. Contudo, não podia imaginar em que lhes serviriam os outros aparatos da vida moderna, como um molho de chaves, lenços de papel e um porta-notas contendo cartões de crédito.

- Nunca se sabe quando iremos precisar de um destes itens - ela lhe dissera alegremente, antes de recolocar a sua coleção de objetos na bolsa de couro e anunciar que iria tomar um banho e trocar de roupa.

Olhando o relógio pela centésima vez, Shaoran suspirou e balançou a cabeça. Sakura realmente era a contradição em pessoa. Comparou todos os resmungos e pretextos do dia anterior, em que ele tivera vontade de lhe torcer o pescoço, com aquele momento. Agora que a situação se agravara consideravelmente, a garota parecia alegre e despreocupada. E, ainda por cima, a noite fora fria e o chão, duro e desconfortável...

Uma sensação de calor lhe subiu ao rosto ao se lembrar de como acordara, deitado sobre o corpo macio de Sakura. Ainda bem que ela dormia profundamente e não podia imaginar a posição íntima que tomaram. Tinha certeza de que nem sua ex-esposa nem qualquer uma das antigas namoradas, e muito menos Yuna Kobayashi, a altamente adequada candidata de sangue azul que fora colocada diante de seu nariz, após um acordo entre sua mãe e os pais dela no ano anterior, sobreviveriam ao tipo de catástrofe à qual ele e Sakura haviam sido submetidos. Mas, sentada no chão com as pernas cruzadas, como uma iogue, trajando as roupas enormes do ministro e sem o benefício de uma maquilagem ou de um pente, ainda assim Sakura conseguia ser extraordinariamente linda.

"Assim não vai dar, Shaoran Li ! Reaja !", ele falou consigo mesmo. "A garota só lhe traz problemas. Não bastasse quase tê-lo afogado naquela piscina em Damasco, foi por um milagre que ela não lhe quebrou todos os ossos quando o fez cair em uma das escavações em Palmyra, lembra-se ?" Não. Tudo o que conseguia recordar era o calor daquele corpo que caíra sobre ele em seguida... o mesmo calor doce e aveludado que o envolvera na noite anterior, e...

- Desculpe por ter demorado tanto - ela gritou, quase sem fôlego, conforme corria pelo pátio ao seu encontro. Shaoran se virou imediatamente em direção ao som de sua voz.

- Minha nossa ! - ele exclamou, levantando-se. Sakura lhe sorria suavemente.

- Eu, bem... não tinha nada de meu para vestir, e não podia suportar a idéia de usar outra das calças medonhas de Hasan, não sem antes dar um jeito nelas. E, como encontrei uma tesoura em minha bolsa... - ela apontou para o que fora antes um par de calças verdes, e que agora transformara-se em um short - Acha que estou muito feia ?

- Feia ? - ele sentiu um nó na garganta - Não, acho até que você está muito bem.

- Sinto-me melhor agora. E então ? Vamos explorar a parte do castelo que não conseguimos visitar ontem ?

- Sim, claro... - ele murmurou, seguindo-a lentamente em direção ao antigo portal, na entrada do castelo. Se não fossem encontrados logo, ele pensou sombriamente, quando menos esperasse ele seria mais uma vítima de pressão alta.

Não eram apenas as pernas longas e maravilhosas de Sakura que o deixavam sem fôlego, mas especialmente o fato de ela não estar usando nada sob a blusa de tecido fino que amarrara à cintura. E sob o short ? Certamente também não havia nada ! Shaoran fechou os olhos por um momento e respirou fundo, tentando controlar o desejo que lhe percorria o corpo diante da deliciosa visão do corpo de Sakura.

- Ei ! Nós não vimos isto quando chegamos - ela o chamou de algum lugar nos recantos escuros da entrada do castelo.

Ao se reunir a ela, Shaoran notou que realmente lhes passara despercebida aquela porta, ainda nova, num dos lados da parede. Pendurada sobre sua superfície havia uma tabuleta, escrita em árabe e também em francês.

- Que palavra é essa ? - ele a indicou para Sakura.

- Musée, significa museu em francês - ela explicou - Os franceses virtualmente dominaram a Síria até bem depois da guerra. Ainda hoje as placas das ruas de Damasco são escritas em ambos os idiomas e... oh, eu sinto muito ! - ela se deteve diante do olhar divertido de Shaoran - Parece que não sei fazer outra coisa a não ser lecionar - Shaoran sorriu.

- Tem razão, mas de qualquer forma não importaria se a linguagem utilizada na tabuleta estivesse em inglês, russo ou chinês. Não há como descobrirmos o que existe por trás desta porta - ele apontou para o cadeado - É uma pena...

Sakura olhou fixamente para a porta e para o cadeado. Não era apenas uma pena, era de enlouquecer, pois se as pessoas que haviam trabalhado na restauração do castelo se preocuparam em trancar aquela porta, certamente havia algo precioso no interior da sala. Bem, era óbvio que ela não permitiria que um objeto tão pequeno quanto um cadeado a impedisse de descobrir o que era.

- Vamos embora. Não vale a pena ficarmos aqui parados - Shaoran comentou impaciente, no instante em que ela teve uma brilhante idéia.

- Não se mova ! Voltarei em seguida - ela se pôs a correr em direção ao pátio. Conforme prometera, ela retornou num curto espaço de tempo, acenando-lhe com um porta-notas de couro - Ainda bem que levei a bolsa comigo, quando desci da limusine - ela comentou, sem fôlego, enquanto retirava um dos cartões de crédito plastificado da carteira - Que sorte ! Li muitas vezes a respeito de ladrões e policiais usando deste artifício para abrir cadeados. Agora poderemos verificar se realmente funciona. Já fez isso alguma vez ?

- Bom Deus... não ! - ele franziu o cenho em sinal de desaprovação - O que você está pretendendo fazer é ilegal, para não dizer outra coisa.

- Oh, não seja tão puritano. Afinal de contas, pensei que estivesse empenhado em tentar alguma coisa para salvar as nossas peles. Se aquela mulher horrível realmente resolver voltar, não será por minha culpa que ela não venha a se arrepender por ter nascido !

- É mesmo ? - Shaoran esbravejou. Como ela ousava chamá-lo de puritano ? - E posso saber o que está imaginando encontrar aí dentro ? Algumas armas automáticas de fabricação soviética ? Ou, quem sabe, uma caixa de granadas ? - ele completou com uma risada sarcástica.

- Seu problema, Shaoran, é que sua mente não consegue voltar atrás no tempo. Tente pôr na cabeça que antes de chegarmos ao século XX, nós tivemos outros dezenove séculos ! - Sakura exclamou, enquanto tentava se concentrar na tarefa de abrir o cadeado - Já que estamos presos neste castelo, sem armas modernas para nossa defesa, o quanto antes começarmos a pensar como cavaleiros medievais, melhor será.

Recostando-se contra a áspera parede de pedra, e deliciando-se com a visão do corpo esbelto de Sakura, ocupada na tarefa de destravar o cadeado, Shaoran sorriu e balançou a cabeça. A garota era realmente maluca. Mesmo que conseguisse encontrar algumas espadas enferrujadas, que diabos pensava poder fazer com elas ? A última vez em que ele brincara de "Três Mosqueteiros", deveria ter apenas oito ou nove anos de idade. Quanto à estúpida idéia de que poderia usar um de seus cartões de crédito para abrir aquele cadeado...

- Consegui ! - ela gritou triunfante, abrindo a pesada porta e se voltando para ele com um largo e debochado sorriso - Vamos, confesse ! Você nunca pensou que eu conseguiria, não é ?

Os lábios de Shaoran se retorceram, escarnecedores.

- Depois de ter sido obrigado a conhecer as mais variadas facetas de sua extraordinária personalidade, tenho de confessar que nada mais a seu respeito me surpreende. Absolutamente nada !

- Em outras palavras, não, você não acreditava que eu conseguiria - ela deu uma gargalhada de prazer antes de desaparecer dentro da sala escura e cavernosa.

- Está bem, onde estão os tanques e os rifles ? - Shaoran indagou, enquanto olhava, cético, ao seu redor.

Pobre Sakura, aquilo obviamente não era o que ela esperara encontrar, ele pensou, os olhos percorrendo os tambores enferrujados de óleo e alguns sacos hessenos. Mas ela não parecia nem um pouco desapontada, ao remexer a pilha de entulhos no canto da sala.

- Ei, o que acha disto ? - ela lhe mostrou um machado, que certamente conhecera dias melhores - Agora você poderá rachar aquelas toras maiores de madeira, e estou certa de que poderemos encontrar alguma utilidade para isto - ela indicou um velho pneu apoiado contra a parede.

- Sim, quanto ao machado, mas quanto ao resto... - Shaoran deu de ombros.

- Oh, não seja tão pessimista. Há muita coisa que poderemos aproveitar. Aliás, se continuarmos aqui por mais algum tempo, poderemos montar uma besta com estes pedaços de ferro e com estas molas enferrujadas. Devem ter sido encontrados na época da Restauração. E, se você conseguir fazer um cabo de madeira, eu... - ela o fitou, esperançosa - Você sabe alguma coisa de carpintaria ?

- Não, não sei - ele afirmou - E também não sou Robin Hood.

Sakura balançou a cabeça, irritada.

- Robin Hood, se realmente tiver existido, teria usado arco e flecha como os arqueiros atuais. Estou falando de uma besta, que é uma arma antiga completamente diferente. Era usada para arremessar estes dardos de ferro - ela explicou, apanhando algumas hastes pontiagudas de metal - As bestas eram consideradas armas terríveis na Idade Média, capazes de perfurar escudos pesados a uma distância de até cem metros. Eram absolutamente letais ! - ela acrescentou com um sorriso maléfico.

- É muito interessante, mas...

- E se fizéssemos uma catapulta ? Isso sim seria uma arma mortífera ! - ela continuou, entusiasmada - Tudo de que precisaríamos seria um tronco comprido e pesado, que faríamos balançar como uma gangorra, e então poderíamos atirar pedras imensas do alto da fortaleza sobre Ranya e seus...

- Não ! Bestas e catapultas estão definitivamente fora de cogitação - ele retrucou - Nunca conheci antes uma mulher tão sedenta por sangue. Daqui a pouco, você vai tentar me convencer a ajudá-la a construir a versão medieval da bomba atômica.

- Isso significa poder de fogo, e, infelizmente - ela suspirou - , eu não aprendi como fazê-lo.

- Que alívio ! - ele riu, acompanhando-a com os olhos enquanto ela apanhava vários fragmentos metálicos e os colocava sobre uma espécie de escrivaninha debaixo da janela alta e estreita.

- Sei que pensa que eu estou me comportando como uma tola - ela comentou, enquanto se sentava sobre uma mesa e esfregava as mãos cobertas de pó e partículas de ferrugem - Mas, se Ranya e os terroristas realmente voltarem para nos seqüestrar, teremos de estar preparados para nos defendermos, não importa de que jeito. Meu ponto de vista é...

Shaoran, entretanto, não a ouvia, absorto em seus pensamentos ao contemplar as pernas que Sakura balançava distraidamente. O que havia com aquela garota ? Sua pele era alva e, embora todas as mulheres de suas relações passassem horas tentando obter uma pele bronzeada, ele estava achando a visão daquele corpo alvo muito mais excitante.

- ... assim, pelo menos, nós poderemos dormir com maior conforto.

- O que você disse ? - ele a olhou, surpreso.

- Caramba ! Eu aqui falando todo esse tempo e você não ouviu uma só palavra ! - ela protestou, impaciente - Eu estava dizendo que poderemos improvisar um colchão.

- Espere um pouco. O que está pretendendo fazer ?

- Não estou sugerindo a compra de um colchão de molas na cidade mais próxima, é claro - Sakura caçoou - Estava pensando em usar alguns daqueles sacos - ela apontou para a pilha num canto da sala - Não sei quanto a você, mas eu ainda estou dolorida após dormir a noite passada no chão duro e frio.

- Não é má idéia - Shaoran concordou - Mas, infelizmente, não encontramos nenhuma palha por aí.

- Ah, mas eu já encontrei a solução !

- Aposto que sim ! - ele murmurou, resignado - Sei que vou me arrepender por ter perguntado, mas onde poderemos encontrá-la ?

- Bem... se cortarmos bastante grama do platô, no lado externo do castelo, e a deixarmos secar ao Sol, poderemos, então, utilizá-la para improvisar um colchão. Talvez não seja muito confortável, mas seria melhor do que nada. Ou acha que não vai funcionar ? - ela acrescentou, sentindo-se subitamente nervosa por causa da estranha expressão com que Shaoran fitava a pilha de sacos.

Shaoran, que estivera tentando não pensar em como passara a noite anterior, recostado contra aquele corpo macio, fez um esforço sobre-humano para se controlar.

- Claro que vai, você está certa - ele atravessou a sala e apanhou alguns sacos, antes de se voltar em direção à porta - Vamos, garota esperta e impossível, vamos providenciar a palha enquanto o Sol ainda brilha !

Sakura ria ao seguir a figura atraente rumo ao pátio. Ele até que tinha senso de humor por trás daquela aparência arrogante e superior. Aliás, agora que parara para refletir nesse detalhe, ele não estava mais tão arrogante, desde que chegaram ao castelo.


Sakura se deitou sobre o gramado e fechou os olhos, sentindo a pele queimar sob o Sol brilhante. Suas costas doíam e as mãos estavam cheias de bolhas após o árduo trabalho de arrancar uma enorme quantidade de mato que desse para estofar quatro dos sacos. Mas não podia reclamar, pois a idéia maluca partira dela, e Shaoran a ajudara muito, aliás, conseguira arrancar o dobro de mato que ela.

- Que tal um copo de água gelada ?

Abrindo os olhos, ela sentou-se com dificuldade. Era difícil distinguir as feições de Shaoran. Seu perfil estava escuro contra os raios do Sol, que quase a cegavam.

- Eu não agüentava a sede, por isso voltei ao castelo e enchi a garrafa térmica - ele explicou, enquanto se ajoelhava ao lado dela e tirava a rolha da garrafa - Também achei que seria uma boa idéia levar o cesto de piquenique ao reservatório. É o lugar mais frio do castelo e os alimentos durarão mais e... ai ! - ele levantou a mão e esfregou um olho.

- O que houve ? Você se machucou ? - ela quis saber, preocupada.

- Estou bem. Apenas entrou um cisco em meu olho - ele informou, enquanto continuava a esfregar vigorosamente a pálpebra.

- Deixe-me dar uma olhada - ela apoiou as mãos em seus ombros e aproximou o rosto dele.

- Não é necessário - ele tentou impedi-la.

- Oh, não tenha medo. Deve ser apenas um pequeno inseto - ela ignorou-lhe os protestos e tentou retirar o minúsculo objeto negro que havia se alojado no canto do olho.

Ao toque daqueles dedos suaves em seu rosto, Shaoran jogou a cabeça para trás e se desequilibrou, caindo de costas sobre a grama e levando-a com ele.

- Oh ! - ela exclamou, fitando estarrecida o rosto de Shaoran tão próximo ao seu - Não sei como foi acontecer... - ela murmurou, trêmula, ao sentir-se fortemente abraçada pela cintura - Acho que o inseto, ou o que quer que fosse, já saiu - ela acrescentou, nervosa, pois ele se mantinha em silêncio, apenas fitando-a fria e gravemente.

Em seguida, durante o curto intervalo de um batimento cardíaco, Shaoran mergulhou as mãos na nuvem castanha e espessa de seus cabelos e puxou-lhe selvagemente a cabeça. A boca que possuiu os lábios de Sakura era ávida e quente e, quando conseguiu introduzir a língua em sua boca, Shaoran deu um gemido e rolou sobre ela.

O sangue pulsava tão forte em suas veias que ela perdeu todo o controle. Não via nem ouvia mais nada a não ser o som de seus corações batendo em uníssono. Só existiam Shaoran e ela no mundo, e ela não conseguiu reprimir um suspiro de protesto no momento em que ele afastou-se de sua boca para procurar-lhe as orelhas e o pescoço.

- Querida ! - ele sussurrou roucamente, a respiração curta e acelerada, enquanto desabotoava-lhe a blusa - É uma loucura ! Não sei o que está acontecendo comigo... - ele murmurava incoerentemente, os lábios acariciando sensualmente a curva dos seios firmes e cheios de Sakura.

- Loucura... - ela repetiu, a mente confusa enquanto sentia-lhe a boca se fechar sobre os mamilos duros e intumescidos, um após o outro.

Dominada por uma excitação febril, Sakura gemia e gritava enquanto deslizava as mãos por seus ombros largos, saboreando os contornos de seu corpo e o calor de sua pele até que o tocou em sua parte mais íntima. Shaoran enrijeceu ao toque e imediatamente deslizou as mãos e a boca com mais sensualidade pelo seu corpo. Sakura descobriu naquele instante que ter Shaoran sobre ela, entregar-se às suas mãos e ao corpo experiente era tudo o que queria na vida.

E então, súbita e surpreendentemente, ele a soltou e se levantou de um salto.

- Sinto muito, Sakura - ele falou sem fôlego, o peito arfando em busca de ar - Eu devo estar louco... totalmente louco ! - ele acrescentou, antes de se virar e caminhar a passos largos em direção ao castelo.

Ela permaneceu deitada, os olhos fechados e o coração pulsando com violência, enquanto tentava pensar no que deveria fazer. O que havia de errado com ela ? Podia ter passado a maior parte de sua vida trancada numa antiga cidade universitária, mas Oxford estava repleta de homens bonitos, inteligentes e sofisticados, muitos dos quais a acharam igualmente bonita. Por que então não se deixara atrair por nenhum deles ? Por que nunca sentira aquele desejo desvairado, que lhe dominava as emoções sempre que estava ao lado de Shaoran ? E aquela necessidade irracional de afundar os dedos em seus cabelos ? Por que sentia-se derreter a um simples sorriso dele ?

Sakura suspirou profundamente e se virou de bruços, olhando distraída para um pequeno besouro que abria caminho por entre a grama. Nada em seu relacionamento com Shaoran fazia qualquer sentido. Sempre conseguira dividir sua mente em compartimentos claros e estáveis, mas agora sentia-se totalmente confusa pelo extraordinário poder que aquele homem exercia sobre ela.

"Francamente", ela pensou, "Tudo isso é ridículo". Qualquer pessoa que a visse, diria que... oh, não ! Não era possível ! Não podia ter se apaixonado por aquele homem horrível, podia ?

Sakura suspirou e escondeu o rosto entre as mãos. Apaixonar-se justamente por Shaoran Li ? Como isso podia ter acontecido com ela ? Simplesmente não era justo ! Seu cérebro mergulhou em um profundo caos por um instante, a mente recusando-se a admitir que até mesmo ao pensar nele seu corpo estremecia e o coração acelerava.

- Não acredito ! Isso não pode estar acontecendo ! - ela protestou em voz alta, levantando-se e pestanejando contra o Sol, enquanto tentava focalizar os picos das montanhas à distância. A frase "O coração tem razões que a própria razão desconhece" lhe veio à mente e ela cerrou os dentes com fúria. O coração podia ter sua razões, mas seu cérebro certamente as considerava inaceitáveis: ela e Shaoran não tinham nada em comum. Quase nunca concordavam em nenhum ponto de vista. Exceto que... bem... ele não era assim tão odioso. Na verdade, desde que haviam chegado ao castelo, estavam se dando muito bem. Mas isso fora devido à força das circunstâncias ! Fora esse detalhe, não havia nada sobre o que pudessem basear um relacionamento mais profundo e duradouro. Por isso, se havia chegado à conclusão chocante de que estava apaixonada por ele, bem... só podia imaginar que estava em meio a um completo colapso mental !

Começou a andar de um lado para o outro, os braços se agitando ao vento, conforme tentava encontrar uma solução para o súbito e impossível ataque que sofrera.

- Vamos, acalme-se ! Não entre em pânico ! - ela ordenou a si mesma com firmeza, tentando controlar o turbilhão de emoções que lhe invadira o corpo e a mente. Ao se abaixar para recolher os sacos que ela e Shaoran estofaram pela manhã, lembrou-se do comentário que um estudante americano lhe fizera certa vez: "Nada é mais próximo do que a proximidade". Essa era, sem dúvida, a causa de seus problemas. Os dois haviam sido jogados juntos numa situação desesperadora, a centenas de quilômetros de qualquer outro ser vivo. Ele, não tendo nada com o que se ocupar, simplesmente se entregara a um capricho passageiro quando a beijara há poucos instantes. Sakura se deteve por um momento, negando-se a ouvir a voz dentro de sua cabeça, que queria lembrá-la de que aquela não fora a primeira vez que Shaoran a beijara.

- Não considero isso um aspecto relevante - ela retrucou em voz alta, enquanto se encaminhava ao castelo, arrastando os sacos atrás de si.

"Oh, não ? Mas certamente vocês acabaram um nos braços do outro em todas as vezes, não é ?", a voz persistia. Sakura, entretanto, continuava recusando-se a ouvir. A separação brusca e os passos rápidos que o levaram de volta ao castelo, se não por outra razão, demonstrava claramente que ele, também, não pretendia se envolver seriamente com ela. Tudo o que tinha a fazer, ela se decidiu após um profundo suspiro, era não ficar muito tempo a sós com Shaoran. Com um pouco de sorte, a loucura temporária que se abatera sobre ela com a força de um raio seria consumida como o fogo e sem nenhum prejuízo ao seu coração.

Ela estivera tão imersa em seus pensamentos, que foi só após atravessar o portal do castelo que percebeu que cruzara a temível ponte sobre o abismo sem fundo. Um caso real de insanidade mental, ela pensou, nervosa, antes de ouvir um ruído alto e ritmado que vinha do pátio.

De costas para ela, nu até a cintura e com as calças enroladas até o joelho, Shaoran estava ocupado em rachar lenha, com o machado que haviam encontrado no museu.

Imóvel, oculta pelas sombras escuras na arcada, Sakura não conseguia tirar os olhos daquele corpo alto e forte. Seu estômago se contraiu ante a visão dos ombros largos e dos músculos rijos sob a pele bronzeada. Sentia-se quase desfalecer com o desejo de estar novamente entre aqueles braços.

Fechando os olhos por um momento, ela respirou fundo e tentou desesperadamente se controlar. Com um esforço enorme, conseguiu caminhar rápida e silenciosamente ao redor do pátio e desapareceu no interior do castelo, sem lhe chamar a atenção. Foi difícil, mas conseguiu arrastar os sacos pela escada estreita, até chegar ao recinto onde dormiram na noite anterior. Sentia-se completamente esgotada.

- Vai mal ! - ela se repreendeu, ao perceber que havia procurado inconscientemente a janela para olhar mais uma vez para Shaoran. Só havia um remédio para sua doença: precisava esfriar a cabeça, e um mergulho nas águas geladas do reservatório parecia ser a solução ideal.


Shaoran ergueu os braços e golpeou a madeira com o machado. Nem conseguia mais se lembrar de quantos anos haviam transcorrido desde que estivera num acampamento de férias com seus colegas de escola. Contudo, era bom descobrir que a experiência adquirida fora de grande utilidade. Pena que aquela era a única coisa boa em toda aquela maldita situação, ele pensou, ao levantar o machado mais uma vez sobre a cabeça e partir a madeira ao meio.

A descoberta do machado fora uma dádiva dos deuses. Estava ajudando-o muitíssimo a extravasar a angústia e a tensão das últimas vinte e quatro horas. Embora estar preso naquele velho castelo e longe da civilização fosse o menor de seus problemas. Como pudera se permitir um envolvimento tão forte com Sakura ? Já desistira de tentar encontrar uma desculpa para o seu comportamento extraordinário no platô. Sentia-se igualmente perplexo pela forma como correspondera aos carinhos daquela garota enlouquecedora em todas as vezes que a encontrara durante a visita à Síria. Fazia sete anos que Akemi o abandonara com seu amante. E, desde o divórcio, fora extremamente cauteloso em seus relacionamentos amorosos com mulheres altamente sofisticadas, aquelas que conduziam seus casos com discrição, sem comprometimentos de ambos os lados.

Mas Sakura definitivamente não era aquele tipo de mulher. E mesmo assim, com todos os sinais de perigo piscando em frente aos seus olhos, com campainhas de alarme soando em seus ouvidos e todos os anos de experiência, ele se sentia loucamente atraído por ela.

Só havia uma explicação razoável... ele estava temporariamente fora de si. Ali estava ele, um respeitável banqueiro americano, considerado por todos na sua profissão como um homem prudente, cauteloso e são. E, no entanto, desde o início de sua estada naquele país, seu comportamento fora notável pela total ausência de prudência, cautela e sanidade.

Ele dividiu selvagemente mais uma tora de madeira pelo meio e apertou os lábios numa careta de perturbação e desgosto. Como era possível que um homem de sua idade e experiência se portasse tão estupidamente ? Deixando de lado a falsa modéstia, não tinha dúvidas de que havia centenas de mulheres mais adequadas, agradáveis e charmosas que ficariam deslumbradas em lhe atrair a atenção. Por que, então, sentira-se tão atraído pela mulher mais inadequada que já tivera o azar de conhecer ?

Sakura Kinomoto, um exemplo perfeito do desastre ambulante, irrompera em sua vida com a força de um incêndio perigoso e alarmante. Sem levar em conta o hábito irritante que possuía de lhe ministrar palestras, como se fosse um de seus alunos, também era desconcertante o fato de ele nunca fazer idéia do que a garota pretendia fazer ou falar em seguida.

Shaoran se deteve por um momento, a expressão relaxando num sorriso relutante conforme se lembrava do exato instante em que ela conseguira abrir a porta do museu. O uso do cartão de crédito fora engenhoso. Sem ela, jamais teriam conseguido encontrar aquele machado. Ela certamente conhecia sobre o assunto. Se não fosse pelos estudos de Sakura sobre velhos castelos e sobre o modo de vida na Idade Média, teriam levado muito tempo, se é que conseguiriam, para encontrar o reservatório de água que lhes salvara a vida. Também precisava admitir que ela era muito prática, especialmente em bolar sacos de dormir e em improvisar roupas. Fechou os olhos mais uma vez, tentando não pensar em seu corpo esguio e nas pernas longas e alvas, reveladas pelo curtíssimo short.

Tudo bem ! Caíra em tentação... mas qualquer outro homem com sangue nas veias teria agido do mesmo modo.

Ele era humano, afinal de contas ! Entretanto, já era tempo de se controlar. Seria razoável, oh, sim ! Voltaria para Boston e se casaria com Yuna Kobayashi. E, se estava encontrando dificuldade, no momento, em se entusiasmar com a perspectiva de uma existência calma e pacífica em sua casa de Beacon Hill, com a linda e igualmente pacífica Yuna, bem... pior para ele !

Olhando para as poucas toras remanescentes, Shaoran encolheu os ombros. Era ridículo sentir-se perturbado e desorientado devido à presença de Sakura, sozinha com ele naquele castelo. Obviamente ele estava exagerando o que era, na essência, um problema sem importância. Quanto ao aspecto da atração física, bem... isso apenas demonstrava os efeitos que a proximidade, a solidão a dois e o desgaste emocional podiam exercer sobre o mais são e sensível dos homens. Assim que terminasse de rachar a lenha, ele iria ao reservatório e nadaria em suas águas geladas. Uma vez arrancado o calor de seu corpo, estava firmemente decidido a permanecer, no futuro, completamente inacessível ao charme sedutor da srta. Kinomoto.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 7.