Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Mary Lyons, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.

AVISO: Este capítulo tem uma cena mais hot, e, por isso, a partir daqui, esta adaptação passa a ser Rated M. Bem, todos foram avisados...


Capítulo 7

Sakura torceu com toda a sua força a roupa que acabara de lavar. Fora realmente uma sorte encontrar o sabonete que ganhara durante o vôo para a Síria no fundo de sua bolsa. Aquela descoberta fora irresistível, afinal, sua roupa estava cheia de pó e areia. O único problema era que não lhe restara nada para vestir. Não que isso fosse lhe dar motivos para se envergonhar, é claro, pois as roupas logo estariam secas naquele calor infernal. Felizmente, não precisava se preocupar com Shaoran, pois ele levaria algumas horas até terminar de rachar toda aquela lenha, e ela poderia desfrutar tranqüilamente as águas frias em seu corpo quente e pegajoso. Ela tomou fôlego, então, e mergulhou o corpo alvo e nu na piscina.

Caramba ! A água realmente estava um gelo ! Entretanto, após vigorosas braçadas de um lado para outro, ela gradativamente foi se acostumando à baixa temperatura. Era a primeira vez que nadava completamente nua e estava maravilhada com a sensação de liberdade e relaxamento que o toque da água fria sobre a pele acalorada lhe proporcionava.

Quando se sentiu um pouco cansada, Sakura emergiu e ficou boiando de costas, enquanto fitava o teto alto e abobadado sobre ela. O local era realmente lúgubre e assustador, com as janelas estreitíssimas que quase não permitiam que raios pálidos de luz penetrassem na escuridão cavernosa do reservatório. Ela estremeceu da cabeça aos pés e sua pele arrepiada lembrou-a de que provavelmente passara bastante tempo sob a água e que precisaria sair antes que apanhasse um resfriado.

Num súbito movimento, ela rolou sobre a superfície e se pôs a nadar rapidamente em direção à borda da piscina, onde deixara a camisa social, novinha, de Shaoran. Certamente ele ficaria aborrecido ao descobrir que ela se servira de uma de suas últimas e melhor das roupas sem comunicar-lhe. Mas, mesmo que ele lhe chamasse a atenção, não iria se arrepender de sua ousadia, pois aquela era a única roupa decente que encontrara e que poderia cobrir-lhe totalmente o corpo, do pescoço até os joelhos. Todas as camisas de Hasan eram largas e curtas demais e seriam completamente inúteis, uma vez que ela acabara de lavar a sua única calcinha. Certamente não podia arriscar-se a ser surpreendida em sua nudez, enquanto esperava que suas roupas secassem ao Sol. Aquilo sim é que poderia lhe causar o maior dos problemas !

Sakura colocou ambas as mãos na borda da piscina e tentou se erguer. E agora ? Por que diabos não lhe ocorrera antes que, embora fosse extremamente fácil mergulhar, seria extremamente difícil sair ? Não havia uma única reentrância nas paredes lisas e escorregadias da piscina onde pudesse apoiar o pé. E com o nível da água ao menos meio metro abaixo do beiral de pedra, estava chegando à brilhante conclusão de que não fora apenas descuidada, mas também uma completa idiota. Quanto mais se esforçava para dar um impulso, mais impossível lhe parecia a tarefa. Os músculos doloridos de seus braços simplesmente se negavam a ajudá-la.

- Você parece estar precisando de um salva-vidas.

Quase morta de susto pelo som repentino daquela voz grave ecoando pelo recinto escuro do reservatório, Sakura olhou para cima e viu Shaoran inclinando-se para ela com o braço estendido.

- Segure minha mão que eu a tiro daí.

- Não posso ! - ela se lamentou, tremendo de frio, os dentes batendo incontrolavelmente uns contra os outros - O problema é, o problema é... eu não estou vestida !

- Não seja tola ! - ele exclamou, impaciente - Se você ficar mais tempo aí, eu acabarei tendo de retirar um cadáver da água.

- Está bem... - ela concordou, os dentes batendo tanto que pareciam castanholas - Mas tem de me prometer que ficará com os olhos fechados.

- Oh, pelo amor de Deus ! - Shaoran gritou exasperado antes de agarrá-la pelo pulso e içar o corpo lindo e despido das águas geladas.

- Ai ! Você me machucou ! - Sakura gemeu enquanto se abaixava para esfregar os tornozelos, que se arranharam contra a pedra áspera da borda - Não precisava ser tão bruto - ela o repreendeu.

- É lógico que precisava - ele a informou, rude - A temperatura destas águas está praticamente no ponto de congelamento. Como pode ser tão tola ? Você...

- Pare de resmungar ! - ela esbravejou.

- Não estou resmungando !

- Oh, sim, está ! - ela retrucou agressiva, notando que uma veia começara a pulsar na têmpora de Shaoran e que um rubor escuro se espalhava por seu rosto, enquanto ele a fitava em silêncio na penumbra - Se há uma coisa que não posso suportar é um homem rabugento e... - ela se deteve ao recordar, subitamente, o que a deixou furiosa consigo mesma, que não estava apenas molhada e com frio, mas inteiramente nua !

Com um grito estrangulado, Sakura se virou e abaixou-se rapidamente para apanhar a camisa que deixara ali perto. De costas para ele, tentou febrilmente empurrar os braços gotejantes e trêmulos para dentro das mangas da camisa de seda. Mas, quanto mais rápido tentava vesti-la, mais o tecido infame se grudava à pele molhada. Estava prestes a chorar de vergonha e frustração, quando sentiu um par de mãos firmes sobre os ombros, que a ajudaram com eficiência e presteza a vestir a peça.

- Parece que você roubou minha camisa - ele protestou, fazendo-a voltar-se para ele e afastando-lhe as mãos nervosas para dobrar as mangas excessivamente longas em seus punhos e em seguida abotoar a camisa.

- Eu... espero que não se importe - ela murmurou, a vontade de agredi-lo desaparecendo instantaneamente assim que fechou os olhos, tentando não estremecer ao toque daquelas mãos sobre o seu corpo.

Assim que terminou com o último botão, Shaoran ordenou:

- Vamos sair daqui antes que você morra de pneumonia.

O rosto dele estava tenso ao puxá-la pelo braço.

- E as minhas roupas ? - ela gritou, tentando se livrar dos dedos cravados em sua pele e apontando para a pequena pilha de roupas molhadas.

- Poderá vir pegá-las mais tarde. Minha prioridade é tirá-la daqui o mais rápido possível e levá-la para cima, para que você se aqueça ao Sol - sem prestar atenção aos seus protestos, Shaoran marchou pelo corredor escuro em direção ao recinto onde antigamente eram guardados os cavalos dos cruzados.

- Oooh ! Ai ! - Sakura exclamava, ziguezagueando pelo caminho na tentativa de evitar pisar sobre os pedregulhos pontudos - Para você, está tudo bem - ela grunhiu, fitando os pés grandes e descalços de Shaoran, que parecia não estar sofrendo incômodo algum - Não dá a mínima para o que eu esteja sentindo. Mesmo que eu perdesse os pés em meio às pedras, você nem... aagh !

Ao ser repentinamente levantada do chão, ela levou um ou dois segundos para recuperar a voz.

- Ei, o que pensa que está fazendo ? - ela gritou.

- Estou tentando proteger seus delicados pés - ele respondeu com frio sarcasmo - Embora minha vontade seja de lhe torcer o pescoço - ele acrescentou, quando ela começou a se debater selvagemente em seus braços – E, se não ficar quieta agora mesmo, pode apostar que não hesitarei em atirá-la novamente na piscina.

- Está bem, está bem ! - ela obedeceu à ordem, percebendo que realmente estava se comportando de maneira infantil. Shaoran só estava sendo amável e tentando evitar que seus pés ficassem aos pedaços.

- Está se sentindo bem ? - ele quis saber, detendo-se por um momento na soleira de uma das grandes salas para olhar a jovem inerte em seus braços.

- Sim... - não podia se sentir melhor e mais relaxada, pensou Sakura. Desfrutar daquele corpo quente, a pele nua e bronzeada junto à sua, a proximidade daquele rosto lindo... era demais ! Até mesmo o cachinho castanho que lhe caía sobre a fronte e o perfume másculo e almiscarado que penetrava em suas narinas contribuíam para que se sentisse estranhamente fraca. Quando ele atravessou a torre de menagem e começou a subir os degraus da escada em espiral, ela não pôde reprimir um suspirou de satisfação.

- Oh, Sakura ! - ele baixou a cabeça para fitá-la, mas ela rapidamente fechou os olhos - O que vou fazer com você, hein ? - seus lábios se alongaram num sorriso.

- Não sei - ela sussurrou, aconchegando-se ao seu ombro e seu peito enquanto ele continuava subindo os degraus. A ternura inesperada em sua voz a deixara sem fôlego. E, então, como que impelida por uma força acima de qualquer controle, ela acrescentou baixinho: - O que... o que você quer fazer comigo ?

Shaoran deu uma gargalhada enquanto atravessava a sala no andar superior e a colocava junto à lareira.

- Isso não é pergunta que se faça. Você, minha querida menina, deve ser cega, surda e muda se ainda não adivinhou o que eu quero fazer !

- Deveria ? - ela murmurou.

- Por favor ! - ele implorou, tão baixo que ela mal conseguia ouvir. Estava tentando desesperadamente não olhar para as curvas que se revelavam através da seda transparente da camisa aderida ao corpo como uma segunda pele. Também não precisava de uma campainha de alarme para descobrir que, se não saísse daquela sala no minuto seguinte, estaria em sérias encrencas !

- Shaoran ? - ela o chamou assustada, pois suas pernas começaram a tremer incontrolavelmente - Eu não sei o que está havendo comigo... mas sinto-me... muito esquisita.

- Você não é a única ! - ele respirou fundo e estendeu a mão para ampará-la. Por infelicidade, ao invés de segurar-lhe o braço, como era sua intenção, Shaoran viu-se tocando-lhe o seio.

Sakura vacilou. Seu peito arfante era o único som que quebrava o pesado silêncio. Sentia-se incapaz de se mover, de falar ou de desviar os olhos do rosto tenso, do músculo que pulsava ritmicamente ao lado do queixo rígido de Shaoran e do brilho febril de seu olhar.

Conforme o silêncio se prolongava, ambos permaneceram imóveis, aprisionados naqueles minutos que pareciam intermináveis. Parecia que o ontem, o hoje e o amanhã tinham deixado de existir. Nada mais havia no mundo a não ser aquelas duas figuras presas na armadilha do destino, enfeitiçadas por um encantamento além de qualquer controle.

E lentamente, muito lentamente, como se fosse um sonho, ou como se ambos estivessem sob o efeito de um poderoso anestésico, Shaoran a atraiu gentilmente de encontro ao peito. Sakura se deixou abandonar à magia do momento. Um arrepio percorreu-lhe a espinha enquanto sentia as mãos quentes de Shaoran deslizando sob a camisa úmida. Os dedos moviam-se suavemente para baixo e para cima traçando um caminho, explorando as curvas acentuadas de seus quadris e cintura, até subirem aos seios e se deterem eroticamente sobre os mamilos sensíveis.

Ela arquejou e deixou escapar um gemido rouco diante da onda de prazer que fluiu pelo seu corpo trêmulo. Agarrou-se impotente nos ombros largos, pois suas pernas ameaçavam se dobrar.

- Shaoran... eu...

Ele imediatamente baixou a cabeça e a calou com um beijo. Abraçava-a com frenesi, esmagando-lhe os seios contra seu peito musculoso e encaixando-se entre suas pernas de tal forma que ela sentiu-lhe o membro rígido.

- Estou quase louco de desejo. Não faz idéia do quanto a quero... - ele murmurou de encontro à sua boca, antes de levantar ligeiramente a cabeça para fitar-lhe os olhos verdes como esmeraldas.

A voz rouca e profunda penetrava-lhe os sentidos com uma força devastadora. Sakura sentia-se possuída por uma febre intensa e seu corpo, que estivera tão frio há poucos instantes, parecia agora estar pegando fogo. A necessidade física de se entregar a consumia além da razão, e ela envolveu-o pelo pescoço e afundou os dedos trêmulos em seus cabelos.

Um segundo depois, sentiu-se novamente carregada entre seus braços até o lugar onde havia arrumado os sacos com grama.

- Querida... - ele se ajoelhou ao seu lado e pegou-lhe o rosto entre as mãos - Acho que cheguei ao meu limite de autocontrole. Esta é a sua última chance, por isso, se não quiser...

- Eu quero... quero fazer amor com você - ela sussurrou, os braços se apertando em torno do pescoço de Shaoran enquanto entreabria os lábios ávidos por um beijo.

Um estremecimento percorreu o corpo de Shaoran ao ouvir aquelas palavras, e em seguida ele se deitou sobre ela. Os dedos de Sakura se fechavam convulsivamente em seus cabelos conforme os lábios dele se apossavam de sua boca com uma intensidade selvagem. Sentia-se como se estivesse sendo arrastada por uma correnteza de puro prazer e se entregou aos movimentos sensuais de seus lábios e língua, que exploravam-na completamente. Uma excitação nervosa pulsava em suas veias ao peso daquele corpo que a prendia.

Shaoran gemia roucamente ao se afastar de sua boca e beijar-lhe o pescoço, e muito lentamente, como se quisesse prolongar os momentos de prazer, tantas vezes reprimido, começou a desabotoar a camisa até afastá-la inteiramente e revelar-lhe a nudez, os seios firmes e alvos.

- Oh, como eu queria fazer amor com você. Desde o primeiro momento em que a vi - ele confessou, os olhos escurecendo ao fitá-la da cabeça aos pés.

Uma onda de excitação fluiu pelo corpo de Sakura ao ouvir aquelas palavras. Seu pulso acelerou diante do ardor daquele olhar que a devorava. Ao olhar para ele, ficou perplexa ao descobrir que não sentia vergonha, mas apenas prazer diante daquele olhar de admiração.

Um momento depois, ele se levantou e despiu rapidamente a calça. Os olhos de Sakura se arregalaram frente ao corpo másculo que em poucos instantes seria seu, e deixou que ele, em seguida, lhe tirasse a camisa e a deitasse novamente sobre os sacos.

- Você é tão linda... tão maravilhosa - ele murmurava, as mãos movendo-se gentilmente sobre suas coxas e sua cintura, para depois se fecharem sobre seus seios. Quando ele os beijou, Sakura gemeu incontrolavelmente. Estremecimentos de prazer a sacudiam, e ela perdeu todo o controle ao sentir uma dor aguda em suas entranhas.

Atormentada pelo desejo, seu corpo se movia febrilmente sob ele, à medida que o toque da boca e das mãos de Shaoran tornava-se mais íntimo, mais sensual, mais exigente. Seu corpo estava em chamas, e ela não podia mais suportar aquela tortura. Sentia o sangue latejar em sua cabeça e enlouqueceria ou morreria se ele não a possuísse imediatamente.

Com a respiração irregular e acelerada, Shaoran a fitou intensamente mais uma vez, como se quisesse imprimir em seu cérebro as formas daquela mulher adorável, e repentinamente entreabriu-lhe as pernas. Sakura gritou de êxtase ao ser penetrada e amada por aquele corpo forte. Sentia-se como se fosse explodir de amor, e agarrou-se a ele. A satisfação foi mútua e completa, e lágrimas de felicidade lhe escorreram pelo rosto.


Sakura abriu os olhos e pestanejou à luz brilhante do Sol vespertino que entrava pela janela. Com um suspiro de contentamento, espreguiçou languidamente o corpo cansado e dolorido, um leve rubor tingindo-lhe as faces à medida que imagens eróticas da relação amorosa que tivera com Shaoran voltavam-lhe à mente. Não era de admirar que o corpo lhe doesse ! Um sorriso iluminou-lhe o rosto ao recordar não apenas o desejo insaciável que Shaoran sentira por ela, como também o abandono espontâneo com que ela se entregara.

Como pudera julgá-lo um homem aborrecido e arrogante ? Uma risada histérica a sacudiu. Ele certamente não fora aborrecido nem arrogante quando por duas, ou talvez três vezes, a despertou de uma sonolência letárgica. Os carinhos apaixonados a inflamaram instantaneamente e a levaram ao ápice do prazer físico, que ela jamais imaginara experimentar algum dia. Só em pensar nas investidas poderosas daquele corpo viril, sentia as entranhas contraírem-se de excitação.

Decidida a não acordá-lo, Sakura se levantou com cuidado e vestiu a camisa de Shaoran antes de tomar o caminho em direção ao reservatório. Quando retornou pela escada em espiral alguns minutos mais tarde, ela carregava um prato de frutas e saladas, além das roupas que lavara pela manhã. Movendo-se silenciosamente, colocou o prato sobre a mala do ministro e saiu para explorar uma passagem escura, que se abria num canto remoto da imensa sala.

Oh, é lógico ! Deveria ter imaginado que havia um acesso à torre. Um local perfeito para se ter uma vista completa dos arredores montanhosos e para ela secar suas roupas. No instante seguinte, ela subiu pelos degraus altos e estreitos para emergir numa superfície plana, que era protegida por muros.

Ocupada em estender a roupa sobre o chão quente de pedra, Sakura ouviu um som à distância, que lhe pareceu ser de um veículo. Levantando-se imediatamente, encaminhou-se à extremidade da torre e se debruçou sobre o muro para olhar o vale. Sim, era um caminhão que se aproximava lentamente pela estrada sinuosa. Protegendo os olhos com as mãos, forçou a vista através da luz intensa e brilhante do Sol. Infelizmente, o veículo ainda estava a uma distância considerável e ela não tinha idéia do que fazer para atrair a atenção de seus ocupantes. Correu para a pilha de roupas para pegar a blusa que usara no dia anterior, e estava prestes a levantar o braço para agitá-la no ar quando subitamente se deteve. Ao refletir posteriormente sobre sua atitude, não soube dizer o que a impediu de agir, antes de olhar outra vez para o veículo.

O impulso inicial, e a euforia ao pensar que ela e Shaoran estavam sendo resgatados rapidamente transformou-se em pânico quando ela constatou que o caminhão cinzento, agora bem mais próximo do castelo, não era outro senão aquele que há vinte e quatro horas fora utilizado por Ranya e seus amigos terroristas para seqüestrar o ministro e transportá-lo para o cativeiro em Beirute.

- Acorde, Shaoran, pelo amor de Deus ! - ela gritou, ao descer correndo pela escada e irromper na sala.

- Humm ? - ele murmurou ao abrir os olhos e sorrir-lhe sonolento, antes de se virar para o outro lado e afundar a cabeça no improvisado saco de dormir.

- Shaoran, por favor, não é hora para voltar a dormir ! - ela gritou, correndo para o lado dele e se ajoelhando para sacudi-lo pelo ombros - Vamos... levante-se !

Com um suspiro de satisfação, Shaoran rolou sobre o saco e se deitou novamente de costas.

- Você é uma mulher maravilhosa ! - ele murmurou alegremente e levantou os braços para prendê-la de encontro ao peito - Não sei se ainda me resta energia, meu bem, mas vontade de fazer amor novamente com você não me falta...

- Pelo amor de Deus ! - Sakura gaguejou, momentaneamente distraída, ao ser puxada para cima dele. A boca firme e macia de Shaoran a impediu, por alguns instantes, de lhe revelar o que acabara de ver.

Apenas quando ele lentamente abandonou-lhe os lábios para procurar-lhe o pescoço e os seios, ela conseguiu voltar a si.

- Não. Shaoran, por favor... - ela gritou novamente - Não foi para isso que o acordei, seu idiota ! - ela esbravejou - Nós estamos com um problema gravíssimo.

- Que problema ?

- Precisamos fazer alguma coisa, e rápido. Não isso ! - ela acrescentou à beira da histeria, quando ele insistiu em lhe acariciar intimamente o corpo - Os inimigos estão chegando !

- Quem ?

- Oh, você sabe quem - ela finalmente conseguiu se libertar do toque daquelas mãos teimosas e se levantar - Aqueles terroristas, amigos de Ranya. Tenho absoluta certeza de que foi o caminhão deles que acabei de ver se aproximando do castelo.

Shaoran se sentou e passou a mão pelo rosto.

- Eu daria um milhão de dólares por um aparelho e por um tubo de creme para barbear.

- A falta de apetrechos para barbear é o menor dos problemas no momento. O que vamos fazer ? Não levará muito tempo para que cheguem aqui. Seremos apanhados como ratos numa armadilha !

- Está bem. Acalme-se. O pânico não nos levará a lugar algum - Shaoran finalmente se levantou - Quanto tempo acha que levarão para chegar até aqui ?

Sakura franziu a testa e hesitou por um segundo.

- Não sei dizer - ela encolheu os ombros - É difícil calcular a distância daqui de cima. Talvez tenhamos uma hora, talvez menos.

- Está totalmente segura de que se trata do mesmo caminhão ? - ele indagou, enquanto se dirigia à janela e vasculhava, com o olhar, a montanha.

Sakura respondeu com um movimento afirmativo de cabeça:

- Sim, infelizmente - ela suspirou profundamente.

Shaoran virou-se para ela e a fitou intensamente.

- Está bem, se você tem certeza, então é melhor que nos preparemos.

- Agora entendo o que você queria dizer a respeito da ampla vista daqui de cima - ele comentou após alguns instantes. Estavam sobre o teto da torre de menagem e ele olhava para o local indicado por Sakura. À distância, um veículo trafegava lentamente ao longo da estrada.

- É o mesmo caminhão que levou Hasan para Beirute, não é ? - ela quis saber.

Os lábios de Shaoran se apertaram.

- Sim, é o próprio - ele concordou - E, considerando-se a distância que ele percorreu, desde que você o avistou, creio que talvez só nos restem três quartos de hora para decidirmos o que fazer. Minha primeira idéia, já que conhecemos o castelo melhor do que eles, é tirar o maior proveito do que ele pode nos oferecer. Entretanto, não sei se a idéia é muito boa, já que não temos onde nos esconder.

Ela se debruçou sobre os muros da torre. Shaoran estava certo. A não ser pelos imensos blocos de pedra que circundavam a estrada, não havia nada a não ser uma vegetação rasteira nas encostas da montanha.

Sakura se virou para ele, repentinamente intrigada.

- Fiquei pensando no que você me falou e ainda não consegui entender o motivo de eles voltarem para cá. A bomba colocada na limusine certamente nos explodiria com ela.

- Bem... devo admitir que a princípio pensei o mesmo que você. Mas ontem, ao raciocinar melhor, cheguei à conclusão de que talvez a bomba fosse apenas destinada a explodir o nosso único meio de fuga. Como já lhe falei, eles provavelmente decidiram que a viagem valeria a pena, se eu ainda estivesse vivo, é claro - Shaoran deu um sorriso de ódio.

- Meu Deus, você dever ser podre de rico ! - ela exclamou, o rosto corando de vergonha conforme ele lhe dirigia um olhar divertido.

- Não sei quanto ao "podre", mas realmente sou bastante rico. Eu e minha família temos dólares o suficiente para atrair a atenção de qualquer bandido.

- Bem, eles não vão conseguir pegá-lo - ela afirmou feroz, abraçando-o protetoramente por um instante - Não se depender de mim.

Shaoran a estreitou entre os braços e afundou o rosto na maciez dos cabelos castanhos e perfumados.

- Aprecio a sua boa vontade e fico feliz em saber de seus sentimentos para comigo, mas, querida, acho que temos de enfrentar a realidade. Não há muita esperança...

- Oh, sim, é lógico que há ! - ela exclamou - Eu acabo de ter uma idéia. Estaremos seguros se...

O restante da frase foi abafada pelo súbito rugido de um caça a jato, surgido do nada, que passou sobre suas cabeças para desaparecer em seguida, deixando apenas um rastro de fumaça.

- Que diabos ? - Sakura gaguejou, enquanto dois outros jatos passavam em idêntica velocidade e assustadoramente baixos.

- A Força Aérea Síria - ele a informou, protegendo os olhos com as mãos, enquanto olhava para o céu.

- Devem estar nos procurando ! - ela gritou, entusiasmada - Você e o ministro eram esperados, ontem, naquele campo petrolífero em Baniyas, não eram ? E, como não chegaram até agora, devem ter imaginado que alguma coisa errada aconteceu para impedi-los de cumprirem o programado, certo ?

- Não necessariamente - ele franziu o cenho - Eu gostaria de acreditar nessa possibilidade, mas não arriscaria dinheiro numa aposta, nesse sentido.

- Oh, por favor, não seja tão derrotista ! - ela retrucou - Eu não conheço muito sobre os costumes americanos mas, na Inglaterra, o governo tomaria medidas imediatas caso o secretário de Estado ou o ministro do Comércio e Indústria fosse seqüestrado por terroristas.

Shaoran deu uma risada.

- Pode ter certeza de que o governo dos Estados Unidos faria, no mínimo, a mesma coisa.

- Então é isso o que está acontecendo. Assim que os sírios descobriram que você e o ministro desapareceram subitamente da face da Terra, começaram a acionar as Forças Armadas, a polícia e sabe Deus quem mais - Sakura declarou, excitada - E obviamente já estão nos procurando, nós precisamos tentar permanecer aqui até que venham nos resgatar.

- Oh, é claro... - ele murmurou, pessimista - Só existe um pequeno problema: como poderemos permanecer aqui ? Não creio que Ranya ou seu bando de criminosos nos darão ouvidos, quando nos debruçarmos sobre as muralhas para avisá-los de que não se aproximem do castelo, pois a Força Aérea Síria estará sobrevoando as montanhas a qualquer minuto.

- Pelo amor de Deus, Shaoran ! Você não ouviu uma palavra do que eu disse nos últimos dois dias ? - Sakura protestou, quase pulando de frustração - Já nem sei mais quantas vezes tentei fazer com que você parasse de pensar como um homem do século XX. Imagine-se como um cruzado, seiscentos anos atrás, vivendo neste castelo e vendo os inimigos sarracenos subindo pelas encostas da montanha para atacá-lo. O que você faria ? - ela indagou com indisfarçável irritação.

Shaoran deu de ombros e resolveu colaborar com a fantasia daquela garota maluca.

- Bem... imagino - ele hesitou - , imagino que ergueria a ponte de acesso sobre o fosso, e em seguida abaixaria as portas corrediças de ferro.

- Muito bem ! Já está em condições de chegar ao primeiro lugar da classe ! - ela sorriu, zombeteira - Por que não fazemos exatamente isso ? Sim... - ela acrescentou rapidamente, quando Shaoran abriu a boca para contestar: - Não sei se daremos conta, sozinhos, da ponte, mas quanto às portas corrediças, não custa tentar abaixá-las.

- O que você sugere para pormos este plano em prática ? - ele indagou, cético.

- Estão presas por correntes, certo ? Devem estar enferrujadas e emperradas, mas nós sempre podemos tentar quebrar algum elo. Temos o machado encontrado no museu e também o pé-de-cabra, que você encontrou entre os destroços da limusine. E então ?

Shaoran balançou a cabeça e olhou para o céu por um momento, como se estivesse em busca de uma inspiração.

- Tenho de dar a mão à palmatória, Sakura. A idéia é tão louca e absurda que, sozinho, eu jamais teria chegado a ela. Mas concordo que é a nossa única chance de nos defendermos. Talvez até funcione ! - ele deu uma risada e consultou o relógio - Nós não temos muito tempo, portanto, mãos à obra !


P. S.: Nos vemos no Capítulo 8.