Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Mary Lyons, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.
Capítulo 8
Sakura recuou alguns passos para admirar seu trabalho artesanal e, em seguida, se inclinou para empurrar o fundo do tambor de óleo um pouco mais para a frente, sobre as largas aberturas existentes na rampa, bem acima da entrada do castelo. Tanto ela quanto Shaoran estiveram empenhados até a alma durante a última meia hora com seus planos de defesa, mas naquele instante os preparativos estavam quase terminados. Era até um motivo de decepção não ver ou ouvir o caminhão dos terroristas se aproximar.
Levando em consideração o conselho de Shaoran de se manter o mais escondida possível, Sakura se levantou e caminhou cautelosamente até as muralhas da torre, para dar uma olhada na estrada. O Sol da tarde estava causticante e, além do desejo de poder contar com uma loção bronzeadora para proteger-lhe a pele alva e sensível, Sakura daria tudo para possuir, naquela hora, um par de binóculos. Será que se enganara ? Seria possível que a visão do caminhão cinzento se aproximando tivesse sido apenas uma miragem ? Não estava ansiosa pela chegada dos terroristas, mas também não queria se arriscar a enfrentar a ira de Shaoran se, depois de todo aquele trabalho, tudo fosse apenas fruto de uma alucinação. Mas ele também vira o caminhão, não vira ?
Ela se virou e encostou-se contra o muro áspero de pedra para olhar para a torre de menagem, que se elevava acima das outras construções que faziam parte do castelo, do outro lado do pátio. De onde estava, podia ver metade do corpo de Shaoran se movimentando sobre o telhado, inteiramente ocupado em colocar lenha sobre a fogueira. Ele tivera a brilhante idéia de queimar o velho pneu de borracha que haviam encontrado no museu. Ele alertara-a de que não seria fácil, mas com a lenha que cortara pela manhã e que conseguira carregar para o telhado, ele provocou praticamente um incêndio, com a fumaça negra se elevando em altas colunas em direção ao céu, visível a centenas de quilômetros de distância. Não poupara elogios à idéia magnífica de Shaoran e também à sugestão que ele fizera de aproveitarem a tinta branca ressequida, que também encontraram no interior do castelo.
Seguindo-lhe as instruções e utilizando-se de um pedaço achatado de madeira como pincel, ela conseguira pintar um grande "SOS" sobre a superfície do pátio aberto. Na verdade, após se recuperar do cinismo inicial em relação à sua proposta de defender o castelo contra as investidas de Ranya e sua gangue, Shaoran surgira com idéias realmente excelentes.
E, embora tivesse duvidado de sua capacidade de fazer com que abaixassem os portões, ele atacara os elos das correntes com vontade e determinação. Foi somente quando ele abandonou o pé-de-cabra e estava quase desistindo de esmagar os elos com o machado, que Sakura ouviu-lhe o grito de triunfo, imediatamente seguido por um estrondo, à medida que os pesados portões desabavam sobre a entrada do castelo.
- Não fique muito entusiasmada com a nossa façanha, pois não levará muito tempo e nem serão precisos muitos esforços para que eles quebrem os portões - Shaoran a avisou após uma rápida inspeção às barras delgadas, que estavam praticamente corroídas pela ferrugem. Mas Sakura não se deixara abater pela notícia, especialmente porque tinha em mente uma segunda linha de defesa. Entretanto, não fora de imediato que ela conseguira persuadi-lo a transportar os tambores de óleo para as rampas.
- Você não está falando a sério, não é, quanto a despejar óleo fervente através das aberturas ? - ele a fitara horrorizado. Mas a certeza que ela lhe deu de que os tambores apenas continham pequenas quantidades de petróleo, e que de qualquer modo, não tinha meios de fervê-lo, pareceu tranqüilizá-lo um pouco. Conforme lhe explicara, só usaria os tambores e despejaria o petróleo, se e quando estivessem realmente em perigo. Uma vez ateado o fogo, com um pouco de sorte poderiam assustar os inimigos e fazê-los recuar pela ponte, impedindo-os de penetrar no castelo.
Na sua própria opinião, a idéia era soberba, e não lhe agradou que Shaoran continuasse a balançar a cabeça de um lado para o outro, murmurando expressões como: "Essas mulheres..." ou "Essa garota sanguinária !"
Tudo aquilo, ela pensava agora, fora totalmente ridículo. Com tão pouca gasolina, como ele chamava o conteúdo dos tambores, ela mal poderia provocar uma labareda, que de qualquer forma logo se extinguiria. Além disso... ela olhou imediatamente para cima, de onde Shaoran a chamava, interrompendo-lhe os pensamentos.
- Não consigo imaginar onde aquele caminhão foi parar - ela confessou, enquanto subia correndo os últimos degraus para se juntar a Shaoran - Já estou começando a pensar que foi uma miragem.
Ele balançou a cabeça num movimento negativo.
- Infelizmente não. Eu acabo de vê-lo, e garanto que não levará mais de vinte minutos para chegar - ele se dirigiu para o beiral e olhou à distância - Como se trata de um caminhão muito velho, o motor deve ter fervido na tentativa de subir a montanha.
- Nossa... que cheiro horrível ! - ela exclamou, tampando as narinas devido ao odor forte e acre de borracha queimada.
- É por uma boa causa - ele replicou animado, enquanto revolvia as madeiras em chamas sob o pneu.
- E o que faremos enquanto isso ? - ela quis saber, sentindo-se subitamente nervosa e apreensiva, agora que nada mais tinham a fazer que pudesse distrair-lhes a mente.
Shaoran olhou para o seu relógio de pulso.
- Já que provavelmente ficaremos ocupados em impedir que Ranya e seu grupo invadam o castelo até o cair da noite, acho melhor comermos alguma coisa enquanto podemos.
Mesmo que Sakura não soubesse como poderia engolir algum alimento numa situação como aquela, teve de concordar que a sugestão de Shaoran fazia sentido.
- Tem certeza de que não quer mais nada ? - ele indagou, após alguns minutos.
- Oh, não. Mesmo que tentasse, eu não conseguiria digerir - ela lhe sorriu pesarosamente - Após tanta salada, tenho um certo pressentimento de que a qualquer momento me transformarei em um coelho !
Shaoran riu da idéia e se levantou para pôr mais lenha na fogueira. Em seguida, sentou-se novamente junto dela.
- Sei que parece uma tolice, mas já que os terroristas estão por perto e que não há jeito de escaparmos, eu gostaria que tudo isso acabasse logo de uma vez - Sakura torcia as mãos, tomada pelo nervosismo.
- Dizem que a espera é a parte mais difícil de uma ação - ele concordou, enquanto a enlaçava pela cintura e a atraía ao seu encontro - Aliás... - ele se interrompeu, franzindo o cenho e se levantando de um salto.
- Sim, eu também ouvi um ruído de motor - ela se levantou em seguida e o acompanhou até a muralha.
Ao olhar para a estrada, reconheceram que os ouvidos não lhes falharam. Lá estava, envolvido por uma nuvem de vapor, o caminhão que fora usado para o seqüestro de Hasan. Grata pelo conforto que os braços de Shaoran lhe ofereciam, Sakura observou o caminhão se aproximar do platô onde estavam os destroços enegrecidos da limusine.
- O que faremos agora ? - ela sussurrou.
- Não precisa falar tão baixo - Shaoran sorriu - Ninguém está nos ouvindo - ele comentou, enquanto observava os homens que desciam do caminhão.
- Minha vontade é de que o chão se abra sob os meus pés para que eu possa me esconder - ela se lamentou - Agora que o momento está chegando, não sei o que fazer.
- Você é a perita em assuntos de guerras medievais, querida, mas, como montamos barricadas, acho que o próximo passo será atacá-los.
- Sabe, eu estava pensando... não seria bom tentarmos conversar com Ranya ? - Sakura sugeriu - Sei que ela é astuta e perigosa, mas...
- Havia alguma coisa martelando-me a cabeça e eu não conseguia adivinhar o quê ! - ele estalou os dedos - Onde estará Ranya ? Ela é, sem sombra de dúvida, o cérebro do grupo, mas não parece ter vindo junto com seus homens. Quem sabe, portanto, não tenhamos muito com o que nos preocupar.
Os olhos de Sakura se estreitaram ao fixar o cenário ameaçador. Após um suspiro de desalento, voltou-se para Shaoran.
- Estamos sem sorte. Nós esperávamos vê-la de vestido e sapatos de salto alto como da primeira vez, mas certamente é ela quem está do lado do veículo, em roupas masculinas, sacudindo o braço e apontando para cá, em nossa direção.
- Tem razão - ele resmungou. Agora que estavam mais próximos, ele também vira que Ranya e três de seus acompanhantes estavam vestidos com uniformes de combate, estampados com um padrão de camuflagem. Também não havia dúvida sobre quem era o chefe do grupo. Gritando e gesticulando, Ranya conduzia os homens através do platô, em direção à entrada do castelo.
- Eles parecem ter saído de um campo de batalha - ela acrescentou, no instante em que Shaoran a puxou para o abrigo por trás da rampa.
- Desculpe, querida, mas os desgraçados estão muito próximos e não quero expor-nos a riscos desnecessários. O que estava dizendo ?
- Bem, não sei se estou sendo otimista demais, mas eu estava imaginando se o governo sírio, que possui quartéis também em Beirute, já não está empenhado em localizar Hasan. Será que Ranya e seus amigos já se defrontaram com eles numa verdadeira luta ?
- É possível - Shaoran estremeceu - Mas isso só pioraria as coisas para nós. Se eles voltaram para me buscar somente por eu ser sua última e única esperança de conseguirem dinheiro, então não desistirão com muita facilidade de sua intenção. Não quero que faça nada que a ponha em perigo, está bem ?
- Está bem. Mensagem recebida - Sakura afirmou, tentando parecer mais confiante do que se sentia - Posso ter escrito um livro sobre a época medieval e suas guerras, mas jamais imaginei que existia tanta diferença entre o estudo e a prática. Você me entende ? - ela deu um riso nervoso.
- Sei exatamente o que está querendo dizer - ele respondeu num tom carinhoso - E, pelos urros de fúria que vêm lá de baixo, a bruxa já deve ter descoberto que nós fechamos os portões.
Um momento depois, um novo troar riscou o céu. Eram os três caças que voavam em estreita formação sobre suas cabeças e desapareciam por trás das montanhas.
- Estamos salvos ! - Sakura gritou, excitada, e teria saltado e agitado os braços, se não fosse pela mão firme de Shaoran a detê-la.
- Não se anime demais ! - ele a alertou - Embora eles sejam impressionantes e estejam por perto, não há um aeroporto nem clareira onde possam aterrissar. O que precisaríamos, querida, seria de alguns tanques pesados, que pudessem vir pela estrada ao nosso encalço. Mas até que isso aconteça, só podemos contar um com o outro.
- Ranya é quem deve se preparar para um grande choque, não ? Ela mal pode imaginar o que a espera ! - Sakura comentou, tentando parecer corajosa e confiante, mesmo que seu sorriso fosse pálido e trêmulo - Ela aprenderá que nosso lema é "Render-se jamais !"
- Oh, meu amor ! - Shaoran murmurou, puxando-a ao seu encontro e abraçando-a com força - Tudo aconteceu tão rápido entre nós... mas quero que você saiba, haja o que houver, que pela primeira vez em minha vida... - o restante das palavras foi abafado pelos jatos que novamente cruzaram o céu sobre o castelo.
- Que droga ! É melhor eu dar uma descida até os portões para ver o que está acontecendo - Sakura gritou a plenos pulmões para se fazer ouvir.
Numa corrida desenfreada pelas escadas e através do pátio, ela tentava sufocar a raiva contra a Força Aérea Síria. Tinha certeza, ou quase, de que Shaoran estivera prestes a lhe confessar que se apaixonara por ela. Talvez fosse isso exatamente o que ele iria lhe dizer, se os malditos aviões não tivessem feito tanto barulho. Entretanto, não havia mais tempo para pensar sobre seu relacionamento com Shaoran, ela considerou, enquanto subia cuidadosamente a rampa sobre a entrada do castelo. Movendo-se em silêncio, ela olhou através de uma das aberturas estreitas do conglomerado de pedra. A cena à sua frente a fez esquecer momentaneamente o pânico e a preocupação. Três homens armados estavam imóveis na outra extremidade da ponte e, apesar de todos os gritos e ameaças de Ranya, parecia que eles estavam tão apavorados em atravessá-la quanto a própria Sakura estivera no dia da chegada.
Engatinhando-se para o local onde deixara os tambores de óleo, ela mordeu o lábio, tomada de indecisão. Não podia confiar em sua suposição de que o pânico impediria todos os três homens de atravessá-la. Eventualmente um deles poderia arrumar coragem e chegar até o castelo... e então ? Infelizmente, o que Shaoran dissera era a pura verdade. Os portões de ferro estavam corroídos pela ferrugem e não resistiriam por muito tempo contra golpes e investidas.
Ao se inclinar sobre uma das aberturas, Sakura percebeu que, naquele instante, dois dos homens cruzavam a ponte sobre o abismo e a invasão era iminente. Não havia um minuto a perder. Sakura puxou a alavanca sobre a base do tambor, entornando-o ligeiramente para que o líquido escoasse. Apanhou o pavio improvisado no começo da tarde, que não era nada mais que uma tira de tecido, e retirou do bolso o isqueiro de Shaoran. Tentando controlar o tremor de suas mãos, acendeu-o e, quando teve certeza de que não apagaria, deixou-o cair pela abertura em direção à mancha negra que se alastrava cada vez mais no andar inferior.
Ao recordar o episódio algum tempo depois, Sakura chegou à conclusão de que Shaoran estivera certo, como sempre. Ela realmente não deveria ter ignorado suas insistentes advertências de que brincar com materiais inflamáveis poderia ser perigoso. Jamais imaginara que ocorreria uma explosão tão violenta quando o petróleo se incendiou, e muito menos que as chamas e o calor subiriam ate o túnel em que ela se escondera. Quando as chamas avançaram em sua direção, ela pulou imediatamente para trás e tropeçou no tambor, derrubando-o pela abertura. Os segundos seguintes transcorreram com a rapidez de um raio. Em estado de choque, Sakura só percebeu que dois dos homens corriam da ponte, sem dar ouvidos aos gritos de Ranya, até chegarem próximos ao caminhão. No mesmo instante houve uma horrível explosão e o chão estremeceu como se estivessem em meio a um terremoto. Quando voltou a si, ela viu-se deitada com a cabeça sobre o colo de Shaoran, que lhe perguntava ansiosamente se estava se sentindo bem.
- Eu... estou... bem - ela murmurou - O que aconteceu ?
Ele foi sacudido por uma gargalhada.
- Vou lhe contar o que aconteceu - ele ajudou-a a se levantar - Juro que nunca vi nada tão engraçado ! - ele acrescentou, ao enxugar as lágrimas dos olhos e apontar para o caminhão. Em rápida aceleração, o veículo se distanciava do platô e era perseguido por Ranya e mais um dos terroristas, ambos gritando para que parasse, obviamente sem serem ouvidos.
- E isso não é tudo, sua maluquinha ! - Shaoran continuou, enquanto a puxava para o beiral da rampa - Pode cruzar os dedos e rezar para que sejamos resgatados muito em breve. Você não apenas ateou fogo no tambor de gasolina e afugentou Ranya e o bando, mas também conseguiu explodir a ponte sobre o abismo !
Sakura olhou pela janela e reclamou em voz alta ao notar que a vista para o rio Cherwell estava novamente obscurecida por uma chuva torrencial. Será que nunca iria parar de chover ? Os estrangeiros acusavam os ingleses de serem obcecados pelo tempo, mas quem poderia culpá-los por terem nascido naquela terra úmida ? Nos dois meses seguintes ao seu retorno da Síria, fizera apenas um ou dois dias de Sol. Os cinqüenta e oito dias restantes viram apenas céu nublado ou dilúvios.
Mas por que estava se importando com isso ?, ela se perguntou, amargurada. O céu nublado e cinzento era um mero reflexo de sua vida, também monótona e cinzenta. Até mesmo a conferência que ela estivera preparando durante toda a manhã, e que iria ministrar antes do almoço, parecia-lhe tediosa. Somente um estudante muito interessado em História Medieval se dignaria a sair de casa num dia como aquele, para ouvir sobre os reinados e fortalezas dos cruzados. Mas mesmo que alguém aparecesse, o tema daquela palestra era algo que ela preferia esquecer. Desde o dia em que inadvertidamente explodira a ponte sobre o abismo que circundava o castelo de Saladin, toda a sua vida também começara a desmoronar.
No momento não lhe parecera que seria assim, é claro. Ela e Shaoran estavam delirantes de alegria por terem conseguido se salvar da ameaça de um seqüestro. Após um rápido e refrescante mergulho no reservatório, voltaram completamente exaustos para a torre de menagem.
Fora idéia de Shaoran carregarem os sacos de dormir para o telhado, onde se instalaram para admirar o crepúsculo vermelho, à medida que o Sol se escondia lentamente no horizonte. Foram breves momentos de paz e companheirismo afetuoso, quando pouco falaram, ambos sentindo-se plenamente felizes apenas por estarem um com o outro, saboreando a tranqüilidade silenciosa da noite. Mais tarde, estreitamente abraçados, mergulharam num sono profundo e sem sonhos.
E exatamente assim foram encontrados ! A luz brilhante e incandescente de um helicóptero focalizando os corpos nus, com as pernas entrelaçadas.
Sakura estremeceu à lembrança do que fora o momento mais horrivelmente embaraçoso de toda a sua vida. Mesmo agora, passados dois meses, sentia um nó na garganta e as faces queimarem quando se lembrava da súbita chegada dos helicópteros da Força Aérea Síria, um dos quais aterrissou sobre o platô, do lado de fora do castelo, enquanto o outro pairava sobre a torre. Aquilo certamente era material para qualquer pesadelo ! Tanto ela quanto Shaoran estavam tão profundamente adormecidos, tão esgotados após os traumas sofridos, que não ouviram a aproximação dos helicópteros até que pararam sobre eles. E, mesmo assim, sua mente confusa e entorpecida levara algum tempo para perceber o que estava acontecendo.
Entre a furiosa movimentação das hélices, o som amplificado do rádio em comunicação com a base aérea em Damasco e, acima de tudo, a luz ofuscante se dirigindo sobre seu corpo nu, Sakura levou alguns instantes para se dar conta da situação. Então, com um grito estrangulado, ela se levantou e correu pelas escadas em busca de refúgio na sala da lareira. Vestiu-se febrilmente com a primeira roupa que encontrou, apanhou a bolsa, algumas roupas de Shaoran, e subiu novamente as escadas que davam para o telhado.
Nunca conseguiria esquecer a expressão de embaraço no rosto de Shaoran, claramente espelhado no seu, quando lhe entregou a camisa e a calça que usara no dia do seqüestro de Hasan. Jamais conseguiria esquecer, também, o sorriso malicioso dos dois membros da Força Aérea Síria, quando lhes atiraram uma corda. Tomando rapidamente as roupas de suas mãos, Shaoran se vestiu e, após poucos segundos foram içados para o helicóptero.
Perplexa pela velocidade dos acontecimentos e incapaz de se fazer ouvir sobre o ruído do motor, não houve tempo nem oportunidade para que ambos se falassem. Mesmo após terem aterrissado num aeroporto militar perto de Damasco, Shaoran fora tão rápida e urgentemente levado, que ela não tivera chance de se despedir do homem por quem se apaixonara tão perdidamente.
As vinte e quatro horas seguintes foram igualmente tenebrosas. Embora as autoridades sírias tivessem feito o máximo para o seu conforto - roupas adequadas, acomodações luxuosas num hotel e um lugar no primeiro vôo de volta para a Europa - , recusaram-se a lhe dar qualquer informação sobre o paradeiro de Shaoran. Apesar de todas as suas tentativas desesperadas de encontrá-lo, o silêncio sobre qualquer assunto que se relacionasse ao banqueiro americano era total. A única informação que conseguira obter, por um comentário casual pouco antes de embarcar, fora que o ministro do Interior estava vivo e bem em sua casa em Damasco. Isso, ao menos, dera-lhe um grande alívio.
Mas, daquele dia em diante, nunca mais ouvira falar nem recebera nenhuma comunicação sobre Shaoran Li.
Com um suspiro de tristeza, Sakura se encaminhou para sua escrivaninha. Fora uma tola, ela se repreendeu ao recolher as anotações para a conferência. Cada dia que passara durante aqueles longos e tediosos meses apenas servira para aumentar seu amor sem esperanças e a saudade do homem com quem partilhara os momentos mais felizes e perigosos de sua vida. Apesar de continuamente dizer a si mesma que era ilógico esperar que ele sentisse o mesmo... um homem tão rico e atraente, que certamente considerara aquele relacionamento apenas como um episódio agradável em sua vida atribulada... ela não desistia de rezar por um milagre.
Até quando agiria assim ?, ela se perguntou ao se preparar para sair da sala. Ao invés de ficar se torturando sobre a falta de notícias de Shaoran, deveria estar de joelhos, agradecendo a Deus por estar salva, e por nenhum de seus conhecidos de Oxford estar a par das idiotices de que ela era capaz.
A chuva ainda era intensa quando Sakura atravessou, de bicicleta, a Ponte de Madalena. Não pôde evitar um impropério ao ser ultrapassada por um carro, que lhe espirrou uma tonelada de água.
- Este realmente não é o meu dia ! - ela se deteve, enquanto o carro parava logo à frente. O motorista, um antigo professor, parecia estar tentando lembrar o que tinha para lhe dizer.
- Ah, sim... - ele sorriu - Por favor, dê lembranças à sua tia, quando ela voltar de viagem, sim ?
- Serão dadas, obrigada ! - e, com a desculpa de que estava atrasada para a palestra, ela escapou, pedalando furiosamente pelo Jardim Botânico enquanto tentava não se apavorar com a idéia de que a tia iria retornar de sua visita a Angola.
A única coisa que podia fazer era rezar e esperar que a viagem não resultasse na costumeira avalanche de refugiados, que via de regra chegavam à imensa casa da Woodstock Road no meio da noite, sem dinheiro para se sustentarem. A própria Sakura fora forçada a se refugiar em sua sala na faculdade durante as últimas seis semanas, expulsa da casa onde crescera por estranhos que encontrara dormindo em sua cama, e pelo incrível barulho que faziam, falando os mais diferentes idiomas.
Mas talvez devesse ter permanecido na casa, apesar dos pesares, mesmo que a residência houvesse se transformado numa espécie de Torre de Babel, ela pensou, ao entrar no prédio onde ministraria a palestra. Na paz e silêncio reinantes entre as paredes da faculdade, nada encontrara que pudesse distraí-la... nada que lhe perturbasse os dias solitários em que não conseguia parar de pensar em Shaoran.
Se esperava que o passar do tempo e a completa dedicação ao trabalho fossem curá-la da profunda saudade e da necessidade da presença de Shaoran, as esperanças foram substituídas pelo desapontamento. As noites, em particular, eram extremamente difíceis de suportar. Quantas vezes adormecera ao amanhecer, após as longas noites insones, e acordava com o rosto banhado em lágrimas ?
Enquanto tirava a capa de chuva ensopada e subia a ampla escadaria de mármore, Sakura procurou se esforçar para tirar de sua mente tudo o que não se relacionasse com a aula que estava prestes a iniciar. Ela entrou na sala, que mais parecia um salão de baile com seu teto alto e decoração barroca, e colocou as anotações sobre o pódio. Esperou que os alunos parassem de falar e tomassem seus lugares.
Após uma rápida contagem mental, sentiu-se satisfeita em constatar que ao menos quinze indivíduos enfrentaram o mau tempo para ouvi-la. Como a maioria dos professores e conferencistas, sempre receava que houvesse um dia em que ninguém comparecesse, uma vez que as palestras não eram obrigatórias ao currículo. Contudo, como isso não lhe acontecera naquele dia, ela fazia questão de presenteá-los com uma exposição o mais curta, concisa e interessante possível.
Respirando fundo, ela começou:
- Bom dia. Pretendo descrever-lhes, hoje, a instituição do reinado de Jerusalém pelo conde Godfrey e pela armada frâncica, até a invasão de Saladin...
"Meus pés estão duros de frio ! Aposto que vou apanhar um resfriado. Também não seria de admirar, depois de toda a chuva que tomei !", Sakura pensou, aborrecida, quinze minutos depois, ao virar a ficha de anotações e continuar com a palestra.
- Com a ascensão de Baldwin II, o reinado de Jerusalém atingiu seu apogeu. Contudo... - ela fez uma pausa quando ouviu a porta da sala se abrir. Não podia acreditar em seus olhos. Ali, parado na soleira, estava o homem alto e forte que representava tudo o que ela mais desejava na vida.
P. S.: E, a seguir, o último capítulo.
