Faziam dois meses desde que Severus tinha morrido, dois meses desde que tinha voltado a vida, dois meses que salvou a vida da sua mãe e dois meses que tudo mudou. Desde que ele chegou parece que não foi só ele, mas todos a sua volta também mudaram. Finalmente sem Tobias sua mãe aos poucos voltava a usar magia, já conseguia fazer algumas poções e feitiços simples. Seu eu mais novo cortou todos os laços com os Malfoy, tentava se afastar de seus amigos futuros comensais e agora tentava focar nas suas habilidades defensivas para fugir dos Marotos quando voltasse para a escola.
E por fim ele mesmo, depois do excesso do uso de magia no dia de sua volta Severus se apresentou ao ministério da magia como Severus Prince, o irmão bastardo de Eileen que tinha sido criado em segredo na mansão Prince para não causar escândalo, pois era um meio-sangue. Porém após anos buscando a sua irmã chegou bem a tempo de salvá-la de seu marido trouxa. Como não havia mais nenhum Prince vivo apenas o testemunho de Eileen e uma poção de parentesco foram o suficiente para confirmar sua história. Com essa nova identidade também assumiu as posses e o dinheiro da família Prince, mas desta vez o utilizou para reformar e modificar a casa de sua infância, não era uma mansão, mas agora havia quartos e conforto para todos os habitantes. Eileen insistiu para que ele morasse com ela e seu filho.
Prince tentou suprir a todas as necessidades que eles tinham e passou todo o tempo possível com eles quando não estava trabalhando em seu plano. Especialmente com o Severus mais novo, que estava apenas se adaptando a viver em sua nova casa. O adolescente se apegou facilmente a ele, como uma criança com sua primeira varinha.
Ele e Eileen acabaram criando uma relação quase fraternal. Afinal agora eles tinham quase a mesma idade, ele não era mais um garoto de 16 anos que tinha acabado de perder a mãe e sua única amizade verdadeira. Mas um homem amargurado pelo tempo em busca de sua segunda chance, assim como ela. E juntos tentavam mostrar para o jovem Severus um melhor caminho, tinham esperança que aquele menino não cometeria tantos erros quanto os dois e um dia fosse feliz.
- Então - Prince falou demoradamente. - Oclumência. Você concluiu a leitura preliminar que eu te mostrei?
Snape assentiu. - Sim tio - Ele preferia chamar sua versão mais velha de tio. Ele nunca tivera contato com nenhum de seus parentes, mas era como se aquele fosse o mais próximo de guardião que algum dia teve. Era muito bizarro pensar que aquele que estava o ajudando durante todo o verão era apenas ele mais velho, esse pensamento o fazia se sentir mais solitário ainda. Quando pensava que era seu tio pelo menos parecia que outra pessoa se importava com ele
- Quero que se lembre de todas as anotações. Oclumência exige muita concentração e força de vontade, o segredo está em ter mais força de vontade do que seu oponente. Da última vez aprendi era Lucius quem tentava invadir a minha mente, mas eu não serei tão complacente quanto ele, então foque.
- Estou pronto tio - O jovem afirmou, tinha passado a última semana inteira treinando para esse momento. Teria que passar o teste antes de Hogwarts se quisesse se salvar de Mulcibier e Avery ou qualquer outro que tentasse o recrutar. E a última coisa que queria era passar o resto da sua vida nessa guerra como seu tio. Estaria muito bem se abstendo desta vez
- Então iremos para a parte prática. Levante-se. Como se você quisesse se defender.
Snape levantou-se cautelosamente. Olhando para sua mãe que observava com sempre a uma distância
- Legilimens! - O mais velho disse, uma certa satisfação em sua voz.
Foi uma sensação totalmente nova e bizarra para Snape. Imagens se perseguiam através de sua cabeça. Sua mãe cozinhando em silêncio. Lily fazendo uma flor com a mão. A primeira vez que ele conseguiu fazer Lumos. Tobias batendo nele com uma frigideira. O ódio no olhar de Tobias pronto para matar sua mãe antes de seu tio aparecer...
De repente, o fluxo de imagens parou. Snape, confuso, viu-se ensopado de suor e ofegante. Ele não fez nada para se defender, e se sentia frustrado, tinha falhado com seu tio. Se preparou para o escárnio de Prince, como o tinha visto fazer com Harry Potter uma vez em suas memórias.
O adulto, no entanto, não disse nada. Em vez disso, ele olhou para o jovem, como se estivesse examinando uma poção que se comportou inesperadamente. - Mais uma vez
Ele lançou o feitiço antes que Snape pudesse abrir a boca, e novamente eles estavam no mundo das memórias. Desta vez, porém, ele sentiu algo diferente. Sentiu a mão se sua mãe tocar a sua, e ela disse gentilmente em seu ouvido - Vamos Sev, nós acreditamos em você
Em resposta as palavras vinham em sua mente: Se a legilimência é a porta aberta, a oclumência é a porta fechada. Como uma porta, a mente pode ser aberta ou fechada a qualquer momento, mas nunca as duas ao mesmo tempo. O mago tolo escolhe sempre a porta aberta e, portanto, arrisca a exposição de seus próprios segredos. O mago sábio escolhe algumas vezes uma, outras vezes, conforme sua necessidade.
Feche a porta.
Severus sentiu um empurrão em sua mente, e ele cambaleou para trás, e então houve silêncio novamente. Mais uma vez, a intrusão cessou. Snape estremeceu. A saída de seu tio havia doído naquela época. O coração de Snape bateu dolorosamente no peito.
Prince olhou para Snape, procurando por seus traços. Então, aparentemente satisfeito, ele se recostou na cadeira. - Desde que você saiba disso - falou demoradamente. - ninguém irá brincar com sua mente. Estará livre de qualquer comensal
Sua mãe e tio sorriam com orgulho para ele. Severus sentiu algo que não sentia desde que brigará com Lily, se sentiu amado
Lily estava sentada na sala com um livro na mão fingindo ser capaz de se concentrar em qualquer palavra em sua frente. Desde o incidente no parque Lily não havia saído de casa. Primeiro estava apreensiva demais achando que tinha sido expulsa de Hogwarts pelo uso de magia fora da escola, mas sua lista de materiais foi entregue normalmente. Depois estava com muito medo de encontrar Severus novamente
As memórias que o viajante do tempo mostrou para ela tiveram um efeito catalisador em sua vida. Suas emoções estavam à flor da pele a todo momento. Quando ela assistiu sua morte pode sentir a dor e o sofrimento daquele homem, sentiu todo o arrependimento e o amor que ele tinha por ela. E aquele sentimento a assustava, a assustava muito.
- Só para você saber, acho que você está melhor sem ele. - Lily levantou o olhar e viu sua irmã em pé em sua frente. Petúnia cruzou os braços sobre o peito.
As sobrancelhas de Lily se ergueram. - Eu o quê?
Petúnia estalou a língua. - Aquele garoto. Mamãe me contou sobre isso. É por isso que você anda estranha o verão inteiro não é?
Lily não disse nada. Depois de tudo o que viu nem se lembrava que Severus já tinha sido um menino. A briga que tiveram parecia a mil anos luz de distância em sua mente e em seu coração.
- E acho que estava mais do que na hora de você procurar companhias melhores - continuou Petúnia. Lily queria se afastar da conversa, encolheu os ombros como se pudesse se proteger dela. - Mas lamento que ele tenha dito coisas tão horríveis para você, eu acho - acrescentou ela em voz baixa.
Algo surgiu dentro de Lily. Algo que a dividiu bem no meio; Petúnia não demonstrava empatia com ela a séculos, e o fato de que ela estava fazendo uma exceção era suficiente para trazer um nó à garganta de Lily, e as lágrimas começaram a perfurar o fundo de seus olhos.
Lily não conseguia encontrar seus olhos, olhando tão forte para os joelhos que sentiu seus ossos começarem a queimar. Ela engoliu em seco contra a dureza crua e ardente na garganta. Pela primeira vez em muito tempo quis dividir sua angústia com sua irmã
Petúnia estalou a língua novamente, sem se impressionar. - Não sei quantas te vi tendo que defender ele. E ele nunca levantou nenhum dedo para te ajudar, nunca. Se fosse para fugir do pai acho que entregaria sua cabeça de bandeja. Eu não posso acreditar que você ficou amiga dele por tanto tempo, se eu for honesta.
Lily hesitou com a boca aberta para falar, piscando para a irmã e depois mordeu o lábio. Voldemort, a profecia, seu corpo morto estirado ao chão. A vida inteira de Severus dedicada a redimir sua traição. Ela desviou o olhar apressadamente, tentando apagar as imagens que invadiam sua cabeça.
Ela sentiu os olhos de sua irmã mais velha pousaram nela, como uma pressão física em sua pele, e então ouviu Petúnia suspirar. Quando ela falou, sua voz estava muito mais próxima e muito mais suave. - Você está melhor sem ele, Lily.
- Ele era meu amigo. - Foi tudo o que conseguiu dizer
Petúnia fez um barulhinho no fundo da garganta; quando Lily olhou para cima, ela tinha uma sobrancelha desenhada e os lábios franzidos. - Estou falando sério, Lily - Petúnia acrescentou se dirigido a porta. - Você não precisa de alguém assim em sua vida.
Lily assentiu, quando a irmã se virou para ir embora. Talvez fosse melhor apenas esquecer de Severus, de qualquer um deles. Ela tinha vivido pouco, mas pelo menos parecia ter sido feliz… Seu cérebro se acalmava quando pensava nisso, mas seu coração gritava toda vez em que pensava em esquecer do homem ensanguentado que surgiu no parque. Lily estava atormentada e parecia que iria ficar assim por um bom tempo.
Em suas duas vidas Severus nunca se sentiu tão apreensivo ao chegar na plataforma 9 ¾ quanto estava desta vez. Pois não era ele que embarcaria, mas sim o jovem Sev, um menino que mesmo sendo ele, era uma pessoa totalmente diferente. Tudo o que acontecia de novo na vida do jovem Sev não mudava em nada em sua memória, era quase como este fosse um Severus de uma realidade paralela. E depois de dois meses de intensa convivência Severus sentia um apego aquele menino como nunca tinha sentido por ninguém antes, um sentimento de proteção que não teve nem mesmo com Harry Potter. As vezes ele se perguntava se era assim ter um filho…
- Adeus mãe - Sua versão jovem abraçou sem jeito a mãe - Adeus tio Severus - O menino olhou apreensivo para o homem que chamava de tio
No momento em que o trem estava chegando na plataforma, eles viram algo passando por eles. Ambos Severus se viraram olhando para a menina correndo para trem. Ela carregava uma a bolsa em uma mão e uma varinha de bruxa na outra. Ela estava vestindo roupas trouxas gastas, e parecia que tinha envelhecido no verão, mas seu rosto estava brilhando. Para Prince, ela nunca foi tão bonita. Para Snape ele nunca sentiu tanta saudades de sua melhor amiga
- Lily? - Snape perguntou calmamente, caminhando em direção ao fim da plataforma. - Lily?- Ele disse com sua voz destruída, ela se assustou e virou-se para ele. Seus olhares se cruzaram, mas a menina apenas se virou para o trem e embarcou
Severus colocou a mão no ombro esquerdo do menino - Eu sou a única pessoa no mundo que entende como Hogwarts é solitário sem Lílian Evans. Porém você entende algo que eu nunca vi, você sabe que nem Avery, nem Mulciber ou qualquer outro seguidor do Lorde das Trevas será capaz de suprir o vazio que ela deixou. Você já está trilhando um caminho diferente, talvez ela consiga enxergar isso esse ano. Eu tenho certeza que você encontrará o caminho certo para passar por isso, tenho total confiança em você. Depois de tão pouco tempos juntos eu consigo ver que você será um homem muito melhor do que eu jamais fui - O menino segurava as lágrimas que se formavam em seus olhos. Depois da briga entre ele e Lily ninguém acreditou tanto nele mesmo e por um bom tempo ele acreditou que ninguém o olharia assim de novo - E sempre se lembre, eu estou apenas a uma carta de distância
