Sem você
Nick's POV
Depois de Finnick muito insistir, Nick concordara em ir com ele a uma boate. Aparentemente seu amigo não conseguia entender sua vontade de ficar em casa, mas ele não precisava que ninguém entendesse. Desde que Judy fora embora de Zootopia, a raposa se sentia triste, principalmente quando se lembrava das últimas palavras dela para ele na estação de trem.
A coelha dissera que o amava e ele ficara calado, sem reação, como um idiota. E desde então não se falaram mais; e isso ocorrera há um mês. Judy devia estar furiosa com ele, ou pior, decepcionada, pensando que ele a usara; e a cada dia que passava, Nick ficava mais relutante em ligar para ela.
The prettiest girl in the room, she wants me
(A garota mais bonita do lugar, ela me quer)
I know because she told me so
(Eu sei porque ela me disse isso)
She says: Come over, I'd like to get to know you
(Ela diz: Venha, eu gostaria de te conhecer)
But I just don't think I can
(Mas eu simplesmente não acho que possa)
De repente Finnick, que havia se afastado dele para providenciar bebidas, se aproximou com um copo em cada mão; e junto de um dos copos havia um guardanapo com um número de telefone. Finnick lhe entregou o copo com o guardanapo.
— O que é isso? — ele indagou lendo o papel desanimado.
— O que você acha que é? — Finnick questionou ironicamente. — É o telefone daquela raposa que está servindo as bebidas. Aparentemente seu olhar melancólico a atraiu — concluiu sorrindo sugestivamente.
Nick olhou na direção da raposa e ela também o encarou com um sorriso sedutor. Ele fez um aceno com a cabeça em sua direção, porém logo desviou os olhos dos dela. Finnick o encarou chocado.
— O que pensa que está fazendo, Nick? Ela disse que sai daqui à meia-noite. Tenho certeza de que se você ligar agora, ela vai te encontrar.
— Não estou interessado — Nick respondeu em um dar de ombros.
— O quê? Ela é a maior gata. Você está maluco?
— Não. Só não estou interessado — a raposa reafirmou um pouco constrangido. — Você devia tentar conversar com ela. Talvez explicar que sou um idiota e que você seria uma escolha muito melhor; ou talvez dizer que eu tenho uma namorada.
— Mas você não tem, Nick! Ela foi embora. Desencana — Finnick contestou com um pouco de raiva.
— Eu sei, mas...
— Não tem 'mas', cara. Já faz um mês; e o que vocês tiveram foi um lance casual. Não fizeram juras de amor eterno ou sequer mantiveram contato... Está na hora de seguir em frente. Você tem que parar de agir como um monge e...
— Finnick! — Nick chamou em um tom de voz um pouco mais alto, forçando seu amigo a encará-lo. — Tudo isso é verdade, mas eu não estou interessado. Não vou ficar com outra pensando nela, e eu realmente espero que você entenda isso e pare de insistir. Somos amigos, mas você tem que parar de tentar controlar o que eu sinto — explicou apelando para a consideração que seu amigo tinha por ele.
— Tudo bem. Não vou insistir — concordou Finnick suspirando. — Dessa vez — concluiu antes de se afastar.
Nick deu um gole em sua bebida, no entanto, ela parecia insossa. Deu o copo para alguém que passava à sua frente e, a seguir, se dirigiu à saída. Só queria ir para casa afinal, se era para continuar pensando em Judy e nos momentos que vivenciaram, era melhor fazer isso em casa.
I still keep your shampoo in my shower
(Eu mantenho seu xampu no meu banheiro)
In case you wanna wash your hair
(Para o caso de você querer lavar seu cabelo)
And I know that you probably found yourself some more, somewhere
(E eu sei que você provavelmente encontrou mais, em algum lugar)
But I do not really care, 'cause as long as it is there
(Mas eu realmente não me importo, porque enquanto ele estiver lá)
Quando chegou em casa, a raposa se livrou de suas roupas, que a essa altura cheiravam a cigarro devido ao ambiente em que estivera, e foi para o chuveiro. Sabia que depois de uma boa noite de sono acordaria mais disposto. Entrou debaixo d´água, se virou para pegar o sabonete líquido e seus olhos se fixaram no xampu que Judy esquecera em sua casa; um xampu com o cheiro de mirtilos, algo que ele vinha evitando desde que Judy partira, exceto nesses momentos.
Nick pegou o xampu, abriu o frasco para sentir seu perfume e fechou os olhos; no mesmo instante a cena do dia em que a coelha usara aquele xampu, veio à sua mente. O corpo dela colado ao seu, inebriando seus sentidos... Nick ainda podia ouvir sua voz sussurrando em seus ouvidos, seduzindo-o enquanto ele a imprensava contra a parede.
A raposa sentiu um arrepio percorrer seu corpo e abriu os olhos para se deparar com uma ereção. Suspirou sentindo-se frustrado. Uma raposa maravilhosa que queria sair com ele naquela mesma noite não lhe causara uma reação dessas, mas uma coelha que estava a quilômetros de distância e que já não via há mais de um mês, o deixava assim apenas com uma lembrança.
Nick sacudiu a cabeça em incredulidade, sentindo seu coração martelar em seu peito e seus ouvidos. Não tinha jeito. Já sabia o que aconteceria a seguir; mais uma vez agiria como um adolescente. Ao menos desta vez já estava debaixo do chuveiro.
I still feel like you man
(Eu ainda me sinto como seu homem)
Your man
(Seu homem)
Ever since the day we've met
(Desde o dia em que nos conhecemos)
— Nick, isso não pode continuar — disse Finnick preocupado. — Você não consegue sequer focar no trabalho; e, aparentemente, não tem dormido muito à noite também, já que todo dia cochila no meu furgão.
Finnick realmente parecia temer que seu amigo acabasse tendo um colapso caso não começasse a se cuidar.
— E sabe o que é pior? Sabe? — a raposa negou com a cabeça. — Você sempre chama por ela quando está dormindo.
— Não chamo — Nick contestou com os olhos arregalados.
— Chama, sim. Judy... — Finnick o imitou com um olhar apaixonado. — Judy...
— Já chega — Nick retrucou com raiva quase o pegando pela camisa. Mesmo se isso fosse verdade, Finnick não tinha o direito de zombar de sua situação.
— Exatamente. Já chega — seu amigo insistiu.
— Isso vai passar — respondeu a raposa e Finnick o fitou com ceticismo.
— Foi o que você disse há um mês; e agora já faz dois meses que ela foi embora de Zootopia, mas você continua assim.
— E o que você quer que eu faça? — Nick indagou frustrado.
— Eu não sei. Que tal ligar pra ela?
— Não — ele negou veementemente. — Judy está seguindo seu sonho; e talvez já tenha me esquecido e esteja com outro.
— E quanto aos seus sonhos? Vai viver preso a uma lembrança? — Finnick insistiu um pouco mais agressivo. — Ligando para ela ao menos vai saber se...
— Não!
— Mas...
— Não, Finnick! Essa conversa termina aqui! — concluiu Nick batendo a porta com força ao sair do furgão.
Em sua opinião, Finnick deveria ser seu amigo e não o perturbar daquele jeito.
Pouco depois de Nick sair do furgão, Finnick percebeu que ele esquecera seu telefone e isso lhe dera uma bela ideia, ao menos era algo que ele considerava bom afinal, poderia fazer algo que talvez ajudasse Nick verdadeiramente naquele momento. Pegando o aparelho, ele buscou o número de Judy e ligou para ela.
O telefone tocou algumas vezes e Finnick chegou a acreditar que não seria atendido, mas, por fim, uma voz feminina soou em seus ouvidos.
— Oi, Nick — a voz disse parecendo animada e nervosa ao mesmo tempo.
— Não é o Nick — ele respondeu em um tom sério e grave. — Eu gostaria de saber se estou falando com a coelha que quebrou o coração do meu melhor amigo.
Sabia que talvez estivesse sendo um pouco duro demais, entretanto, não conseguira evitar; não depois de ver o estado em que Nick estava.
— Meu nome é Judy, se se refere a mim — a voz replicou angustiada.
— Ótimo. Então estou falando com a coelha certa — Finnick prosseguiu implacável. — Seja lá o que fez com meu amigo, eu o quero de volta. Não quero esse idiota que fica pelos cantos se lamentando com saudades de você, sem querer sair de casa e recusando todas as fêmeas que cruzam seu caminho.
Finnick tinha ciência de que estava expondo a vida particular de seu amigo à uma pessoa que talvez nem sequer se importasse com o fato de ele estar vivo, mas sabia que se Judy se importasse com ele, não poderia permanecer indiferente ao que acabara de ouvir.
— Com quem eu falo?
— Finnick.
— O que você disse sobre o Nick é verdade? — ela indagou receosa. — Ele disse que sente saudades de mim?
— Ele não precisa dizer — Finnick explicou em um tom mais suave, ao perceber que ela parecia genuinamente preocupada com Nick. — Desde que você foi embora ele não quer mais sair de casa pra ir a nenhuma festa e quando, por fim, consigo convencê-lo, ele vai embora cedo, sem qualquer explicação. Além disso, ele parou de comer mirtilos. Mirtilos! Simplesmente a coisa que ele mais ama no mundo. Mas, ainda assim, mantém um xampu de mirtilos no banheiro de casa.
Um silencio estranho se seguiu do outro lado da linha diante dessas palavras.
— Devo continuar ou já há provas suficientes de que você quebrou o coração do Nick? — Judy respirou fundo e Finnick temeu que tivesse ido longe demais em seu ataque.
— O Nick... Onde ele está?
— Nós discutimos e ele esqueceu o telefone no meu furgão — disse Finnick consternado. — Ele me mataria se soubesse que liguei pra você, portanto, peço segredo.
— Claro. Não vou contar nada.
— E o que pretende fazer com relação a ele? — insistiu afoito.
— Prometo que vou dar um jeito nisso. Não se preocupe — a jovem respondeu, parecendo estar um pouco mais controlada. — E muito obrigada por me ligar e contar o que está acontecendo.
— Me agradeça trazendo meu amigo de volta — Finnick pediu, e nunca agira de maneira mais sincera do que neste momento. Só queria o bem de Nick.
— Pode ter certeza de que eu vou — Judy replicou com convicção e Finnick sentiu que ela não mentia.
Still like the letters in your name and how they feel, babe
(Ainda gosto das letras do seu nome e de como elas soam, amor)
Still think I'm never gonna find another you
(Ainda acho que nunca vou encontrar outra como você)
Still like to leave the party early and go home, babe
(Ainda gosto de sair das festas cedo e ir pra casa, amor)
And don't you know, babe?
(E você não sabe, amor?)
I'd rather sit here on my own and be alone, babe
(Eu prefiro me sentar aqui e ficar sozinho, amor)
A briga entre Nick e Finnick não durara muito tempo, cerca de dois dias depois já haviam se entendido e Nick recuperara seu telefone. A raposa nunca gostara de brigas, ainda mais com seu melhor amigo, e ver que Finnick estava disposto a deixar Judy fora de seus assuntos no futuro, o deixara mais que satisfeito.
Não era culpa dela se ele se sentia melhor ficando em sua própria casa ou se voltava cedo das festas. Se voltava cedo, era porque, na verdade, nem gostaria de ter ido em primeiro lugar. E, definitivamente, não era culpa da coelha, se ele não conseguia tirá-la de sua cabeça. Ao menos dentro de casa ele podia se entregar à sua solidão sem perturbar ninguém, concluiu após sair do chuveiro e ouvir a campainha tocar.
Rapidamente Nick secou o corpo e vestiu um par de calças antes de seguir para a porta. A única pessoa que vinha visitá-lo ultimamente era Finnick, então não havia necessidade em ficar totalmente apresentável. Ele ainda secava sua cabeça quando a porta.
— Judy?! — disse surpreso. — O que está fazendo aqui?
Não era como se estivesse infeliz em vê-la, mas Judy era a última pessoa que esperava ver naquele momento.
— Eu...
A coelha parecia levemente perdida, assim como ele, então aquele primeiro momento de reencontro foi estranho e confuso. Nenhum dos dois parecia saber muito bem o que fazer.
— Por que você não me ligou?
Nick desviou seus olhos dos dela envergonhado. Judy demorara a falar, mas fora bem direta.
— Você não quer entrar? — a raposa indagou tentando mudar de assunto.
— Não antes de saber a resposta — Judy retrucou com convicção e ele suspirou. — Por que não me ligou?
— O que você queria que eu fizesse, Judy? — Nick perguntou sentindo-se nervoso. — Que te ligasse todos os dias implorando pra você voltar pra mim, por que eu estava definhando sem você? — A coelha arregalou os olhos claramente surpresa. — No que isso teria ajudado?
— Eu disse que te amava. Você não achou que eu faria de tudo pra voltar pra você se você me desse algum tipo de sinal de que sentia o mesmo? — Judy rebateu furiosa.
— E era isso que eu não queria que você fizesse — Nick respondeu ainda mais irritado. — Eu não queria que você desistisse do seu sonho por mim. Você acha que eu quero carregar esse tipo de peso nas costas? Acha que eu poderia destruir os sonhos da coelha que eu amo? É isso que pensa de mim?
Nick estava com os nervos à flor da pele, mas não podia deixar que ela pensasse que não entrara em contato por indiferença. Agora que Judy estava à sua frente, não havia meios de conter o que sentia verdadeiramente por ela.
— Você não... — a coelha iniciou parecendo assustada; e ele temeu as próximas palavras que cruzariam seus lábios. — Você não acha que meus sonhos podem ter mudado um pouco depois que nos conhecemos?
Esta resposta o pegou totalmente desprevenido. Era óbvio que isso nem sequer passara por sua cabeça.
— Eu... Não. Eu não pensei que seus sonhos tivessem mudado. Não por minha causa. Eu não valho os sonhos de ninguém — explicou chocado com aquela possibilidade. — Eu pensei que você só tinha dito que me amava porque estava confusa afinal, eu fui o seu primeiro macho e... — Judy segurou o rosto dele com ambas as patas e lhe deu um beijo apaixonado.
— Não estou confusa — ela disse ao afastar seu rosto do dele. — Estou apaixonada por você. Amo você; e não consegui te tirar da cabeça desde que nos separamos. Desde então, você faz parte de todos os meus sonhos.
Os olhos de Nick ficaram levemente úmidos e ele deu um sorriso emocionado.
— Todos? — questionou sem acreditar. — E como são esses sonhos? — Judy corou e o sorriso de Nick se alargou, se tornando levemente malicioso. — Algo me diz que nesses sonhos acabamos sem roupas. — A coelha lhe deu um tapa no ombro, porém estava rindo. — Fale a verdade, Cenourinha... — ele pediu envolvendo-a pela cintura.
— E se for? — ela perguntou desafiadora.
— Podemos torná-los realidade.
— Não sei, não. Foram muitos sonhos.
— Muitos, quanto?
— Não sei... Quanto tempo fiquei fora? — Judy brincou fingindo estar pensativa.
— Dois meses.
— Nossa! Tudo isso? Então teríamos sessenta dias de sonhos para pôr em dia... É muita coisa.
— Muito mais se contarmos com os meus.
— Vai dar muito trabalho e tomar muito tempo.
— Pelo menos não ficaremos entediados — ele ponderou e a coelha deu uma gargalhada antes de abraçá-lo.
— Acho que seria impossível eu ficar entediada perto de você — a jovem sussurrou encostando seu focinho no pescoço dele, deixando-o arrepiado.
— Mas e quanto à academia? — Nick perguntou preocupado. — Não posso permitir que você desista do seu sonho mais precioso por mim; embora seja extremamente tentador.
— Bom... Eu não desisti da academia — a coelha explicou. — Eu só pedi uma transferência pra academia de Zootopia. — Ele a segurou pelos ombros para poder encará-la.
— É verdade? — indagou ansioso e Judy assentiu. — Então você vai morar em Zootopia? Vai poder ficar comigo? — Nick insistiu como se não acreditasse em seus ouvidos.
— É verdade, Nick — ela respondeu sorrindo. — Aliás... — Judy iniciou um pouco envergonhada. — Eu queria saber se posso ficar aqui por alguns dias, até conseguir conversar com minhas amigas ou encontrar um lugar pra ficar. — A jovem pegou a mochila que havia deixado ao lado da porta para indicar que não tinha para onde ir.
— Está louca, Judy? — a raposa perguntou voltando a se aproximar dela. — Você devia se perguntar se eu vou deixar você ir embora algum dia depois que formos pro meu quarto. — Nick a pegou no colo, com mochila e tudo, e colou seus lábios nos dela.
— Tem certeza de que...? — ele a silenciou novamente com um beijo e a levou para dentro de casa.
— Pergunte mais tarde, se ainda tiver alguma dúvida — a raposa falou ao fechar a porta com uma de suas patas inferiores. — Embora eu tenha certeza de que, nas próximas horas, vou deixar muito claro o que sinto e o que quero.
— Horas? — Judy questionou corando e Nick apenas deu um sorriso malicioso antes de levá-la para o quarto e cobrir seu corpo com o dele. Não queria perder nenhum segundo em demonstrar o quanto sentira a falta dela.
I still feel like you man
(Eu ainda me sinto como seu homem)
[Still Feel Like Your Man – John Mayer]
Término: 28/08/2017.
