"Eu vejo muitas pessoas morrerem por não acreditarem que a vida vale a pena ser vivida. Eu vejo outras serem paradoxalmente mortas pelas ideias ou ilusões que dão a elas razão de viver. O que nós chamamos de razão de viver é, também, uma excelente razão para morrer." — The Myth of Sisyphus, Albert Camus.


"Achilles
Achilles
Achilles come down, won't you
Get up off
Get up off the roof?" Achilles, come down, Gang of Youths.


Eu sentia como se durante a minha vida inteira eu estivesse lendo um livro, cuja história era tão lúcida e imperfeitamente realista que eu me esforçaria para ler até o fim. Sabe quando você já começou e mesmo que se torne insípida em algum momento, ainda existem aquelas possibilidades que te fazem querer saber o que vem em seguida? Eu cheguei em um ponto em que essas possibilidades foram dizimadas e parece não haver motivos suficientes para continuar. Eu estava desesperado para fechar o livro e tentar uma nova história.

E é aí que vem o plot twist.

Esse não é um livro que você pode simplesmente fechar, Leorio. É a sua própria história. É a sua vida.

"Não se cobre tanto, Leo." Eu ouço você dizer, depois de muito tempo.

Eu já tinha me conformado com a ideia de que você não mais voltaria. Então eu devo estar uma lástima. Eu tenho sustentado meu corpo com uma dieta que inclui basicamente benzodiazepina. É por isso que você está aqui agora, não é? Talvez seja por isso que eu tenha parado, tão de repente. Porque eu tenho me sentido terrivelmente solitário.

Eu sei como isso pode ser desastroso. A dependência. Porque eu sou um médico. Eu conheço os riscos, os efeitos colaterais. As pílulas me ajudaram por um tempo. Mas em uma época como essa – em que você se sente sozinho ainda que haja pessoas todos os dias desde muito cedo ao seu lado, e todos os seus esforços para salvar alguém caem por terra e você percebe que, mesmo que você se entregue completamente, sempre vão existir coisas que fogem da sua capacidade, que estão fora do seu alcance – eu sinto falta de um verdadeiro propósito. E foi você quem me fez chegar até aqui, então eu achei que se você viesse e me fizesse um pouco de companhia, talvez eu me lembrasse de algo importante.

Algo que não me deixe quebrar se eu perder mais um paciente. Algo que não permita que as minhas esperanças sejam enterradas com o próximo.

"Você não pode ter controle sobre tudo o que acontece na vida. " Ele rebate, como se pudesse ler os meus pensamentos. Ou talvez eu só esteja deixando tudo muito óbvio para ele chegar a essa conclusão sem precisar investigar a minha mente, ao olhar tão insistentemente lá para baixo, debruçado sobre o parapeito.

"Não é só você. Ninguém ainda foi capaz de encontrar a cura, esse é um terreno em que poucos já pisaram antes. Você não poderia ter salvo todas aquelas pessoas. Nem outro em seu lugar. Você se dedicou mais do que qualquer um teria feito. Ultrapassou os limites do seu próprio corpo; mas você também precisa de descanso. Se continuar nesse ritmo, é você quem vai acabar se matando. É isso mesmo o que você quer?"

Eu não sei mais o que eu quero. Eu achei que você pudesse me ajudar a descobrir...

"Venha, Leo. Está tudo bem, eu não vou embora. Tente dormir um pouco. " Ele me ofereceu a mão e me conduziu até a cama.

Eu queria muito poder sentir isso outra vez. Poder tocar alguém sem me sentir culpado, ou como se eu estivesse perpetuando o ciclo de contaminação pelo contato. Mas com você está tudo bem, porque eu não posso te infectar. Você vai permanecer intacto para sempre.


Plot twist: reviravolta no enredo.

Benzodiazepina: psicofármaco usado no tratamento de ansiedade e insônia.