Parte 2

Sawyer sentiu uma mãozinha macia tocado-lhe o rosto, mas que logo foi substituída por dedos longos tocando-lhe o olho esquerdo e forçando-o a se abrir para receber um facho de luz UV que o fez piscar diversas vezes.

- Mas o que... – ele reclamou, incomodado pela luz.

- James!- disse uma voz masculina muito familiar ao ouvidos dele. – Consegue me ouvir?

- É claro que eu consigo te ouvir, Jackass!- falou Sawyer, malcriado. Finalmente tinha acordado de seu sonho e estava na ilha outra vez; pelo menos foi o que ele pensou por algumas segundos até abrir completamente os olhos e se deparar com uma menininha de cabelos loiros e cacheados, usando pijama e fraldas, de pé ao lado dele, encarando-o com o olhar doce.

- Papí!- ela gritou empolgada ao ver Sawyer de olhos abertos. – Mamí, papí "codou"!

Sawyer se sentou no sofá de imediato encarando Jack que estava diante dele ainda segurando a lanterna de luz UV, usando um estetoscópio ao redor do pescoço.

- Mas o que diabos está acontecendo?- ele perguntou.

Ana-Lucia apareceu nesse momento e pegou a menina loira nos braços, acomodando-a de lado em seu quadril.

- Eu te disse que ele estava estranho.- ela falou para Jack.

- Ele pode ter tido uma pequena concussão.- avaliou o médico.

Sawyer balançou a cabeça negativamente.

- Ok, eu pensei que estava sonhando quando eu acordei na cama com a Lulu aí - ele apontou para Ana-Lucia. – Mas definitivamente se eu estivesse sonhando, você não estaria no meu sonho, doutor.

- As pupilas dele estão um pouco dilatadas.- disse Jack. – Acho que seria bom para ele fazer alguns exames.

Ana concordou.

- Eu vou indo. Descansa, meu amigo.- disse Jack dando um tapinha no ombro dele.

- Peraí, Jack!- pediu Sawyer se levantando do sofá.

Jack esperou.

- Se nós fomos resgatados, pra onde foi todo mundo? Cadê a Kate?

- Resgatados?- retrucou Ana-Lucia.

- Todo mundo?- indagou Jack franzindo o cenho. – De todo mundo eu não sei, mas a Kate está em casa, dormindo. Os últimos três meses tem sido difíceis com a chegada da nenê.

- Casa? Nenê?

Jack tirou um comprimido do bolso de sua camisa e entregou para Sawyer.

- James, toma isso e vai dormir, cara. Amanhã dá uma passada lá na clínica pra gente fazer uns exames.

- Obrigada por ter vindo, Jack.- disse Ana.

- Sem problemas.- Jack respondeu. – Põe o James pra descansar.

- Pode deixar.- Ana respondeu.

A garotinha que ela segurava no colo, choramingou e esfregou o rostinho no ombro dela.

- Ok, Lucy, hora de te levar de volta pra cama.- disse Ana pacientemente.

Sawyer ficou segurando a pílula que Jack deu pra ele enquanto tentava encontrar alguma resposta plausível para tudo o que estava acontecendo, quando de repente algo que ele não tinha considerado antes lhe veio à mente: - E se ao invés da ilha, aquela casa fosse a realidade? E se Ana-Lucia Cortez fosse mesmo sua esposa pelos últimos dez anos como ela dissera? E se aquela família fosse mesmo a sua?

- Ana, me mostra aonde foi que eu bati a cabeça.- ele pediu.

- Eu te mostro assim que eu puser a Lucy na cama.- ela disse descendo indo para o corredor. –

Ele olhou para as escadas que davam para o andar de baixo da casa procurando pela cozinha e deu de cara com um cachorro labrador preto e enorme.

- Vincent?- ele falou, confuso até que leu o nome na coleira do cachorro que dizia "John Locke."

Sawyer arregalou os olhos e comentou consigo mesmo: - Se a gente tiver um peixinho dourado capaz do nome dele ser Hurley. Ele fez um carinho na cabeça do cachorro e desceu as escadas para continuar explorando a casa.

A sala de estar era ainda maior que a sala de televisão do andar de cima, com um conjunto de sofá de veludo azul que formava um semi-círculo sobre um tapete persa felpudo cujas cores combinavam com o sofá e as almofadas azuis, brancas e cinzas. Bem no canto, ao lado do sofá havia uma janela de vidro ampla onde um pinheiro de verdade dentro de um vaso vermelho exibia suas luzes pisca-pisca enquanto seus galhos e folhas estavam cobertos de decorações de natal. Acima da árvore havia um quadro que dizia: "Lar dos Ford." Logo ao lado do quadro, encostado na parede havia um aparador com copos e candelabros de cristal longos e finos sob uma toalha dcorativa cinza toda bordada com motivos de cisnes; nesse mesmo aparador, Sawyer viu uma fotogarafia dele com Ana, Jack, Kate, Charlie e Claire. Eles estavam sentados ao redor de uma mesa segurando garrafinhas de cerveja, aparentmente brindando algo.

- James?- Ana-Lucia chamou atrás dele. Estava tão distraído que nem notou os passos dela descendo as escadas.

- Como você sabe que o meu nome é James?- ele perguntou ainda tentando fazer algum tipo de conexão com a ilha.

- Ok, agora você está realmente me assustando. Talvez a gente devesse ir pra clínica agora.

Ele balançou a cabeça negativamente e disse:

- Eu só preciso ver onde foi que aconteceu o acidente.

Ana-Lucia prontamente o levou para a garagem e mostrou a ele as prateleiras onde estavam as caixas com as decorações de natal, especificamente a caixa que tinha caído na cabeça dele. Sawyer analizou a caixa, era relativamente pesada e se estivesse cheia de coisas como ela tinha dito antes era bem possível que o impacto tivesse causado algum tipo de confusão mental.

Um jogo de tabuleiro na parte mais baixa da prateleira lhe chamou a atenção e ele se abaixou para pegá-lo. O título do jogo dizia: "Lost. Escape da ilha se puder!" Logo abaixo do título havia um avião em chamas com um logo que dizia: "Oceanic 815." Ele colocou o jogo de volta no lugar e falou:

- Então chica, você é a minha esposa?

- A única, meu bem.- ela respondeu.

- E nós temos dois filhos?- ele queria confirmar.

- Três.- Ana disse.

- Três?- ele retrucou. – Jake, Lucy e...

- Noah!- ela acrescentou com o cenho franzido.

- Sim...Noah.- Sawyer repetiu.

- James, vamos na emergência.- ela insistiu. – Você não está falando coisa coi coisa.

- Não.- ele disse puxando-a pela cintura e a trazendo para mais perto dele. – Porque eu tenho algo mais urgente pra resolver aqui com você.

- Como o quê?- ela perguntou, mas de certa maneira ela já sabia a resposta antes mesmo de sentir a boca dele devorando a dela em um beijo profundo e selvagem.

Ela se deixou beijar por alguns momentos, mas logo em seguida interrompeu o beijo, indagando ao mesmo tempo em que tentava recobrar o fôlego.

- O que foi isso, homem?

Ele apenas sorriu para ela, sensualmente exibindo suas covinhas de pegá-la no colo e levá-la de volta para dentro da casa.

Continua...