Parte 9

Apenas as criaturas da noite foram testemunhas do despertar angustiado de Sawyer naquela noite. Havia acordado em sua cama de palha e travesseiros do Oceanic, debaixo de um teto de lona de plástico, bem diferente do teto de gesso branco do quarto que divida com sua esposa Ana-Lucia, com quem tinha três lindos filhos: Noah, Jacob and Lucy.

- Não!- ele repetiu, choroso passando a mão pelo travesseiro do avião buscando sentir a pele quente de Ana sob seus dedos enquanto se amavam apaixonadamente. Mas ela não estava lá. Nada daquilo era real. "Ela está morta!" A mente dele gritou e Sawyer saiu de sua tenda descalço e sem camisa, correndo pela areia.

- Hey dude!- Hurley exclamou ao vê-lo correndo daquele jeito.

Mas Sawyer não o escutou. Aliás, ele não escutou ou viu ninguém em seu caminho enquanto suas pernas o levavam o mais rápido possível para o cemitério. Por mais que fosse doer, ele precisava ver o túmulo dela. Quando chegou ao triste jardim que guardava os mortos da comunidade deles, Sawyer viu quatro covas, quatro nomes e leu-os mentalmente.

"Edward Marshall, Scott...Boone...Shannon e…"

Ele puxou uma respiração profunda quando não encontrou a quinta cova que deveria pertencer à Ana-Lucia. Ela não estava ali. Para onde tinham levado o corpo dela?

- Sawyer!- uma voz familiar o chamou.

Voltou-se para ver Kate diante dele olhando-o com ar de curiosidade.

- O que está fazendo?

Normalmente ver Kate sempre mexia com ele, mas naquele momento ele não deu a mínima para a presença dela.

- Aonde ela está?- indagou sério.

- Quem?- Kate perguntou de cenho franzido.

- Ana-Lucia.- ele respondeu.

- Por que quer saber da Ana-Lucia?- ela retrucou, confusa.

- Porque ela... – "morreu" ele ia dizer mas de repente seu olhar identificou a mulher morena de longos cabelos e olhar zangado passeando na praia parecendo muito pensativa.

- Estou vendo que você a encontrou.- disse Kate cruzando os braços na frente do peito. – Você vai pedir desculpas para ela? Porque pra mim você não pediu.

- Desculpas pelo que?- Sawyer perguntou segurando a própria emoção diante do fato de que ela estava viva na ilha.

- Desculpas pela canalhice que você fez com ela, comigo, com o Jack e o Locke...

Sawyer olhou para ela como se não entendesse do que ela estava falando.

- As armas que você surrupiou às nossas custas, Sawyer!

Então foi aí que ele entendeu. Tinha retornado para a ilha, mas antes da morte de Ana-Lucia. Teria sido tudo um sonho afinal? Sua vida de casado com ela em Dharmaville e até mesmo sua morte? Como ele poderia ter dormido tanto para sonhar com tudo aquilo? Pareceu tão real.

- Eu só perguntei sobre ela porque queria saber se ela estava bem.

- Está finalmente se sentindo culpado?- retrucou Kate. – Ótimo! Se vai pedir desculpas para ela, mal posso esperar para que venha pedir desculpas pra mim.- acrescentou deixando-o sozinho.

Sawyer se lembrava sim do que tinha feito na noite anterior, embora por conta de seus sonhos parecesse que tinha sido há muito tempo atrás. Ele voltou a olhar para Ana-Lucia na praia, ela tinha parado em frente às ondas e fitava o horizonte. O coração dele bateu forte dentro do peito. Resolveu se aproximar devagar sem se importar muito com as pessoas que o olhavam enquanto ele caminhava para perto dela.

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Ana-Lucia sentou-se na areia molhada e deixou que as pequenas ondas lavassem seus pés. Estava tão distraída que não percebeu que alguém se aproximava. Sawyer sentou-se bem ao lado dela na areia. Ana olhou para ele confusa porque não entendia a razão dele ter sentado ao seu lado.

- Eu queria me desculpar.- ele disse sem olhar para ela.

- Se desculpar?- Ana indagou erguendo uma sobrancelha.

- Pela minha canalhice de ontem.- ele usou as palavras de Kate. – Eu não deveria ter te usado para fazer com que a Kate fosse até o Jack tentar destruir sua reputação. – Foi jogo sujo...

- Que reputação?- ela disse e eles finalmente se olharam.

Ana definitivamente não estava preparada para olhar fundo naqueles olhos azuis e sentir o que sentiu: interesse, necessidade, excitação. Como ela ainda não tinha reparado que ele tinha os olhos mais doces que já vira.

- Se você tinha uma, chica, eu tenho certeza que arruinei.

- Não que eu não tenha merecido.- ela falou tentando parecer casual, mas o estômago se contraía em ondas de ansiedade que não soube explicar.

- Por que diz isso?- perguntou Sawyer.

Ela deu uma risadinha amarga.

- Tem certeza de que não se lembra do que eu te fiz?

- Ah, lollypop, eu não sou rancoroso.- disse com um sorriso de covinhas.

Ana-Lucia ficou toda arrepiada com aquele sorriso.

- Como está o seu ombro?- ela perguntou olhando para a ferida que cicatrizava enquanto tentava não fixar seu olhar no peito sarado e nu dele. "Meus Deus, o que está acontecendo comigo?"

- Melhorando.- respondeu. – Mas agora aposto que o doutor vai cancelar o meu plano de saúde.

Ela acabou sorrindo.

- Você foi um menino muito mal.

Sawyer mordeu o lábio inferior, queria dizer a ela uma coisa mas estava um pouco nervoso. Mesmo assim as palavras saíram antes que pudesse parar a si mesmo.

- Quer fazer alguma coisa comigo hoje à noite?

- Como é?- ela indagou surpresa.

- Ah...eu pensei que a gente pudesse...comer juntos e olhar as estrelas?

- Cowboy, está me convidando para um encontro?

- Se você quiser chamar de encontro, nenê.

Ele queria parecer confiante mas estava gritando de medo por dentro. Ela ficou olhando para ele surpresa por alguns segundos e Sawyer achou que ela fosse lhe dar um soco bem no meio da cara, mas ao invés disso, Ana se ergueu, bateu a areia das calças e disse:

- Me pega às 8.

Logo depois de dizer isso ela o deixou sozinho. Sawyer ficou lá sentado algum tempo pensando no que poderia fazer naquela noite para o encontro deles.

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Sawyer colocou algumas gotas de perfume no pescoço e atrás das orelhas. Arrumou os cabelos com os dedos e ajustou o colarinho da camisa xadrez azul. Um encontro com Ana-Lucia na ilha. Ele nunca tinha pensado que uma coisa assim seria possível entre eles mas depois de ter sonhado que ela morria na ilha e dos sonhos sobre ser casado com ela, os sentimentos dele pela latina tinham definitivamente mudado. Já não a via como uma pessoa agressiva e egoísta porque sabia que aquela postura dela tinha a ver com sofrimento tanto quanto ele mesmo se comportava. Como um dia pudera julgá-la?

Quando fui buscá-la às oito em ponto depois de perguntar a hora para algumas pessoas que ainda tinham o relógio funcionando na ilha, ele a encontrou esperando por ele na porta de sua tenda. Estava de banho tomado, com os cabelos presos em um rabo de cavalo, usando roupas limpas, uma camiseta branca e shorte jeans esfiapado, os pés descalços na areia fresca assim como os dele.

- Boa noite.- ele disse com um sorriso charmoso.

- Boa noite, cowboy.- ela disse ainda pensando consigo no quão estranha aquela situação era.

- Está pronta?- perguntou não sabendo o que dizer.

- Você está?- ela devolveu.

- Touché.- ele disse.

A praia estava quieta naquela noite e ninguém prestou atenção em Sawyer e Ana-Lucia caminhando juntos. Ela não sabia muito o que esperar da noite mas Sawyer ansiava por aquela conexão que eles tinham copartilhado em seus sonhos.

Continua...