A vida é tão simples, tão... fácil.Se você está lendo isso agora e não concorda, é porque provavelmente o véu invisível que parece nublar nossa visão sobre a simplicidade de viver, ainda está estendido diante da sua visão do mundo.

Eu também tinha esse véu. Eu também enxergava através dele e não percebia o quanto a beleza mora nos detalhes, ou o quanto é estúpido reclamar de coisas banais como andar pelas ruas em um dia chuvoso e ser atingidopor respingos de poças d'águaquando algum veículo passa por elas.

Uma coisanão tão boa, é que muitas vezes, para esse véu cair, precisamos passar por alguma dor. É o velho: "Você só dá o real valorquando perde". No meu caso, foi a perda da saúde.

Eu estava com 25 anos quando descobri que estava com câncer de mama.

Era só um dia comum, com minha antiga versão agitada acordando atrasada para o trabalho de dois turnos comosecretária jurídicadeuma grande firma de advocacia.Eu levantei com umpulo desengonçado assim que o alarme do celular tocou e minha mente só levou meio segundo para começar a processara quantidade absurda de coisas que eu tinha para fazer assim que chegassenaminha mesa lotada de relatórios.

Tropeceinos cobertores,antes de seguirem direção ao banheiro eláainda perdi alguns segundos encarando o espelho e lamentando as manchas escuras em baixo dos olhos.Depois de escovar os dentes, deslizei para debaixo do chuveiro – e é claro que tomei todo o cuidado para não molharnem um fio se quer dosmeus cabelos, afinal de contas, quem em sã consciência aparece para trabalhar em um dos maissofisticadosarranha-céus da cidade, com os cabelos molhados e com fios fora do lugar?

Bom, meu cabelo deixou de serprioridadenoexato momentoqueminha mão esbarrou em um pequenocarocinho, enquanto lavava meus seios.

Para qualquer outra mulher, aquilo poderia não parecermuito preocupante e facilmente confundido com uma pequena espinha.Mas não para mim que passei a infância assistindo minha avó materna lutando contra aquela mesma malditadoença e sempre fui orientada a ficar atenta a ela.

É claro que eu me cuidava, mas não esperava ter que passar por isto algum dia, ainda mais no alge da juventude.Mas aconteceu.

Esqueci imediatamente do atraso. Me vesti de maneira automática e quando me dei conta, já estava no consultório do meu médico de confiança.Ele examinou o famigerado caroço e tentou manter uma postura profissional, mas consegui captaro lampejo de preocupação em suas feições.

Ele medeu uma solicitação para uma mamografia e me encaminhou para outro andardaquele mesmo prédio.

O exame foi incômodo, mas não mais do que a angústia e o medo que rasgavam meu peito.

Esperei lá mesmo que os resultados estivessem prontose eles podem ter demoradoapenasalgumas horas, emborapara mim tenhasido como anos. Meu celular não parava de apitar comnotificações.Quando arrastei a aba superior, vi quealgumas eram do meu chefe. Muitaseramda minha amiga e colega de trabalho, Alice.E outras de um ex namorado complicado.

Estava prestes a abrir o aplicativo para respondê-las quando a recepcionistachama meu nome.

Lembro que quase rachei a tela do aparelhocoma força que o apertei na mão.Naquele momento, eu teria sido capaz de dar qualquer coisa para ter algum conhecido ali comigo para me dizerque daria tudo certo, ou só para me acompanhar em silêncio.

Mesmo me esforçando ao máximo para me concentrar em cada palavra dita pelo médico,tive que pedir mais de uma vez para que ele repetisse a explicação do resultado.Tudo ficou pior quando meu cérebro registrou a palavra "carcinoma".Bom, eu não era formada em medicina, mas várias temporadas de uma série médica precisavam servir para alguma coisa. Eu estava mesmo com câncer.

Eu chorei, fui consolada pelo médico, pela atendente e até por uma senhorinha simpática que esperava sua vez de ser atendida narecepção. Saí de lá com o encaminhamento para um oncologista especialistano meu caso e com mil coisas invadindo meus pensamentos.Pensava em todas as saídas com amigos que eu recusei por ter que estudar para alguma prova; nas vezes em que deixei de comeraquelebolinho à mais por medo de engordar alguns quilos eem todas as vezes em que deixei de visitar meus paispara evitar pegar trânsito.

Eram aquelas as minhas preocupações?Meus Deus, como era idiotas.

Cheguei no escritório, me desculpei pelo atraso dizendo que o pneu do meu carro tinha furado ecoloquei meu poder de disfarce à prova quando comecei a sorrir como se nada tivesse acontecido.Alice até desconfiou que havia algo errado, mas joguei a culpa nas mensagens que meuextinha me enviado e ela acreditou. Três dias se arrastaram com a minha máscara de calmaria sendo sustentada no trabalho e minhas crises de choro sozinha em casa.

Quando cheguei no consultório do Oncologista, não demorei a ser atendida.Ele era muito paciente e me explicou como seriam os novos exames que eu faria, assim como explicou passo a passo do meu tratamento. Ele também me esclareceuvárias dúvidas e no fim me aconselhou a compartilhar tudo com a minha família, para que eu fosse ajudada em todo esse processo.

Eu odiava admitir, mas ele estava certo. Odiava mais ainda fazer eles enfrentarem mais um tratamento de câncer, maseu não conseguiria esconder aquilo para sempre. Ainda mais quando as sessões de quimio começassem.

No caminho para casa, mandei uma mensagens para todos marcando um almoço no final de semana na casa dos meus pais. Eles estranharam e pediram para que eu adiantasse o assunto, mas consegui tranquiliza-los sem dar pistas. O próximo passo foi conversar com meu chefe. Ele me deu todo o apoio e disse que a minha licença começaria naquele instante, mesmo eu garantindo que só precisaria me afastar quando o tratamento começasse.

No domingo houve choros, votos de que tudo ficaria bem e abraços.Minha mãe precisou ser medicada e meu pai não parava de chorar. Minha avó me olhava com um olhar condescendente porque ela entendia bem o que eu estava passando e meu avô, mesmo com o seu jeito durão, não conseguiu esconder o quanto estava com medo. Eu também estava, mas não podia me deixar abater.

Todos insistiram para que eu não voltasse para casa sozinha, mas eu precisava. Nesses dias depois do meu diagnóstico, eu havia aprendido a gostar da minha própria companhia. Eu usava o tempo para pensar, não mais nas coisas que deixei de fazer, masnas coisas que eu iria fazer quando me curasse.

Sim, um otimismo sem precedentes tomou conta de mim e eu era grata a Deus por isso.

Minha primeira sessão dequimiocomeçou duas semanas depois. DoutorCullen, com sua calma e profissionalismo, me tranquilizoue foi muito simpático com a minha mãe, que me acompanhou e o encheu de perguntas. Muitas das quais eu já tinha feito na consulta.

"—Nossa, ele é muito bonito e jovem para ser um médico tão conceituado". Foi o que ela disse quando o nervosismo tinha passado.

Meu organismo não demorou a dar sinais de que estavasendo impactado pelo tratamento. Eu estava sempre enjoada e mal conseguia segurar algo noestômago. Minhapele tinha um aspecto mais frágil e meus cabelos começaram a cair.Mesmo o Dr.Cullendizendo que aquele seria um sinal gradativo, eu não quis esperar. Afinal, era apenas cabelo, não é mesmo? Agora eu entendia que sim. Raspei toda a cabeça e pedi para minha mãe comprar vários lenços coloridos.

Um ano se passou e éclaro que nem tudo foram flores.Tiveram dias em que a quimio me pegou mais forte e o desânimoapareceu. Eu quis desistir, chorei, me deprimi e até cheguei a me perguntar se valia a pena lutar tanto, se no final eu poderia acabar perdendo a luta para aquela maldita doença. O que me fez sair daquele momento sombrio foi todo o apoio da minha família, dos meus amigos e ainda tinha o Dr.Cullen. Edward, quando não estávamos no consultório.

Ele passou a me examinar em casa quando eu ficava debilitada demais para ir até a clínica, mas me recusava a ser internada.

Ele foi um anjo. Também conversávamos muito por telefone e mensagens de texto. Alice não parava de me provocar fazendo piadinhassem graça como "o doutor quer brincar de médico com você", mas eu só conseguia rir do absurdo.Edward estava só sendosolidário e atencioso com uma paciente.

Embora não parecesse levar a sério o que Alice dizia, eu comecei a reparar nele de uma maneira diferente. Sem dúvidas ele eraabsurdamente bonito. Seus rosto era jovial e ao mesmo tempo másculo. Seu sorriso parecia capaz de enviararrepios direto ao meu sistema nervoso e seus olhos eram tão profundos que as vezes era constrangedor encará-los por muito tempo.

Ele tinha um gosto musical e literárioparecido com o meu. Nós sempre falávamos das nossas séries preferidas e das queprecisávamos assistir.

Tudo ia bem no meu tratamento e eu até enjoava menos em cada sessão. Me enchendo de uma nova onda de otimismo, resolvi arriscar ummico e até um sermão sobre ética entre médico e paciente, para chamar Edward para sair. Me arrumei um pouco melhor para a consultae fui até o consultório dizendo a mim mesma quefosse qual fosse a sua resposta, eu era uma mulher forte e aceitaria sem me abater.

Aquilo era maravilhoso na teoria, mas infelizmente não funcionou na prática.

A recepcionista não estava no balcão e a porta do consultório estava entre aberta. Como não havia mais ninguém na recepção eestava quase na hora da consulta, me aproximei devagar para bater na porta e anunciar minha presença, masouvi sua voz vindo lá de dentro.

—Eu sei, parece loucura o quanto estou envolvido, mas não consegui evitar.

Espiei e ele falava ao celular.

Fiquei na dúvida se saia dali ou se o avisava que eu já tinha chegado, mas então ele continuou.

—Você não sabe o quanto estou ansioso por isso. Não vejo a hora de vê-la.– pausa – Sim, por favor, não esqueça de marcar naquele restaurante, nossa noite tem que ser perfeita. – a pessoa do outro lado da linhaparece ter dito alguma coisa que o fez sorrir. – Pode deixar, também sinto a sua falta. Até depois, eu te amo.

Depois disso ele desligou.

Me apressei em sair de perto da porta e fui sentar em uma das cadeiras que estavam ali.A última vez que lembrava de ter sentido aquele aperto no peito, foi no dia em que recebi a notícia do o eu fui idiota. É claro que um homem como Edward não ficaria muito tempo sem alguém. E por que ele se envolveria com uma paciente frágil e doente quando haviam várias mulheres mais bonitas e saldáveisà disposição?

Depois de ter aqueles pensamentos de auto piedade, me chutei internamente. Não tinha sido eu que havia chegado ali cheia de confiança? Eu não deixaria aquilo me abalar. Respirei fundo,conferi minha aparência no espelho do meu pó compacto e esperei até que eu fosse chamada.

Edward saiu do consultório alguns segundos depois e sorriu ao me ver.

—Oi, Isabella! Está esperando a muito tempo?

Sorri de volta, o melhor que consegui.

—Oi, eu acabei de chegar – menti.

—A senhoraVolturenão veio trabalhar hoje e você é a minha última paciente do dia.Venha, entre, por favor.

Assim que nos acomodamos em sua sala, ele pegou algumas folhas.

—Eu estou com os resultados dos seus últimos exames.

Pela sua expressão, não consegui antecipar o que vinha pela frente.

—Como estão?

—É commuita felicidade que eu digo que você está em remissão.

—E-eu, o que?

Ele começa a sorrir.

—Seus exames mostram uma grande regressão do câncer, então podemos diminuir a intensidade do tratamento. Eu só me sentirei confortável para lhe dá uma remissão completa depois de examina-la daqui a alguns anos, mas estouconfiante de que não teremosrecidivas e você poderáse considerar curada.

—Isso é maravilhoso! - foi a única coisa que consegui dizer, ainda em choque com a notícia.

Quando ele levantou da cadeira e veio em minha direção, não pensei duas vezes e também levante para abraçá-lo. Eu estava tão feliz que não me importei se aquele abraço não estava parecendo nada profissional.

Quando nos afastamos,ele colocou uma das mãos no meu rosto e acariciou.

—Você não sabe o quanto eu estou aliviado.Não vejo a hora de poder te dar alta.

—Nossa, com pressa para se livrar de mim, Dr.? – tento brincar para aliviar o clima, mas ele continuou sério.

—Pelo contrário. Tudo o que eu mais quero é você na minha vida, senhoritaSwan.

Eu devo ter feito uma cara muito engraçada, porque ele riuantes de se inclinar mais ainda na minha direção. Seus olhos pareciam pedir permissão e eu, mais do que ansiosa, não esperei mais e tomei a iniciativa do beijo.

Naquele momento foi como se mil luzes piscassem na minha mente.

Depois dali eu confessei a minha indescrição não

intensional, quando espiei sua conversa no celular.

Elepareceu entender a que conclusões eu cheguei e explicou cheio de risos que ele estava falando com a mãe dele sobre mim.Ela tinha ficado encarregada de fazer as reservas em um restaurante, pois Edward pretendia mechamar para um encontro depois que minha consulta terminasse.

Aliviada e ainda um pouco incrédula, eu perguntei porque ele tinha tanta certeza que eu aceitaria. Ele respondeu que não tinha certeza, mas tinha esperança.

Saímos para o nosso primeiro encontro e depois para outro, outro e outro. Ele não era mais o meu médico, mas sempre estava presente nas consultas que eu tinha com o seu colega de confiança, agora como meu namorado.

Foi no dia que recebi o diagnóstico de remissão total, quatro anos depois, que ele me pediu em casamento.O pedido foi lindo e simples. Nossas famílias receberam a notícia com muito entusiasmo e comemoração.

Casamos em umacerimônia maravilhosa, apenas dois meses depois, porque Edward se recusava a esperar mais tempo e eu também não via a hora de me tornar IsabellaCullen.Eu chorei durante a cerimônia quase toda porque os votos dele foram a declaração mais perfeita que eu já tinha ouvido.

Dois anos depois e esperávamos uma linda garotinha que seria muito amada, principalmente pelo pai, que já dava indícios de que seriacontrolado pelo dedo mindinho dela no primeiro chute que sentiu na minha barriga.

RenesmeeCarlieCullenveio ao mundo saldávele com um choro forte.

E eu? Eu não me preocupava mais em me atrasar para o trabalho, se teria muitos relatórios para analisar ou se iriaser atingida pelos respingos das poças quando os carros passavam por elas.

Eu tinha vencido o câncer.

Eu tinhao amor da minha vida ao meu lado e tinha um pedacinho nosso que me lembrava todos os dias o quanto a vida pode nos surpreendere que nunca devemos perder a fé.

Eu sou IsabellaCullen...e aprendi que não importa quão difícil seja o caminho. Se continuarmos caminhando, a linha de chegada vale a pena.

A vida pode ser bonita.