Os dois garotos se entreolharam e perceberam que alguma coisa havia ficado perigoso por ali, naquele rio, de um lado víamos um garoto com cabelos escuros, sem um corte definido, olhos azuis e um rosto bem juvial, parecia estar na casa dos 15 anos.

Do outro lado, víamos um outro garoto loiro com o cabelo penteado para o lado, com os olhos verdes e com a mesma idade que o menino que o encarava tinha, mas ele era um pouco mais alto, era a primeira vez que os dois se encontravam naquele rio.

Era a primeira vez que aquele eldiano e aquele marleyano se encontravam prestes a tomar banho.

Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, o eldiano encarou o marleyano de uma forma que parecia que tinha visto um bicho ou até mesmo um demônio.

O marleyano já estava acostumado com aqueles olhares desde quando era pequeno, tirou a camiseta e começou a entrar no rio, se fosse para morrer todas as vezes que um eldiano havia lhe olhado torto não teria sobrado nada dele mais.

O garoto loiro entrou no rio e mergulhou, alguns segundos depois ele estava de volta à superfície, seus cabelos com um tom mais escuro e tirando água dos seus olhos reparou que o eldiano ainda o encarava e decidiu falar alguma coisa:

- Veio aqui nadar ou só me admirar mesmo? - Disse o marleyano sorrindo, sabendo como cutucar a onça eldiana a sua frente.

O eldiano não respondeu nada, na sua cultura os marleyanos eram as piores pessoas que poderiam existir e, na posição que ele tinha, ele nunca deveria dirigir uma palavra a uma pessoa como aquele garoto loiro.

Só que o espanto do eldiano não era pelo marleyano estar ali, ele sabia que uma hora ou outra ele ia esbarrar em alguém desta etnia, mas ele não esperava que um marleyano fosse daquele jeito.

Para aquele garoto de cabelos escuros os marleyanos eram caracterizados como demônios, ele havia criado uma imagem das vezes que seus pais lhe contavam sobre as pessoas desta etnia como se elas tivessem um par de chifres na cabeça, dentes grandes e afiados, cabeça gigantesca e asas de morcego.

O que o eldiano não esperava era aquilo que ele estava vendo, um garoto normal, com uma pele normal, um rosto normal, um corpo normal, o garoto que ele estava vendo na sua frente era tão ser humano quanto ele.

Desde quando havia chegado no rio, o garoto de olhos azuis não estava conseguindo tirar os olhos do garoto marleyano e aquilo já havia começado a incomodá-lo.

O rapaz loiro saiu do rio, andou até a margem onde havia deixado sua camiseta, mexeu em algumas folhas de árvore e tirou de lá uma besta e se dirigiu a palavra novamente ao eldiano a sua frente:

- O que você veio fazer aqui?

O marleyano escondia aquela besta ali para se proteger de alguém que viesse lhe incomodar, alguém que viesse ameaçar a sua vida e aquele eldiano do outro lado do rio estava cumprindo o primeiro requisito para que o garoto loiro pegasse sua arma.

Ao apontar a besta para o garoto que estava em pé na beira do rio, fez com que o garoto descongelasse.

- Eu nado aqui todos os dias - Respondeu o eldiano.

- Engraçado - Disse o Marleyano puxando ainda mais forte a corda da sua besta - Como é que eu nunca te vi aqui?

- Eu venho aqui todos os dias escondidos, meus pais não sabem que venho até esse lugar, só alguns soldados mais próximos.

- Tem soldados aqui com você? - Perguntou o marleyano ainda sério naquela situação.

- Não, por isso que eu vim em um horário diferente - Falou o eldiano vendo o garoto loiro do outro lado do rio baixar a besta.

Os dois se entreolharam novamente, mas quem teria que falar alguma coisa desta vez era o eldiano:

- Os soldados sabem sempre o horário que eu venho até o rio, então eles certificam que não vai a ver ninguém por aqui para que eu possa nadar, então encontrar um marleyano por aqui com esses soldados do meu pai, seria algo impossível.

Aquelas palavras chamaram a atenção do marleyano, o garoto colocou a besta no chão e voltou para dentro do rio.

- Eu não imagina que vocês fossem… - O eldiano não conseguiu terminar a frase.

- Iguais a vocês? - Indagou o marleyano respondendo o garoto - De carne e osso, se eu me ferir aqui - Apontou o garoto pra sua mão - Vai escorrer sangue vermelho também, igual o seu.

O garoto se viu estagnado com aquelas palavras, ele já estava a mais de 5 minutos sem se mexer na beira da água, que era o único som ambiente daquele local.

Quando o garoto iria falar algo sobre aquelas informações, sobre aquela sensação de como uma cortina de mentiras havia caído da sua mente, ouviu se um grito vindo de trás do garoto:

- Karl!!! - Era uma voz gritando pelo garoto eldiano - Karl, cadê você?

- Eu preciso retornar agora, por favor, me diga o seu nome - Se apressou o garoto querendo saber o nome do garoto marleyano.

- Quando nos encontramos novamente, eu falo meu nome - Disse o marleyano saindo da água pegando suas roupas e sua besta indo em direção a mata do outro lado do rio.

- Eu me chamo Karl Fritz - Disse o garoto do outro lado do rio - Com certeza iremos nos encontrar de novo.

O garoto marleyano ouviu o nome do eldiano enquanto caminhava em direção a sua casa já de costas para Karl, aquele sobrenome deixou ele em choque pela primeira vez durante toda aquela conversa.

O garoto havia apontado uma besta para o herdeiro da realeza do seu país, enquanto Karl havia retornando por meio da mata de uma forma intrigada por ter conhecido finalmente um marleyano, do outro, o garoto loiro havia ficado com medo de perder sua vida pela primeira vez.

O terror que os Fritz passavam para todo o mundo, essa seria a herança que Karl herdaria em breve e o marleyano sabia que se tivesse atirado naquele garoto, talvez, as coisas poderiam ter sido muito diferentes.