Capítulo 8: De ressacas e amores

No Distrito Kabuki, os primeiros raios de sol começaram a surgir e, enquanto Tama jogava água na frente do bar de Catherine, a parte de cima do prédio ainda parecia mergulhada num misto de preguiça e ressaca. Na sala e no quarto ouvia-se a estranha sinfonia de roncos, que não cessara nem quando um despertador em forma de justaway tocava no quarto até levar um soco... E nem o toque igualmente escandaloso de um smartphone em sua função de despertador atrapalhara o sono.

Shinpachi, que já estava acordado há horas e de posse de uma frigideira e uma concha, contemplava a cena e ouvia aquela sinfonia de roncos. O Gin-san de sua linha temporal dormia esparramado no sofá da sala. Kagura dormia dentro do armário, que ainda mantinha as características originais de vinte anos atrás. O Gintoki mais velho e Ginmaru dormiam no quarto. Sadaharu dormia tranquilamente atrás do outro sofá, onde Shinpachi dormira.

O Shimura percebeu que os anos passariam e praticamente nada iria mudar. Bom, hora de acordar o pessoal para o café da manhã. Sabia que as reclamações seriam bem maiores hoje. Eram três marmanjos de ressaca e uma garota preguiçosa.

Respirou fundo, reunindo toda a concentração para aquela árdua tarefa de todas as manhãs. Bateu com força a concha contra o fundo da frigideira várias vezes. Gintoki caiu do sofá já na primeira batida e, no chão mesmo, tapou os ouvidos com as mãos. A porta do armário se abriu e Kagura caiu de seu dormitório, de cara no chão. A porta corrediça do quarto se abriu e Ginmaru saiu enfiando os dedos nos ouvidos e uma expressão de dor. E seu pai, ainda tonto de sono, gritou:

― DÁ PRA PARAR COM ESSE BARULHO TODO? EU NÃO SOU SURDO!

O Gintoki mais jovem emendou:

― MAS VAI ME DEIXAR SURDO SE CONTINUAR BATENDO NESSA FRIGIDEIRA!

Após Shinpachi parar de bater na frigideira, Ginmaru resmungou:

― Cara... Eu não deveria ter tomado aquele porre, tô acabado...!

O garoto de óculos viu Kagura ir lavar a cara no banheiro, enquanto os três albinos se jogaram nos sofás com as mesmas queixas às quais estava acostumado. Tudo girava em volta da ressaca dos três homens.

Comparando Gintoki aos vinte e poucos anos com o Gintoki de quarenta e poucos anos, realmente não havia quase diferença. Talvez o mais velho tivesse um pouquinho a mais de maturidade do que seu chefe de sua linha temporal... Mas era só um tiquinho a mais, uma pequena contribuição da paternidade.

Daquele trio de marmanjos de cabelos prateados, quem parecia ter mais juízo era Ginmaru. De alguma forma, a contraparte do futuro de Shinpachi conseguira influenciá-lo em alguns aspectos. Embora tivesse herdado o temperamento explosivo e voluntarioso de seu pai, o jovem Sakata aparentava ser um pouco mais comedido em suas ações e em seus hábitos. E, a julgar seu comportamento ao encarar uma ressaca – considerando-se os padrões de comportamento de Gintoki, os quais já conhecia de longa data – ele parecia não ter o costume de encher a cara tal como o pai.

O momento de observação de Shinpachi foi interrompido por um toque de campainha. Quem seria àquela hora? O distrito estava quase deserto por conta do ocorrido na véspera e, naquela linha temporal, Gin-san não precisava mais se preocupar com aluguel, pois o andar de cima lhe pertencia, como herança deixada por Otose.

Esperava que fosse aliado.

Como todo mundo ainda estava fazendo o download da alma para acordar de vez, o garoto de óculos foi atender.

― Bom dia, Tsukuyo-san!

O garoto recebia a Cortesã da Morte e agora notava que seu visual era ligeiramente diferente. A loira tinha cabelos mais curtos e os deixava soltos. Porém, o tempo parecia não ter influenciado em sua aparência... E sua presença fez com que o Yorozuya mais velho se empertigasse e esquecesse sua ressaca, enquanto sua contraparte mais jovem continuava sofrendo com os efeitos da bebedeira da noite passada.

Aquele comportamento causou estranheza tanto em Shinpachi quanto em Kagura, que saía do banheiro com os cabelos ruivos já arrumados. Ambos se entreolharam.

― Você viu o que eu vi, Quatro-Olhos?

― Parece que sim, Kagura-chan.

― Se vocês estão falando do meu pai – Ginmaru estava ouvindo a conversa dos dois adolescentes. – Sim, ele tá agindo assim porque ele e a Tsuki estão namorando.

Aquilo foi realmente uma surpresa para os dois... E para a contraparte mais jovem do Yorozuya, que também ouviu toda a conversa:

― Espera aí... Eu... Namorando a Tsukuyo...? EM QUE MOMENTO DA MINHA VIDA EU DESENVOLVI TENDÊNCIAS SUICIDAS?!

Quando menos se esperava, uma kunai voou certeira à sua testa. Inconformado com aquilo, ele esbravejou:

― EI, SÉRIO MESMO QUE VOU PASSAR A MINHA VIDA INTEIRA RECEBENDO KUNAI NA TESTA? ISSO É SÉRIO?!

Kagura olhava encantada para Gintoki e Tsukuyo daquela linha temporal. Tsukky várias vezes já dera sinais de que Gin-chan era seu "crush", mas ele sempre havia sido muito desinteressado. Talvez fosse pelo fato de apanhar dela e de qualquer outra mulher do convívio dele. Mas a loira parecia combinar melhor com o dono da permanente natural prateada.

Será que algum dia veria os dois juntos em sua linha temporal?

― Ginmaru-san – Shinpachi indagou com curiosidade. – Já faz tempo que eles estão juntos?

― Faz alguns meses, logo depois que vocês voltaram pra casa.

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Chegou a um barzinho que costumava frequentar quando não queria beber no bar de Otose (que posteriormente passou a pertencer a Catherine), após finalmente poder vestir as roupas que há tempos queria vestir – as mesmas de seu alter-ego do passado. Ele e Ginmaru tomaram seus lugares e o dono do bar perguntou:

― O de sempre, Sakata-san?

― Pode mandar. – Gintoki respondeu.

― Ok. E você, Sakata-kun? O mesmo?

― Não, me vê apenas uma Cola-Cola. Um de nós tem que estar sóbrio.

― Você não bebe, Ginmaru? – o Sakata mais velho questionou.

― Só de vez em quando. – o jovem respondeu enquanto abria a lata do refrigerante. – Prefiro Cola-Cola ou leite de morango.

― Se você nunca tomou um porre, não deixou de ser apenas um moleque.

― Tomei meu primeiro porre alguns dias antes de viajar ao passado. Botei tudo pra fora, só faltaram minhas tripas. Então, diante disso, já sou um homem.

― Tsc! Eu realmente parei dez anos no tempo. Eu esqueço que você já não tem mais oito anos.

― Vai acostumando, pai. – Ginmaru sorriu.

Nesse meio-tempo alguém se sentou ao lado dos dois. Ao olharem para o lado, eles viram uma mulher loira, vestida de preto e bebendo uma dose de saquê. Ao reconhecer a loira fatal, a espinha de Gintoki logo gelou.

Era Tsukuyo.

― Gintoki – ela foi direta. – Preciso falar com você.

O albino engoliu seco. Sabia que a combinação Tsukuyo mais bebida era igual a encrenca. Nisso, Ginmaru procurou sair de fininho, mas...

― Ginmaru – era a voz de um Gintoki paralisado de medo. – Fica aqui.

― Não precisa ficar. – Tsukuyo disse calmamente. – Pode ir.

― Não, ele fica.

― Ele vai.

― Ele fica!

― Ei, Ginmaru! – Seita o chamou do lado de fora. – Vamos dar um rolê?

― Agora mesmo! – o jovem Sakata respirou aliviado, enquanto deixava pra trás um pai desolado. – Tsukuyo-san, pai, tô saindo!

Desistiu da bebida e observava a mulher ao seu lado. Todo esse tempo e ela ainda conservava sua beleza. A Cortesã da Morte seguia sendo a mesma loira fatal de sempre.

O tempo fora bondoso para com aquele homem de permanente natural prateada, mesmo ele encontrando um pouco de dificuldade para recuperar o vazio de dez anos em sua memória. Dez anos... Esperara exatos dez anos para falar o que queria falar com ele. Não podia mais ficar sem dizer nada.

― O que você quer falar comigo? – ele perguntou com um misto de temor e curiosidade.

O coração dela deu um salto. Não era mais hora para adiamentos. Talvez futuramente não tivesse a mesma chance que tinha agora. Não conseguia encarar aqueles olhos avermelhados, mas precisava encará-los, caso quisesse conseguir o que tanto desejava.

― Há dez anos eu esperava sem ter muita certeza de que você voltaria. Você sabia que foi dado como morto no dia do seu desaparecimento?

― Soube por agora.

― O único que não quis acreditar nisso desde o começo foi o Ginmaru. A convicção dele foi tanta que o Shinpachi e o Katsura acabaram também acreditando que você estava vivo o tempo todo. Isso me contagiou também. Só que, antes disso, eu fiquei muito mal.

x

― Tsukuyo-nee ficou tão mal que encheu a cara por causa do seu pai. – Seita disse a Ginmaru, enquanto os dois bisbilhotavam o papo entre Gintoki e Tsukuyo de um local fora do alcance da visão de ambos.

― Não me admiraria se ela tivesse conseguido uma ressaca daquelas de se ficar na história de Yoshiwara. – Ginmaru disse com olhar cético.

― E foi pra ficar na história. Dois dias de ressaca e não queria sair do quarto pra nada.

x

― Encheu a cara, não foi? – Gintoki foi direto.

― E quebrei tudo no meu quarto. Ainda bem que hoje eu já me domino mais.

― É mesmo?

― Bom, estou na segunda dose e ainda não te espanquei.

― Ei, você tá enrolando com o que quer me falar. O que você realmente quer me dizer, hein?

Tsukuyo tomou mais um gole de saquê e abafou um riso, antes de dizer:

― Ainda não percebeu que, desde que a gente se encontrou pela primeira vez, eu quero você, seu estúpido?

Gintoki ficou com a cara completamente vermelha:

― Como é que é? Tá brincando?

― Eu não iria brincar com uma coisa dessas, Gintoki.

― Por que eu? E por que levou vinte anos pra dizer isso? E...

Tsukuyo agarrou o albino pela gola, deixando-o cara a cara com ela, que repetiu num sussurro:

― Eu quero você, seu estúpido!

Deu um puxão nele e o surpreendeu com um beijão que o desarmou por completo. Não imaginava que ela seria capaz disso. Sentiu naquele beijo a sinceridade das palavras de Tsukuyo; ela realmente o queria. Finalmente, conseguira agir como uma mulher agiria.

E o melhor de tudo: apesar de ter sido surpreendido, Gintoki havia gostado.

― Ahh... Bem... Podemos repetir a dose? – ele perguntou.

Mais uma vez se beijaram, mas Gintoki interrompeu o beijo e olhou para o lado, onde viu Ginmaru e Seita os observando.

― O que é que vocês estão olhando? – ele perguntou com seu típico olhar de peixe morto. – Nunca me viram com uma mulher, é?

― Com mulher, sim, mas nunca beijando! Eu pensava que você era BV! – Ginmaru disse debochado.

― SE EU FOSSE VIRGEM, VOCÊ NÃO TERIA NASCIDO, MOLEQUE ESTÚPIDO! OU VOCÊ ESQUECEU QUE FOI PRECISO UM ESPERMATOZOIDE MEU PRA ISSO?

Gintoki se levantou e, ao mesmo tempo, procurou pegar o copinho de saquê no balcão. Nisso, Tsukuyo se levantou também e, sem perceber, a mão do ex-samurai pegou algo macio...

― Eita... – ele disparou, ao olhar para trás e notar que estava pegando o que não devia: um dos seios de Tsukuyo!

A loira agarrou o braço do albino e o jogou no chão, fazendo-o bater de cabeça no assoalho, que se quebrou com o impacto.

― EU AINDA NÃO TE DEI LIBERDADE PRA ISSO NO NOSSO NAMORO, IDIOTA!

― Aiaiaiaiai... – Gintoki tentou se refazer do nocaute que levara. – Eu não sabia que a gente já tava namorando...!

Ginmaru observava tudo de longe:

― Será que esse namoro vai sobreviver aos dois?

― Ginmaru, é mais fácil perguntar se seu pai vai sobreviver a esse namoro... – Seita o corrigiu.

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― Até agora vem sobrevivendo bem, não é, Ginmaru-san? – Shinpachi indagou ainda meio incrédulo.

Ginnmaru sorriu:

― Eles se gostam muito. Apesar das kunais na testa, meu pai é apaixonado por ela, embora não demonstre tanto em público. Acho que isso também o ajuda a lidar com os últimos dez anos. Sabemos que foi terrível para ele. – pausou enquanto olhava o casal conversando. – Um pouco de amor extra faz bem nessas horas. Tô feliz por ele.

Assim que terminou de responder Shinpachi, o jovem albino recebeu uma mensagem em seu telefone:

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"Bom dia,

Como está o Distrito Kabuki? Espero que bem. Até o momento também está tudo bem no Shinsengumi.

Shinpachi."

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― Hm, Shinpachi-sensei disse que está tudo bem no Shinsengumi. – informou. – E em Yoshiwara?

― A Hyakka verificou e tudo esteve calmo até o momento. – Tsukuyo respondeu. – Até foi para informar isso que vim para cá.

― Aqui também parece que está tudo bem – o Gintoki mais velho disse.

O jovem Shimura retrucou:

― Claro, nem se a Yorozuya estivesse desmoronando vocês acordariam fácil dessa ressaca.

― De todo modo temos que tomar algum cuidado. – a Cortesã da Morte advertiu. – Toda calmaria precede uma tempestade... E pouco conhecemos sobre nosso inimigo.