Capítulo 9: Tome cuidado ao sair para a rua
Disciplinado como sempre fora, Hijikata prestava atenção em tudo o que era dito na reunião convocada pelo Comandante Shimura. Enquanto absorvia as informações, seus olhos azuis passavam principalmente por sua contraparte do futuro e por Sougo. O olhar do homem de cabelos cor de areia encontrou o seu, fazendo-lhe gelar a espinha.
Se tinha alguma dúvida do quanto Okita poderia estar ressentido de sua relação com a falecida Mitsuba, todas elas evaporavam naquele momento. Mas havia algo nessa história toda que não se encaixava. Mais precisamente, algum fato anterior à sua partida de Bushuu a Edo, junto com Kondo e Sougo.
Parece que a sua viagem acidental pelo tempo poderia ter embaralhado, mesmo levemente, suas memórias.
Voltou seu foco ao Comandante Quatro-Olhos, que conclamava todos os homens do Shinsengumi a ficarem preparados para qualquer eventualidade, pois todos estavam correndo riscos. Os riscos eram os mesmos de meses atrás, quando eram os tais enjilianos que governavam Edo.
O Shinsengumi vivia em um estado de permanente alerta, numa tensão tal que até mesmo Kondo precisou deixar a aposentadoria e voltar a usar a farda preta para apoiar o agora cunhado.
"Duas cabeças pensam melhor do que uma", diz o ditado. E, no caso, parecia verdade.
Em sua linha de tempo, Kondo-san podia ter todos os defeitos que tinha, mas era um líder cuja personalidade lhe conferia várias qualidades compensatórias. E ele sabia agir em momentos de crise, além de elevar o moral de seus comandados como nenhum outro líder fazia. Provavelmente o Gorila desta época ainda tinha essa capacidade.
O Quatro-Olhos parecia ser bastante esforçado, embora não tivesse a liderança nata de Kondo-san. Não o culpava, pois não conseguia desvinculá-lo do moleque que andava junto com o destrambelhado de cabelo prateado. Mas parecia que seu alter-ego mais velho resolvia isso.
Vários assuntos haviam sido tratados na reunião geral do Shinsengumi, mas o principal era ter cuidado com o Mimawarigumi. Eles estavam novamente ao lado dos governantes, como servis poodles adestrados, segundo os relatórios enviados por Yamazaki.
E ele, querendo ou não, seria envolvido por esse confronto e corria grande perigo. Era afetado pelo paradoxo temporal, da mesma forma que o Yorozuya e o garoto de óculos. De sua existência dependia a existência de sua contraparte e do filho.
Se ele morresse, não seria o único.
Em Kabuki, as ruas seguiam quase desertas, mesmo após a retirada de cadáveres resultantes do ataque ocorrido na véspera. O ar parecia carregado de medo nas ruas de chão batido do distrito outrora bastante movimentado. Para o grupo que caminhava com certa cautela por aquela área, tudo parecia uma cidade-fantasma.
Nem mesmo as fachadas de sempre lembravam o Distrito Kabuki tal como conheciam. Poucos permaneciam na região, vários fugiram para outros lugares após o último ataque. E tecnicamente restava um dos últimos pilares.
O último dos Quatro Reis Divinos do Distrito Kabuki: Sakata Gintoki.
O Yorozuya mais velho pousou a mão esquerda sobre a bokutou presa à cintura, um hábito dos tempos de combatente da guerra da primeira invasão Amanto, ou quando em situações excepcionais usava uma katana, cuja bainha estaria na cintura. O mais jovem também fazia o mesmo gesto, pois também pressentia igualmente o perigo. Um perigo invisível, mas iminente.
Acompanhando os olhares dos dois, Kagura mantinha uma das mãos segurando firme seu guarda-chuva aberto enquanto Tsukuyo deixava aparecer uma kunai em cada mão. Shinpachi, com uma bokutou reserva do Gintoki mais velho, também imitava o gesto de seu chefe, ao mesmo tempo em que Ginmaru levava a mão esquerda à bainha de sua katana.
Mais cedo, tudo aparentava tranquilidade, mas agora a insegurança pairava sobre todos.
O grupo decidira sair para ver a situação real de Kabuki após o ataque da véspera. Como haviam chegado à noite, não havia muito a se verificar. A noite era traiçoeira naquele momento pós-ataque.
E também nada poderia ser feito quando se havia três homens bêbados no grupo.
Um vulto passou muito rapidamente por Ginmaru que, ao virar-se para ver o que era, já não via mais nada. Segurou com mais força a bainha da katana e levou a mão direita para sacar a espada. Entretanto, a quem enfrentaria?
― Eu também vi, Ginmaru. – Tsukuyo disse.
A kunoichi sabia que nem ela e nem o jovem albino haviam sido os únicos a verem o tal vulto. Fora tão rápido que nem seus olhos treinados identificaram quem corria de forma tão veloz. Apareceram mais dois vultos, o que fez com que todos se colocassem em posição de defesa ou contra-ataque, mas sem saber ao certo contra quem.
― Ei – Gintoki questionou seu alter-ego mais velho. – Foi esse pessoal que invadiu Kabuki quando você foi nos buscar?
― Não. – o Sakata mais velho respondeu. – Quem veio foi um grupo de soldados comuns. Esses eu nunca vi!
Os vultos se multiplicaram e logo começaram a atacar com kunais o grupo, que se defendeu como podia. Kagura, com o auxílio de seu fiel guarda-chuva roxo, disparou rajadas de tiros para abater os inimigos, e o abriu para usar como defesa. Os dois Gintokis se defendiam o máximo que conseguiam com as espadas de madeira, assim como Shinpachi. Ginmaru também buscava se defender com sua katana, embora com a mesma dificuldade dos demais. Tsukuyo conseguia ter um pouco mais de êxito, lançando várias kunais e se valendo de sua agilidade. Ela e Kagura percebiam a dificuldade dos outros companheiros e optaram por dar-lhes cobertura. Aliando as kunais às rajadas de tiro da metralhadora integrada ao guarda-chuva da garota Yato, as duas conseguiam abater uma boa parte dos inimigos que tentavam minar aquela defesa.
Com as duas fazendo a cobertura, os homens fizeram o contra-ataque, derrubando mais daqueles vultos que mal conseguiam ver, mas que o instinto compensava essa dificuldade. Eram pelo menos uns quinze a vinte adversários que o grupo conseguira abater.
Jogados ao chão estavam várias pessoas com capuzes negros e bandagens que lhes encobriam os rostos, bem como as mãos e os braços. Pareciam uma espécie de "múmias ninjas", pensava o Yorozuya mais jovem.
As baixas inimigas foram numerosas, enquanto o sexteto formado pelo Trio Yorozuya vindo do passado, Gintoki e Tsukuyo daquela linha de tempo e Ginmaru apenas tinha alguns ferimentos mais leves, graças à proteção da loira e da ruiva, que possibilitara o contra-ataque dos demais.
Entretanto, ninguém baixava a guarda. Todos tinham a sensação de que aquilo ainda não havia acabado.
Mais uma leva daquelas "múmias ninjas" surgiu e agora, sabendo o seu modo de agir, o grupo repetiu a estratégia. Aos poucos, foi abatendo mais inimigos, mas um outro vulto conseguiu furar a defesa do grupo e atacou um de seus integrantes.
Ginmaru fora fortemente golpeado e lançado para longe com o impacto que recebera. Meio atordoado, ele se levantou com a katana ainda na mão direita, enquanto limpava um filete de sangue que escorria de sua boca, consequência da pancada que recebera no rosto.
O autor do golpe? Uma pessoa que usava um grande guarda-chuva, tal como Kagura usava o seu.
― Um Yato...! – Shinpachi murmurou.
Estavam diante de um indivíduo do Clã Yato, um dos mais poderosos do Universo. O mesmo clã a que pertencia Kagura que, com seus olhos azuis, perscrutava o homem de cima a baixo. Era um homem de aparência jovem, cabelos negros assim como os olhos, pele pálida – uma das características mais marcantes de um Yato – e a altura entre a de Tsukuyo e a de Gintoki. Vestia-se de forma semelhante aos que antes enfrentaram o grupo. Roupa preta, capuz e os braços envolvidos por ataduras. E, claro, o inseparável acessório que identificava de longe aquele clã: o guarda-chuva, cujo tamanho era descomunal.
Não houve conversa, pois o Amanto correu para atacar Ginmaru, que conseguiu, mesmo com dificuldade, bloquear com maestria o novo ataque. E, antes que alguém fosse ajudá-lo, mais daqueles ninjas surgiram para atacar os demais, agora em uma quantidade ainda maior.
O jovem albino não iria facilitar as coisas para seu adversário, que sorria de forma ensandecida. Tal visão era assustadora, parecia que estava lutando contra um monstro. Um monstro extremamente forte, que fizera com que seus braços doessem, mesmo usando toda sua força física – que era grande – para segurar a katana e fazer aquele bloqueio.
Ele sabia da fama dos indivíduos daquele clã. Seu pai os conhecia o suficiente. Bastava ver aquela garota ruiva que lutava alucinadamente para ajudar a defender os demais.
Ginmaru recebeu um novo ataque, do qual conseguiu se esquivar. Entretanto, seu adversário era, além de forte demais, rápido demais. Emendou um potente contra-ataque com o guarda-chuva, que se chocou com a katana do jovem Sakata, quebrando sua lâmina ao meio. E, antes mesmo de ele cair no chão com o impacto do golpe, o Yato disparou vários tiros, dos quais três o atingiram no peito.
Kagura conseguiu chegar a tempo de evitar que ele levasse mais tiros, abrindo seu guarda-chuva para protegê-lo. Ao ver os traços distorcidos do Yato à sua frente, reconhecia a pior face de um indivíduo de seu clã.
Ele estava monstruosamente enlouquecido e só pararia se alguém o matasse.
Ao mesmo tempo em que a garota defendia Ginmaru, o pai do jovem rompeu a barreira feita pelos outros adversários que cercavam os demais do grupo. Possuído pela fúria do antigo Shiroyasha, conseguira tirar forças de onde não tinha para transpassar violentamente aquele Yato ensandecido com sua bokutou.
Seus olhos rubros se arregalaram quando outra cena dolorosa lhe veio à memória. Dezoito anos atrás, ele havia vingado a morte da Kagura de sua linha temporal, dando um fim em Kamui com um golpe semelhante.
E essa lembrança inevitavelmente lhe trouxe medo do pior com relação ao filho e lágrimas aos olhos.
