Capítulo 10: Uma espada quebrada e uma alma quase partida
Gintoki recolheu a katana quebrada de Ginmaru e a bokutou de sua contraparte do futuro, a qual pôs à cintura junto com a sua. Ele ficara para trás, junto com seus companheiros de viagem no tempo, enquanto os demais acudiam o jovem Sakata. Olhou para a direção a qual tomaram, com uma expressão mais preocupada.
Shinpachi comentou:
― Espero que o Ginmaru-san fique bem.
― Ginmaru-chan vai ficar bem – Kagura buscava otimismo. – Ele é muito forte!
― Ginmaru não é o único que precisa ficar bem. – o albino respondeu, ainda olhando para aquela direção.
O jovem Ginmaru provavelmente estava em uma situação mais grave, mas ele não era o único que preocupava o Yorozuya. Seu alter-ego também lhe trazia alguma preocupação, diante da reação demonstrada após o filho ser atingido.
Seu "outro eu" estava em pânico. Um pânico que ele nunca vira ou sentira antes.
― Vamos – ele disse. – Não há mais nada a fazermos aqui.
― Aonde vamos?
― Vamos esperar os outros no bar da Catherine, Pattsuan. Tenho a sensação de que vão nos procurar lá.
No QG do Shinsengumi, Shinpachi aguardava mais uma atualização de seu mais experiente espião. Ao mesmo tempo em que debatia com Kondo, Okita e os dois Hijikatas, ele checava seu smartphone a cada toque emitido pelo aparelho. Havia duas preocupações prioritárias em sua cabeça: o Shinsengumi e o Distrito Kabuki.
Mesmo tendo se tornado o Comandante do Shinsengumi há uma década, ele sempre mantinha suas raízes em Kabuki. Fora lá onde crescera e se tornara o que era hoje. Mesmo com a Yorozuya enfrentando seu fim àquela época por conta do desaparecimento e a presumida morte de Gintoki, ele buscava sempre estar naquele lugar.
Por cinco anos, Ginmaru esteve sob a tutela de Otose. A velha senhora do bar abaixo da Yorozuya prontamente se ofereceu para ter alguma responsabilidade sobre o garoto, pela relação tão próxima que tivera com o pai dele. Ginmaru era quase um neto. E Shinpachi dava o suporte necessário em nome da amizade que tinha para com Gintoki – que, para ele, sempre fora como um irmão mais velho.
E, após o retorno de Gintoki, ele e o filho fizeram a Yorozuya voltar à ativa. E o Shimura, de férias do Shinsengumi, até já ajudara os dois em alguns serviços somente pelo gosto de estar com eles.
Eles retomaram a relação entre pai e filho, interrompida por uma década. Via que seu "ex-chefe" parecia feliz em estar se readaptando à sua vida antes de seu desaparecimento. Mas, infelizmente, essa tranquilidade durara poucos meses, até atacarem o Distrito Kabuki.
Os principais homens do Shinsengumi estavam começando a traçar uma estratégia para a proteção do quartel-general quando o telefone emitiu um toque e vibrou sobre a mesa.
Era o número de Ginmaru.
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"Tsukuyo aqui.
O Distrito Kabuki foi atacado. Ginmaru foi gravemente ferido. Venha assim que puder."
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― Shinpachi? – era a voz de Kondo. – Shinpachi-kun?
― O que aconteceu, Shimura-san? – Okita indagou.
Só após ouvi-los, Shinpachi percebeu que seu rosto mostrara perplexidade e preocupação. Aquela mensagem mexera com ele mais do que poderia supor.
― Atacaram Kabuki de novo. – respondeu. – E Ginmaru foi gravemente ferido.
Ginmaru era mais do que o filho de um amigo, mais do que um pupilo a quem ajudara a ensinar sobre o caminho de um samurai. Ensinara mais do que técnicas de manejo de uma espada de bambu – e, posteriormente, uma bokutou e uma katana, ensinara-lhe disciplina na ausência do pai. Conhecia-o desde que fora encontrado em uma cesta ao lado da Yorozuya.
Estivera ao seu lado no período em que seu pai estivera desaparecido, mesmo após assumir o Shinsengumi. Havia prometido silenciosamente a Gintoki que cuidaria do garoto e, com ele, acreditaria em seu regresso algum dia, até se esgotarem as chances de encontrá-lo vivo.
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Saiu do QG do Shinsengumi e foi direto ao Distrito Kabuki visitar Ginmaru. Já fazia uns dez dias que não via o garoto, desde que Kondo lhe passara o comando após aposentar sua farda. Estivera bastante atarefado, juntando os cacos da força policial, se reorganizando após o casamento de sua irmã com o agora Comandante Honorário e se adaptando às suas novas obrigações. Tudo isso dificultara visitar pessoalmente o garoto, mas ainda assim ele sempre pedia notícias a Otose.
Nem passara em casa, então continuava a envergar a farda preta. Após uma breve conversa com a então dona do prédio, ele subiu os degraus que o levavam até o segundo andar. Ainda possuía as chaves, o que permitiu que abrisse a porta corrediça e adentrasse a sala.
Como da última vez, a cadeira atrás da escrivaninha estava de costas para a porta principal. E do mesmo jeito via, por cima do espaldar da cadeira giratória, a permanente natural prateada.
― Cheguei! – ele se anunciou.
Nenhuma resposta. E a cadeira não se virou para ele. Não se surpreendia, também não era a primeira vez que isso ocorria. Passou pela mesa, na qual repousava a bokutou de Gintoki desde que ele desaparecera. Agachou-se ao lado da cadeira, onde o pequeno Ginmaru estava sentado, olhando para a janela. Viu que seus olhos rubros ainda estavam inchados, denunciando que o garoto mais uma vez chorara por ainda não conseguir absorver por completo o recente desaparecimento do pai.
Segurava com força em suas mãos a bandana branca que seu pai lhe dera antes de desaparecer naquela batalha. Tentava engolir o choro, enquanto novas lágrimas surgiam e escorriam por seu rosto de criança. Shinpachi sabia que fora notado por ele.
― Sensei... – a voz do garoto era trêmula entre soluços. – Eu sei que meu pai vai voltar... Ele vai voltar...! Eu sinto a falta dele...!
― Eu também sinto a falta dele, Ginmaru. – Shinpachi disse enquanto afagava os cabelos encaracolados de seu discípulo favorito no dojo. – E vou acreditar na volta dele como você acredita. Conte comigo para isso. Conte sempre comigo.
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Ginmaru precisava dele. Gin-san, também. Ele sabia que certamente Gintoki sentiria o baque. Lembrava-se de quando o Yorozuya fora levado preso junto com Katsura por soldados de Kasler e do quanto havia sido dolorosa essa separação de pai e filho, e que fora dolorosa para ambos.
Só fora perceber o quanto andara quando chegou ao hospital. Ao adentrá-lo, encontrou Gintoki e Tsukuyo sentados em um banco. O albino exibia uma expressão abatida e seus olhos refletiam uma espécie de medo. Fora a Cortesã da Morte que contara tudo o que ocorrera em Kabuki, até mesmo que o Yorozuya havia matado mais um indivíduo do clã Yato.
A mente do Comandante do Shinsengumi voltou dezoito anos no tempo quando viu, mesmo com os olhos encharcados de lágrimas por ainda estar chorando a morte de Kagura, Gintoki liquidar Kamui da mesma forma brutal que, segundo Tsukuyo, ele matara aquele Yato. Naquele dia, viu naqueles olhos rubros o tamanho da dor que ele sentira ao perder alguém que lhe era querido, ainda mais uma garota com quem tinha uma convivência diária e a quem lhe dirigia uma afeição quase paternal.
E agora via, além do medo do pior, uma grande dor naqueles olhos. Eram olhos que ocultavam muita coisa, mas algo sempre se revelava naqueles olhos avermelhados de peixe morto. Convivendo com ele desde os seus dezesseis anos, aprendera a ler suas expressões nas entrelinhas, como irmãos costumam fazer.
Seu Aniki – seu irmão mais velho por consideração – estava preso a uma dor terrível e a um medo cruel.
― Gin-san... – murmurou.
