Capítulo 15: Previsões sobre o futuro não são 100% certeiras

Um novo dia amanheceu e, como de costume, Hijikata Toushirou acordara cedo e já estava vestido com sua farda preta. Antes de ir ao refeitório tomar o café da manhã, decidiu sair para caminhar pelo pátio do QG do Shinsengumi, a fim de preparar sua mente para o que poderia vir a seguir no decorrer do dia. Estando fora de sua linha temporal e, por consequência, de sua rotina e zona de conforto, o Vice-Comandante queria ao menos preparar seu espírito para o que quer que fosse.

E precisava de algumas respostas a certas perguntas que martelavam sua cabeça desde os primeiros instantes de sua viagem acidental pelo tempo. Parecia que suas preces seriam atendidas, ao avistar seu alter-ego mais velho quando este passava por ele enquanto seguia de volta ao alojamento.

― Ei. – Hijikata chamou-lhe a atenção.

― Diga. – o outro respondeu enquanto guardava o isqueiro em forma de frasco de maionese no casaco preto após acender mais um cigarro.

― Há duas coisas que me intrigam desde que vim acidentalmente com o Yorozuya e os companheiros dele para esta época. A primeira é quando me confundiram com você. Um daqueles caras de farda amarela me disse "Depois do Distrito Kabuki, será o Shinsengumi". Isso significa que o Shinsengumi é o próximo da lista, certo?

― Ao que parece, sim. Como nós estamos ainda meio desfalcados da última batalha mesmo depois de alguns meses, a Junta sabe que estamos enfraquecidos. Ainda antes daquela Batalha do Terminal, tivemos que lidar com um ataque direto quando Shimura-san abrigou em casa o Yorozuya da nossa época.

― Entendo. Pelo o que o pirralho de óculos me contou – o mais jovem também acendeu um cigarro, deu um trago e liberou lentamente a fumaça pela boca. – Isso foi entendido como um ato de rebeldia contra aquele governo. E hoje, como está a relação com o atual governo?

― A Junta ainda mantém o Shinsengumi como força policial, mas para operações de pouca ou nenhuma relevância. Argumentam que é algo provisório, até que nosso efetivo se restabeleça totalmente. Assim seria possível saber quantos poderíamos recrutar para ocupar os postos dos que foram abatidos no antigo Terminal. Kondo-san já havia se oferecido para ir pessoalmente a Bushuu recrutar alguns novatos. Claro que tudo ficaria mais fácil se tivéssemos um superintendente para nos comunicar diretamente, mas desde que o velho Matsudaira foi assassinado em rede nacional, o cargo nunca foi preenchido. Shimura-san e eu já até tínhamos um bom nome para indicar. – o mais velho finalizou com um sorriso sugestivo.

― Kondo-san? – o outro também sorriu com certo humor. – Será que é uma boa escolha?

― Em vinte anos ele pouco mudou. O caráter ainda é o mesmo. Ele continua ganhando discípulos no dojo dos Shimura, até viu potencial em alguns para o Shinsengumi.

― Eu ainda me pergunto por que exatamente ele abriu mão do comando do Shinsengumi, que ele fundou. Não creio que seja apenas por gratidão pelo Quatro-Olhos ter salvo sua vida.

O Toushirou daquela linha temporal suspirou enquanto dava mais um trago no cigarro:

― O Gorila tem seus motivos além da gratidão. Apesar de sua "aposentadoria", ele continua com um vínculo muito forte com a gente. E o Shimura-san é um comandante esforçado, tenta seguir à risca o Kyokuchuu Hatto. Eu poderia ter reivindicado para mim o cargo de Comandante? Poderia, era o meu direito. Mas tenho um grande respeito pelo Kondo-san, que confiou ao cunhado seu cargo... E me pediu para dar-lhe o suporte necessário.

― Um Gorila visionário ele, não é? E a gente ainda o segue...

― Com certeza. Kondo-san foi ousado ao mudar o comando do Shinsengumi, ao contrário do Mimawarigumi. Após a Batalha do Terminal, o Sasaki decidiu deixar o comando. Disse que era melhor deixar o Mimawarigumi nas mãos de alguém mais jovem, então a Vice-Comandante assumiu seu cargo.

― Imai Nobume, não é? – o Hijikata vindo do passado mais afirmou do que perguntou.

― É. Ela é a nova comandante e, por enquanto, o cargo de Vice-Comandante está vago. Parece que o Sasaki também estaria interessado em ser o superintendente da força policial.

― Se houver essa concorrência, será um duelo bem interessante.

Houve uma breve pausa na conversa. Os dois homens deram um último trago nos cigarros que acabavam e apagaram as bitucas em um cinzeiro. O mais velho tirou os óculos de grau, cuja armação era preta, e limpou as lentes para depois colocá-los de volta ao rosto. Comentou:

― Pode ser que em sua linha de tempo você fique míope quando ficar mais velho, então é bom fazer exame de vista de vez em quando. Enrolei pra fazer isso quando a miopia começou e só me importei quando já estava enxergando tão mal quanto aquela kunoichi que persegue o Yorozuya. Perdi as contas de quantas vezes eu confundi o Shimura-san com o Yamazaki até resolver usar óculos.

― Pensarei nisso. – o mais jovem disse enquanto se encostava na parede e cruzava os braços.

O mais velho ajeitou os óculos recém-colocados e indagou:

― Você me disse que tinha dois questionamentos. Qual o segundo?

Os olhos azuis do Vice-Comandante vindo do passado encararam os olhos azuis de sua contraparte:

― Você tem certeza de que Taichirou é seu filho com Mitsuba?

― Quase. Se ele tiver a idade que penso que tem, tenho quase certeza de que sim. Ele disse que nasceu em Bushuu e é filho adotivo de Miyojin Katsuji. Tem hábitos alimentares iguais ao meu e ao de Mitsuba e Sougo. Penso em pedir para investigar a respeito para ter 100% de certeza, porque não é apenas a postura de militar dele que me intriga. Além disso, dias antes de sair de Bushuu para vir a Edo, dormi com Mitsuba.

― Hã...?! – o Hijikata vindo do passado arregalou os olhos em legítima surpresa. – Você o quê?!

O mais velho tirou mais um cigarro do maço que trazia no bolso e o acendeu, para depois levá-lo aos lábios. Ficou intrigado com aquela expressão de sua contraparte mais jovem.

― Por que a surpresa?

― Porque lembro muito bem que nunca fiz isso antes de vir a Edo. Eu sei que não cheguei a esse ponto de... De estar com Mitsuba. Eu a dispensei...

― ... Pensando no bem dela, não foi? – o mais velho completou, para depois dar um trago no cigarro e liberar fumaça pela boca e encarar seu alter-ego. – Eu também fiz isso. E, a julgar pela sua surpresa, parece que temos diferenças entre nossas épocas, mesmo que em um ou outro detalhe. Provavelmente Taichirou não existe em sua linha de tempo, assim como o filho do Yorozuya também pode não vir a existir.

Mais um momento de silêncio se fez entre eles. Era estranho pensar nisso, mas por esse acontecimento era possível cogitar uma espécie de multiverso com todas as realidades possíveis a partir de sua linha de tempo. Era como as aleatoriedades que volta e meia o destrambelhado de cabelo prateado mencionava a respeito de Dragon Ball. Embora Tosshi – seu alter-ego otaku inútil – tivesse desaparecido, alguns resíduos da maldição da espada Muramasha ainda permaneciam nele, como o fato de ter lido volumes da Shounen Jump suficientes para entender o mínimo do que o Yorozuya mencionava.

Odiava admitir, mas aquele descabelado às vezes dizia coisas que faziam algum sentido, por menor que fosse.


Acordou pela primeira vez após em seu último pensamento antes de perder a consciência jurar que havia morrido naquele momento. A princípio, pensou que fora apenas um horrível pesadelo, mas após fazer um movimento involuntário sentiu que havia curativos em seu peito e um pouco de dor nos ferimentos por eles protegidos, além de alguns eletrodos grudados. Sentiu também a agulha de um acesso venoso em seu braço esquerdo, o que o fez concluir que realmente havia acontecido aquele ataque e ele quase morrera.

Passou a mão pelo rosto e sentiu que estava sem a sua bandana branca. Esperava não a ter perdido, pois considerava-a como uma espécie de talismã... E também gostava por deixá-lo com um ar mais marrento.

Entretanto, em sua mente havia várias perguntas a serem respondidas, como o que aconteceu após ele ter sido atingido e perder a consciência. A última imagem que se recordava, mesmo de forma borrada, era a de Kagura entrando na sua frente com o guarda-chuva aberto para protegê-lo do pior.

Será que conseguiram derrotar aquele Yato louco? Será que seu pai e os outros sobreviveram e protegeram o Distrito Kabuki?

Uma parte de seus questionamentos foi respondida ao chegar o visitante.

― Finalmente acordou, hein, "Belo Adormecido"!

O largo sorriso de seu pai logo também estampou seu rosto ao vê-lo. O alívio era igual, um estava aliviado ao ver o outro com vida.

― Bom te ver também, pai. E aí?

Gintoki tirou de sua cintura uma katana embainhada e a entregou a Ginmaru:

― Vê se toma cuidado com sua katana, moleque. Se você quebrar de novo, a Tetsuko vai cobrar mais caro pelo conserto e eu vou arrancar suas orelhas.

O jovem acabou rindo, pois sabia que a bronca não era tão séria assim, a julgar pela expressão no rosto de seu pai. Desembainhou a katana e viu que a lâmina fora reforjada. Bastou tocá-la com o dedo para perceber o impressionante fio de corte. Não era à toa que Murata Tetsuko era considerada a melhor ferreira de Edo.

Aquela katana fizera história nas mãos do lendário Shiroyasha.

― Claro que vou tomar cuidado. – Ginmaru sorriu.

― Espero que sim, porque o Distrito Kabuki vai receber um novo ataque.

― Um novo ataque?! – o jovem arregalou os olhos rubros. – Como assim, um novo ataque? Quem descobriu? Como você soube?

― Calma lá, pirralho, não seja tão impaciente... – o mais velho disse enquanto limpava o nariz com o dedo mindinho. – Não precisa se apavorar, eu te explico tudo.

― Como assim, pai? Kabuki vai ser atacado e você tá nessa calma toda?

Gintoki deu um sorriso confiante:

― Confia no pai aqui... Nós não estamos sozinhos. O "Rei de Kabuki" tem reforços!