N/I: Esse capítulo é todo inspirado na característica que a Giovana deu para a one/short, espero que goste da forma como eu abordei isso!


Capítulo 4

12 de fevereiro de 2018

Ainda em sua cama, Edward contemplava a mulher ao seu lado. Deitada de barriga na cama, as costas expostas, o lençol mal cobrindo sua bunda, os fios cor de platina desordenados no travesseiro. Controlou o impulso de deslizar sua mão pela curva em sua coluna e traçar todos os contornos que estavam gravados em sua memória. Era a segunda vez que dormiam juntos.

Na primeira, eles poderiam fingir que era um resultado de uma noite bêbada ou talvez da noite, da música, da alegria que tinham apenas em estar na companhia um do outro e sem nenhuma dose de bom senso. Essa segunda vez, no entanto, no meio de uma tarde de fevereiro, assistindo a um filme bobo, como faziam toda semana? Não era um erro, ou uma atitude impensada. Tão pouco foi a primeira vez que dormiram juntos, admitiu para si mesmo.

Ele a queria. Sempre quis, só era muito bom em esconder esse fato até de si mesmo. E agora que a tinha se encontrava em um dilema, pois não poderia tê-la. Ele era um vampiro e não podia se relacionar com uma garota humana. Como poderia ter um relacionamento com ela?

Mentir era uma opção, mas em alguns anos, ele continuaria o mesmo, enquanto ela envelhecia e então o que faria? Fugiria? Depois de anos de uma relação que ele não duvidava que seria feliz. Não podia fazer isso com ela. Deixar sua relação crescer e florescer para, de repente, arrancá-los desse mundo de fantasia, onde eles poderiam ser felizes independente de qualquer coisa.

Se dissesse a verdade, no entanto, ela fugiria ou o desprezaria, talvez o odiasse ou no mínimo se sentiria profundamente enganada por ele esconder algo tão grande dela. Não, ele definitivamente não poderia contar a verdade, não suportaria se ela o desprezasse, odiasse ou pior: tivesse medo dele.

Porque ele tinha que ter dado aquele passo? Porque ele tornou sua relação real? Ele realmente achou que poderia provar tudo o que eles poderiam ser e depois simplesmente voltar para como as coisas eram antes? Bom, a prova da ingenuidade desse pensamento era que eles só puderam resistir à tentação por pouco mais de quinze dias.

Ele não poderia lhe dar uma relação e também não poderia dar a ela menos que isso. Bella merecia muito mais dele ou de qualquer um.

— Você vai parar de ser um esquisito e ficar me encarando enquanto eu tô dormindo? — comentou ela a voz ainda cheia de sono, o rosto um pouco amassado virado para ele.

Deu um sorriso frágil, preso demais no limbo que sua relação se encontrava para ver graça em seu comentário. Ao seu silêncio, Bella se endireitou na cama, virando todo o corpo em sua direção. O lençol, que mal a cobria, caiu um pouco com o movimento lhe dando uma visão clara de um de seus seios, a maquiagem dos olhos um pouco borrada. Os lábios inchados com seus beijos, o olhar ainda sonolento; ela nunca esteve tão linda ou tão inatingível.

— Você às vezes pensa demais, Edward Cullen — disse passando os dedos em sua testa tentando alisar o cenho franzido que ele apresentava — Nada vai mudar, ainda somos amigos...

— Só amigos?

— Amigos que às vezes transam? — indagou com um pouco de dúvida como se ainda considerasse o conceito pela primeira vez em sua mente. — Eu gosto desse arranjo, eu gosto do que temos, não quero que nada mude e se você não quiser também nada tem que mudar.

— Só o fato de que fazemos amor.

— Sim, só o fato de que fazemos amor — disse as duas últimas palavras em um tom exagerado claramente debochando do termo. — Às vezes você é tão brega! — riu.

Ele queria dizer que não era brega, se fosse verdade. Queria dizer que nas últimas semanas ele pensou que poderiam... que poderiam tantas coisas. Mas agora ela dava uma saída fácil a qual ele poderia manter tudo o que tinham e ter uma prova daquilo que mais queria ter. O certo era recuar, manter sua relação estritamente platônica.

Ela parou de rir quando seu silêncio se estendeu e seu semblante continuou preocupado.

— Mas se você quiser que tudo volte a como era antes, sem sexo, sem atravessar qualquer limite que não se sinta confortável, é só dizer, nada precisa mudar — sua voz foi suave, seu tom mais gentil do que normalmente usava.

Ele sabia o que era certo, mas o cheiro dela, o cheiro deles estava por toda parte. Suas pernas ainda estavam enroscadas, o calor do corpo dela queimando sua pele. Eles dividiam o mesmo travesseiro. O gosto dos lábios dela sumia aos poucos da sua boca e ele queria mais. Muito mais que antes, muito mais que um acordo entre amigos.

Edward precisava se contentar com isso, se quisesse mantê-la em sua vida. Ele só não sabia por quanto tempo isso seria suficiente. Por enquanto, teria que ser. Para calar sua mente que não parava de questionar, de duvidar, de desejar, Edward a beijou.

Uma carícia doce de todas as coisas que poderiam ser e ao mesmo tempo amargo daquilo que nunca seria.

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27 de outubro de 2018

Como Bella tinha proposto, a amizade não mudou, pelo menos não no que realmente importava. Eles ainda riam juntos, liam e viam filmes. Bella ainda o arrastava para sair com seus amigos, mas principalmente Ben e Angela com quem Edward tinha até mesmo feito amizade. Chegou a sair com os dois sozinhos em ocasiões diferentes. Com Ben ele foi a exposições e museus, o tipo de programa que Bella não suportaria por muito tempo. E em outra ocasião ele e Angela apenas, tinham ido a um bar de poesia e os dois tinham se divertido vendo pessoas massacrarem a palavra escrita das formas mais inusitadas.

Houve ainda uma ocasião memorável em que todos foram a um evento geek fantasiados. Ele se sentiu ridículo vestido de Batman, uma sugestão de Bella, enquanto isso ela vestia uma roupa de Mulher Maravilha. Ben apareceu com uma fantasia de Flash e Angela se tornou a intrépida Lois Lane, motivo que a fez querer ser uma jornalista ainda criança, confessou envergonhada. Foi constrangedor de tantas formas diferentes! Se Emmett tivesse lhe visto, com certeza faria com que ele nunca fosse capaz de esquecer esse momento.

Apesar de tudo, todos se divertiram muito. Na verdade, foi um dos dias mais divertidos de sua existência, principalmente porque eles tinham planejado juntar o casal que claramente se amava, mas não tinha coragem de se declarar. O plano deu certo. Angela e Ben finalmente eram um casal agora. E Bella o fez manter a fantasia até o fim da noite enquanto se engajavam em uma diversão bem menos inocente.

Às vezes, ele esquecia que os dois eram apenas amigos, porém noutros momentos ele só fingia que eles eram mais.

Tudo mudou novamente depois de um trabalho da faculdade, de todas as coisas. Ele tentou sair da situação usando seu charme nem um pouco humano em sua professora. Não funcionou, para sua surpresa e consternação. Ele poderia desistir. Não concluir aquela matéria e reprovar. Poderia até abandonar a faculdade por completo, mas seu orgulho não permitiria. E agora com Bella em sua vida, a ideia de deixar Dartmouth antes do planejado era inconcebível. Só que não sabia o que fazer agora.

Esfregou os cabelos com uma das mãos enquanto entrava no seu apartamento. Podia ouvir Bella estudando na sala. Tinha dado-lhe a chave de seu apartamento pouco depois da viagem deles para New York. Sua colega de quarto sempre ouvia música alta ou era desagradável de alguma forma, Edward se encontrou com a garota em apenas duas ocasiões diferentes e já não podia suportá-la.

Ele não poderia convidá-la para morar em seu apartamento, como foi seu impulso inicial após ela reclamar da colega de dormitório. Então fez a segunda melhor coisa possível: dar acesso livre a seu apartamento sempre que ela quisesse, um lugar para estudar ou dormir um pouco. Sempre melhorava seu humor entrar no apartamento e já encontrar Bella lá. Mas hoje nem isso poderia afugentar sua ansiedade com o problema que agora tinha em mãos.

Se dirigiu para a sala, jogando-se no sofá de maneira nada elegante. Bella o encarou imediatamente com a sobrancelha levantada. Afinal, ela sempre reclamava que nunca conheceu ninguém tão elegante ou adequado quanto Edward, que tinha todos os bons modos que sua avó tentou e falhou e incutir nela.

— Qual o problema? Tá tão sério, quer dizer mais que normalmente. — Tentou brincar, mas estava claramente preocupada com sua atitude incomum, Edward se sentiu culpado por preocupa-la por uma coisa tão idiota.

— Nada.

— Sei... o "nada" está fazendo você despentear seus cabelos mais do que o normal ou fazendo você estalar seus dedos desse jeito irritante que você faz sempre que tá nervoso?

Ele parou de estalar os dedos no momento em que ela falou. Nem percebeu que estava fazendo isso. Bella já o conhecia tanto para saber quando estava mentindo de maneira insultante pelo semblante exasperado que agora ela exibia. Suspirou.

— Não é nada demais — cedeu.

— Hm...

Seus ombros caíram e suspirou mais uma vez.

— É só um trabalho...

O silêncio a sua declaração se estendeu.

— Qual o problema disso? Você é um dos melhores alunos da sua turma e acho que o cara mais inteligente da faculdade! — brincou, embora não estivesse muito longe da verdade, algo que ambos sabiam.

— Eu vou ter que apresentar esse trabalho... Eu tentei conversar com a professora, mas ela foi irredutível. — A frustração em seu tom era evidente.

— E isso é um problema porque…? — incentivou.

— Eu não sou muito bom em falar em público.

Isso era um eufemismo. Apesar de não elaborar mais, Bella percebeu isso também. Se ela soubesse que ele era um vampiro, provavelmente acharia ridículo seu problema com falar em público. Isso foi algo que ele trouxe de sua vida humana. Mesmo como um vampiro tinha as mesmas reações quando era fonte de toda a atenção em um grupo de pessoas.

Aliás, em alguns aspectos, ser um vampiro agravou a situação, já que com o vampirismo veio seu presente: ser um telepata agravou a situação de muitas maneiras, porque, além de ter que lidar com um grupo de pessoas focadas nele esperando que falasse, ele também passou a ouvir seus pensamentos e julgamentos, o que tornou tudo muito pior.

Apenas o tempo ajudou a atenuar o pior de suas reações, tornando seu problema mais administrável. Ele poderia falar em um grupo de pessoas pouco menor que quatro e conseguia interagir com as pessoas desde que não tivesse que falar para todo o grupo. Mas, quando tinha que fazer isso, suas mãos suavam e ficava enjoado, às vezes tinha certeza que poderia vomitar, embora isso nunca tivesse acontecido depois que virou um vampiro. A sensação desagradável permanecia e, quando conseguia abrir a boca, a gagueira logo se manifestava, deixando-o ainda mais nervoso.

Ele nunca se sentiu tão humano quanto nesses momentos. Era terrível, embora sempre houvesse uma parte de si mesmo, uma pequena parte, que gostava da vulnerabilidade abafando qualquer eco do monstro que vivia dentro dele. Com certeza era um pouco sádico pensar assim, mas não conseguia abalar essas emoções.

— Eu sabia que você se sentia um pouco desconfortável em grandes grupos ou com as pessoas prestando muita atenção em você, só não sabia que era um problema.

Ela sentou ao seu lado no sofá e segurou suas mãos nas dela. Edward apreciava a empatia, mesmo que se sentisse envergonhado com toda a situação.

— Não é nada realmente — disse sem qualquer convicção, os dois sabiam que não era verdade.

— Hm... tive uma ideia. — Se ajeitou no sofá com um grande sorriso satisfeito nos lábios.

— Que ideia? — indagou incerto.

— Vamos ensaiar. Você vai repassar a apresentação de todo seu trabalho comigo, vou ser sua audiência e no dia da sua apresentação eu vou estar lá.

— Você não precisa — disse franzindo o cenho, ela com certeza teria que faltar alguma aula para estar na sua apresentação e ele não queria atrapalhá-la.

— Não, você tem razão, eu não preciso, mas eu quero. É pra isso que servem os amigos, Edward. — A resolução em sua voz disse que ele não a convenceria do contrário e Edward aceitou graciosamente sua derrota, refletindo o sorriso leve com que ela o presenteava.


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