Eu sonhava sempre com a mesma coisa, escutava a mesma música e agia sempre igual.

Era como se eu fosse um robô, apenas sobrevivendo, nunca me permitindo viver de verdade.

As pessoas a minha volta sentiam pena, e eu odiava isso mais do que a dor que estava se formando no meu coração.

Quando a notícia de que o Doutor Cullen e sua família foram embora de Forks com pressa, todas as pessoas, isso inclui Forks high school inteira, e boa parte da cidade, voltaram suas atenções para a filha do chefe Swan.

Para ser sincera eu esperava por isso.

Nasci e cresci em Forks e já sabia muito bem como o povo daqui age, é repugnante mas incontrolável, eles gostam tanto de uma fofoca que um simples diálogo pode acabar em opiniões nada ofensivas sobre a vida de alguém.

Acontece que eu nunca fui grande coisa, sempre na média, e nunca tive as atenções do público em mim, exceto quando minha mãe partiu, e meu pai teve que lidar com os julgamentos e olhares sozinho.

Mas sinceramente, não a culpo, meu maior sonho é sair dessa cidade.

Ela é uma mãe amorosa e incrível, parece um furacão, sempre atrás de algo novo, ela sempre mandava cartões postais de onde estava, e presentes de alguma parte do país.

Já fui viajar com ela diversas vezes, muito divertida e atrapalhada, minha mãe é uma pessoa solar e alegre.

Diferente de mim, que sou pálida, meu cabelo que não sabe o que quer da vida e os malditos olhos castanhos, no segundo ano do fundamental me chamavam de Vandinha.

Enfim, não julgo a minha mãe por ter agarrado às coisas dela e fugido de Forks, todo esse lance de cidade pequena não é pra Renée, ela e meu pai nem chegaram a se casar.

Quando eu virei o assunto principal na escola, não me importei nem um pouco, afinal já esperava por isso, como eu disse só não queria que sentissem pena de mim, meus amigos sentiam, isso era explícito, agora o resto? o cadáver nem tinha esfriado e os abutres já caiam em cima.

Edward aparentava estar feliz do meu lado, e isso atraía olhares, acho que não fazia sentido na cabeça daquelas pessoas, isso me ofendia um pouco, não posso negar.

Até meu pai achou estranho quando eu contei pra ele, pobre Charlie e sua incapacidade de mentir. Mas uma coisa eu também concordava, era sempre Edward no alto e eu no fundo do poço, eu era o lado negativo daquela equação, nas primeiras semanas eu ouvia meninas falando coisas escabrosas no banheiro, até eu abrir a porta e sorrir, elas ficavam com tanta vergonha que saiam na hora.

Acho que as únicas pessoas que não estranharam nosso relacionamento foi a família Cullen, que foram as pessoas mais incríveis que já conheci, eram Esme e Carlisle o casal mais amoroso e simpático, junto com os filhos, Alice e Edward, ambos adotados, aparentemente Esme não podia ter filhos, e obvio que isso foi assunto pra cidade de Forks. Todos foram tão simpáticos quando Edward me apresentou, inclusive Alice, com seu jeito de fada, uma pessoa única, é, acho que é uma palavra adequada pra descrever ela.

Bom, de qualquer maneira estávamos felizes, pelo menos é o que eu achava, meu pensamento mais recorrente era: será que tudo não passou de uma mentira?

Uma comédia romântica que foi só Edward ter o que ele queria e acabou?

Bom, a parte de ele me abandonar logo depois de ter o que queria fazia muito sentido, mas a família toda não iria embora por causa disso, até porque hoje, o motivo da partida deles não me interessa mais.

Eu acreditei mesmo que foi culpa minha, até porque o jeito que ele disse que eu claramente não era parte do mundo dele, me fez refletir do quanto eu achava que era amada, pra depois uma verdade horrível me dar um tapa na cara.

Não me alimentei direito por semanas, sono? Nem pensar, eu acordava depois do mesmo sono por dias, levantava e ia andar pelo quarto, isso em cinco longos dias até eu ficar muito cansada e dormir uma noite inteira, minha vida se tornou um ciclo.

Acordar, tomar banho, escove o dente, xixi, vista roupa, penteie o cabelo, tente comer, vá pra escola, converse com Angela, de risada de algo que Mike disse, sorria para Jéssica, ande pelo corredor com o Eric depois vá pra aula, sente na cadeira, tente não dormir, anote no caderno, chegue em casa e tente estudar, falhe e durma, acorde pra fazer o jantar, depois tome banho e durma (ou não).

Essa era a minha vida, que era tão miserável que não posso chamar de vida.

Isso se seguiu ate Charlie ter a brilhante ideia de me mandar pra Phoenix, tomar um pouco de vitamina D.

Eu iria morar com a minha mãe, e tentar me ajustar na vida de novo, obviamente que eu fiquei brava, eu tinha virado uma pessoa molenga e sem futuro, mas não tinha sangue de barata, gritei com Charlie pelo simples fato de que não queria ir, não queria sair da minha zona de conforto, se é que eu podia chamar aquilo de conforto, ele só estava fazendo o que era melhor pra mim. Humilhada, eu fui.

Não foi de todo o mal, meu pai deve ter explicado pra ela que sua precisa filha estava caindo em depressão, e Renée como uma boa mãe, estendeu os braços pra me receber, me ajudando com minhas duas malinhas, sabiamente me levando pra tomar um sorvete e não perguntando o motivo de que me trouxe até ali, deixou que eu me acomodasse em paz, coisa que não era do feitio dela.

No dia seguinte me levou pra parques, boliche, lanchonete, shopping, livrarias, e pra um bar.

Pude entrar?

Óbvio que não, a política dos estados unidos funciona em alguns locais.

Mas essa foi a tentativa da minha mãe de me fazer ficar mais feliz, conversávamos muito, geralmente de madrugada, já que Renée tinha insônia e eu também, até que eu pegava no sono no colo dela, acho que esse contato íntimo me fez bem, e logo comecei em outra escola, não foi a experiência mais incrível da minha vida e não foi fácil, fiz faculdade e arranjei um bom emprego.

O que aconteceu comigo depois, bem eu sei.

Minha vida não tem mais um rumo certo, e todos os dias são diferentes uns dos outros.

Acho que agora eu tenho uma má fama, mas agora eu faço por merecer.