Eu não deveria ter saído de casa naquele dia, eu com certeza não deveria estar ali naquela hora e naquele lugar, mas não, eu tive que ser burra e fazer favores a quem nem merecia tanto assim.

Melhor, não deveria ter saído há duas semanas atrás, que foi quando essa confusão começou. Confesso que já estava tentada a me separar de Curd, lentamente percebendo que esse relacionamento estranho não me daria futuro nenhum.

No começo, eu o achava o melhor namorado do mundo, ele era atencioso, fazia minhas vontades, me dava presentes, quase não discutia comigo. Só que aí eu percebi porque ele agia assim comigo, eu era seu troféuzinho, uma garota bonita para ele exibir para os amigos e parecer bem na fita.

E quanto a mim, o que eu pensava disso? Um absurdo, uma ofensa total. Mas ainda assim, quando ele disse que precisava de ajuda numa recepção de uma festa, a tonta aqui foi correndo ajudar, não queria que ele passasse vergonha. Mas ainda com o coração mole, deixei claro que estava ali só para ajudar e era melhor ele começar a se convencer de que eu não era mais sua namorada, mas pra cada um que aparecia ali eu ainda era seu "docinho" e "meu bem", como ele fez questão de me chamar na frente de todos.

Cansada disso tudo, da dependência infantil de Curd, irritada, magoada, e me achando tão humilhada, eu decidi dar um basta.

-Não me procure mais, não lhe devo mais nada - foi a última coisa que disse a ele antes de pegar minhas coisas e sair da mansão.

-Pode ir, logo arrumo outra - ele nem se esforçou muito, sua resposta ultrajante só me deu mais certeza ainda de que estava fazendo a coisa certa.

Não olhei para trás, fiquei determinada a sair dali o mais rápido possível, e estava prestes a conseguir isso, quando notei alguém olhando para mim.

O lugar estava cheio de gente, poderia ser qualquer um, então não liguei muito, continuei focada na minha missão pessoal.

-Está indo embora? - o estranho se manifestou com a voz e fui obrigada a olhar de volta, apenas para respondê-lo.

-Estou - disse simplesmente, reparando um pouco no homem com quem falava.

-Pode me levar até a cidade mais próxima com estação de trem? - ele pediu, sendo direto, sem perder a educação.

-Claro - eu fiquei disposta a ajudar - tem uma estação em Trento, a meia hora daqui.

-Obrigado - ele agradeceu, assentindo, se aproximando para entrar no meu carro.

Era até meio precipitado da minha parte agir assim, dando carona para alguém que eu não conhecia, mas cá entre nós, sempre fui boa observadora, e esse caronista com certeza não era uma ameaça para mim. O que me motivou a ajudá-lo foi que claramente ele também não queria estar na mansão e já que os dois estavam com pressa de sair dali, não me custava nada levá-lo comigo. Eu sei, meu coração mole bateu mais forte de novo, às vezes não conseguia evitar, eu simplesmente era assim. Podia ser bom, podia ser ruim, tudo dependendo da situação.

Nesse caso, era uma coisa boa, o estranho homem ficou quieto nos dez primeiros minutos de viagem. Eu notei o quanto ele estava bem arrumado, engomadinho até, ele era um cara certinho, com certeza. Seu cabelo castanho meio ondulado bem penteado, seus dentes dianteiros eram um pouco mais para frente. Tinha os olhos de um observador, curioso, atento, prestando atenção em algo que eu não consegui captar o que era.

Eu deixei de prestar atenção nele e acabei me distraindo com o rádio, com a minha música preferida tocando, não hesitei em cantar junto, mesmo se meu companheiro de viagem achasse que eu tinha uma péssima voz. Talvez foi bem isso que passou na cabeça dele, quando ele desligou o rádio de uma vez, sem cerimônia. Eu estava prestes a brigar com ele por causa disso, mas ele logo puxou um assunto por cima, que justificava sua ação.

-Tá ouvindo esse barulho? - indicou ele.

-Que barulho? - eu não entendi nada.

-Quando você acelera, faz um barulho, quer dizer que a ventoinha tá solta - ele explicou mais um pouco.

Quando eu questionei como ele poderia saber disso, ele indicou mais um monte de problemas no carro, o que me deixou indignada. Aquele carro tinha acabado de passar por uma revisão cara e segundo o estranho, eu tinha sido enganada. Só pela insolência dele, quis torcer para que estivesse redondamente enganado, mas com um pouco mais de metros rodados, toda a suspeita dele se concretizou.

-Porcaria! - dei um tapa no painel com raiva, quando o carro não deu mais nenhuma resposta.

-Olha se você quiser, posso dar uma olhada no motor, pode ser que tenha solução - o moço tão observador se ofereceu pra ajudar, mas ele realmente foi sincero nisso.

-Bom, entre nós dois, você é o mecânico aqui - respondi tentando manter o bom humor - obrigada.

Ele assentiu, saiu do carro, e abriu o capô, olhando tudo daquele mesmo jeito observador que eu tinha reparado mais cedo. Ele levou uns sete minutos, tentando mexer aqui e ali, me mandando ligar a chave umas três vezes. Nosso único resultado foi mais fumaça saindo do motor.

-Deixa, é melhor tentarmos pedir carona e ligar pro reboque - fui até ele, sem raiva, estava mais agradecida por ele ter tentado ajudar.

Ele deu um sorriso tímido quando disse isso. Tenho certeza que ficaríamos num silêncio tremendo se eu não tentasse puxar uma conversa. Pelo pouco que ele falou, notei que deveria ser austríaco.

-Você é austríaco, de Viena? - perguntei.

-Sim, eu sou - ele confirmou.

-Eu também - respondi e só então notei que até agora não tínhamos nos apresentado, eu nem sabia o nome dele, então, de novo, tomei a iniciativa quanto a isso - Marlene.

-Niki - ele respondeu, apertando a mão que ofereci.

Por um momento, o estranho, ou melhor, Niki me olhou, observando novamente, talvez pensando em que confusão ele tinha se metido por ter pedido minha ajuda.

No entanto, ele deu uns passos para o lado, fazendo um joia, buscando pedir carona. Ao vê-lo fazer isso, suspirei por dentro, ficaríamos plantados ali por um tempão, mas depois de saber o nome do meu companheiro de viagem, fiquei mais à vontade para esperar por ajuda, com alguém que já não me parecia tão estranho assim.


A/N: Bom, essa história tem uma origem bem peculiar, tudo começou com meu pai assistindo Ford vs Ferrari. Depois de ver esse, ele me perguntou se eu conhecia outro filme sobre corridas. Rush me veio à mente, mesmo que eu nunca tendo assistido antes. Fui ver Rush com meu pai e aí... Cara, como eu amei o filme! Além da história ser incrível, Niki e Marlene conquistaram um lugar especial no meu coração. Aí não demorou muito pra eu querer fazer uma fic dos dois, aproveitando que as minhas outras histórias estão acabando. Vejo vocês no próximo capítulo, obrigada por lerem!

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