Eu dei a falta de Niki quando ele não retornou imediatamente aos boxes do circuito em Monza. Não era muito comum eu acompanhar os treinos, apenas a corrida em si, mas depois de tudo que tinha acontecido, achava melhor estar o mais presente possível. Foi então que vi meu marido abandonar o carro e nem sequer olhar para trás, saindo dali o mais rápido que pôde.

Eu fiquei preocupada, é claro, não havia dúvidas que algo tinha acontecido para ele reagir daquela forma e mesmo assim, por mais que quisesse ir atrás dele imediatamente, sabia que não era o momento mais propício para isso.

Os rapazes da equipe também quiseram fazer a mesma coisa, mas avisei que era melhor não. Enquanto isso, acabei sentindo a necessidade de também sair dali. Não saber exatamente o que estava acontecendo com Niki me deixou meio atordoada, precisando de ar e de espaço.

Dei uma volta no autódromo, apenas eu e meus pensamentos, julgando se tempo suficiente já tinha passado para eu procurar por Niki. Foi então que decidi que, não importava o que ele fizesse, falaria com ele de qualquer forma.

Voltei ao trailer que Niki usava, um lugar para descanso e alimentação enquanto estava no autódromo, e ali estava ele, num estado de choque e pavor. Seu olhar perdido encarava a parede à sua frente, era como se ele nem pudesse se mexer. Nesse momento, eu mesma temi assustá-lo mais se ele me notasse ali. Não precisei fazer nada, ele olhou para o lado e me viu. Me aproximei logo depois que nossos olhares se encontraram.

-O que aconteceu? - fiz a pergunta que tanto precisava fazer.

-Eu... Eu... - era como se o ar faltasse a Niki - eu não consigo... Não consigo...

-Não consegue... - repeti, sem questionar mais, compreendendo tudo - ah Niki, eu sinto muito...

Ele me abraçou sem aviso, e eu o ouvi chorar, enquanto afagava suas costas, era o único tipo de consolo que poderia oferecer. Compreendia que o medo o havia paralisado, que ele se sentia um covarde por não conseguir dirigir, por não ter superado o acidente tão bem quanto achava.

-Eu achei que ia acontecer de novo... - ele me confessou, num tom de voz baixo - eu achei que ia perder o controle, que eu...

-Eu sei - assenti, pensando no que dizer - você sabe que... Há certas coisas que são imprevisíveis, mas use a sua razão e a sua lógica, você tem controle do carro dessa vez, a pista está bem melhor, mesmo que você não ganhe, você pode correr.

-Nunca pensei que estaria me incentivando, ainda mais agora - ele confessou e eu tive que fazer uma careta.

-Eu sempre soube dos riscos, e melhor ainda, sei quem você é - segurei seu rosto e olhei em seus olhos - e sei o quanto você quer voltar, mas não vou estar menos preocupada por causa disso.

-Eu sei, mas mesmo assim, obrigado - Niki conseguiu esboçar um sorriso e beijar minha bochecha - eu te amo.

-Também te amo, Niki - sorri pra ele com muito orgulho.

Eu tinha toda razão em dizer que estaria preocupada, pois enquanto o público se agitava no circuito em Monza para ver a corrida, eu ficava imaginando como tudo seria, se realmente seria mais seguro como eu tinha afirmado, se Niki sairia dali intacto ou em uma maca... Eu tinha que ter fé, precisava ter esperança de que tudo daria certo.

Então ele se preparou e eu fiquei ali nos boxes, de mãos atadas e coração apertado, sem poder fazer muito além de assistir. A corrida se deu início então, dava pra ver o quanto as pessoas tinham se surpreendido ao ver Niki retornar depois de tudo.

Foi justamente as experiências recentes que atrapalharam sua performance inicial, mesmo só olhando, tinha certeza que os medos o assombravam de novo. Segundo os comentaristas, Niki estava tendo dificuldades de acelerar, perdendo sua colocação.

No entanto, as coisas mudaram, de repente, ele começou a reagir, recuperando o tempo perdido, voltando à sua antiga forma. Assim, enquanto a última volta acontecia, fiquei na expectativa para ver como tudo terminaria, torcendo para que tudo continuasse bem, como estava desde o começo.

A Ferrari de Niki passou pela bandeira quadriculada e meu coração se acelerou de alegria, não mais de angústia ou preocupação. Eu queria ir até ele, dizer que ele já tinha vencido, conquistado uma grande vitória pessoal, mesmo chegando em quarto lugar, mas fui impedida por uma boa causa.

Uma literal multidão de fãs rodeou Niki, o erguendo, o colocando em seus ombros, o tratando como um verdadeiro herói. Era exatamente isso que ele era, havia superação e alívio em seu olhar quando ele olhou para mim, mesmo à distância.

Enviei a ele um beijo, meu gesto de conforto, carinho, mostrando que também estava feliz pelo que ele tinha feito naquele dia.