Como era de costume, eu voltei meus olhos e atenção para a televisão dos boxes, olhando e observando com detalhes os pormenores da corrida. A chuva ainda caía ferozmente, não querendo parar tão cedo, por isso, todos os competidores tinham suas dificuldades para se aguentar firme no rumo da pista.
Foi então que algo surpreendente aconteceu, algo repentino que eu não esperava, que me tirou do meu estado de atenção e apreensão. Niki voltou aos boxes, na mesma hora olhei para frente, procurando por um motivo para que ele tivesse feito isso, que não tivesse sido por causa de um defeito no carro, ou de ele ter se machucado de alguma forma. Fiquei um tempo estática, olhando em sua direção, procurando uma resposta para minhas indagações.
Niki falou com a equipe, e então desceu do carro, sem mais explicações. Quando eu me aproximei, entendi o que ele tinha falado. Não havia nenhum problema, ele só havia decidido não se arriscar mais, a visibilidade estava horrível por causa da chuva e era praticamente impossível terminar a corrida, ultrapassando os limites do bom senso que o próprio Niki impunha a si.
Eu fiquei um pouco assustada com aquela escolha, era difícil de acreditar que ele tenha desistido da corrida, enquanto todos os seus outros companheiros ainda estavam na pista, insistindo por uma vitória. Mas eu me lembrei do quanto meu marido era diferente, ele não se colocaria em risco mais do que estava disposto. Quando olhei pra ele, Niki não parecia triste ou frustrado, ele estava bem em paz, como se estivesse completamente tranquilo de sua decisão. Foi só aí que compartilhei do mesmo sentimento, no meio daquela condição inóspita, agora ele estava são e salvo e eu não teria mais que me preocupar. Assenti com alívio para ele, sabendo que tanto ele como eu estávamos em paz com sua decisão.
Percebi que ele queria falar comigo a sós, talvez me dar explicações do que o tinha levado a desistir da corrida. Podia imaginar que fosse só sua típica cautela falando mais alto, mas quando olhei de novo para ele, quando já estávamos a sós no trailer, havia emoção e alegria contida em seu lar.
-Eu não poderia me arriscar, não hoje - Niki começou sua explicação, balançando a cabeça veementemente - talvez nunca mais eu me arrisque, não estou dizendo que eu vá parar de correr, só estou dizendo que...
Ele fez uma pausa, enquanto eu tentava compreender tudo aquilo, Niki parecia confuso e eufórico ao mesmo tempo, muito diferente de como ele sempre era.
-Eu sei, os riscos hoje ultrapassaram seus percentuais e você não colocaria sua vida em risco - falei o que achava ser o motivo da sua desistência.
-Tá bom, foi um pouco disso, mas o motivo principal - ele se aproximou de mim, pegando minha mão - foi você, eu só conseguia pensar em você, na preocupação, no medo, na dor que eu poderia te causar se algo pior acontecesse comigo, pior do que da última vez, foi então que eu vi que hoje, a troco do seu bem estar, da nossa vida juntos, não valia a pena tentar até o fim, se arriscar até o fim.
-Ah Niki... - eu comecei a chorar imediatamente, ele me abraçou, e naquele momento, era inevitável eu me conter, ele tinha abrido mão de uma das coisas mais importantes para ele, por mim, por nós - eu não sei nem o que dizer...
-Não precisa, estar aqui comigo já é o suficiente - ele respondeu de bom humor.
-Eu amo você - olhei pra ele, falando com toda sinceridade.
-Também te amo - Niki me respondeu, me beijando logo em seguida.
Continuamos a acompanhar a corrida. James, apesar das dificuldades e ter que visitar os boxes algumas vezes, continuava a correr, apostando tudo que tinha para conseguir o título, agora que Niki tinha desistido.
Eu e Niki tínhamos a plena convicção de que nada faria James desistir, nem mesmo o risco, ou a falta de visibilidade. Para ele, nada disso era obstáculo suficiente para impedí-lo de agarrar o grande prêmio que se colocava na sua frente.
Nós acompanhamos tudo e então, veio o resultado, James não tinha vencido a corrida, mas tinha vencido o campeonato mundial. De outras perspectivas, aquele prêmio seria de Niki, mas as escolhas do meu marido definiram tudo. Estávamos num estágio em que não adiantava se questionar sobre os "e ses", já era tarde demais para mudar qualquer coisa.
Conhecendo bem Niki, me perguntei se ele não estava pensando a mesma coisa, se ele não estava arrependido ou lamentando não ter ganhado. Nós ficamos mais um tempo no autódromo, como o protocolo mandava, então, com a vitória de James sendo celebrada tão perto de nós, decidimos que era hora de partir. Dentro do helicóptero que nos levaria para o hotel, meu marido estava quieto e introspectivo, mais reflexivo que do que o habitual.
-Você está bem? - tive que perguntar, estando preocupada e para ter certeza.
-Estou - ele me disse sem dúvidas, olhando de volta pra mim, capturando o que mais eu lhe questionava pelo meu olhar - não me arrependo, de nada.
Foi com essa resposta sincera que consegui me sentir melhor, Niki estava satisfeito com sua escolha e pra mim, era um alívio tê-lo ali comigo, são e salvo.
