As coisas pareciam estranhas e diferentes ao nosso redor depois daquela corrida no Japão. Por mais que tudo estivesse bem entre mim e Niki, havia uma óbvia tensão ao redor dele, principalmente por sua decisão tão inesperada.
Eu estava feliz pelo que ele tinha feito e ele também sabia exatamente o que estava fazendo, o que estava em jogo e, assim, ele estava satisfeito com sua própria decisão. Essa conclusão não se estendia às outras pessoas. Esperamos o ano passar e terminar, sem ouvir muito da Ferrari e sua diretoria de corrida. Acreditávamos que uma renovação de contrato viria muito facilmente, Niki era um campeão formidável, sua própria escuderia admitia isso, só que até aquele presente momento, continuamos a não ouvir nada da Ferrari.
Eu procurei relaxar enquanto esperava por notícias, confiava que tudo daria certo, mas Niki tinha suas dúvidas, e meu tempo de convivência com ele me dizia que, se ele tinha dúvidas, eu deveria ficar em alerta também. 1977 chegou então, e Niki foi até os escritórios da Ferrari, esperando para ver o que eles fariam. Era uma questão particular da qual eu não precisava participar, fiquei apenas esperando por notícias.
Quando meu marido retornou para casa, vi a preocupação estampada em seu rosto, mais precisamente, no seu olhar, estava uma certa raiva, uma determinação que nada poderia derrubar.
-Algo sério aconteceu, não foi? - eu logo deduzi - só se acalma, tá bom? Eu vou fazer um chá pra você...
Ele apenas assentiu, terminando de chegar em casa, se sentando, ficando pensativo por um longo tempo. O encontrei praticamente na mesma posição quando retornei com seu chá.
-Obrigado - Niki agradeceu, tomando a xícara das minhas mãos nas suas.
Eu esperei mais um pouco, ele não parecia muito bem, ele tomou um gole de chá, e mais outro, parou novamente, então tomou mais um pouco. Ele pôs a xícara meticulosamente sobre a mesa de centro.
-Nós tivemos um argumento bem... emotivo, Daniele e eu... - ele murmurou uma resposta que explicava parte do seu estado.
-Vocês se desentenderam? O que exatamente aconteceu? - eu queria e precisava entender melhor o que estava acontecendo.
-Bom, resumindo tudo, sim - Niki conseguiu dar um sorrisinho sarcástico - Daniele jura que os executivos da Ferrari não me querem de volta.
-Ah... - aquilo não me surpreendeu, mas eu não esperava ouvir essa resposta naquele momento - eu meio que esperava por algo assim...
-É mesmo? Eu acho que sei porque - meu marido replicou - mas eu devia esperar que essa consequência viria, pelo que eu fiz, no fim das contas as escuderias só querem mesmo fama, fortuna e glória...
-Eu entendo que pra eles, a imagem deles ficou um tanto manchada por você ter desistido da corrida - eu comentei - uma vez você mesmo explicou que os pilotos representam as escuderias, que tudo que eles fazem como pilotos representa por quem eles estão correndo.
-E por minha causa a Ferrari ficou com cara de desistente - NIki concluiu - quer saber? Eu não ligo, não ligo mesmo, eu deixei isso claro ao Daniele, se eles não me querem, então eu não vou voltar.
-Espera, seu contrato foi cancelado mesmo? - era isso que eu temia, e pelo jeito, era exatamente o que tinha acontecido.
-Foi, foi isso - Niki admitiu, meio pesaroso e dando de ombros - eu não queria te decepcionar, mas eu não consegui tomar outra decisão, eles já estavam querendo me mandar embora mesmo, então, eu apenas concordei.
-Ok... - eu não tinha resposta suficiente formulada tão rapidamente.
-Eu sei, você deve estar super preocupada e tudo mais, mas fique tranquila, eu vou dar um jeito em tudo - ele prometeu, um tanto desesperado.
-Eu sei que vai, Niki, eu sei, não é bem isso que me preocupa... - eu toquei seu rosto, mostrando que estava tudo bem - nós podemos nos virar bem com os fundos de garantia temporariamente, mas eu fico preocupada com você, o que é que você vai fazer daqui em diante, meu amor? Você ama correr, é parte essencial de quem você é.
-Pois é, correr nunca vai deixar de fazer parte de mim - ele concordou comigo - mas você sabe que eu também tenho outros interesses, talvez seja hora de dar um tempo das corridas, e voltar quando o tempo for mais favorável.
-Eu acho uma ótima ideia, de verdade - confessei, sentindo alívio de não ter que vê-lo se arriscar nas corridas por um longo tempo - mas o que é que você tem em mente, o que vai fazer nesse tempo livre, tirar umas férias?
-Eu tirar férias? Não, ainda não - ele conseguiu rir e me senti melhor por ver que ele estava se sentindo melhor - acho que seria o momento perfeito pra ter minha própria companhia aérea.
-Certo, você vai trocar o chão pelos ares, não sei o que é mais perigoso - tive que comentar.
-Você mesma disse que correr está na minha essência, acho que voar é quase a mesma coisa - ele alfinetou - e você também disse que seria uma boa ideia.
-Você vai mesmo esperar que eu concorde plenamente com você? - perguntei, brincando.
-Como minha esposa, você me prometeu apoio incondicional - ele argumentou.
-Ah isso não é justo - eu ri - está bem, eu concordo sim, as estatísticas dizem que voar é mais seguro.
-Pois é, eu sei que está brincando, mas você gostou da ideia - ele constatou.
-Sim, claro que gostei - admiti, sem brincadeiras e com sinceridade.
-Obrigado, meu amor - Niki me agradeceu mais uma vez e me abraçou.
-De nada - respondi.
Eu estava feliz por vê-lo melhor, era uma situação complicada como ele tinha se separado da Ferrari, mas fiquei contente por sua mente brilhante ter pensado em algo para compensar tudo.
