Muitas coisas tinham mudado para nós nos últimos meses, e conforme mais eu pensava, mais eu percebia que nem todas as coisas da minha vida estavam sob meu controle. Primeiro, tinha acontecido o acidente, que a essa altura, eu já considerava ter superado. As marcas desse fato ficariam para sempre no meu rosto, mas o pior relacionado a tudo isso tinha passado, eu tinha me acostumado a essas condições. E depois, bem, não tive muita escolha quanto às decisões da Ferrari. É claro que fiquei chateado, tentei discutir e argumentar que eu não queria sair simplesmente porque eles queriam, porque eu tinha desistido da última corrida, mas para não causar tantos problemas, eu simplesmente saí, o que pareceu péssimo a princípio.
Com um pouco mais de tempo, percebi a oportunidade que tinha criado para mim, eu teria um pouco mais de tempo, poderia pensar no que faria daqui em diante. Foi por isso que decidi investir nos aviões. Eu sempre amei mecânica e tudo que envolvia os motores e o que eles colocavam em movimento, por isso, agora seria o tempo ideal para explorar minhas habilidades aéreas.
As aulas de voo não pareceram tão difíceis pra mim, uma vez que se soubesse dirigir, de modo geral, eu compreendia como colocar qualquer outro veículo em movimento e controlá-lo, assim como fazia com o avião. Quando me tornei um especialista no assunto, resolvi que poderia investir de verdade nesse tipo de negócio.
Marlene gostou da ideia, termos nossa própria empresa e negócio era outra fonte de estabilidade enquanto eu não voltava a correr, se eu voltasse a correr. Por enquanto, sendo sincero comigo mesmo, não queria pensar nessa questão agora. Como minha própria esposa sempre dizia, uma das minhas maiores qualidades era me manter focado e agora, meu objetivo era comandar a companhia aérea, enquanto aproveitava o prazer de pilotar um avião.
Marlene geralmente não era medrosa, ela confiava bastante em mim, completamente, se posso ousar dizer, mas quando sugeri darmos um passeio aéreo juntos, vi as convicções da minha esposa vacilarem diante de mim.
-Você não quer ir, ou... tem alguma outra coisa te incomodando? - eu tentei achar a razão para sua reação nada confiante.
-Não, não é bem isso, eu... não sei como te dizer - ela desviou o olhar de mim, tendo dificuldades nas suas próximas palavras.
-Apenas diga, meu amor, eu aguento sua honestidade e franqueza, prometo - falei com sinceridade, chegando a relaxar um pouco, já que até minha postura de braços cruzados a tinha deixado aparentemente intimidada.
-É que você acabou de aprender a pilotar, eu não sei se você está realmente sabendo fazer isso direitinho, não que você não sabe pilotar, você é brilhante e aprende coisas novas depressa, tá bom, estou me enrolando aqui - ela parou de falar sem parar e respirou profundamente - o que quero dizer é que eu estou com medo, estou com medo sim, mesmo sem ter uma razão concreta pra isso, mas afinal, é isso que o medo é, não é? Ele não tem muito sentido...
-Sabe que uma maneira de lidar com o medo é enfrentá-lo, não que eu queira te colocar numa situação desconfortável - deixei bem claro.
-Não, eu sei, eu sei - ela assentiu, voltando a olhar para mim.
-E se algo grave chegasse a acontecer, eu saberia como agir, como evitar uma situação inesperada lá em cima, confie em mim - eu insisti, mas de forma delicada - tudo que eu queria era compartilhar esse momento com você.
-E depois você diz que não é romântico... - ela revirou os olhos - tá bem, sr. Lauda, me convenceu.
-Eu sabia que uma hora ou outra, eu ia conseguir - eu beijei a bochecha dela, animado, minha esposa apenas riu em resposta.
Deixei ela dirigir até a aérea de pouso, numa viagem até Bolonha, e então, ali eu vi Marlene maravilhada com o avião particular.
-Eu achei que se tratava de algo mais... não sei, espaçoso e grande - ela comentou.
-Não, nada disso, não por enquanto, esse é suficiente pra nós dois, garanto - disse a ela, a convidando a entrar com uma mão estendida.
Quando minha esposa segurou minha mão, a senti trêmula, ainda estava com medo, mas ainda assim, Marlene era muito corajosa. Estava ali apesar dos seus medos, disposta a confiar em mim mais uma vez, o que me deixou muito grato e comovido.
-Eu amo você, obrigado por vir - disse, para que ela soubesse o que estava sentindo no momento.
-Eu também te amo, e vou amar ainda mais quando nos trazer de volta em segurança ao chão - ela aproveitou para brincar.
-Seu desejo é uma ordem - garanti que obedeceria seu pedido.
Marlene sentou-se ao meu lado nas cadeiras da frente, expliquei pra ela sobre os controles e o que eu deveria fazer e como o avião deveria reagir aos meus comandos.
-Tá bem, vamos lá, acho que estou pronta - ela respirou fundo, era o sinal que eu precisava para finalmente decolar.
Tudo foi tranquilo da minha parte, mas vi Marlene se agarrando à cadeira discretamente, eu não me irritei com isso, mas sua reação começou a mudar quando finalmente alcançamos as nuvens. Ouvi minha esposa suspirar mais uma vez, mas dessa vez, ela estava mais calma e tranquila, a vi admirando a linda vista pela janela.
-Tá legal, admito que está valendo a pena - ela olhou pra mim por um breve momento, sorrindo - você é um excelente piloto, tanto de carros como de aviões.
-Muito obrigado, meu amor - respondi, satisfeito.
Era maravilhoso estar ali com o que eu mais amava, era um breve momento de felicidade, que dava todo sentido à minha vida.
