Eu me esforçava para manter o equilíbrio enquanto Lukas me puxava pela mão. Mesmo um pouco mais crescido, ele continuava entusiasmado sobre tudo que o animava ao seu redor, chegando até a esquecer um pouco das minhas presentes condições.

1 ano atrás eu e Niki discutimos um assunto que tinha surgido meio que de forma natural e misteriosa, se seria prudente ou viável nós termos outro bebê. Refletimos sobre Lukas se sentir meio solitário numa casa só com adultos onde ele não tinha muitos amiguinhos, mas pensamos também em toda logística e preparo psicológico para ter outro bebê. Como pais, acreditávamos que já estávamos maduros o suficiente, financeiramente estávamos muito bem, então o que nos restava era a preocupação em como Lukas lidaria com as notícias. Para o nosso alívio, quando contamos a ele sobre nossos planos, nosso filho ficou contente com a possibilidade de ter um irmãozinho.

Assim, quando engravidei outra vez, nós três estávamos felizes com a notícia. E agora que estava com 6 meses, requeria mais cuidados, mesmo com a empolgação do meu filho mais velho, que queria muito me mostrar uma coisa.

-Tá bem, Lukas, só vai um pouquinho mais devagar, tá bem? Lembra que a mamãe não pode ficar correndo desse jeito - eu o relembrei enquanto ele me conduzia.

-Ah claro, por causa do meu irmãozinho, me desculpa, mas eu quero muito te mostrar isso - ele se explicou.

Então, depois daquela pequena corrida, finalmente chegamos ao local que ele queria tanto me mostrar. Pelo jeito, ele tinha trabalhado a tarde toda em construir uma pequena pista de corrida para os seus carrinhos, o que me deixou muito comovida.

-Você tem um autorama, por que quis vir brincar aqui fora? - perguntei, curiosa.

-Ah não tem muita graça quando os carrinhos se movimentam sozinhos, só porque você aperta uns botões - Lukas me disse - aqui eu acho que é mais legal e emocionante porque sou eu empurrando os carrinhos.

-É sério que você acha isso? - sorri ao descobrir seus pensamentos - isso é muito interessante.

-Interessante por que, mamãe? - ele ficou intrigado.

-Porque a maioria dos meninos prefere o autorama a brincar fora de casa, como você - expliquei.

-Ah eu acho melhor assim, mas nem todo mundo pensa que nem eu - ele me respondeu.

Observei Lukas brincando com seus carrinhos e suas corridas, imaginando como ele se sentiria ao saber que seu pai era um piloto de Fórmula 1. Nós ainda não tínhamos conversado sobre isso, ele era muito pequeno para entender, ainda mais por causa das cicatrizes de Niki, diretamente relacionadas às corridas.

O tempo foi passando gradualmente para Marlene e eu, enquanto esperávamos nosso segundo bebê. Ter Lukas conosco já era maravilhoso, mas ter mais um filho, me dava uma sensação incrível, que não sabia explicar. Eu havia encontrado paz, tranquilidade e harmonia na vida que vivia com a minha família. No entanto, enquanto minha esposa estava em trabalho de parto, esperávamos por mais notícias, eu e Lukas, já que meu filho mais velho me acompanhava na nossa longa espera, não poderia deixá-lo sozinho.

Sentados na sala de espera, tentei distrair Lukas ao máximo, de modo que ele não ficasse ansioso e apreensivo, como eu claramente estava. Mesmo sem eu dizer nada a princípio, eu o notei observador, olhando as pessoas que estavam junto conosco naquele mesmo ambiente. Eu sentia os seus olhares curiosos para mim, e com certeza, não era porque eu era um piloto de corrida famoso, era com certeza por causa das cicatrizes do meu rosto.

-Pai, será que posso te falar uma coisa? - Lukas perguntou, bem baixo e discreto.

-Claro que sim, o que foi? - tive uma ideia do que se tratava aquilo.

-As pessoas ficam te olhando o tempo todo, eu não entendo porque - confessou o menino.

-Bom, você sabe que eu tenho... meu rosto é diferente, isso chama a atenção das pessoas - tentei explicar.

-Mas você sempre teve o rosto assim, eu sei pai, lembro de quando eu era menor, seu rosto sempre foi assim - insistiu Lukas.

-Bom, eu não esperava ter que te contar isso justo agora, mas acho que é melhor dizer a verdade - fui sincero, o que intrigou meu filho - eu nem sempre tive o rosto assim.

-Sério? - parecia uma ideia inconcebível para Lukas.

-Sim, você já viu as fotos de quando eu conheci sua mãe? Meu rosto não tinha essa aparência - lembrei ele.

-Então, o que aconteceu? - vi a preocupação de Lukas.

-Eu costumava ser piloto de Fórmula 1 há um tempo atrás, e uma vez, em uma corrida, eu sofri um acidente - ao mencionar a última palavra da minha frase, vi o pavor nos olhos de meu filho.

-Você se machucou bastante? - Lukas conseguiu perguntar.

-Foi, o meu rosto foi queimado, e eu tive que fazer uma cirurgia - continuei a história.

-E foi por isso que seu rosto ficou assim - entendeu meu filho - isso deve ter sido tão horrível...

-Foi sim, mas estou muito bem agora, graças a você e à sua mãe, e ao seu irmãozinho que está prestes a nascer - disse com toda certeza.

-Bom, sabe, papai? Eu nunca achei seu rosto estranho - disse Lukas, de coração.

-Eu sei e te agradeço muito por isso - sorri para ele.

Ele acabou me dando um abraço, o que acabou sendo o conforto perfeito do momento. Não achei que teria aquela conversa tão cedo e ainda mais no lugar onde estávamos, mas mesmo assim, a sensibilidade de Lukas me deixou surpreso e grato.